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2025

você se explica?

sabe, eu sempre desconfiei de quem fala demais depois de decidir alguma coisa. não é eloquência. é pânico com frases bem alinhadas. é medo embrulhado em vocabulário bonito. e se existe um livro que olha pra isso tudo e ri com desprezo, esse livro é o príncipe.

nicolau maquiavel, meu querido maqui… sim já sou íntimo de tanto que li, sabe ele não escreveu um manual. escreveu um aviso. um daqueles avisos que ninguém quer ler porque estragam a fantasia. a fantasia de que, se você explicar direitinho, o mundo vai entender. a fantasia de que intenção importa. a fantasia de que existe justiça no julgamento público. de boa você e eu sabemos que não existe. nunca existiu na verdade. maquiavel só teve a falta de educação de dizer isso em voz alta.

eu olho para o príncipe como quem olha para alguém que já viu o fim do filme e não tem mais paciência para o suspense. maquiavel não tem tempo para suas razões, seus dilemas morais ou sua necessidade desesperada de ser visto como alguém decente. ele quer saber uma coisa só… só uma… você manteve o controle ou virou refém da própria consciência?

explicar demais é a coreografia do derrotado elegante. é o momento em que a autoridade evapora e sobra apenas a narrativa tentando tapar o buraco. eu vejo isso o tempo todo… mesmo! gente poderosa em tese, frágil na prática, implorando compreensão como se compreensão fosse moeda forte. não é. nunca foi. poder respeita silêncio. respeita decisão que não pede aplauso.

maquiavel entendeu algo que ainda escandaliza gente bem-intencionada, o mundo não funciona como deveria. funciona como funciona. e quem tenta governar como se estivesse num romance moral acaba como nota de rodapé histórica… aquele sujeito interessante que “tinha boas ideias”, mas ninguém lembra o nome.

eu adoro como o príncipe trata a virtude como um acessório opcional. não porque ela seja inútil, mas porque ela não aguenta pancada sozinha. virtude exposta demais vira alvo. virtude explicada vira piada.

explicar é se colocar na defensiva. é aceitar que o outro tem o direito de te interrogar. é trocar comando por audiência. e a partir daí, acabou. maquiavel não chama isso de erro ético. chama de erro estratégico. simples. clínico. quase cruel… e por isso mesmo honesto.

há algo profundamente vaidoso em explicar. é o desejo de ser absolvido enquanto se exerce poder. é querer sujar as mãos e manter a consciência limpa ao mesmo tempo. maquiavel olha para isso como quem olha para um adulto acreditando em conto de fadas. não funciona. nunca funcionou. o mundo não recompensa coerência interna. recompensa estabilidade externa.

o príncipe que fala demais vira refém do próprio discurso. precisa sustentá-lo, defendê-lo, atualizá-lo. vira funcionário da própria explicação. o príncipe que age e cala cria fatos. fatos são brutais. fatos não pedem concordância. fatos obrigam adaptação. e adaptação é onde o poder realmente vive.

semore senti que maquiavel não está dizendo “seja um monstro”. está dizendo “pare de fingir que o mundo não morde”. pare de achar que transparência é força. pare de confundir fala com controle.

no fundo, a lição é simples e indigesta, quem se explica demais está tentando salvar a própria imagem. e toda vez que alguém começa a frase com “deixa eu explicar”, eu já sei o que está por vir…

maquiavel também sabia.
e quem ainda não sabe continua falando.

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2025

eu assisti para você não ter que assistir

dessa vez não é só sobre um filme ruim. é sobre o momento exato em que o vazio deixa de ser acidente e vira consenso.

melania não é um documentário. documentários pressupõem curiosidade. isso aqui pressupõe obediência. é um produto audiovisual treinado, domesticado, castrado emocionalmente para não fazer perguntas que não tenham resposta pré-aprovada. cada frame parece pedir desculpa por existir ao mesmo tempo em que exige respeito automático.

o filme não começa contando algo. começa estabelecendo regras. regra número um… nada de conflito. regra número dois… nada de contexto que complique. regra número três… nunca, jamais, permitir que algo pareça humano demais. porque humano falha. humano escorrega. humano lembra o espectador que existe mundo fora da bolha.

melania não é filmada como pessoa. isso seria perigoso. ela é filmada como entidade neutra. uma presença cuidadosamente mantida fora do alcance de qualquer interpretação concreta. ela fala em frases que não pertencem a ninguém. ideias genéricas, universais, esterilizadas. o tipo de linguagem que soa profunda apenas porque não diz nada específico.

não há contradição porque contradição gera narrativa. não há hesitação porque hesitação revela pensamento. aqui não há pensamento, há protocolo. tudo funciona como um manual de sobrevivência de imagem em tempos de caos… não se comprometa, não se aproxime, não se responsabilize.

o mundo real aparece como concessão mínima. sofrimento entra em cena como quem entra num elevador errado e percebe rápido demais que não deveria estar ali. o filme reconhece a existência da realidade apenas para poder fingir consciência social antes de voltar correndo para sua zona segura, a ausência total de consequências.

o casamento segue a mesma cartilha. não há tensão porque tensão exige atrito. não há frieza porque frieza ainda pressupõe emoção. o que existe é neutralidade administrativa. duas figuras coexistindo sem curiosidade, sem expectativa, sem risco. o filme registra isso como se fosse normal, porque, dentro dessa lógica, é.

e até aqui, tudo poderia ser apenas mais um produto vazio circulando no ecossistema habitual do nada caro. mas então entra o detalhe que não salva o filme, condena o resto.

saber que tim cook assistiu a isso e validou não é uma curiosidade lateral. é o momento simbólico em que o último fiapo de autoridade moral que ainda se atribuía a ele evapora em silêncio. não com escândalo, não com tweet vergonhoso, mas com algo muito mais definitivo, o aceno educado diante do nada.

não foi erro de julgamento. foi escolha.

ali, naquele gesto manso, ele não endossou um filme, selou o próprio epitáfio ético. confirmou que a linha entre “liderança consciente” e “acomodação elegante” já não existe. que, no fim, tudo pode ser tolerado desde que venha bem embalado, bem financiado e sem risco de atrito social.

foi o fim simbólico da farsa de que ainda havia princípios ali. não caiu com barulho. não caiu com vergonha pública. caiu do jeito mais moderno possível, com um sorriso discreto e aprovação silenciosa.

e claro, nada disso funcionaria sem a engrenagem principal girando suave por trás. a amazon não apenas comprou o filme, despejou valores obscenos em publicidade para garantir que ele ocupasse espaço suficiente para parecer inevitável. não relevante. inevitável. como se saturação pudesse substituir significado. como se repetir o nada vezes suficientes o transformasse em algo.

é assim que o sistema fecha o circuito… dinheiro compra visibilidade, visibilidade simula importância, importância dispensa conteúdo. e no centro disso tudo, um filme que não quer provocar, não quer explicar, não quer existir de verdade, quer apenas passar.

melania não é fracasso criativo. é sucesso estrutural. prova viva de que hoje é possível ocupar quase duas horas de tela sem dizer absolutamente nada, desde que as pessoas certas validem, financiem e silenciem qualquer pergunta inconveniente.

eu assisti pra você não assistir porque isso não é cinema em decadência. é algo mais grave.

é o momento em que o vazio é oficialmente aceito como linguagem,
a apatia como estilo,
e a ausência de ideias como sinal de maturidade.

e quando até os últimos guardiões da “boa consciência corporativa” batem palma para isso, não resta muito a ser analisado.

resta apenas reconhecer…
não foi o filme que falhou.
foi todo o resto que concordou.

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2025

cão orelha

vamos parar de fingir que o caso do cão orelha é um “desvio”, um “episódio triste”, uma “fatalidade”. não é. é um manual não escrito de como o brasil realmente funciona quando crueldade, dinheiro e privilégio se sentam à mesma mesa.

um cachorro comunitário é espancado até não sobrar escolha além da eutanásia. e enquanto a vida dele escorre pela areia, quem fez aquilo segue a vida normalmente. alguns dias depois, passaporte carimbado, sorriso em frente ao castelo da disney, como se o mundo real fosse só um inconveniente mal programado. isso não é detalhe grotesco, é a metáfora perfeita. o recado é claro… existem pessoas para quem consequência é opcional.

aí começam as manobras adultas. ameaça, coação, tentativa de comprar silêncio, empurrar medo pra quem viu demais. porque no brasil, a violência raramente vem sozinha, ela vem escoltada por telefone tocando tarde da noite e alguém dizendo “é melhor você ficar quieto”. isso não é teoria. isso é prática antiga. é a herança que passa de geração em geração junto com o sobrenome.

e quando a população percebe isso, o que acontece? explode. nomes vazam. dados circulam. o linchamento digital começa. e aí surgem os moralistas de última hora perguntando se “isso é certo”. claro que não é bonito. claro que é perigoso. mas vamos parar de fingir surpresa, o vazamento nasce quando a confiança morre. ninguém pede justiça com as próprias mãos quando acredita que a justiça institucional vai chegar primeiro.

o desejo de vingança não surge porque as pessoas são más. surge porque elas estão cansadas de assistir ao mesmo filme… crime, dinheiro, advogado, silêncio, esquecimento. o povo não quer sangue, quer prova de que o jogo não está roubado. quando essa prova não vem, o instinto fala mais alto que o código penal.

e a parte que ninguém quer encarar,
defender cegamente o anonimato, o “devido processo” e o silêncio absoluto sem reconhecer o contexto de privilégio e impunidade não é neutralidade, é tomar partido do sistema que falhou. a lei existe pra proteger direitos, não pra virar biombo moral atrás do qual tudo se resolve com tempo e influência.

isso não significa que linchamento seja justiça. não é. linchamento é a falência final. mas ele só acontece quando todas as outras instâncias já fracassaram aos olhos da sociedade. é sintoma, não causa.

o cão orelha morreu duas vezes. a primeira na areia, pelas mãos de quem achou que torturar era entretenimento. a segunda quando ficou claro que, se não fosse o barulho absurdo da internet, isso viraria mais um boletim enterrado em gaveta. o que revolta não é só a violência, é a sensação de que, sem pressão pública, nada teria acontecido.

esse caso não é sobre um cachorro. é sobre quem pode errar sem pagar, quem aprende desde cedo que o mundo tem colchão pra quedas morais, e quem cresce sabendo que a lei pesa diferente dependendo do cep. é sobre um país que se choca com a barbárie, mas ainda protege o terreno onde ela floresce.

no fim, todo mundo pergunta o que fazer agora. a resposta é simples e insuportável…
ou o sistema prova que consegue punir, responsabilizar e expor a verdade mesmo quando há dinheiro e influência envolvidos, ou a sociedade vai continuar tentando fazer isso sozinha, do pior jeito possível.

não foi a internet que criou o caos.
o caos já estava lá.
o caso do orelha só arrancou o pano.

e se isso incomoda, ótimo.
era exatamente esse o ponto.

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2025

não atendo mais…

tem dia que eu acordo com o espírito tomado por uma lucidez brutal… eu preciso enterrar esse maldito telefone. não apagar, não desligar. enterrar. enterrar como quem exorciza. como quem se livra de um corpo contaminado. cavar com a mão, sujar as unhas, cuspir em cima e cobrir de terra como quem encerra um ciclo. fim de uma era. adeus à ilusão de que isso aqui ainda serve pra algo além de roubar pedaços da minha alma em prestações.

porque hoje em dia, atender o celular é um ato de autossabotagem. é abrir a porta da sua casa no meio da noite pra um estranho molhado dizendo que “é só um minutinho”. ninguém com um pingo de amor próprio deveria estar atendendo ligações em 2026. não depois do que a gente passou. não depois dessa praga moderna que são as ligações fantasmas, esses suspiros do além corporativo que chegam até você com promessas absurdas e ameaças genéricas, vindas de números aleatórios gerados por uma IA que provavelmente nem sabe que você é real.

e começa sempre igual, o telefone vibra, você hesita. pensa… e se for importante? olha o drama. ainda existe uma pontinha de esperança, essa voz idiota dentro de você que acha que alguém pode realmente estar tentando te dizer algo que vale a pena ouvir. aí você atende. e do outro lado… o vazio. um silêncio que te examina. um nada que te testa. é o silêncio de uma armadilha armada por um sistema que descobriu que a melhor maneira de destruir um ser humano é deixar ele esperando uma voz que nunca vem.

e esse é só o primeiro ato. logo depois, começa a romaria. você vira alvo oficial do algoritmo. entra pra lista negra… ou melhor, lista ouro. o tolinho que ainda atende. e aí, meu amigo, é como abrir as portas do inferno. ligações em sequência. de números que não fazem sentido nem no papel. cada um com uma abordagem diferente… “você ganhou”, “você perdeu”, “detectamos uma atividade suspeita”, “última chance”, “último aviso” o último aviso que nunca termina.

eu já tentei bloquear. tentei denunciar. tentei conversar com operadora. tentei app. tentei ritual. tentei raiva. nada funciona. porque eles têm mais números do que eu tenho paciência. bloquear uma ligação hoje é como tentar esvaziar o oceano com um balde furado. é guerra perdida antes do primeiro tiro.

e o pior é que a gente finge que isso é normal. que isso faz parte da vida adulta moderna. mas não, porra. isso aqui é distopia. isso aqui é a falência completa da comunicação humana. o telefone, essa coisa que um dia serviu pra conectar, virou uma arma. uma ameaça disfarçada de rotina. a gente vive sob cerco. ninguém fala mais por vontade, só por interesse, por truque, por fraude. o telefone toca, e o instinto não é atender. é fugir.

e não, eu não sou exceção. eu sou só mais um. mais um idiota cansado que não atende mais nem a própria sombra. que olha o número piscando e sente o fígado fechar. que vive no modo “não perturbe” como filosofia de vida. porque eu prefiro perder uma ligação real do que abrir a porta pra mais uma dessas entidades sem rosto tentando me convencer de que eu devo algo que não comprei, que ganhei algo que não quero ou que alguém está “tentando me proteger”.

pode rir, mas quando eu cavar o buraco no quintal, quando eu empurrar o telefone lá dentro com as duas mãos e enterrar esse bastardo eletrônico pra sempre, não vai ser desespero. vai ser libertação. vai ser meu pequeno gesto de resistência contra esse mundo que insiste em transformar cada chamada em ameaça.

e se um dia você me ligar e eu não atender… saiba… eu não tô ocupado. tô em paz.

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2025

algumas coisas eu preciso falar mais uma vez…

tem um erro confortável que as pessoas cometem quando pensam em terror de estado, imaginar que ele começa com tanques, discursos histéricos e uma mudança brusca no clima moral. não começa. ele começa educado. começa administrativo. começa com formulários, exceções, “casos específicos”. começa dizendo isso não é sobre você.

anne frank não se escondeu porque “o mal venceu”. ela se escondeu porque o mal ainda estava se organizando. porque, naquele momento intermediário, o mais perigoso de todos, ainda havia quem dissesse que aquilo tudo era exagero. que era temporário. que era só pra alguns. que era só enquanto a situação não se normalizava.

o terror adora esse intervalo. vive dele. esse espaço entre o “ainda dá pra contornar” e o “agora é tarde”. é aí que ele cresce, engorda, se profissionaliza.

e não, ninguém acorda achando que vai participar de um regime de terror. as pessoas acordam achando que vão trabalhar, pagar contas, proteger a família e evitar problemas. o terror não exige monstros. exige gente cansada.

a grande mentira é achar que ele precisa de ódio explícito. não precisa. precisa de indiferença organizada. precisa de cidadãos que não concordam com nada, mas também não querem confusão. precisa de gente que troca princípios por previsibilidade, mesmo que essa previsibilidade seja falsa.

anne frank não foi caçada porque escreveu. ela escreveu porque já estava sendo caçada. essa inversão importa. primeiro vem o sistema que decide quem pode existir sem explicação. depois vem o diário. depois vem o silêncio forçado. depois vem o mito, o memorial, o “nunca mais” tardio e inofensivo.

o terror de estado não se alimenta apenas da violência física. ele se alimenta da reinterpretação constante da realidade. cada morte precisa virar debate. cada abuso precisa virar nuance. cada vítima precisa carregar uma nota de rodapé explicando por que talvez não fosse tão vítima assim.

é assim que se mata duas vezes.

e o terror moderno não quer que você acredite nele. quer que você duvide de tudo. quer que a verdade pareça sempre incompleta, sempre disputável, sempre cansativa demais pra defender. quando tudo é controverso, nada é urgente.

anne frank virou símbolo porque não sobreviveu. mas milhões de pessoas, antes dela, ajustaram o comportamento achando que isso bastaria. falar menos. aparecer menos. discordar menos. até que não restasse mais espaço pra existir.

o terror não precisa te proibir de falar. ele só precisa te convencer de que falar não adianta. que o risco é alto demais. que a recompensa é abstrata demais. que o melhor é esperar.

esperar é o combustível favorito dele.

e toda vez que alguém diz “não é tão grave assim”, o terror sorri. porque ele não precisa ser total. só precisa ser suficiente. suficiente pra dividir. suficiente pra paralisar. suficiente pra transformar pessoas em cálculos ambulantes de risco.

anne frank não morreu num campo por falta de informação. morreu num sistema que funcionou exatamente como planejado. passo a passo. sem pressa. contando com a adaptação gradual dos que ficaram do lado de fora.

o erro não é comparar. o erro é achar que comparação é exagero. a história não se repete como farsa. ela se repete como processo… silencioso, burocrático, eficiente.

e o detalhe mais cruel?
quando tudo termina, quando os arquivos abrem, quando os nomes viram placas, todo mundo jura que teria feito diferente. que teria resistido. que teria entendido antes.

mas o terror não é construído para ser entendido.
é construído para ser normalizado.

e é aí, exatamente aí, que ele vence.

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2025

walter vs. heisenberg

eu sempre desconfio de qualquer coisa que todo mundo ama. vinho muito premiado, restaurante com fila de três horas, gente excessivamente simpática às oito da manhã. mas breaking bad não é isso. breaking bad é aquele soco seco no estômago que você agradece depois, mesmo sangrando um pouco. e sim, eu vou dizer o que todo mundo pensa e finge que não, é a melhor série que existe. ponto final. o resto é conversa mole pra quem precisa de personagens simpáticos pra dormir tranquilo.

walter white não é um aviso. aviso pressupõe escolha consciente. walter é um diagnóstico. ele é o resultado final de décadas engolindo humilhação achando que isso era virtude. ele é o homem que confundiu contenção com caráter e depois ficou revoltado quando ninguém aplaudiu. breaking bad não começa quando ele decide cozinhar metanfetamina. começa muito antes, quando ele aceita ser pequeno e chama isso de maturidade.

o que a série faz, e isso é o que deixa muita gente nervosa, é recusar a versão confortável do mal. walter não é impulsivo, não é caótico, não é descontrolado. ele é organizado. metódico. paciente. breaking bad sugere algo quase obsceno… o verdadeiro perigo não está nos idiotas violentos, mas nos homens inteligentes que aprenderam a esperar. walter esperou a vida inteira. e quando finalmente se move, não desperdiça um segundo com culpa honesta.

o câncer é só a desculpa narrativa pra parar de fingir. ninguém vira heisenberg porque está morrendo. ele vira porque percebe que nunca esteve realmente vivo. walter descobre tarde demais que ser correto não é o mesmo que ser respeitado. e em vez de questionar o sistema, decide dominá-lo. não há rebeldia nisso. há ressentimento refinado. um tipo de raiva que estudou bastante e fala baixo.

o mais perturbador é como walter transforma mediocridade passada em crédito moral futuro. “eu sofri, logo posso”. “eu fui ignorado, logo mereço”. breaking bad expõe essa matemática podre com uma calma quase acadêmica. walter não se vê como vilão porque vilões, na cabeça dele, são burros ou impulsivos. ele se vê como exceção. como correção histórica. como ajuste fino do universo. e gente que se acha correção costuma cometer atrocidades com convicção tranquila.

heisenberg não é libertação. é branding. é walter finalmente encontrando um personagem à altura do ego que sempre teve. o chapéu, o nome, a postura, tudo isso é marketing pessoal pra alguém que passou a vida inteira sendo invisível. ele não quer poder pelo poder. quer narrativa. quer que sua existência faça barulho. quer deixar rastro. não importa se esse rastro é de destruição. o silêncio o apavora mais que o inferno.

walter não ama controle. ama submissão. ama quando as pessoas tremem um pouco antes de responder. ama quando o medo resolve problemas que antes exigiam negociação. breaking bad não romantiza isso, mas também não suaviza. mostra o prazer cru, quase infantil, de alguém que descobre que pode dobrar o mundo com cálculo e ameaça. não há glamour duradouro, só aquele sorriso rápido de quem acabou de ultrapassar mais uma linha e percebeu que nada aconteceu.

o discurso da família é a parte mais cínica de todas. não porque seja falso no início, mas porque vira álibi permanente. walter usa a família como escudo moral enquanto a destrói por dentro. ele não protege ninguém. ele se protege da própria consciência. e quando finalmente admite que fez tudo por si mesmo, não há catarse. há alívio. a honestidade chega tarde, mas chega confortável. como uma poltrona depois do incêndio.

o sarcasmo máximo da série é permitir que walter esteja certo tecnicamente quase sempre. ele calcula melhor. planeja melhor. antecipa melhor. e mesmo assim tudo apodrece. breaking bad faz uma afirmação quase ofensiva pra quem idolatra gênios, inteligência não melhora ninguém. só amplia. amplia o dano, amplia a justificativa, amplia a distância entre ação e culpa. walter não é exceção. é argumento contra.

ele não cai. ele sobe. e quanto mais sobe, mais claro fica que não existe topo. só isolamento. só paranoia. só um homem cercado por tudo o que construiu e incapaz de habitar aquilo sem medo. walter conquista exatamente o que queria e descobre que reconhecimento obtido pela força não alimenta, só cala. ninguém o ama ali. ninguém o respeita. obedecem. e obediência é um substituto miserável pra significado.

breaking bad não quer que você odeie walter white. isso seria fácil demais. ela quer algo mais sujo, que você reconheça o mecanismo. que perceba como a lógica dele faz sentido por tempo demais. como a linha moral é empurrada sempre um pouco além do aceitável, nunca o bastante pra causar ruptura imediata. a série não grita. ela insiste. e insistência é muito mais perigosa.

no fim, walter não é punido como exemplo. ele é exposto como sintoma. de um mundo que recompensa ambição sem perguntar o preço. de uma cultura que confunde genialidade com direito. de pessoas que acreditam que sofrer em silêncio cria crédito pra destruir em voz alta.

se isso ainda te parece previsível, talvez seja porque walter white está em toda parte. só não usa chapéu. pense nisso…

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2025

mr. king

martin luther king jr. virou santo de calendário cívico. daqueles que cabem em cartaz de escola, em post de linkedin, em discurso hipócrita de político que nunca leu uma linha além do “i have a dream” e mesmo esse trecho só até onde não começa a ficar desconfortável. king hoje é um jpeg domesticado. um filtro instagram de consciência tranquila. mas o king real? esse não cabe em moldura. esse suja a toalha de mesa.

o que quase ninguém gosta de lembrar é que king não era unanimidade nem entre os seus. ele era visto como incômodo, obsessivo, paranoico, moralista demais para uns, radical demais para outros. um homem permanentemente cansado, com depressões profundas e crises de dúvida. king não era feito de mármore. era feito de carne, culpa, fé teimosa e uma noção perigosa de que dizer a verdade importa mais do que ser amado.

martin luther king jr. vivia sob vigilância constante do fbi. grampos, dossiês, chantagem emocional. j. edgar hoover o tratava como ameaça à segurança nacional, não por violência, mas por algo muito mais subversivo, a capacidade de ligar moralidade a política externa. o sistema até tolera protesto por direitos civis quando ele pode ser empacotado como “questão interna”. o problema começa quando alguém aponta que o império está nu, sujo de sangue e bancado com o dinheiro dos pobres.

pouco se fala que, no fim da vida, king já não estava focado apenas em integração racial. isso era pequeno demais. ele estava obcecado pela pobreza estrutural. pela ideia radical de que o capitalismo americano precisava ser confrontado. o projeto da poor people’s campaign era um pesadelo logístico e simbólico, levar pobres de todas as raças para acampar em washington e exigir redistribuição real de riqueza. não caridade. não esmola. justiça econômica. imagine o pânico nos corredores do poder.

quando king atacou a guerra do vietnã, ele sabia exatamente o que estava fazendo. sabia que perderia apoio. sabia que financiadores iriam embora. sabia que o acesso à casa branca acabaria. e foi mesmo. lyndon johnson, antes aliado, virou porta fechada. porque falar de guerra era mexer no nervo exposto do projeto americano, a crença de que matar longe de casa é aceitável desde que gere estabilidade, lucro ou a ilusão de grandeza.

o discurso “beyond vietnam” não foi um desvio de rota. foi o ponto final lógico. king chamando os estados unidos de “o maior propagador de violência no mundo hoje”. frase que ainda hoje faria editoriais espumarem. ele entendeu algo que seguimos fingindo não entender, não existe justiça racial sustentável num país que constrói sua identidade em cima de guerras intermináveis. a violência externa sempre volta para casa. volta em forma de polícia militarizada, escolas sucateadas, hospitais sem verba e uma sociedade anestesiada.

e não, king não foi morto no auge de uma era romântica. foi assassinado quando sua popularidade estava em queda livre. quando jornais diziam que ele havia ido longe demais. quando líderes negros mais palatáveis eram apresentados como alternativa “responsável”. ele morreu em memphis apoiando uma greve de trabalhadores do saneamento. homens invisíveis. lixo humano aos olhos do sistema. morrer por eles não rende feriado bonito. rende silêncio constrangido.

hoje, citar king virou ato automático. um ctrl+c moral. donald trump invoca o sonho enquanto desmonta qualquer política que cheire a equidade. é a versão política de pendurar um quadro do che guevara no escritório de um banco. estética sem risco. memória sem ameaça. king reduzido a slogan, enquanto tudo o que ele denunciou segue funcionando a pleno vapor.

o mais obsceno é que king falava exatamente para agora. orçamento militar inflado como culto religioso. cortes para os pobres tratados como necessidade técnica. intervenções estrangeiras vendidas como inevitáveis. e uma legião de comentaristas explicando o procedimento errado, nunca a imoralidade do ato. king desprezava essa covardia elegante. ele não queria saber se a guerra era legal. queria saber se era justa. spoiler, não era.

king nunca pediu para ser confortável. pediu para ser ouvido. pediu para que a paz fosse vista como trabalho ativo, não como ausência momentânea de conflito. pediu para que parássemos de confundir patriotismo com obediência. e por isso foi vigiado, atacado, isolado e, finalmente, silenciado.

transformá-lo em santo foi a última violência. porque santos não exigem nada. king exigia tudo. exigia que escolhêssemos entre bombas e escolas. entre império e humanidade. entre o aplauso fácil e a consciência pesada. e essa escolha, seis décadas depois, continua sendo evitada com a mesma habilidade cínica de sempre.

o sonho de king não morreu. ele foi convenientemente ignorado. e isso diz muito menos sobre ele e tudo sobre nós.

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2025

panteras negras

esse assunto nunca foi neutro e nunca vai ser. quem tenta tratar isso como capítulo distante de livro escolar está mentindo ou se protegendo. eu não tenho esse luxo. os black panther party não surgiram de um surto ideológico coletivo nem de um delírio revolucionário romântico. eles surgiram porque o estado falhou. falhou de forma sistemática, violenta e deliberada.

em 1966, em oakland, huey p. newton e bobby seale não estavam interessados em slogans bonitos nem em convencer a américa branca de que eram “bons cidadãos”. isso é leitura posterior, higienizada. o que eles entenderam foi simples e brutal, a polícia operava como força de ocupação em bairros negros, e ninguém iria intervir. então eles decidiram observar, confrontar e expor. armados. legalmente. estudando cada vírgula da lei da califórnia melhor do que os próprios policiais. isso não era teatro. era inteligência política aplicada ao medo.

o detalhe que sempre incomodou mais não foram as armas. foram os livros. foram os programas. os panteras tinham um programa político claro, marxista, antirracista, anti-imperialista. falavam de exploração econômica, de encarceramento em massa antes mesmo de o termo virar moda acadêmica. criaram estruturas paralelas porque sabiam que esperar do estado era aceitar a violência como rotina. clínicas comunitárias, educação política, apoio jurídico. isso desmonta qualquer narrativa fácil de “grupo extremista sem causa”. extremismo, naquele contexto, era sobreviver.

o estado respondeu como sempre responde quando alguém expõe sua incompetência moral… com repressão total. o fbi, sob j. edgar hoover, decidiu que os panteras eram a maior ameaça interna do país. não os nazistas. não a ku klux klan. jovens negros organizados. o programa cointelpro foi usado como arma silenciosa, infiltração, desinformação, paranoia fabricada, brigas internas estimuladas artificialmente. líderes presos por acusações frágeis. outros assassinados. fred hampton foi morto enquanto dormia, numa operação policial que o estado tentou vender como confronto. não foi. foi execução política.

o que me provoca não é só o que foi feito com os panteras, mas o esforço quase desesperado de transformar tudo isso em passado encerrado. como se fosse um erro histórico isolado, uma febre dos anos 60. como se as condições que criaram o movimento tivessem desaparecido. não desapareceram. só mudaram de uniforme e vocabulário.

quando olho para os estados unidos sob trump, vejo a mesma lógica operando com nova embalagem. o medo como política pública. o inimigo interno reciclado. antes, negros organizados. agora, imigrantes. o ice se tornou o símbolo mais visível dessa continuidade… batidas em comunidades, prisões arbitrárias, famílias separadas, tudo legitimado por um discurso burocrático de “lei e ordem”. a mesma frase. sempre a mesma frase.

os protestos contra o ice não surgem do nada. surgem do mesmo lugar que os panteras surgiram, da percepção de que o estado não protege, persegue. de que a lei não é neutra, é seletiva. quando pessoas bloqueiam carros do ice, quando se organizam em redes comunitárias para avisar sobre batidas, quando se recusam a cooperar com a máquina, a reação é imediata. chamam de radicalismo. de anarquia. de ameaça à democracia. exatamente os mesmos rótulos usados contra os panteras.

a diferença é que hoje fingimos surpresa. fingimos que não entendemos de onde vem a raiva. fingimos que protesto deve ser educado, silencioso, inofensivo. os panteras nunca acreditaram nisso. eles sabiam que protesto que não incomoda é decoração urbana. e talvez seja isso que mais assuste até hoje, a clareza.

eu não romantizo os panteras. eles erraram. tinham conflitos internos, machismo, disputas de poder, decisões ruins. isso não os invalida. isso os humaniza. o que invalida a narrativa oficial é fingir que o estado agiu por excesso e não por método. a repressão foi racional, calculada e eficiente. e funcionou. mas não matou a ideia.

o que conecta os panteras negras às ruas contra o ice não é estética, nem palavra de ordem, nem nostalgia revolucionária. é a compreensão profunda de que direitos só existem enquanto são exercidos. de que organização comunitária sempre será vista como ameaça quando expõe a falência moral do poder. de que o medo do estado nunca é do caos, é do controle escapando pelas frestas.

os panteras negras não pertencem ao passado. pertencem a toda vez que alguém decide não pedir permissão para existir. e isso continua sendo, para os estados unidos, o pecado original que nunca foi perdoado.

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2025

vício

acordo com a garganta colada, gosto químico na boca, uma lata de coca-cola zero esquecida na mesa de cabeceira como se fosse um animal de estimação fiel. morta. quente. inútil. tomo mesmo assim. não porque seja boa. porque é previsível. e previsibilidade, numa certa idade, vale mais do que prazer.

na geladeira, uma coleção obscena de queijos. fedidos, arrogantes, lindos. alguns caros demais pra alguém que finge ter autocontrole. outros tão fortes que parecem um erro moral deliberado. exatamente como deveria ser. queijo é isso, leite que decidiu não obedecer. tempo, bactéria, paciência e uma completa falta de interesse em agradar.

isso não é ritual. não é manifesto. não é resistência. é só o jeito como as coisas continuam andando quando você para de tentar ser alguém melhor. repetir não cansa quando você aceita a repetição. cansa quando você finge que ela é temporária, que um dia vai “mudar tudo”. ninguém muda tudo. no máximo troca de vício e chama isso de evolução.

a coca-cola zero não promete nada. não evoca infância, não fala de origem, não conta história bonita. entra fria, sai rápido, não deixa saudade. funcional como uma ferramenta mal desenhada que ainda assim resolve o problema. existe algo profundamente relaxante nisso. nenhuma metáfora. nenhuma transcendência. só efeito imediato.

o queijo é o contrário. exige tempo. insiste. fica ali ocupando espaço, cheirando mais a cada dia, lembrando que algumas coisas só melhoram quando você para de interferir. não tem pressa. não tem marketing. não pede compreensão. se você não aguenta, o problema é seu.

em algum ponto da vida, você percebe que não está mais procurando experiências. está procurando constância. algo que não te surpreenda, não te eduque, não te prometa versão futura de si mesmo. só algo que esteja lá amanhã. e depois. e depois.

li charles bukowski escrever “find what you love and let it kill you.” e senti reconhecimento, não porque a frase seja profunda, mas porque ela é embaraçosamente prática. nada ali fala de grandeza. fala de desgaste. de atrito. de aceitar que alguma coisa vai te moer aos poucos e decidir, conscientemente, não trocar isso por algo mais apresentável.

o erro coletivo foi transformar essa ideia numa coisa bonita. ninguém quer admitir que é consumido por algo pequeno. todo mundo prefere dizer que é movido por paixão, propósito, missão. palavrinhas limpas, prontas pra perfil profissional. ninguém quer dizer “eu funciono à base disso aqui” quando isso aqui é banal, repetitivo e pouco inspirador.

mas é assim que a coisa acontece de verdade. não são grandes decisões que moldam o dia. são gestos automáticos. abrir a geladeira sem pensar. pegar sempre o mesmo pedaço. estalar a mesma lata. seguir em frente. não tem catarse, não tem arco narrativo. tem insistência.

o mundo gosta de vício desde que ele venha com embalagem elegante. chama de disciplina quando parece produtivo. chama de ritual quando dá pra postar. chama de lifestyle quando vende alguma coisa. quando não dá pra romantizar, aí vira problema. eu sempre achei curioso como as pessoas aceitam ser consumidas por planilhas, agendas e reuniões intermináveis, mas se chocam quando alguém escolhe algo com gosto, cheiro e textura.

ser consumido por rotina é inevitável. a única decisão real é qual rotina. e não, não precisa ser nobre. não precisa justificar nada. algumas coisas só precisam funcionar tempo suficiente pra você atravessar o dia sem virar um estranho pra si mesmo.

não tem heroísmo nisso. tem economia. energia poupada por não fingir. tempo ganho por não negociar com a própria natureza. isso incomoda porque revela uma verdade pouco glamourosa: a maioria das pessoas não é movida por sonhos, é empurrada por hábitos. a diferença é que quase ninguém assume os seus.

continuo repetindo porque repetir me ancora. continuo escolhendo o mesmo porque variar só pra provar alguma coisa sempre me pareceu um desperdício de energia. não estou procurando evolução. estou procurando tração. algo que me mantenha andando mesmo quando não há entusiasmo nenhum disponível.

e talvez seja isso que realmente irrite nessa frase. não é o “let it kill you”. é o “find what you love”. porque isso exige olhar com honestidade praquilo que você já faz quando ninguém está olhando. não o que você admira. não o que você gostaria de gostar. mas o que você repete sem aplauso, sem plateia, sem narrativa.

no meu caso, não dá pra transformar isso em lição. não dá pra vender. não dá pra ensinar. só dá pra continuar.

e continuar, descobri, já é bastante provocativo por si só.


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2025

army

existe um tipo muito específico de gente que realmente acredita que o exército dos eua é tipo uma cruz vermelha com fuzil. uma ong musculosa, altruísta, que atravessa oceanos movida por um impulso quase maternal de “vamos salvar esse povo que nem pediu ajuda, coitados”. é uma ingenuidade tão pura que chega a dar inveja. viver assim deve ser leve. confortável. acolchoado. uma vida sem ler o rodapé do contrato.
porque, veja bem, ninguém cruza meio planeta com porta-aviões, drones e marines por amor ao próximo. isso não é solidariedade, é logística. não é compaixão, é investimento. e investimento não entra em lugar nenhum sem fazer conta, projeção, análise de risco e, claro, sem olhar pro subsolo. sempre pro subsolo.
a democracia, nesse cardápio, é só o molho. bonito, fotogênico, fácil de vender. mas o prato principal nunca muda. petróleo, influência geopolítica, controle regional, uma bandeirinha fincada no mapa dizendo “isso aqui agora interessa”. o resto é discurso de aeroporto, daqueles que soam bem no jornal da noite e evaporam assim que as câmeras desligam.
e a metáfora da imobiliária é perfeita, porque é exatamente isso, chegam dizendo que vão reformar o bairro, prometem segurança, progresso, valorização do imóvel… e quando você percebe, já te expulsaram da própria casa, trocaram a fechadura e estão alugando o terreno pra uma multinacional. tudo dentro da lei, claro. a lei deles.
o mais irônico é que quem compra essa narrativa ainda se sente moralmente superior. “não, mas veja bem, eles estão levando liberdade”. liberdade pra quem? em qual embalagem? com quais juros? porque, curiosamente, essa liberdade sempre vem acompanhada de caos, inflação, instabilidade e um monte de gente morta que vira estatística conveniente.
no fim das contas, acreditar que guerra é sobre valores é como acreditar que salsicha é feita por fadas veganas. é reconfortante, mas só funciona enquanto você não entra na fábrica. e quando entra… bem, depois disso não tem como fingir que não viu o sangue no chão, o cheiro metálico no ar e o gerente dizendo, com um sorriso corporativo… “relaxa, isso aqui é pelo bem de todos”.
bon appétit.