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2025

o inferno ganhou wi-fi e os demônios aprenderam a pedir votos

dante alighieri morreu em 1321. teve sorte.

imagino o velho florentino desembarcando em são paulo, sete séculos depois, com sua túnica, seu nariz severo e aquela cara de quem passou a vida inteira cercado de idiotas e resolveu escrever um poema para não estrangular ninguém.

eu o levaria para tomar um café.

um café forte, sem açúcar. dante já conhecia o inferno. não precisava conhecer também a indignidade de um cappuccino com leite de aveia e essência de baunilha.

sentaríamos perto da janela. ele abriria seu caderno, perguntaria como anda o mundo e eu cometeria a imprudência de mostrar meu celular.

a partir daí, precisaríamos de uma garrafa.

dante escreveu a divina comédia no exílio, depois de ser expulso de florença por uma disputa política. não era um poeta distraído, desses que contemplam flores e descobrem sentimentos na luz da tarde. era um homem furioso, culto, profundamente religioso e dono de uma memória extraordinária para desafetos.

quando alguém o contrariava, havia o risco de acabar fervendo em alguma vala da eternidade.

hoje chamariam isso de falta de inteligência emocional.

eu chamaria de literatura.

na divina comédia, dante atravessa o inferno guiado por virgílio. encontra políticos, papas, traidores, amantes, ladrões, hipócritas e gente que passou a vida fazendo exatamente aquilo que condenava nos outros.

o brasileiro reconheceria muitos personagens.

talvez até alguns sobrenomes.

o primeiro problema seria explicar ao poeta que, em pleno século xxi, a humanidade continua cometendo praticamente todos os pecados que ele catalogou, mas agora consegue filmá-los e monetizá-los.

dante dividiu o inferno em nove círculos.

hoje precisaria de um anexo.

e de um advogado.

sabe, começaríamos pelo vestíbulo, onde dante colocou os indiferentes, aqueles que passaram pela vida sem escolher lado, sem assumir nada, sem coragem sequer para merecer uma condenação mais interessante.

o poeta tinha um desprezo especial por essa turma.

eu mostraria a ele o cidadão contemporâneo que se orgulha de ser neutro diante de qualquer coisa, desde que a injustiça não atrapalhe seu almoço.

aquele sujeito que, diante de uma barbaridade, anuncia solenemente que prefere não discutir política.

mas discute durante quarenta minutos se o azeite servido no restaurante é realmente extravirgem.

dante entenderia.

a covardia sempre soube se vestir bem.

no segundo círculo, encontraríamos os luxuriosos. no terceiro, os glutões.

aqui eu pediria ao poeta um pouco de paciência.

porque o pecado da gula mudou bastante desde a idade média.

temos gente que atravessa a cidade para pagar uma fortuna por três folhas, uma espuma e uma explicação de quinze minutos sobre a origem emocional da cenoura.

o sujeito não quer jantar.

quer participar de uma experiência.

e depois publica dezessete fotografias para provar que esteve lá.

dante talvez achasse que a punição já começou.

quanto à luxúria, bastaria mostrar-lhe a indústria dos aplicativos de relacionamento. milhões de pessoas com acesso a milhares de possíveis parceiros e uma capacidade cada vez menor de sustentar uma conversa que ultrapasse três mensagens e um emoji.

o amor cortês, tão caro aos poetas medievais, morreu.

no lugar dele temos gente perguntando signo, altura e disponibilidade para o fim de semana.

francesca da rimini, que dante encontrou entre os amantes condenados, provavelmente pediria para voltar ao vendaval eterno.

pelo menos paolo sabia conversar.

no quarto círculo, o dos avarentos e perdulários, dante finalmente começaria a se sentir em casa.

eu lhe apresentaria a teologia da prosperidade, os gurus financeiros e os sujeitos que vendem cursos ensinando a ficar rico enquanto enriquecem vendendo cursos sobre como ficar rico.

ele perguntaria se isso é permitido.

eu responderia que, em muitos casos, é até admirado.

dante, que colocou usurários sob uma chuva de fogo, precisaria rever seus métodos.

a modernidade inventou formas de ganhar dinheiro que fariam um agiota florentino parecer um simpático comerciante de bairro.

e ainda temos a figura maravilhosa do milionário que explica ao trabalhador exausto que pobreza é falta de mentalidade.

é sempre emocionante ouvir lições sobre esforço de alguém que começou a corrida a poucos metros da linha de chegada.

no quinto círculo, o dos irados, eu abriria uma rede social.

não precisaria explicar nada.

dante observaria durante cinco minutos um grupo de adultos discutindo política, futebol, religião e a temperatura correta de um ovo cozido.

depois fecharia o aplicativo.

os irados de seu inferno se atacavam na lama do rio estige.

os nossos fazem praticamente a mesma coisa, só que com foto de perfil, bandeirinha no nome e a convicção de que estão salvando a civilização.

o detalhe mais bonito é que todos se consideram vítimas da intolerância alheia.

ninguém é grosseiro.

está apenas falando verdades.

ninguém é ignorante.

está questionando narrativas.

ninguém está espalhando uma mentira.

está fazendo perguntas.

e as perguntas, curiosamente, costumam vir acompanhadas de respostas prontas, escritas em letras maiúsculas.

dante anotaria tudo.

talvez inventasse um décimo círculo só para os comentários de notícias.

mas seria no sexto círculo, o dos hereges, que a visita ficaria realmente interessante.

eu explicaria que, no brasil, religião e política desenvolveram uma intimidade tão grande que às vezes é difícil saber onde termina o sermão e começa a propaganda eleitoral.

certas lideranças descobriram que o púlpito oferece vantagens extraordinárias.

o fiel chega buscando consolo, encontra uma orientação política e ainda sai convencido de que discordar pode comprometer sua situação na eternidade.

um serviço completo.

dante, católico fervoroso, não seria um observador indulgente. na sua obra, colocou papas corruptos no inferno, especialmente entre os simoníacos, aqueles que negociavam coisas sagradas.

na terceira vala do oitavo círculo, os condenados ficam enterrados de cabeça para baixo, com os pés em chamas.

imagino o poeta conhecendo um desses pregadores que apresentam o sucesso financeiro como prova de bênção divina.

ele ouviria a pregação, examinaria a estrutura empresarial e perguntaria onde fica a fila dos simoníacos.

eu explicaria que hoje muitos têm canal de televisão.

jesus expulsou os vendilhões do templo.

alguns de seus autoproclamados representantes parecem ter estudado a passagem apenas para descobrir onde instalar a maquininha de cartão.

o oitavo círculo seria o grande passeio.

malebolge.

dez valas destinadas a diferentes espécies de fraude.

dante colocou ali sedutores, aduladores, hipócritas, ladrões, falsários, conselheiros fraudulentos e corruptos que vendiam favores públicos.

era um homem com imaginação.

mas nem ele teria previsto a quantidade de brasileiros capazes de defender a honestidade de um político com o mesmo entusiasmo com que defendem a inocência de um parente pego saindo do motel.

a corrupção, por aqui, tem uma característica curiosa.

quando é praticada pelo adversário, ameaça os fundamentos da república.

quando envolve alguém do nosso grupo, exige contexto histórico, cautela jurídica e uma investigação aprofundada sobre as intenções da imprensa.

dante, que colocou os corruptos mergulhados em piche fervente, talvez perguntasse se o material continua disponível.

eu sugeriria que ele não se precipitasse.

a demanda poderia afetar o preço do petróleo.

e então chegariam os políticos que prometem acabar com a velha política enquanto negociam com ela no café da manhã.

os empresários que se apresentam como salvadores da pátria porque conseguiram administrar uma rede de lojas.

os patriotas que tratam a bandeira como propriedade particular.

os moralistas que passam a vida fiscalizando a intimidade alheia enquanto escondem cuidadosamente a própria.

dante ficaria encantado com a variedade.

em florença, ele conheceu a violência das facções políticas, os acordos oportunistas e a facilidade com que homens poderosos invocavam princípios elevados para justificar interesses bastante rasteiros.

o brasil não lhe pareceria inteiramente estranho.

apenas mais quente.

e com mais publicidade.

no nono círculo, encontraríamos os traidores.

e aqui dante nos reservaria uma surpresa.

porque o fundo de seu inferno não é um mar de fogo.

é um lago congelado.

o cócito.

quanto mais profunda a traição, mais aprisionada no gelo está a alma.

no centro, lúcifer mastiga eternamente judas, bruto e cássio.

sempre achei essa escolha genial.

dante compreendeu que a pior forma de maldade pode ser fria, calculada, quase burocrática. não precisa de gritos. às vezes basta alguém perfeitamente calmo assinando uma decisão cujas consequências jamais terá de enfrentar.

eu mostraria ao poeta as guerras contemporâneas.

as crianças mortas, as cidades destruídas, os refugiados tratados como incômodo estatístico.

depois mostraria os comentaristas discutindo tudo aquilo como quem analisa a escalação de um time.

alguns falariam de estratégia.

outros, de interesses nacionais.

outros, de inevitabilidade histórica.

e, no intervalo, entraria uma propaganda de perfume.

dante provavelmente ficaria em silêncio.

não por falta de palavras.

mas porque existem coisas diante das quais até o sarcasmo perde a vontade de trabalhar.

só que nossa viagem ainda teria um último capítulo.

eu levaria dante para caminhar por uma rua qualquer do brasil.

ele veria o trabalhador que acorda antes do sol, a mulher que sustenta uma família inteira, o professor que insiste em ensinar, a pessoa que divide o pouco que tem com alguém que tem menos ainda.

veria gente decente fazendo o possível para não enlouquecer num país que oferece motivos diários para perder a paciência.

e talvez se lembrasse de que sua obra não termina no inferno.

depois vêm o purgatório e o paraíso.

há uma razão para isso.

dante escreveu sobre a possibilidade de uma alma atravessar o horror e ainda encontrar alguma forma de luz.

o que torna a nossa época tão irritante é perceber que temos acesso a séculos de conhecimento, conhecemos as consequências de tantas escolhas desastrosas e, mesmo assim, insistimos em repetir os erros com a confiança de quem acaba de inventá-los.

temos bibliotecas no bolso e preguiça de ler.

temos liberdade para questionar e preferência por obedecer a quem grita mais alto.

temos a história inteira à disposição e uma capacidade admirável de nos surpreender com aquilo que ela já explicou.

quando terminássemos o café, dante provavelmente pediria para voltar a florença.

eu lembraria que ele foi exilado de lá.

ele pensaria um pouco.

olharia novamente para o celular.

e diria que, considerando as alternativas, o exílio não parecia tão ruim.

antes de partir, talvez me perguntasse por que continuamos repetindo os mesmos pecados depois de setecentos anos.

eu não saberia responder.

mas poderia mostrar a ele uma última notícia, um último discurso, um último vídeo de alguém explicando com absoluta certeza uma coisa que evidentemente desconhece.

dante fecharia os olhos.

e eu finalmente compreenderia por que, no primeiro canto do inferno, ele escreveu sobre ter se encontrado perdido numa selva escura, depois de abandonar o caminho certo.

a diferença é que dante sabia que estava perdido. nós temos gps, internet, inteligência artificial e ainda encontramos tempo para discutir se a selva existe ou se a terra é redonda.

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2026

ser neutro é um risco

existe uma categoria fascinante de pessoas que se orgulha de não tomar partido. observa o mundo pegando fogo, ajeita a cadeira, pede um café e anuncia, com a serenidade de um monge muito bem alimentado, que prefere não se envolver.

é uma posição confortável. principalmente quando o incêndio acontece na casa dos outros.

a neutralidade ganhou uma reputação curiosa. virou sinônimo de inteligência, equilíbrio, maturidade. o sujeito que não se posiciona é apresentado como alguém acima das paixões humanas, um espírito superior que não se deixa contaminar pelas vulgaridades do debate público.

às vezes é apenas alguém com um talento extraordinário para proteger o próprio conforto. e convenhamos, conforto é uma ideologia bastante popular. não exige leitura, coragem ou grandes sacrifícios. basta continuar sentado.

não estou sugerindo que todo mundo precise ter uma opinião sobre absolutamente tudo. já temos especialistas suficientes em geopolítica que aprenderam a localização dos países envolvidos há quinze minutos. o mundo agradeceria se algumas pessoas descobrissem o prazer revolucionário de dizer que não sabem.

há uma diferença imensa, porém, entre reconhecer a própria ignorância e fingir que não existe nada a ser reconhecido. entre escutar antes de julgar e usar a prudência como esconderijo. entre evitar uma discussão inútil e permanecer elegantemente calado diante de uma injustiça perfeitamente visível.

o problema começa quando a neutralidade deixa de ser um exercício de discernimento e se transforma num plano de carreira.

ninguém quer perder amigos, clientes, seguidores ou convites para jantar. ninguém quer ser o inconveniente da mesa, aquele sujeito que estraga o clima porque resolveu mencionar algo ligeiramente mais importante que o vinho.

então desenvolvemos uma diplomacia admirável.

condenamos os excessos sem identificar quem os pratica. lamentamos as tragédias sem examinar suas causas. defendemos a paz com tamanho entusiasmo que evitamos até incomodar quem está produzindo a guerra.

é uma performance impecável.

todos saem da conversa satisfeitos. especialmente quem não precisava que nada mudasse. e existe uma indústria inteira dedicada a transformar essa omissão em virtude. frases bonitas sobre respeitar todas as opiniões, ouvir todos os lados, preservar a harmonia.

ótimos princípios, quando aplicados com algum critério.

porque ouvir todos os lados não significa atribuir o mesmo peso a qualquer argumento. respeitar pessoas não obriga ninguém a tratar crueldade como uma preferência estética. e preservar a harmonia pode ser uma ideia maravilhosa, desde que não dependa de pedir silêncio a quem está sendo prejudicado.

a história humana oferece exemplos suficientes do custo desse tipo de elegância. injustiças raramente sobrevivem apenas pela força de quem as pratica. também se beneficiam da hesitação de quem percebe o problema, calcula o inconveniente de agir e decide que talvez seja melhor esperar.

esperar é uma atividade maravilhosa. transmite a sensação de responsabilidade sem exigir o trabalho desagradável de assumir alguma. e, enquanto esperamos, a vida continua acontecendo.

há pessoas pagando pelas decisões de outras. há direitos sendo discutidos como se fossem privilégios excessivos. há mentiras circulando com a desenvoltura de convidados importantes, enquanto fatos precisam apresentar documentos na portaria.

e nós, criaturas sofisticadas, preocupados em não parecer radicais. curioso como a moderação pode se tornar uma forma bastante extravagante de vaidade. o sujeito não quer compreender melhor o problema. quer ser admirado pela distância que mantém dele.

quer que todos reconheçam sua superioridade emocional, sua recusa às paixões, sua extraordinária capacidade de não se aborrecer. é fácil manter a calma quando nada do que está acontecendo ameaça você.

muito fácil.

mas também seria um erro transformar posicionamento em campeonato de indignação. ter coragem não exige gritar. ter convicção não autoriza abandonar a dúvida. e escolher um lado não dispensa ninguém da obrigação de pensar.

aliás, algumas das pessoas mais barulhentas que conhecemos demonstram uma resistência heroica a qualquer atividade intelectual. a coragem que me interessa é menos fotogênica.

é a capacidade de dizer que algo está errado mesmo quando seria socialmente mais vantajoso rir, concordar ou mudar de assunto.

é admitir que uma pessoa de quem gostamos fez algo indefensável. é reconhecer um erro no grupo ao qual pertencemos. é recusar a mentira conveniente, inclusive quando ela favorece nossas próprias convicções.

isso custa alguma coisa. e talvez seja justamente por isso que vale alguma coisa.

não precisamos de mais gente desesperada para emitir sentenças sobre o mundo. precisamos de pessoas dispostas a assumir responsabilidade pelo que conseguem enxergar, sem transformar cada discordância numa guerra particular.

a neutralidade pode ser necessária numa negociação, honesta diante de fatos insuficientes e sábia quando os ânimos estão impedindo qualquer conversa. mas também pode ser o nome respeitável que damos ao medo de desagradar, e essa segunda versão tem um preço.

porque há momentos em que ficar em cima do muro deixa de ser uma demonstração de equilíbrio. passa a ser apenas a escolha de quem descobriu um lugar confortável para assistir à queda dos outros.

ser neutro é um risco. sobretudo quando a consciência começa a cobrar explicações e descobrimos que passamos a vida inteira treinando respostas para não ter de dar nenhuma.

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2026

trump, 31% de aprovação e a descoberta tardia de que o circo também cobra ingresso

donald trump chegou a 31% de aprovação numa pesquisa reuters/ipsos. o menor índice de seus dois mandatos. outra pesquisa, do pew research center, encontrou 30%.

confesso que achei um resultado interessante. não exatamente pela queda, mas pela quantidade de gente que parece estar descobrindo agora que entregar a administração de uma potência nuclear a um apresentador de reality show pode produzir algumas complicações fora do horário nobre.

durante anos, trump ofereceu ao público um espetáculo extraordinário. insultos, ameaças, apelidos, inimigos imaginários e reais, promessas monumentais e aquela expressão permanente de quem acaba de descobrir que o universo está funcionando sem sua autorização.

e milhões de pessoas adoraram.

era divertido. era provocativo. era diferente. finalmente alguém disposto a dizer tudo aquilo que os políticos tradicionais tinham a prudência, a educação ou o bom senso de não dizer.

a falta de filtro virou autenticidade. a arrogância virou liderança. a confusão virou estratégia.

e a capacidade de transformar qualquer assunto numa discussão sobre donald trump foi elevada à categoria de talento político.

o problema é que um país não é um programa de televisão. no programa, quando o protagonista faz alguma besteira, a audiência aumenta. num país, quando o protagonista faz alguma besteira, alguém precisa pagar a conta.

e parece que a conta começou a chegar.

a desaprovação da condução econômica alcançou 68% na pesquisa reuters/ipsos. os preços dos combustíveis, pressionados pelo conflito com o irã, tornaram-se uma preocupação importante.

há uma ironia deliciosa em tudo isso.

trump passou anos cultivando a imagem do homem capaz de dobrar governos, intimidar adversários e negociar qualquer coisa.

mas o preço da gasolina continua demonstrando uma lamentável falta de respeito por sua personalidade.

não adianta chamá-lo de perdedor.

não adianta escrever uma postagem furiosa.

não adianta anunciar que ninguém na história da humanidade foi tão extraordinário quanto o atual ocupante da casa branca.

a bomba simplesmente apresenta o valor.

é uma experiência democrática bastante eficiente. todos podem ter opiniões diferentes sobre o presidente, mas o visor do posto de gasolina não costuma aceitar argumentos.

e talvez seja justamente isso que esteja incomodando.

porque o espetáculo funciona maravilhosamente enquanto alguém acredita que está assistindo de graça. quando descobre que também participa do financiamento, a diversão perde um pouco do encanto.

mas seria ingênuo imaginar que a queda de popularidade representa uma grande transformação intelectual da sociedade americana.

não há evidência de que milhões de pessoas tenham acordado simultaneamente, preparado um café e decidido estudar ciência política.

pesquisas de aprovação refletem avaliações diferentes, por motivos diferentes. há insatisfação econômica, divergências sobre políticas públicas e rejeições que já existiam antes.

não é uma cerimônia coletiva de arrependimento.

e talvez essa seja a parte mais reveladora.

porque o que está acontecendo com trump diz menos sobre uma súbita descoberta da democracia e mais sobre nossa relação cada vez mais estranha com o poder.

aprendemos a admirar políticos como admiramos celebridades.

não importa tanto o que conseguem administrar. importa o que conseguem provocar.

queremos frases memoráveis, confrontos, humilhações públicas e aquela sensação deliciosa de pertencer ao grupo que está vencendo a discussão.

a política virou uma espécie de campeonato de egos, com bandeiras, torcidas e uma quantidade impressionante de adultos que parecem ter esquecido que o resultado não termina quando o juiz apita.

o presidente pode ganhar a discussão e o cidadão continuar perdendo poder de compra.

uma vitória extraordinária, desde que ninguém examine o recibo.

e isso não acontece apenas nos estados unidos.

a tentação de confundir carisma com competência é internacional. atravessa fronteiras com muito mais facilidade do que refugiados e dispensa visto de entrada.

há uma atração quase infantil pelo homem que promete resolver tudo sozinho.

alguém que entra numa sala, bate na mesa, ameaça os adversários e anuncia que finalmente colocará ordem na bagunça.

é uma fantasia maravilhosa.

especialmente para quem nunca precisou administrar um condomínio.

porque governar envolve instituições, leis, negociações, consequências econômicas e pessoas que, por algum defeito da democracia, insistem em discordar.

nada disso cabe facilmente numa frase de efeito.

e frases de efeito são muito mais agradáveis do que explicações.

o cidadão quer alguém que diga que tudo será resolvido.

não necessariamente alguém que explique como.

afinal, explicações exigem atenção. promessas exigem apenas entusiasmo.

trump compreendeu perfeitamente essa diferença.

construiu uma carreira política transformando cada controvérsia numa oportunidade de ocupar o centro da conversa.

mesmo quem o detesta frequentemente passa boa parte do dia falando dele.

é uma capacidade extraordinária.

mas atenção não reduz automaticamente preços, não resolve conflitos internacionais e não transforma uma promessa em resultado.

a realidade tem essa mania desagradável de exigir trabalho depois que os aplausos terminam.

e talvez seja por isso que a popularidade esteja sofrendo.

não porque o mundo tenha desenvolvido uma súbita aversão ao espetáculo.

mas porque parte da plateia começou a perceber que os ingressos são caros.

ainda assim, milhões de americanos continuam aprovando trump. isso não é um paradoxo. pessoas avaliam governos de maneiras distintas e podem apoiar certas decisões enquanto rejeitam outras.

o que chama atenção é a persistência da política como experiência emocional.

para muita gente, admitir que uma liderança decepcionou pode ser mais difícil do que reconhecer um erro de cálculo.

porque, quando um político deixa de ser apenas um político e passa a representar a identidade de alguém, criticá-lo parece uma ofensa pessoal.

e ninguém gosta de descobrir que investiu anos de entusiasmo numa promessa que talvez não entregue aquilo que imaginava.

é mais confortável encontrar uma explicação alternativa.

a culpa é da imprensa. dos adversários. dos burocratas. dos estrangeiros. das circunstâncias. de qualquer coisa que permita preservar intacta a imagem do protagonista.

o problema é que a inflação não costuma aceitar desculpas ideológicas como forma de pagamento.

e a economia doméstica possui uma habilidade cruel para interromper grandes narrativas.

é possível defender uma visão grandiosa de futuro enquanto o cartão ainda tem limite.

quando o limite acaba, o futuro precisa aguardar.

talvez seja essa a grande lição dos 31%.

não que trump esteja politicamente acabado. pesquisas mudam, governos recuperam aprovação e eleições dependem de muito mais do que um levantamento isolado.

mas o número expõe a distância entre a imagem de força e a experiência concreta de governar.

uma distância que nenhum slogan consegue eliminar para sempre.

e também expõe algo sobre nós.

somos uma civilização capaz de colocar satélites em órbita, desenvolver inteligência artificial e realizar descobertas científicas extraordinárias.

mas continuamos extraordinariamente vulneráveis ao sujeito que sobe num palco e promete resolver tudo porque, ao contrário dos outros, ele é especial.

compramos a promessa, defendemos o personagem, discutimos com desconhecidos e transformamos divergências políticas em conflitos pessoais.

depois, quando a realidade apresenta a fatura, ficamos surpresos.

uma surpresa comovente.

é como entrar num restaurante porque o dono passou a noite insultando os concorrentes, ignorar completamente o cardápio e reclamar quando a comida chega fria.

talvez o chef fosse excelente em produzir manchetes.

cozinhar era outra questão.

o mais curioso é que essa confusão entre espetáculo e competência continua sendo vendida como uma demonstração de sofisticação política.

não precisamos de políticos que expliquem problemas. queremos personagens que prometam derrotá-los.

não queremos dúvidas. queremos certezas.

não queremos administração. queremos emoção.

e, se possível, uma boa briga para acompanhar o jantar.

trump não inventou essa fome de espetáculo.

apenas aprendeu a alimentá-la melhor do que quase todo mundo.

os 31% mostram que a aprovação pode cair quando as expectativas encontram a realidade. não demonstram, por si só, que o público abandonou o gosto por esse tipo de política.

e é aí que a história fica interessante.

porque a verdadeira questão não é quanto tempo trump levará para recuperar popularidade, se é que recuperará.

é quanto tempo levaremos para parar de confundir alguém que sabe conquistar uma plateia com alguém que sabe cuidar de um país.

talvez o problema nunca tenha sido apenas o homem no palco.

talvez seja nossa extraordinária disposição de aplaudir antes de descobrir quem vai pagar a conta.

e, quando ela finalmente chega, temos a audácia de chamar aquilo de surpresa.

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2026

eu amo semiótica

uma das coisas que mais me chamou a atenção no debate de ontem entre lula e flávio bolsonaro foi algo que aconteceu enquanto lula falava. flávio ficava atrás dele, gesticulando, balançando o dedo negativamente, fazendo expressões de ironia. e isso me lembrou imediatamente o debate de 2016 entre hillary clinton e donald trump.

e tem muita ciência por trás dessa história. principalmente quando pensamos no eleitor indeciso.

em 2016, trump circulava pelo palco e ficava parado atrás de hillary enquanto ela respondia às perguntas. aquilo foi interpretado por muita gente como uma demonstração de intimidação e domínio. hillary tentava manter a postura e falar com o público, enquanto trump disputava a atenção simplesmente ocupando o espaço ao redor dela.

ontem, flávio fez algo semelhante, mas com uma diferença importante. trump usava principalmente a presença física, a proximidade e o tamanho do corpo. flávio usou mais a expressão facial e os gestos de negação. um parecia querer demonstrar domínio sobre a adversária. o outro parecia querer desacreditar tudo o que o adversário dizia.

e olha que interessante: existe um estudo de 2005, publicado no journal of social psychology, que analisou justamente como o público reage quando um candidato fica demonstrando discordância com gestos enquanto o outro fala. o resultado é curioso. quem fazia esses gestos acabava sendo percebido como menos adequado ao debate. e, quando a discordância era constante, quem estava falando podia até sair com uma imagem melhor.

ou seja, algo que parece uma demonstração de força pode produzir exatamente o efeito contrário.

e tem outra questão que a psicologia cognitiva ajuda a explicar. nossa atenção responde a expressões faciais, movimentos e sinais de conflito. quando alguém está falando e outra pessoa aparece ao fundo fazendo gestos de deboche, passamos a receber duas mensagens ao mesmo tempo. uma verbal, com argumentos, e outra visual, sugerindo que aqueles argumentos não merecem crédito.

o curioso é que a segunda mensagem nem precisa apresentar provas. basta uma expressão de desprezo para tentar colocar em dúvida aquilo que está sendo dito. é como se alguém colocasse uma legenda emocional na fala do adversário.

mas o ponto que acho mais interessante é o eleitor indeciso.

quem já gosta do flávio provavelmente viu ali alguém corajoso, seguro, que não abaixa a cabeça. quem já gosta do lula provavelmente viu arrogância, desrespeito e imaturidade. isso tem relação com um fenômeno bastante estudado na psicologia política, nossas preferências anteriores influenciam a maneira como interpretamos o comportamento de um candidato.

só que o indeciso não tem necessariamente essa mesma convicção. e indeciso também não significa desinformado. às vezes é alguém que conhece os dois, não confia plenamente em nenhum e está tentando descobrir quem parece mais preparado para governar.

e nesse caso a linguagem corporal pode ter um peso enorme.

porque esse eleitor pode nem lembrar exatamente o argumento econômico apresentado por um ou por outro, mas pode sair do debate com uma sensação muito clara sobre o comportamento dos dois. quem demonstrou segurança? quem pareceu nervoso? quem transmitiu equilíbrio? quem parecia estar querendo resolver alguma coisa e quem parecia interessado apenas em provocar?

percebe o risco?

flávio pode conseguir chamar a atenção e agradar muito quem já votaria nele. mas também pode provocar no indeciso uma pergunta bastante desconfortável, se ele se comporta assim num debate, como vai se comportar diante de uma crise de verdade?

por outro lado, há quem interprete exatamente essa postura como sinal de força, de alguém disposto a enfrentar o sistema. e isso ajuda a entender por que a mesma cena pode despertar admiração em uma pessoa e rejeição em outra.

existe ainda uma diferença que acho fundamental entre 2016 e ontem. trump estava diante de uma mulher, e a proximidade física acrescentava uma leitura de intimidação que envolvia também expectativas sociais sobre gênero. no confronto entre flávio e lula, essa dimensão é diferente. o peso visual está muito mais na disputa entre autoridade e deboche, experiência e enfrentamento.

mas tem um outro elemento nessa comparação que acho ainda mais interessante. lula tem 80 anos e flávio 45. e isso acrescenta uma camada completamente diferente à leitura da cena. porque, culturalmente, existe uma expectativa de respeito aos mais velhos, independentemente de concordarmos com eles. quando um homem mais jovem fica atrás de um senhor de 80 anos fazendo gestos de deboche, parte do público pode interpretar aquilo não apenas como uma provocação política, mas como uma demonstração de desrespeito a alguém mais velho.

e essa questão fica ainda mais curiosa porque a própria campanha de flávio explora a idade de lula como sinal de que chegou a hora de uma mudança. no debate, inclusive, flávio chegou a dizer que o brasil iria aposentá-lo. ou seja, existe um discurso verbal que associa juventude à renovação e idade avançada ao fim de um ciclo. mas, quando esse discurso vem acompanhado de gestos que podem parecer desrespeitosos, a mensagem corre o risco de se voltar contra quem a utiliza.

e aqui entra novamente a semiótica. a mesma imagem pode comunicar duas coisas completamente diferentes. para alguns, um jovem enfrentando um político experiente e representando o novo. para outros, um homem mais jovem debochando de alguém que poderia ter a idade de seu pai ou de seu avô.

e pense no eleitor indeciso, especialmente naquele que valoriza muito o respeito aos mais velhos. ele pode até concordar que lula está velho demais para governar, mas isso não significa que ache aceitável vê-lo sendo tratado com deboche. é perfeitamente possível alguém questionar a capacidade de um político continuar no cargo e, ao mesmo tempo, sentir incômodo com a maneira como seu adversário se comporta diante dele.

aliás, essa talvez seja uma das contradições mais interessantes dessa estratégia. ao tentar representar juventude e força, flávio corre o risco de fazer lula parecer justamente aquilo que sua campanha tenta transformar em fraqueza: um senhor mais velho diante de alguém que parece não respeitá-lo.

e não estou dizendo que essa foi necessariamente a leitura das pessoas. estou dizendo que, do ponto de vista da comunicação, é uma possibilidade muito real. e que pode pesar justamente entre aqueles que ainda não escolheram um lado.

e tem algo que torna tudo isso ainda mais interessante… um debate hoje também é feito para virar corte nas redes sociais. um gesto de três segundos pode circular milhões de vezes sem que ninguém saiba exatamente o que estava sendo discutido. a imagem viaja sozinha, e cada grupo político coloca a legenda que quiser.

e isso me faz pensar numa coisa, talvez o maior desafio de quem participa de um debate não seja apenas convencer o eleitor de que está certo, mas conseguir transmitir que tem equilíbrio emocional para ocupar o cargo.

porque existe uma diferença enorme entre parecer forte e parecer preparado.

e para o eleitor indeciso, essa diferença pode ser decisiva.

no fundo, a semiótica nos mostra uma coisa fascinante, enquanto um candidato tenta convencer com palavras, o outro pode tentar desmenti-lo com o corpo. só que a interpretação final não pertence a nenhum dos dois.

pertence a quem está assistindo.

e esse talvez seja o maior perigo de transformar um debate presidencial numa competição de caretas. você pode conquistar os aplausos de quem já está do seu lado e, ao mesmo tempo, perder silenciosamente quem ainda estava disposto a te ouvir.

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2026

leão xiv: o americano que me fez engolir minhas certezas num mundo que perdeu a vergonha de enlouquecer

na tarde de 8 de maio de 2025, quando a fumaça branca começou a subir da chaminé da capela sistina, senti uma emoção que não esperava. havia alguma coisa profundamente bonita naquela multidão olhando para o céu, esperando que um sinal tão antigo anunciasse alguma esperança para um mundo tão absurdamente moderno.

nenhum aplicativo. nenhum algoritmo. nenhuma pesquisa de popularidade. apenas uma chaminé, alguns sinos e milhares de pessoas acreditando que ainda valia a pena esperar por alguma coisa boa.

por alguns minutos, o mundo pareceu menos louco.

então anunciaram que o novo papa era americano.

e eu pensei, meu deus, até o senhor resolveu terceirizar para os estados unidos?

não bastavam hollywood, wall street, o pentágono, o vale do silício e a mania de tratar o planeta como um condomínio onde washington preside a reunião de moradores? agora também a cadeira de são pedro?

confesso que imaginei o céu sendo reorganizado por consultores de gestão. são pedro obrigado a cumprir metas trimestrais, os anjos participando de reuniões de produtividade e a salvação oferecida em três modalidades de assinatura.

mas minha preocupação não era apenas com o passaporte do novo pontífice.

era com o homem que ele precisava suceder.

francisco.

aquele argentino que conseguiu fazer o mundo inteiro prestar atenção num velho de branco falando sobre coisas que, aparentemente, havíamos começado a considerar ultrapassadas: bondade, humildade, misericórdia, solidariedade.

francisco não precisava parecer poderoso. sua força estava justamente em não precisar demonstrar poder.

num planeta apaixonado por homens que batem na mesa, ele preferia estender a mão.

e isso, convenhamos, é uma atitude bastante provocativa.

porque bater na mesa qualquer sujeito com um cargo importante consegue. estender a mão a alguém que o mundo prefere ignorar exige uma coragem de outra natureza.

francisco tinha a capacidade de transformar gestos pequenos em acontecimentos enormes. aproximava-se de alguém esquecido, ouvia uma história, abraçava uma pessoa que ninguém fotografaria por iniciativa própria.

e, de repente, aquele homem desconhecido passava a existir diante dos olhos do mundo.

não porque tivesse conquistado alguma coisa.

mas porque alguém importante havia decidido tratá-lo como importante.

eu achava impossível substituir aquilo.

e talvez fosse mesmo.

mas cometi um erro, imaginei que o sucessor precisaria repetir a mesma música.

quando robert francis prevost apareceu na sacada da basílica de são pedro, vi um homem emocionado, tentando encontrar palavras diante de uma responsabilidade quase inconcebível.

não havia ali um conquistador anunciando sua chegada.

havia um homem que parecia compreender o peso do lugar onde estava.

e sua primeira mensagem foi de paz.

não uma declaração de grandeza. não uma promessa de vitória. não uma demonstração de autoridade.

paz.

uma palavra pequena, quase tímida, diante do tamanho do mundo.

e talvez justamente por isso tão poderosa.

porque estamos vivendo numa época em que a paz se tornou uma palavra curiosa. todo mundo diz desejá-la, desde que ela não atrapalhe demais os próprios interesses.

governos falam de paz enquanto ampliam arsenais. empresas anunciam um futuro melhor enquanto disputam quem consegue controlar mais aspectos da nossa vida. homens poderosos prometem estabilidade com a delicadeza de quem está prestes a quebrar a mobília.

e, no meio desse espetáculo, aparece um homem vestido de branco pedindo paz.

sem ameaçar ninguém.

sem anunciar sanções.

sem apresentar uma lista de inimigos.

é quase uma afronta aos costumes contemporâneos.

o mundo está tão acostumado com a arrogância que a serenidade começa a parecer revolucionária.

e talvez seja isso que tenha começado a me conquistar em leão xiv.

não a ideia de que ele será outro francisco.

mas a possibilidade de que seja exatamente o papa de que este tempo precisa.

um homem nascido em chicago, que viveu durante anos no peru, conheceu comunidades distantes dos grandes centros de poder e aprendeu que a vida humana não se resume às prioridades de quem tem dinheiro para definir a agenda do planeta.

um americano que parece compreender que o mundo não é propriedade dos americanos.

o que, convenhamos, já representa uma agradável quebra de expectativa.

e há algo ainda mais interessante, leão xiv não parece querer vencer a disputa pelo volume da voz.

num tempo em que políticos competem para ver quem consegue produzir a frase mais agressiva, bilionários transformam opiniões pessoais em acontecimentos internacionais e qualquer desconhecido com um telefone se considera autorizado a dar lições definitivas sobre a existência, um homem que fala com calma corre o risco de ser confundido com alguém sem força.

mas talvez tenhamos esquecido que a verdadeira autoridade não precisa gritar.

um professor que conhece profundamente seu assunto não precisa humilhar seus alunos. um bom médico não precisa transformar o sofrimento do paciente em espetáculo. uma pessoa realmente segura de si não precisa vencer todas as conversas.

e um papa não precisa disputar popularidade com os homens que transformaram o mundo numa competição permanente de egos.

sua tarefa é muito maior.

talvez uma das mais difíceis desde os grandes conflitos e transformações do século xx.

porque leão xiv não recebeu apenas uma igreja para conduzir.

recebeu um mundo que consegue fazer coisas extraordinárias e parece cada vez mais confuso sobre o que realmente importa.

criamos máquinas capazes de conversar, escrever, desenhar, traduzir idiomas e realizar tarefas que pareciam impossíveis há poucos anos.

uma conquista maravilhosa.

mas ainda não descobrimos como impedir que tanta gente se sinta sozinha.

construímos cidades iluminadas durante a noite inteira, mas continuamos incapazes de enxergar algumas pessoas que vivem nelas.

podemos atravessar oceanos em poucas horas, mas há famílias que passam anos separadas por fronteiras, guerras e circunstâncias que não escolheram.

temos acesso a praticamente todo o conhecimento humano na palma da mão.

e, mesmo assim, às vezes precisamos de alguém para nos lembrar de ouvir.

é uma ironia magnífica.

o mundo inteiro conectado.

e tanta gente sem encontrar uma pessoa com quem conversar de verdade.

talvez seja por isso que a mensagem de um papa possa alcançar até quem não frequenta uma igreja.

porque a fé, quando é capaz de inspirar alguma coisa boa, não deveria funcionar como uma cerca que separa os que pertencem dos que ficaram de fora.

deveria ser uma porta.

francisco parecia compreender isso profundamente.

e começo a ter esperança de que leão xiv também compreenda.

não porque suas palavras sejam sempre perfeitas. nem porque a igreja esteja livre de contradições. há problemas reais, feridas que exigem justiça e responsabilidades que não desaparecem com uma bênção.

mas porque o pontificado pode oferecer algo que anda perigosamente escasso… um convite a sermos melhores sem precisar primeiro escolher alguém para odiar.

e essa talvez seja a maior provocação possível no mundo de hoje.

imaginem o escândalo.

um líder que não precisa inventar um inimigo para reunir pessoas.

que não precisa humilhar alguém para demonstrar força.

que não precisa prometer que seu povo será maior do que os outros.

que pode simplesmente dizer que ninguém deveria ser esquecido.

é quase um absurdo administrativo.

como organizar uma campanha de poder baseada na ideia de que até quem não tem poder merece respeito?

como transformar isso num slogan agressivo?

como vender a compaixão como uma demonstração de superioridade?

não funciona.

e ainda bem.

porque talvez estejamos precisando de alguma coisa que não funcione segundo as regras desse espetáculo.

penso novamente naquela fumaça branca.

num mundo em que quase tudo acontece depressa demais, milhares de pessoas pararam para esperar.

esperaram por um nome.

por um rosto.

por uma palavra.

e a palavra foi paz.

talvez eu tenha subestimado a força desse momento.

eu estava preocupado com a nacionalidade do homem.

com a sombra gigantesca de francisco.

com o risco de que um novo papa não conseguisse despertar a mesma emoção.

mas talvez a beleza da sucessão esteja justamente em descobrir que a esperança não pertence a uma única pessoa.

francisco foi francisco.

leão será leão.

e a mensagem que ambos receberam é muito mais antiga do que seus nomes, suas nacionalidades e suas diferenças.

uma mensagem que atravessou impérios, guerras, descobertas, revoluções e séculos inteiros de mudanças humanas.

uma mensagem que, apesar de toda a nossa tecnologia, continua surpreendentemente difícil de praticar.

amar o próximo.

duas palavras que parecem simples até descobrirmos que o próximo também pode ser alguém de quem discordamos.

alguém que não conhecemos.

alguém que não pode nos oferecer absolutamente nada.

e talvez esteja aí o grande desafio de leão xiv.

não convencer o mundo de que a igreja é importante.

mas ajudar a igreja a demonstrar por que sua mensagem ainda pode ser importante para o mundo.

não disputar espaço com os homens poderosos.

mas lembrar que a grandeza de uma pessoa não se mede pelo número de pessoas que lhe obedecem.

e sim pela maneira como trata aquelas que não têm obrigação nenhuma de obedecer.

confesso que hoje olho para aquele americano com uma esperança que não imaginava sentir.

não uma esperança ingênua. ainda haverá decisões difíceis, críticas, falhas e decepções possíveis. nenhum papa está acima da condição humana, e talvez seja bom que não esteja.

mas uma esperança que nasce justamente da surpresa.

a surpresa de descobrir que um homem pode contrariar nossas expectativas para melhor.

que um sucessor pode honrar seu antecessor sem imitá-lo.

que a serenidade pode ter força.

que a fé pode continuar inspirando gente num mundo tão apaixonado por certezas barulhentas.

e que talvez ainda existam pessoas dispostas a assumir responsabilidades enormes sem precisar transformar isso num espetáculo sobre a própria importância.

naquela tarde de maio, vi a fumaça branca e temi que o mundo estivesse prestes a perder alguma coisa do que francisco havia deixado.

hoje começo a pensar que talvez tenha acontecido o contrário.

talvez tenhamos recebido uma oportunidade de continuar.

de continuar acreditando que a bondade não é ingenuidade.

que a humildade não é fraqueza.

que a paz não é uma palavra decorativa.

e que a esperança não precisa morrer quando morre alguém que nos ensinou a senti-la.

eu achava que seria impossível substituir francisco. e estava certo.

o que eu não havia entendido é que ninguém precisava substituí-lo. era preciso continuar aquilo que ele havia começado.

e talvez seja essa a beleza de leão xiv.

um americano que me fez rever meus preconceitos.

um homem que não precisa gritar para ser ouvido.

um papa que recebeu um mundo extraordinariamente complicado e decidiu começar com uma palavra que todos conhecemos, mas que parecemos ter esquecido como praticar.

paz.

quando aquela fumaça branca subiu ao céu, pensei que estava assistindo à escolha de um novo papa.

hoje, quase um ano e meio depois, começo a perceber que talvez estivesse assistindo a algo ainda mais bonito.

a lembrança de que, mesmo quando o mundo parece determinado a perder o rumo, ainda pode haver alguém disposto a apontar um caminho sem precisar empurrar ninguém.

e pensar que minha primeira preocupação era o fato de ele ser americano.

às vezes, a esperança tem um senso de humor melhor do que o nosso.

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2025

milionários em exposição e miseráveis em existência

há um homem morrendo numa mansão tão grande que provavelmente seria necessário um aplicativo de localização para encontrar o banheiro. ele tem dinheiro, jornais, obras de arte, influência política, empregados e uma quantidade obscena de objetos que ninguém precisa. antes de morrer, pronuncia uma única palavra: rosebud.

é assim que orson welles começa cidadão kane, em 1941.

e é impressionante como um filme de 85 anos consegue parecer mais interessado no nosso presente do que boa parte das pessoas que vivem nele.

charles foster kane passou a vida inteira tentando possuir o mundo. comprou jornais, colecionou estátuas, construiu um palácio, fabricou sua própria importância e tentou convencer todo mundo de que aquilo era felicidade.

hoje, provavelmente teria um podcast.

e uma equipe de marketing explicando que sua solidão era, na verdade, uma estratégia de posicionamento.

o mais perturbador em cidadão kane não é a riqueza do personagem. é sua incapacidade de perceber que está cercado de tudo, menos daquilo que realmente deseja.

kane compra coisas porque não consegue construir relações. compra influência porque não suporta ser contrariado. compra admiração porque não sabe o que fazer com o amor quando ele não vem acompanhado de obediência.

é um homem que confunde ser visto com ser amado.

e aqui estamos nós, quase um século depois, fazendo exatamente a mesma coisa, só que com celulares mais caros e apartamentos menores.

kane precisava comprar um jornal para controlar a narrativa sobre si mesmo.

nós conseguimos fazer isso antes do café da manhã.

acordamos, pegamos o telefone e começamos a administrar nossa pequena empresa de relações públicas. escolhemos uma fotografia, corrigimos a luz, eliminamos uma espinha, escrevemos uma legenda que sugira uma vida interessante e aguardamos a reação do mercado.

um coração vermelho significa aprovação.

um comentário significa relevância.

o silêncio significa que talvez precisemos postar outra coisa.

nunca houve tanta gente trabalhando gratuitamente para divulgar a própria existência.

o mais engraçado é que chamamos isso de liberdade.

temos a liberdade de escolher o filtro, a música, a frase e o horário da publicação. depois, entregamos tudo a um sistema que decide quantas pessoas poderão ver.

kane controlava os jornais. nós somos controlados pela distribuição.

é uma democratização bastante curiosa da vaidade.

antes, era preciso ser um magnata para transformar a própria vida num espetáculo. hoje, basta aceitar os termos de uso.

há uma cena extraordinária no filme em que kane tenta transformar sua segunda esposa, susan alexander, numa cantora de ópera.

ela não tem talento para aquilo. não deseja aquela carreira. sofre, fracassa e implora para parar.

mas kane não está interessado em música.

está interessado em vencer.

ele precisa provar que seu dinheiro e sua vontade são suficientes para transformar uma mulher comum numa grande artista. a opinião dela é um detalhe administrativo.

essa cena deveria ser exibida em todas as reuniões de pessoas que dizem estar apenas tentando ajudar alguém a alcançar seu potencial.

vivemos cercados de pequenos kane. gente que não consegue aceitar que outra pessoa tenha desejos próprios. pais que planejam a vida dos filhos como quem organiza uma aquisição empresarial. chefes que chamam controle de liderança. influenciadores que vendem modelos de felicidade com a mesma delicadeza de um vendedor de aspiradores às oito da manhã.

todo mundo parece saber o que é melhor para todo mundo. e quase ninguém suporta ouvir um simples não.

o problema de kane não era desejar que susan tivesse sucesso. era precisar que o sucesso dela comprovasse a grandeza dele.

isso continua assustadoramente atual.

há pessoas que não querem que você seja feliz. querem que você seja feliz do jeito que elas imaginaram, de preferência agradecendo pela oportunidade.

mas a parte mais cruel de cidadão kane está na maneira como o filme desmonta a ideia de que conhecer alguém é reunir informações sobre essa pessoa.

depois da morte do magnata, um jornalista sai entrevistando antigos amigos, amantes e funcionários para descobrir o significado de rosebud.

cada um oferece uma versão de kane.

o homem ambicioso. o amigo generoso. o marido impossível. o empresário brilhante. o sujeito ressentido. o menino abandonado.

todos conheceram alguma coisa dele. ninguém conheceu tudo. é praticamente uma descrição das nossas relações contemporâneas.

sabemos onde uma pessoa passou as férias, o que comeu no sábado, qual música escolheu para acompanhar uma fotografia e que opinião resolveu publicar sobre o assunto da semana.

às vezes sabemos até quantos quilômetros ela correu antes das sete da manhã, informação que a humanidade conseguiu dispensar durante milhares de anos sem grandes prejuízos.

mas não sabemos se ela está feliz.

não sabemos o que a mantém acordada à noite.

não sabemos se o trabalho a esgota, se sente falta de alguém ou se aquela viagem maravilhosa foi uma tentativa desesperada de escapar de uma vida que já não suporta.

temos acesso a uma quantidade absurda de detalhes e chamamos isso de intimidade.

é como tentar compreender um restaurante lendo apenas o cardápio.

podemos conhecer os ingredientes, os preços, a decoração e a biografia do chef. ainda assim, nada disso nos diz se alguém, naquela cozinha, sabe realmente cozinhar.

com as pessoas acontece algo parecido.

colecionamos informações sobre suas vidas sem necessariamente participar delas.

kane construiu xanadu, um palácio monumental cheio de tesouros, esculturas e objetos adquiridos ao redor do mundo.

não parece uma casa.

parece um depósito de coisas caras tentando preencher um buraco muito antigo.

hoje, xanadu cabe no bolso.

temos bibliotecas de músicas que nunca ouvimos, listas de filmes que jamais veremos, milhares de fotografias que não revisitamos, roupas que raramente usamos e uma coleção interminável de produtos que compramos porque alguém conseguiu nos convencer de que nossa versão atual estava ligeiramente incompleta.

é sempre a próxima coisa.

o próximo telefone. a próxima viagem. o próximo restaurante. o próximo corpo. o próximo apartamento. a próxima experiência transformadora, convenientemente disponível em doze parcelas.

a indústria da felicidade encontrou uma maneira genial de continuar funcionando… precisa garantir que a felicidade nunca seja entregue definitivamente.

porque um consumidor satisfeito é um problema comercial.

kane tinha dinheiro suficiente para comprar praticamente qualquer coisa, mas continuava incapaz de comprar o que lhe faltava.

nós talvez não tenhamos seu dinheiro, mas aprendemos perfeitamente o método.

compramos para sentir alguma coisa.

e, quando a sensação passa, compramos de novo.

existe ainda uma ironia deliciosa no fato de cidadão kane ser um filme sobre um homem que usa a imprensa para moldar a percepção pública.

kane publica manchetes, influencia opiniões e constrói uma imagem grandiosa de si mesmo.

não inventou a manipulação. apenas descobriu como transformá-la em negócio.

hoje, a situação é mais sofisticada.

não precisamos de um único magnata decidindo o que milhões de pessoas vão ler. temos plataformas capazes de descobrir o que nos irrita, o que nos excita, o que desperta nosso medo e o que nos mantém olhando para a tela por mais alguns minutos.

e então recebemos exatamente isso.

não necessariamente aquilo que precisamos saber.

aquilo que dificilmente conseguiremos ignorar.

a velha imprensa de kane precisava vender jornais. as plataformas precisam vender nossa atenção.

o produto mudou. a matéria-prima continua sendo a mesma, o desejo humano de acreditar numa história que faça sentido para si próprio.

e somos clientes extraordinariamente cooperativos.

adoramos notícias que confirmam nossas certezas. compartilhamos opiniões antes de terminar de ler. transformamos desconhecidos em heróis ou monstros com base em quinze segundos de vídeo.

depois reclamamos que o mundo ficou superficial. como se estivéssemos apenas passando pela região.

mas seria fácil demais transformar cidadão kane numa crítica aos ricos, às redes sociais ou ao consumismo.

o filme é mais cruel do que isso.

ele pergunta o que acontece quando uma pessoa passa a vida inteira construindo uma imagem de sucesso e perde a capacidade de reconhecer aquilo que realmente lhe importava.

kane não era simplesmente um homem ganancioso.

era um menino que havia sido separado de sua infância e passou décadas tentando compensar uma perda que jamais conseguiu compreender completamente.

a revelação final de rosebud não oferece uma solução mágica para sua personalidade. um trenó não explica sozinho uma vida inteira. seria ridículo reduzir um homem tão contraditório a um brinquedo de infância.

mas aquela palavra sugere uma ausência.

algo que existia antes do dinheiro, do poder, das manchetes e das pessoas interessadas em agradá-lo.

algo que ele não conseguiu recuperar.

e essa talvez seja a parte que mais incomoda.

porque nossa época não apenas nos incentiva a conquistar coisas. ela nos convence de que devemos transformar cada conquista numa prova pública de que estamos vivendo corretamente.

não basta viajar. é preciso registrar.

não basta jantar. é preciso mostrar.

não basta amar. é preciso publicar.

não basta estar feliz. é preciso produzir evidências.

o sujeito pode estar sentado diante do mar mais bonito que já viu, mas, se não conseguir uma boa fotografia, corre o risco de achar que perdeu alguma coisa.

perdeu mesmo.

o mar.

há um momento da vida em que deveríamos começar a desconfiar de tudo aquilo que exige uma plateia.

não porque compartilhar seja ruim. contar histórias, mostrar fotografias e dividir alegrias sempre fizeram parte da experiência humana.

mas porque existe uma diferença enorme entre viver algo e precisar que os outros confirmem que aquilo valeu a pena.

kane precisava que o mundo inteiro reconhecesse sua importância.

nós começamos a ficar desconfortáveis quando uma publicação não recebe atenção suficiente.

ele construiu um palácio para abrigar sua coleção de objetos.

nós construímos versões digitais de nós mesmos e passamos os dias cuidando delas.

ele queria controlar o que os jornais diziam a seu respeito.

nós aprendemos a editar a própria vida antes que alguém tenha a oportunidade de vê-la.

e talvez a maior semelhança esteja no medo.

o medo de não ser admirado. de ser esquecido. de não ter conseguido o suficiente. de descobrir que aquela pessoa aparentemente bem-sucedida, que aparece nas fotografias sorrindo em lugares maravilhosos, não está tão satisfeita assim quando ninguém está olhando.

a vida moderna oferece distrações extraordinárias para evitar esse encontro.

sempre há uma notificação.

uma notícia urgente.

uma promoção imperdível.

uma nova discussão.

um vídeo que começa automaticamente.

é impressionante o trabalho que desenvolvemos para nunca precisar ficar alguns minutos sozinhos com a própria cabeça.

kane tinha corredores intermináveis em xanadu.

nós temos uma tela infinita.

ambos são excelentes lugares para se perder.

o mais estranho é que cidadão kane não termina com uma grande revelação capaz de explicar definitivamente seu protagonista.

o jornalista não descobre o significado de rosebud.

nós, espectadores, descobrimos.

e isso não muda absolutamente nada.

kane continua morto. suas relações continuam destruídas. sua fortuna continua incapaz de devolver aquilo que perdeu.

o trenó acaba queimado entre os objetos descartados de xanadu.

é uma conclusão de uma crueldade quase perfeita.

o objeto que carregava um significado íntimo para aquele homem é tratado como lixo por pessoas que não têm como reconhecê-lo.

e talvez seja essa a pergunta que o filme nos deixa, oitenta e cinco anos depois.

entre todas as coisas que estamos acumulando, exibindo, defendendo e perseguindo, quais realmente importam?

não aquelas que impressionam os outros.

não aquelas que ficam bonitas numa fotografia.

não aquelas que ajudam a construir a biografia de alguém aparentemente extraordinário.

as outras.

aquelas pequenas coisas que talvez nem saibamos explicar direito. uma conversa antiga. uma tarde que parecia não ter importância. uma pessoa que já morreu. uma casa onde não moramos mais. um cheiro de comida vindo da cozinha. uma versão de nós mesmos que ainda não precisava provar nada a ninguém.

talvez estejamos tão ocupados fabricando uma vida admirável que mal percebemos quando deixamos de viver uma vida que nos agrada.

e o mais perverso é que ninguém precisa nos obrigar a isso.

fazemos voluntariamente.

com entusiasmo.

às vezes pagando uma assinatura mensal.

charles foster kane morreu cercado por uma fortuna e pronunciou o nome de um trenó.

nós ainda temos tempo de descobrir o que é nosso rosebud.

seria interessante fazer isso antes de gastar a vida inteira comprando coisas para não precisar pensar no assunto.

porque a verdadeira tragédia de cidadão kane não é que um homem tenha conseguido tudo e terminado sozinho. é que ele passou a vida confundindo tudo aquilo que podia possuir com aquilo que jamais conseguiu ter.

e, olhando ao redor, parece que transformamos esse equívoco num modelo de negócios.

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2026

o perigo não está apenas em quem chega ao poder. está em quem poderá dizer não.

em 1923, adolf hitler participou de uma tentativa de golpe na alemanha. foi preso, condenado e, algum tempo depois, libertado.

a prisão não encerrou sua carreira. anos mais tarde, o partido nazista conquistou uma bancada expressiva no parlamento, e hitler foi nomeado chanceler.

em 1933, depois de perseguir adversários, suspender direitos e intimidar deputados, seu governo conseguiu aprovar a lei de plenos poderes.

o parlamento autorizou o governo a fazer leis sem consultar o parlamento.

uma solução administrativa de admirável eficiência. especialmente para quem considerava a existência de oposição um desperdício de tempo.

a história oferece uma lição que dispensa qualquer semelhança pessoal entre políticos, o poder fica especialmente confortável quando quem deveria fiscalizá-lo começa a trabalhar para dispensar a fiscalização.

no brasil, a discussão tem ingredientes próprios.

jair bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de estado. seu filho flávio disputa a presidência, defende politicamente o pai e já falou sobre mudanças constitucionais com apoio de uma composição parlamentar mais à direita.

aqui surge uma pergunta interessante, se um presidente chega ao poder com uma bancada disposta a apoiar seu programa, o que acontece quando esse programa inclui mudanças nas instituições encarregadas de limitar o próprio presidente?

a resposta depende das propostas, evidentemente. uma maioria parlamentar não é um golpe. alterar a constituição também não. seria uma descoberta bastante desagradável para o direito constitucional se toda emenda fosse automaticamente suspeita.

mas também seria ingênuo acreditar que uma reforma se torna democrática apenas porque alguém resolveu chamá-la de “redemocratização”.

palavras são baratas. sobretudo quando o orçamento de comunicação é generoso.

a questão é saber o que se pretende fazer com as regras.

se a proposta altera o funcionamento do supremo, quais poderes serão modificados? se muda mecanismos de fiscalização, quem passa a fiscalizar? se trata de condenações relacionadas à tentativa de golpe, quais medidas estão sendo defendidas e dentro de quais limites legais?

essas são perguntas perfeitamente normais. curiosamente, costumam ser tratadas como inconvenientes justamente quando deveriam ser respondidas com maior clareza.

também existe uma peculiaridade familiar nessa eleição.

flávio bolsonaro disputa a presidência enquanto defende a situação jurídica de seu pai, condenado pelo supremo. já admitiu a possibilidade de jair bolsonaro participar de um eventual governo, embora tenha dito depois que uma nomeação não estava nos planos naquele momento.

isso não significa que possa libertá-lo por vontade própria, nem que uma eventual vitória produza automaticamente qualquer mudança judicial. existem competências, procedimentos e limites constitucionais.

mas significa que a relação entre interesses políticos, decisões judiciais e poder presidencial é um assunto concreto da campanha, não uma invenção de quem faz perguntas.

e é justamente por isso que a composição do congresso importa.

um presidente com maioria parlamentar pode conseguir aprovar boa parte de sua agenda. é assim que o sistema representativo funciona.

o detalhe, que às vezes passa despercebido entre uma comemoração eleitoral e outra, é que o congresso também existe para controlar o governo.

não foi criado apenas para facilitar a vida do ocupante do planalto.

uma maioria pode ajudar a executar políticas públicas. também pode apoiar propostas que reduzam controles institucionais. o que distingue uma coisa da outra não é o sobrenome do presidente, mas o conteúdo das medidas e o respeito às garantias constitucionais.

a constituição brasileira estabelece barreiras importantes, inclusive quóruns elevados para emendas e cláusulas que não podem ser abolidas.

ainda bem. seria uma arquitetura institucional bastante exótica aquela em que bastasse vencer uma eleição para adquirir o direito de reescrever todas as regras do jogo.

a alemanha de 1933 mostra por que essas barreiras importam. lá, a destruição da democracia combinou violência, perseguição e decisões institucionais que concentraram poder no executivo.

não é uma previsão sobre o brasil. é um exemplo histórico do que acontece quando limites deixam de funcionar.

por isso, diante de qualquer candidato que proponha mudanças profundas na constituição, a pergunta mais útil não é se ele tem votos suficientes para aprová-las.

é se, depois de aprovadas, a oposição ainda terá condições de se opor, os tribunais ainda poderão contrariar o governo e o congresso ainda será capaz de fiscalizá-lo.

porque a democracia tem uma característica irritante para quem gostaria de governar sem obstáculos: ela permite que outras pessoas digam não.

e essa é precisamente a parte que precisa continuar funcionando.

o congresso não é uma torcida organizada do presidente. se começar a se comportar como uma, o problema não será a falta de entusiasmo. será descobrir quem ficou responsável por apitar o jogo.

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2025

política não é futebol e patriotismo não deveria incluir um míssil americano

semana passada, acompanhei as imagens da manifestação de apoio a lula na avenida paulista. entre os cartazes, havia mensagens sobre educação, ciência, direitos trabalhistas, democracia e soberania nacional. era um ato eleitoral, evidentemente, com seus candidatos, discursos e palavras de ordem. mas algumas das frases que mais me chamaram a atenção tratavam de questões que continuariam existindo independentemente de quem estivesse na presidência.

hoje, na mesma avenida, aconteceu uma manifestação de apoio a flávio bolsonaro. entre as imagens divulgadas, uma se destacou… um enorme míssil inflável branco com a inscrição “trump nuke brazil”. um pedido, em inglês, para que o presidente dos estados unidos atacasse o brasil com armas nucleares.

é difícil imaginar um contraste mais estranho entre símbolo e mensagem. em volta do míssil, bandeiras brasileiras e pessoas vestidas de verde e amarelo. no próprio míssil, um apelo à destruição do território nacional.

o episódio tem uma particularidade ainda mais curiosa. segundo a cobertura do ato, a organização pediu aos participantes que recolhessem bandeiras estrangeiras para privilegiar os símbolos brasileiros. aparentemente, alguém percebeu a contradição visual de uma manifestação patriótica cercada de bandeiras americanas e israelenses. mas o míssil inflável continuou sendo uma maneira bastante peculiar de expressar sentimentos nacionais.

não sabemos se seus responsáveis pretendiam fazer uma provocação, uma brincadeira ou um pedido literal. e não seria correto atribuir aquela mensagem a toda a multidão.

o que sabemos é que o objeto esteve lá. e que a cena merece uma discussão muito mais interessante do que uma troca de insultos entre eleitores.

há uma longa história de movimentos políticos que recorrem a símbolos nacionais e, ao mesmo tempo, buscam apoio de governos estrangeiros. isso não é exclusividade brasileira nem de uma única corrente ideológica. alianças internacionais fazem parte da política. o que chama a atenção nesse caso é a natureza da mensagem… não se pedia cooperação, negociação ou pressão diplomática. a frase estampada no objeto mencionava um ataque nuclear.

é um salto considerável.

e talvez o episódio ajude a explicar o que acontece quando a identificação com uma liderança política começa a se confundir com a própria identidade nacional.

o bolsonarismo é um movimento que se organizou fortemente em torno da figura de jair bolsonaro. mesmo fora da presidência, seu nome permanece central na mobilização de apoiadores e na trajetória eleitoral de seu filho flávio. isso não significa que todos os eleitores pensem da mesma maneira, nem que todos apoiem incondicionalmente cada atitude do ex-presidente.

mas a centralidade de uma pessoa dentro de um movimento levanta uma questão que vale para qualquer liderança, inclusive lula… onde termina a defesa de ideias e começa a fidelidade pessoal?

a diferença é importante.

defender uma proposta significa poder explicá-la, questioná-la e eventualmente abandoná-la diante de novos fatos. defender uma pessoa incondicionalmente é outra relação. nessa segunda lógica, a opinião sobre uma decisão pode depender menos do que foi decidido e mais de quem tomou a decisão.

é exatamente o que acontece nas arquibancadas.

um torcedor não escolhe o time a cada partida depois de estudar as estatísticas. ele já chega ao estádio sabendo quem vai defender. se o próprio zagueiro faz uma falta, encontra uma explicação. se o adversário faz a mesma falta, exige expulsão.

no futebol, essa parcialidade faz parte da diversão. a maioria das pessoas sabe que está torcendo.

na política, a situação é mais complicada porque as decisões não terminam com o apito do juiz. uma eleição define quem terá autoridade para administrar recursos, propor medidas e influenciar instituições. seus efeitos alcançam tanto os apoiadores quanto os adversários.

por isso, a relação entre cidadão e político deveria permitir algo que a torcida esportiva costuma considerar quase uma heresia… mudar de opinião.

é possível votar em alguém e criticar uma decisão sua. reconhecer uma medida acertada de um adversário não obriga ninguém a mudar de partido. exigir explicações de uma liderança admirada não deveria ser entendido como traição.

o problema da idolatria política é que ela torna essas atitudes emocionalmente difíceis.

quando uma figura pública passa a representar, para seus seguidores, muito mais do que um conjunto de propostas, qualquer crítica pode parecer um ataque pessoal. o debate sobre decisões concretas acaba substituído por discussões sobre lealdade, pertencimento e identidade.

o político, que deveria prestar contas ao cidadão, torna-se alguém cuja reputação o cidadão sente a obrigação de proteger.

e as redes sociais oferecem o ambiente perfeito para isso. recompensam a frase mais agressiva, o vídeo mais indignado, a provocação que irrita o outro grupo. raramente exigem que alguém explique como pretende melhorar uma escola, financiar um hospital ou executar uma política pública.

é mais fácil disputar quem ama mais o país do que discutir o que fazer com ele.

nesse ambiente, bandeiras e slogans ganham um peso enorme. são sinais rápidos de pertencimento. basta uma camiseta, um número ou uma fotografia para identificar quem está de cada lado.

mas símbolos não substituem princípios.

a bandeira brasileira não pertence a um partido, a um presidente ou a uma família. representa um país que continuará existindo depois de qualquer mandato e que inclui milhões de pessoas com convicções políticas incompatíveis entre si.

a questão do míssil na paulista é interessante justamente porque coloca esse princípio à prova.

se a soberania nacional é um valor defendido por alguém, o que essa pessoa pensa de uma mensagem pedindo um ataque estrangeiro ao brasil? se considera a frase uma piada, quais são os limites aceitáveis para esse tipo de provocação? se a condena, consegue fazê-lo mesmo quando ela aparece numa manifestação de seu próprio campo político?

são perguntas mais úteis do que tentar descobrir qual torcida pode usar o episódio para marcar pontos.

também vale aplicá-las ao ato da semana anterior. cartazes sobre educação e democracia expressam reivindicações, mas não dispensam os políticos que os apoiam de apresentar resultados. nenhum slogan, por mais bonito que seja, deve funcionar como salvo-conduto para um governante.

essa é a diferença entre participar da política e transformá-la numa devoção.

participar é defender ideias e continuar disposto a examinar fatos. a devoção exige que o líder esteja certo antes mesmo de abrir a boca.

e, quando chegamos a esse ponto, até uma contradição evidente pode passar despercebida por quem está ocupado demais defendendo seu lado.

talvez seja por isso que a imagem do míssil tenha causado tanto espanto. não apenas pela mensagem absurda que carregava, mas pelo cenário em que apareceu

uma avenida coberta de símbolos nacionais, durante uma manifestação eleitoral, com um objeto que pedia a um presidente estrangeiro um ataque nuclear contra o próprio país.

a fotografia não explica sozinha o pensamento de uma multidão. mas registra uma contradição que merece ser discutida.

no futebol, podemos passar a vida defendendo um clube que nunca ganhou nada. faz parte da paixão.

na política, o país não deveria ser confundido com o time, e o presidente não deveria ocupar o lugar do ídolo que precisa ser protegido de qualquer crítica.

porque uma democracia exige algo mais trabalhoso do que torcer… exige prestar atenção ao que as pessoas defendem, ao que fazem quando chegam ao poder e ao que estamos dispostos a desculpar apenas porque gostamos delas.

e talvez a pergunta mais desconfortável que aquele míssil deixou na avenida paulista seja também a mais simples.

quando a mensagem vem do nosso próprio lado, ainda somos capazes de enxergar o que está escrito nela?

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2025

liberdade, igualdade, fraternidade… desde que não atrapalhe o trânsito

a frança tem uma relação bastante peculiar com a desobediência. transformou uma revolução em seu grande mito fundador, adotou liberdade, igualdade e fraternidade como lema nacional e canta um hino que convoca os cidadãos a pegar em armas contra a tirania. depois, de tempos em tempos, parece surpresa quando seus cidadãos levam a sério essa tradição.

a marselhesa não é exatamente uma canção de ninar. foi escrita em 1792, num momento em que a revolução francesa enfrentava inimigos internos e externos. é um hino de guerra, de resistência, de gente que não estava particularmente interessada em preencher um formulário de reclamação e aguardar quinze dias úteis.

hoje, quando os franceses voltam às ruas, é tentador imaginar que deveriam demonstrar sua insatisfação de maneira mais civilizada. talvez com uma carta ao presidente, uma petição eletrônica e uma pequena manifestação entre as duas e as quatro da tarde, desde que não comprometa o comércio.

seria uma evolução extraordinária da revolução francesa… da queda da bastilha ao protocolo de atendimento.

sou a favor dos protestos que estão acontecendo na frança. e não por alguma fantasia romântica envolvendo barricadas, fumaça e fotografias em preto e branco. apoio porque conheço o suficiente da história francesa para entender que a democracia daquele país nunca foi construída apenas dentro de gabinetes. e porque, desta vez, as reivindicações têm uma concretude quase constrangedora.

tudo começou com estudantes.

não com uma organização clandestina planejando derrubar a república. com adolescentes reclamando de falta de professores, salas superlotadas, prédios escolares deteriorados e jornadas de estudo que parecem elaboradas por alguém que nunca precisou passar um dia inteiro dentro de uma escola.

a frança, país de voltaire, rousseau, sartre e de uma tradição intelectual que adora apresentar ao mundo, chegou ao ponto de ter estudantes protestando para conseguir professores.

é um detalhe delicioso. a nação que ajudou a transformar a educação em instrumento de emancipação agora precisa explicar por que suas escolas não conseguem oferecer condições adequadas de ensino.

e não estamos falando de meia dúzia de jovens entediados procurando uma desculpa para faltar à aula. o movimento começou em setembro, espalhou-se por centenas de escolas e ganhou a participação de professores, trabalhadores e sindicatos. as reivindicações passaram a incluir salários, aposentadorias, serviços públicos e o custo de vida.

em 17 de outubro, centenas de milhares de pessoas foram às ruas.

o governo francês enfrenta uma crise orçamentária e defende medidas de contenção de gastos. os sindicatos contestam o peso dessas escolhas sobre trabalhadores e serviços públicos. estudantes denunciam a deterioração das escolas. famílias sentem a pressão dos preços.

há questões econômicas reais nessa disputa. o dinheiro público não é infinito, e nenhum país resolve seus problemas simplesmente gritando palavras de ordem. mas também existe algo de profundamente conveniente na facilidade com que governos descobrem a necessidade de sacrifícios quando chega a hora de financiar serviços essenciais.

o sacrifício, curiosamente, costuma ser uma experiência muito mais educativa para quem depende desses serviços do que para quem anuncia os cortes.

e é nesse ponto que a história francesa entra pela porta da frente, provavelmente sem pedir licença.

em 1789, a frança não estava vivendo um debate cordial sobre pequenas melhorias administrativas. o antigo regime concentrava privilégios, a crise financeira se aprofundava e uma parcela enorme da população arcava com o peso de uma ordem política que já não conseguia justificar sua existência.

a revolução que veio depois foi contraditória, violenta, grandiosa e terrível. produziu declarações de direitos e também o terror. abriu caminhos para transformações democráticas e deixou um rastro de sangue que ninguém intelectualmente sério deveria tratar como decoração histórica.

não há motivo para santificar a violência revolucionária.

mas também seria uma falsificação bastante elegante imaginar que a história da liberdade foi escrita exclusivamente por pessoas obedientes, que jamais interromperam uma rua ou desafiaram uma autoridade.

em 1830, os franceses voltaram às barricadas contra a monarquia. em 1848, outra revolução derrubou um rei. em 1871, a comuna de paris tentou uma experiência radical de governo popular e terminou esmagada numa repressão sangrenta. em maio de 1968, estudantes e trabalhadores paralisaram o país, questionaram autoridades e abalaram a política francesa.

nenhum desses acontecimentos é idêntico aos outros. suas causas, seus objetivos e suas consequências foram diferentes. alguns abriram possibilidades democráticas… outros revelaram o quanto uma sociedade pode se destruir quando a violência substitui a política.

mas todos lembram algo importante, na frança, a rua nunca foi apenas o espaço entre a padaria e a estação de metrô.

é também um lugar onde o poder é confrontado.

mais recentemente, os coletes amarelos expuseram a distância entre decisões tomadas em paris e a vida de quem dependia do carro, enfrentava salários apertados e já não suportava o aumento das despesas. em 2023, a reforma da previdência levou multidões às ruas.

agora, são estudantes que olham para o futuro e encontram escolas deterioradas, professores ausentes e um sistema que promete oportunidades enquanto distribui obstáculos.

a frança continua vendendo ao mundo a imagem de uma sociedade culta, sofisticada e comprometida com a igualdade. seus estudantes estão cobrando que essa imagem tenha alguma correspondência com o que acontece dentro das salas de aula.

e então veio a violência.

lojas foram saqueadas, carros incendiados, prédios públicos atacados. policiais ficaram feridos. manifestantes também. em limoges, um incêndio atingiu gravemente a prefeitura. houve comerciantes prejudicados e danos que não podem ser tratados como uma pequena inconveniência estética.

não vou transformar quem saqueia uma loja em herói popular. roubar um comerciante não contrata um professor. incendiar uma prefeitura não melhora o ensino. agredir um policial não torna um orçamento mais justo.

e há uma diferença importante entre reconhecer que conflitos sociais podem se tornar violentos e concluir que a violência é, por isso, desejável.

não é.

mas tampouco considero intelectualmente aceitável transformar os atos de grupos violentos na definição de um movimento que levou centenas de milhares de pessoas às ruas, muitas delas pacificamente.

uma manifestação não é uma pessoa só. não tem uma única intenção, uma única estratégia ou uma consciência coletiva perfeitamente organizada. reúne estudantes, trabalhadores, sindicatos, militantes, cidadãos indignados e, em situações de desordem, também indivíduos interessados em cometer crimes.

responsabilizar cada um pelo que fez é uma exigência de justiça.

atribuir a todos o comportamento dos piores é outra coisa.

e existe uma pergunta que merece ser feita sem romantismo… por que o conflito chegou a esse tamanho?

porque a violência que aparece nas ruas não surge num vazio histórico. isso não a desculpa, mas ajuda a compreendê-la. governos que ignoram problemas durante anos não deveriam ficar espantados quando a insatisfação deixa de caber nos canais convencionais de diálogo.

é possível que parte das reivindicações seja economicamente difícil de atender. é possível que algumas propostas sejam equivocadas. é possível, inclusive, que medidas impopulares sejam necessárias.

tudo isso precisa ser discutido.

mas, se uma geração inteira começa a desconfiar de que o estado não consegue oferecer educação e perspectivas minimamente decentes, a resposta não pode se limitar à contabilidade das viaturas danificadas.

a frança está diante de um conflito social, não de um simples problema de manutenção urbana.

e é justamente por levar esse conflito a sério que considero importante separar a legitimidade das reivindicações da responsabilidade pelos crimes.

não é necessário fingir que toda barricada é heroica. a história francesa tem barricadas suficientes para ensinar que algumas abrem caminhos e outras terminam em tragédias.

a violência pode destruir a credibilidade de uma causa, afastar aliados e atingir precisamente aqueles em nome dos quais se diz lutar. quando um pequeno comerciante perde seu sustento, o prejuízo não desaparece porque a revolta tinha bons motivos.

mas a violência praticada por parte dos participantes também não apaga a falta de professores, a crise dos serviços públicos ou a pressão sobre os salários.

essas coisas continuam existindo depois que a fumaça desaparece.

e há uma ironia histórica quase indecente no fato de que a frança construiu uma identidade nacional em torno da resistência ao poder, mas seus conflitos atuais ainda precisam enfrentar a expectativa de que toda contestação seja perfeitamente organizada, previsível e inofensiva.

a liberdade é muito bonita nas fachadas dos prédios públicos.

fica um pouco mais complicada quando as pessoas resolvem exercê-la.

também considero importante distinguir esses acontecimentos do 8 de janeiro de 2023, no brasil.

não porque a destruição de patrimônio seja aceitável num país e condenável em outro. não é. quem depreda, saqueia ou agride deve responder pelos próprios atos.

a diferença está no objetivo político.

o 8 de janeiro ocorreu depois de uma eleição presidencial cujo resultado era rejeitado pelos participantes da invasão das sedes dos três poderes. o movimento estava associado a reivindicações de intervenção militar e ruptura da ordem constitucional.

na frança, os protestos atuais reivindicam mudanças nas políticas públicas e nas condições de vida. pressionam um governo em exercício. não constituem, por seus objetivos centrais, uma tentativa de anular uma eleição ou substituir o regime democrático por uma intervenção militar.

essa distinção não absolve um único saqueador francês.

apenas impede que a análise política seja reduzida a um concurso de fotografias de prédios destruídos.

um protesto pode ter reivindicações legítimas e conter atos criminosos. um movimento pode empregar métodos ilegais e ainda assim precisar ser compreendido a partir de seus objetivos políticos. a natureza de uma mobilização não se determina apenas pelo prejuízo material que ela provoca.

isso deveria ser especialmente evidente num país que celebra a tomada da bastilha como marco da liberdade.

e aqui está o aspecto que mais me interessa: a história francesa não oferece uma licença eterna para a violência, mas também não autoriza a fantasia de que direitos surgem naturalmente da boa vontade de quem governa.

a declaração dos direitos do homem e do cidadão, de 1789, proclamou a liberdade e a igualdade jurídica como princípios fundamentais. seu artigo segundo incluiu a resistência à opressão entre os direitos naturais e imprescritíveis do homem.

isso não significa que qualquer pessoa possa invocar 1789 para justificar um saque em 2026. seria uma interpretação bastante preguiçosa de um documento histórico.

significa, porém, que a própria tradição política francesa reconheceu algo que continua relevante: o poder precisa encontrar limites na liberdade dos cidadãos, e a obediência não é a virtude suprema de uma sociedade.

a frança carrega essa tensão há mais de dois séculos.

de um lado, instituições, leis, eleições, parlamento, orçamento e a necessidade de manter a vida coletiva funcionando. do outro, uma sociedade que preservou a convicção de que seus governantes podem e devem ser confrontados quando deixam de responder às suas necessidades.

a democracia precisa das duas coisas.

sem instituições, o conflito pode se transformar em imposição pela força. sem contestação, as instituições podem se tornar confortáveis demais para quem as ocupa.

e talvez seja por isso que a frança continue fascinante. não porque seus protestos sejam sempre exemplares. frequentemente não são. mas porque o país nunca conseguiu transformar completamente a política num espetáculo em que a população assiste, aplaude de quatro em quatro anos e depois volta para casa.

há um preço nessa tradição. às vezes alto demais. há destruição, excessos, confrontos e decisões que merecem condenação.

há também conquistas sociais e democráticas que não podem ser compreendidas sem a pressão popular que as precedeu.

o desafio está em preservar a força dessa contestação sem transformar a violência em método obrigatório ou em espetáculo admirável.

e é por isso que apoio os protestos franceses.

apoio os estudantes que querem professores. os trabalhadores que reivindicam salários melhores. as famílias que exigem serviços públicos dignos. apoio o direito de pressionar um governo que precisa prestar contas das escolhas que faz.

não apoio quem usa a manifestação como oportunidade para saquear, incendiar ou ferir pessoas.

não vejo contradição nisso. vejo a diferença entre compreender uma causa e conceder imunidade a qualquer ato cometido em seu nome.

o que não aceito é a ideia de que a ordem, por si só, seja uma resposta suficiente a uma sociedade insatisfeita.

uma cidade pode estar impecavelmente limpa e profundamente injusta. um governo pode manter todas as vitrines intactas e ainda fracassar na obrigação de oferecer condições dignas à população.

e uma manifestação pode ser barulhenta, inconveniente, desorganizada e, apesar de tudo isso, levantar questões que merecem respostas.

a frança de 2026 não é a frança de 1789. macron não é luís xvi. estudantes que reclamam da falta de professores não são jacobinos, e uma prefeitura incendiada não é a bastilha.

comparações históricas só são úteis quando reconhecem essas diferenças.

mas existe uma continuidade que não deveria ser ignorada.

aquela velha ideia francesa de que liberdade, igualdade e fraternidade precisam significar alguma coisa fora dos discursos oficiais.

porque, se a liberdade serve apenas para concordar com o governo, a igualdade termina na porta das escolas e a fraternidade desaparece quando chega a conta, talvez seja hora de perguntar o que restou do lema.

a marselhesa continua sendo cantada em cerimônias oficiais, estádios e comemorações nacionais. é uma música poderosa, carregada de memória, guerra e revolução.

mas hinos são fáceis de cantar quando não exigem nada de quem canta.

o verdadeiro teste de uma tradição política começa quando seus princípios deixam de ser patrimônio cultural e voltam a ser exigências vivas.

e os franceses, com todas as suas contradições, continuam lembrando ao próprio governo que uma república não existe apenas para ser admirada em fotografias.

liberdade, igualdade, fraternidade. três palavras magníficas. seria interessante que continuassem valendo também depois que o hino termina.

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2025

a inteligência artificial já escolheu um número para presidente e depois explicou que foi sem querer

imagem criada pela meta ai

há algo de profundamente irritante na maneira como as big techs lidam com os próprios erros. elas querem administrar nossas conversas, nossas informações, nossas imagens e uma parte cada vez maior daquilo que vemos do mundo. mas, quando fazem alguma coisa questionável, aparece uma inteligência artificial extremamente educada explicando que tudo não passou de um pequeno mal-entendido.

a tecnologia é revolucionária. a desculpa é a mesma de qualquer empresa aérea que perdeu sua mala.

resolvi testar a inteligência artificial da meta dentro do whatsapp. pedi uma imagem de lula com o número 13. recusou. pedi uma imagem de flávio bolsonaro com o número 22. recusou também. tentei os dois nomes sem números. novas negativas. pedi uma camiseta de campanha de flávio bolsonaro. outra recusa.

aparentemente, a meta tinha regras bastante rígidas para a criação de imagens políticas. ótimo. uma empresa que controla ferramentas usadas por milhões de brasileiros deveria mesmo tratar esse assunto com cuidado.

então pedi um gatinho candidato à presidência do brasil.

e a máquina, finalmente livre das perigosas ameaças representadas por seres humanos reais, resolveu colaborar.

produziu um gato alaranjado, sorridente, com faixa presidencial, bandeira brasileira e toda aquela decoração que faz uma campanha eleitoral parecer uma festa de aniversário infantil.

na parte inferior da imagem estava escrito: “vote 22”.

eu não tinha pedido número nenhum.

a meta não conseguiu gerar uma imagem dos políticos que mencionei, mas conseguiu colocar um número eleitoral numa propaganda que não solicitava qualquer identificação partidária.

e fez isso sozinha.

confesso que achei uma façanha. passamos anos discutindo se a inteligência artificial vai substituir jornalistas, artistas e programadores. aparentemente, já podemos acrescentar os marqueteiros políticos à lista. pelo menos os que trabalham com animais domésticos.

perguntei por que o gato estava fazendo campanha com o 22.

a resposta foi que aquele havia sido o último número mencionado na conversa. a máquina simplesmente aproveitou o histórico. nada de preferência política, nenhuma intenção de favorecer alguém. apenas uma escolha automática.

que maravilha.

uma das maiores empresas de tecnologia do planeta constrói um sistema que recusa pedidos políticos por questões de segurança, mas permite que o mesmo sistema recupere espontaneamente um número eleitoral e o coloque numa imagem de campanha.

e a explicação é que a máquina se lembrou da conversa.

se esse é o funcionamento esperado, o problema é sério. se não é, também.

quando insisti, a inteligência artificial reconheceu que eu não havia pedido número algum. admitiu que poderia ter usado o 13, o 22 ou qualquer outro. concordou que o correto teria sido produzir o gato sem identificação eleitoral.

depois pediu desculpas.

é impressionante como conseguimos construir máquinas capazes de gerar imagens em segundos, mas ainda não encontramos uma maneira de impedir que elas se comportem como um departamento de relações públicas diante de um constrangimento.

primeiro negam. depois explicam. depois concordam com o cliente. por fim, oferecem refazer o trabalho e esperam que o assunto morra ali.

só faltou a meta me mandar uma pesquisa de satisfação.

mas o que mais me incomodou não foi o número. foi a facilidade com que a empresa, por meio de sua inteligência artificial, conseguiu transformar uma decisão que partiu do próprio sistema numa responsabilidade difusa, quase impossível de localizar.

a máquina escolheu. a máquina explicou. a máquina reconheceu o erro. a máquina pediu desculpas.

e a empresa?

a empresa continua confortavelmente escondida atrás da máquina.

esse é o truque mais conveniente da inteligência artificial corporativa. quando tudo funciona, a inovação é da empresa. quando alguma coisa dá errado, a culpa parece ser de uma entidade misteriosa chamada algoritmo, como se ele tivesse surgido espontaneamente na natureza, ao lado dos cogumelos e dos mosquitos.

algoritmos não aparecem por geração espontânea. alguém desenvolve os sistemas, estabelece limites, define políticas, escolhe dados, aprova produtos e decide colocá-los nas mãos de milhões de pessoas.

a responsabilidade por essas decisões ndesaparece porque o software aprendeu a pedir desculpas.

e antes que alguém diga que estou exagerando por causa de um desenho de gato, vale lembrar que não estamos falando de um aplicativo desconhecido criado por três estudantes numa garagem. estamos falando da meta. dona do whatsapp, do instagram e do facebook. uma empresa com recursos suficientes para construir sistemas extraordinariamente sofisticados e influência suficiente para participar, direta ou indiretamente, de boa parte da circulação de informações no brasil.

quando uma empresa desse tamanho coloca uma ferramenta de inteligência artificial dentro de um aplicativo usado diariamente por milhões de pessoas, ela assume uma responsabilidade proporcional ao alcance que conquistou.

não deveria ser necessário explicar isso.

mas aparentemente chegamos a uma época em que as empresas querem o poder de uma infraestrutura pública e a responsabilidade de um aplicativo de figurinhas.

a meta decide quais conteúdos suas ferramentas podem gerar. decide quais pedidos serão recusados. define regras de segurança e estabelece como seus sistemas devem responder a assuntos sensíveis. são escolhas corporativas, feitas por uma empresa privada que tem interesses comerciais, executivos, acionistas e objetivos próprios.

não existe nada de místico nisso.

o problema começa quando essas escolhas passam a interferir no ambiente político e a empresa espera que todos aceitem suas explicações sem questionar.

não estou afirmando que meu experimento prove uma operação deliberada para favorecer determinado candidato. não prova. seria intelectualmente desonesto transformar um único resultado numa acusação dessa dimensão.

mas também seria uma ingenuidade monumental aceitar que, por não haver prova de intenção deliberada, não exista problema algum.

essa é uma confusão muito conveniente para as big techs. parece que só podemos questionar suas decisões depois de descobrir um plano secreto, uma troca de mensagens comprometedora ou um executivo confessando alguma coisa diante de uma câmera.

enquanto isso não acontece, devemos aceitar que tudo foi um acidente tecnológico.

desculpem, mas não funciona assim.

se um banco transfere dinheiro para a conta errada, não basta explicar que o sistema se confundiu. se uma companhia aérea vende o mesmo assento para duas pessoas, não adianta dizer que foi uma inconsistência do algoritmo. se um laboratório entrega um resultado trocado, ninguém considera o assunto resolvido porque o computador não teve intenção de prejudicar o paciente.

por que deveríamos adotar um padrão tão mais generoso quando o assunto é uma empresa capaz de produzir e distribuir conteúdo político?

a resposta, suspeito, tem menos a ver com tecnologia e mais com o tamanho do poder que aprendemos a tolerar.

a meta já está presente nas nossas conversas pessoais, nos grupos de família, nas discussões de trabalho, nas notícias que recebemos e nas imagens que compartilhamos. agora também oferece uma inteligência artificial que responde perguntas e cria conteúdos dentro desse mesmo ambiente.

não é pouca coisa.

e não estamos falando apenas de propaganda eleitoral explícita. influência também pode acontecer quando uma ferramenta escolhe o que mostrar, o que omitir, o que destacar e o que acrescentar. não significa que cada escolha tenha sido planejada para produzir determinado efeito político. significa que os efeitos dessas escolhas merecem fiscalização, especialmente quando acontecem em escala.

o meu gato não vai decidir uma eleição. mas o comportamento do sistema que o produziu levanta uma pergunta perfeitamente legítima sobre os critérios usados pela empresa.

por que um pedido com pessoas reais e números eleitorais foi recusado, mas um pedido genérico com um gato recebeu espontaneamente um número associado a uma candidatura?

a resposta “foi o último número da conversa” pode ser plausível. mas não é uma explicação técnica verificável. é uma frase produzida pela própria inteligência artificial depois de ser questionada.

e essa é outra parte do absurdo.

estamos aceitando que uma máquina explique seu próprio comportamento como se tivesse acesso completo às razões pelas quais produziu determinada resposta. não necessariamente tem. pode estar apenas gerando uma narrativa convincente, assim como faz quando responde sobre tantos outros assuntos.

é como pedir ao garçom que investigue a intoxicação alimentar e aceitar como laudo a afirmação de que a cozinha não teve intenção de fazer mal a ninguém.

muito reconfortante. especialmente enquanto você procura um banheiro.

o que deveria incomodar não é apenas a possibilidade de um viés político. é a falta de condições para verificar o que realmente aconteceu.

porque uma empresa não demonstra imparcialidade simplesmente afirmando que é imparcial. muito menos colocando essa afirmação na boca de um chatbot.

se a meta quer que seus sistemas sejam considerados confiáveis em assuntos eleitorais, deveria conseguir demonstrar consistência nos resultados, explicar seus critérios e permitir que falhas sejam examinadas de maneira independente.

não deveria depender da paciência de um usuário disposto a discutir com uma inteligência artificial até ela finalmente admitir que o gato não precisava de número.

e existe uma ironia particularmente desagradável nessa história.

as big techs passaram anos defendendo a ideia de que a tecnologia tornaria a informação mais acessível, as pessoas mais conectadas e o mundo mais aberto. conseguiram, sem dúvida, transformar profundamente a maneira como nos comunicamos.

mas também concentraram uma quantidade extraordinária de poder em empresas que não foram eleitas por ninguém.

não estou sugerindo que plataformas privadas devam funcionar como governos. estou dizendo que, quando suas decisões afetam espaços importantes da vida pública, elas não podem esperar que a sociedade trate essas decisões como simples detalhes comerciais.

uma empresa pode ser privada e ainda assim precisar responder publicamente pelas consequências de seus produtos.

especialmente quando seus produtos estão presentes em praticamente todos os bolsos.

e talvez seja isso que mais me irrite nessa cultura tecnológica. a pretensão de que toda novidade merece confiança imediata, enquanto qualquer cobrança por responsabilidade é tratada como resistência ao progresso.

querem que acreditemos na inteligência artificial porque ela é poderosa, rápida e revolucionária. mas, quando ela produz algo questionável, somos convidados a lembrar que a tecnologia ainda está aprendendo.

curioso. para vender, é o futuro da humanidade. para responder pelos erros, ainda é uma criança.

no meu caso, a situação ficou registrada. tenho as mensagens, as recusas, a imagem gerada e as explicações contraditórias da própria ferramenta. não preciso inventar uma teoria sobre as intenções de mark zuckerberg para apontar o problema.

o sistema recusou pedidos políticos explícitos. depois acrescentou um número eleitoral a uma imagem que não precisava dele. e, quando foi questionado, ofereceu uma sequência de justificativas que terminou com o reconhecimento de que deveria ter agido de outra maneira.

isso é o que aconteceu.

e considero bastante razoável cobrar da meta algo melhor do que um pedido de desculpas automatizado.

porque a discussão não é se o gato deveria usar 13 ou 22. a discussão é por que uma empresa com tamanho poder sobre a informação permite que uma ferramenta acrescente símbolos eleitorais sem solicitação e depois trate a explicação produzida pela própria máquina como resposta suficiente.

não é suficiente.

não precisamos aceitar qualquer acusação contra as big techs. mas também não precisamos tratá-las como criaturas indefesas, permanentemente surpreendidas pelos sistemas que elas próprias colocaram no mundo.

a meta tem dinheiro, engenheiros, infraestrutura, equipes jurídicas, especialistas em segurança e recursos que a maioria das empresas jamais chegará perto de possuir.

pode perfeitamente ser cobrada como uma organização adulta.

no fim, pedi um gatinho presidente e recebi um pequeno cabo eleitoral.

a inteligência artificial disse que foi sem querer.

talvez tenha sido.

mas uma empresa desse tamanho não deveria precisar de um gato para descobrir que suas ferramentas podem produzir conteúdo político que ninguém solicitou.

o gato pode não saber o que está fazendo.

a meta tem obrigação de saber o que está colocando nas mãos de milhões de pessoas.