
nunca confiei muito em pessoas que passaram a vida inteira sabendo exatamente quem são. geralmente são as mesmas que sabem como os outros deveriam viver, o que deveriam vestir, quem deveriam amar e qual a maneira correta de envelhecer. uma coleção fascinante de certezas, quase sempre acompanhada de uma personalidade com a profundidade de um pires.
david bowie nunca me pareceu interessado em fazer parte desse clube.
e talvez seja por isso que eu o ame tanto.
não apenas pela música, que já seria motivo suficiente para uma devoção bastante indecente. amo bowie porque ele passou a vida fazendo aquilo que a maioria de nós passa a existência inteira tentando criar coragem para fazer.
mudar.
sem pedir licença, sem apresentar justificativas e, sobretudo, sem se preocupar em tranquilizar quem preferia sua versão anterior.
o homem nasceu david robert jones, em brixton, londres, em 1947. até o nome precisou abandonar porque já existia um davy jones famoso, dos monkees. imaginem a irritação de descobrir que nem seu próprio nome está disponível no mercado.
aos quinze anos, levou um soco no olho esquerdo de um amigo, george underwood, depois de uma disputa adolescente envolvendo uma garota. a pupila ficou permanentemente dilatada, criando aquela aparência extraordinária de olhos de cores diferentes.
e aqui está um detalhe que adoro.
george continuou sendo seu amigo e mais tarde participou da criação das capas de hunky dory e ziggy stardust.
um sujeito lhe deu um soco, alterou seu rosto para sempre e acabou colaborando com sua identidade visual.
hoje provavelmente haveria três processos judiciais, um documentário na netflix e um especialista explicando como transformar o trauma em oportunidade de crescimento.
bowie simplesmente seguiu em frente.
em 1969, enquanto a humanidade comemorava a chegada à lua, ele lançou space oddity, uma música sobre um astronauta que perde contato com a terra.
o mundo estava fascinado com a conquista do espaço. bowie preferiu perguntar como seria estar absolutamente sozinho dentro dele.
isso diz muito sobre o homem.
enquanto todos celebravam o progresso, ele percebia a solidão escondida dentro da conquista.
major tom não era apenas um astronauta. para mim, sempre foi aquela parte de nós que consegue chegar muito longe e, de repente, já não sabe como voltar.
e então veio changes.
uma canção que envelheceu extraordinariamente bem num mundo em que as pessoas transformaram a coerência numa obrigação quase religiosa. como se mudar de opinião fosse um crime e permanecer exatamente o mesmo idiota durante quarenta anos representasse alguma conquista moral.
bowie sabia que mudar podia ser uma forma de sobrevivência.
mas existe uma música que sempre me pareceu uma janela aberta para sua cabeça.
life on mars?
aquele piano de rick wakeman. aquela orquestração crescente. a voz começando quase como uma confidência e terminando como se alguém tivesse aberto as portas do universo.
e a história da música é maravilhosa.
anos antes, bowie havia tentado escrever uma versão em inglês para a canção francesa que acabaria se transformando em my way, eternizada por frank sinatra. sua proposta não foi escolhida. paul anka ficou com a tarefa e produziu um dos maiores sucessos da história.
bowie ficou irritado.
e resolveu escrever sua própria resposta.
life on mars?
é reconfortante descobrir que uma das composições mais extraordinárias do rock nasceu, em parte, de um homem dizendo para si mesmo que também era capaz de fazer algo grandioso.
a diferença é que bowie tinha talento suficiente para transformar uma pequena vingança profissional numa pergunta existencial sobre o absurdo da vida.
enquanto isso, boa parte da humanidade continua resolvendo frustrações publicando indiretas no instagram.
e então apareceu ziggy stardust.
cabelos vermelhos, roupas impossíveis, maquiagem, androginia, um extraterrestre transformado em estrela do rock.
em 1972, quando bowie cantou starman no programa britânico top of the pops, colocou o braço sobre os ombros de mick ronson e encarou a câmera, milhares de jovens viram algo que dificilmente encontravam no cotidiano.
alguém que não parecia ter a menor intenção de ser normal.
pensem no tamanho disso para um adolescente que se sentia estranho, inadequado, deslocado. alguém que passava o dia ouvindo que precisava se comportar, esconder alguma coisa, falar menos, parecer mais masculino, mais feminino, mais aceitável.
e de repente surgia aquele sujeito vindo de outro planeta, vestido como se tivesse assaltado o guarda-roupa de uma civilização muito mais interessante que a nossa.
e o mundo não acabava.
pelo contrário.
o mundo parecia, finalmente, ganhar alguma graça.
é por isso que starman me emociona. não apenas pela melodia ou pelo refrão. mas pela possibilidade quase infantil de que, em algum lugar, exista alguém tão estranho quanto nós.
e talvez esse alguém esteja tentando nos encontrar.
o disco the rise and fall of ziggy stardust and the spiders from mars começa com five years, uma música sobre a notícia de que restam apenas cinco anos para o fim do planeta.
a bateria começa devagar. a voz descreve pessoas comuns tentando compreender o incompreensível. e, aos poucos, o desespero cresce até ficar quase insuportável.
não há nada de confortável naquela gravação.
bowie conseguia fazer uma música sobre o fim do mundo soar como uma lembrança pessoal de alguma coisa que ainda não aconteceu.
e encerra o álbum com rock ‘n’ roll suicide.
que título espetacularmente inconveniente para uma canção que, no fundo, oferece companhia a alguém no momento em que mais precisa dela.
é uma das coisas mais bonitas que ele fez.
um artista que havia construído um extraterrestre glamouroso, quase inalcançável, terminava olhando para a solidão humana com uma ternura brutal.
não prometia resolver a vida de ninguém.
apenas recusava a ideia de que alguém precisasse atravessá-la completamente sozinho.
e eu acho isso devastador.
em 1973, no hammersmith odeon, bowie anunciou o fim de ziggy stardust diante de uma plateia atônita. a própria banda não havia sido avisada adequadamente.
o personagem estava no auge.
o público queria mais.
a indústria certamente queria muito mais.
bowie decidiu encerrá-lo.
imaginem explicar isso a um executivo contemporâneo da indústria do entretenimento. abandonar uma marca extremamente lucrativa porque o artista sente que precisa seguir em frente.
o sujeito provavelmente precisaria ser reanimado com uma apresentação de resultados trimestrais.
mas bowie compreendia uma coisa que muitos artistas passam a vida inteira ignorando.
o sucesso também pode ser uma prisão, especialmente quando obriga alguém a representar eternamente a pessoa que já deixou de ser.
e ele continuou mudando.
veio o soul de young americans, a inquietação quase febril de station to station, os experimentos de low, a atmosfera fria e fascinante dos discos ligados à sua temporada em berlim.
e então, em 1977, surgiu heroes.
meu deus, heroes.
aquela guitarra de robert fripp, a produção de tony visconti, a voz de bowie crescendo até parecer que está tentando atravessar uma parede com a própria garganta.
e havia uma parede real.
a música foi gravada perto do muro de berlim, e uma das imagens que inspiraram bowie foi a de um casal se beijando nas proximidades do muro.
anos depois descobrimos que eram tony visconti e a cantora antonia maaß. visconti era casado na época, e bowie preservou o segredo durante anos.
uma das músicas mais comoventes sobre a possibilidade de sermos heróis por um único dia nasceu, em parte, de um beijo clandestino observado pela janela de um estúdio.
eu adoro isso.
porque os grandes momentos humanos raramente acontecem como os departamentos de relações públicas gostariam.
não têm iluminação perfeita, roteiro aprovado ou uma equipe encarregada de verificar se a emoção está alinhada ao posicionamento da marca.
às vezes são apenas duas pessoas se beijando diante de uma parede que divide o mundo.
e um homem sensível o bastante para transformar aquela imagem em música.
heroes nunca me pareceu uma canção sobre invencibilidade.
é sobre a coragem de viver um instante sabendo que ele não vai durar.
e poucas coisas são tão humanas quanto isso.
depois veio ashes to ashes, em 1980, trazendo major tom de volta.
mas o astronauta já não era aquele explorador misterioso de 1969. havia algo de deteriorado, desiludido, quase brutalmente honesto naquele retorno.
bowie não tinha medo de revisitar os próprios mitos e descobrir que eles também haviam envelhecido mal.
é uma qualidade rara.
principalmente num mundo em que todo mundo está ocupado tentando esconder suas contradições atrás de um filtro cuidadosamente escolhido.
e em 1981, o ano em que nasci, ele entrou num estúdio suíço com o queen e ajudou a criar under pressure.
aquela linha de baixo de john deacon. a voz de freddie mercury. bowie respondendo como se estivesse discutindo com o próprio mundo.
duas vozes extraordinárias falando de pressão, medo, pessoas nas ruas e da necessidade desesperada de ainda conseguirmos cuidar uns dos outros.
não vou repetir aqui tudo o que essa música passou a significar para mim recentemente. já escrevi sobre isso e continuo incapaz de assistir a determinadas imagens acompanhadas por ela sem sentir os olhos encherem de lágrimas.
mas existe uma coisa que hoje compreendo melhor.
bowie tinha uma capacidade quase absurda de criar músicas que continuariam encontrando novos significados muito depois de gravadas.
e talvez seja esse o verdadeiro tamanho de um artista.
não apenas o que sua obra significou quando foi criada.
mas o que ela continua significando na vida de pessoas que ele nunca conheceu.
há ainda modern love, com aquela energia quase irresponsável de quem tenta dançar enquanto a cabeça está cheia de perguntas. let’s dance, que transformou bowie num fenômeno pop ainda maior sem eliminar completamente sua estranheza. absolute beginners, uma declaração de amor tão desarmada que chega a ser desconcertante vinda de um homem tão sofisticado.
e wild is the wind.
se alguém quiser entender a diferença entre cantar uma música e colocar alguma coisa profundamente íntima dentro dela, recomendo ouvir a interpretação de bowie.
é uma gravação que parece feita depois que todos foram embora, as luzes do restaurante já foram apagadas e alguém, incapaz de voltar para casa, finalmente resolveu confessar aquilo que passou a noite inteira tentando esconder.
mas bowie também errou.
fez discos menos inspirados. tomou decisões discutíveis. viveu excessos, atravessou períodos sombrios, disse coisas das quais precisou se distanciar.
e eu não preciso fingir que nada disso aconteceu para admirá-lo.
aliás, desconfio profundamente dessa necessidade contemporânea de transformar artistas em santos. é uma maneira bastante eficiente de destruir tudo o que os torna interessantes.
não amo david bowie porque ele era perfeito.
amo porque era profundamente humano e nunca pareceu satisfeito em permanecer parado dentro das próprias limitações.
em 2013, depois de anos longe dos holofotes, ele reapareceu com where are we now?
e há alguma coisa nessa canção que me atinge de uma maneira completamente diferente das outras.
não é mais o extraterrestre desafiando o planeta.
é um homem envelhecendo, lembrando das ruas de berlim, dos lugares que conheceu, das pessoas que passaram pela sua vida.
a voz parece carregar o peso do tempo.
e o tempo, esse filho da puta absolutamente democrático, não faz exceções nem para david bowie.
quando ouço aquela música, penso em tudo que vamos deixando para trás sem perceber. cidades, amizades, versões de nós mesmos que um dia pareceram definitivas.
lugares onde fomos felizes e aos quais nunca mais voltaremos exatamente como éramos.
há uma tristeza serena nisso.
não a tristeza performática de quem transforma qualquer inconveniente numa tragédia existencial.
a tristeza verdadeira de compreender que viver também significa perder coisas, inclusive partes de quem fomos.
e então chegou blackstar.
8 de janeiro de 2016.
seu aniversário de 69 anos.
bowie lançou um disco estranho, ousado, cheio de jazz, inquietação, experimentação e uma vontade quase insolente de continuar descobrindo novos sons.
trabalhou com músicos como o saxofonista donny mccaslin e fez algo que considero profundamente admirável.
não tentou produzir uma imitação confortável de seus antigos sucessos.
mesmo no fim da vida, continuava fazendo música como quem ainda tinha alguma coisa a investigar.
dois dias depois, morreu.
10 de janeiro de 2016. eu tinha acabado de completar 35 anos, alguns dias antes e de repente lazarus adquiriu um peso quase insuportável.
aquele vídeo em que aparece numa cama, com os olhos cobertos, depois se levanta, dança, escreve freneticamente e finalmente desaparece dentro de um armário.
é difícil assistir àquilo sabendo o que aconteceu.
tony visconti chamou blackstar de seu presente de despedida.
e confesso que até hoje tenho dificuldade em ouvir o disco inteiro sem pensar no homem por trás da obra.
não no ícone.
não no personagem.
no homem.
alguém que sabia que a vida estava se tornando curta e ainda encontrava energia para criar.
e aqui está o motivo mais profundo pelo qual amo david bowie.
ele me faz pensar em todas as vidas que deixamos de viver por medo.
em quantas vezes engolimos uma opinião para evitar desconforto. em quantas vontades enterramos porque não combinavam com a imagem que os outros haviam construído de nós. em quantas oportunidades desperdiçamos tentando ser razoáveis diante de pessoas que jamais tiveram a delicadeza de nos compreender.
bowie passou décadas criando personagens, mas nunca me pareceu tão verdadeiro quanto nos momentos em que deixava transparecer suas fragilidades.
o homem que parecia ter vindo de outro planeta compreendia a solidão humana de uma maneira assustadoramente íntima.
e talvez seja justamente isso que me comova.
porque, no fundo, não amamos artistas apenas pelo que fazem.
amamos alguns deles pelo que conseguem despertar naquilo que escondemos até de nós mesmos.
há músicas que escuto porque são boas.
há músicas que escuto porque me lembram momentos.
e há músicas de david bowie que escuto porque me devolvem a partes de mim que eu nem sabia que havia perdido.
space oddity me lembra que é possível chegar longe e ainda assim sentir falta de casa.
changes me lembra que mudar não é uma traição.
starman me faz pensar em todas as pessoas que cresceram acreditando que havia alguma coisa errada com elas.
life on mars? me lembra que o mundo é grande demais para ser reduzido à mediocridade de quem acredita ter todas as respostas.
heroes me lembra que alguns instantes justificam uma existência inteira.
under pressure me lembra que precisamos uns dos outros muito mais do que nossa arrogância permite admitir.
e lazarus me lembra que até os homens que pareciam imortais precisaram partir.
isso dói.
mas também torna tudo mais bonito.
porque um dia percebemos que não estamos apenas envelhecendo com as músicas que amamos. estamos envelhecendo dentro delas.
a canção permanece a mesma.
nós é que já não somos.
e cada vez que voltamos a ouvi-la encontramos alguma coisa diferente, porque carregamos novas perdas, novos amores, novos medos e aquela coleção de pequenas cicatrizes que chamamos, com certo excesso de generosidade, de experiência.
david bowie morreu há mais de dez anos.
e continua sendo, para mim, uma das presenças mais vivas da música.
não porque apareça estampado em camisetas, exposições e fotografias cuidadosamente vendidas a preços obscenos. a indústria tem um talento admirável para transformar até a rebeldia em produto de luxo.
mas porque suas músicas continuam fazendo perguntas que eu ainda não consegui responder.
e, principalmente, porque nunca exigiram que eu tivesse todas as respostas.
talvez seja isso.
passei a vida vendo gente tentar me convencer de que amadurecer significa finalmente descobrir quem somos e permanecer assim até o fim.
bowie me mostrou uma possibilidade muito mais interessante.
a de continuar descobrindo.
a de envelhecer sem se tornar uma caricatura das próprias certezas.
a de aceitar que podemos ser várias pessoas durante uma única existência e que nenhuma delas precisa ser a versão definitiva.
quando penso nele, não vejo apenas o raio vermelho e azul de aladdin sane, o cabelo de ziggy ou o elegante homem de terno dos últimos anos.
vejo todas essas pessoas existindo dentro de um único homem.
e penso na quantidade de coragem necessária para continuar recomeçando quando o mundo inteiro já decidiu quem você deveria ser.
é por isso que amo david bowie.
não porque ele me ensinou a ser diferente.
mas porque me fez entender que não preciso pedir desculpas por continuar mudando.
e, se algum dia me perguntarem qual foi seu maior feito, provavelmente não vou citar os discos vendidos, as premiações, a influência na moda ou as incontáveis pessoas que inspirou.
vou pensar naquele adolescente que ligou a televisão em 1972, viu um homem de cabelo vermelho cantando sobre alguém vindo das estrelas e, pela primeira vez, talvez tenha sentido que havia um lugar no mundo para ele também.
bowie nunca conheceu esse adolescente.
talvez nunca tenha sabido seu nome.
mas é possível que tenha mudado sua vida.
e há alguma coisa extraordinariamente bonita em saber que um homem pode desaparecer e continuar fazendo companhia a desconhecidos décadas depois.
esse é o tipo de imortalidade que me interessa.
o resto são estátuas, discursos e homenagens organizadas por pessoas que provavelmente teriam pedido a david bowie para se vestir de maneira mais discreta.
que se danem.
eu ainda tenho muitos discos para ouvir.
e muitas versões de mim mesmo para conhecer.







