
adoro essa frase. tem a profundidade de um pires e a autoconfiança de um sujeito que leu duas manchetes, ignorou o conteúdo das duas e agora se considera intelectualmente preparado para decidir o futuro da república. uma combinação magnífica de informação insuficiente e convicção ilimitada. se a ignorância pagasse dividendos, estaríamos diante de um dos homens mais ricos do país.
não querer mais o pt é perfeitamente legítimo. lula está na política há tanto tempo que provavelmente conheceu a corrupção ainda na infância, quando ele era um menino tímido, sem assessoria de imprensa e com ambições modestas. suas alianças são um espetáculo de contorcionismo moral. há ministros, aliados e companheiros de ocasião que mereceriam uma explicação pública, uma auditoria e, em alguns casos, uma boa dose de vergonha.
mas aí o sujeito anuncia que votará em flávio bolsonaro.
e eu começo a prestar atenção.
porque há algo deliciosamente perverso nessa escolha. o eleitor diz estar exausto dos vícios da velha política e procura salvação num homem que passou praticamente toda a vida adulta dentro dela. um profissional da política fluminense, herdeiro de uma dinastia eleitoral, criado num ambiente em que a expressão “relações institucionais” pode significar qualquer coisa entre uma reunião legítima e uma história que ninguém quer explicar diante de um microfone.
flávio não surgiu de uma mobilização popular espontânea. seu sobrenome é seu maior patrimônio político. sua candidatura carrega o legado de jair bolsonaro, inclusive aquilo que os admiradores preferem chamar de virtude e os críticos, com alguma razão, de problema.
e há a biografia.
ah, a biografia.
comecemos pelas rachadinhas, aquela história em que o ministério público do rio acusou flávio de comandar um esquema de recolhimento de parte dos salários de funcionários de seu gabinete. fabrício queiroz, amigo antigo da família, apareceu no centro das movimentações financeiras investigadas. vieram perguntas sobre dinheiro, imóveis, operações em espécie e uma loja de chocolates.
uma loja de chocolates.
o brasil tem uma imaginação política tão barroca que às vezes parece estar competindo com a literatura latino-americana. garcía márquez inventou macondo. nós produzimos gabinetes parlamentares, assessores com movimentações suspeitas e estabelecimentos comerciais que entram em investigações de lavagem de dinheiro.
flávio negou as acusações. provas foram anuladas, e o caso terminou arquivado sem condenação. juridicamente, isso importa. muito.
mas o arquivamento decorrente de decisões processuais não é a mesma coisa que um julgamento de mérito que tenha examinado e refutado todas as acusações.
é uma distinção relativamente simples.
embora, diante de determinados sobrenomes, algumas pessoas passem a considerá-la uma sutileza incompreensível do direito.
o percurso judicial também merece ser lembrado. joão otávio de noronha, ministro do stj cuja proximidade com jair bolsonaro foi noticiada, tomou decisões favoráveis à defesa. proximidade pessoal não demonstra interferência indevida, e decisões judiciais não se tornam ilegítimas apenas porque beneficiam alguém de quem desconfiamos.
mas quem passou anos exigindo investigações sobre relações entre políticos e magistrados deveria achar o assunto interessante.
estranhamente, a curiosidade costuma morrer antes da segunda pergunta.
é uma morte súbita, sem sofrimento aparente.
e então aparece adriano da nóbrega.
flávio concedeu a ele a medalha tiradentes em 2005, quando o ex-policial estava preso por homicídio. mais tarde, adriano seria apontado como chefe do chamado escritório do crime, associado à milícia carioca. a mãe e a ex-mulher dele trabalharam no gabinete de flávio.
isso não prova participação de flávio em atividades criminosas. mas é uma sequência de fatos que mereceria alguma atenção de qualquer eleitor interessado em segurança pública.
sobretudo daqueles que falam em combater o crime com a convicção de quem acredita ter inventado a honestidade.
não é curioso?
o homem promete guerra ao crime, mas encontrou tempo para atuar na defesa de um policial acusado de matar ana clara, uma menina de cinco anos, tentando evitar que ele fosse a júri popular.
todo acusado tem direito a advogado, evidentemente. mas flávio escolheu ser esse advogado. fascinante. quando o suspeito é um cidadão comum, exige-se o máximo rigor, quando veste farda, descobrem-se as delicadezas do devido processo legal. a menina morreu, o policial tem direito à defesa e o senador tem direito às suas escolhas. só não nos peçam para confundir essa seletividade com uma política de segurança pública.
o sujeito quer um presidente duríssimo com a criminalidade, mas considera indelicado perguntar por que determinados personagens circularam tão perto de seu gabinete ou defende casos tão controvérsos.
talvez a segurança pública deva começar pela segurança de não precisar responder a perguntas desagradáveis.
e a paisagem continua movimentada.
reportagens e investigações levantaram questões sobre relações de flávio com empresários e advogados, incluindo willer tomaz, e suspeitas envolvendo negócios no setor de apostas. o universo político e empresarial de daniel vorcaro, ligado ao banco master, também aparece em notícias sobre conexões que exigem apuração cuidadosa.
não se deve confundir uma relação pessoal com prova de crime. tampouco transformar uma investigação em sentença. seria intelectualmente desonesto.
mas há uma diferença entre respeitar a presunção de inocência e fingir que perguntas legítimas são uma forma de perseguição.
o eleitor que passou anos reclamando de empresários próximos ao pt deveria sentir uma curiosidade quase erótica por esse tipo de assunto.
quem são essas pessoas? quais interesses representam? que negócios mantêm? que influência procuram exercer?
perguntas perfeitamente normais numa democracia.
a menos que a democracia esteja funcionando apenas para investigar os outros.
e há o pai.
jair bolsonaro fez da política um espetáculo permanente de confronto, ressentimento e fidelidade pessoal. flávio apresenta uma versão mais disciplinada da mesma herança, com gestos mais contidos e uma linguagem ocasionalmente mais polida.
é possível que seja diferente do pai. ótimo. então que explique onde estão as diferenças.
porque um homem que fala baixo também pode defender ideias profundamente ruins. a história está repleta de sujeitos impecavelmente educados que produziram consequências desastrosas. a boa dicção nunca foi garantia de caráter.
mas a operação eleitoral é engenhosa, quando convém, flávio é o legítimo herdeiro de bolsonaro. quando surgem perguntas sobre o legado, transforma-se num indivíduo inteiramente autônomo, uma espécie de adulto recém-descoberto, sem qualquer relação com o ambiente político que o projetou.
o sobrenome serve para receber a herança.
as perguntas, aparentemente, devem ser encaminhadas ao inventariante.
na economia, a promessa é de eficiência, cortes e transformação.
já vimos esse filme.
fernando collor apareceu prometendo acabar com privilégios, modernizar o país e enfrentar os marajás. era jovem, confiante e tinha uma resposta para tudo. em 1990, os brasileiros descobriram que o governo podia bloquear o dinheiro de suas contas bancárias. em 1992, collor renunciou durante o processo de impeachment.
não estou sugerindo que flávio fará o mesmo. estou sugerindo que o brasileiro talvez devesse exigir mais do que uma postura decidida e um discurso sobre eficiência antes de entregar a alguém o controle da economia nacional.
onde pretende cortar? quanto? quais serviços serão afetados? quem ganhará? quem pagará?
é impressionante como perguntas elementares passam a soar inconvenientes quando ameaçam interromper uma boa fantasia eleitoral.
mas o que realmente me fascina não é flávio.
é o eleitor que anuncia sua escolha como se tivesse realizado um profundo exame de consciência.
“vou votar no flávio porque não quero mais o pt.”
e pronto.
nenhuma explicação sobre o candidato. nenhuma análise de sua trajetória. nenhuma curiosidade pelas suspeitas, pelos personagens de seu entorno, pelas propostas ou pelas contradições.
apenas a rejeição ao outro.
é uma maneira extraordinariamente confortável de participar da democracia. você recebe o direito de escolher quem governará mais de duzentos milhões de pessoas e decide exercê-lo com o mesmo método intelectual de quem bloqueia um ex-namorado nas redes sociais.
e ainda espera ser levado a sério como analista político.
o mais divertido é que muitos desses eleitores se apresentam como inimigos da corrupção, defensores da meritocracia e guardiões da responsabilidade fiscal.
mas, quando a conversa chega ao candidato que escolheram, os princípios começam a apresentar problemas de funcionamento.
a transparência vira perseguição.
a investigação vira conspiração.
o sobrenome vira mérito.
a herança política vira renovação.
e a ausência de respostas vira prova de que o candidato está sendo injustiçado.
é um espetáculo de flexibilidade moral que faria um contorcionista profissional procurar atendimento médico.
não é preciso votar em lula para perceber a contradição. lula merece críticas, cobranças e fiscalização constante. não é santo, não é infalível e não deveria ser tratado como proprietário vitalício das esperanças nacionais.
mas, se você pretende votar em flávio, faça ao menos a gentileza de conhecer o homem.
não o pai.
não o inimigo.
não o personagem que você construiu para irritar petistas.
flávio.
o político do rio. o ex-deputado cujo gabinete foi investigado no caso das rachadinhas. o parlamentar que homenageou adriano da nóbrega. o homem que defendeu um assassino de uma criança. o herdeiro de um movimento político personalista. o candidato cujas propostas econômicas precisam ser examinadas e cujas relações empresariais noticiadas merecem perguntas.
nada disso, isoladamente, autoriza uma condenação criminal.
mas tudo isso deveria ser assunto antes de uma eleição.
e aqui vai uma pergunta particularmente desagradável… se você tivesse conhecido a biografia de flávio sem saber que ele era filho de jair bolsonaro, teria a mesma vontade de votar nele?
pense com calma.
porque talvez o seu voto não seja contra a corrupção, contra os privilégios ou contra a velha política.
talvez seja apenas contra o pt.
o que é um direito seu.
mas não confunda esse direito com uma análise.
e, por favor, não chame de coragem moral aquilo que exige fechar os olhos justamente na hora de olhar para o próprio candidato.








