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vettel cometeu o pecado imperdoável de descobrir que a vida não é uma corrida

existe uma categoria particularmente irritante de milionários que passa a vida tentando convencer o mundo de que dinheiro, sucesso e uma mandíbula permanentemente contraída são evidências de superioridade intelectual. a fórmula 1 está razoavelmente bem abastecida deles. homens que dirigem máquinas de milhões de dólares, repetem frases cuidadosamente preparadas por assessores e agradecem aos patrocinadores com a espontaneidade de um caixa eletrônico.

sebastian vettel poderia ter sido apenas mais um.

tinha todas as credenciais. quatro títulos mundiais consecutivos, 53 vitórias, uma fortuna considerável e aquele ar de garoto alemão que parecia ter nascido com um cronômetro no lugar do coração.

e, durante algum tempo, foi um filho da puta extraordinariamente difícil de derrotar.

entre 2010 e 2013, transformou a fórmula 1 numa experiência bastante desagradável para quem não dirigia um red bull. em 2013, venceu nove corridas consecutivas. nove. um desempenho tão absurdo que boa parte do grid poderia ter aproveitado os domingos para conhecer os restaurantes locais e evitar o constrangimento.

mas vettel também era um sujeito capaz de fazer merda em proporções monumentais.

na malásia, em 2013, ignorou uma ordem da equipe, ultrapassou mark webber e ganhou uma corrida que deveria ter deixado para o companheiro. o famoso multi 21. no azerbaijão, em 2017, irritado com lewis hamilton, encostou deliberadamente seu carro no do adversário. dois episódios que demonstram como até um tetracampeão pode, ocasionalmente, apresentar a maturidade emocional de uma criança contrariada no supermercado.

e eu gosto de lembrar disso.

porque tenho pouquíssima paciência para essa mania de transformar pessoas admiráveis em santos depois que deixam de competir. vettel foi brilhante, arrogante, impulsivo e, algumas vezes, um completo idiota. como qualquer ser humano interessante, só que com um orçamento consideravelmente maior para cometer seus erros.

a diferença é que ele parece ter aprendido alguma coisa.

e isso, meus caros, já o coloca numa posição bastante privilegiada dentro da nossa espécie.

com o passar dos anos, aquele alemão obcecado por vencer começou a demonstrar uma característica perigosíssima para quem vive cercado de patrocinadores, investidores e homens de terno convencidos de que o universo funciona melhor quando ninguém faz perguntas inconvenientes.

começou a pensar em voz alta.

questionou o impacto ambiental da fórmula 1, uma indústria que transporta toneladas de equipamentos ao redor do planeta para descobrir qual bilionário conseguirá oferecer o carro mais rápido a um milionário. naturalmente, foi acusado de hipocrisia por defender sustentabilidade enquanto participava de corridas.

evidentemente.

porque, segundo essa lógica extraordinária, ninguém pode tentar melhorar um sistema enquanto ainda faz parte dele. uma filosofia bastante confortável para quem prefere que absolutamente nada mude.

vettel reconheceu a contradição. não fingiu que sua profissão era ambientalmente inocente. e continuou falando.

defendeu direitos LGBTQIA+ em países onde o assunto não era exatamente bem recebido pelas autoridades. colocou mensagens de apoio à diversidade em suas roupas e capacetes. demonstrou solidariedade a causas sociais num ambiente em que a expressão mais radical de personalidade costuma ser escolher uma cor diferente para o boné.

e, em 2023, já aposentado, voltou ao circuito de suzuka para construir hotéis para abelhas e outros insetos.

sim, abelhas.

o sujeito que ganhou quatro campeonatos mundiais resolveu dedicar sua influência a pequenos polinizadores.

enquanto isso, há executivos que passam a vida inteira participando de conferências sobre propósito sem jamais descobrir o que significa ter um.

mas existe algo ainda mais interessante em vettel.

ele sabe perder.

não estou falando de aceitar uma derrota com aquele sorriso de plástico que os departamentos de comunicação tanto apreciam. estou falando de atravessar o processo desagradável de deixar de ser o homem mais rápido do mundo, ver novos talentos aparecerem, cometer erros, perder oportunidades e descobrir que a vida não pretende interromper sua programação para preservar sua antiga grandeza.

na ferrari, perseguiu um sonho que parecia saído de um roteiro escrito por um italiano excessivamente sentimental. queria conquistar um título com a equipe de michael schumacher, seu ídolo de infância. chegou perto. errou. sofreu. viu a oportunidade escapar e terminou sua passagem sem entregar o campeonato que tanto desejava.

e, ainda assim, saiu dali com algo que nem sempre acompanha os vencedores.

respeito.

não porque tivesse vencido tudo.

mas porque, aos poucos, aprendeu a existir para além das vitórias.

e então veio 2022.

aos 35 anos, vettel anunciou que deixaria a fórmula 1.

quatro campeonatos mundiais. 53 vitórias. 122 pódios. dinheiro suficiente para nunca mais precisar olhar o preço de absolutamente nada.

e decidiu ir para casa.

queria passar mais tempo com os filhos. estar presente. participar de uma vida que acontecia enquanto ele atravessava aeroportos, hotéis, circuitos e compromissos intermináveis.

isso me emociona muito mais do que qualquer ultrapassagem.

porque vivemos numa sociedade profundamente doente de ambição, onde parar é fracassar, descansar é desperdiçar potencial e reconhecer que já temos o suficiente parece uma heresia econômica.

o sujeito precisa continuar ganhando, crescendo, conquistando, expandindo. de preferência até morrer, quando finalmente receberá uma homenagem sobre sua extraordinária dedicação ao trabalho feita por pessoas que dificilmente se lembrarão de seu aniversário.

vettel simplesmente decidiu que seus filhos mereciam mais do que um pai famoso aparecendo entre dois grandes prêmios.

e foi embora.

pensem na quantidade de homens que passam a vida dizendo que fazem tudo pela família enquanto raramente encontram tempo para estar com ela.

vettel fez a conta.

e descobriu que alguns minutos jamais voltam.

é uma descoberta brutal para alguém cuja carreira inteira foi construída medindo o tempo em milésimos de segundo.

mas há um episódio que, para mim, resume o homem melhor do que seus quatro títulos.

ímola, 2024.

trinta anos depois da morte de ayrton senna e roland ratzenberger, vettel voltou ao circuito italiano para organizar uma homenagem aos dois pilotos. reuniu o grid, promoveu uma corrida a pé e levou novamente à pista a mclaren mp4/8 de senna, de 1993.

aquele carro branco e vermelho.

aquele capacete amarelo.

a memória de um homem que ele nunca conheceu pessoalmente, mas que havia marcado sua infância.

e então fez algo que me desmonta até hoje.

depois de pilotar a mclaren, vettel ergueu as bandeiras do brasil e da áustria.

senna e ratzenberger.

dois pilotos mortos no mesmo fim de semana de 1994, mas que receberam lugares muito diferentes na memória popular.

vettel fez questão de lembrar dos dois.

não havia campeonato em disputa, não havia pontos para conquistar, não havia contrato esperando assinatura.

apenas respeito.

e, num esporte que consegue transformar até a lembrança de seus mortos em oportunidade comercial, ver alguém tratar a memória com aquela delicadeza tem uma força difícil de explicar.

porque vettel compreendeu algo que a fórmula 1 frequentemente parece esquecer.

os homens dentro dos carros são maiores do que as máquinas.

e as vidas continuam importando depois que o cronômetro para.

talvez seja por isso que eu goste tanto dele.

não porque seja o maior piloto de todos os tempos. esse tipo de discussão geralmente termina com adultos discutindo estatísticas como crianças tentando provar que o próprio pai é mais forte.

gosto porque ele não parece precisar convencer ninguém de que é extraordinário.

já foi.

e descobriu que isso não precisava determinar o resto de sua existência.

não se tornou um santo ambientalista, um filósofo moderno ou qualquer outra caricatura convenientemente fabricada para vender uma imagem impecável. continua um homem cheio de contradições, alguém que passou boa parte da vida competindo numa indústria ambientalmente problemática e que resolveu questioná-la depois de se beneficiar enormemente dela.

mas talvez a verdadeira maturidade esteja justamente aí.

na capacidade de reconhecer que podemos ter feito parte de algo e, ainda assim, decidir que algumas coisas precisam mudar.

na disposição de olhar para os próprios erros sem passar o resto da vida tentando justificá-los.

na coragem de descobrir que nossos filhos não precisam de um herói com quatro títulos mundiais.

precisam de um pai.

e essa última parte me atinge de uma maneira especialmente pessoal.

porque, depois que nos tornamos pais, começamos a perceber que o mundo está cheio de homens admirados por milhões de desconhecidos e praticamente ausentes da vida das poucas pessoas para quem sua presença realmente faz diferença.

a fórmula 1 mede a distância entre dois carros com precisão quase sobrenatural.

mas não existe tecnologia capaz de recuperar uma infância que passou enquanto estávamos ocupados demais sendo importantes.

vettel entendeu isso aos 35 anos.

e teve a coragem de fazer alguma coisa a respeito.

há quem considere a aposentadoria precoce uma perda para o esporte.

eu vejo de outra maneira.

a fórmula 1 perdeu um tetracampeão.

três crianças ganharam mais tempo com o pai.

e, francamente, depois de tantos anos vendo o esporte transformar seres humanos em máquinas de desempenho, acho extraordinário que alguém tenha finalmente lembrado qual dessas conquistas não se pode comprar.

vettel não abandonou a velocidade porque deixou de amar correr.

apenas descobriu que havia coisas pelas quais valia a pena desacelerar.

e talvez seja essa a razão mais bonita para admirar alguém que passou a vida chegando primeiro.

ele conseguiu fazer o que muitos campeões jamais aprenderam.

saber a hora de parar.

porque vencer quatro mundiais exige talento, disciplina e uma dose obscena de coragem.

mas olhar para tudo aquilo, reconhecer que já é suficiente e escolher uma vida que não precisa mais de aplausos exige uma qualidade ainda mais rara.

a liberdade de não precisar provar porra nenhuma a ninguém.

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mil

no dia 5 de janeiro de 2020, quando completei 39 anos, resolvi fazer uma coisa que hoje parece quase um ato de insubordinação contra a civilização moderna. comecei a escrever. não gravar vídeos com frases aparecendo na tela, não ensinar desconhecidos a alcançar a plenitude financeira, não transformar minha existência numa dessas pequenas fábricas de sabedoria instantânea que fazem tanto sucesso entre pessoas desesperadas por parecer interessantes. apenas escrever. abri um blog e deixei uma frase que, na época, parecia absolutamente despretensiosa.

“um registro dos pensamentos e devaneios de todos os dias de minha vida.”

início em 05/01/2020.

era isso. nenhum plano grandioso, nenhuma estratégia de crescimento, nenhum especialista me explicando como transformar pensamentos em engajamento. eu tinha 39 anos, algumas convicções que hoje considero profundamente embaraçosas e uma vontade quase inconveniente de registrar aquilo que observava. não fazia ideia de onde aquilo chegaria. e talvez tenha sido justamente essa ignorância que tornou tudo possível. se alguém tivesse aparecido com uma apresentação sobre metas, posicionamento de marca pessoal e frequência ideal de publicações, provavelmente teria encerrado o projeto antes do primeiro parágrafo. sempre achei fascinante a capacidade que certas pessoas têm de transformar qualquer coisa interessante numa atividade perfeitamente insuportável.

naquela época, eu nem era pai.

essa frase me atingiu hoje de um jeito que nenhum número conseguiria.

porque aquele homem de 39 anos não fazia a menor ideia do que estava prestes a viver. achava que conhecia o medo, o amor, a responsabilidade e os limites da própria paciência. uma demonstração de arrogância quase comovente. a vida ainda não havia apresentado sua melhor cartada. eu desconhecia a existência de alguém que um dia seria capaz de reorganizar absolutamente tudo dentro de mim sem apresentar um único argumento. alguém que faria minhas antigas preocupações parecerem ridículas e transformaria o futuro, essa abstração que costumamos tratar com tanta displicência, numa questão profundamente pessoal.

e então o mundo resolveu enlouquecer.

poucas semanas depois daquele primeiro texto, veio a covid. cidades vazias, hospitais lotados, famílias separadas, mortes demais e a percepção brutal de que nossa civilização tecnologicamente sofisticada era muito mais frágil do que gostávamos de imaginar. enquanto médicos tentavam salvar vidas, uma parcela admiravelmente confiante da população descobria sua vocação para a epidemiologia depois de assistir a três vídeos na internet. a humanidade havia conseguido colocar robôs em marte, mas ainda precisava discutir com adultos alfabetizados a importância de lavar as mãos. foi um período terrível. perdemos pessoas, abraços, despedidas e aquela inocência arrogante de acreditar que o mundo continuaria funcionando apenas porque estávamos acostumados a isso.

e quando começamos a imaginar que talvez tivéssemos aprendido alguma coisa, vieram mais guerras. a ucrânia, gaza, cidades destruídas, crianças soterradas, famílias tentando sobreviver ao que deveria ser absolutamente inaceitável. descobrimos que era possível acompanhar o horror em tempo real, com imagens extraordinariamente nítidas, enquanto o mesmo aparelho nos oferecia, segundos depois, uma promoção imperdível de tênis esportivos. desenvolvemos uma tecnologia capaz de transmitir o sofrimento humano para bilhões de pessoas, mas aparentemente não conseguimos desenvolver a capacidade de nos constranger diante dele por mais de quinze minutos. uma conquista civilizatória realmente espetacular.

no brasil, atravessamos eleições que transformaram encontros de família em exercícios de sobrevivência diplomática. vi a disputa de 2022 entre lula e jair bolsonaro. depois, em 2026, outra eleição, agora entre lula e flávio bolsonaro. acompanhei o medo, a tensão, as discussões e aquela interminável coleção de especialistas que conseguem prever qualquer resultado com absoluta precisão depois que ele acontece. mas desta vez havia algo completamente diferente. meu filho estava ali. participando, se envolvendo, vivendo comigo aquele momento e comemorando o resultado que tanto desejávamos. aquilo que, dentro da nossa casa, sentimos como uma vitória do bem. e confesso que, por um instante, toda a grandiosidade da política pareceu pequena diante de uma coisa muito mais importante. eu estava vendo meu filho construir uma lembrança que um dia seria apenas dele. a história já não passava somente por mim.

e durante tudo isso, escrevi.

sobre a pandemia, as guerras, as eleições, as músicas que me salvaram de dias absolutamente miseráveis, os filmes que me fizeram pensar, as pessoas que admirei e outras que me proporcionaram material suficiente para questionar seriamente o êxito da evolução humana. escrevi sobre david bowie, sobre a beleza quase obscena de certas canções, sobre pequenos acontecimentos cotidianos e sobre essa fascinante necessidade que a humanidade tem de complicar coisas que poderiam ser perfeitamente simples. algumas vezes escrevi algo inteligente. em outras, provavelmente fui um completo idiota com acesso a um teclado. faz parte. nunca pretendi construir um monumento à minha infalibilidade. seria uma obra de péssima qualidade, com enormes problemas estruturais e custos de manutenção absolutamente injustificáveis.

e hoje, aos 45 anos, cheguei ao milésimo texto.

mil.

uma quantidade considerável de palavras para alguém que, em certas ocasiões, gostaria apenas que boa parte da humanidade tivesse a gentileza de permanecer em silêncio.

e existe algo particularmente delicioso em completar mil textos numa época em que ler passou a ser tratado como uma espécie de atividade de resistência física. vivemos numa civilização que colocou praticamente toda a produção intelectual da humanidade dentro de um aparelho que cabe no bolso e, diante dessa conquista magnífica, resolveu utilizá-lo para assistir a desconhecidos dançando, discutir a vida amorosa de celebridades e ouvir empreendedores de vinte e três anos explicando o segredo definitivo da existência. cinco minutos de leitura passaram a exigir um esforço aparentemente incompatível com a fisiologia humana. já um vídeo de quarenta minutos sobre como acordar às quatro da manhã para se tornar milionário é considerado investimento em desenvolvimento pessoal.

se gutenberg pudesse ver o resultado, talvez tivesse escolhido criar uma padaria.

mas eu continuei escrevendo. textos longos, inclusive. sem pedir desculpas por exigir alguns minutos de atenção. sem oferecer cinco passos para a felicidade, sete hábitos dos vencedores ou qualquer outra dessas fórmulas maravilhosas que parecem funcionar especialmente bem para quem cobra para ensiná-las. nunca quis vender respostas. na maioria das vezes, estava interessado justamente nas perguntas. e, francamente, desconfio profundamente de pessoas que chegam aos quarenta anos convencidas de que já compreenderam tudo. normalmente são as mesmas que passaram as últimas duas décadas sem prestar atenção em absolutamente nada.

hoje resolvi olhar as estatísticas do blog.

mais de 37 milhões de acessos desde aquele janeiro de 2020.

trinta e sete milhões.

fiquei olhando para o número durante algum tempo. não porque acredite que popularidade seja evidência de inteligência. a internet já produziu exemplos suficientes para enterrar definitivamente essa teoria. também não confundo acessos com pessoas diferentes. mas existe algo profundamente desconcertante em pensar que um espaço criado para registrar meus pensamentos tenha sido visitado tantas vezes por pessoas que, em sua imensa maioria, jamais conhecerei.

e comecei a imaginar quem estava do outro lado.

talvez alguém tenha lido um texto meu numa madrugada particularmente difícil. talvez uma música que mencionei tenha trazido de volta a lembrança de alguém que já não está aqui. talvez uma frase tenha provocado uma gargalhada involuntária durante um dia miserável. talvez alguém tenha compartilhado um texto com uma pessoa querida porque encontrou nele alguma coisa que não conseguia dizer com as próprias palavras.

e certamente há quem me deteste.

aliás, seria estatisticamente escandaloso atravessar 37 milhões de acessos sem conquistar uma quantidade respeitável de pessoas que me consideram um sujeito absolutamente insuportável. imagino que algumas tenham chegado ao fim de um texto com aquela satisfação particular de confirmar que eu sou exatamente o cretino que suspeitavam. outras provavelmente desistiram na terceira linha, indignadas com minha falta de reverência diante de alguma coisa que consideram sagrada. excelente. um mundo onde todos concordam comigo seria um lugar de uma monotonia insuportável. e, sinceramente, se depois de mil textos eu não tivesse incomodado ninguém, começaria a desconfiar seriamente de que passei quase sete anos escrevendo bulas de remédio.

mas entre aqueles que me adoram, os que me toleram e os que provavelmente gostariam de me ver proibido de utilizar um teclado, existe algo que não consigo ignorar.

todos passaram por aqui.

e muitos ficaram.

pessoas que voltaram para ler outro texto. que acompanharam minhas mudanças de opinião, minhas paixões, minhas indignações e minha incapacidade quase patológica de assistir a certas demonstrações de estupidez sem fazer algum comentário. pessoas que, num mundo onde tudo compete desesperadamente por atenção, resolveram dedicar alguns minutos a palavras que não prometiam absolutamente nada em troca.

isso me emociona mais do que consigo explicar.

porque atenção não é apenas uma métrica. é um pedaço da vida de alguém.

e ninguém devolve esse tempo.

mas o que realmente me fez parar hoje não foram os 37 milhões de acessos.

foi voltar ao primeiro texto.

encontrar aquele homem de 39 anos, anterior à pandemia, anterior a tantas experiências que mudariam sua vida, anterior à paternidade. perceber que ele ainda está ali, preservado em palavras, com suas certezas, suas dúvidas e aquela arrogância típica de quem ainda não descobriu o tamanho das coisas que desconhece.

foi como encontrar alguém que conheço profundamente e que, ao mesmo tempo, já não existe.

porque nesses quase sete anos não acumulei apenas textos.

acumulei versões de mim mesmo.

o homem que escreveu em 2020 já não é o mesmo que escreveu em 2022. e nenhum dos dois compreendia completamente aquele que chegaria a 2026. algumas opiniões sobreviveram. outras morreram de maneira absolutamente merecida. houve ideias que amadureceram e convicções que hoje me provocam um constrangimento semelhante ao de encontrar uma fotografia antiga usando uma roupa que, na época, eu considerava extraordinariamente elegante.

e acho isso maravilhoso.

seria um desperdício monumental atravessar quase sete anos, uma pandemia, guerras, eleições, perdas, descobertas e a experiência de se tornar pai para chegar ao outro lado exatamente com a mesma cabeça.

mas há uma coisa que esses mil textos fizeram e que eu só compreendi agora.

eles guardaram o homem que fui antes de meu filho chegar.

pensem nisso por um instante.

um dia meu filho poderá abrir este blog e encontrar alguém que ele nunca conheceu. poderá descobrir o que seu pai pensava antes de ser pai. quais músicas o faziam chorar, quais histórias o fascinavam, quais comportamentos o deixavam furioso. encontrará um homem que ainda não sabia da sua existência e que, mesmo assim, estava vivendo todas as experiências que um dia o levariam até ele.

e talvez descubra algo que nós, adultos, raramente conseguimos explicar aos nossos filhos.

que não nascemos prontos.

que também tivemos medo. que fomos inseguros, contraditórios, ridículos, apaixonados, ingênuos. que cometemos erros lamentáveis e defendemos ideias que hoje não sobreviveriam a cinco minutos de reflexão. que houve uma vida inteira antes de alguém começar a nos chamar de pai.

e que essa vida não desaparece quando um filho nasce.

ela continua dentro de nós, transformada.

a paternidade não me tornou um homem perfeito. seria uma notícia sensacional, mas absolutamente falsa. continuo impaciente, sarcástico, razoavelmente desconfiado das grandes promessas e perfeitamente capaz de arruinar uma conversa agradável quando alguém decide defender uma estupidez com entusiasmo excessivo.

mas mudou alguma coisa fundamental.

antes eu me preocupava com o mundo em que estava vivendo.

hoje também me preocupo com o mundo que meu filho vai herdar.

e isso muda o peso de praticamente tudo.

quando vejo uma guerra, não penso apenas na monstruosidade do acontecimento. penso nas crianças. quando acompanho uma eleição, não penso apenas nos próximos quatro anos. penso nas décadas que virão. quando escuto alguma coisa profundamente idiota sendo defendida como virtude, penso na quantidade de absurdos que ainda teremos de explicar aos nossos filhos, provavelmente acompanhados daquela expressão de incredulidade que as crianças fazem quando percebem que os adultos não são tão inteligentes quanto imaginavam.

e, francamente, elas têm bons motivos.

mas também existem os momentos bonitos. aqueles em que percebo meu filho formando suas próprias opiniões, descobrindo o significado de participar, fazendo perguntas que me obrigam a pensar melhor e começando a construir suas próprias lembranças. é uma experiência tão extraordinária quanto assustadora. porque criar alguém não deveria significar produzir uma versão menor de nós mesmos. o mundo já está suficientemente povoado por pessoas incapazes de admitir que suas convicções talvez não mereçam ser herdadas.

quero que meu filho pense por conta própria.

que discorde de mim.

que encontre músicas que eu não compreenda, admire pessoas que eu desconheça e desenvolva ideias que talvez me obriguem a reconsiderar as minhas.

mas gostaria que ele preservasse uma coisa.

a curiosidade.

aquela vontade de compreender o mundo antes de sair distribuindo certezas sobre ele.

e talvez seja isso que eu tenha feito nesses mil textos.

não transmitir sabedoria, palavra que considero especialmente perigosa quando utilizada por quem está tentando vender alguma coisa.

mas exercitar a curiosidade.

prestar atenção.

porque a vida acontece de uma maneira muito mais discreta do que imaginamos. enquanto estamos ocupados planejando grandes acontecimentos, nossos filhos crescem, nossos pais envelhecem, pessoas entram e saem da nossa história, músicas adquirem novos significados e pequenas experiências se transformam em lembranças que um dia daríamos qualquer coisa para reviver.

e quase nunca percebemos o momento exato em que isso acontece.

há textos meus que hoje funcionam como pequenas cápsulas do tempo. leio uma frase e lembro onde estava, o que sentia, o que me preocupava. encontro sentimentos que havia esquecido e pessoas que permanecem vivas em determinadas palavras. descubro que algumas coisas que me pareciam insuportáveis perderam completamente a importância, enquanto pequenos detalhes que mal mencionei se tornaram enormes com a passagem dos anos.

e é aí que esses mil textos deixam de parecer uma conquista numérica.

tornam-se uma vida documentada.

imperfeita, contraditória, às vezes engraçada, às vezes triste, ocasionalmente excessiva e frequentemente escrita por alguém que deveria ter contado até dez antes de publicar.

mas minha.

e agora dividida com vocês.

confesso que não sou particularmente talentoso para agradecer sem parecer desconfortavelmente sentimental. sempre desconfiei dessas manifestações públicas de gratidão que transformam qualquer pequena conquista numa cerimônia de premiação da própria existência. há gente agradecendo ao universo por acordar cedo, encontrar uma vaga de estacionamento e conseguir uma reunião com alguém importante. imagino que o universo tenha uma equipe administrativa bastante ocupada.

mas aqui não consigo recorrer ao sarcasmo para escapar completamente da emoção.

porque 37 milhões de acessos não aconteceram sozinhos.

houve pessoas.

pessoas que leram, compartilharam, discordaram, voltaram. que acompanharam anos da minha vida sem que eu soubesse quase nada sobre a delas. que me encontraram por causa de uma música, um texto sobre cinema, uma crítica, uma provocação ou uma lembrança.

e que, por alguns minutos, estiveram comigo.

isso é imenso.

não sei quantos desses encontros realmente significaram alguma coisa. seria pretensioso imaginar que cada texto transformou a vida de alguém. provavelmente muitos foram apenas esquecidos segundos depois da leitura. outros talvez tenham produzido irritação suficiente para alimentar uma discussão desagradável. faz parte. a literatura, a música e a vida seriam profundamente desinteressantes se servissem apenas para confirmar aquilo que já pensamos.

mas gosto de imaginar que, em algum lugar, alguém tenha encontrado uma frase minha justamente quando precisava dela.

não preciso saber quem foi.

é suficiente saber que isso pode ter acontecido.

e talvez seja por isso que continuo escrevendo, mesmo depois de mil textos.

porque ainda existem músicas que me fazem chorar. histórias que me deixam sem palavras. pessoas que despertam minha admiração e outras que demonstram, com uma dedicação quase profissional, como é possível atravessar a existência inteira sem desenvolver o menor senso de ridículo.

porque ainda amo este mundo, apesar de tudo.

e talvez precisamente por isso me irrite tanto com ele.

a indiferença seria muito mais confortável.

mas também seria uma maneira miserável de envelhecer.

hoje, aos 45 anos, não tenho qualquer interesse em me tornar um daqueles sujeitos que confundem maturidade com desistência. quero continuar aprendendo, mudando de opinião, me emocionando com uma música de quarenta anos e fazendo perguntas inconvenientes. quero continuar assistindo meu filho crescer e percebendo, às vezes com orgulho, às vezes com um medo que não cabe em palavras, que a vida dele está apenas começando enquanto uma parte considerável da minha já virou memória.

e é exatamente essa consciência que torna tudo tão precioso.

porque o tempo passa.

passa com uma crueldade silenciosa.

não anuncia quando estamos vivendo a última vez de alguma coisa. não avisa quando uma conversa, um abraço, uma tarde comum ou um momento aparentemente insignificante se transformará numa lembrança irrecuperável.

simplesmente continua.

e talvez escrever seja minha maneira desajeitada de tentar segurá-lo por alguns segundos.

não para impedir que a vida aconteça.

mas para não permitir que ela desapareça completamente sem que eu tenha percebido sua beleza.

volto a pensar naquele homem de 39 anos.

5 de janeiro de 2020.

uma página em branco.

uma frase simples.

ele não sabia que viveria uma pandemia, acompanharia guerras, atravessaria duas eleições presidenciais tão marcantes e um dia veria o próprio filho participando da história ao seu lado.

não sabia que escreveria mil textos.

muito menos que seriam mais de 37 milhões de acessos.

e, principalmente, não sabia que um dia teria alguém por quem desejaria desesperadamente que o mundo fosse um lugar um pouco melhor.

se pudesse encontrá-lo, não lhe contaria nada disso.

deixaria que descobrisse.

que errasse, que mudasse de opinião, que se emocionasse, que se irritasse com as pessoas erradas e aprendesse a reconhecer as certas. que atravessasse os dias difíceis, aproveitasse os bons e chegasse até aqui sem perder aquela mania quase infantil de querer compreender o que está acontecendo ao redor.

mas talvez lhe dissesse uma única coisa.

continue escrevendo.

mesmo quando parecer inútil.

mesmo quando ninguém comentar.

mesmo quando você achar que não tem nada de especialmente importante para dizer.

continue.

porque um dia você vai olhar para trás e perceber que, enquanto tentava registrar o mundo, estava preservando pedaços de si mesmo que de outra maneira teriam desaparecido.

e talvez algum dia seu filho encontre essas palavras.

talvez abra o primeiro texto e descubra que, quando tudo começou, você ainda não era pai.

talvez leia algumas das mil páginas e encontre nelas um homem que às vezes foi ridículo, às vezes foi corajoso, muitas vezes não soube o que fazer e jamais conseguiu permanecer indiferente àquilo que amava.

talvez ria de suas provocações.

talvez discorde de metade de suas opiniões.

talvez descubra que o pai que conhece também foi um homem tentando encontrar seu lugar no mundo.

e talvez, num dia qualquer, quando eu já não souber explicar determinada lembrança com a mesma precisão, ele encontre aqui a versão que ficou escrita.

essa é uma possibilidade que me emociona muito mais do que 37 milhões de acessos.

porque, no fim, eu não preciso que o mundo inteiro se lembre de mim.

mas seria extraordinário que meu filho pudesse encontrar, entre essas palavras, algo que o fizesse reconhecer quem eu fui.

não um herói.

não um homem extraordinário.

não um desses personagens insuportavelmente perfeitos que só existem em homenagens e biografias cuidadosamente editadas.

apenas seu pai.

aquele sujeito que implicava com tudo, que amava música, que se comovia com coisas aparentemente pequenas, que tinha uma opinião sobre quase tudo e que, por trás de uma quantidade absolutamente obscena de sarcasmo, sentia as coisas com uma intensidade que nem sempre sabia demonstrar.

e talvez seja isso que eu gostaria que permanecesse.

a prova de que estive aqui.

de que me importei.

de que não atravessei a vida completamente distraído.

mil textos depois, continuo sem entender uma quantidade constrangedora de coisas. provavelmente entendo menos do que imaginava entender aos 39 anos. uma evolução intelectual bastante saudável, embora pouco recomendável para quem pretende construir uma carreira vendendo certezas.

mas hoje sei de algo que aquele homem de 2020 não sabia.

ele começou um blog para registrar os pensamentos e devaneios de sua vida.

sem imaginar que, seis anos depois, um menino que nem fazia parte daquela primeira página seria uma das razões mais bonitas para continuar escrevendo as próximas.

e pensar que tudo isso começou com uma frase.

uma página.

um aniversário.

e a absoluta ignorância sobre o que ainda estava por vir.

mil textos. 37 milhões de acessos. quase sete anos de vida.

e, se um dia meu filho ler tudo isso e concluir que seu pai era um sujeito sentimental escondido atrás de uma coleção de provocações e piadas de gosto duvidoso, terá finalmente compreendido alguma coisa importante a meu respeito.

espero apenas que também perceba o quanto fui feliz por ele ter aparecido no meio da história.

porque comecei este blog antes de ser pai.

mas não consigo mais imaginar o final dessa história sem ele.

e, porra, que sorte a minha ter continuado escrevendo até descobrir isso.

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bowie

nunca confiei muito em pessoas que passaram a vida inteira sabendo exatamente quem são. geralmente são as mesmas que sabem como os outros deveriam viver, o que deveriam vestir, quem deveriam amar e qual a maneira correta de envelhecer. uma coleção fascinante de certezas, quase sempre acompanhada de uma personalidade com a profundidade de um pires.

david bowie nunca me pareceu interessado em fazer parte desse clube.

e talvez seja por isso que eu o ame tanto.

não apenas pela música, que já seria motivo suficiente para uma devoção bastante indecente. amo bowie porque ele passou a vida fazendo aquilo que a maioria de nós passa a existência inteira tentando criar coragem para fazer.

mudar.

sem pedir licença, sem apresentar justificativas e, sobretudo, sem se preocupar em tranquilizar quem preferia sua versão anterior.

o homem nasceu david robert jones, em brixton, londres, em 1947. até o nome precisou abandonar porque já existia um davy jones famoso, dos monkees. imaginem a irritação de descobrir que nem seu próprio nome está disponível no mercado.

aos quinze anos, levou um soco no olho esquerdo de um amigo, george underwood, depois de uma disputa adolescente envolvendo uma garota. a pupila ficou permanentemente dilatada, criando aquela aparência extraordinária de olhos de cores diferentes.

e aqui está um detalhe que adoro.

george continuou sendo seu amigo e mais tarde participou da criação das capas de hunky dory e ziggy stardust.

um sujeito lhe deu um soco, alterou seu rosto para sempre e acabou colaborando com sua identidade visual.

hoje provavelmente haveria três processos judiciais, um documentário na netflix e um especialista explicando como transformar o trauma em oportunidade de crescimento.

bowie simplesmente seguiu em frente.

em 1969, enquanto a humanidade comemorava a chegada à lua, ele lançou space oddity, uma música sobre um astronauta que perde contato com a terra.

o mundo estava fascinado com a conquista do espaço. bowie preferiu perguntar como seria estar absolutamente sozinho dentro dele.

isso diz muito sobre o homem.

enquanto todos celebravam o progresso, ele percebia a solidão escondida dentro da conquista.

major tom não era apenas um astronauta. para mim, sempre foi aquela parte de nós que consegue chegar muito longe e, de repente, já não sabe como voltar.

e então veio changes.

uma canção que envelheceu extraordinariamente bem num mundo em que as pessoas transformaram a coerência numa obrigação quase religiosa. como se mudar de opinião fosse um crime e permanecer exatamente o mesmo idiota durante quarenta anos representasse alguma conquista moral.

bowie sabia que mudar podia ser uma forma de sobrevivência.

mas existe uma música que sempre me pareceu uma janela aberta para sua cabeça.

life on mars?

aquele piano de rick wakeman. aquela orquestração crescente. a voz começando quase como uma confidência e terminando como se alguém tivesse aberto as portas do universo.

e a história da música é maravilhosa.

anos antes, bowie havia tentado escrever uma versão em inglês para a canção francesa que acabaria se transformando em my way, eternizada por frank sinatra. sua proposta não foi escolhida. paul anka ficou com a tarefa e produziu um dos maiores sucessos da história.

bowie ficou irritado.

e resolveu escrever sua própria resposta.

life on mars?

é reconfortante descobrir que uma das composições mais extraordinárias do rock nasceu, em parte, de um homem dizendo para si mesmo que também era capaz de fazer algo grandioso.

a diferença é que bowie tinha talento suficiente para transformar uma pequena vingança profissional numa pergunta existencial sobre o absurdo da vida.

enquanto isso, boa parte da humanidade continua resolvendo frustrações publicando indiretas no instagram.

e então apareceu ziggy stardust.

cabelos vermelhos, roupas impossíveis, maquiagem, androginia, um extraterrestre transformado em estrela do rock.

em 1972, quando bowie cantou starman no programa britânico top of the pops, colocou o braço sobre os ombros de mick ronson e encarou a câmera, milhares de jovens viram algo que dificilmente encontravam no cotidiano.

alguém que não parecia ter a menor intenção de ser normal.

pensem no tamanho disso para um adolescente que se sentia estranho, inadequado, deslocado. alguém que passava o dia ouvindo que precisava se comportar, esconder alguma coisa, falar menos, parecer mais masculino, mais feminino, mais aceitável.

e de repente surgia aquele sujeito vindo de outro planeta, vestido como se tivesse assaltado o guarda-roupa de uma civilização muito mais interessante que a nossa.

e o mundo não acabava.

pelo contrário.

o mundo parecia, finalmente, ganhar alguma graça.

é por isso que starman me emociona. não apenas pela melodia ou pelo refrão. mas pela possibilidade quase infantil de que, em algum lugar, exista alguém tão estranho quanto nós.

e talvez esse alguém esteja tentando nos encontrar.

o disco the rise and fall of ziggy stardust and the spiders from mars começa com five years, uma música sobre a notícia de que restam apenas cinco anos para o fim do planeta.

a bateria começa devagar. a voz descreve pessoas comuns tentando compreender o incompreensível. e, aos poucos, o desespero cresce até ficar quase insuportável.

não há nada de confortável naquela gravação.

bowie conseguia fazer uma música sobre o fim do mundo soar como uma lembrança pessoal de alguma coisa que ainda não aconteceu.

e encerra o álbum com rock ‘n’ roll suicide.

que título espetacularmente inconveniente para uma canção que, no fundo, oferece companhia a alguém no momento em que mais precisa dela.

é uma das coisas mais bonitas que ele fez.

um artista que havia construído um extraterrestre glamouroso, quase inalcançável, terminava olhando para a solidão humana com uma ternura brutal.

não prometia resolver a vida de ninguém.

apenas recusava a ideia de que alguém precisasse atravessá-la completamente sozinho.

e eu acho isso devastador.

em 1973, no hammersmith odeon, bowie anunciou o fim de ziggy stardust diante de uma plateia atônita. a própria banda não havia sido avisada adequadamente.

o personagem estava no auge.

o público queria mais.

a indústria certamente queria muito mais.

bowie decidiu encerrá-lo.

imaginem explicar isso a um executivo contemporâneo da indústria do entretenimento. abandonar uma marca extremamente lucrativa porque o artista sente que precisa seguir em frente.

o sujeito provavelmente precisaria ser reanimado com uma apresentação de resultados trimestrais.

mas bowie compreendia uma coisa que muitos artistas passam a vida inteira ignorando.

o sucesso também pode ser uma prisão, especialmente quando obriga alguém a representar eternamente a pessoa que já deixou de ser.

e ele continuou mudando.

veio o soul de young americans, a inquietação quase febril de station to station, os experimentos de low, a atmosfera fria e fascinante dos discos ligados à sua temporada em berlim.

e então, em 1977, surgiu heroes.

meu deus, heroes.

aquela guitarra de robert fripp, a produção de tony visconti, a voz de bowie crescendo até parecer que está tentando atravessar uma parede com a própria garganta.

e havia uma parede real.

a música foi gravada perto do muro de berlim, e uma das imagens que inspiraram bowie foi a de um casal se beijando nas proximidades do muro.

anos depois descobrimos que eram tony visconti e a cantora antonia maaß. visconti era casado na época, e bowie preservou o segredo durante anos.

uma das músicas mais comoventes sobre a possibilidade de sermos heróis por um único dia nasceu, em parte, de um beijo clandestino observado pela janela de um estúdio.

eu adoro isso.

porque os grandes momentos humanos raramente acontecem como os departamentos de relações públicas gostariam.

não têm iluminação perfeita, roteiro aprovado ou uma equipe encarregada de verificar se a emoção está alinhada ao posicionamento da marca.

às vezes são apenas duas pessoas se beijando diante de uma parede que divide o mundo.

e um homem sensível o bastante para transformar aquela imagem em música.

heroes nunca me pareceu uma canção sobre invencibilidade.

é sobre a coragem de viver um instante sabendo que ele não vai durar.

e poucas coisas são tão humanas quanto isso.

depois veio ashes to ashes, em 1980, trazendo major tom de volta.

mas o astronauta já não era aquele explorador misterioso de 1969. havia algo de deteriorado, desiludido, quase brutalmente honesto naquele retorno.

bowie não tinha medo de revisitar os próprios mitos e descobrir que eles também haviam envelhecido mal.

é uma qualidade rara.

principalmente num mundo em que todo mundo está ocupado tentando esconder suas contradições atrás de um filtro cuidadosamente escolhido.

e em 1981, o ano em que nasci, ele entrou num estúdio suíço com o queen e ajudou a criar under pressure.

aquela linha de baixo de john deacon. a voz de freddie mercury. bowie respondendo como se estivesse discutindo com o próprio mundo.

duas vozes extraordinárias falando de pressão, medo, pessoas nas ruas e da necessidade desesperada de ainda conseguirmos cuidar uns dos outros.

não vou repetir aqui tudo o que essa música passou a significar para mim recentemente. já escrevi sobre isso e continuo incapaz de assistir a determinadas imagens acompanhadas por ela sem sentir os olhos encherem de lágrimas.

mas existe uma coisa que hoje compreendo melhor.

bowie tinha uma capacidade quase absurda de criar músicas que continuariam encontrando novos significados muito depois de gravadas.

e talvez seja esse o verdadeiro tamanho de um artista.

não apenas o que sua obra significou quando foi criada.

mas o que ela continua significando na vida de pessoas que ele nunca conheceu.

há ainda modern love, com aquela energia quase irresponsável de quem tenta dançar enquanto a cabeça está cheia de perguntas. let’s dance, que transformou bowie num fenômeno pop ainda maior sem eliminar completamente sua estranheza. absolute beginners, uma declaração de amor tão desarmada que chega a ser desconcertante vinda de um homem tão sofisticado.

e wild is the wind.

se alguém quiser entender a diferença entre cantar uma música e colocar alguma coisa profundamente íntima dentro dela, recomendo ouvir a interpretação de bowie.

é uma gravação que parece feita depois que todos foram embora, as luzes do restaurante já foram apagadas e alguém, incapaz de voltar para casa, finalmente resolveu confessar aquilo que passou a noite inteira tentando esconder.

mas bowie também errou.

fez discos menos inspirados. tomou decisões discutíveis. viveu excessos, atravessou períodos sombrios, disse coisas das quais precisou se distanciar.

e eu não preciso fingir que nada disso aconteceu para admirá-lo.

aliás, desconfio profundamente dessa necessidade contemporânea de transformar artistas em santos. é uma maneira bastante eficiente de destruir tudo o que os torna interessantes.

não amo david bowie porque ele era perfeito.

amo porque era profundamente humano e nunca pareceu satisfeito em permanecer parado dentro das próprias limitações.

em 2013, depois de anos longe dos holofotes, ele reapareceu com where are we now?

e há alguma coisa nessa canção que me atinge de uma maneira completamente diferente das outras.

não é mais o extraterrestre desafiando o planeta.

é um homem envelhecendo, lembrando das ruas de berlim, dos lugares que conheceu, das pessoas que passaram pela sua vida.

a voz parece carregar o peso do tempo.

e o tempo, esse filho da puta absolutamente democrático, não faz exceções nem para david bowie.

quando ouço aquela música, penso em tudo que vamos deixando para trás sem perceber. cidades, amizades, versões de nós mesmos que um dia pareceram definitivas.

lugares onde fomos felizes e aos quais nunca mais voltaremos exatamente como éramos.

há uma tristeza serena nisso.

não a tristeza performática de quem transforma qualquer inconveniente numa tragédia existencial.

a tristeza verdadeira de compreender que viver também significa perder coisas, inclusive partes de quem fomos.

e então chegou blackstar.

8 de janeiro de 2016.

seu aniversário de 69 anos.

bowie lançou um disco estranho, ousado, cheio de jazz, inquietação, experimentação e uma vontade quase insolente de continuar descobrindo novos sons.

trabalhou com músicos como o saxofonista donny mccaslin e fez algo que considero profundamente admirável.

não tentou produzir uma imitação confortável de seus antigos sucessos.

mesmo no fim da vida, continuava fazendo música como quem ainda tinha alguma coisa a investigar.

dois dias depois, morreu.

10 de janeiro de 2016. eu tinha acabado de completar 35 anos, alguns dias antes e de repente lazarus adquiriu um peso quase insuportável.

aquele vídeo em que aparece numa cama, com os olhos cobertos, depois se levanta, dança, escreve freneticamente e finalmente desaparece dentro de um armário.

é difícil assistir àquilo sabendo o que aconteceu.

tony visconti chamou blackstar de seu presente de despedida.

e confesso que até hoje tenho dificuldade em ouvir o disco inteiro sem pensar no homem por trás da obra.

não no ícone.

não no personagem.

no homem.

alguém que sabia que a vida estava se tornando curta e ainda encontrava energia para criar.

e aqui está o motivo mais profundo pelo qual amo david bowie.

ele me faz pensar em todas as vidas que deixamos de viver por medo.

em quantas vezes engolimos uma opinião para evitar desconforto. em quantas vontades enterramos porque não combinavam com a imagem que os outros haviam construído de nós. em quantas oportunidades desperdiçamos tentando ser razoáveis diante de pessoas que jamais tiveram a delicadeza de nos compreender.

bowie passou décadas criando personagens, mas nunca me pareceu tão verdadeiro quanto nos momentos em que deixava transparecer suas fragilidades.

o homem que parecia ter vindo de outro planeta compreendia a solidão humana de uma maneira assustadoramente íntima.

e talvez seja justamente isso que me comova.

porque, no fundo, não amamos artistas apenas pelo que fazem.

amamos alguns deles pelo que conseguem despertar naquilo que escondemos até de nós mesmos.

há músicas que escuto porque são boas.

há músicas que escuto porque me lembram momentos.

e há músicas de david bowie que escuto porque me devolvem a partes de mim que eu nem sabia que havia perdido.

space oddity me lembra que é possível chegar longe e ainda assim sentir falta de casa.

changes me lembra que mudar não é uma traição.

starman me faz pensar em todas as pessoas que cresceram acreditando que havia alguma coisa errada com elas.

life on mars? me lembra que o mundo é grande demais para ser reduzido à mediocridade de quem acredita ter todas as respostas.

heroes me lembra que alguns instantes justificam uma existência inteira.

under pressure me lembra que precisamos uns dos outros muito mais do que nossa arrogância permite admitir.

e lazarus me lembra que até os homens que pareciam imortais precisaram partir.

isso dói.

mas também torna tudo mais bonito.

porque um dia percebemos que não estamos apenas envelhecendo com as músicas que amamos. estamos envelhecendo dentro delas.

a canção permanece a mesma.

nós é que já não somos.

e cada vez que voltamos a ouvi-la encontramos alguma coisa diferente, porque carregamos novas perdas, novos amores, novos medos e aquela coleção de pequenas cicatrizes que chamamos, com certo excesso de generosidade, de experiência.

david bowie morreu há mais de dez anos.

e continua sendo, para mim, uma das presenças mais vivas da música.

não porque apareça estampado em camisetas, exposições e fotografias cuidadosamente vendidas a preços obscenos. a indústria tem um talento admirável para transformar até a rebeldia em produto de luxo.

mas porque suas músicas continuam fazendo perguntas que eu ainda não consegui responder.

e, principalmente, porque nunca exigiram que eu tivesse todas as respostas.

talvez seja isso.

passei a vida vendo gente tentar me convencer de que amadurecer significa finalmente descobrir quem somos e permanecer assim até o fim.

bowie me mostrou uma possibilidade muito mais interessante.

a de continuar descobrindo.

a de envelhecer sem se tornar uma caricatura das próprias certezas.

a de aceitar que podemos ser várias pessoas durante uma única existência e que nenhuma delas precisa ser a versão definitiva.

quando penso nele, não vejo apenas o raio vermelho e azul de aladdin sane, o cabelo de ziggy ou o elegante homem de terno dos últimos anos.

vejo todas essas pessoas existindo dentro de um único homem.

e penso na quantidade de coragem necessária para continuar recomeçando quando o mundo inteiro já decidiu quem você deveria ser.

é por isso que amo david bowie.

não porque ele me ensinou a ser diferente.

mas porque me fez entender que não preciso pedir desculpas por continuar mudando.

e, se algum dia me perguntarem qual foi seu maior feito, provavelmente não vou citar os discos vendidos, as premiações, a influência na moda ou as incontáveis pessoas que inspirou.

vou pensar naquele adolescente que ligou a televisão em 1972, viu um homem de cabelo vermelho cantando sobre alguém vindo das estrelas e, pela primeira vez, talvez tenha sentido que havia um lugar no mundo para ele também.

bowie nunca conheceu esse adolescente.

talvez nunca tenha sabido seu nome.

mas é possível que tenha mudado sua vida.

e há alguma coisa extraordinariamente bonita em saber que um homem pode desaparecer e continuar fazendo companhia a desconhecidos décadas depois.

esse é o tipo de imortalidade que me interessa.

o resto são estátuas, discursos e homenagens organizadas por pessoas que provavelmente teriam pedido a david bowie para se vestir de maneira mais discreta.

que se danem.

eu ainda tenho muitos discos para ouvir.

e muitas versões de mim mesmo para conhecer.

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2025

under pressure

há algo de extraordinariamente irônico no fato de que uma música nascida de uma noite de improviso, vinho suíço e cinco egos suficientemente grandes para provocar um pequeno desastre diplomático tenha encontrado, 45 anos depois, seu lugar nas ruas do brasil.

e não numa propaganda de automóveis, num comercial de banco ou em alguma dessas campanhas publicitárias que tentam vender emoção como quem vende margarina.

mas na avenida paulista, no meio de uma multidão de jovens que resolveu trocar a confortável indignação digital pela inconveniência de aparecer pessoalmente.

a música era under pressure, de david bowie e queen.

e a história por trás dela torna tudo ainda mais fascinante.

em 1981, ano em que nasci, bowie apareceu no mountain studios, em montreux, na suíça, onde o queen estava gravando. ninguém havia planejado aquele encontro como uma grande reunião de gênios para salvar a música contemporânea. estavam apenas tocando, bebendo e improvisando. uma atividade bastante mais produtiva do que a maioria das reuniões estratégicas realizadas desde então.

john deacon criou uma linha de baixo extraordinariamente simples. tão simples que, depois de uma pausa para comer e beber, segundo as lembranças dos próprios músicos, quase ninguém conseguia concordar sobre como ela havia sido tocada.

imaginem a cena. cinco dos maiores talentos do rock reunidos e a história da música quase perdendo um clássico porque alguém resolveu jantar.

mas há um detalhe ainda mais delicioso.

o título provisório da composição era people on streets.

pessoas nas ruas.

sim. pessoas nas ruas.

quarenta e cinco anos antes de aquela música acompanhar imagens da avenida paulista tomada por uma multidão, seus criadores já repetiam essas palavras dentro de um estúdio suíço.

se isso tivesse sido inventado por um roteirista de hollywood, provavelmente seria considerado simbolismo excessivo.

a diferença é que a vida, ocasionalmente, tem mais imaginação do que os profissionais encarregados de explicá-la.

e a própria música é uma pequena obra-prima de tensão.

começa com aquele baixo insistente, quase claustrofóbico. não parece uma celebração. parece um coração tentando manter o ritmo enquanto alguma coisa muito séria acontece lá fora.

e há uma genialidade quase cruel naquela simplicidade. john deacon não precisava de cinquenta instrumentos, um coral de crianças ou uma orquestra inteira para fabricar emoção. bastaram algumas notas para produzir uma sensação de urgência que atravessaria gerações.

algo que deveria ser estudado por certos publicitários convencidos de que a profundidade de uma mensagem depende da quantidade de efeitos especiais.

bowie entra com sua voz carregada de apreensão. freddie responde com uma urgência quase desesperada. as vozes se encontram, se interrompem, disputam espaço. não há tranquilidade alguma naquela gravação.

há pressão. medo. famílias divididas. pessoas nas ruas. a sensação sufocante de viver num mundo que parece exigir de todos mais do que conseguem suportar.

soa familiar?

a canção não fala de uma eleição brasileira. não foi escrita contra um partido, um candidato ou qualquer personagem da nossa interminável ópera política. e justamente por isso conseguiu encontrar um significado tão poderoso quarenta e cinco anos depois.

porque fala daquilo que acontece com seres humanos quando o mundo começa a parecer pequeno demais para suportar tanto medo.

e então acontece o que torna under pressure uma canção muito maior do que um clássico de rock.

ela muda de direção.

no meio de todo aquele caos, freddie mercury começa a insistir na possibilidade de oferecer outra chance ao amor. e bowie leva a ideia ainda mais longe, tratando o amor não como uma delicadeza sentimental, mas como a coragem de se importar com quem está à margem.

não é o amor decorativo das campanhas de perfume.

é o amor como responsabilidade humana.

e isso, meus caros, é muito mais subversivo do que parece.

porque é relativamente fácil transformar raiva em espetáculo. basta um microfone, uma plateia e algum sujeito convencido de que falar alto substitui pensar.

difícil é convencer pessoas de que ainda existe alguma coisa que vale a pena preservar umas nas outras.

agora voltemos à avenida paulista.

11 de outubro de 2026.

uma eleição presidencial em seu momento mais tenso. o país dividido. o primeiro turno havia terminado com lula atrás de seu adversário, flávio bolsonaro. as pesquisas, os comentaristas, os especialistas e aquela fauna de analistas políticos que consegue explicar qualquer resultado depois que ele acontece ocupavam suas posições habituais.

mas alguma coisa havia escapado ao controle dos profissionais da política.

os jovens estavam se organizando.

fãs de lady gaga, taylor swift, bts, beyoncé, movimentos estudantis, torcidas, coletivos, gente com histórias e razões diferentes para participar. pessoas que provavelmente jamais concordariam sobre qual seria o melhor álbum do ano, mas conseguiram encontrar uma maneira de ocupar a mesma avenida.

e agora chegamos àquela imagem.

aquela maldita imagem que não consigo assistir sem sentir alguma coisa apertar dentro do peito.

lula aparece subindo uma rua ao lado do masp. um homem de oitenta anos, atravessando um pequeno pedaço de são paulo em direção a uma multidão que o espera.

a cena não tem nada de extraordinário quando descrita assim.

um homem caminhando. uma rua. um museu. gente reunida.

mas então entra under pressure.

aquele baixo.

aquele coração musical insistente.

e a câmera do drone começa a revelar o tamanho do que estava acontecendo.

a imagem se abre. o homem que ocupava o centro da cena começa a parecer pequeno. os prédios surgem, a avenida se estende e a multidão ocupa o espaço até onde os olhos conseguem acompanhar.

a paulista, essa avenida que já testemunhou manifestações, celebrações, protestos, derrotas e uma quantidade industrial de discursos esquecíveis, parece se transformar em alguma coisa maior do que uma rua.

e acontece um detalhe cinematográfico que talvez explique por que aquela montagem seja tão poderosa.

o protagonista deixa de ser apenas o homem caminhando.

passa a ser a multidão.

pessoas que acordaram cedo, enfrentaram transporte público, viajaram, combinaram encontros, levaram amigos, encontraram desconhecidos, suportaram calor e cansaço para estar ali.

o drone continua subindo.

e eu me pergunto quantas histórias cabem naquela imagem.

quantas pessoas tiveram medo do futuro. quantas estavam cansadas de brigar com parentes. quantas haviam perdido a paciência com a brutalidade transformada em entretenimento político. quantas simplesmente queriam fazer parte de alguma coisa que consideravam importante.

nenhuma câmera consegue mostrar tudo isso.

mas uma música, às vezes, consegue fazer com que a gente sinta.

e é exatamente aí que under pressure deixa de funcionar apenas como trilha sonora e passa a fazer parte da experiência emocional daquele vídeo.

porque a música não começa oferecendo uma resposta.

ela começa reconhecendo a pressão.

e quem viveu aquelas semanas sabe o quanto essa palavra pesava.

a tensão de uma eleição apertada. o medo, as expectativas, as discussões, a incerteza. a sensação de que uma decisão coletiva poderia determinar muito mais do que o nome que ocuparia um gabinete.

e então, diante daquela avenida tomada por pessoas, surge uma ideia extraordinariamente simples.

ninguém está vivendo isso sozinho.

talvez seja por isso que eu chore toda vez que revejo a cena.

e confesso que não é uma reação particularmente confortável para alguém que passou boa parte da vida desconfiando de grandes demonstrações emocionais. especialmente das produzidas pela política, esse ramo da atividade humana no qual sujeitos muito bem pagos nos garantem, com absoluta solenidade, que desta vez será diferente.

mas há imagens que atravessam nossa armadura de cinismo sem pedir licença.

aquela é uma delas.

e há outra coincidência maravilhosa.

o videoclipe original de under pressure, dirigido por david mallet em 1981, não mostrava nem bowie nem o queen. mostrava multidões, trabalhadores, trens lotados, conflitos, explosões e fragmentos do cinema mudo.

entre as imagens escolhidas estavam cenas de o encouraçado potemkin, de eisenstein, e nosferatu, de murnau.

pensem nisso.

uma canção construída sobre a pressão exercida sobre as pessoas foi originalmente transformada em imagens de gente comprimida pela vida moderna, pelo medo e pelos conflitos humanos.

quarenta e cinco anos depois, um drone brasileiro encontra outra multidão.

mas agora não estamos vendo apenas pessoas esmagadas pela pressão.

estamos vendo pessoas que decidiram aparecer apesar dela.

é uma mudança de perspectiva belíssima.

e o que torna tudo ainda mais interessante é que a própria gravação de under pressure nasceu de um conflito criativo.

brian may contou que bowie chegou a interferir na maneira como john deacon tocava o baixo. houve atrito, opiniões diferentes, disputas sobre os caminhos da composição. depois, bowie assumiu a tarefa de dar direção à letra, e may não ficou inteiramente satisfeito com o espaço que a guitarra ganhou no resultado final.

cinco músicos extraordinários discordando sobre praticamente tudo e ainda assim conseguindo produzir alguma coisa que nenhum deles teria criado sozinho.

uma pequena lição de convivência que, convenhamos, deveria ser distribuída gratuitamente a metade do congresso nacional.

e quando a canção chega ao seu momento mais intenso, ela não resolve o caos com uma demonstração de força.

ela faz algo infinitamente mais difícil.

pede outra chance.

uma chance de mudar nossa maneira de cuidar uns dos outros.

uma chance de não permitir que a pressão nos transforme naquilo que mais tememos.

e é impossível não pensar naquelas imagens da paulista sem perceber a delicadeza brutal dessa associação.

porque não era apenas um presidente chegando a um comício.

era também o encontro de gerações.

de um lado, um homem que havia começado sua trajetória pública num brasil de ditadura militar, greves operárias e repressão política.

do outro, jovens nascidos décadas depois, organizados por redes sociais, fandoms e formas de comunicação que seriam praticamente incompreensíveis para os dirigentes sindicais dos anos setenta.

duas épocas. linguagens diferentes. experiências radicalmente distintas.

e uma avenida entre elas.

na letra de under pressure, existe ainda aquela imagem da última dança.

e ali ela adquire uma dimensão quase insuportavelmente humana.

um homem de oitenta anos, consciente de que o tempo não negocia com ninguém, caminhando ao encontro de pessoas que ainda têm a maior parte da vida pela frente.

não sabemos se será a última campanha dele. a música tampouco foi escrita pensando nessa possibilidade.

mas a associação é inevitável.

porque toda última dança só é bonita quando nos lembra que houve uma vida inteira antes dela.

e então veio o dia 25 de outubro.

vinte e um dias depois do primeiro turno, o resultado foi outro. lula venceu com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de flávio bolsonaro.

uma eleição não se explica por uma música, um vídeo ou uma manifestação isolada. seria uma estupidez atribuir a uma montagem de internet aquilo que dependeu de milhões de escolhas individuais, campanhas, debates e mobilizações.

mas aquela cena da paulista se tornou uma das imagens pelas quais muita gente passou a recordar essas três semanas.

e não ficou restrita ao nosso universo político.

a manifestação ganhou cobertura de veículos internacionais como reuters, el país e efe. as comunidades de fãs brasileiras chamaram a atenção de grupos em outros países. e, depois da eleição, o gesto do L começou a aparecer em manifestações e manifestações de apoio político fora do brasil.

não significa que o mundo inteiro tenha descoberto uma fórmula infalível ou que movimentos tão diferentes tenham passado a pensar da mesma maneira.

mas existe algo culturalmente extraordinário em ver símbolos e estratégias nascidos de uma campanha brasileira atravessarem fronteiras tão rapidamente.

um país acostumado a importar tendências agora despertava curiosidade sobre sua capacidade de mobilização.

o brasil, que mal consegue organizar uma fila de embarque sem provocar uma crise de civilização, havia oferecido ao exterior uma experiência política que outros queriam entender.

e o que isso tem a ver com bowie e freddie mercury?

absolutamente tudo, ao menos no plano da emoção.

porque under pressure nunca foi sobre a fantasia infantil de um mundo sem conflitos.

foi sobre o que fazemos uns com os outros quando esses conflitos parecem insuportáveis.

e essa pergunta não pertence ao brasil.

pertence a qualquer sociedade que já tenha descoberto como é fácil trocar a complexidade humana por slogans, transformar divergências em inimigos e confundir brutalidade com coragem.

talvez por isso a canção tenha envelhecido tão pouco.

freddie mercury morreu em 1991. david bowie, em 2016.

os dois deixaram um mundo consideravelmente mais complicado do que aquele em que gravaram a música. e, francamente, depois de décadas de suposto progresso, ainda conseguimos produzir as mesmas velhas crueldades com equipamentos muito mais sofisticados.

temos inteligência artificial, satélites, algoritmos capazes de prever o que desejamos comprar e aparelhos que nos permitem conversar com alguém do outro lado do planeta.

e seguimos precisando que uma música de 1981 nos lembre de tratar outros seres humanos como gente.

um desempenho bastante constrangedor para a espécie mais convencida de sua própria inteligência.

mas há uma pequena ironia final nessa história, e ela é tão deliciosa que parece invenção.

under pressure foi lançada em 26 de outubro de 1981.

em 26 de outubro de 2026, um dia depois da eleição brasileira, completou exatamente 45 anos.

e no dia seguinte, 27 de outubro, lula completou 81 anos.

uma canção sobre a pressão da vida, uma imagem de gerações se encontrando, uma eleição decidida três semanas depois do primeiro turno e um aniversário quase simultâneo.

não estou sugerindo destino, profecia ou alguma dessas teorias místicas que costumam surgir depois do terceiro copo de vinho.

coincidências são coincidências.

mas algumas possuem uma beleza narrativa difícil de ignorar.

e talvez o que mais me emocione nessa história não seja a vitória de um candidato, nem a repercussão internacional, nem mesmo a impressionante extensão daquela multidão.

é a maneira como a câmera sobe.

sim, a câmera.

porque há algo profundamente simbólico naquele movimento.

ela começa perto de um homem. depois mostra o que existe à volta dele. e, à medida que sobe, cada pessoa individual vai ficando menor, enquanto a dimensão coletiva se torna impossível de ignorar.

é quase uma tradução visual daquilo que a música pede.

uma mudança de perspectiva.

a capacidade de perceber que existe alguma coisa além de nós mesmos.

quando revejo o vídeo, não consigo evitar pensar em quem estava lá e jamais aparecerá num close. na pessoa que saiu do trabalho, no estudante que economizou para viajar, na mulher que levou a filha, no velho que já esteve em outras manifestações e talvez tenha pensado que nunca mais veria algo parecido.

todos minúsculos vistos do alto.

todos indispensáveis àquela imagem.

é isso que me desmonta.

porque a história costuma lembrar o nome de quem estava sobre o palanque.

mas nenhuma multidão existe sem as vidas anônimas que decidiram estar presentes.

e naquele instante, com o baixo de john deacon pulsando, as vozes de bowie e freddie mercury se encontrando e a avenida se abrindo diante dos olhos, o que sinto não é simplesmente entusiasmo político.

é uma consciência quase dolorosa da passagem do tempo.

dos artistas que já morreram.

das gerações que envelheceram.

das batalhas que terminaram.

das outras que continuam.

e dos jovens que ainda estão chegando para viver suas próprias histórias.

ninguém sabe quanto tempo durará a influência internacional dessa mobilização, nem quais mudanças concretas sobreviverão ao entusiasmo do momento. a história tem o desagradável costume de cobrar resultados muito depois que a música termina.

mas aquela imagem já existe.

e isso ninguém pode desfazer.

um homem subindo uma rua.

uma avenida cheia de gente.

uma câmera se afastando.

e duas vozes gravadas há quarenta e cinco anos encontrando um novo sentido em um país do outro lado do oceano.

talvez daqui a décadas alguém assista a esse vídeo sem conhecer todos os detalhes da eleição de 2026.

talvez não saiba os nomes dos candidatos, não entenda as disputas, não reconheça os cartazes.

mas ouvirá aquele baixo.

verá a multidão.

e entenderá que, naquele domingo, havia pessoas para quem estar ali significava alguma coisa enorme.

porque há momentos que pertencem à política e outros que, sem deixar de ser políticos, também passam a pertencer à memória afetiva de quem os viveu.

e essa é a parte que nenhum marqueteiro consegue encomendar.

a emoção verdadeira não aceita briefing.

não obedece a calendário de publicação.

não nasce de uma reunião com doze executivos discutindo se o vídeo precisa ter mais três segundos para melhorar o engajamento.

ela acontece.

e às vezes acontece com uma música velha, um drone e milhares de pessoas reunidas numa avenida.

não consigo ouvir under pressure da mesma maneira desde então.

aquele baixo agora me leva de volta à paulista.

a voz de bowie me lembra a pressão de um mundo que parece nunca nos conceder descanso.

e quando freddie mercury começa a cantar sobre a possibilidade de oferecer outra chance ao amor, lembro que, por trás de toda a retórica grandiosa e de todas as certezas políticas, ainda existem pessoas tentando encontrar uma maneira menos cruel de viver juntas.

é isso que me faz chorar.

não porque a música prometa um final feliz.

mas precisamente porque ela sabe que não existe essa garantia.

o mundo continua difícil. as sociedades continuam divididas. nenhuma eleição elimina nossas contradições e nenhuma multidão, por maior que seja, nos dispensa da responsabilidade de continuar pensando.

mas, por alguns minutos, aquela combinação de música e imagens consegue nos fazer sentir a dimensão humana de um acontecimento histórico.

e talvez seja essa a grandeza de under pressure.

ela começa com o peso de um mundo inteiro sobre os ombros.

e termina nos lembrando daquilo que ainda podemos oferecer uns aos outros.

quarenta e cinco anos depois, bowie e freddie encontraram pessoas nas ruas.

as mesmas pessoas que já estavam no primeiro nome daquela canção.

people on streets.

e, toda vez que o drone sobe sobre a paulista, tenho a estranha sensação de que a história está nos mostrando algo que a política, com toda sua arrogância, frequentemente esquece.

por trás de cada grande acontecimento existem vidas pequenas demais para caber nas manchetes, mas grandes o suficiente para mudar o sentido de uma época.

a música termina.

a imagem desaparece.

e eu continuo ali por alguns segundos, olhando para a tela.

com os olhos molhados e aquela sensação desconcertante de ter testemunhado alguma coisa que levarei comigo por muito tempo.

francamente, depois de tudo isso, acho que podemos perdoar john deacon por ter quase esquecido a linha de baixo depois do jantar.

o que ele criou acabou se tornando a memória musical de milhões de vidas que jamais conheceria.

e não existe sucesso de marketing no mundo que se compare a isso.

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2025

três semanas

há algo de deliciosamente obsceno em ver a história humilhar os donos da verdade. especialmente aqueles sujeitos de peito estufado, mandíbula contraída e uma convicção quase religiosa de que o futuro lhes pertence. são os mesmos que passam a vida falando em força, poder e grandeza, geralmente com a profundidade intelectual de um filé de frango descongelado.

e então veio o brasil.

esse país extraordinário, contraditório, insolente, onde falta dinheiro para o básico, mas nunca falta criatividade para mandar a arrogância tomar no cu com uma elegância quase artística.

três semanas.

vinte e um malditos dias.

foi o intervalo entre dois domingos de eleição. tempo suficiente para uma mobilização mudar o rumo de uma disputa presidencial e começar a oferecer ao mundo algo que nenhuma consultoria milionária havia conseguido colocar numa apresentação de powerpoint.

uma maneira de reagir.

e o mais extraordinário é que tudo isso coube numa letra.

um simples L feito com a mão. sem tanques, sem uniformes, sem aquela estética ridícula de homens que precisam parecer perigosos para esconder o pavor que sentem diante de pessoas livres.

uma letra que nasceu como símbolo eleitoral e começou a viajar como referência para movimentos que enfrentam a extrema direita.

na espanha, ada colau ergueu o L. no méxico, claudia sheinbaum repetiu o gesto. na frança, grupos políticos passaram a reproduzir a estratégia brasileira de mobilização. na argentina, a experiência inspirou novas redes de organização. até nos estados unidos começaram a estudar o que diabos havia acontecido por aqui.

leiam isso novamente.

o mundo está olhando para o brasil em busca de inspiração política.

o brasil.

o mesmo país que ainda precisa explicar a um cidadão adulto que não se deve jogar lixo na rua, que considera uma obra entregue no prazo um fenômeno sobrenatural e que consegue transformar uma reunião de condomínio numa guerra civil em miniatura.

esse mesmo brasil.

e, francamente, há uma beleza quase pornográfica nessa ironia.

durante anos, assistimos ao crescimento internacional de uma política alimentada pelo medo, pela raiva e pela necessidade patológica de encontrar alguém para culpar. um espetáculo de homens muito sérios, vestidos como executivos de funerária, prometendo salvar civilizações enquanto demonstram uma dificuldade constrangedora para conviver com quem pensa diferente.

e agora uma parte do mundo olha para um país tropical que resolveu responder com organização popular, irreverência e um gesto que qualquer criança consegue reproduzir.

não significa que a extrema direita esteja derrotada no planeta. seria uma conclusão tão idiota quanto declarar uma guerra vencida porque alguém ganhou uma batalha.

mas significa que uma experiência brasileira passou a ser observada, discutida e adaptada em outros lugares.

e isso é imenso.

porque o que atravessou o oceano não foi apenas uma letra.

foi a demonstração de que a resignação pode ser interrompida.

pensem no tamanho disso para alguém que vive em outro país, cercado por discursos autoritários, cansado de assistir à intolerância ser vendida como coragem e à brutalidade ser apresentada como virtude.

de repente, do outro lado do atlântico, chega a notícia de que uma mobilização popular conseguiu virar o resultado de uma disputa que parecia seguir outro roteiro.

não é uma solução pronta. é uma possibilidade.

e possibilidades são perigosíssimas para quem constrói poder convencendo os outros de que nada pode mudar.

o que me emociona nessa história não é a glória de um partido ou de um líder. políticos passam, governos terminam, fotografias oficiais amarelam e homens convencidos da própria eternidade acabam reduzidos a notas de rodapé. a história tem um senso de humor infinitamente superior ao deles.

o que me emociona são as pessoas.

milhões de pessoas comuns, com suas contas atrasadas, seus filhos, seus empregos, suas pequenas tragédias particulares, encontrando uma maneira de participar de algo maior do que elas mesmas.

gente que não aparece nos livros. que não recebe medalhas. que não será convidada para discursar em conferências internacionais.

mas que esteve lá.

e sem essas pessoas não haveria história alguma para contar.

é nisso que penso quando vejo o gesto chegando a outros países. alguém, a milhares de quilômetros daqui, pode estar descobrindo que aquilo que parecia impossível talvez fosse apenas algo que ainda não havia sido tentado da maneira certa.

imaginem a dimensão humana dessa descoberta.

não existe luxo maior do que recuperar a sensação de que o futuro permanece aberto.

e pensar que tudo isso aconteceu num país que o mundo tantas vezes tratou como um eterno aprendiz de civilização.

desta vez, somos nós que estamos sendo observados.

não porque tenhamos resolvido nossos problemas. deus nos livre de tamanha presunção. ainda temos desigualdade, violência, corrupção e uma quantidade absolutamente obscena de gente produzindo opiniões com a mesma facilidade com que produz gases.

mas porque mostramos uma experiência de mobilização que começou a inspirar outras sociedades.

e talvez essa seja a parte mais importante de todas.

o brasil não exportou uma promessa de paraíso.

exportou a lembrança de que a história não é propriedade particular de quem grita mais alto.

três semanas para mudar o rumo de uma eleição. poucos dias para que símbolos e estratégias começassem a circular internacionalmente.

não sei aonde isso vai chegar. ninguém sabe. o futuro continua sendo aquele restaurante suspeito onde fazemos o pedido sem jamais ter certeza do que sairá da cozinha.

mas há momentos em que uma sociedade faz alguma coisa tão inesperada que obriga o mundo a reconsiderar suas certezas.

e o brasil acaba de viver um desses momentos.

talvez daqui a muitos anos alguém procure entender como uma letra desenhada no ar por mãos brasileiras foi parar em manifestações e debates políticos do outro lado do planeta.

e descubra que, por trás daquela imagem tão simples, havia milhões de histórias, uma imensa vontade de participar e a recusa de aceitar que o futuro já estivesse decidido.

isso é o que arrepia.

não a ideia de termos ensinado o mundo a vencer.

mas a possibilidade de termos lembrado outras pessoas de que ainda vale a pena tentar.

porque há uma diferença brutal entre ganhar uma eleição e devolver a alguém a coragem de imaginar outro amanhã.

a primeira coisa se mede em votos.

a segunda pode atravessar gerações.

e se essa pequena letra conseguir lembrar a alguém, em qualquer canto do planeta, que nenhuma forma de poder é eterna, já terá feito algo extraordinário.

o mundo ainda tem um longo caminho pela frente. e nós também.

mas é uma satisfação indescritível ver o brasil deixar de ser apenas o país sobre o qual todos têm alguma coisa a dizer e se tornar, por um instante, o país ao qual outros estão prestando atenção.

três semanas.

uma letra.

e uma pergunta atravessando fronteiras.

se eles conseguiram mudar o roteiro no brasil, o que mais pode mudar?

não conheço resposta mais bonita do que essa pergunta.

e imagino que ela esteja provocando uma bela indigestão em muita gente acostumada a se considerar dona do mundo.

excelente.

às vezes, a história merece ser servida sem antiácido.

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2025

ontem, por algum descuido, o mundo resolveu ser agradável

ontem saí à rua e vi pessoas sorrindo. não aqueles sorrisos de plástico que a humanidade aprendeu a fabricar para parecer feliz. eram sorrisos de quem havia recuperado alguma coisa. havia uma leveza quase indecente no ar, como se a cidade inteira tivesse finalmente soltado um suspiro que estava preso havia tempo demais.

lembrei de a day in the life, dos beatles. aquela genialidade de perceber que, no meio de todo o absurdo humano, a vida continua acontecendo. e, de vez em quando, surpreendentemente, ela é bonita pra cacete.

tomei meu café observando desconhecidos sorrirem uns para os outros. uma cena banal, diria algum idiota incapaz de reconhecer um milagre sem que ele venha acompanhado de efeitos especiais.

imagino que tanta felicidade tenha causado uma azia monumental em certas pessoas. paciência. o mundo já gastou tempo demais preocupado com o desconforto de quem não suporta a alegria alheia.

mas o que me emocionou não foram os sorrisos. foram os rostos. havia neles algo que nenhum dinheiro compra, nenhuma propaganda fabrica e nenhum discurso consegue imitar.

alívio.

e existe uma beleza brutal no alívio de quem, depois de tanto tempo, volta a respirar sem perceber.

ontem, por algumas horas, a vida não pareceu uma batalha.

pareceu vida.

e, meu deus, como isso fez bem.

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2025

ainda estamos vivos

hoje acordei e, pela primeira vez em muito tempo, não senti vontade de mandar a humanidade inteira para o inferno antes do café.

isso, vindo de mim, é praticamente uma declaração de amor.

lula venceu.

escrevo essas duas palavras devagar. como quem abre uma garrafa guardada há anos para uma ocasião que já começava a parecer improvável. como quem recebe a notícia de que um velho amigo sobreviveu a uma guerra. como quem descobre, depois de uma noite interminável, que ainda existe alguma coisa do lado de fora da escuridão.

lula venceu.

e há milhões de brasileiros que hoje acordaram com aquela expressão meio idiota de quem se apaixonou aos dezessete anos. gente que passou meses engolindo a própria angústia, discutindo com parentes, evitando grupos de whatsapp, ouvindo absurdos pronunciados com a solenidade de quem acaba de descobrir a verdade definitiva sobre a civilização ocidental.

gente que teve medo.

medo de perder direitos. medo de ver o país se acostumar com a violência política. medo de que o desprezo pelo outro deixasse de ser uma vergonha e passasse a ser uma credencial para ocupar cargos públicos.

e hoje essa gente sorriu.

alguns choraram.

outros abraçaram desconhecidos.

e eu gostaria de abraçar cada um deles, embora provavelmente acabasse pedindo desculpas pelo constrangimento e oferecendo um café.

porque existe uma beleza quase insuportável numa multidão que volta a respirar.

então, coloquei david bowie para tocar.

heroes.

em 1977, bowie estava em berlim, aquela cidade onde a humanidade havia conseguido transformar sua própria estupidez em monumento de concreto.

um muro.

imaginem a arrogância necessária para construir uma parede no meio da vida das pessoas e declarar que aquilo era uma solução política.

havia soldados, armas, torres de vigilância e homens muito sérios, certamente com diplomas e famílias respeitáveis, administrando a extraordinária tarefa de impedir que seres humanos atravessassem uma rua.

sempre houve homens muito sérios encarregados de coisas monstruosas.

essa talvez seja uma das lições mais desagradáveis da história.

o mal raramente precisa de uma gargalhada cinematográfica. costuma preferir uma mesa organizada, um carimbo, uma justificativa jurídica e alguém explicando que está apenas cumprindo ordens.

e naquele cenário bowie cantou sobre duas pessoas tentando encontrar um instante de liberdade.

duas pessoas.

um beijo.

um muro.

e uma voz que cresce até parecer que vai arrancar os tijolos com os dentes.

ouçam heroes hoje. ouçam alto. prestem atenção no momento em que bowie deixa de cantar com elegância e começa praticamente a gritar contra o mundo.

aquilo é a esperança perdendo a paciência.

e, meu deus, como eu precisava ouvir aquilo nesta manhã.

o fascismo sempre teve um talento extraordinário para se apresentar como solução.

oferece ordem aos assustados. grandeza aos humilhados. inimigos aos frustrados. uma explicação simples para todas as desgraças humanas, desde o desemprego até a decadência moral que algum sujeito de televisão acaba de descobrir entre dois anúncios de colchão.

é um negócio magnífico.

você pega uma sociedade complexa, escolhe um grupo para culpar e promete devolver a felicidade nacional assim que todos aprenderem a obedecer.

os figurinos mudam.

os métodos de propaganda evoluem.

os velhos discursos ganham cortes para redes sociais, legendas coloridas e uma trilha sonora que faria qualquer ditador do século passado morrer de inveja da tecnologia disponível.

a brutalidade agora chega com excelente qualidade de imagem.

e o mais impressionante é a quantidade de gente que continua confundindo crueldade com força.

um homem humilha alguém vulnerável e recebe aplausos pela coragem.

um político ameaça instituições e ganha admiradores pela autenticidade.

um governante transforma adversários em inimigos e seus seguidores chamam aquilo de amor à pátria.

é uma ginástica moral tão espetacular que deveria ser modalidade olímpica.

e foi contra esse ambiente político, contra essa familiaridade crescente com o autoritarismo, que tantos brasileiros foram às urnas ontem.

a vitória de lula carrega, para mim, o peso de tudo isso.

carrega o cansaço de quem viu a própria família se dividir. a tristeza de quem perdeu amigos para teorias delirantes. a indignação de quem ouviu elogios à ditadura como se estivéssemos falando de um período particularmente eficiente da administração pública.

carrega também a memória dos brasileiros que enfrentaram a repressão quando discordar podia custar a liberdade, o emprego, a família, a própria vida.

e é impossível pensar nessas pessoas sem sentir alguma coisa apertar no peito.

porque muitos dos que abriram caminho para a nossa democracia morreram antes de conhecer os dias que ajudaram a tornar possíveis.

nunca viram nossos debates eleitorais. nunca reclamaram de uma pesquisa de opinião. nunca tiveram o privilégio banal de votar, voltar para casa e esperar a apuração.

deram a própria vida para que desconhecidos, décadas depois, pudessem exercer um direito que hoje alguns tratam com o entusiasmo de quem precisa renovar o documento do carro.

há uma dívida humana imensa escondida dentro de uma urna.

e agora olhem para os estados unidos.

daqui a poucos dias, em 3 de novembro, os americanos irão votar nas eleições de meio de mandato.

as pesquisas nacionais mostram os democratas à frente na disputa pelo congresso. existe uma corrente de insatisfação com o governo trump atravessando o país, e a possibilidade de uma mudança importante no equilíbrio político americano já movimenta campanhas, ruas e conversas.

imagino pessoas em nova york, chicago, atlanta, phoenix. trabalhadores saindo cedo de casa. estudantes discutindo política em bares. mulheres organizando campanhas. famílias conversando sobre o futuro de seus filhos.

pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar de uma pequena cidade brasileira onde alguém também acordou hoje emocionado diante do resultado de uma eleição.

e, ainda assim, existe uma conversa acontecendo entre esses mundos.

uma conversa sem tradução necessária.

sobre medo.

sobre liberdade.

sobre o direito de continuar pertencendo ao próprio país mesmo quando o governante não gosta de você.

sobre a exaustão de viver numa época em que cada notícia parece exigir que escolhamos entre o desespero e a raiva.

a extrema direita internacional aprendeu a compartilhar estratégias, slogans, inimigos e fantasias de grandeza nacional. seus líderes se admiram, se imitam, se fotografam juntos e parecem competir para descobrir quem consegue pronunciar a palavra liberdade enquanto demonstra maior irritação diante da liberdade alheia.

é uma fraternidade curiosa.

todos prometem devolver seus países ao povo.

e todos parecem ter uma lista bastante específica de pessoas que prefeririam excluir dessa definição.

mas há outra coisa atravessando fronteiras.

a recusa.

aquela teimosia humana que aparece quando alguém decide que já ouviu ameaças suficientes para uma vida inteira.

aquela vontade de levantar, vestir uma camiseta, encontrar outras pessoas, enfrentar uma fila e participar de alguma coisa maior do que o próprio medo.

é nisso que penso quando olho para o brasil hoje e para os estados unidos às vésperas de novembro.

na possibilidade de uma geração inteira descobrir que o futuro ainda pode ser disputado.

sabe, eu conheço o cinismo.

somos velhos amigos.

ele esteve comigo em aeroportos, reuniões chatas, noites de insônia e manhãs em que bastava ler três manchetes para concluir que a evolução humana havia cometido algum erro.

o cinismo é confortável. oferece a sensação de inteligência sem exigir grandes riscos emocionais.

quem espera sempre o pior raramente se surpreende.

também raramente vive alguma coisa que preste.

e talvez seja por isso que hoje estou tão comovido.

porque alguma coisa em mim, que eu julgava definitivamente enterrada sob anos de notícias ruins e promessas políticas recicladas, resolveu aparecer.

a capacidade de acreditar.

não aquela fé infantil em homens providenciais, salvadores da pátria e outras criaturas mitológicas que costumam terminar seus dias cercadas de assessores e investigações.

falo da fé nas pessoas.

nas pessoas comuns.

na senhora que votou ontem pensando nos netos.

no rapaz que levou a mãe até a seção eleitoral.

na mulher que passou a semana inteira trabalhando e ainda encontrou disposição para conversar com os vizinhos sobre o país que gostaria de deixar aos filhos.

no cidadão que não aparece em fotografia nenhuma, não ganha entrevista, não tem seguidores, não sabe o que é engajamento e nunca será convidado para comentar o futuro da democracia numa mesa de televisão.

esse sujeito anônimo é a democracia.

não tem trilha sonora.

não tem frase de efeito.

às vezes chega atrasado, reclama do calor e esquece o número do candidato.

e carrega nas mãos um poder que reis, generais e tiranos passaram séculos tentando monopolizar.

isso deveria nos emocionar mais vezes.

bem, volto a bowie e sabe… há algo naquela música que sempre me destrói.

a voz começa contida, quase tímida, e vai ganhando uma urgência desesperada. parece alguém tentando convencer a si mesmo de que ainda existe uma saída. de que o amor pode sobreviver ao concreto. de que dois seres humanos podem desafiar, por um instante, toda a maquinaria de um mundo construído para separá-los.

e então a voz explode.

é impossível ouvir aquilo sem pensar nas pessoas que enfrentaram muros de verdade.

nas que foram perseguidas.

nas que desapareceram.

nas que morreram longe de casa.

nas que envelheceram esperando uma mudança que parecia nunca chegar.

imagino quantas vezes essas pessoas acordaram sem esperança.

quantas vezes pensaram em desistir.

quantas vezes tiveram de continuar simplesmente porque não havia alternativa moralmente suportável.

e penso que cada manhã de liberdade pertence um pouco a elas.

cada voto.

cada abraço numa praça.

cada lágrima derramada diante de um resultado eleitoral.

cada jovem que pode dizer o que pensa sem precisar olhar por cima do ombro.

há gente morta dentro dessas conquistas.

gente que jamais conheceremos.

gente que não recebeu estátua, nome de avenida ou homenagem oficial.

gente que simplesmente se recusou a aceitar que o mundo tivesse de continuar daquele jeito.

é por essas pessoas que hoje eu quero celebrar.

e é por elas que a música de bowie parece tão grande.

porque os heróis mais importantes raramente sabem que são heróis.

estão ocupados demais tentando sobreviver.

talvez estejamos vivendo um daqueles momentos em que a história abre uma fresta.

uma pequena abertura por onde entra ar.

o brasil acaba de atravessar uma eleição que mobilizou paixões, medos e esperanças profundas. os estados unidos se aproximam de outra votação decisiva para o equilíbrio de suas instituições. em diferentes países, milhões de pessoas discutem o futuro das democracias diante do crescimento de movimentos extremistas.

e eu sinto que existe alguma coisa poderosa nessa simultaneidade.

como se pessoas que nunca se encontraram estivessem, cada uma à sua maneira, tentando responder à mesma pergunta…

quanto da nossa humanidade estamos dispostos a entregar em troca da promessa de segurança?

é uma pergunta antiga.

e a história está cheia de respostas desastrosas.

hoje, porém, quero pensar nas respostas corajosas.

nas pessoas que se recusaram a denunciar um vizinho.

nos jornalistas que continuaram investigando.

nos professores que continuaram ensinando.

nos artistas que continuaram cantando.

nos cidadãos que continuaram votando.

há uma beleza imensa nessa insistência.

uma beleza que não cabe em discursos oficiais, slogans de campanha ou fotografias de políticos levantando os braços.

é a beleza de uma espécie profundamente defeituosa que, de vez em quando, encontra dentro de si uma grandeza inesperada.

e hoje eu vi um pouco dessa grandeza.

e o café acabou.

a música continua.

estou sentado aqui, pensando nos brasileiros que acordaram felizes, nos americanos que se preparam para votar, nos mortos que ajudaram a construir nossas liberdades e nos vivos que terão de carregá-las adiante.

e sinto uma vontade absurda de agradecer a pessoas que nunca conheci.

ao desconhecido que enfrentou uma ditadura.

à mulher que insistiu em votar mesmo depois de ouvir que sua voz não importava.

ao jovem que escolheu participar quando seria muito mais fácil desistir.

aos milhões de seres humanos que continuam acreditando que um país pertence a todos os que vivem nele.

hoje estou feliz por eles.

por nós.

pela possibilidade de que o mundo ainda guarde surpresas capazes de nos fazer chorar de alegria.

e, se isso arruinar definitivamente minha reputação de sujeito sarcástico e desconfiado, paciência.

já sobrevivi a humilhações piores.

vou colocar heroes mais uma vez.

vou aumentar o volume até incomodar os vizinhos.

vou tomar outro café.

e vou guardar esta manhã como quem guarda uma fotografia de alguém que ama.

porque houve um tempo em que eu pensei que jamais voltaria a sentir isso.

essa vontade de abraçar o mundo, apesar de conhecer muito bem os seus defeitos.

essa certeza momentânea de que ainda vale a pena.

essa esperança indecente, inconveniente, maravilhosa.

hoje a humanidade me fez chorar.

a desgraçada finalmente acertou alguma coisa.

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2025

quem lê tanta notícia? quem ainda tem coragem de olhar?

este é meu último texto antes da votação de hoje.

não sei quando vou escrever outro. talvez amanhã. talvez daqui a alguns dias. talvez eu precise de um tempo para descobrir o que fazer com o resultado, com o país e com essa coleção de sentimentos pouco apresentáveis que uma eleição brasileira consegue despertar.

acordei pensando num sujeito de 25 anos que, em 1967, teve a insolência de subir ao palco com guitarras elétricas e cantar sobre a vida enquanto o brasil era governado por militares.

caetano veloso.

alegria, alegria.

o país tinha generais, censores e uma quantidade impressionante de homens convencidos de que sabiam o que era melhor para todo mundo. caetano tinha uma guitarra, uma canção e o péssimo hábito de não pedir autorização para existir.

o curioso é que, naquela época, havia quem achasse a guitarra a parte mais perigosa da história.

em outubro de 1967, o brasil já estava havia três anos sob uma ditadura. direitos políticos tinham sido cassados, estudantes enfrentavam a repressão e um general ocupava a presidência sem precisar se submeter ao inconveniente de uma eleição popular.

e, no festival da record, havia gente preocupada com a invasão estrangeira representada por uma guitarra elétrica.

é uma imagem que merece ser apreciada com calma.

um país nas mãos de militares, e os patriotas ofendidos com os argentinos dos beat boys.

o problema não era o quartel dentro da política. era o rock dentro da música brasileira.

caetano entrou de paletó, gola rolê laranja e uma marchinha que parecia ter sido composta depois que alguém derrubou as páginas de um jornal sobre a mesa do café.

crimes. espaçonaves. guerrilhas. presidentes. bombas. brigitte bardot.

o planeta inteiro espremido numa caminhada.

não há uma sequência moralmente confortável. a bomba aparece perto da atriz. o presidente divide a paisagem com o beijo. a propaganda convive com a violência.

porque o horror não tem a educação de esperar que a felicidade termine.

em 1967, enquanto estudantes eram perseguidos, havia gente namorando. enquanto a polícia política produzia relatórios, alguém comprava um refrigerante. enquanto famílias começavam a descobrir o significado de ter um parente preso por motivos políticos, outras discutiam o preço da carne.

a ditadura não suspendeu o verão.

essa é uma das coisas que mais me perturbam quando alguém fala daqueles anos com saudade.

a memória costuma ser uma cozinheira desonesta. retira os ingredientes desagradáveis e apresenta o prato como se sempre tivesse sido delicioso.

havia ordem, dizem.

havia tranquilidade.

claro.

para quem?

para o sujeito que voltava para casa todas as noites?

para quem nunca precisou procurar um filho em delegacias?

para quem não sabia o que acontecia atrás de determinadas portas… ou sabia e preferia não perguntar?

o autoritarismo tem essa vantagem comercial, pode parecer um excelente produto para quem não está incluído na lista de defeitos.

e caetano continua andando.

contra o vento.

sem documentos.

não é preciso transformar cada palavra da música numa senha secreta contra os militares. isso seria reduzir uma canção extraordinária a um panfleto mediano.

o vento também vinha dos costumes, da moral, das patrulhas culturais e das expectativas de uma sociedade que queria saber exatamente onde cada jovem deveria ficar.

os generais tinham uma ideia de brasil.

parte da esquerda cultural tinha outra, frequentemente acompanhada de instruções sobre quais instrumentos um artista deveria tocar.

caetano parecia pouco interessado em receber ordens de qualquer um dos dois.

e então aparece a coca-cola.

um refrigerante americano no meio de uma canção brasileira, justamente quando o imperialismo cultural era assunto de discussões apaixonadas.

não era uma declaração de amor aos estados unidos. era o reconhecimento de que o mundo já havia entrado pela porta da frente enquanto muita gente continuava discutindo se deveria permitir sua entrada.

o brasil denunciava a influência americana e bebia coca-cola.

hoje denuncia a influência americana pelo iphone, publica o protesto no instagram e vai dormir assistindo a uma série produzida em los angeles.

a crítica ao imperialismo continua tendo fundamentos. a fantasia de pureza cultural é que sempre foi um pouco ridícula.

caetano não queria um brasil esterilizado.

queria mostrar o brasil que existia.

contraditório, sedutor, cafona, moderno, atrasado, violento, maravilhoso.

uma mistura que deixaria qualquer fiscal da identidade nacional com vontade de chamar a vigilância sanitária.

e há uma mulher pensando em casamento.

no meio de guerrilhas, bombas e presidentes, alguém quer casar.

acho isso de uma humanidade quase insuportável.

ela talvez queira uma casa, alguma segurança, um futuro que possa imaginar sem sentir medo.

ele quer continuar andando.

não sabemos se algum dos dois está certo.

e essa é a beleza.

a vida não interrompe seus pequenos desejos porque a história resolveu ficar monstruosa.

uma moça ainda quer casar.

um rapaz ainda quer beijar.

uma mãe ainda prepara o jantar.

e, em algum lugar, um homem pode estar sendo espancado por aquilo que pensa.

não é uma metáfora.

foi assim que o país viveu.

a parte da música que mais me persegue, porém, é aquela pergunta sobre a quantidade de notícias.

em 1967, o mundo entrava pelas bancas, pelo rádio e pela televisão. a guerra do vietnã, a corrida espacial, as guerrilhas latino-americanas, os presidentes, as estrelas de cinema.

hoje carregamos tudo isso no bolso.

a tragédia chega antes do café.

o escândalo aparece durante o almoço.

a mentira circula antes que alguém tenha tempo de conferir o fato.

e à noite, depois de consumir uma quantidade de informação que teria enlouquecido um editor de jornal de 1967, ainda encontramos energia para discutir com um desconhecido que usa a fotografia de um cachorro como identidade.

o mais espantoso não é o volume de notícias.

é o que fizemos com elas.

conseguimos transformar a realidade numa questão de preferência pessoal.

se o fato confirma minha opinião, é uma prova.

se contraria, é perseguição.

se a gravação favorece meu candidato, é definitiva.

se o compromete, alguém certamente a manipulou.

é uma forma extraordinária de investigação, primeiro se escolhe o inocente, depois se procura uma maneira de explicar por que as evidências estão erradas.

em 1967, o poder procurava impedir que determinadas informações circulassem.

hoje, mesmo com uma imprensa livre e uma democracia, muita gente consegue olhar diretamente para um fato e decidir que ele não merece existir.

não é a mesma situação histórica.

mas há algo deprimente em perceber que uma liberdade conquistada com tanto sofrimento pode ser desperdiçada com tamanha facilidade.

e então caetano dispensa livros e fuzis.

em 1967, isso não era uma imagem inocente.

a revolução cubana ainda incendiava a imaginação política. che guevara seria morto naquele outubro. o vietnã estava em guerra. no brasil, cresciam as discussões sobre como resistir aos militares.

caetano não estava dizendo que conhecimento era inútil ou que resistência era desnecessária.

estava se recusando a transformar a própria vida num uniforme ideológico.

não queria ser o soldado perfeito de uma causa.

queria ser um homem.

com dúvidas, desejos, contradições e uma vontade quase indecente de continuar caminhando.

é um tipo de liberdade que incomoda muita gente.

inclusive pessoas que passam o dia inteiro falando em liberdade.

porque há quem defenda a liberdade de expressão até o momento em que alguém expressa uma opinião inconveniente.

há quem defenda a família enquanto se dedica a regulamentar a intimidade da família dos outros.

e há quem se apresente como inimigo da censura, desde que possa decidir pessoalmente quais vozes merecem ser silenciadas.

a hipocrisia é uma das poucas instituições brasileiras que jamais enfrentaram uma crise de financiamento.

mas a história não teve a menor delicadeza com caetano.

em dezembro de 1968, depois do ai-5, ele e gilberto gil foram presos.

mais tarde, vieram o exílio e londres.

o rapaz que cantava sobre caminhar livremente descobriu que o estado brasileiro podia decidir até em que país ele teria permissão para morar.

e é aqui que alegria, alegria deixa de ser apenas uma canção bonita.

porque nós sabemos o que aquele jovem ainda não sabia.

sabemos que a repressão se aprofundaria.

que pessoas seriam torturadas.

que famílias passariam décadas procurando respostas.

que mães morreriam sem saber exatamente o que fizeram com seus filhos.

pensem nisso por um instante.

não nas grandes palavras. não nos discursos sobre democracia, soberania ou segurança nacional.

numa mãe.

numa cadeira vazia à mesa.

num prato que ninguém teve coragem de guardar.

numa pessoa que saiu de casa e nunca mais voltou.

a história do brasil também é feita dessas ausências.

e nenhuma delas aparece nas fotografias sorridentes dos homens que prometiam salvar a pátria.

talvez por isso eu não consiga tratar a votação de hoje como uma simples troca de administrador.

o país tem problemas enormes. há razões legítimas para estar decepcionado, irritado, cansado. ninguém precisa fingir entusiasmo por um governo para reconhecer a importância das instituições que permitem criticá-lo e substituí-lo.

mas também não dá para fingir que todos os projetos políticos enxergam essas instituições da mesma maneira.

o que está em discussão não é apenas quem ocupará a presidência.

é o tipo de relação que o poder terá com os limites impostos a ele.

com a imprensa.

com a justiça.

com quem discorda.

com a memória de um país que já experimentou o que acontece quando homens convencidos de sua missão histórica deixam de aceitar limites.

e aqui está a ironia que me tira o sono.

em 1967, caetano caminhava sem saber o que viria.

nós sabemos o que veio.

sabemos como começa a conversa sobre ordem. sabemos como a linguagem da salvação nacional pode ser usada para justificar abusos. sabemos quanto tempo um país pode levar para recuperar aquilo que perdeu.

não estamos condenados a repetir o passado.

mas também não recebemos nenhuma vacina contra ele.

e talvez o gesto mais perigoso de uma sociedade seja começar a tratar a própria história como uma advertência destinada exclusivamente aos outros.

não sei o que acontecerá hoje.

não sei se amanhã terei vontade de escrever.

mas sei que, ao ouvir alegria, alegria, não consigo pensar apenas naquele jovem de 25 anos, de gola rolê laranja, diante de uma plateia que vaiava guitarras.

penso no homem que seria preso.

no artista que seria mandado para longe.

nas pessoas que não tiveram a mesma sorte de voltar.

e penso na facilidade com que um país pode começar a perder a liberdade enquanto parte de sua população continua preocupada com o assunto errado.

em 1967, havia quem achasse que o perigo estava na guitarra.

é uma pergunta que vale levar para a urna, com o que estamos nos distraindo enquanto decidimos o futuro?

agora coloca alegria, alegria aí, enquanto espera sua vez de votar.

ouve aquela marchinha, a guitarra, a coca-cola, as bombas, os beijos, os presidentes.

e lembra que o rapaz que cantava não sabia o que vinha pela frente.

nós sabemos o que ficou para trás.

seria uma tristeza imensa descobrir que isso não nos ensinou absolutamente nada.

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2025

ensaio sobre a cegueira. o problema não é não enxergar. é gostar da escuridão.

saramago escreveu um livro em que uma epidemia deixa as pessoas cegas. não aquela cegueira cinematográfica, cheia de sombras e vultos misteriosos. não. uma cegueira branca, leitosa, como se alguém tivesse derramado luz demais dentro dos olhos.

e então ele fez o que os grandes escritores fazem quando estão particularmente decepcionados com a espécie humana. retirou uma única peça da engrenagem e ficou observando o que acontecia.

o resultado não foi bonito.

em pouco tempo, a civilização, essa senhora tão elegante em discursos oficiais, estava andando descalça sobre os próprios excrementos.

não foi preciso muito. um manicômio abandonado, algumas pessoas assustadas, soldados do lado de fora e comida insuficiente. logo apareceu alguém disposto a controlar a distribuição das refeições. depois vieram as exigências, as humilhações, a violência sexual.

o detalhe mais cruel é que os homens que tomaram o poder também eram cegos.

não precisavam enxergar para explorar os outros.

aparentemente, certas habilidades humanas dispensam a visão.

tenho pensado bastante nesse livro enquanto observo o brasil de 2026.

não porque ache que vivemos numa distopia literária. distopias costumam ter uma organização interna que a política brasileira dificilmente conseguiria reproduzir sem abrir uma comissão parlamentar para discutir quem ficaria responsável pelo apocalipse.

mas porque existe uma semelhança desconfortável entre a cegueira inventada por saramago e a relação que algumas pessoas desenvolveram com a realidade.

a diferença é que, no romance, ninguém pediu para ficar cego.

aqui, às vezes, parece que a cegueira vem com adesivo de campanha.

flávio bolsonaro participa de um debate. faz afirmações. algumas são contestadas por checagens de fatos. até aí, nada particularmente surpreendente. políticos dizendo coisas que não resistem a uma segunda olhada são uma tradição tão antiga que provavelmente já havia um assessor de imprensa tentando reinterpretar as últimas palavras de júlio césar.

o espetáculo começa depois.

quando alguém apresenta a checagem e recebe como resposta um categórico “ele não mentiu em nada”.

em nada.

é uma expressão maravilhosa.

não significa que a pessoa examinou cuidadosamente cada afirmação, comparou documentos, verificou gravações e chegou a uma conclusão fundamentada.

significa que a conversa acabou antes de começar.

o candidato foi declarado incapaz de mentir por aclamação popular. uma espécie de canonização administrativa, sem necessidade de milagre reconhecido pelo vaticano.

e, se aparecer uma gravação?

manipulação.

um documento?

perseguição.

uma reportagem?

armação.

uma investigação?

inimigos políticos.

é uma existência admiravelmente prática. a realidade inteira pode ser arquivada na pasta das coisas inconvenientes.

saramago precisou inventar uma epidemia para chegar a esse estado de coisas.

nós conseguimos com acesso à internet.

mas a parte mais perturbadora de ensaio sobre a cegueira não é a perda da visão. é o que acontece quando desaparece a vergonha.

no manicômio, um grupo de homens se apropria da comida. primeiro exige dinheiro e objetos de valor. depois passa a exigir os corpos das mulheres.

não há ali um grande discurso filosófico justificando a barbárie. há poder, necessidade e a descoberta de que os outros podem ser obrigados a aceitar o inaceitável.

é o tipo de cena que faz o leitor fechar o livro por alguns minutos e reconsiderar aquela conversa otimista sobre a bondade natural do ser humano.

e há outro detalhe. a degradação não acontece de uma vez.

ninguém acorda numa manhã e anuncia solenemente que, a partir de hoje, todos viverão como animais.

as coisas vão piorando aos poucos.

uma concessão aqui. uma explicação conveniente ali. uma indignidade tolerada porque, afinal, a situação é excepcional.

até que a exceção começa a exigir endereço fixo.

esse mecanismo me parece mais interessante do que qualquer discussão sobre quem venceu um debate.

porque a pergunta não é apenas por que alguém acredita numa afirmação falsa.

é por que continua acreditando depois de descobrir que ela é falsa.

e aqui entramos num território muito menos confortável.

há pessoas que não estão defendendo um político. estão defendendo o investimento emocional que fizeram nele.

anos de discussões familiares, amizades rompidas, vídeos compartilhados, certezas proclamadas com a confiança de um sujeito que jamais teve a desagradável experiência de desconfiar de si mesmo.

admitir que o candidato mentiu seria relativamente simples.

admitir que você passou anos defendendo alguém que mente já exige um tipo de coragem menos disponível no mercado.

então a mentira continua.

ganha uma explicação nova, um contexto novo, uma interpretação nova.

às vezes ganha até uma nova mentira para fazer companhia.

não é propriamente uma questão de falta de informação. é uma questão de custo psicológico.

a verdade chegou, mas a pessoa já gastou demais com a versão anterior.

saramago compreendia muito bem essa capacidade humana de transformar a própria miséria numa forma de normalidade.

a mulher do médico, única personagem que continua enxergando, não é uma heroína convencional. não atravessa o livro distribuindo frases inspiradoras sobre esperança. ela vê.

e ver, naquele mundo, é uma condenação.

ela vê a sujeira que os outros pisam. vê os corpos abandonados. vê a crueldade, o medo, a violência. vê também pequenos gestos de solidariedade, que talvez sejam a única coisa impedindo o livro de se tornar insuportável.

o que ela não pode fazer é alegar que não sabia.

esse é o privilégio miserável de quem enxerga.

e talvez seja justamente essa responsabilidade que tanta gente queira evitar.

porque, quando você admite ter visto, perde o direito de fingir surpresa.

quando admite que uma afirmação foi desmentida, precisa decidir se continuará repetindo-a.

quando admite que há perguntas legítimas sobre a trajetória de um político, precisa aceitar que elas não desaparecem só porque o sobrenome lhe parece familiar.

e perguntas, convenhamos, são um transtorno.

especialmente para quem prefere respostas prontas.

o romance tem uma cena particularmente reveladora quando os cegos chegam a uma igreja e encontram imagens religiosas com os olhos cobertos.

é uma imagem extraordinária. santos incapazes de ver. figuras feitas para inspirar fé agora partilhando a mesma escuridão dos fiéis.

pense na ironia.

até as imagens sagradas parecem ter desistido de olhar.

não sei se saramago imaginaria que, décadas depois, a política conseguiria produzir uma versão ainda mais conveniente desse fenômeno.

não precisamos vendar os olhos dos santos.

basta declarar que o santo jamais errou e tratar qualquer pessoa que apresente uma evidência contrária como inimiga da fé.

é um sistema fechado.

não há documento suficientemente claro, gravação suficientemente audível ou investigação suficientemente detalhada para atravessar uma crença que decidiu não admitir a possibilidade de estar errada.

e, nesse ponto, o político já nem precisa se defender muito.

seus seguidores fazem o serviço.

corrigem o que ele disse, reinterpretam o que ele fez, explicam o que ele quis dizer e, quando tudo falha, mudam de assunto com a agilidade de um garçom que acaba de descobrir um rato na cozinha.

o mais fascinante é que muitos fazem isso convencidos de estar defendendo a verdade.

saramago, que não tinha grande paciência para as ilusões confortáveis da humanidade, provavelmente reconheceria o cenário.

no fim do romance, as pessoas recuperam a visão.

mas não recebem nenhuma garantia de que aprenderam alguma coisa.

essa é a crueldade final.

a cegueira passa. a natureza humana permanece.

e talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer diante de cada mentira repetida com entusiasmo, de cada evidência descartada sem exame, de cada certeza que sobrevive intacta ao contato com os fatos.

não se essas pessoas conseguem enxergar.

mas o que fariam se, por um instante, enxergassem.

porque existe algo mais assustador do que um homem cego caminhando em direção ao abismo.

é um homem que vê o abismo, chama aquilo de estrada e ainda fica ofendido quando alguém sugere que talvez fosse prudente olhar por onde pisa.

saramago chamou seu livro de ensaio sobre a cegueira.

talvez, se tivesse conhecido a nossa época, acrescentasse um subtítulo.

manual de instruções para quem prefere não ser incomodado pelos fatos.

e venderia muito bem.

principalmente entre pessoas que jamais o leriam.

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2025

por que vou votar 13. e não, não é porque acredito em papai noel de barba branca.

se eu acreditasse em papai noel, pediria o fim da dependência do pt em relação a lula, o fim do bolsonarismo como negócio de família e um congresso nacional que descobrisse, por um breve instante de iluminação, que o dinheiro público não é uma herança deixada por um tio generoso.

pediria também que políticos respondessem por seus atos sem transformar o cargo numa espécie de seguro contra perguntas inconvenientes.

mas não acredito em papai noel. e, se ele aparecesse em brasília, provavelmente perderia o trenó numa negociação parlamentar, as renas seriam nomeadas para cargos comissionados e alguém apresentaria uma emenda para prolongar o natal por mais cinco anos.

o que eu quero é bastante simples. que o brasil consiga seguir em frente sem depender eternamente de lula e sem entregar o futuro à família bolsonaro.

lula, se reeleito, não poderá disputar novamente a presidência em 2030. o pt terá de apresentar outro nome. não significa que deixará o poder automaticamente, mas a sucessão finalmente deixará de ser um assunto que seus dirigentes podem empurrar para a próxima reunião.

já o bolsonarismo oferece uma solução muito mais prática para a falta de novas lideranças. troca-se o primeiro nome, conserva-se o sobrenome e espera-se que ninguém examine o histórico da empresa.

flávio bolsonaro não é uma folha em branco. seu antigo gabinete esteve no centro das investigações sobre rachadinhas, com fabrício queiroz entre os personagens principais. flávio também homenageou adriano da nóbrega, posteriormente apontado em investigações como ligado à milícia, e teve a mãe e a ex-mulher dele entre as funcionárias do gabinete.

há ainda a reportagem da piauí sobre uma tarde de lancha, durante a pandemia, oferecida por empresários interessados em negociar vacinas com o governo de seu pai. bebidas, acompanhantes, um relógio de luxo.

mas o contraste descrito pela revista é difícil de ignorar. enquanto famílias brasileiras contavam as horas que restavam aos seus parentes, empresários interessados em vender vacinas teriam encontrado tempo para uma tarde de hospitalidade náutica com o filho do presidente.

e não me venham com a indignação seletiva sobre a vida privada de adultos. a questão não é a lancha. é o acesso ao poder e o que se esperava obter dele.

quanto ao pai, não estamos falando apenas de controvérsias. jair bolsonaro foi condenado pelo supremo tribunal federal por crimes relacionados à tentativa de golpe de estado e planejar assassinato. a condenação não depende de quem vença a eleição, e a imunidade parlamentar de flávio não funciona como cobertura jurídica para a família inteira.

ainda assim, o sobrenome continua sendo apresentado como se fosse um programa de governo.

e o que flávio propõe para o funcionamento das instituições merece tanta atenção quanto seu passado.

ele falou em aproveitar um congresso mais favorável para alterar a constituição, discutir mudanças no judiciário, no sistema político e até a duração dos mandatos presidenciais. podendo ir de cinco a oito anos. oito anos.

reformar a constituição é legítimo quando se respeitam seus procedimentos e limites. mas, depois de tudo o que o país viveu em matéria de conflitos institucionais, pedir detalhes sobre essas propostas não deveria ser considerado uma provocação.

o congresso e o senado já exercem enorme influência sobre o orçamento, as leis e a fiscalização do governo. são instituições que deveriam controlar o executivo, inclusive quando concordam politicamente com ele.

e conhecemos suficientemente nossos políticos para saber que a harmonia entre poderes pode produzir bons acordos, mas também pode transformar perguntas inconvenientes em obstáculos que todos preferem remover discretamente.

é a velha história de entregar a faca e o queijo ao rato.

só que, neste caso, o rato também quer a chave da despensa e a presidência da comissão encarregada de investigar o desaparecimento do queijo.

governar exige negociação. presidentes precisam convencer parlamentares, aceitar derrotas, justificar decisões e conviver com a oposição. isso não é uma deficiência do sistema. é parte do sistema.

lula também terá de negociar com um congresso que não foi eleito para obedecer automaticamente ao presidente. isso não garante boas decisões nem elimina os conhecidos vícios da política brasileira. mas impede a fantasia de que a presidência, sozinha, resolve tudo por decreto e entusiasmo.

não quero um governo sem fiscalização. não quero um congresso transformado em departamento de aprovação automática. e não quero que mudanças profundas nas regras institucionais sejam tratadas como um detalhe administrativo que se resolve depois da posse.

também não espero perfeição de lula. o pt tem erros, alianças constrangedoras e decisões que merecem críticas. votar não deveria significar entregar a alguém a propriedade permanente da própria consciência.

quero cobrar qualquer governo, inclusive aquele em que votei.

no fim, quero uma coisa bastante simples. mais quatro anos de lula e, depois, um pt obrigado a descobrir se sabe existir sem ele. se não souber, que desapareça na própria falta de imaginação.

quero também os bolsonaro longe do planalto e respondendo à justiça pelo que for comprovado, sem confundir mandato com salvo-conduto. jair já foi condenado. quanto a flávio, que as perguntas sobre sua trajetória continuem sendo feitas. afinal, quem se apresenta como bom moço não deveria ter medo de mostrar o currículo inteiro.

não acredito em papai noel. tampouco acredito em dinastias redentoras.

quero um país que sobreviva a lula, ao pt e aos bolsonaro.

e, sinceramente, já tivemos bolsonaro suficiente para uma vida inteira. a república não precisa de uma segunda temporada só porque o elenco é da mesma família.

papai noel, infelizmente, não pode providenciar isso.

e, mesmo que pudesse, eu desconfiaria de qualquer sujeito que entra na sua casa de madrugada, não presta contas a ninguém e insiste que devemos acreditar em suas boas intenções apenas porque usa vermelho.

mas nós podemos, votando 13.