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2025

o desaparecimento do tédio

na verdade o tédio não desapareceu.

nós o expulsamos.

como se fosse um parente inconveniente que aparecia sem avisar e ficava sentado no sofá atrapalhando a festa.

e durante muito tempo isso pareceu uma grande vitória.

afinal, quem sente falta do tédio?

ninguém.

ninguém olha para os melhores momentos da vida e pensa…

“o que tornou aquilo especial foi o tédio.”

mas talvez essa seja justamente a armadilha.

porque as coisas mais importantes raramente recebem crédito.

ninguém agradece ao silêncio por uma boa conversa.

ninguém agradece à escuridão por uma noite estrelada.

e ninguém agradece ao tédio pelas ideias que surgiram dentro dele.

porque o tédio sempre trabalhou nos bastidores.

eu cresci numa época em que ficar entediado não era um acidente.

era inevitável.

você esperava.

e esperava muito.

esperava consulta.

esperava ônibus.

esperava ligação.

esperava filme passar na televisão.

esperava a locadora receber aquele lançamento.

esperava o domingo acabar.

esperava.

a vida tinha espaços vazios.

e hoje eu percebo que talvez aqueles espaços não fossem defeitos do sistema.

talvez fossem parte do sistema.

porque alguma coisa estranha acontece quando você não tem para onde fugir.

o cérebro começa a vagar.

e cérebros vagando fizeram coisas interessantes.

inventaram livros.

inventaram negócios.

inventaram músicas.

inventaram teorias.

inventaram religiões.

inventaram problemas que não existiam.

mas também inventaram praticamente tudo que vale a pena.

hoje a situação é diferente.

o tédio dura aproximadamente quatro segundos.

às vezes menos.

o elevador chega.

celular.

a fila anda.

celular.

o semáforo fecha.

celular.

o garçom demora.

celular.

você acorda.

celular.

você dorme.

celular.

é como se tivéssemos contratado um animador de festa para seguir a gente 24 horas por dia.

e ele fosse absolutamente incapaz de aceitar qualquer momento de silêncio.

eu adoro a ironia disso.

porque a internet prometeu acesso infinito à informação.

e entregou acesso infinito à distração.

não é a mesma coisa.

nem de longe.

há uma frase atribuída ao filósofo blaise pascal que me persegue há anos…

“todos os problemas da humanidade vêm da incapacidade do homem de ficar sozinho numa sala por alguns minutos.”

e toda vez que leio isso penso…

se pascal estivesse vivo hoje, provavelmente teria um ataque cardíaco observando uma fila de aeroporto.

ninguém está sozinho.

ninguém está parado.

ninguém está esperando.

todo mundo está deslizando o dedo para cima.

é quase um reflexo.

um tique coletivo.

uma resposta automática ao menor sinal de vazio.

e talvez seja aí que mora a grande tragédia cômica da nossa época.

nunca tivemos tanto acesso ao mundo.

e talvez nunca tenhamos passado tão pouco tempo dentro da própria cabeça.

porque ficar entediado era uma experiência curiosa.

primeiro vinha o desconforto.

depois a inquietação.

depois a vontade de fazer qualquer coisa.

e então, às vezes, surgia uma ideia.

não uma ideia brilhante.

não uma startup.

não uma palestra ted.

apenas uma ideia.

uma conexão.

uma lembrança.

uma pergunta.

alguma coisa que não existiria se você estivesse assistindo um vídeo de alguém organizando uma geladeira em outro continente.

eu gosto de pensar nas pessoas obcecadas que admiro.

os escritores.

os cineastas.

os músicos.

os cientistas.

os inventores.

e percebo que quase todos tinham uma relação íntima com o tédio.

não porque gostavam dele.

mas porque conviviam com ele.

o ingrediente secreto raramente era genialidade.

era atenção.

e atenção precisa de espaço.

o problema é que hoje confundimos estímulo com vida.

não são a mesma coisa.

um cassino é cheio de estímulos.

um aeroporto é cheio de estímulos.

o instagram é cheio de estímulos.

isso não significa que alguma coisa memorável esteja acontecendo.

às vezes a melhor coisa do dia acontece justamente quando nada está acontecendo.

e essa é uma ideia quase ofensiva para os tempos atuais.

porque vivemos numa cultura que transformou ocupação em virtude.

todo mundo ocupado.

todo mundo acelerado.

todo mundo atualizado.

todo mundo acompanhando tudo.

e ao mesmo tempo ninguém consegue lembrar onde deixou a chave.

ou o motivo pelo qual entrou na cozinha.

ou o que estava pensando cinco minutos atrás.

porque talvez nosso cérebro nunca tenha sido projetado para consumir o equivalente a uma biblioteca, uma emissora de televisão e um cassino antes do café da manhã.

talvez exista um motivo pelo qual as melhores ideias continuam aparecendo no banho.

porque o banho é um dos últimos lugares onde os algoritmos ainda não entraram.

ainda.

e eu acho engraçado que o tédio tenha sido vendido como inimigo durante tanto tempo.

quando talvez ele fosse mais parecido com aqueles personagens irritantes dos filmes.

o sujeito chato.

lento.

inconveniente.

mas que no final estava tentando ajudar.

porque o tédio fazia uma pergunta simples…

“e agora?”

e essa pergunta obrigava você a responder alguma coisa.

hoje a resposta já chega pronta.

antes mesmo da pergunta existir.

talvez por isso eu sinta falta dele.

não do desconforto.

não da espera.

não da chatice.

mas do espaço.

o espaço entre uma coisa e outra.

o intervalo.

a pausa.

aquele território vazio onde pensamentos estranhos apareciam sem pedir licença.

onde você observava mais.

imaginava mais.

lembrava mais.

e talvez até vivesse mais.

porque existe uma possibilidade desconfortável.

talvez o contrário do tédio não seja entretenimento.

talvez o contrário do tédio seja distração.

e essas duas coisas são muito diferentes.

uma alimenta.

a outra apenas ocupa.

e eu não consigo parar de pensar que talvez a grande rebeldia do futuro não seja largar a tecnologia.

não seja abandonar as redes.

não seja fugir para uma cabana.

talvez seja simplesmente sentar em algum lugar sem pegar o celular.

e aguentar o desconforto.

os primeiros trinta segundos parecem uma eternidade.

depois alguma coisa acontece.

o mundo desacelera.

a cabeça reaparece.

e você lembra de uma coisa que quase esquecemos completamente…

a própria companhia também pode ser interessante.

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2025

clientes

as marcas nunca tiveram tanto dado sobre os clientes. e nunca pareceram entender tão pouco os clientes.

é uma situação impressionante. elas sabem onde você clicou. quanto tempo ficou numa página. quantos segundos assistiu um vídeo. qual botão apertou. qual anúncio ignorou. qual produto abandonou no carrinho. sabem tudo. menos quem você é.

e talvez esse seja o problema.

porque em algum momento confundimos informação com entendimento. e são coisas completamente diferentes. eu posso saber tudo sobre seus hábitos. e ainda não entender absolutamente nada sobre você.

o spotify sabe o que você escuta. mas não sabe por que aquela música te destrói.

o netflix sabe o que você assiste. mas não sabe por que você assistiu aquilo três vezes depois de um dia de trabalho.

o aplicativo sabe o que você faz. mas não sabe quem você é.

e durante muito tempo as marcas entendiam isso. elas passavam tempo observando pessoas. conversando com pessoas. visitando pessoas.

hoje elas observam dashboards. e dashboards são péssimos em explicar seres humanos. porque seres humanos são contraditórios. e dashboards odeiam contradições. eu vejo isso o tempo todo.

empresas obcecadas por métricas. taxas. gráficos. relatórios. segmentações. personas. mapas. funis. e cada vez mais distantes da realidade.

porque a realidade é confusa. e planilhas não gostam de confusão. o cliente diz que quer preço. e compra status. diz que quer praticidade. e escolhe complicação. diz que quer economizar. e gasta mais.

diz uma coisa e faz outra. e depois inventa uma terceira explicação. isso não cabe num dashboard. isso cabe numa conversa.

e talvez seja exatamente isso que esteja faltando. conversa.

porque hoje muitas empresas falam sobre clientes como biólogos falam sobre uma espécie rara.

“nosso consumidor apresenta comportamento x.”

“nosso público possui perfil y.”

“nossa persona valoriza z.”

ninguém fala assim sobre amigos. ninguém fala assim sobre família. ninguém fala assim sobre pessoas. e talvez por isso tantas marcas pareçam tão desconectadas. elas estudam consumidores. mas esqueceram de observar humanos. e existe uma diferença enorme. porque consumidores compram. humanos sonham. consumidores convertem. humanos têm medo. consumidores clicam. humanos sentem vergonha. consumidores geram receita. humanos contam histórias. e as melhores marcas da história sempre entenderam isso. elas entendiam que estavam lidando com pessoas.

não com métricas. não com segmentos. não com clusters. não com dashboards. pessoas.

e talvez a ironia seja justamente essa. nunca tivemos tanta tecnologia para entender clientes. e nunca pareceu tão difícil encontrar uma empresa que realmente os compreenda.

porque no final das contas, quanto mais eu vejo empresas falando sobre dados, mais eu sinto falta de uma habilidade antiga.

curiosidade.

curiosidade genuína.

não sobre o que as pessoas clicam.

mas sobre por que elas vivem do jeito que vivem. porque a resposta quase nunca está no dashboard. normalmente está numa conversa que ninguém teve.

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2025

eu e a corrida

durante muito tempo eu achei que corria porque gostava de correr.

hoje suspeito que corria por razões muito mais complicadas.

e muito menos nobres.

eu corria porque queria melhorar.

depois porque queria melhorar mais.

depois porque queria melhorar mais rápido.

e depois porque alguém, em algum lugar, estava melhorando mais rápido do que eu.

e esse é o problema.

a corrida nunca fica sozinha.

o ecossistema chega logo atrás.

primeiro vem o tênis.

depois o relógio.

depois o aplicativo.

depois o sensor.

depois o treinador.

depois o youtube.

depois o strava.

depois os rankings.

depois os grupos.

depois as planilhas.

depois as comparações.

e sem perceber você não está mais correndo.

você virou gerente de projeto da própria corrida.

eu conheço esse sujeito porque fui ele.

eu era o cara que sabia exatamente o pace médio dos últimos meses.

sabia a frequência cardíaca.

sabia a recuperação.

sabia a projeção para maratona.

sabia o vo2 máximo.

sabia tudo.

absolutamente tudo.

menos uma coisa.

se eu ainda estava me divertindo.

e talvez essa seja a pergunta mais importante.

porque existe uma armadilha maravilhosa escondida dentro do universo da corrida.

ela começa como uma atividade.

e termina como uma identidade.

não é mais algo que você faz.

vira algo que você é.

você não corre.

você é corredor.

e quando isso acontece tudo muda.

porque identidade é uma droga poderosa.

ela precisa ser alimentada.

precisa ser exibida.

precisa ser confirmada.

precisa ser protegida.

e aí começam as coisas estranhas.

a corrida deixa de ser sobre correr.

e passa a ser sobre demonstrar que você corre.

o mapa.

o pace.

o gráfico.

o post.

o comentário.

a medalha.

a foto.

o relógio.

o tênis.

o suplemento.

o vídeo.

a opinião.

o ritual.

o uniforme.

o personagem.

e eu não estou apontando o dedo.

eu fui esse cara.

eu adorava esse cara.

eu investi uma quantidade vergonhosa de dinheiro para ser esse cara.

e honestamente?

foi divertido.

durante um tempo.

porque existe uma sensação maravilhosa em perseguir números.

o problema é que números não sabem quando parar.

você corre 5 quilômetros.

quer 10.

corre 10.

quer meia maratona.

faz meia.

quer maratona.

faz maratona.

quer baixar tempo.

baixa tempo.

quer baixar mais.

e mais.

e mais.

e mais.

a linha de chegada está sempre se mudando para outro lugar.

e talvez seja aí que mora a grande mentira.

porque eu passei anos acreditando que estava perseguindo saúde.

mas olhando para trás?

acho que estava perseguindo validação.

uma validação extremamente sofisticada.

embrulhada em disciplina.

embrulhada em desempenho.

embrulhada em superação.

mas ainda validação.

porque existe uma parte do cérebro humano que adora transformar qualquer coisa em competição.

qualquer coisa.

corrida.

livros.

meditação.

cafés.

viagens.

produtividade.

até descanso.

se existir um aplicativo capaz de medir alguma coisa, nós vamos transformá-la em campeonato.

é inevitável.

e durante anos eu participei com entusiasmo.

até perceber algo estranho.

as melhores corridas da minha vida raramente apareciam nos gráficos.

não eram as mais rápidas.

não eram as mais longas.

não eram as mais impressionantes.

eram as corridas em que eu simplesmente desaparecia.

corridas em que eu olhava para a cidade.

pensava em ideias.

resolvia problemas.

lembrava de histórias.

ou simplesmente não pensava em nada.

corridas que não serviriam para impressionar ninguém.

corridas que seriam péssimo conteúdo.

corridas completamente inúteis para as redes sociais.

e exatamente por isso extraordinárias.

hoje eu corro quase todos os dias.

trinta minutos.

às vezes mais.

às vezes menos.

mas quase sempre trinta minutos.

e existe algo engraçado nisso.

porque dez anos atrás eu teria achado isso ridículo.

eu teria chamado de treino leve.

treino curto.

treino insuficiente.

treino sem ambição.

e talvez eu estivesse certo.

só que hoje percebo uma coisa.

eu corro mais agora do que corria naquela época.

não em quilômetros.

em consistência.

porque naquela época eu corria para bater metas.

hoje corro para continuar correndo.

e isso muda tudo.

não existe prova no horizonte.

não existe medalha.

não existe recorde.

não existe planilha me julgando.

não existe versão imaginária de mim mesmo esperando ser impressionada.

e descobrindo que talvez essa fosse a parte interessante desde o começo.

existe apenas um sujeito colocando um pé na frente do outro.

o mais irônico é que eu ainda anoto tudo.

quilômetros.

tempo.

pace.

mas num caderno.

um caderno…

e eu adoro isso.

porque aquele caderno não está tentando me otimizar.

não está tentando me vender nada.

não está tentando me transformar numa versão melhorada de mim mesmo.

ele está apenas guardando histórias.

e talvez seja essa a grande diferença.

durante anos eu usei a corrida para construir desempenho.

hoje eu uso a corrida para acumular dias.

dias em que saí mesmo sem vontade.

dias frios.

dias quentes.

dias bons.

dias ruins.

dias normais.

porque quanto mais velho fico, mais suspeito que a vida não seja construída por grandes feitos.

ela é construída por pequenas repetições.

e talvez a corrida tenha finalmente me ensinado isso.

não quando eu corri mais.

não quando corri mais rápido.

não quando terminei maratonas.

mas justamente quando parei de transformar cada quilômetro numa tentativa desesperada de provar alguma coisa.

para os outros.

para a internet.

ou para mim mesmo.

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2025

autobiography of a yogi

eu releio autobiography of a yogi todo ano.

e toda vez que digo isso alguém reage como se eu tivesse acabado de anunciar que converso com golfinhos.

o que é curioso.

porque vivemos numa época em que adultos passam horas assistindo vídeos de desconhecidos explicando como ficar milionário, jovem para sempre, produtivo até a exaustão e emocionalmente blindado.

isso parece perfeitamente razoável.

mas um sujeito sugere que talvez exista alguma coisa acontecendo dentro da cabeça humana que ainda não entendemos completamente e imediatamente a sala inteira vira um congresso científico.

é fascinante observar onde cada pessoa escolhe ser cética.

porque eu nunca releio o livro pelos milagres.

os milagres são a parte menos interessante.

e acho que é aí que muita gente erra.

elas ficam tão ocupadas discutindo se uma história aconteceu ou não aconteceu que perdem a pergunta muito maior escondida atrás dela.

é como visitar uma catedral e passar duas horas debatendo a composição química dos tijolos.

tecnicamente relevante.

espiritualmente uma tragédia.

o que me interessa no livro é outra coisa.

é o desconforto.

porque autobiography of a yogi faz uma pergunta que a civilização moderna passou décadas tentando evitar…

e se você estiver procurando nos lugares errados?

essa é uma pergunta perigosa.

porque ela ameaça uma quantidade absurda de negócios.

ameaça a indústria da produtividade.

ameaça a indústria da autoajuda.

ameaça a indústria do consumo.

ameaça a indústria da distração.

ameaça praticamente tudo que movimenta a vida moderna.

porque o mundo inteiro parece organizado em torno da mesma promessa.

mais uma coisa.

mais uma compra.

mais uma meta.

mais uma promoção.

mais uma viagem.

mais uma conquista.

mais uma atualização.

mais uma versão melhorada de você mesmo.

e depois mais outra.

e depois mais outra.

e depois mais outra.

o que eu gosto em yogananda é que ele entra nessa conversa como um sujeito que chegou à festa errada.

todo mundo correndo para um lado.

e ele calmamente perguntando…

“vocês têm certeza?”

não oferecendo respostas.

oferecendo suspeitas.

e suspeitas inteligentes costumam ser mais valiosas.

porque uma resposta encerra uma conversa.

uma pergunta boa pode durar a vida inteira.

eu li esse livro pela primeira vez muitos anos atrás.

num período em que eu ainda acreditava que sabedoria era acumular informação.

mais livros.

mais cursos.

mais documentários.

mais dados.

mais conhecimento.

mais tudo.

e hoje suspeito que sabedoria tenha muito mais a ver com remover do que adicionar.

o que é profundamente irritante.

porque adicionar é divertido.

comprar um livro é divertido.

comprar um relógio é divertido.

comprar uma câmera é divertido.

comprar uma ideia nova é divertido.

remover ilusões é um trabalho muito menos glamouroso.

e talvez por isso tão pouca gente faça.

porque remover exige abrir mão de coisas que você gosta.

histórias que você conta para si mesmo.

certezas.

identidades.

explicações.

ego.

principalmente ego.

e autobiography of a yogi é um livro que tem uma relação particularmente agressiva com o ego.

ele passa páginas e páginas sugerindo que talvez você não seja exatamente quem pensa que é.

o que não é uma mensagem popular.

porque quase toda a cultura moderna funciona ao contrário.

ela passa o tempo inteiro reforçando identidades.

você é isso.

você é aquilo.

você pertence aqui.

você pertence ali.

você deve se definir.

se posicionar.

se apresentar.

se explicar.

e yogananda aparece dizendo algo muito mais estranho.

talvez a maior parte disso seja apenas roupa.

e não a pessoa usando a roupa.

isso me interessa.

muito mais do que qualquer milagre.

porque milagres são raros.

ego é diário.

eu encontro meu ego muito mais do que encontro levitação.

e suspeito que você também.

outra coisa que me fascina é que o livro foi escrito numa época em que as pessoas ainda acreditavam existir mistérios.

não respostas.

mistérios.

e existe uma diferença brutal.

mistérios convidam à curiosidade.

respostas convidam ao encerramento.

hoje temos respostas para tudo.

ou pelo menos fingimos ter.

abra qualquer rede social.

todo mundo sabe exatamente o que está acontecendo.

todo mundo tem certeza.

todo mundo entende geopolítica.

economia.

filosofia.

saúde.

tecnologia.

consciência.

espiritualidade.

tudo.

uma confiança impressionante para uma espécie que ainda perde meia hora procurando as próprias chaves.

e talvez por isso eu volte para esse livro.

porque ele me lembra de uma coisa que considero cada vez mais importante.

humildade intelectual.

a capacidade de olhar para o universo e dizer…

“não faço ideia.”

o que, honestamente, me parece uma posição muito mais racional do que a maioria das certezas que vejo por aí.

porque se existe uma coisa que envelheceu mal nas últimas décadas foi a arrogância.

a tecnologia ficou mais sofisticada.

a ciência ficou mais sofisticada.

mas a experiência humana continua estranha.

continuamos sonhando sem entender exatamente como.

continuamos sofrendo por coisas irracionais.

continuamos procurando significado.

continuamos sentindo falta de pessoas que já foram embora.

continuamos encarando o céu em algumas noites e sentindo alguma coisa difícil de colocar em palavras.

e talvez seja justamente aí que o livro permanece vivo.

não porque explica o mistério.

mas porque se recusa a destruí-lo.

porque algumas coisas ficam menores quando são explicadas.

e maiores quando são contempladas.

o mundo moderno está obcecado por eficiência.

yogananda parece interessado em profundidade.

o mundo moderno quer velocidade.

ele parece interessado em presença.

o mundo moderno quer respostas.

ele parece gostar de perguntas.

e quanto mais velho eu fico, mais suspeito que perguntas interessantes sejam um investimento melhor.

porque respostas envelhecem.

ideologias envelhecem.

teorias envelhecem.

certezas envelhecem.

mas algumas perguntas conseguem atravessar séculos intactas.

quem sou eu?

o que realmente importa?

o que estou fazendo com meu tempo?

por que nunca parece suficiente?

o que exatamente estou procurando?

essas perguntas estavam aqui antes de nós.

e provavelmente estarão aqui depois.

e talvez seja essa a verdadeira razão pela qual releio autobiography of a yogi todos os anos.

não porque acredito em tudo.

mas porque desconfio profundamente das pessoas que acreditam já ter entendido tudo.

e porque num mundo cheio de gente tentando parecer inteligente, existe algo refrescante em um livro que ainda consegue provocar espanto.

e eu não conheço muitos livros capazes de fazer isso depois de oitenta anos.

esse ainda consegue.

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2025

colecionar

estava refletindo, algumas pessoas gostam de colecionar objetos.

eu gosto de colecionar épocas.

porque quando vejo uma coisa antiga não vejo apenas a coisa.

vejo o mundo que existia ao redor dela.

um objeto antigo é uma pequena máquina do tempo.

ele carrega expectativas, ambições, limitações e sonhos de uma época que já desapareceu.

e talvez seja por isso que eu tenha dificuldade em me desfazer dessas coisas.

não porque sejam valiosas.

muitas nem são.

não porque sejam raras.

algumas são absurdamente comuns.

mas porque representam momentos específicos da história.

fotografias físicas de como o mundo imaginava o futuro.

e eu sempre fui fascinado pelo futuro.

talvez até demais.

o problema de ser um early adopter durante décadas é que você desenvolve uma relação estranha com o tempo.

você passa anos correndo atrás da próxima novidade.

da próxima tecnologia.

da próxima ideia.

do próximo lançamento.

e então acontece uma coisa curiosa.

o futuro envelhece.

aquele objeto revolucionário vira sucata.

aquela inovação vira peça de museu.

aquele lançamento aguardado vira curiosidade histórica.

e eu adoro isso.

adoro porque revela uma verdade muito humana.

o futuro nunca chega da forma que imaginamos.

ele sempre chega mais estranho.

mais bagunçado.

mais improvisado.

e muito mais engraçado.

talvez por isso eu goste tanto de guardar essas coisas.

porque elas contam histórias sobre otimismo.

sobre pessoas tentando adivinhar o amanhã.

e quase sempre errando.

às vezes de forma espetacular.

o que é ainda melhor.

eu olho para muitos desses objetos e não vejo tecnologia.

vejo ambição.

vejo engenheiros convencidos de que estavam mudando o mundo.

vejo empresas apostando milhões numa ideia.

vejo designers tentando materializar o futuro com plástico, metal e circuitos.

algumas vezes funcionou.

outras vezes não.

mas a tentativa continua fascinante.

porque existe algo profundamente humano em construir coisas para um mundo que ainda não existe.

e talvez seja isso que eu colecione.

não objetos.

não tecnologia.

não antiguidades.

eu coleciono tentativas.

tentativas de imaginar o futuro.

tentativas de resolver problemas.

tentativas de reinventar a vida.

tentativas de deixar uma marca.

algumas brilhantes.

algumas ridículas.

a maioria esquecida.

eu tenho um carinho especial justamente pelas esquecidas.

porque os vencedores entram para a história.

mas os fracassos mostram como as pessoas pensavam.

e quase sempre essa é a parte mais interessante da história.

no fundo, minha coleção inteira talvez seja apenas isso…

uma estante cheia de futuros que não aconteceram exatamente como prometido.

o que, pensando bem, é uma descrição bastante precisa da própria vida.

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2025

preste atenção

a maior parte das pessoas hoje não vive mais no presente.

vive em abas abertas.

o corpo está num lugar. a cabeça em outros seis. o dedo atualizando tela. o relógio vibrando. a mente ensaiando resposta. lembrando boleto. antecipando reunião. revisitando discussão de terça. simulando tragédia futura que provavelmente nunca vai acontecer.

e no meio disso tudo existe um momento acontecendo de verdade.

mas ninguém está lá pra assistir.

isso pra mim virou uma das coisas mais assustadoras da vida moderna.

não a tecnologia. não a velocidade. não o excesso de informação.

o desaparecimento completo da presença.

a incapacidade quase física de estar exatamente onde se está.

a gente desaprendeu isso.

e pior, a gente começou a tratar distração permanente como sinal de importância.

se você está ocupado demais, acessível demais, sobrecarregado demais, respondendo cinco coisas ao mesmo tempo, então aparentemente você “venceu”.

parabéns.

você virou central de atendimento da própria existência.

e eu percebo isso em mim o tempo inteiro.

estou tomando café pensando no próximo compromisso. estou no próximo compromisso pensando no e-mail que não respondi. estou respondendo o e-mail olhando outra tela. estou vendo filme mexendo no celular. estou ouvindo alguém enquanto minha cabeça organiza lista mental de supermercado, senha, passagem, notificação, academia, prazo, conta, reunião, algoritmo.

e aí o dia acaba.

e tecnicamente eu estive vivo o tempo inteiro.

mas onde exatamente eu estava?

porque presença exige uma coisa que hoje parece quase ofensiva… entrega.

estar de verdade em alguma coisa. inteiro. sem dividir atenção em 14 pequenas migalhas cognitivas.

e isso ficou raro.

raríssimo.

nietzsche falava sobre como a humanidade moderna começaria lentamente a perder a capacidade de contemplação profunda. não porque faltaria inteligência. mas porque sobraria estímulo.

e é exatamente isso.

ninguém consegue mais olhar pela janela sem pegar o celular depois de 11 segundos.

ninguém consegue almoçar sem consumir simultaneamente vídeo, notícia, mensagem, opinião ou algum ruído qualquer preenchendo o silêncio como se silêncio fosse vazamento emocional grave.

o silêncio assusta as pessoas hoje.

porque no silêncio você encontra a si mesmo sem edição.

e isso dá um medo desgraçado.

pascal dizia que grande parte dos problemas humanos nasce da incapacidade de um homem permanecer sozinho num quarto em silêncio.

olha em volta.

o homem acertou violentamente.

a gente leva estímulo até pro banheiro.

ninguém mais espera nada. ninguém mais observa nada. ninguém mais atravessa um dia sem anestesia digital contínua.

e o pior é que começamos a perder pequenas experiências absolutamente humanas por causa disso.

o gosto real do café. o som da chuva. o rosto de alguém falando. a sensação de entrar num lugar novo. o tédio. principalmente o tédio.

porque o tédio era onde a cabeça respirava.

era onde surgia ideia. memória. reflexão. curiosidade.

agora qualquer microsegundo vazio virou oportunidade pra desbloquear tela igual rato apertando botão por dopamina.

e eu não falo isso como monge antitecnologia olhando horizonte numa cabana.

eu faço igual.

talvez pior.

às vezes percebo que passei um dia inteiro sem realmente experimentar nenhum momento de forma completa.

só atravessei estímulos.

consumi blocos de tempo.

é como se a vida tivesse virado uma sequência infinita de prévias. nunca o filme inteiro.

e existe outra coisa ainda mais estranha… a obsessão moderna por registrar momentos substituiu a experiência do próprio momento.

as pessoas não assistem mais ao show. documentam que estiveram lá.

não vivem jantar. produzem evidência visual do jantar.

não caminham. otimizam caminhada em aplicativo.

não descansam. performam descanso.

não leem. postam a capa do livro antes da página 12. e depois usam um app que resume o livro em um áudio de 2 minutos.

e eu acho isso profundamente triste.

porque daqui a pouco a memória inteira da nossa existência vai parecer departamento de marketing da própria vida.

susan sontag falava que fotografar excessivamente uma experiência muitas vezes cria distância dela. você para de viver a coisa. começa a administrar a representação da coisa.

e talvez seja isso que mais me incomoda hoje… essa sensação constante de mediação.

ninguém mais simplesmente existe.

todo mundo narra a própria experiência em tempo real pra uma audiência invisível.

e isso destrói presença.

porque presença exige anonimato psicológico.

exige esquecer por alguns minutos que você possui identidade digital, imagem pública, resposta pendente, notificação acumulada e pequenas obrigações sociais performáticas.

presença exige desaparecer um pouco.

e talvez seja justamente isso que as pessoas mais temem hoje, desaparecer.

não ser visto. não ser lembrado. não ser atualizado. não ser validado.

então seguimos.

checando. rolando. respondendo. atualizando. produzindo sinais constantes de existência.

“eu estive aqui.” “eu pensei isso.” “eu comi isso.” “eu sobrevivi hoje também.”

e no meio dessa avalanche de autoevidência sobra cada vez menos experiência real.

porque experiência real exige lentidão.

e lentidão hoje parece fracasso.

andar devagar parece fracasso. não responder rápido parece fracasso. sumir um pouco parece fracasso. ficar entediado parece fracasso.

então todo mundo acelera.

e quanto mais acelera, menos sente.

quanto menos sente, mais precisa de estímulo.

quanto mais estímulo, menos presença.

é uma máquina perfeita.

e talvez por isso momentos realmente presentes hoje pareçam quase ilegais.

sentar sem celular. ouvir alguém sem interromper. comer sem tela. andar sem fone. ficar em silêncio sem ansiedade. ver chuva sem fotografar. brincar com filho sem olhar notificação. tomar café sem consumir simultaneamente 14 opiniões sobre geopolítica e whey protein.

isso virou luxo psicológico.

e eu sinceramente acho que daqui pra frente atenção vai virar uma das coisas mais valiosas do mundo.

não inteligência.

não produtividade.

atenção.

a capacidade brutalmente rara de olhar pra alguma coisa sem fugir dela em 9 segundos.

simone weil dizia que atenção é a forma mais pura de generosidade.

olha que frase violenta.

porque é verdade.

quando você realmente presta atenção em alguém, sem celular, sem pressa, sem autopromoção mental, sem esperar sua vez de falar… aquilo muda completamente a experiência humana.

mas quase ninguém faz mais isso.

todo mundo escuta já preparando resposta.

todo mundo vive já pensando no próximo passo.

e assim a vida inteira vai escapando pelos cantos.

porque no fim talvez o verdadeiro horror não seja morrer.

talvez seja perceber tarde demais que você nunca esteve completamente em lugar nenhum.

sempre dividido. sempre distraído. sempre antecipando. sempre consumindo. sempre administrando o próximo minuto enquanto o atual morria silenciosamente na sua frente.

e sinceramente?

acho que é por isso que algumas lembranças ficam tão fortes.

porque foram raros momentos em que estávamos realmente lá.

inteiros.

sem multitarefa. sem performance. sem audiência. sem fuga.

só presentes.

o que hoje em dia já beira milagre.

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2025

pois é…

aos 45 eu comecei a perceber que a maior parte da minha vida foi passada tentando evitar parecer ridículo.

o que é engraçado.

porque olhando agora eu claramente parecia ridículo mesmo assim.

só que com mais esforço, mais agenda, mais pose, mais vocabulário cuidadosamente escolhido e uma quantidade absurda de energia gasta tentando parecer uma pessoa que sabia exatamente o que estava fazendo. eu não sabia.

ninguém sabe.

algumas pessoas só improvisam com blazer melhor.

e acho que foi isso que mudou.

eu perdi o interesse em parecer uma pessoa muito coerente.

coerência demais me dá desconfiança.

parece gente que ensaiou a própria personalidade em frente ao espelho e agora está presa naquela versão pelo resto da temporada.

eu passei muito tempo achando que maturidade era virar aquele homem seguro, linear, perfeitamente alinhado consigo mesmo, cheio de respostas, dono de uma calma quase criminosa.

que fantasia maravilhosa.

quase uma ficção científica de classe média.

a verdade é que eu só fiquei melhor em lidar com o fato de que a vida não vem com roteiro, não respeita planejamento e claramente sente prazer em destruir cronograma de gente confiante.

e talvez isso seja liberdade.

não essa liberdade de propaganda com gente olhando horizonte como se tivesse descoberto a própria alma numa terça-feira.

liberdade real.

a liberdade meio suja, meio desconfortável, meio perigosa de poder fazer do meu jeito e entender que, quando você tem essa liberdade, a pior coisa que pode fazer é ficar preguiçoso, entediado e previsível.

porque aí é imperdoável.

se eu posso escolher, se eu posso criar, se eu posso tentar algo diferente, se eu posso errar sem pedir licença pra um comitê imaginário dentro da minha cabeça, então por que diabos eu escolheria fazer o correto, o seguro, o aceitável, o bem comportado?

eu prefiro falhar tentando alguma coisa com pulso do que acertar fazendo algo morno.

morno é uma ofensa.

morno é a morte usando camisa passada.

eu não tenho mais paciência pra vida sem risco nenhum.

não risco idiota, não pose, não coragem de linkedin.

risco de verdade.

o risco de parecer exagerado. o risco de ser mal interpretado. o risco de alguém não gostar. o risco de tentar algo que talvez dê errado, mas pelo menos não pareça produzido por um departamento de bom senso com medo de respirar alto.

porque existe um tipo de fracasso que eu respeito.

o fracasso de quem tentou fazer algo difícil.

de quem tentou sair da fórmula.

de quem olhou pra um caminho previsível e pensou… “não. por aqui eu já sei onde termina. e justamente por isso eu não quero.”

isso eu respeito.

agora acertar fazendo o óbvio?

parabéns.

você conseguiu estacionar perfeitamente numa vaga vazia.

comovente.

também comecei a entender que não ter um plano rígido talvez seja uma forma de inteligência.

não estou falando de virar irresponsável, esse personagem patético que acha que caos é profundidade.

eu gosto de lista. eu gosto de horário. eu gosto de chegar antes. eu gosto de saber onde estou pisando.

sou neurótico o suficiente pra observar quem chega atrasado e tirar conclusões silenciosas que talvez eu nunca diga em voz alta, mas que definitivamente estão sendo arquivadas num pequeno tribunal interno.

a questão é outra.

é não transformar controle em religião.

porque durante anos eu tentei antecipar tudo.

a reação. o resultado. a próxima etapa. o risco. o erro. o que iam pensar. o que eu deveria parecer.

e no fim algumas das melhores coisas que me aconteceram vieram justamente do que eu não tinha planejado.

do desvio. da porta errada. da conversa inesperada. do erro que abriu outra coisa. do “vamos ver no que dá” dito com pouca convicção e muita sorte.

eu gosto disso agora.

gosto de entrar em situações sem saber exatamente quem está no comando.

gosto de perceber que talvez eu seja o menos preparado da sala pra entender o que realmente está acontecendo.

isso é saudável.

humilhante, claro.

mas saudável.

porque tem uma arrogância muito feia em achar que você já entendeu tudo.

eu já fui esse cara em algumas versões.

o sujeito entra num lugar, observa três detalhes e já cria tese completa sobre o mundo.

que vergonha.

hoje eu tento chegar mais quieto.

não humilde de um jeito performático, essa humildade teatral de gente que quer aplauso por parecer simples.

humilde de verdade.

do tipo: “talvez eu esteja errado.” “talvez eu não tenha contexto.” “talvez eu não seja tão brilhante assim.” “talvez eu devesse calar a boca por mais cinco minutos.”

isso, aliás, deveria ser uma prática espiritual obrigatória.

calar a boca por mais cinco minutos.

resolveria guerras, reuniões, brainstormings e metade dos podcasts.

outra coisa que mudou aos 45… eu fiquei menos interessado em agradar todo mundo.

não por rebeldia juvenil.

isso também cansa.

mas porque uma reação forte, pra mim, vale mais do que aprovação unânime de gente entediada.

quando todo mundo concorda comigo, alguma coisa está errada.

ou eu falei algo covarde demais.

ou entrei numa sala cheia de gente educada demais pra admitir que discordou.

ou, pior, virei o tipo de pessoa que fala coisas tão lisas que ninguém tem onde tropeçar.

e eu não quero isso.

eu quero algum atrito.

alguma borda.

alguma coisa que faça alguém pensar… “não sei se concordo, mas isso me incomodou por um motivo interessante.”

isso é vida.

o resto é decoração verbal.

e talvez por isso eu tenha cada vez menos paciência pra versões muito polidas de mim mesmo.

durante muito tempo eu tentei parecer mais inteligente do que era. mais preparado. mais sofisticado. mais seguro. mais “no controle”.

que desperdício monumental de energia.

e sabe o pior?

quase ninguém estava prestando tanta atenção assim.

a gente sofre como protagonista de filme épico, mas na maioria das vezes é só figurante atravessando a rua na cabeça dos outros.

isso deveria libertar mais gente.

eu olho pra trás e vejo quantas decisões tomei só pra não parecer idiota.

e algumas delas foram exatamente as mais idiotas.

porque existe uma burrice específica em tentar parecer inteligente demais.

você começa a escolher palavras que não usaria. opiniões que não sente. posturas que não sustentaria numa noite ruim.

e aos poucos vira um personagem muito bem editado e completamente insuportável.

eu prefiro o contrário agora.

prefiro ser pego em contradição honesta do que em coerência falsa.

prefiro mudar de ideia do que defender até a morte uma versão antiga minha só porque ela foi publicada, dita, performada ou admirada por alguém.

isso também é envelhecer, parar de tratar toda versão passada de si mesmo como patrimônio histórico tombado.

algumas versões merecem demolição.

com explosivo, se possível.

também aprendi a desconfiar do dinheiro fácil.

não por moralismo.

moralismo me dá sono.

mas porque algumas coisas pagam bem no curto prazo e cobram aluguel da sua alma pelo resto da vida.

e eu não falo de alma num sentido místico.

falo daquela parte pequena e irritante dentro de você que sabe quando você se vendeu barato.

tem oferta que parece oportunidade e é só tornozeleira eletrônica.

você aceita uma vez e pronto.

vira “aquele cara”.

aquele cara da campanha. aquele cara da frase. aquele cara que topou. aquele cara que não soube dizer não quando ainda dava.

e eu gosto muito da palavra “não”.

demorei pra respeitar.

“não” é uma palavra curta, feia, antipática, nada instagramável.

por isso mesmo é excelente.

“não” salva reputação. salva tempo. salva gosto. salva sanidade. salva você de virar mascote de uma ideia que nem acredita.

e aos 45 eu comecei a entender que escolher bem o que recusar talvez seja mais importante do que escolher o que aceitar.

porque sim abre portas.

mas não impede que você entre em salas onde depois vai precisar explicar por que diabos estava lá.

também penso muito em sorte.

essa palavra que adulto ambicioso odeia porque estraga a fantasia meritocrática do próprio ego.

claro que esforço importa.

claro que disciplina importa.

claro que aparecer, fazer direito, respeitar o trabalho, chegar na hora, não ser um parasita emocional importa.

mas sorte existe.

acaso existe.

alguém lê algo seu. alguém lembra de você. alguém abre uma porta. alguém esquece de fechar outra.

e de repente sua vida muda.

o ponto é, quando a sorte aparece, você precisa não estar completamente despreparado, bêbado de vaidade ou ocupado demais tentando parecer genial.

precisa reconhecer… “isso aqui talvez não aconteça de novo.”

e agir com cuidado.

não com medo.

cuidado.

medo é paralisia. cuidado é respeito pela chance.

eu gosto dessa diferença.

e eu cheguei numa fase em que respeito profundamente quem leva o próprio trabalho a sério sem transformar isso em teatro.

gente que chega no horário. gente que limpa a própria bagunça. gente que entende que atraso não é traço de personalidade, é falta de consideração fantasiada de espontaneidade.

eu sei.

isso não é sexy.

pontualidade não rende manifesto.

mas quer saber?

chegar no horário é uma forma de caráter.

organizar o que você precisa organizar é uma forma de respeito.

fazer sua parte sem obrigar outro a carregar sua incompetência também.

eu não tenho paciência pra genial preguiçoso.

essa figura romantizada do criativo caótico que todo mundo ao redor precisa salvar.

meu amigo, se sua genialidade depende de outras pessoas varrendo os destroços da sua falta de respeito, talvez você seja só inconveniente com vocabulário melhor.

eu gosto de gente boa de trabalho.

gente que não precisa de discurso motivacional. gente que entende o padrão. gente que sabe que liberdade não é permissão pra ser relaxado.

liberdade é justamente o contrário.

quanto mais liberdade você tem, mais responsabilidade tem de não entregar qualquer porcaria.

isso vale pra trabalho. vale pra criação. vale pra vida.

porque quando ninguém está te vigiando, aí sim você descobre quem você é.

e eu não quero ser o cara que só faz direito quando tem alguém olhando.

isso é comportamento de adolescente em prova.

eu quero fazer direito porque eu saberia se fiz mal.

e eu teria que conviver comigo depois.

o que já é trabalho suficiente.

outra coisa… senso de humor.

sem isso, acabou.

eu não confio em gente sem humor.

não precisa ser palhaço. não precisa transformar tudo em piada. mas precisa entender o absurdo.

precisa perceber que a vida é frequentemente ridícula.

que nós somos ridículos.

que grande parte do que chamamos de drama é só ego com iluminação ruim.

senso de humor impede a pessoa de virar estátua de si mesma.

e eu tenho pavor de gente que virou estátua.

gente que se leva a sério demais. gente que fala de si com solenidade. gente que transforma qualquer frustração em capítulo de autobiografia heroica.

calma.

às vezes deu errado porque você errou.

às vezes não era injustiça cósmica. era só você sendo ruim naquilo.

isso também liberta.

eu já fui ruim em muitas coisas.

algumas vezes mereci perder. algumas vezes mereci ouvir não. algumas vezes tentei e não consegui. algumas vezes a ideia era pior do que eu imaginava.

ótimo.

fracasso honesto tem utilidade.

ele te limpa.

te tira a maquiagem.

te mostra o que você queria que fosse verdade e o que de fato era.

e eu prefiro isso ao conforto miserável de nunca tentar nada que possa me humilhar.

porque ser humilhado por uma tentativa real ainda é melhor do que passar anos preservando uma imagem que não produziu absolutamente nada vivo.

também comecei a entender que criatividade não é essa coisa fofa que vendem.

criatividade exige um tipo meio desagradável de vaidade.

vamos ser honestos.

pra achar que você tem algo a dizer, pra achar que alguém deveria gastar dez minutos da própria vida ouvindo sua cabeça funcionar, precisa existir ali um monstro pequeno de autoestima.

não adianta fingir pureza.

quem cria alguma coisa acredita, em algum nível, que sua visão merece espaço.

isso é meio absurdo.

meio arrogante.

meio patológico.

e também necessário.

o problema não é ter esse monstro.

o problema é deixar ele dirigir bêbado.

eu preciso de vaidade suficiente pra criar.

mas preciso de vergonha suficiente pra editar.

preciso achar que tenho algo a dizer.

mas também preciso desconfiar profundamente de mim antes de mostrar.

esse equilíbrio é uma pequena guerra diária.

e talvez seja por isso que eu goste de listas.

sim, listas.

não como fetiche de produtividade.

não como essa pornografia moderna de organização, com aplicativo bonito, caixinha, tag, gráfico e gente fingindo que “otimizar manhã” é personalidade.

eu gosto de lista porque minha cabeça é um bairro perigoso se não tiver iluminação mínima.

lista é um jeito de dizer… “calma, animal. uma coisa por vez.”

e ao mesmo tempo eu sei que lista também é ilusão.

uma ilusão útil.

mas ilusão.

porque nenhuma lista resolve a vida.

ela só impede que a vida vire uma gaveta de cabo velho.

e isso já é alguma coisa.

aos 45 eu também comecei a entender melhor essa coisa estranha chamada dignidade.

não dignidade grandiosa.

não discurso.

dignidade pequena.

acordar, colocar uma camisa limpa, fazer o que precisa ser feito, tratar gente com respeito, não transformar toda dificuldade em espetáculo, não usar cansaço como desculpa pra virar um babaca.

isso parece pouco.

não é.

num mundo cheio de gente tentando parecer extraordinária, viver com um pouco de dignidade comum virou quase uma provocação.

e talvez seja isso que mais me interessa hoje… menos grandiosidade. mais presença. menos performance. mais precisão. menos necessidade de ser admirado. mais vontade de fazer algo que eu mesmo respeite.

porque eu já cansei de muito barulho.

cansei de gente que fala demais e entrega pouco. cansei de frases imensas pra esconder ideias pequenas. cansei de “jornada”. cansei de “legado”. cansei de “minha verdade”. cansei de “meu processo”.

às vezes o processo é só insegurança com assessoria de imprensa.

e tudo bem.

mas não me peça pra aplaudir.

eu quero coisas mais simples e mais difíceis…

fazer melhor. dizer não. chegar na hora. errar com alguma coragem. não ficar burro por conforto. não virar cínico. continuar curioso. aceitar que às vezes sou o idiota da sala. não fazer trabalho sem sangue só porque seria mais fácil. não transformar minha vida numa sequência de movimentos seguros até acabar discretamente numa cadeira confortável demais.

porque esse é o risco real.

não fracassar.

fracassar todo mundo fracassa.

o risco é se acostumar com o morno.

o risco é ir aceitando versões cada vez menores de si mesmo porque elas dão menos trabalho.

o risco é confundir paz com anestesia.

o risco é acordar um dia e perceber que você não virou adulto.

virou apenas cuidadoso demais.

e eu não quero isso.

não agora.

não aos 45.

não depois de já ter visto oportunidade desaparecer, gente brilhante se apagar, ideias boas morrerem por covardia e medíocres muito bem vestidos receberem aplauso por não assustar ninguém.

eu quero continuar com algum apetite pelo inesperado.

não aquela inquietação juvenil insuportável de quem acha que tudo precisa ser intenso o tempo inteiro.

isso é exaustivo.

falo de outra coisa.

a disposição de ainda se surpreender.

de ainda não saber. de ainda tentar. de ainda entrar numa sala e pensar… “talvez eu aprenda alguma coisa aqui se eu calar a boca.”

e também a disposição de sair da sala quando perceber que ali só tem gente concordando demais.

porque nada me dá mais medo do que um ambiente onde todos acham tudo “incrível”.

isso normalmente significa que ninguém está prestando atenção.

ou que todo mundo está tentando sobreviver socialmente.

eu prefiro uma reação honesta ruim a um elogio automático.

elogio automático é anestesia.

crítica boa, mesmo irritante, pelo menos tem pulso.

eu não quero agradar todo mundo.

todo mundo é um público horrível.

todo mundo gosta de coisa morna, segura, digerível, confortável, sem ponta.

eu quero tocar em alguma ponta.

quero que alguma coisa tenha risco.

quero olhar pra trás e pensar… “ok, talvez tenha sido imprudente, talvez tenha sido estranho, talvez nem tenha dado certo, mas pelo menos não foi morto.”

isso, pra mim, já conta muito.

e talvez no fim seja isso que estou tentando aprender agora…

não viver como quem está tentando montar uma versão aceitável de si mesmo pros outros avaliarem.

não transformar tudo em estratégia.

não buscar sempre o caminho que “faz sentido”.

muita coisa boa na vida começa justamente onde o sentido acaba e sobra só curiosidade, coragem, um pouco de irresponsabilidade bem administrada e uma vontade quase infantil de ver no que aquilo vai dar.

e se der errado?

paciência.

pelo menos deu alguma coisa.

pior é não dar nada.

pior é atravessar anos impecável, correto, bem apresentado, educado, estrategicamente posicionado…

e absolutamente sem história nenhuma que valha ser contada.

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2025

minhas copas

🇪🇸 1982: 1 ano. eu provavelmente estava ocupado tentando sobreviver a quina de mesa enquanto adultos já destruíam relações familiares por impedimento mal marcado

🇲🇽 1986: 5 anos. não lembro da copa, mas lembro perfeitamente da energia de tio brasileiro vendo futebol… bermuda jeans, cerveja quente, ventilador barulhento e raiva acumulada de arbitragem internacional

🇮🇹 1990: 9 anos. primeira vez que percebi que futebol podia arruinar psicologicamente um país inteiro sem precisar derrubar uma única bomba. caniggia correndo naquele gramado parecia cena de documentário sobre colapso latino-americano

🇺🇸 1994: 13 anos. tetra. o brasil inteiro em histeria coletiva e romário andando em campo com energia de homem profundamente irritado por precisar trabalhar num domingo

🇫🇷 1998: 17 anos. ronaldo parecendo ter recebido revelações místicas cinco minutos antes da final e o país inteiro fingindo entender qualquer coisa enquanto galvão narrava como se estivesse cobrindo queda de governo

🇯🇵 2002: 21 anos. acordar às 4h da manhã pra ver futebol tinha energia de atividade ilegal. rivaldo levando bola no ombro e reagindo como vítima de atentado geopolítico televisionado. honestamente? talvez o auge dramático da cultura brasileira

🇩🇪 2006: 25 anos. trabalhei nos jogos. finalmente velho o suficiente pra descobrir que copa do mundo na prática significa… fila, rádio chiando, wifi traumático e café da firma

🇿🇦 2010: 29 anos. a vuvuzela parecia a humanidade inteira presa dentro de panela de pressão gigante. aquilo não era som. era advertência espiritual

🇧🇷 2014: 33 anos. o 7×1 foi tão absurdo que em certo momento eu sinceramente achei que a fifa fosse interromper a transmissão por dignidade humana mínima. david luiz correndo desesperado parecia gerente de aeroporto tentando impedir avião já em pleno voo

🇷🇺 2018: 37 anos. copa estranha. parecia que ninguém mais assistia futebol de verdade. todo mundo vendo jogo, respondendo whatsapp, postando story e discutindo política ao mesmo tempo igual cérebro contemporâneo completamente sequestrado

🇶🇦 2022: 41 anos. não me envolvi. chega uma idade em que preservar saúde mental parece mais inteligente do que ouvir comentarista dizendo “agora vai” enquanto influencer grava react patrocinado por site de aposta

🇺🇸 2026: 45 anos. honestamente? esse ano eu não vou torcer pro brasil não. e muito menos depois dessa convocação do neymar. chega um momento da vida em que você percebe que talvez não queira mais depositar esperança nacional em um homem que parece simultaneamente jogador de futebol, embaixador de bet, streamer da twitch e frequentador profissional de helicóptero.

esse ano eu vou torcer pra portugal.

porque portugal pelo menos não tenta transformar jogador em “marca inspiradora de resiliência”. eles simplesmente colocam um homem de 41 anos correndo em completo estado de negação biológica enquanto o resto do país sofre silenciosamente fumando e gesticulando perto da televisão.

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2025

design

existia uma época em que objetos do cotidiano tinham uma ambição muito simples e quase humilde… funcionar.

só isso.

uma cadeira queria sustentar você. uma mochila queria carregar suas coisas sem destruir sua coluna. uma caneta queria escrever. uma maçaneta queria abrir a porta sem parecer instalação artística conceitual em galeria de berlim.

e de alguma forma a humanidade conseguiu estragar até isso.

porque hoje parece que todo objeto foi redesenhado por alguém que odeia profundamente a ideia de uso humano real.

e eu adoro como tudo virou “experiência”.

não existe mais cadeira.

agora é… “manifesto ergonômico contemporâneo.”

o problema é que depois de 23 minutos sentado sua lombar começa a enviar sinais diplomáticos de guerra.

e as mochilas…

meu deus as mochilas.

antigamente mochila era simples.

você colocava coisas dentro dela. fim.

agora parece equipamento tático de agente infiltrado da interpol climática.

tem…

compartimento secreto

zíper invisível

bolso antifurto

proteção térmica

entrada usb

tecido aeroespacial japonês reciclado emocionalmente sustentável

e mesmo assim você continua não encontrando a chave.

porque o design moderno ficou obcecado em parecer inteligente.

não em ser inteligente.

isso mudou tudo.

e talvez nenhum objeto represente mais isso do que cadeira contemporânea.

cadeira moderna parece desenhada por alguém que nunca sentou na própria vida.

é linda. minimalista. escultural. sofisticada.

mas você passa quarenta minutos nela e começa a entender por que idosos ficam tão revoltados com arquitetura contemporânea.

e maçaneta…

maçaneta moderna virou desafio psicológico.

ninguém mais quer simplesmente abrir porta.

não.

agora existe conceito.

a pessoa segura o negócio sem entender imediatamente…

empurra?

gira?

desliza?

aproxima digitalmente?

precisa consentimento emocional da porta?

isso não é inovação.

isso é hostilidade elegante.

e eu adoro isqueiro.

porque isqueiro talvez seja um dos últimos objetos honestos da civilização.

você pega. acende. acabou.

não existe… “ecossistema de ignição fluida premium.”

imagina se redesignassem isqueiro hoje.

seria fosco. bege. minimalista. custaria 240 dólares. e precisaria sincronizar com aplicativo.

e talvez seja exatamente isso que o design esqueceu, objetos fazem parte da vida das pessoas. não da autoestima conceitual do designer.

uma carteira boa desaparece no seu bolso. uma mochila boa acompanha sua vida sem transformar cada saída de casa em operação militar. uma caneta boa some na experiência da escrita.

isso era o auge do design, desaparecer.

mas hoje parece que todo objeto quer atenção.

a cadeira quer ser fotografada. a luminária quer virar personalidade. o copo quer participar da narrativa estética do ambiente.

calma, copo.

você segura água.

e eu sinceramente acho fascinante como design contemporâneo conseguiu transformar desconforto em sofisticação.

sapato desconfortável? “silhueta minimalista.”

cadeira impossível? “design autoral.”

restaurante escuro onde você não enxerga a comida? “atmosfera intimista.”

não.

às vezes é só má iluminação e hérnia lombar visualmente elegante.

e talvez seja por isso que objetos antigos ainda possuem tanta dignidade.

porque eles não estavam tentando performar genialidade o tempo inteiro.

eles só queriam funcionar bem.

e pra mim, o design mais sofisticado do mundo continua sendo aquele que ninguém percebe porque está ocupado demais vivendo a própria vida sem precisar lutar fisicamente contra a porcaria da maçaneta.

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2025

mas você vai dar palco?

o problema nunca foi “dar palco”.
essa frase parece inteligente até você perceber que ela normalmente é usada por gente que prefere conforto moral a confronto real.

porque idiota não desaparece quando você ignora.
idiota cresce no silêncio confortável de quem acha que desprezo passivo resolve alguma coisa.

e sinceramente?
eu não quero meu filho crescendo achando que celebridade rica automaticamente virou modelo moral só porque sabe fazer gol, viralizar corte no instagram ou usar relógio absurdamente caro olhando sério pra câmera.

o neymar pra mim representa exatamente esse colapso cultural moderno onde talento virou desculpa universal pra infantilidade eterna.

o sujeito chega aos 30 e poucos anos com comportamento emocional de adolescente rico preso eternamente em festa de condomínio de luxo.

e o pior nem é ele.

o pior é adulto olhando aquilo e chamando de “personalidade forte”.

não, meu irmão.
isso não é personalidade forte.

isso é imaturidade premiumizada porque veio acompanhada de dinheiro, fama e patrocínio.

a internet fez uma coisa perigosíssima… transformou carisma em credencial moral.

agora qualquer pessoa que gera entretenimento suficiente ganha automaticamente uma aura de “referência”.

e talvez seja exatamente aí que tudo começou a ficar meio estranho culturalmente.

porque antigamente você podia admirar alguém por uma habilidade específica sem transformar a pessoa inteira em guia espiritual da civilização.

o cara jogava bola.
ótimo. maravilhoso.

isso não transforma automaticamente ele em exemplo de maturidade, inteligência, caráter ou profundidade humana.

mas hoje não.

hoje qualquer celebridade minimamente famosa vira imediatamente…

inspiração

mindset

lifestyle

exemplo

documentário da netflix

frase motivacional em fundo preto

e ninguém mais parece confortável dizendo… “talvez esse cara seja só muito bom numa coisa específica e profundamente idiota em várias outras.”

porque existe quase um medo coletivo de destruir personagem.

e eu sinceramente prefiro meu filho admirando gente silenciosamente competente do que celebridade eternamente adolescente transformando impulsividade em marca pessoal.

o problema não é “dar palco”.

o problema é deixar de apontar quando o rei claramente parece um menino rico emocionalmente estacionado aos 19 anos cercado de gente dizendo “gênio” porque ninguém quer perder acesso ao camarote.

e isso vale pra muito mais do que futebol.

vale pra influencer.
vale pra empresário.
vale pra guru.
vale pra metade da internet moderna performando profundidade emocional enquanto vende curso, suplemento ou aposta esportiva com iluminação cinematográfica e trilha inspiradora.

porque existe uma diferença gigantesca entre… “essa pessoa entretém” e “essa pessoa deveria influenciar formação humana.”

mas a cultura moderna misturou completamente as duas coisas.

e talvez seja por isso que tanta gente hoje parece rica, famosa, seguida… e emocionalmente com a densidade intelectual de um energético sabor frutas vermelhas.