
recebi uma mensagem esses dias.
daquelas que começam quase pedindo desculpa por existir.
educada demais. cuidadosa demais. como se perguntar sobre o próprio futuro fosse algo que você precisa fazer em voz baixa, quase sussurrando, para não incomodar o universo corporativo.
“oi paulo, tudo? não quero ocupar muito, mas poderia tirar uma dúvida profissional contigo?”
claro. manda.
e então veio um pequeno tratado sobre uma angústia que, suspeito eu, é basicamente o esporte olímpico da nossa geração.
o sujeito quer criar.
não no sentido de “trabalhar em algo criativo”… aquela versão higienizada da coisa onde você passa o dia discutindo paleta de cores com gente que acha que inspiração vem de um moodboard no pinterest.
não.
ele quer criar de verdade.
fazer coisas.
pensar coisas.
produzir coisas.
melhorar nisso.
e aí, no meio da mensagem, ele solta a frase que resume perfeitamente a armadilha moderna em que metade das pessoas criativas está presa…
“se eu procuro emprego sempre, atirando para os lados, não tenho tempo para me desenvolver profissionalmente. se não me desenvolvo profissionalmente, exponencialmente baixam as chances de achar um emprego.”
olha só que espetáculo.
a famosa máquina perfeita.
você precisa de experiência para conseguir trabalho.
precisa de trabalho para conseguir experiência.
e no meio disso tudo você também precisa pagar aluguel, comprar comida e fingir que está tudo sob controle.
é tipo um escape room existencial… só que sem a parte divertida.
e o melhor de tudo é que o mundo moderno adora vender duas soluções maravilhosas para isso.
a primeira é a versão corporativa.
“foca no trabalho primeiro. estabiliza a vida. depois você pensa em criar.”
ah sim.
o famoso “depois”.
esse lugar mágico onde você finalmente terá tempo, energia, estabilidade emocional, disciplina de monge tibetano e uma mesa minimalista de madeira clara para produzir suas grandes ideias.
spoiler rápido…
esse lugar não existe.
nunca existiu.
o que acontece é que a vida continua acontecendo.
o trabalho cresce.
as responsabilidades crescem.
o cansaço cresce.
e aquele projeto que você ia começar “quando tudo estivesse mais tranquilo” vira apenas uma história que você conta para si mesmo para justificar por que não começou.
a segunda solução, igualmente vendida com entusiasmo suspeito, é a versão romântica.
“larga tudo e segue sua paixão.”
claro.
excelente conselho.
normalmente dado por alguém que já tem dinheiro, networking, uma reserva financeira confortável ou pais pacientes pagando o aluguel.
na vida real, para a maioria das pessoas, largar tudo não é coragem.
é só uma forma muito eficiente de virar estatística.
então sobra o caminho que ninguém gosta de vender porque ele não cabe em palestra motivacional nem em vídeo de 30 segundos no instagram.
o caminho real.
o caminho meio feio.
o caminho cansado.
você trabalha.
sim.
paga as contas.
aceita que, infelizmente, boletos continuam sendo uma força da natureza mais poderosa que inspiração criativa.
mas ao mesmo tempo…
você cria.
cria mesmo cansado.
cria quando sobra uma hora.
cria projetos pequenos.
cria coisas que talvez ninguém veja no começo.
principalmente no começo.
porque criar não é um momento de iluminação divina.
não é aquela cena cinematográfica onde você olha para o horizonte enquanto uma ideia brilhante desce do céu como se fosse uma revelação mística.
criar é repetir.
criar é produzir coisas ruins até que algumas parem de ser ruins.
é fazer muito.
muito mais do que parece confortável.
muito mais do que parece necessário.
e lentamente, quase imperceptivelmente, algo começa a acontecer.
você melhora.
seu olhar melhora.
seu trabalho melhora.
as ideias ficam menos ingênuas.
os erros ficam mais interessantes.
e eventualmente aquilo que começou como um pequeno experimento noturno vira repertório.
vira portfólio.
vira identidade.
e um dia, olhando para trás, você percebe uma coisa curiosa…
ninguém acorda criativo.
as pessoas se tornam criativas depois de fazer coisas suficientes.
então quando alguém me pergunta qual caminho seguir, eu penso em algo que quase ninguém gosta de admitir…
criar nunca foi um luxo.
criar é uma obsessão.
é aquela coceira mental que não vai embora mesmo quando você tenta ignorar.
você pode tentar viver sem ela.
pode até conseguir por um tempo.
mas se ela está aí dentro…
eventualmente ela volta.
normalmente às duas da manhã.
e aí você percebe que a pergunta nunca foi “devo criar ou trabalhar?”
a pergunta sempre foi…
quanto da minha vida estou disposto a investir para me tornar alguém que cria coisas que realmente importam?
porque no fim das contas existem dois tipos de pessoas passando por esse planeta.
as que deixam algum tipo de rastro.
e as que passam tão silenciosamente que o mundo mal percebe que elas estiveram aqui.
e olha…
entre causar alguma impressão, mesmo que pequena, estranha, imperfeita…
ou desaparecer completamente na paisagem…
eu sei muito bem qual lado me interessa.
até porque, como ele mesmo disse depois, quase como quem descobre uma verdade simples demais para parecer profunda…
“melhor causar alguma impressão do que nenhuma, né?”
porra.
exatamente.
agora vai lá e cria alguma coisa.








