
o brasil tem uma relação curiosa com seus políticos. perdoa o imperdoável, esquece o inesquecível e, de quatro em quatro anos, aparece com a expressão esperançosa de quem voltou ao mesmo restaurante onde sofreu uma intoxicação alimentar. conhece o cozinheiro, conhece a cozinha, sabe que o freezer está desligado desde terça-feira, mas alguém garantiu que agora o filho do proprietário assumiu o negócio.
e o filho promete uma experiência completamente nova.
lula, convenhamos, está longe de ser uma sobremesa delicada. é um prato pesado, servido há décadas, com ingredientes que ninguém consegue identificar inteiramente e algumas alianças que fariam um fiscal sanitário pedir transferência. tem história, tem realizações, tem contradições e uma intimidade com o poder que deveria provocar mais perguntas do que reverência. quem o transforma em santo merece ser condenado a ouvir seus discursos completos, sem direito a acelerar o vídeo.
mas flávio bolsonaro traz algo que me incomoda de maneira muito particular. aquela ideia de que um sobrenome pode funcionar como certificado de autoridade, como se a presidência fosse uma capitania hereditária com transmissão ao vivo.
o pai fez da política um espetáculo de ressentimento, bravatas e confronto permanente. o filho chega com uma embalagem mais comportada, um vocabulário ocasionalmente mais polido e a esperança de que o público confunda mudança de garçom com reforma da cozinha.
é um truque antigo. troca-se a toalha, mantém-se o cardápio e espera-se que ninguém pergunte de onde vem o cheiro.
e eu me pergunto em que momento passamos a considerar a falta de compostura uma qualidade de liderança. essa fascinação por homens que fazem cara de poucos amigos, tratam adversários como inimigos pessoais e parecem acreditar que governar exige a postura corporal de um segurança de boate às três da manhã.
há um mercado enorme para isso. vende-se truculência como autenticidade, arrogância como coragem e incapacidade de ouvir como firmeza de princípios. o cliente compra um estadista e recebe um sujeito permanentemente preparado para uma discussão de estacionamento.
o mais impressionante é a sofisticação dos defensores. gente culta, articulada, capaz de distinguir um borgonha de um beaujolais, mas que diante de um bolsonaro aceita explicações que não convenceriam uma criança tentando justificar o desaparecimento do último pedaço de bolo.
e quando aparecem perguntas sobre patrimônio, relações políticas, negócios ou companhias inconvenientes, começa aquele balé extraordinário. exigem-se provas, o que é correto. mas qualquer pergunta passa a ser tratada como perseguição, o que é bastante conveniente. a presunção de inocência, princípio civilizatório indispensável, ganha uma interpretação inédita. ninguém pode sequer querer saber.
é quase uma inovação jurídica brasileira. o direito constitucional de não ser incomodado.
lula também deve explicações, naturalmente. sobre suas escolhas, seus aliados, seus governos e suas promessas. nunca tive paciência para a devoção política, essa doença que faz adultos defenderem um governante com a mesma ternura irracional dedicada a um cachorro que acabou de destruir o sofá.
mas há algo intelectualmente desonesto em colocar todas as trajetórias dentro do mesmo saco e chamar isso de equilíbrio. a preguiça de distinguir projetos, comportamentos e consequências costuma se apresentar em público vestida de imparcialidade. fica elegante, sobretudo em programas de televisão. ninguém se compromete, todos parecem sensatos e a realidade sai da sala sem ser reconhecida.
não preciso achar lula admirável para examinar criticamente o que flávio representa. não preciso desculpar um único erro do primeiro para cobrar do segundo respostas sobre sua herança política. e não pretendo fingir entusiasmo diante de um sobrenome só porque ele aprendeu a usar um tom de voz ligeiramente menos estridente.
o brasil merece discutir o que cada candidato fará com o poder. e, principalmente, o que acredita ter o direito de fazer com ele.
porque a presidência não é um negócio de família, a democracia não é um programa de auditório e o país não é propriedade de quem consegue reunir a torcida mais barulhenta.
e aqui está o que penso, sem a confortável maquiagem da falsa equivalência. tenho críticas a lula, algumas bastante sérias. e tenho perguntas sobre flávio bolsonaro que um sobrenome famoso, uma voz mais baixa e uma campanha bem produzida não conseguem responder.
não estou à procura de um santo. já conheço os perigos de quem se apresenta como salvador, sobretudo quando chega acompanhado da família inteira.
o que me recuso a fazer é confundir meu cansaço com um político com uma razão suficiente para confiar em outro.
afinal, quem já saiu de um restaurante com uma intoxicação alimentar sabe que a pior decisão possível é voltar só porque agora o filho do dono está usando um avental limpo.
e eu, francamente, já vi o suficiente dessa cozinha para não me impressionar com o uniforme.
e se até aqui não ficou claro…
quanto ao meu voto, será em lula. conheço o chef, reconheço seus bons pratos e não lhe darei imunidade quando errar a mão. já o restaurante de flávio vem com o sobrenome estampado na fachada e um conceito peculiar de transparência. pergunte pela procedência dos ingredientes e você vira inimigo da casa. peça para conhecer os fornecedores e aparece um advogado no lugar do maître. a freguesia, encantada, chama isso de tradição. dispenso. voto em lula. não preciso venerar o cozinheiro para desconfiar de um restaurante onde até a nota fiscal parece segredo de família.








