
eu comprei maintenance of everything achando que estava comprando um livro sobre manutenção. e essa talvez tenha sido a primeira armadilha.
porque manutenção é uma daquelas palavras que ninguém coloca numa camiseta. ninguém tatua no braço. ninguém coloca na bio do instagram.
ninguém acorda de manhã pensando… “hoje vou celebrar a manutenção.”
a palavra não tem glamour. não tem marketing. não tem carisma. ela soa como um relatório técnico esquecido numa gaveta. e talvez seja exatamente por isso que stewart brand tenha encontrado algo tão poderoso ali.
porque algumas das forças mais importantes da vida são justamente aquelas que passam despercebidas.
até o dia em que desaparecem.
eu comecei a pensar nisso olhando para coisas absurdamente comuns. o elevador do prédio. a água saindo da torneira. a internet funcionando. a luz acendendo. a rua limpa. o semáforo operando. o avião pousando. o servidor funcionando. o hospital aberto. o café chegando quente.
é curioso como chamamos tudo isso de normalidade. como se a normalidade fosse um estado natural do universo. como se as coisas simplesmente funcionassem porque sim. como se existisse uma força mágica mantendo o mundo inteiro de pé.
mas stewart brand passa páginas e páginas lembrando uma verdade desconfortável… não existe normalidade. existe manutenção.
normalidade é apenas o nome que damos para milhões de pessoas fazendo trabalho invisível ao mesmo tempo.
e depois que essa ideia entra na cabeça fica difícil olhar para qualquer coisa da mesma forma. porque a nossa cultura é completamente apaixonada por criação.
nós veneramos fundadores. inventores. empreendedores. visionários. gênios. disruptores.
adoramos a primeira pedra. adoramos o primeiro voo. adoramos o primeiro produto. adoramos o lançamento.
o anúncio. a inauguração. o corte da fita. a foto. o discurso. a manchete.
mas quase nunca paramos para pensar em quem aparece depois que as câmeras vão embora. e talvez essa seja a figura mais importante do livro.
não o criador.
o mantenedor.
o sujeito que aparece na terça-feira comum.
na quarta-feira comum.
na quinta-feira comum.
quando não existe aplauso.
quando não existe postagem.
quando não existe celebração.
apenas trabalho.
porque criar alguma coisa é difícil.
mas manter alguma coisa viva durante décadas talvez seja um desafio ainda maior. e eu comecei a perceber que essa lógica aparece em todos os lugares.
inclusive nos lugares mais improváveis. porque o livro parece falar sobre infraestrutura. mas na verdade fala sobre pessoas. fala sobre relacionamentos. sobre cidades. sobre empresas. sobre amizades. sobre o próprio envelhecimento.
porque tudo que importa exige manutenção.
absolutamente tudo.
uma amizade exige manutenção.
um casamento exige manutenção.
um corpo exige manutenção.
uma casa exige manutenção.
uma carreira exige manutenção.
até a curiosidade exige manutenção.
e talvez o erro da nossa época seja acreditar que o difícil é começar. começar é divertido. começar é emocionante. começar produz histórias. o difícil é continuar…
continuar quando a novidade desaparece.
continuar quando o entusiasmo evapora.
continuar quando o resultado demora.
continuar quando ninguém está olhando.
é aí que quase tudo morre.
e talvez seja por isso que eu tenha gostado tanto desse livro.
porque ele tem a coragem de olhar para aquilo que ninguém quer olhar.
o trabalho repetitivo.
o trabalho silencioso.
o trabalho invisível.
a parte da vida que não vira documentário.
porque existe uma obsessão moderna por momentos extraordinários.
a viagem extraordinária.
a ideia extraordinária.
o lançamento extraordinário.
o evento extraordinário.
e stewart brand aparece para lembrar que a civilização não é sustentada por momentos extraordinários.
ela é sustentada por pessoas extraordinariamente consistentes.
e existe uma diferença gigantesca entre essas duas coisas.
eu comecei a pensar nisso olhando para os objetos ao meu redor.
uma estante.
uma cadeira.
um relógio.
um livro.
um prédio.
todos eles parecem permanentes.
mas não são.
nada é.
essa talvez seja a grande provocação do livro.
a manutenção não existe porque as coisas quebram.
a manutenção existe porque tudo quebra.
essa é a regra.
a deterioração não é uma exceção.
é a condição natural da existência.
o estado padrão do universo é o caos.
o abandono.
a ferrugem.
o desgaste.
a entropia.
e toda a história da civilização pode ser resumida como uma luta desesperada contra essa tendência.
uma luta que acontece todos os dias.
em silêncio.
sem glamour.
sem créditos finais.
e existe alguma coisa profundamente bonita nisso.
porque nós fomos treinados para admirar quem transforma o mundo.
mas talvez devêssemos admirar mais quem impede o mundo de desmoronar.
afinal, qualquer pessoa consegue se apaixonar por uma ideia nova.
o desafio verdadeiro é continuar cuidando dela depois que a paixão vai embora.
e talvez seja essa a razão pela qual o livro ficou comigo.
não porque ele mudou a forma como vejo pontes ou edifícios.
mas porque mudou a forma como vejo a própria vida.
porque depois de um tempo você percebe que quase tudo que vale a pena não depende de inspiração.
depende de manutenção.
depende de aparecer de novo.
e de novo.
e de novo.
mesmo quando ninguém está contando.
mesmo quando ninguém está agradecendo.
mesmo quando ninguém percebe.
e honestamente?
quanto mais envelheço, mais suspeito que essa seja uma das definições mais próximas que existe para responsabilidade.
e talvez até para amor.
é isso.








