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2025

política não é futebol e patriotismo não deveria incluir um míssil americano

semana passada, acompanhei as imagens da manifestação de apoio a lula na avenida paulista. entre os cartazes, havia mensagens sobre educação, ciência, direitos trabalhistas, democracia e soberania nacional. era um ato eleitoral, evidentemente, com seus candidatos, discursos e palavras de ordem. mas algumas das frases que mais me chamaram a atenção tratavam de questões que continuariam existindo independentemente de quem estivesse na presidência.

hoje, na mesma avenida, aconteceu uma manifestação de apoio a flávio bolsonaro. entre as imagens divulgadas, uma se destacou… um enorme míssil inflável branco com a inscrição “trump nuke brazil”. um pedido, em inglês, para que o presidente dos estados unidos atacasse o brasil com armas nucleares.

é difícil imaginar um contraste mais estranho entre símbolo e mensagem. em volta do míssil, bandeiras brasileiras e pessoas vestidas de verde e amarelo. no próprio míssil, um apelo à destruição do território nacional.

o episódio tem uma particularidade ainda mais curiosa. segundo a cobertura do ato, a organização pediu aos participantes que recolhessem bandeiras estrangeiras para privilegiar os símbolos brasileiros. aparentemente, alguém percebeu a contradição visual de uma manifestação patriótica cercada de bandeiras americanas e israelenses. mas o míssil inflável continuou sendo uma maneira bastante peculiar de expressar sentimentos nacionais.

não sabemos se seus responsáveis pretendiam fazer uma provocação, uma brincadeira ou um pedido literal. e não seria correto atribuir aquela mensagem a toda a multidão.

o que sabemos é que o objeto esteve lá. e que a cena merece uma discussão muito mais interessante do que uma troca de insultos entre eleitores.

há uma longa história de movimentos políticos que recorrem a símbolos nacionais e, ao mesmo tempo, buscam apoio de governos estrangeiros. isso não é exclusividade brasileira nem de uma única corrente ideológica. alianças internacionais fazem parte da política. o que chama a atenção nesse caso é a natureza da mensagem… não se pedia cooperação, negociação ou pressão diplomática. a frase estampada no objeto mencionava um ataque nuclear.

é um salto considerável.

e talvez o episódio ajude a explicar o que acontece quando a identificação com uma liderança política começa a se confundir com a própria identidade nacional.

o bolsonarismo é um movimento que se organizou fortemente em torno da figura de jair bolsonaro. mesmo fora da presidência, seu nome permanece central na mobilização de apoiadores e na trajetória eleitoral de seu filho flávio. isso não significa que todos os eleitores pensem da mesma maneira, nem que todos apoiem incondicionalmente cada atitude do ex-presidente.

mas a centralidade de uma pessoa dentro de um movimento levanta uma questão que vale para qualquer liderança, inclusive lula… onde termina a defesa de ideias e começa a fidelidade pessoal?

a diferença é importante.

defender uma proposta significa poder explicá-la, questioná-la e eventualmente abandoná-la diante de novos fatos. defender uma pessoa incondicionalmente é outra relação. nessa segunda lógica, a opinião sobre uma decisão pode depender menos do que foi decidido e mais de quem tomou a decisão.

é exatamente o que acontece nas arquibancadas.

um torcedor não escolhe o time a cada partida depois de estudar as estatísticas. ele já chega ao estádio sabendo quem vai defender. se o próprio zagueiro faz uma falta, encontra uma explicação. se o adversário faz a mesma falta, exige expulsão.

no futebol, essa parcialidade faz parte da diversão. a maioria das pessoas sabe que está torcendo.

na política, a situação é mais complicada porque as decisões não terminam com o apito do juiz. uma eleição define quem terá autoridade para administrar recursos, propor medidas e influenciar instituições. seus efeitos alcançam tanto os apoiadores quanto os adversários.

por isso, a relação entre cidadão e político deveria permitir algo que a torcida esportiva costuma considerar quase uma heresia… mudar de opinião.

é possível votar em alguém e criticar uma decisão sua. reconhecer uma medida acertada de um adversário não obriga ninguém a mudar de partido. exigir explicações de uma liderança admirada não deveria ser entendido como traição.

o problema da idolatria política é que ela torna essas atitudes emocionalmente difíceis.

quando uma figura pública passa a representar, para seus seguidores, muito mais do que um conjunto de propostas, qualquer crítica pode parecer um ataque pessoal. o debate sobre decisões concretas acaba substituído por discussões sobre lealdade, pertencimento e identidade.

o político, que deveria prestar contas ao cidadão, torna-se alguém cuja reputação o cidadão sente a obrigação de proteger.

e as redes sociais oferecem o ambiente perfeito para isso. recompensam a frase mais agressiva, o vídeo mais indignado, a provocação que irrita o outro grupo. raramente exigem que alguém explique como pretende melhorar uma escola, financiar um hospital ou executar uma política pública.

é mais fácil disputar quem ama mais o país do que discutir o que fazer com ele.

nesse ambiente, bandeiras e slogans ganham um peso enorme. são sinais rápidos de pertencimento. basta uma camiseta, um número ou uma fotografia para identificar quem está de cada lado.

mas símbolos não substituem princípios.

a bandeira brasileira não pertence a um partido, a um presidente ou a uma família. representa um país que continuará existindo depois de qualquer mandato e que inclui milhões de pessoas com convicções políticas incompatíveis entre si.

a questão do míssil na paulista é interessante justamente porque coloca esse princípio à prova.

se a soberania nacional é um valor defendido por alguém, o que essa pessoa pensa de uma mensagem pedindo um ataque estrangeiro ao brasil? se considera a frase uma piada, quais são os limites aceitáveis para esse tipo de provocação? se a condena, consegue fazê-lo mesmo quando ela aparece numa manifestação de seu próprio campo político?

são perguntas mais úteis do que tentar descobrir qual torcida pode usar o episódio para marcar pontos.

também vale aplicá-las ao ato da semana anterior. cartazes sobre educação e democracia expressam reivindicações, mas não dispensam os políticos que os apoiam de apresentar resultados. nenhum slogan, por mais bonito que seja, deve funcionar como salvo-conduto para um governante.

essa é a diferença entre participar da política e transformá-la numa devoção.

participar é defender ideias e continuar disposto a examinar fatos. a devoção exige que o líder esteja certo antes mesmo de abrir a boca.

e, quando chegamos a esse ponto, até uma contradição evidente pode passar despercebida por quem está ocupado demais defendendo seu lado.

talvez seja por isso que a imagem do míssil tenha causado tanto espanto. não apenas pela mensagem absurda que carregava, mas pelo cenário em que apareceu

uma avenida coberta de símbolos nacionais, durante uma manifestação eleitoral, com um objeto que pedia a um presidente estrangeiro um ataque nuclear contra o próprio país.

a fotografia não explica sozinha o pensamento de uma multidão. mas registra uma contradição que merece ser discutida.

no futebol, podemos passar a vida defendendo um clube que nunca ganhou nada. faz parte da paixão.

na política, o país não deveria ser confundido com o time, e o presidente não deveria ocupar o lugar do ídolo que precisa ser protegido de qualquer crítica.

porque uma democracia exige algo mais trabalhoso do que torcer… exige prestar atenção ao que as pessoas defendem, ao que fazem quando chegam ao poder e ao que estamos dispostos a desculpar apenas porque gostamos delas.

e talvez a pergunta mais desconfortável que aquele míssil deixou na avenida paulista seja também a mais simples.

quando a mensagem vem do nosso próprio lado, ainda somos capazes de enxergar o que está escrito nela?

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2025

liberdade, igualdade, fraternidade… desde que não atrapalhe o trânsito

a frança tem uma relação bastante peculiar com a desobediência. transformou uma revolução em seu grande mito fundador, adotou liberdade, igualdade e fraternidade como lema nacional e canta um hino que convoca os cidadãos a pegar em armas contra a tirania. depois, de tempos em tempos, parece surpresa quando seus cidadãos levam a sério essa tradição.

a marselhesa não é exatamente uma canção de ninar. foi escrita em 1792, num momento em que a revolução francesa enfrentava inimigos internos e externos. é um hino de guerra, de resistência, de gente que não estava particularmente interessada em preencher um formulário de reclamação e aguardar quinze dias úteis.

hoje, quando os franceses voltam às ruas, é tentador imaginar que deveriam demonstrar sua insatisfação de maneira mais civilizada. talvez com uma carta ao presidente, uma petição eletrônica e uma pequena manifestação entre as duas e as quatro da tarde, desde que não comprometa o comércio.

seria uma evolução extraordinária da revolução francesa… da queda da bastilha ao protocolo de atendimento.

sou a favor dos protestos que estão acontecendo na frança. e não por alguma fantasia romântica envolvendo barricadas, fumaça e fotografias em preto e branco. apoio porque conheço o suficiente da história francesa para entender que a democracia daquele país nunca foi construída apenas dentro de gabinetes. e porque, desta vez, as reivindicações têm uma concretude quase constrangedora.

tudo começou com estudantes.

não com uma organização clandestina planejando derrubar a república. com adolescentes reclamando de falta de professores, salas superlotadas, prédios escolares deteriorados e jornadas de estudo que parecem elaboradas por alguém que nunca precisou passar um dia inteiro dentro de uma escola.

a frança, país de voltaire, rousseau, sartre e de uma tradição intelectual que adora apresentar ao mundo, chegou ao ponto de ter estudantes protestando para conseguir professores.

é um detalhe delicioso. a nação que ajudou a transformar a educação em instrumento de emancipação agora precisa explicar por que suas escolas não conseguem oferecer condições adequadas de ensino.

e não estamos falando de meia dúzia de jovens entediados procurando uma desculpa para faltar à aula. o movimento começou em setembro, espalhou-se por centenas de escolas e ganhou a participação de professores, trabalhadores e sindicatos. as reivindicações passaram a incluir salários, aposentadorias, serviços públicos e o custo de vida.

em 17 de outubro, centenas de milhares de pessoas foram às ruas.

o governo francês enfrenta uma crise orçamentária e defende medidas de contenção de gastos. os sindicatos contestam o peso dessas escolhas sobre trabalhadores e serviços públicos. estudantes denunciam a deterioração das escolas. famílias sentem a pressão dos preços.

há questões econômicas reais nessa disputa. o dinheiro público não é infinito, e nenhum país resolve seus problemas simplesmente gritando palavras de ordem. mas também existe algo de profundamente conveniente na facilidade com que governos descobrem a necessidade de sacrifícios quando chega a hora de financiar serviços essenciais.

o sacrifício, curiosamente, costuma ser uma experiência muito mais educativa para quem depende desses serviços do que para quem anuncia os cortes.

e é nesse ponto que a história francesa entra pela porta da frente, provavelmente sem pedir licença.

em 1789, a frança não estava vivendo um debate cordial sobre pequenas melhorias administrativas. o antigo regime concentrava privilégios, a crise financeira se aprofundava e uma parcela enorme da população arcava com o peso de uma ordem política que já não conseguia justificar sua existência.

a revolução que veio depois foi contraditória, violenta, grandiosa e terrível. produziu declarações de direitos e também o terror. abriu caminhos para transformações democráticas e deixou um rastro de sangue que ninguém intelectualmente sério deveria tratar como decoração histórica.

não há motivo para santificar a violência revolucionária.

mas também seria uma falsificação bastante elegante imaginar que a história da liberdade foi escrita exclusivamente por pessoas obedientes, que jamais interromperam uma rua ou desafiaram uma autoridade.

em 1830, os franceses voltaram às barricadas contra a monarquia. em 1848, outra revolução derrubou um rei. em 1871, a comuna de paris tentou uma experiência radical de governo popular e terminou esmagada numa repressão sangrenta. em maio de 1968, estudantes e trabalhadores paralisaram o país, questionaram autoridades e abalaram a política francesa.

nenhum desses acontecimentos é idêntico aos outros. suas causas, seus objetivos e suas consequências foram diferentes. alguns abriram possibilidades democráticas… outros revelaram o quanto uma sociedade pode se destruir quando a violência substitui a política.

mas todos lembram algo importante, na frança, a rua nunca foi apenas o espaço entre a padaria e a estação de metrô.

é também um lugar onde o poder é confrontado.

mais recentemente, os coletes amarelos expuseram a distância entre decisões tomadas em paris e a vida de quem dependia do carro, enfrentava salários apertados e já não suportava o aumento das despesas. em 2023, a reforma da previdência levou multidões às ruas.

agora, são estudantes que olham para o futuro e encontram escolas deterioradas, professores ausentes e um sistema que promete oportunidades enquanto distribui obstáculos.

a frança continua vendendo ao mundo a imagem de uma sociedade culta, sofisticada e comprometida com a igualdade. seus estudantes estão cobrando que essa imagem tenha alguma correspondência com o que acontece dentro das salas de aula.

e então veio a violência.

lojas foram saqueadas, carros incendiados, prédios públicos atacados. policiais ficaram feridos. manifestantes também. em limoges, um incêndio atingiu gravemente a prefeitura. houve comerciantes prejudicados e danos que não podem ser tratados como uma pequena inconveniência estética.

não vou transformar quem saqueia uma loja em herói popular. roubar um comerciante não contrata um professor. incendiar uma prefeitura não melhora o ensino. agredir um policial não torna um orçamento mais justo.

e há uma diferença importante entre reconhecer que conflitos sociais podem se tornar violentos e concluir que a violência é, por isso, desejável.

não é.

mas tampouco considero intelectualmente aceitável transformar os atos de grupos violentos na definição de um movimento que levou centenas de milhares de pessoas às ruas, muitas delas pacificamente.

uma manifestação não é uma pessoa só. não tem uma única intenção, uma única estratégia ou uma consciência coletiva perfeitamente organizada. reúne estudantes, trabalhadores, sindicatos, militantes, cidadãos indignados e, em situações de desordem, também indivíduos interessados em cometer crimes.

responsabilizar cada um pelo que fez é uma exigência de justiça.

atribuir a todos o comportamento dos piores é outra coisa.

e existe uma pergunta que merece ser feita sem romantismo… por que o conflito chegou a esse tamanho?

porque a violência que aparece nas ruas não surge num vazio histórico. isso não a desculpa, mas ajuda a compreendê-la. governos que ignoram problemas durante anos não deveriam ficar espantados quando a insatisfação deixa de caber nos canais convencionais de diálogo.

é possível que parte das reivindicações seja economicamente difícil de atender. é possível que algumas propostas sejam equivocadas. é possível, inclusive, que medidas impopulares sejam necessárias.

tudo isso precisa ser discutido.

mas, se uma geração inteira começa a desconfiar de que o estado não consegue oferecer educação e perspectivas minimamente decentes, a resposta não pode se limitar à contabilidade das viaturas danificadas.

a frança está diante de um conflito social, não de um simples problema de manutenção urbana.

e é justamente por levar esse conflito a sério que considero importante separar a legitimidade das reivindicações da responsabilidade pelos crimes.

não é necessário fingir que toda barricada é heroica. a história francesa tem barricadas suficientes para ensinar que algumas abrem caminhos e outras terminam em tragédias.

a violência pode destruir a credibilidade de uma causa, afastar aliados e atingir precisamente aqueles em nome dos quais se diz lutar. quando um pequeno comerciante perde seu sustento, o prejuízo não desaparece porque a revolta tinha bons motivos.

mas a violência praticada por parte dos participantes também não apaga a falta de professores, a crise dos serviços públicos ou a pressão sobre os salários.

essas coisas continuam existindo depois que a fumaça desaparece.

e há uma ironia histórica quase indecente no fato de que a frança construiu uma identidade nacional em torno da resistência ao poder, mas seus conflitos atuais ainda precisam enfrentar a expectativa de que toda contestação seja perfeitamente organizada, previsível e inofensiva.

a liberdade é muito bonita nas fachadas dos prédios públicos.

fica um pouco mais complicada quando as pessoas resolvem exercê-la.

também considero importante distinguir esses acontecimentos do 8 de janeiro de 2023, no brasil.

não porque a destruição de patrimônio seja aceitável num país e condenável em outro. não é. quem depreda, saqueia ou agride deve responder pelos próprios atos.

a diferença está no objetivo político.

o 8 de janeiro ocorreu depois de uma eleição presidencial cujo resultado era rejeitado pelos participantes da invasão das sedes dos três poderes. o movimento estava associado a reivindicações de intervenção militar e ruptura da ordem constitucional.

na frança, os protestos atuais reivindicam mudanças nas políticas públicas e nas condições de vida. pressionam um governo em exercício. não constituem, por seus objetivos centrais, uma tentativa de anular uma eleição ou substituir o regime democrático por uma intervenção militar.

essa distinção não absolve um único saqueador francês.

apenas impede que a análise política seja reduzida a um concurso de fotografias de prédios destruídos.

um protesto pode ter reivindicações legítimas e conter atos criminosos. um movimento pode empregar métodos ilegais e ainda assim precisar ser compreendido a partir de seus objetivos políticos. a natureza de uma mobilização não se determina apenas pelo prejuízo material que ela provoca.

isso deveria ser especialmente evidente num país que celebra a tomada da bastilha como marco da liberdade.

e aqui está o aspecto que mais me interessa: a história francesa não oferece uma licença eterna para a violência, mas também não autoriza a fantasia de que direitos surgem naturalmente da boa vontade de quem governa.

a declaração dos direitos do homem e do cidadão, de 1789, proclamou a liberdade e a igualdade jurídica como princípios fundamentais. seu artigo segundo incluiu a resistência à opressão entre os direitos naturais e imprescritíveis do homem.

isso não significa que qualquer pessoa possa invocar 1789 para justificar um saque em 2026. seria uma interpretação bastante preguiçosa de um documento histórico.

significa, porém, que a própria tradição política francesa reconheceu algo que continua relevante: o poder precisa encontrar limites na liberdade dos cidadãos, e a obediência não é a virtude suprema de uma sociedade.

a frança carrega essa tensão há mais de dois séculos.

de um lado, instituições, leis, eleições, parlamento, orçamento e a necessidade de manter a vida coletiva funcionando. do outro, uma sociedade que preservou a convicção de que seus governantes podem e devem ser confrontados quando deixam de responder às suas necessidades.

a democracia precisa das duas coisas.

sem instituições, o conflito pode se transformar em imposição pela força. sem contestação, as instituições podem se tornar confortáveis demais para quem as ocupa.

e talvez seja por isso que a frança continue fascinante. não porque seus protestos sejam sempre exemplares. frequentemente não são. mas porque o país nunca conseguiu transformar completamente a política num espetáculo em que a população assiste, aplaude de quatro em quatro anos e depois volta para casa.

há um preço nessa tradição. às vezes alto demais. há destruição, excessos, confrontos e decisões que merecem condenação.

há também conquistas sociais e democráticas que não podem ser compreendidas sem a pressão popular que as precedeu.

o desafio está em preservar a força dessa contestação sem transformar a violência em método obrigatório ou em espetáculo admirável.

e é por isso que apoio os protestos franceses.

apoio os estudantes que querem professores. os trabalhadores que reivindicam salários melhores. as famílias que exigem serviços públicos dignos. apoio o direito de pressionar um governo que precisa prestar contas das escolhas que faz.

não apoio quem usa a manifestação como oportunidade para saquear, incendiar ou ferir pessoas.

não vejo contradição nisso. vejo a diferença entre compreender uma causa e conceder imunidade a qualquer ato cometido em seu nome.

o que não aceito é a ideia de que a ordem, por si só, seja uma resposta suficiente a uma sociedade insatisfeita.

uma cidade pode estar impecavelmente limpa e profundamente injusta. um governo pode manter todas as vitrines intactas e ainda fracassar na obrigação de oferecer condições dignas à população.

e uma manifestação pode ser barulhenta, inconveniente, desorganizada e, apesar de tudo isso, levantar questões que merecem respostas.

a frança de 2026 não é a frança de 1789. macron não é luís xvi. estudantes que reclamam da falta de professores não são jacobinos, e uma prefeitura incendiada não é a bastilha.

comparações históricas só são úteis quando reconhecem essas diferenças.

mas existe uma continuidade que não deveria ser ignorada.

aquela velha ideia francesa de que liberdade, igualdade e fraternidade precisam significar alguma coisa fora dos discursos oficiais.

porque, se a liberdade serve apenas para concordar com o governo, a igualdade termina na porta das escolas e a fraternidade desaparece quando chega a conta, talvez seja hora de perguntar o que restou do lema.

a marselhesa continua sendo cantada em cerimônias oficiais, estádios e comemorações nacionais. é uma música poderosa, carregada de memória, guerra e revolução.

mas hinos são fáceis de cantar quando não exigem nada de quem canta.

o verdadeiro teste de uma tradição política começa quando seus princípios deixam de ser patrimônio cultural e voltam a ser exigências vivas.

e os franceses, com todas as suas contradições, continuam lembrando ao próprio governo que uma república não existe apenas para ser admirada em fotografias.

liberdade, igualdade, fraternidade. três palavras magníficas. seria interessante que continuassem valendo também depois que o hino termina.

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2025

a inteligência artificial já escolheu um número para presidente e depois explicou que foi sem querer

imagem criada pela meta ai

há algo de profundamente irritante na maneira como as big techs lidam com os próprios erros. elas querem administrar nossas conversas, nossas informações, nossas imagens e uma parte cada vez maior daquilo que vemos do mundo. mas, quando fazem alguma coisa questionável, aparece uma inteligência artificial extremamente educada explicando que tudo não passou de um pequeno mal-entendido.

a tecnologia é revolucionária. a desculpa é a mesma de qualquer empresa aérea que perdeu sua mala.

resolvi testar a inteligência artificial da meta dentro do whatsapp. pedi uma imagem de lula com o número 13. recusou. pedi uma imagem de flávio bolsonaro com o número 22. recusou também. tentei os dois nomes sem números. novas negativas. pedi uma camiseta de campanha de flávio bolsonaro. outra recusa.

aparentemente, a meta tinha regras bastante rígidas para a criação de imagens políticas. ótimo. uma empresa que controla ferramentas usadas por milhões de brasileiros deveria mesmo tratar esse assunto com cuidado.

então pedi um gatinho candidato à presidência do brasil.

e a máquina, finalmente livre das perigosas ameaças representadas por seres humanos reais, resolveu colaborar.

produziu um gato alaranjado, sorridente, com faixa presidencial, bandeira brasileira e toda aquela decoração que faz uma campanha eleitoral parecer uma festa de aniversário infantil.

na parte inferior da imagem estava escrito: “vote 22”.

eu não tinha pedido número nenhum.

a meta não conseguiu gerar uma imagem dos políticos que mencionei, mas conseguiu colocar um número eleitoral numa propaganda que não solicitava qualquer identificação partidária.

e fez isso sozinha.

confesso que achei uma façanha. passamos anos discutindo se a inteligência artificial vai substituir jornalistas, artistas e programadores. aparentemente, já podemos acrescentar os marqueteiros políticos à lista. pelo menos os que trabalham com animais domésticos.

perguntei por que o gato estava fazendo campanha com o 22.

a resposta foi que aquele havia sido o último número mencionado na conversa. a máquina simplesmente aproveitou o histórico. nada de preferência política, nenhuma intenção de favorecer alguém. apenas uma escolha automática.

que maravilha.

uma das maiores empresas de tecnologia do planeta constrói um sistema que recusa pedidos políticos por questões de segurança, mas permite que o mesmo sistema recupere espontaneamente um número eleitoral e o coloque numa imagem de campanha.

e a explicação é que a máquina se lembrou da conversa.

se esse é o funcionamento esperado, o problema é sério. se não é, também.

quando insisti, a inteligência artificial reconheceu que eu não havia pedido número algum. admitiu que poderia ter usado o 13, o 22 ou qualquer outro. concordou que o correto teria sido produzir o gato sem identificação eleitoral.

depois pediu desculpas.

é impressionante como conseguimos construir máquinas capazes de gerar imagens em segundos, mas ainda não encontramos uma maneira de impedir que elas se comportem como um departamento de relações públicas diante de um constrangimento.

primeiro negam. depois explicam. depois concordam com o cliente. por fim, oferecem refazer o trabalho e esperam que o assunto morra ali.

só faltou a meta me mandar uma pesquisa de satisfação.

mas o que mais me incomodou não foi o número. foi a facilidade com que a empresa, por meio de sua inteligência artificial, conseguiu transformar uma decisão que partiu do próprio sistema numa responsabilidade difusa, quase impossível de localizar.

a máquina escolheu. a máquina explicou. a máquina reconheceu o erro. a máquina pediu desculpas.

e a empresa?

a empresa continua confortavelmente escondida atrás da máquina.

esse é o truque mais conveniente da inteligência artificial corporativa. quando tudo funciona, a inovação é da empresa. quando alguma coisa dá errado, a culpa parece ser de uma entidade misteriosa chamada algoritmo, como se ele tivesse surgido espontaneamente na natureza, ao lado dos cogumelos e dos mosquitos.

algoritmos não aparecem por geração espontânea. alguém desenvolve os sistemas, estabelece limites, define políticas, escolhe dados, aprova produtos e decide colocá-los nas mãos de milhões de pessoas.

a responsabilidade por essas decisões ndesaparece porque o software aprendeu a pedir desculpas.

e antes que alguém diga que estou exagerando por causa de um desenho de gato, vale lembrar que não estamos falando de um aplicativo desconhecido criado por três estudantes numa garagem. estamos falando da meta. dona do whatsapp, do instagram e do facebook. uma empresa com recursos suficientes para construir sistemas extraordinariamente sofisticados e influência suficiente para participar, direta ou indiretamente, de boa parte da circulação de informações no brasil.

quando uma empresa desse tamanho coloca uma ferramenta de inteligência artificial dentro de um aplicativo usado diariamente por milhões de pessoas, ela assume uma responsabilidade proporcional ao alcance que conquistou.

não deveria ser necessário explicar isso.

mas aparentemente chegamos a uma época em que as empresas querem o poder de uma infraestrutura pública e a responsabilidade de um aplicativo de figurinhas.

a meta decide quais conteúdos suas ferramentas podem gerar. decide quais pedidos serão recusados. define regras de segurança e estabelece como seus sistemas devem responder a assuntos sensíveis. são escolhas corporativas, feitas por uma empresa privada que tem interesses comerciais, executivos, acionistas e objetivos próprios.

não existe nada de místico nisso.

o problema começa quando essas escolhas passam a interferir no ambiente político e a empresa espera que todos aceitem suas explicações sem questionar.

não estou afirmando que meu experimento prove uma operação deliberada para favorecer determinado candidato. não prova. seria intelectualmente desonesto transformar um único resultado numa acusação dessa dimensão.

mas também seria uma ingenuidade monumental aceitar que, por não haver prova de intenção deliberada, não exista problema algum.

essa é uma confusão muito conveniente para as big techs. parece que só podemos questionar suas decisões depois de descobrir um plano secreto, uma troca de mensagens comprometedora ou um executivo confessando alguma coisa diante de uma câmera.

enquanto isso não acontece, devemos aceitar que tudo foi um acidente tecnológico.

desculpem, mas não funciona assim.

se um banco transfere dinheiro para a conta errada, não basta explicar que o sistema se confundiu. se uma companhia aérea vende o mesmo assento para duas pessoas, não adianta dizer que foi uma inconsistência do algoritmo. se um laboratório entrega um resultado trocado, ninguém considera o assunto resolvido porque o computador não teve intenção de prejudicar o paciente.

por que deveríamos adotar um padrão tão mais generoso quando o assunto é uma empresa capaz de produzir e distribuir conteúdo político?

a resposta, suspeito, tem menos a ver com tecnologia e mais com o tamanho do poder que aprendemos a tolerar.

a meta já está presente nas nossas conversas pessoais, nos grupos de família, nas discussões de trabalho, nas notícias que recebemos e nas imagens que compartilhamos. agora também oferece uma inteligência artificial que responde perguntas e cria conteúdos dentro desse mesmo ambiente.

não é pouca coisa.

e não estamos falando apenas de propaganda eleitoral explícita. influência também pode acontecer quando uma ferramenta escolhe o que mostrar, o que omitir, o que destacar e o que acrescentar. não significa que cada escolha tenha sido planejada para produzir determinado efeito político. significa que os efeitos dessas escolhas merecem fiscalização, especialmente quando acontecem em escala.

o meu gato não vai decidir uma eleição. mas o comportamento do sistema que o produziu levanta uma pergunta perfeitamente legítima sobre os critérios usados pela empresa.

por que um pedido com pessoas reais e números eleitorais foi recusado, mas um pedido genérico com um gato recebeu espontaneamente um número associado a uma candidatura?

a resposta “foi o último número da conversa” pode ser plausível. mas não é uma explicação técnica verificável. é uma frase produzida pela própria inteligência artificial depois de ser questionada.

e essa é outra parte do absurdo.

estamos aceitando que uma máquina explique seu próprio comportamento como se tivesse acesso completo às razões pelas quais produziu determinada resposta. não necessariamente tem. pode estar apenas gerando uma narrativa convincente, assim como faz quando responde sobre tantos outros assuntos.

é como pedir ao garçom que investigue a intoxicação alimentar e aceitar como laudo a afirmação de que a cozinha não teve intenção de fazer mal a ninguém.

muito reconfortante. especialmente enquanto você procura um banheiro.

o que deveria incomodar não é apenas a possibilidade de um viés político. é a falta de condições para verificar o que realmente aconteceu.

porque uma empresa não demonstra imparcialidade simplesmente afirmando que é imparcial. muito menos colocando essa afirmação na boca de um chatbot.

se a meta quer que seus sistemas sejam considerados confiáveis em assuntos eleitorais, deveria conseguir demonstrar consistência nos resultados, explicar seus critérios e permitir que falhas sejam examinadas de maneira independente.

não deveria depender da paciência de um usuário disposto a discutir com uma inteligência artificial até ela finalmente admitir que o gato não precisava de número.

e existe uma ironia particularmente desagradável nessa história.

as big techs passaram anos defendendo a ideia de que a tecnologia tornaria a informação mais acessível, as pessoas mais conectadas e o mundo mais aberto. conseguiram, sem dúvida, transformar profundamente a maneira como nos comunicamos.

mas também concentraram uma quantidade extraordinária de poder em empresas que não foram eleitas por ninguém.

não estou sugerindo que plataformas privadas devam funcionar como governos. estou dizendo que, quando suas decisões afetam espaços importantes da vida pública, elas não podem esperar que a sociedade trate essas decisões como simples detalhes comerciais.

uma empresa pode ser privada e ainda assim precisar responder publicamente pelas consequências de seus produtos.

especialmente quando seus produtos estão presentes em praticamente todos os bolsos.

e talvez seja isso que mais me irrite nessa cultura tecnológica. a pretensão de que toda novidade merece confiança imediata, enquanto qualquer cobrança por responsabilidade é tratada como resistência ao progresso.

querem que acreditemos na inteligência artificial porque ela é poderosa, rápida e revolucionária. mas, quando ela produz algo questionável, somos convidados a lembrar que a tecnologia ainda está aprendendo.

curioso. para vender, é o futuro da humanidade. para responder pelos erros, ainda é uma criança.

no meu caso, a situação ficou registrada. tenho as mensagens, as recusas, a imagem gerada e as explicações contraditórias da própria ferramenta. não preciso inventar uma teoria sobre as intenções de mark zuckerberg para apontar o problema.

o sistema recusou pedidos políticos explícitos. depois acrescentou um número eleitoral a uma imagem que não precisava dele. e, quando foi questionado, ofereceu uma sequência de justificativas que terminou com o reconhecimento de que deveria ter agido de outra maneira.

isso é o que aconteceu.

e considero bastante razoável cobrar da meta algo melhor do que um pedido de desculpas automatizado.

porque a discussão não é se o gato deveria usar 13 ou 22. a discussão é por que uma empresa com tamanho poder sobre a informação permite que uma ferramenta acrescente símbolos eleitorais sem solicitação e depois trate a explicação produzida pela própria máquina como resposta suficiente.

não é suficiente.

não precisamos aceitar qualquer acusação contra as big techs. mas também não precisamos tratá-las como criaturas indefesas, permanentemente surpreendidas pelos sistemas que elas próprias colocaram no mundo.

a meta tem dinheiro, engenheiros, infraestrutura, equipes jurídicas, especialistas em segurança e recursos que a maioria das empresas jamais chegará perto de possuir.

pode perfeitamente ser cobrada como uma organização adulta.

no fim, pedi um gatinho presidente e recebi um pequeno cabo eleitoral.

a inteligência artificial disse que foi sem querer.

talvez tenha sido.

mas uma empresa desse tamanho não deveria precisar de um gato para descobrir que suas ferramentas podem produzir conteúdo político que ninguém solicitou.

o gato pode não saber o que está fazendo.

a meta tem obrigação de saber o que está colocando nas mãos de milhões de pessoas.

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2025

afinal, de que lado estou? lula ou bolsonaro?

essa pergunta sempre me diverte. não pelo assunto, que é sério, mas pela expectativa de quem pergunta. a pessoa quer descobrir em qual gaveta deve me colocar. dependendo da resposta, vai decidir se sou inteligente, idiota, comunista, fascista, patriota ou alguma outra palavra que aprendeu a usar como insulto sem necessariamente saber o que significa.

vou decepcionar os dois lados. não gosto de lula. e gosto menos ainda de bolsonaro. o que, aparentemente, é uma posição impossível num país onde política virou uma espécie de campeonato de futebol disputado por gente que não aceita nem o resultado nem as regras.

não tenho pôster de político na parede. não acordo emocionado pensando em discurso presidencial. não sinto necessidade de defender declarações absurdas só porque foram feitas por alguém em quem votei. e, se um presidente fizer uma besteira, não vou procurar uma explicação mirabolante para transformá-la numa jogada genial de xadrez. às vezes uma besteira é só uma besteira. mesmo quando vem do seu candidato preferido.

mas existe uma diferença enorme entre não gostar de um político e não conseguir avaliar uma eleição.

não voto para escolher um amigo, um padrinho, um sujeito simpático para tomar cerveja ou alguém que eu convidaria para jantar. voto para escolher quem vai exercer poder sobre decisões que afetam a vida de milhões de pessoas. e, para isso, simpatia pessoal está muito longe de ser meu principal critério.

quero saber o que o candidato pretende fazer, se existe alguma possibilidade real de executar o que promete, com quem pretende governar, como lida com as instituições, qual é seu histórico de decisões e quais serão as consequências prováveis das escolhas que defende. também quero saber o que acontece quando as coisas dão errado. porque governar não é fazer discurso bonito diante de uma plateia que já concorda com você. é tomar decisões difíceis, negociar com gente desagradável, reconhecer limites e responder pelos resultados.

e aí entra uma coisa que parece ter desaparecido das discussões políticas brasileiras. a capacidade de comparar alternativas sem precisar canonizar uma delas.

é possível considerar uma opção eleitoral mais próxima de determinadas prioridades sem achar que seu candidato esteja acima de qualquer crítica. é possível reconhecer problemas em governos, discordar de decisões econômicas, questionar alianças e cobrar resultados sem que isso obrigue alguém a aderir automaticamente ao projeto adversário.

também é possível rejeitar determinadas práticas políticas por razões concretas, ligadas ao exercício do poder e à relação com as instituições, sem precisar transformar outro político num herói para justificar essa escolha.

isso deveria ser o básico. no brasil, parece uma tese de doutorado.

o mais curioso é a quantidade de pessoas que trata o voto como um juramento de fidelidade eterna. você escolhe um candidato e, a partir daquele momento, passa a ser responsável por defender cada frase, cada ministro, cada nomeação, cada contradição e cada desastre administrativo. o político muda de posição, faz alianças improváveis, negocia com antigos adversários e segue tranquilamente sua carreira. o eleitor continua na internet, trabalhando de graça para explicar por que aquilo tudo faz parte de um plano brilhante.

é uma relação maravilhosa. o político fica com o poder. o cidadão fica com o constrangimento.

eu não tenho a menor intenção de participar disso.

uma eleição pode colocar o eleitor diante de alternativas com as quais ele não se identifica integralmente. nesse caso, a escolha continua exigindo análise de propostas, histórico, capacidade de articulação, compromissos institucionais e consequências das decisões. não por paixão, não por devoção e muito menos porque algum desses homens seja indispensável à existência da república.

aliás, desconfio profundamente de qualquer projeto político que dependa da ideia de que um único sujeito é a salvação nacional. o brasil já teve salvadores suficientes. seria interessante experimentar, algum dia, instituições que funcionem sem precisar de um messias de plantão.

meu voto não é um prêmio de simpatia. é uma escolha entre possibilidades reais, feita com as informações disponíveis e a consciência de que nenhuma delas vem acompanhada de garantia.

e depois da eleição continuo tendo exatamente o mesmo direito de cobrar, discordar e criticar quem venceu. inclusive se foi a pessoa em quem votei. principalmente se foi a pessoa em quem votei.

portanto, se você quer saber de que lado estou, aqui vai a resposta sem rodeios: minha intenção é votar em lula.

isso não significa que eu goste dele, que aprove todas as suas decisões ou que considere seu governo imune a críticas. significa que essa é a escolha eleitoral que declaro fazer. nada além disso.

não estou pedindo que ninguém vote como eu. não estou oferecendo uma recomendação nem tentando transformar minha decisão numa prova de superioridade moral. cada eleitor terá de responder pelas próprias escolhas, inclusive quando o entusiasmo da campanha acabar e começarem as cobranças.

e, ao votar em lula, continuarei cobrando lula. discordando quando discordar, criticando quando achar necessário e recusando a obrigação absurda de defender qualquer decisão apenas porque ajudei a eleger quem a tomou.

o voto não é uma declaração de amor. não é um certificado de bom caráter entregue ao eleito, muito menos um contrato que obriga o eleitor a passar os quatro anos seguintes defendendo cada absurdo que sair do palácio.

porque o dia em que eu precisar fingir que um político não erra para justificar meu voto será o dia em que deixei de agir como eleitor e comecei a trabalhar como fã.

e, convenhamos, político já tem privilégios suficientes sem ganhar uma torcida organizada que ainda paga ingresso para defendê-lo.

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2025

todo mundo quer empatia. desde que não precise praticar.

tenho uma certa desconfiança de pessoas que se apresentam como muito empáticas. não porque sejam necessariamente mentirosas, mas porque empatia é uma dessas qualidades que ficam consideravelmente menos impressionantes quando o próprio dono resolve anunciá-las. é como entrar num restaurante e encontrar um cartaz dizendo que a comida é deliciosa. talvez seja. mas agora eu quero conferir a cozinha.

vivemos uma época extraordinária para quem gosta de falar sobre sentimentos. nunca tivemos tantas palavras para explicar nossas dores, tantas maneiras de anunciar nossas fragilidades e tanta gente disposta a publicar pequenos tratados sobre a importância de respeitar o próximo. o próximo, naturalmente, é uma figura abstrata. uma criatura simpática, educada, que concorda conosco e provavelmente nunca tentou entrar no elevador antes de deixarmos sair.

o próximo de verdade é um sujeito bem menos agradável.

ele demora no caixa do supermercado. fala alto no restaurante. estaciona mal. faz perguntas idiotas. interrompe histórias. tem opiniões que consideramos absurdas e, em casos particularmente graves, insiste em compartilhá-las. não tem a delicadeza de organizar a própria existência de maneira compatível com nossas preferências.

e é aí que a empatia começa a ficar cara.

porque gostar da humanidade é fácil. a humanidade não senta ao seu lado no avião comendo um sanduíche de atum. não coloca o celular no viva-voz dentro do ônibus. não pede para dividir a conta depois de ter consumido três vezes mais que todo mundo. a humanidade, vista de longe, é uma ideia maravilhosa. o problema são os seres humanos. eles têm cheiro, manias, mau humor e uma capacidade quase sobrenatural de escolher o pior momento possível para precisar de alguma coisa.

e nós também somos assim, evidentemente. só que nossos defeitos têm explicações muito convincentes.

quando estamos mal-humorados, tivemos um dia difícil. quando outra pessoa está mal-humorada, falta educação. quando esquecemos um compromisso, estamos sobrecarregados. quando alguém esquece algo importante para nós, descobrimos uma grave falha de caráter. quando falamos demais, estamos entusiasmados. quando o outro fala demais, é um narcisista insuportável que deveria procurar ajuda profissional.

a psicologia popular fez maravilhas pela nossa capacidade de diagnosticar desconhecidos sem precisar passar pelo inconveniente de conhecê-los.

bastam alguns minutos nas redes sociais para descobrir que o mundo está infestado de narcisistas, psicopatas, manipuladores, pessoas tóxicas e indivíduos emocionalmente indisponíveis. uma epidemia impressionante. curiosamente, quase todos os diagnósticos são feitos por pessoas que, segundo seus próprios relatos, são profundamente empáticas e apenas tiveram o azar de encontrar seres humanos horríveis ao longo da vida.

uma coincidência estatística fascinante.

não estou dizendo que gente cruel não exista. existe, e bastante. também não acho que todo comportamento precise ser compreendido, perdoado e embrulhado numa explicação bonita. algumas pessoas são simplesmente desagradáveis. outras fazem coisas ruins sabendo exatamente o que estão fazendo. empatia não deveria servir como uma espécie de anistia universal para a falta de caráter.

mas existe uma distância considerável entre reconhecer isso e transformar qualquer pessoa que nos contrarie num caso clínico.

o que me incomoda é a facilidade com que passamos a usar palavras sofisticadas para justificar uma velha atividade humana. não gostar de alguém.

antes você dizia que seu colega era um chato. hoje ele tem comportamentos incompatíveis com seus limites emocionais. antes uma amizade terminava porque duas pessoas já não se suportavam. agora uma delas precisa escrever um pequeno comunicado sobre como está priorizando a própria saúde mental e se afastando de energias que não contribuem para sua jornada.

às vezes a pessoa só não aguenta mais ouvir o amigo falar de crossfit.

e tudo bem.

nem toda antipatia precisa virar uma tese sobre desenvolvimento pessoal. nem toda discussão revela um trauma. nem todo sujeito inconveniente está tentando manipular alguém. existe uma quantidade imensa de gente apenas sendo gente, o que já é uma ocupação suficientemente desastrosa sem precisar de nomenclatura adicional.

a internet, claro, tornou a situação muito mais divertida. hoje podemos demonstrar nossa extraordinária sensibilidade humana participando de humilhações públicas em escala industrial. alguém comete um erro, fala uma besteira, aparece num vídeo constrangedor e imediatamente milhares de pessoas se reúnem para ensinar uma lição sobre respeito, geralmente usando palavras que não repetiriam na frente da própria avó.

é uma experiência educativa. especialmente para quem gosta de assistir a um linchamento enquanto se sente moralmente superior.

e existe uma satisfação bastante peculiar nisso. quando encontramos alguém que consideramos errado, ganhamos uma espécie de autorização temporária para abandonar todas as virtudes que exigimos dos outros. podemos ser cruéis, debochados, desproporcionais. podemos reduzir uma pessoa inteira ao pior minuto da sua existência. afinal, estamos do lado certo. e estar do lado certo, aparentemente, dispensa a obrigação de continuar sendo decente.

não é uma exclusividade de grupo nenhum. esse é justamente o charme da coisa. todo mundo tem uma justificativa maravilhosa para a própria falta de empatia.

e ninguém parece perceber a ironia.

ou percebe e não se importa. o que, pensando bem, talvez seja pior.

também temos uma relação curiosa com o sofrimento alheio. gostamos de ajudar, especialmente quando a ajuda vem acompanhada de uma história que nos coloca numa posição interessante. somos generosos, atenciosos, solidários. sabemos encontrar as palavras certas, publicar mensagens comoventes e demonstrar uma preocupação admirável com pessoas que nunca vimos.

mas a empatia cotidiana é menos fotogênica.

ela aparece quando o garçom traz o pedido errado e você precisa decidir se vai transformar um erro banal numa pequena demonstração de autoridade. aparece quando um atendente não consegue resolver seu problema porque a empresa criou um sistema idiota e colocou aquele sujeito mal remunerado para receber toda a indignação dos clientes. aparece quando alguém está contando uma história longa, confusa, sem ritmo, e você percebe que não haverá nenhuma revelação extraordinária no final.

ninguém vai aplaudir sua paciência. não haverá fotografia. provavelmente nem um agradecimento.

é uma péssima oportunidade de construir uma imagem pública.

talvez por isso a empatia seja tão fácil de defender em discursos e tão inconveniente de praticar numa terça-feira qualquer.

e ainda existe a nossa incapacidade quase comovente de ouvir alguém sem tentar transformar a conversa num episódio sobre nós mesmos.

uma pessoa diz que está exausta. imediatamente contamos como nossa semana foi pior. alguém fala que está passando por um momento difícil e respondemos com uma história de superação pessoal, de preferência acompanhada de uma lição que aprendemos e que agora pretendemos distribuir gratuitamente. se um amigo diz que está triste, sentimos a necessidade urgente de consertar sua tristeza. damos conselhos, sugerimos exercícios, indicamos livros, recomendamos terapia, mudanças de rotina e talvez uma viagem.

tudo para evitar o desconforto de ficar sentado ao lado de alguém que não está bem.

porque ouvir de verdade pode ser uma atividade desagradável. às vezes não há solução. às vezes a pessoa não quer saber como você resolveu um problema parecido em 2014. às vezes a história é triste, repetitiva, mal contada e não oferece nenhum ensinamento útil. às vezes ela só precisa de alguém que não consulte o celular enquanto escuta.

um pedido aparentemente simples, mas que já coloca boa parte da população diante de um desafio olímpico.

também não ajuda o fato de termos transformado a vida numa competição permanente de dificuldades. ninguém pode estar cansado sem que apareça alguém mais cansado. ninguém pode reclamar de um problema sem ouvir que existem pessoas passando fome. ninguém pode dizer que teve um dia ruim porque, em algum lugar, certamente há alguém tendo um dia muito pior.

seguindo essa lógica, apenas a pessoa mais infeliz do planeta teria autorização para reclamar. os demais deveriam aguardar educadamente sua vez, que provavelmente nunca chegaria.

o sofrimento humano não funciona como uma fila de banco. reconhecer a dor de alguém não exige estabelecer se ela merece uma senha preferencial.

mas há algo ainda mais irritante na maneira como falamos de empatia. frequentemente a tratamos como uma virtude reservada a pessoas agradáveis. gostamos de imaginar que ser empático significa oferecer compreensão a quem merece. alguém educado, gentil, esforçado, preferencialmente com uma história triste e um comportamento exemplar.

isso não é exatamente um grande feito.

qualquer um consegue ser simpático com alguém simpático. a verdadeira dificuldade começa com o sujeito que faz você perder a paciência. aquele que não entende uma explicação simples. que insiste numa ideia absurda. que fala alto demais, pergunta demais, reclama demais. a pessoa que não tem a menor intenção de facilitar sua vida.

não precisamos concordar com ela. muito menos gostar dela. mas seria interessante lembrar, por alguns segundos, que existe uma pessoa inteira ali, e não apenas o inconveniente que acabou de atravessar nosso caminho.

e isso vale especialmente para quem conhecemos há muito tempo.

há uma espécie de preguiça afetiva que se instala nas relações. começamos a acreditar que já sabemos tudo sobre nossos amigos, parceiros, pais, filhos. paramos de fazer perguntas porque achamos que conhecemos as respostas. interpretamos o silêncio, a irritação, a ausência e o cansaço com a segurança de quem leu o manual completo daquela pessoa.

só esquecemos de considerar que o manual pode ter mudado.

o amigo que anda distante talvez esteja atravessando alguma coisa que não sabe explicar. a pessoa irritada talvez esteja com medo. alguém que parece indiferente pode estar simplesmente esgotado. ou talvez não. talvez o amigo tenha perdido o interesse, a pessoa seja realmente mal-educada e o indiferente não se importe com nada.

o ponto é que não sabemos.

e admitir que não sabemos parece ter se tornado uma humilhação intolerável.

preferimos conclusões. elas são rápidas, confortáveis e não exigem que a gente escute uma versão dos acontecimentos capaz de estragar a nossa.

existe, naturalmente, um limite para tudo isso. ninguém precisa passar a vida tolerando abusos, desculpando comportamentos cruéis ou oferecendo compreensão infinita a quem não demonstra a menor preocupação com os outros. há situações em que a atitude mais saudável é ir embora. sem discurso, sem cerimônia e, se possível, sem publicar um manifesto explicando a decisão.

ter empatia não obriga ninguém a ser capacho.

mas também não deveria ser necessário odiar uma pessoa para estabelecer distância dela. essa é outra habilidade que estamos perdendo. a capacidade de discordar, terminar uma relação, recusar um convite ou simplesmente não gostar de alguém sem precisar transformar o outro num monstro para justificar a escolha.

às vezes duas pessoas são incompatíveis. acontece. o mundo tem bilhões de habitantes. seria surpreendente se todos funcionassem bem juntos.

o que me parece estranho é a necessidade de sair de qualquer conflito como o herói indiscutível da história.

talvez seja porque gostamos demais da ideia de sermos boas pessoas. precisamos acreditar que nossas intenções são nobres, nossos julgamentos são equilibrados e nossas atitudes, mesmo as piores, aconteceram por motivos compreensíveis. somos muito generosos com nossa própria biografia. editamos os capítulos ruins, acrescentamos contexto, explicamos decisões questionáveis e transformamos alguns erros em experiências de aprendizado.

os outros não recebem esse trabalho editorial.

para eles, basta uma manchete.

e talvez seja justamente aí que a empatia tenha alguma utilidade. não como um grande sentimento capaz de salvar a humanidade, mas como uma pequena desconfiança das nossas próprias certezas. aquela fração de segundo em que você pensa que talvez não conheça a história inteira. que talvez a pessoa não seja tão idiota quanto parece. que talvez você esteja irritado, cansado ou simplesmente com vontade de encontrar alguém em quem descontar um dia ruim.

não é uma revelação espiritual. não exige retiro, meditação nem uma assinatura mensal de algum aplicativo de bem-estar.

exige apenas aceitar uma possibilidade profundamente ofensiva ao nosso ego.

a de que podemos estar errados.

não sei se estamos ficando menos empáticos ou se apenas encontramos maneiras mais eficientes de exibir nossa falta de paciência. provavelmente sempre fomos uma espécie complicada. basta observar uma reunião de condomínio para perder qualquer ilusão sobre a evolução moral da humanidade.

mas há algo especialmente ridículo em viver cercado de discursos sobre acolhimento, respeito e compreensão enquanto tratamos qualquer pequeno incômodo como uma ofensa pessoal.

todo mundo quer ser visto, ouvido, respeitado e compreendido. são desejos perfeitamente razoáveis. o problema é que estamos tentando organizar uma sociedade inteira em que cada pessoa exige essas coisas enquanto considera um abuso ter que oferecê-las a alguém desagradável.

e gente desagradável, convém lembrar, é uma categoria da qual todos nós participamos ocasionalmente.

inclusive aquele sujeito simpático que aparece no espelho pela manhã, convencido de que está fazendo o melhor que pode.

ele provavelmente está.

os outros também podem estar.

seria interessante conceder a eles, de vez em quando, o mesmo benefício da dúvida que reservamos com tanta generosidade para nós mesmos.

e se isso parecer pedir demais, talvez seja.

afinal, estamos falando de uma espécie que conseguiu colocar um homem na lua, mas ainda precisa de avisos em banheiros públicos lembrando que é necessário lavar as mãos.

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2025

pensar virou uma atividade suspeita

tem uma coisa acontecendo que me incomoda mais do que deveria. estamos ficando extraordinariamente bons em encontrar respostas e perigosamente ruins em fazer perguntas. nunca tivemos tanta informação disponível, tantos especialistas explicando o mundo, tantos vídeos ensinando como viver, trabalhar, comer, dormir, investir, criar filhos, escolher um relógio ou simplesmente acordar sem estragar o dia. temos acesso a praticamente tudo que a humanidade conseguiu aprender e, mesmo assim, parece que estamos desenvolvendo uma alergia coletiva ao esforço de pensar. a informação nunca esteve tão perto. o pensamento, curiosamente, parece cada vez mais distante.

e antes que alguém comece a culpar a inteligência artificial, convém lembrar que já estávamos fazendo um trabalho bastante competente nessa direção muito antes dela aparecer. passamos anos terceirizando nossas opiniões para comentaristas, influenciadores, especialistas, gurus, políticos, jornalistas, celebridades e qualquer sujeito suficientemente confiante diante de uma câmera. a ia apenas entrou numa festa que já estava acontecendo. encontrou todo mundo bastante confortável com a ideia de receber conclusões prontas e perguntou se gostaríamos de recebê-las ainda mais rápido. evidentemente, dissemos que sim.

o problema é que pensar sempre foi uma atividade meio desagradável. exige tempo, dúvida, paciência e uma disposição quase masoquista para descobrir que talvez você esteja errado. é muito mais confortável ouvir alguém explicar um assunto em quarenta segundos, concordar imediatamente e seguir o dia com aquela sensação maravilhosa de ter aprendido alguma coisa. você não precisou ler, comparar fontes, entender o contexto ou enfrentar uma opinião que contradissesse a sua. recebeu uma conclusão, guardou na cabeça e agora pode defendê-la com a segurança de quem passou anos estudando o tema. a internet conseguiu transformar convicção em produto de entrega rápida.

basta observar como discutimos qualquer assunto. alguém publica uma frase, outro responde com um vídeo, um terceiro aparece com um gráfico cuja origem ninguém conhece e, em poucos minutos, temos milhares de pessoas absolutamente convencidas de que entenderam um problema que pesquisadores passam décadas tentando explicar. política, economia, medicina, educação, tecnologia. não importa. todo assunto complexo parece caber perfeitamente numa legenda, desde que a legenda seja escrita com confiança suficiente. se ainda tiver uma música dramática e alguém apontando para palavras na tela, melhor. aparentemente a verdade também precisa de direção de arte.

e o mais curioso é que confundimos acesso à informação com conhecimento. ter uma biblioteca inteira no bolso não significa que você leu os livros. significa apenas que você pode ignorar todos eles em qualquer lugar do mundo. o smartphone nos deu acesso a uma quantidade absurda de conhecimento, mas também nos ofereceu milhares de maneiras muito mais agradáveis de evitar qualquer contato com ele. podemos estudar história enquanto esperamos o ônibus. preferimos assistir a um sujeito discutindo com outro sobre uma história que nenhum dos dois estudou. depois compartilhamos o vídeo e chamamos aquilo de debate.

não tenho nenhuma nostalgia romântica de uma época em que as pessoas supostamente pensavam mais. a humanidade sempre teve uma relação bastante irregular com a inteligência. basta abrir um livro de história para encontrar provas suficientes. a diferença é que antes a ignorância tinha algumas limitações logísticas. para espalhar uma ideia absurda, era necessário convencer pessoas, imprimir alguma coisa, organizar uma reunião ou pelo menos sair de casa. hoje basta uma conexão razoável e uma boa thumbnail. conseguimos industrializar a opinião sem precisar melhorar a qualidade da matéria-prima.

também criamos uma cultura em que mudar de ideia parece uma humilhação pública. alguém diz uma coisa aos vinte anos, aprende algo aos trinta, pensa diferente aos quarenta e imediatamente aparece uma pessoa com uma captura de tela de 2014 exigindo explicações. como se evoluir intelectualmente fosse uma espécie de fraude. o resultado é previsível. muita gente prefere defender uma bobagem até o fim a admitir que aprendeu alguma coisa. estamos cercados de pessoas que tratam a própria opinião como patrimônio histórico. qualquer revisão precisa passar por um processo de tombamento.

isso fica especialmente evidente na política. as pessoas escolhem um lado e, a partir dali, começam a consumir informações como quem monta uma coleção de figurinhas. só interessam as que completam o álbum. uma notícia confirma o que você acredita? excelente jornalismo. contradiz? manipulação. um especialista concorda com você? referência. discorda? vendido. os fatos continuam existindo, mas aparentemente precisam passar por uma entrevista de emprego antes de entrar na nossa cabeça. e o mais engraçado é que cada lado olha para o outro com espanto genuíno, sem perceber que está usando exatamente o mesmo método.

nas empresas, o espetáculo ganha uma aparência mais sofisticada. contratamos consultorias, compramos relatórios, criamos indicadores, montamos dashboards e organizamos reuniões para discutir apresentações que resumem apresentações anteriores. tudo parece muito racional. até alguém perguntar por que estamos fazendo aquilo. nesse momento, geralmente aparece uma explicação envolvendo benchmark, tendência de mercado ou alguma expressão em inglês que ninguém teria coragem de usar numa conversa normal. pensar de verdade pode ser um problema corporativo. você corre o risco de descobrir que um projeto inteiro existe porque alguém importante teve uma ideia ruim numa terça-feira e ninguém quis contrariar.

existe uma diferença prática entre ter dados e saber o que fazer com eles. uma empresa pode medir centenas de indicadores e continuar tomando decisões idiotas com precisão impressionante. pode contratar os melhores sistemas, integrar plataformas, automatizar processos e descobrir que agora consegue executar uma estratégia ruim três vezes mais rápido. os números ajudam muito quando existe alguém disposto a interpretá-los. sem isso, viram decoração de powerpoint. e decoração, como sabemos, é uma indústria bastante respeitada no mundo corporativo.

a inteligência artificial torna essa conversa ainda mais interessante porque finalmente temos uma ferramenta capaz de produzir respostas convincentes sobre praticamente qualquer assunto. isso é extraordinário. também é um convite irresistível para nossa preguiça intelectual. você pede um resumo de um livro que não leu, uma análise de um mercado que não conhece, uma opinião sobre um tema que não estudou e recebe tudo organizado em segundos. o texto parece bom. os argumentos parecem razoáveis. a estrutura está impecável. você copia, publica e segue a vida. em algum momento, duas máquinas podem acabar discutindo entre si enquanto os seres humanos ficam apenas escolhendo qual resposta parece mais inteligente.

não vejo problema em usar ia para pesquisar, organizar ideias, testar hipóteses ou encontrar caminhos que talvez você não tivesse considerado. seria ridículo ignorar uma ferramenta dessas por algum tipo de orgulho artesanal. o problema começa quando ela deixa de ampliar seu raciocínio e passa a substituí-lo. quando você já não sabe explicar uma conclusão sem abrir novamente a conversa. quando um texto está cheio de palavras que você nunca usaria e ideias que não conseguiria defender. quando a tecnologia faz tão bem o trabalho de parecer inteligente que você começa a achar desnecessário ser.

e isso não se limita à ia. acontece quando seguimos recomendações sem entender nossos próprios critérios. quando compramos um produto porque alguém disse que era o melhor. quando escolhemos uma profissão porque uma lista afirmou que seria promissora. quando repetimos opiniões de pessoas que admiramos sem perguntar se elas fazem sentido. quando transformamos experiências alheias em manuais universais. um sujeito acorda às quatro da manhã, corre dez quilômetros, toma um café que parece ter sido filtrado através de uma árvore e publica que encontrou o segredo do sucesso. imediatamente aparecem milhares de pessoas ajustando o despertador. ninguém pergunta se o sujeito é realmente feliz, se trabalha bem ou se simplesmente não consegue dormir.

a indústria da resposta pronta é maravilhosa porque consegue vender segurança num mundo que não oferece nenhuma. sempre existe um método, uma fórmula, um protocolo, um hábito, um aplicativo ou um especialista prometendo reduzir a complexidade da vida a cinco passos. e nós adoramos. não porque acreditamos necessariamente em todos eles, mas porque a possibilidade de alguém já ter resolvido o problema é muito mais agradável do que precisar enfrentá-lo. pensar envolve o risco de chegar a uma resposta incompleta. seguir uma fórmula oferece pelo menos a tranquilidade de culpar o autor quando tudo dá errado.

o que mais me preocupa é que estamos começando a perder a tolerância ao desconforto de não saber. alguém faz uma pergunta e sentimos uma necessidade quase física de responder. não importa se entendemos o assunto. o silêncio parece incompetência. a dúvida parece fraqueza. dizer “não sei” virou uma experiência socialmente embaraçosa, principalmente para quem construiu uma reputação de ter opinião sobre tudo. e talvez seja por isso que temos tanta gente explicando o mundo com tanta certeza. admitir ignorância exige uma segurança pessoal que nem todo especialista de internet consegue sustentar.

algumas das conversas mais interessantes começam justamente quando alguém admite que não sabe. porque aí existe espaço para investigar, perguntar, ouvir e descobrir. uma pessoa que já entrou na conversa com todas as respostas prontas não está conversando. está distribuindo panfletos. pode até ser um panfleto muito bem escrito, com dados, referências e uma bela identidade visual. continua sendo um panfleto. e ninguém aprende muita coisa enquanto está ocupado tentando converter os outros.

também precisamos recuperar o direito de pensar devagar. essa talvez seja uma das ideias mais impopulares da nossa época. vivemos num ambiente que recompensa velocidade, reação e posicionamento imediato. acontece alguma coisa às oito da manhã e às oito e quinze já existem especialistas explicando as consequências para os próximos vinte anos. às nove surgem os vídeos de reação. às dez aparecem as análises das reações. ao meio-dia alguém publica que tudo aquilo era previsível. no fim da tarde o assunto já morreu, substituído por outra urgência. ninguém teve tempo de compreender muita coisa, mas todos tiveram oportunidade de demonstrar que estavam presentes.

pensar devagar exige aceitar que algumas questões não cabem no ritmo da internet. que certos assuntos precisam de leitura, comparação, conversa e tempo. que uma boa pergunta pode ser mais valiosa do que uma resposta rápida. que existem problemas sem solução elegante e decisões em que todas as alternativas têm algum custo. isso é particularmente irritante para uma geração acostumada a interfaces que oferecem um botão para resolver tudo. a realidade, infelizmente, continua sendo um produto com uma experiência de usuário bastante ruim.

e talvez devêssemos desconfiar um pouco mais das nossas próprias certezas. principalmente daquelas que nos deixam confortáveis demais. quando uma ideia explica perfeitamente todos os problemas do mundo, identifica claramente os culpados e ainda coloca você entre as pessoas inteligentes que perceberam tudo, existe uma boa chance de que ela mereça uma segunda olhada. explicações convenientes são sedutoras. permitem que a gente continue exatamente como está, apenas um pouco mais indignado. pensar de verdade costuma produzir um efeito menos agradável. obriga você a revisar alguma coisa em si mesmo.

não estou propondo que todo mundo vire filósofo, passe os fins de semana lendo tratados acadêmicos ou transforme uma conversa sobre futebol numa investigação epistemológica. seria insuportável. já temos gente suficiente usando palavras difíceis para esconder ideias simples. estou falando de coisas bem mais comuns. ler além do título. perguntar de onde veio um número. ouvir alguém antes de classificá-lo. tentar explicar uma opinião com as próprias palavras. reconhecer quando uma ideia parece boa apenas porque foi dita por alguém de quem gostamos. ter coragem de dizer que ainda não pensou o suficiente para chegar a uma conclusão.

essas pequenas atitudes parecem banais, mas estão se tornando estranhamente raras. talvez porque pensar tenha perdido espaço para uma atividade muito mais recompensadora, parecer que pensamos. hoje é possível construir uma imagem pública de pessoa informada sem atravessar o inconveniente processo de aprender. basta compartilhar os livros certos, citar os autores certos, repetir as opiniões certas e manter uma expressão de desprezo diante de quem ainda não descobriu aquilo que você também acabou de descobrir ontem. a ignorância com boa curadoria virou quase uma especialidade profissional.

e existe um custo nisso que não aparece imediatamente. quando paramos de exercitar nosso próprio julgamento, começamos a depender cada vez mais de quem promete pensar por nós. pode ser um político, um influenciador, um algoritmo, uma empresa ou uma inteligência artificial. a dependência é confortável porque elimina a responsabilidade de decidir. se der errado, a culpa é de quem recomendou. se der certo, podemos comemorar como se tivéssemos escolhido sozinhos. um arranjo bastante conveniente, especialmente para quem ganha dinheiro ou poder oferecendo as respostas.

o curioso é que estamos vivendo uma época em que pensar por conta própria deveria ser mais fácil do que nunca. temos ferramentas extraordinárias, acesso a perspectivas diferentes, bibliotecas digitais, cursos, pesquisas e possibilidades de aprender que seriam inimagináveis para gerações anteriores. mas abundância também produz um tipo estranho de passividade. quando tudo está disponível, parece que nada precisa ser realmente conquistado. confundimos a facilidade de encontrar uma resposta com a capacidade de compreendê-la. e compreensão continua exigindo uma coisa que nenhuma tecnologia conseguiu eliminar completamente. esforço.

talvez daqui a algumas décadas olhemos para este momento com uma mistura de admiração e constrangimento. teremos criado máquinas capazes de realizar tarefas intelectuais impressionantes enquanto parte de nós desaprendeu a sustentar uma conversa sem consultar uma tela. teremos acesso instantâneo a quase todo o conhecimento humano e continuaremos discutindo manchetes que ninguém leu. teremos sistemas cada vez melhores para responder perguntas e uma sociedade cada vez menos interessada em descobrir se estava fazendo as perguntas certas.

não acho que a solução seja usar menos tecnologia. seria uma resposta preguiçosa para um problema que merece algo melhor. a questão é o que fazemos com a capacidade que essas ferramentas nos devolvem. se uma máquina consegue resumir um relatório em segundos, talvez possamos usar o tempo economizado para questionar suas conclusões. se encontramos informações rapidamente, podemos gastar mais tempo comparando versões. se automatizamos tarefas repetitivas, talvez sobre espaço para aquilo que sempre foi mais difícil. interpretar, imaginar, duvidar, criar critérios e assumir responsabilidade pelas escolhas.

mas isso depende de uma decisão que nenhuma ferramenta pode tomar por nós. a decisão de não aceitar a primeira resposta apenas porque ela chegou rápido, bem escrita e com uma aparência convincente.

o mundo está cheio de gente oferecendo respostas. algumas boas, muitas ruins, várias bastante lucrativas para quem as vende. talvez o que esteja faltando sejam pessoas dispostas a interromper o espetáculo por alguns minutos e perguntar se aquilo tudo faz algum sentido.

porque a parte mais assustadora de uma sociedade que para de pensar não é que ela fique sem respostas.

é que ela continua tendo respostas para absolutamente tudo.

e começa a se orgulhar disso.

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2025

a gente virou lado antes de continuar sendo gente

tem uma coisa estranha acontecendo com a gente. e não começou ontem, nem nasceu com uma eleição, um político ou uma rede social específica. em algum momento, discordar deixou de significar apenas discordar. virou uma espécie de exame moral. você fala o que pensa sobre política, economia, comportamento, guerra, vacina, religião, educação, qualquer assunto suficientemente inflamável, e alguém imediatamente começa a calcular que tipo de ser humano você deve ser. não interessa muito como você trata seus filhos, se ajuda um amigo quando ele precisa, se devolve o carrinho do supermercado, se cuida dos pais ou se é o sujeito que deixa o cachorro cagar na calçada e finge que não viu. aparentemente uma opinião sobre um assunto complexo passou a ser suficiente para resumir uma pessoa inteira. tão eficiente né?!

o mais curioso é que todo mundo diz odiar a polarização. ninguém parece particularmente disposto a abrir mão do prazer de polarizar. polarização é sempre uma doença do outro. o meu lado tem convicções. o outro tem fanatismo. eu tenho princípios. ele tem ideologia. eu estou defendendo valores. ele foi manipulado. é um sistema maravilhoso porque permite que todos participem do problema enquanto se sentem parte da solução.

e ficou fácil demais odiar alguém que virou uma palavra.

esquerdista. direitista. fascista. comunista. liberal. conservador. progressista. bolsonarista. petista. isentão. militante. negacionista. lacrador. cada grupo construiu seu pequeno estoque de etiquetas porque etiquetas são muito mais práticas que pessoas. pessoas dão trabalho. elas contradizem a própria tribo. têm histórias. carregam traumas. mudam de ideia. às vezes concordam com você numa coisa e discordam completamente em outra. uma inconveniência enorme para quem gostaria de organizar oito bilhões de seres humanos em duas gavetas.

a internet resolveu esse problema.

agora basta olhar a bio.

você encontra uma bandeira, uma frase, um emoji, um político, uma causa ou uma foto e pronto. investigação encerrada. já sabemos tudo sobre aquele ser humano. podemos odiá-lo com a tranquilidade de quem fez uma pesquisa profunda de aproximadamente onze segundos.

o algoritmo agradece.

porque gente tentando entender gente é um negócio meio sem graça. não produz aquele maravilhoso coquetel de indignação, dopamina e vontade de escrever “você é exatamente o problema deste país” para um completo desconhecido às onze e meia da noite.

duas pessoas dizendo “entendo seu ponto, mas vejo diferente” provavelmente nunca sustentariam uma plataforma de bilhões de dólares.

já “você é um lixo” tem excelente retenção.

e aos poucos fomos ficando muito bons nisso.

não necessariamente em argumentar. nisso tenho minhas dúvidas.

ficamos bons em reconhecer inimigos.

uma frase. um boné. um livro na estante. uma camiseta. um voto. um repost. pronto. o cérebro já terminou o trabalho antes mesmo da conversa começar.

o mais fascinante é que fazemos isso enquanto repetimos que precisamos de mais empatia.

empatia virou uma dessas palavras que todo mundo adora desde que não precise praticar com alguém realmente desagradável.

é fácil ter empatia por quem pensa como você. isso não é empatia. é conforto.

o teste começa quando aparece alguém cuja visão de mundo irrita você.

aí a conversa muda.

“como posso entender uma pessoa dessas?”

bom, talvez exatamente assim. tentando.

entender não significa concordar. essa confusão talvez seja uma das coisas mais preguiçosas que inventamos. você pode compreender perfeitamente como alguém chegou a uma conclusão e continuar achando aquela conclusão errada. pode ouvir uma história inteira sem assinar embaixo dela. pode reconhecer humanidade numa pessoa sem reconhecer razão no argumento dela.

parece óbvio.

aparentemente não é mais.

porque hoje existe uma espécie de medo de compreender o outro. como se tentar enxergar o mundo pelos olhos de alguém fosse uma pequena traição ao próprio grupo. você precisa demonstrar lealdade. indignação rápida ajuda. dúvida demais começa a parecer suspeita.

e talvez essa seja uma das partes mais perigosas da polarização. ela não exige apenas que você escolha um lado. exige que você pare de sentir curiosidade pelo outro.

curiosidade é inconveniente.

ela pode fazer você descobrir que aquele sujeito que você imaginava ser um monstro cuida da mãe doente há dez anos. que aquela mulher que você classificou como idiota tem uma história que explica, ainda que não justifique, muita coisa. que a pessoa que votou em alguém que você considera abominável talvez não tenha votado pelos motivos que você imaginou enquanto discutia sozinho com ela dentro da sua cabeça.

isso complica tudo.

e nós estamos apaixonados por explicações simples.

talvez por isso tanta conversa política hoje pareça duas pessoas discutindo com personagens que inventaram uma sobre a outra.

ninguém está realmente ali.

tem um estereótipo de cada lado da mesa.

um responde ao que acha que o outro acredita. o outro se defende de algo que nunca disse. quinze minutos depois ambos saem convencidos de que acabaram de confirmar tudo que já pensavam antes de sentar.

excelente conversa.

zero risco de aprender alguma coisa.

o problema é que a vida real continua acontecendo fora dessa arena.

quando alguém sofre um acidente na sua frente, você não pergunta em quem votou antes de ajudar. quando seu filho está doente, você provavelmente não pede o histórico eleitoral do médico. quando o avião balança de verdade, curiosamente ninguém quer saber se o piloto é progressista ou conservador. naquele momento, nossa humanidade reaparece com uma velocidade impressionante.

talvez porque o medo tenha essa qualidade maravilhosa de reorganizar prioridades.

de repente somos apenas pessoas.

frágeis, assustadas, tentando chegar em casa.

é uma pena precisarmos de turbulência para lembrar.

porque por trás de quase toda opinião que nos irrita existe alguém fazendo mais ou menos as mesmas coisas ridículas que fazemos. acordando cansado. pagando conta. tentando criar filho sem manual. brigando com alguém que ama. sentindo saudade de gente que morreu. adiando exame médico. olhando o saldo da conta. tentando descobrir o que fazer da própria vida enquanto finge ter entendido tudo.

depois essa pessoa abre o celular.

e vira “o outro lado”.

pronto.

acabou a humanidade.

agora é avatar.

é inimigo.

é uma categoria.

é alguém sobre quem podemos dizer coisas que provavelmente teríamos vergonha de dizer olhando nos olhos.

esse talvez seja o truque mais perverso de tudo. a distância transforma crueldade em opinião.

é muito fácil desejar coisas terríveis para “eles”.

mais difícil quando “eles” têm nome, família, cheiro de café, medo de perder o emprego e uma mãe ligando para perguntar se chegaram bem.

não estou sugerindo aquela bobagem açucarada de que todo mundo precisa se abraçar, esquecer diferenças e cantar junto em volta de uma fogueira. algumas ideias são ruins. algumas pessoas são canalhas. existem limites morais, crimes, mentiras, manipulação e gente que merece ser confrontada com força. humanidade não exige ingenuidade.

mas existe uma distância enorme entre confrontar uma ideia e sentir prazer em desumanizar quem acredita nela.

e estamos atravessando essa distância com uma facilidade assustadora.

talvez porque desumanizar seja confortável.

se o outro é burro, mau ou irrecuperável, você não precisa ouvi-lo. não precisa responder às perguntas difíceis. não precisa examinar as contradições do seu próprio lado. não precisa admitir que talvez sua turma também tenha idiotas, oportunistas, hipócritas e gente perfeitamente disposta a defender hoje aquilo que condenava ontem.

tribos são muito boas em encontrar defeitos nas tribos vizinhas.

o espelho costuma ficar fora do orçamento.

todo mundo acredita que está pensando por conta própria.

milhões de pessoas repetindo exatamente as mesmas frases, os mesmos argumentos, os mesmos memes, os mesmos inimigos e as mesmas indignações, cada uma absolutamente convencida de sua independência intelectual.

é quase bonito.

talvez liberdade de pensamento seja hoje escolher qual pacote de opiniões prontas combina melhor com sua personalidade.

e seguimos.

mais conectados do que qualquer geração anterior e cada vez menos capazes de permanecer dez minutos numa conversa com alguém que discorda sem transformá-la numa competição.

talvez o problema não seja termos opiniões fortes. deveríamos ter. algumas coisas merecem posição clara.

o problema começa quando nossa opinião passa a valer mais do que nossa capacidade de enxergar uma pessoa na nossa frente.

porque política muda.

governos acabam.

líderes desaparecem.

partidos trocam discurso.

causas mudam de nome.

o escândalo que hoje parece definir o destino da civilização daqui a alguns anos provavelmente vai ocupar três linhas num livro que ninguém terminou de ler.

mas aquela pessoa que você decidiu odiar pode continuar sendo seu irmão.

seu pai.

sua filha.

seu amigo.

seu vizinho.

ou simplesmente outro sujeito tentando sobreviver ao mesmo mundo confuso que você.

talvez daqui a alguns anos a gente olhe para esse período e perceba o quanto ficou fácil convencer pessoas comuns a desprezarem outras pessoas comuns enquanto gente muito mais poderosa lucrava política, financeira ou socialmente com a briga.

seria uma ironia bonita.

se não fosse uma ironia tão antiga.

no fim, talvez não precisemos concordar mais.

talvez precisemos apenas recuperar uma habilidade bem menos glamourosa.

olhar para alguém do outro lado e lembrar que ainda existe alguém ali.

parece pouco.

mas chegamos a um ponto curioso da história em que continuar sendo humano virou uma posição bastante radical.

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2025

empatia

a gente está perdendo uma habilidade que durante muito tempo pareceu básica. conseguir olhar para alguém, discordar profundamente dessa pessoa e ainda assim tentar entender como ela chegou até ali.

empatia virou uma palavra bonita para colocar em apresentação de empresa, legenda de campanha e palestra sobre liderança. na vida real, porém, estamos ficando surpreendentemente ruins nela.

e talvez o problema tenha começado quando confundimos empatia com concordância.

entender alguém não significa absolver, apoiar ou mudar de lado. significa apenas fazer o esforço desconfortável de enxergar o mundo por alguns minutos usando informações, medos, experiências e referências que não são as suas.

parece simples. não é.

é muito mais fácil transformar a outra pessoa numa caricatura.

se alguém pensa diferente, deve ser burro. se vota diferente, deve ser mau. se compra uma coisa que você jamais compraria, foi manipulado. se acredita em algo que você considera absurdo, obviamente não estudou o suficiente. se tem uma vida que você não escolheria, deve estar vivendo errado.

é uma solução maravilhosa porque elimina qualquer necessidade de curiosidade.

você não precisa entender ninguém depois que decidiu que todo mundo que discorda de você tem algum defeito moral ou intelectual.

as redes sociais ajudaram bastante nessa transformação. não porque inventaram a falta de empatia. seres humanos já eram perfeitamente capazes de se odiar muito antes do wi-fi. o que elas fizeram foi criar um ambiente em que compreender alguém quase nunca dá tanto retorno quanto julgá-lo rapidamente.

“eu consigo entender por que essa pessoa pensa assim, embora discorde dela” é uma frase péssima para uma briga na internet.

“como alguém consegue pensar isso?” funciona muito melhor.

tem indignação. tem superioridade. tem torcida. tem comentário.

e existe uma pequena ironia nisso tudo. nunca tivemos tanto acesso à vida dos outros e talvez nunca tenhamos sido tão rápidos em simplificá-los.

vemos onde a pessoa mora, o que come, o que pensa, onde viaja, o que compra, em quem vota, como cria os filhos e qual série assiste. recebemos uma quantidade absurda de informação sobre desconhecidos e usamos tudo isso para decidir, em aproximadamente sete segundos, quem eles são.

criamos uma espécie de delivery de julgamento.

rápido, conveniente e sem necessidade de conhecer o restaurante.

o algoritmo também percebeu uma coisa que provavelmente gostaríamos de não admitir. conflito é um produto excelente. duas pessoas tentando sinceramente compreender uma à outra produzem uma conversa. duas pessoas convencidas de que a outra representa tudo que existe de errado no mundo produzem audiência.

então fomos treinando uma habilidade estranha.

aprendemos a identificar posições antes de conhecer pessoas.

você fala uma frase e alguém já sabe em qual gaveta colocar você. dali em diante, não está mais ouvindo o que você diz. está respondendo ao personagem que construiu na cabeça.

e isso não acontece apenas com política, religião ou aqueles assuntos que tradicionalmente transformam o almoço de família numa conferência diplomática improvisada.

acontece no trabalho.

o chefe acha que o funcionário não tem comprometimento. o funcionário acha que o chefe não tem humanidade. ninguém pergunta o que está acontecendo na vida do outro.

acontece entre gerações.

uma olha para a outra e vê preguiça. a outra olha de volta e vê gente ultrapassada. ambas têm explicações sofisticadas para pessoas com quem quase nunca sentaram para conversar.

acontece com dinheiro.

quem tem pouco imagina que quem tem muito perdeu contato com a realidade. quem tem muito frequentemente acredita que quem tem pouco simplesmente tomou decisões ruins. duas biografias inteiras reduzidas a uma conclusão conveniente.

acontece até dentro de casa.

às vezes conhecemos alguém há vinte anos e ainda preferimos interpretar uma atitude pela nossa lógica em vez de perguntar pela lógica dela.

talvez porque empatia dê trabalho.

ela exige uma coisa que nossa época não gosta muito de oferecer. tempo antes da conclusão.

você precisa ouvir uma história até o final. fazer uma pergunta cuja resposta talvez incomode. admitir que alguém pode ter razões compreensíveis para chegar a uma conclusão que você considera completamente errada.

pior ainda, às vezes você descobre que aquela pessoa que tinha tanta certeza de ser idiota tem um argumento razoável.

é péssimo para o ego.

por isso tenho pensado que empatia talvez seja menos uma virtude sentimental e mais uma forma de inteligência.

é conseguir perceber que bilhões de pessoas estão vivendo histórias das quais você conhece meia dúzia de linhas.

todo mundo carrega contexto.

a pessoa grosseira no aeroporto pode simplesmente ser grosseira. também pode estar voltando de um funeral.

o funcionário aparentemente desinteressado pode ser preguiçoso. também pode ter passado a noite cuidando do filho doente.

o sujeito que tomou uma decisão financeira que parece absurda para você talvez tenha crescido num ambiente em que segurança significava algo completamente diferente.

você não sabe.

e essa frase anda fazendo falta.

“eu não sei.”

não significa que precisamos aceitar qualquer comportamento. existem pessoas ruins. existem canalhas. existem ideias indefensáveis. existem atitudes que precisam ter consequência. empatia não exige que você transforme ausência de limite em virtude.

só exige que você resista à tentação infantil de acreditar que compreendeu completamente um ser humano porque viu um post, uma frase, um voto, uma roupa, um erro ou quinze segundos de vídeo.

talvez tenhamos ficado tão bons em construir nossa identidade que qualquer tentativa de entender o outro começou a parecer uma ameaça à nossa própria.

se eu compreender seu argumento, alguém pode achar que concordo com você.

se reconhecer que você tem um ponto, minha turma pode desconfiar de mim.

se admitir que a realidade é complicada, perco aquela sensação maravilhosa de estar absolutamente certo.

então escolhemos a certeza.

ela é mais confortável.

e muito mais solitária.

porque uma sociedade sem empatia não vira necessariamente uma sociedade cheia de ódio. antes disso, vira algo talvez mais banal e triste.

vira um lugar onde todo mundo fala e quase ninguém está realmente interessado na resposta.

onde conversamos para vencer.

ouvimos para encontrar a falha.

perguntamos para preparar a réplica.

e chamamos isso de diálogo.

talvez a habilidade perdida não seja exatamente sentir a dor do outro. isso ainda fazemos quando o outro se parece conosco, pensa como nós e pertence à nossa turma.

o teste interessante começa quando ele não pertence.

empatia fácil nunca foi grande coisa.

difícil é olhar para alguém que você jamais seria, que fez escolhas que você não faria e que acredita em coisas que você rejeita, e ainda manter curiosidade suficiente para perguntar como aquela pessoa chegou ali.

não para concordar.

só para entender.

parece pouco.

ultimamente, parece quase revolucionário.

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2025

não existe publi grátis

a creator economy precisa parar de fingir

vamos começar eliminando uma das palavras mais convenientes já inventadas pelo marketing contemporâneo… parceria. quase tudo virou parceria porque chamar as coisas pelo nome criaria perguntas desagradáveis cedo demais. se uma empresa envia um produto e espera postagem, vídeo, story, marcação, opinião, alcance, link, cupom ou venda, aquilo não é exatamente um presente. presente é o que sua mãe entrega no aniversário sem mandar briefing três dias depois perguntando se você consegue deixar a experiência “mais orgânica”. existe uma troca comercial acontecendo ali, ainda que alguém tenha colocado papel de seda, adesivo personalizado e um bilhete escrito “preparamos esse mimo com carinho”. a creator economy conseguiu pegar uma relação comercial perfeitamente normal e cercá-la de um vocabulário infantilizado para que ninguém precise dizer trabalho, publicidade, remuneração, venda e dinheiro. produto virou gifting, publicidade virou collab, comissão virou oportunidade, trabalho gratuito virou relacionamento e vendedor virou creator. talvez a maior inovação desse mercado não tenha sido tecnológica. tenha sido linguística.

o mais fascinante é que todo mundo sabe quanto vale aquilo que está sendo comprado até chegar o momento de pagar. numa apresentação para o conselho, creators são fundamentais para construir confiança, gerar conversa, humanizar a marca, alcançar novas comunidades, produzir conteúdo relevante e influenciar decisões de compra. são praticamente a descoberta do fogo. quinze minutos depois, no e-mail enviado ao creator, “infelizmente não temos budget, mas podemos enviar um kit completo da nova coleção”. existe alguma coisa admirável nessa capacidade corporativa de acreditar simultaneamente que uma pessoa é estratégica o suficiente para influenciar milhares de consumidores e irrelevante o suficiente para trabalhar por uma mochila. durante décadas, marcas pagaram agência pela ideia, produtora pela execução, fotógrafo pela imagem, modelo pelo rosto, veículo pela distribuição e vendedor pela venda. ninguém chegava à emissora com duas caixas de shampoo perguntando se aquilo cobria trinta segundos no horário nobre. então apareceu uma pessoa capaz de criar, apresentar, produzir, editar, distribuir, conversar com a audiência e ainda vender, e alguém no mercado teve a epifania financeira de tentar conseguir tudo isso pelo custo industrial de um produto.

mas antes que creators compartilhem este texto com um “finalmente alguém falou”, convém estragar um pouco a festa. vocês ajudaram bastante. durante anos, parte desse mercado transformou receber produto em certificado público de sucesso. caixa chegando em casa virou conteúdo. press kit virou troféu. convite para evento virou prova de relevância. viagem paga virou sinal de que “cheguei lá”. uma empresa mandava três produtos e recebia espontaneamente quinze stories, unboxing, marcação, agradecimento e uma demonstração pública de afeto corporativo que uma agência provavelmente cobraria para produzir. as marcas observaram isso e aprenderam exatamente aquilo que qualquer comprador racional aprenderia… existe uma quantidade enorme de pessoas dispostas a trocar trabalho por proximidade com uma marca famosa. não é preciso criar uma teoria conspiratória sobre exploração quando o ego faz parte da negociação. se ter determinado logo no seu feed parece tão valioso para você que aceita trabalhar quase de graça, não deveria ser chocante descobrir que a empresa também percebeu.

essa talvez seja uma das verdades mais incômodas da creator economy… creators reclamam que o mercado barateou seu trabalho depois de passarem anos ensinando ao mercado todas as maneiras pelas quais poderiam ser pagos sem dinheiro. “recebidos” ajudaram. eventos ajudaram. viagens ajudaram. reposts ajudaram. a promessa vaga de futuras oportunidades ajudou. a frase “essa marca vai ficar ótima no meu portfólio” ajudou muito. empresa nenhuma possui obrigação moral de interromper uma negociação e dizer “desculpe, você está cobrando pouco demais, permita-me aumentar sua remuneração”. marcas compram tentando maximizar retorno e reduzir custo. creators deveriam vender tentando maximizar valor e proteger margem. chama-se mercado. o que não funciona é aceitar produto hoje porque o logo é bonito e escrever daqui a seis meses que ninguém respeita a profissão. às vezes o mercado não está desvalorizando você. está simplesmente pagando o preço que você repetidamente demonstrou estar disposto a aceitar.

a situação ficou ainda mais interessante quando alguém percebeu que creators não precisavam apenas influenciar. podiam vender. foi aí que a palavra afiliado deixou de parecer uma ferramenta comercial e começou, em alguns casos, a funcionar como uma espécie de terceirização extraordinariamente eficiente do risco. o creator compra equipamento, pensa pauta, grava, edita, publica, entrega audiência, empresta reputação, explica produto, coloca link, oferece cupom e responde perguntas. se vender, recebe uma porcentagem. se não vender, descobrimos retroativamente que todo o trabalho anterior era uma atividade recreativa. não há absolutamente nada de errado com comissão. vendedores vivem de variável, afiliados podem ganhar muito dinheiro e existem creators para quem performance é exatamente o negócio. o problema é fingir que comissão pela venda remunera automaticamente produção, mídia, imagem, distribuição e risco reputacional. em muitos casos, o creator virou vendedor, veículo, produtora e apresentador ao mesmo tempo, mas a remuneração foi organizada como se apenas uma dessas funções existisse. é uma economia impressionante, principalmente para quem está economizando.

e existe uma crueldade elegante nesse modelo porque a responsabilidade pelo resultado também começa a escorrer para o creator. se a campanha vende, a estratégia da marca foi excelente. se não vende, “o creator não converteu”. raramente a frase seguinte é “talvez nosso produto não seja tão interessante quanto imaginamos”. também não costuma ser “talvez nosso preço esteja errado”, “talvez nosso site converta mal”, “talvez o frete seja absurdo”, “talvez tenhamos escolhido a audiência errada” ou “talvez o briefing escrito por onze pessoas tenha transformado um ser humano interessante num panfleto falante”. é muito mais limpo olhar para uma coluna do dashboard e concluir que aquele creator não performou. o marketing passou décadas tentando atribuir vendas corretamente e talvez tenha encontrado finalmente a solução perfeita… colocar um link na mão de alguém e, se nada acontecer, culpar o link com rosto.

só que creators também fazem uma ginástica intelectual bastante conveniente quando números deixam de favorecê-los. para vender o media kit, audiência é influência. seguidores são comunidade. comentários são conexão. views são prova de relevância. “quando eu indico, minha audiência compra” é uma frase particularmente útil numa negociação. mas, quando a campanha não vende, subitamente descobrimos que influência é algo complexo, construção de marca leva tempo e não podemos reduzir tudo a conversão. tudo isso pode ser verdade, claro. o problema é escolher a definição de influência de acordo com a página da apresentação em que estamos. não dá para ser mídia quando quer cobrar alcance, vendedor quando quer comissão, artista quando quer liberdade, comunidade quando quer justificar engajamento e filósofo quando alguém pergunta quanto vendeu. se creator quer ser tratado como negócio, precisa fazer a coisa desagradável que negócios fazem… decidir com alguma clareza qual valor entrega e parar de vender todos os valores possíveis dependendo de qual deles produz o cachê maior naquela terça-feira.

e é aqui que aparece uma questão ainda mais desconfortável, porque influência não termina quando o pix cai. existe responsabilidade. não precisa transformar isso numa aula de direito nem sair recitando artigo de código no meio de um reel, mas também não dá para sustentar a fantasia de que publicidade digital vive numa espécie de principado independente onde tudo é apenas “minha opinião”. publicidade tem regras, relações comerciais precisam ser transparentes, alegações não podem simplesmente ser inventadas porque ficam boas no roteiro e há situações em que a participação de quem promove um produto pode gerar discussão jurídica séria sobre responsabilidade, dependendo de como aquela relação aconteceu e do dano envolvido. o ponto importante para esse debate não é decorar artigo. é perceber a ironia… quando chega o briefing, tratam o creator como mídia… quando chega o link, tratam como vendedor… quando aparece risco jurídico, lembram que existe responsabilidade profissional… mas, quando chega o orçamento, às vezes ele volta magicamente a ser uma pessoa que deveria ficar feliz porque ganhou um tênis.

e creators também precisam parar de usar ingenuidade seletiva como estratégia. se você cobra porque sua palavra tem capacidade de influenciar comportamento, não pode fingir que essa capacidade desaparece quando alguma coisa dá errado. você não precisa ser automaticamente responsável por tudo que uma empresa faz simplesmente porque apareceu numa campanha, mas existe uma responsabilidade muito anterior ao tribunal, e ela se chama reputação. se alguém compra porque você disse que confiava, sua confiança participou daquela transação. foi exatamente isso que a marca quis comprar. ela não estava pagando apenas pelos vinte segundos de vídeo, pelo enquadramento bonito ou pela quantidade de seguidores. se quisesse somente impressão, compraria mídia programática. ela procurou você porque existe um ser humano entre ela e o consumidor, e esse ser humano acumulou credibilidade ao longo do tempo. creator vende credibilidade emprestada. estranhamente, essa é a coisa mais valiosa do negócio e a que menos aparece nas negociações.

essa relação entre dinheiro, recomendação e aparência de espontaneidade também é muito menos nova do que a creator economy gosta de imaginar. décadas antes de alguém dizer “link na bio”, a indústria musical já conhecia o poder de fazer promoção parecer preferência. o velho problema do payola nunca foi simplesmente alguém pagar para divulgar alguma coisa. publicidade paga existe desde sempre e ninguém precisa desmaiar por causa disso. o problema interessante era a fronteira entre aquilo que parecia escolha espontânea e aquilo que estava sendo impulsionado por interesse comercial. ontem a pergunta era se aquela música estava tocando porque alguém realmente acreditava nela ou porque havia uma relação econômica por trás. hoje trocamos o rádio por uma câmera frontal, mas a pergunta continua maravilhosamente incômoda..  você recomendaria esse produto se ninguém estivesse pagando?

essa pergunta deveria estar impressa na parede de toda agência, departamento de marketing e escritório de creator. não porque a resposta precise sempre ser sim. publicidade pode perfeitamente ser publicidade. um ator não precisa usar pessoalmente o carro que anuncia para fazer um comercial legítimo. o problema começa quando vendemos publicidade como testemunho íntimo. quando alguém olha para a câmera e diz “vocês sabem que eu só mostro aqui coisas que realmente uso”, aquilo não é mais apenas espaço publicitário. é credibilidade sendo colocada como garantia. e existe algo deliciosamente absurdo em assistir à mesma pessoa descobrir toda semana um novo produto “que mudou completamente minha rotina”. deve ser uma vida exaustiva. segunda-feira um aplicativo muda tudo. quarta-feira é um suplemento. sexta-feira um colchão redefine o sono. no mês seguinte aparece o concorrente e, por alguma coincidência cósmica, também é incrível.

marcas, por outro lado, precisam abandonar a pornografia corporativa da autenticidade. boa parte delas não quer autenticidade. quer autenticidade domesticada, juridicamente aprovada e entregue dentro do prazo. procura um creator porque gosta de sua voz e depois envia seis páginas explicando exatamente o que essa voz pode dizer. pede conteúdo “natural”, mas exige que o produto apareça nos primeiros segundos. pede opinião sincera, mas precisa aprovar a opinião antes. pede espontaneidade, mas manda mensagens obrigatórias. pede conexão, mas retira qualquer frase que pareça realmente humana porque alguém pode interpretar errado. no fim, o creator parece um comercial tradicional filmado verticalmente, e começa a reunião pós-campanha em que alguém pergunta por que “faltou autenticidade”. faltou porque vocês removeram. estava lá na primeira versão. morreu no terceiro round de feedback.

a grande ironia é que creators só se tornaram tão valiosos porque as pessoas começaram a desenvolver resistência à linguagem das marcas. ninguém queria mais ouvir uma empresa dizendo que seu novo detergente representava uma jornada de transformação. as pessoas queriam ouvir pessoas. então marcas encontraram pessoas que sabiam conversar, pagaram para entrar naquela conversa e lentamente começaram a ensiná-las a falar exatamente como marcas. agora gastam fortunas procurando “vozes autênticas” porque muitas das vozes autênticas que encontraram cinco anos atrás já parecem departamentos de marketing com pele. é uma realização extraordinária. conseguimos pegar o antídoto para publicidade artificial e transformá-lo novamente em publicidade artificial, só que com ring light.

também precisamos falar sobre a obscenidade chamada “exposição”. exposição continua sendo oferecida como remuneração com uma confiança que deveria ser estudada por economistas. aparentemente é um ativo valiosíssimo que, por alguma estranha falha no sistema financeiro mundial, ainda não é aceito pelo proprietário do apartamento, supermercado, escola, operadora de celular ou receita federal. se uma marca acredita genuinamente que a exposição que oferece vale tanto, existe uma solução simples… ela pode ficar com toda a exposição e entregar ao creator o dinheiro. curiosamente essa alternativa quase nunca desperta entusiasmo. e o mesmo vale para produto. se um produto de 500 reais é considerado pagamento adequado por uma entrega profissional, tente pagar a agência, a produtora ou o diretor de marketing com duas unidades dele. normalmente a filosofia do escambo termina perto do departamento financeiro.

isso não significa que receber produto seja sempre ruim, nem que afiliado seja exploração, nem que toda campanha precise envolver um caminhão de dinheiro. existem creators começando que conscientemente preferem produto, existem produtos que realmente têm valor para aquela pessoa, existem relações de afiliado extremamente lucrativas e existem campanhas pequenas em que uma troca faz perfeito sentido. adultos podem negociar aquilo que quiserem. o problema não é a existência desses modelos. é transformá-los em expectativa padrão e depois chamar isso de profissionalização do mercado. escolha é diferente de norma. um creator decidir que determinada troca vale a pena é negócio. uma indústria bilionária presumir que trabalho criativo deve começar gratuito até provar que gera receita é outra conversa.

do mesmo modo, creator nenhum merece cachê simplesmente porque conseguiu acumular seguidores. existe muito creator cobrando como veículo premium e entregando como panfleto de semáforo. audiência inflada, engajamento artificial, métricas escolhidas a dedo, cases sem contexto, promessas de conversão baseadas em absolutamente nada além de autoconfiança e um pdf bonito. tem gente exigindo pagamento profissional sem comportamento profissional, liberdade criativa absoluta sem responsabilidade pela entrega e cachê de mídia enquanto se recusa a fornecer qualquer evidência de que aquela mídia funciona. se creators querem que marcas parem de tratá-los como adolescentes felizes por receber um tênis, precisam parar de negociar como adolescentes impressionados por um logo famoso. profissionalização não é simplesmente cobrar mais. é saber o que está vendendo, quanto custa, quais direitos estão incluídos, qual resultado pode razoavelmente prometer e quais responsabilidades está assumindo quando coloca a própria cara diante de uma recomendação.

talvez seja por isso que a discussão “quanto vale um post?” sempre tenha sido meio idiota. um post não vale nada isoladamente. o que vale é aquilo que está sendo comprado junto com ele. produção tem valor. audiência tem valor. direito de imagem tem valor. direito de uso tem valor. exclusividade tem valor. capacidade de vender tem valor. reputação tem valor. confiança tem valor. se uma marca quer conteúdo, deveria pagar conteúdo. se quer mídia, deveria pagar mídia. se quer performance, deveria construir remuneração de performance. se quer exclusividade, deveria pagar pelo dinheiro que o creator deixará de ganhar com concorrentes. se quer reutilizar aquele rosto e aquela voz durante meses em anúncios, isso não deveria aparecer como uma pequena linha escondida no contrato depois de “1 reel + 3 stories”. e, se quer tudo junto, talvez seja hora de parar de falar em collab e chamar alguém do financeiro.

o mesmo vale para o creator. se você não quer trabalhar por produto, não trabalhe. se a comissão não faz sentido, não aceite. se o briefing transforma você numa versão pior de um comercial de televisão, diga não. se a marca não combina com sua audiência, recuse. se o dinheiro oferecido não compensa o risco de colocar sua reputação naquela recomendação, deixe o dinheiro na mesa. parece uma ideia radical porque a creator economy criou uma geração inteira obcecada em conseguir oportunidades e muito menos treinada em recusá-las. mas poder de negociação não nasce do número de seguidores no topo do media kit. nasce da capacidade de sobreviver a um não. enquanto uma marca souber que existem cinquenta pessoas desesperadas para colocar seu logo no feed, continuará negociando como alguém que sabe disso.

no fundo, marcas e creators estão presos numa relação muito mais íntima do que gostam de admitir. marcas reclamam que creators estão caros enquanto continuam dizendo que creators são estratégicos. creators reclamam que marcas pagam pouco enquanto continuam aceitando porque a marca é famosa. marcas reclamam que creators perderam autenticidade enquanto entregam roteiros que eliminam qualquer possibilidade de autenticidade. creators reclamam de controle enquanto aceitam o dinheiro e publicam. marcas dizem que querem comunidade, mas medem apenas conversão. creators dizem que possuem comunidade, mas apresentam apenas alcance. um lado acusa o outro exatamente dos comportamentos que continua financiando. não é uma guerra. é codependência com dashboard.

e talvez seja isso que mais me incomode nessa conversa. todo mundo fala sobre confiança como se fosse um recurso infinito. não é. confiança é provavelmente o único ativo realmente escasso dessa economia. plataforma muda. algoritmo muda. formato muda. seguidores vêm e vão. uma conta pode desaparecer amanhã. mas, enquanto algumas pessoas acreditarem que você não está tentando transformá-las em caixa registradora toda vez que liga a câmera, existe influência. o problema é que confiança demora anos para acumular e pode ser liquidada aos poucos sem ninguém perceber. cada recomendação absurda retira um pouco. cada produto que “mudou sua vida” retira um pouco. cada concorrente igualmente maravilhoso três meses depois retira um pouco. cada opinião escrita pelo briefing retira um pouco. até chegar o dia em que os números continuam ótimos, os vídeos continuam tendo views, os comentários continuam aparecendo, mas ninguém compra porque ninguém acredita mais. você ainda tem audiência. só não tem mais influência. curiosamente, esse gráfico raramente aparece no relatório.

a creator economy começou porque pessoas confiavam mais em pessoas do que em marcas. depois as marcas compraram acesso a essas pessoas. algumas pessoas descobriram que confiança podia virar dinheiro. plataformas transformaram confiança em inventário. afiliados transformaram confiança em canal de vendas. agências transformaram confiança em estratégia. dashboards transformaram confiança em métrica. e agora todo mundo está tentando descobrir por que confiança está ficando tão difícil de encontrar. talvez não seja exatamente um mistério. talvez tenhamos apenas feito aquilo que mercados fazem quando encontram um recurso valioso: extraímos até começar a faltar.

então não, marcas não são as vilãs e creators não são as vítimas. essa versão é infantil demais para um mercado que movimenta tanto dinheiro. marcas querem comprar mais pagando menos. creators querem ganhar mais entregando menos. agências querem margem. plataformas querem atenção. afiliados querem conversão. tudo absolutamente normal. o que precisa acabar é o teatro moral em volta disso. se você está vendendo, assuma que está vendendo. se está comprando influência, pague influência. se está recomendando algo porque existe dinheiro envolvido, deixe isso claro. se está colocando sua reputação em um produto, saiba que reputação vem com responsabilidade. se quer o trabalho de alguém, não chame uma caixa de presente de remuneração revolucionária. e, se você aceita trabalhar por uma caixa porque quer desesperadamente aquele logo no feed, tenha pelo menos a elegância de admitir que fez uma escolha comercial ruim em vez de descobrir seis meses depois que o capitalismo existe.

talvez seja hora de aposentar a pergunta “quanto uma marca deveria pagar por um post?”. ela é pequena demais para aquilo que está acontecendo. a pergunta mais interessante é quanto deveria custar para alguém olhar para milhares de pessoas que passaram anos confiando nele e dizer “eu recomendo isso”. porque essa frase contém muito mais do que conteúdo. contém reputação, influência, risco, responsabilidade e a possibilidade concreta de alguém gastar dinheiro porque acreditou em você. se uma marca acha que tudo isso vale um kit de lançamento, ela não entendeu o que está comprando. se um creator acha que tudo isso vale qualquer pix que aparecer, ele não entendeu o que está vendendo.

e talvez essa seja a única coisa em que marcas e creators realmente estejam de acordo… os dois passam o dia dizendo que confiança não tem preço enquanto tentam descobrir exatamente o menor preço pelo qual conseguem negociá-la.

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2025

eu decidi correr outra ultramaratona

escrever essa frase já produz uma sensação curiosa porque, ao contrário da primeira vez, agora eu não posso alegar desconhecimento. da primeira vez havia inocência. curiosidade. aquela estupidez útil que acompanha quase todas as decisões interessantes da vida. você olha para uma ultramaratona e pensa que deve ser difícil, claro, mas “difícil” é uma palavra extremamente elegante quando você ainda está sentado tomando café. difícil parece nobre. difícil parece desafio. difícil fica maravilhoso numa legenda. o problema é que eu já descobri o que “difícil” significa depois de horas correndo, quando seu corpo começa a enviar memorandos bastante objetivos sugerindo que talvez aquela atividade não seja necessária para a continuidade da espécie. eu conheço essa parte. conheço o cansaço, conheço a dor, conheço aquela negociação ridícula consigo mesmo em que você promete coisas que não tem autoridade nenhuma para conceder. e mesmo assim, em algum momento perfeitamente tranquilo da minha vida, sem ninguém me perseguindo e com meios de transporte modernos disponíveis, pensei que seria uma ótima ideia fazer tudo de novo.

isso muda bastante a natureza da decisão. fazer uma ultramaratona uma vez pode ser curiosidade. pode ser coragem. pode ser crise. pode ser uma sequência infeliz de decisões depois de comprar um tênis caro. fazer outra sabendo exatamente o que vem pela frente é mais difícil de defender. agora existe dolo. premeditação. eu não tropecei numa ultramaratona. não fui enganado por uma propaganda. ninguém apareceu na minha casa dizendo que minha família seria libertada se eu percorresse uma distância absurda usando shorts. fui eu. eu tive a ideia. analisei. considerei as consequências. e concluí que sim, aparentemente minha vida estava confortável demais.

e talvez seja justamente isso.

conforto é uma coisa maravilhosa. eu recomendo. cama boa, comida boa, ar-condicionado, carro, elevador, sofá, controle remoto, entrega em casa. a humanidade passou milhares de anos tentando diminuir a quantidade de sofrimento necessária para sobreviver e conseguiu resultados extraordinários. aí aparece um grupo de pessoas com relógios caros no pulso e decide voluntariamente correr distâncias que fariam nossos ancestrais perguntar onde exatamente está o predador. existe alguma coisa profundamente idiota nisso. e justamente por isso talvez exista alguma coisa profundamente humana também.

não quero transformar isso numa história sobre vencer limites. tenho certa alergia a essa expressão. “superar limites” virou uma daquelas frases que servem para tudo e, portanto, já não significam quase nada. você supera limites numa ultramaratona, numa reunião de vendas, numa terça-feira motivacional do linkedin e provavelmente comprando um curso parcelado em doze vezes. não é isso que me interessa. eu também não estou voltando porque preciso provar que sou capaz. essa talvez fosse uma justificativa razoável da primeira vez. agora eu já sei que consigo. o problema é exatamente esse. saber que você conseguiu uma vez não responde se ainda existe dentro de você aquela pessoa que conseguiu.

porque uma coisa desagradável acontece com o tempo. a gente começa a proteger demais a versão atual de nós mesmos. organiza a agenda, reduz riscos, conhece as próprias preferências, evita desconfortos desnecessários e chama isso de maturidade. muitas vezes é. outras vezes talvez seja apenas uma maneira socialmente aceitável de dizer que ficamos muito bons em não fazer nada que possa nos colocar em dúvida novamente. e eu tenho uma desconfiança crescente de qualquer vida em que tudo começa a ficar previsível demais. não porque sofrimento seja bonito. sofrimento gratuito é apenas sofrimento, e normalmente vem acompanhado de uma conta médica. mas existe uma diferença entre sofrer porque a vida decidiu e escolher deliberadamente alguma coisa difícil porque você quer descobrir o que acontece quando as desculpas acabam.

uma ultramaratona é particularmente eficiente nisso porque ela não se impressiona muito com quem você acha que é. currículo não ajuda. cargo não ajuda. seguidores não ajudam. dinheiro não negocia com o quilômetro seguinte. em algum momento, todas aquelas histórias que contamos sobre nós mesmos ficam meio inúteis. você não é executivo, criador, empreendedor, especialista, pai, chefe ou qualquer outro título que tenha aprendido a colocar depois do próprio nome. você é apenas um animal cansado tentando convencer duas pernas de que ainda existe uma razão razoável para continuar. é um processo bastante democrático.

e existe um momento em provas longas que eu acho fascinante. motivação acaba. aquela energia bonita do começo desaparece. a música perde efeito. frases inspiradoras começam a soar como aquilo que sempre foram, frases. você já não está construindo caráter, transformando sua vida ou inspirando ninguém. você está cansado. talvez irritado. provavelmente se perguntando por que não escolheu ciclismo, xadrez ou simplesmente brunch. e aí sobra uma coisa muito menos cinematográfica e muito mais interessante. continuar.

talvez seja isso que eu esteja procurando de novo.

não a medalha. medalhas de participação são objetos estranhos. durante algumas horas parecem representar a coisa mais importante do universo e depois passam vinte anos numa gaveta ao lado de cabos que você tem medo de jogar fora. eu nem sei aonde estão minhas medalhas de maratonas e ultras… também não é o tempo, a colocação ou qualquer fantasia heroica sobre cruzar uma linha de chegada. ninguém está esperando um épico. o mundo continuará funcionando normalmente enquanto eu estiver em algum lugar discutindo mentalmente com minhas panturrilhas.

o que me interessa é o caminho até lá. aquela longa sequência de manhãs em que você não está com vontade. os treinos que ninguém vê. a alimentação que precisa melhorar. o sono que deixa de ser negociável. a disciplina tediosa, repetitiva e completamente sem glamour que existe antes de qualquer coisa que depois pareça extraordinária. porque a parte mais engraçada de uma ultramaratona é que a prova recebe toda a atenção, mas ela é quase um detalhe. a decisão verdadeira acontece centenas de vezes antes, normalmente cedo demais, quando ninguém está olhando e seria infinitamente mais agradável continuar na cama.

e eu já consigo prever algumas conversas. “mas por quê?”

excelente pergunta.

não tenho uma resposta particularmente boa.

e talvez eu goste disso.

vivemos uma época em que tudo precisa ter propósito, estratégia, retorno, métrica, monetização e, se possível, um dashboard. até hobbies precisam virar projetos paralelos. você cozinha e daqui a pouco alguém pergunta se pensou em abrir um canal. corre e perguntam se vai produzir conteúdo. lê livros e aparentemente precisa publicar a lista. existe algo quase subversivo em fazer uma coisa enorme, difícil e inconveniente simplesmente porque você decidiu que quer fazê-la.

talvez eu esteja ficando maluco.

é uma hipótese bastante sólida.

mas existe uma diferença importante. da primeira vez eu era um maluco inocente. agora sou um maluco informado.

eu sei o que vai doer. sei o tempo que vai exigir. sei quantas manhãs vou acordar desejando profundamente ter escolhido outra obsessão. sei que em algum momento vou me perguntar por que diabos tomei essa decisão. e sei que provavelmente, quando estiver lá, cansado, destruído e prometendo solenemente que nunca mais farei isso, uma parte de mim estará exatamente onde queria estar.

porque talvez existam versões nossas que só aparecem quando o conforto termina.