saramago escreveu um livro em que uma epidemia deixa as pessoas cegas. não aquela cegueira cinematográfica, cheia de sombras e vultos misteriosos. não. uma cegueira branca, leitosa, como se alguém tivesse derramado luz demais dentro dos olhos.
e então ele fez o que os grandes escritores fazem quando estão particularmente decepcionados com a espécie humana. retirou uma única peça da engrenagem e ficou observando o que acontecia.
o resultado não foi bonito.
em pouco tempo, a civilização, essa senhora tão elegante em discursos oficiais, estava andando descalça sobre os próprios excrementos.
não foi preciso muito. um manicômio abandonado, algumas pessoas assustadas, soldados do lado de fora e comida insuficiente. logo apareceu alguém disposto a controlar a distribuição das refeições. depois vieram as exigências, as humilhações, a violência sexual.
o detalhe mais cruel é que os homens que tomaram o poder também eram cegos.
não precisavam enxergar para explorar os outros.
aparentemente, certas habilidades humanas dispensam a visão.
tenho pensado bastante nesse livro enquanto observo o brasil de 2026.
não porque ache que vivemos numa distopia literária. distopias costumam ter uma organização interna que a política brasileira dificilmente conseguiria reproduzir sem abrir uma comissão parlamentar para discutir quem ficaria responsável pelo apocalipse.
mas porque existe uma semelhança desconfortável entre a cegueira inventada por saramago e a relação que algumas pessoas desenvolveram com a realidade.
a diferença é que, no romance, ninguém pediu para ficar cego.
aqui, às vezes, parece que a cegueira vem com adesivo de campanha.
flávio bolsonaro participa de um debate. faz afirmações. algumas são contestadas por checagens de fatos. até aí, nada particularmente surpreendente. políticos dizendo coisas que não resistem a uma segunda olhada são uma tradição tão antiga que provavelmente já havia um assessor de imprensa tentando reinterpretar as últimas palavras de júlio césar.
o espetáculo começa depois.
quando alguém apresenta a checagem e recebe como resposta um categórico “ele não mentiu em nada”.
em nada.
é uma expressão maravilhosa.
não significa que a pessoa examinou cuidadosamente cada afirmação, comparou documentos, verificou gravações e chegou a uma conclusão fundamentada.
significa que a conversa acabou antes de começar.
o candidato foi declarado incapaz de mentir por aclamação popular. uma espécie de canonização administrativa, sem necessidade de milagre reconhecido pelo vaticano.
e, se aparecer uma gravação?
manipulação.
um documento?
perseguição.
uma reportagem?
armação.
uma investigação?
inimigos políticos.
é uma existência admiravelmente prática. a realidade inteira pode ser arquivada na pasta das coisas inconvenientes.
saramago precisou inventar uma epidemia para chegar a esse estado de coisas.
nós conseguimos com acesso à internet.
mas a parte mais perturbadora de ensaio sobre a cegueira não é a perda da visão. é o que acontece quando desaparece a vergonha.
no manicômio, um grupo de homens se apropria da comida. primeiro exige dinheiro e objetos de valor. depois passa a exigir os corpos das mulheres.
não há ali um grande discurso filosófico justificando a barbárie. há poder, necessidade e a descoberta de que os outros podem ser obrigados a aceitar o inaceitável.
é o tipo de cena que faz o leitor fechar o livro por alguns minutos e reconsiderar aquela conversa otimista sobre a bondade natural do ser humano.
e há outro detalhe. a degradação não acontece de uma vez.
ninguém acorda numa manhã e anuncia solenemente que, a partir de hoje, todos viverão como animais.
as coisas vão piorando aos poucos.
uma concessão aqui. uma explicação conveniente ali. uma indignidade tolerada porque, afinal, a situação é excepcional.
até que a exceção começa a exigir endereço fixo.
esse mecanismo me parece mais interessante do que qualquer discussão sobre quem venceu um debate.
porque a pergunta não é apenas por que alguém acredita numa afirmação falsa.
é por que continua acreditando depois de descobrir que ela é falsa.
e aqui entramos num território muito menos confortável.
há pessoas que não estão defendendo um político. estão defendendo o investimento emocional que fizeram nele.
anos de discussões familiares, amizades rompidas, vídeos compartilhados, certezas proclamadas com a confiança de um sujeito que jamais teve a desagradável experiência de desconfiar de si mesmo.
admitir que o candidato mentiu seria relativamente simples.
admitir que você passou anos defendendo alguém que mente já exige um tipo de coragem menos disponível no mercado.
então a mentira continua.
ganha uma explicação nova, um contexto novo, uma interpretação nova.
às vezes ganha até uma nova mentira para fazer companhia.
não é propriamente uma questão de falta de informação. é uma questão de custo psicológico.
a verdade chegou, mas a pessoa já gastou demais com a versão anterior.
saramago compreendia muito bem essa capacidade humana de transformar a própria miséria numa forma de normalidade.
a mulher do médico, única personagem que continua enxergando, não é uma heroína convencional. não atravessa o livro distribuindo frases inspiradoras sobre esperança. ela vê.
e ver, naquele mundo, é uma condenação.
ela vê a sujeira que os outros pisam. vê os corpos abandonados. vê a crueldade, o medo, a violência. vê também pequenos gestos de solidariedade, que talvez sejam a única coisa impedindo o livro de se tornar insuportável.
o que ela não pode fazer é alegar que não sabia.
esse é o privilégio miserável de quem enxerga.
e talvez seja justamente essa responsabilidade que tanta gente queira evitar.
porque, quando você admite ter visto, perde o direito de fingir surpresa.
quando admite que uma afirmação foi desmentida, precisa decidir se continuará repetindo-a.
quando admite que há perguntas legítimas sobre a trajetória de um político, precisa aceitar que elas não desaparecem só porque o sobrenome lhe parece familiar.
e perguntas, convenhamos, são um transtorno.
especialmente para quem prefere respostas prontas.
o romance tem uma cena particularmente reveladora quando os cegos chegam a uma igreja e encontram imagens religiosas com os olhos cobertos.
é uma imagem extraordinária. santos incapazes de ver. figuras feitas para inspirar fé agora partilhando a mesma escuridão dos fiéis.
pense na ironia.
até as imagens sagradas parecem ter desistido de olhar.
não sei se saramago imaginaria que, décadas depois, a política conseguiria produzir uma versão ainda mais conveniente desse fenômeno.
não precisamos vendar os olhos dos santos.
basta declarar que o santo jamais errou e tratar qualquer pessoa que apresente uma evidência contrária como inimiga da fé.
é um sistema fechado.
não há documento suficientemente claro, gravação suficientemente audível ou investigação suficientemente detalhada para atravessar uma crença que decidiu não admitir a possibilidade de estar errada.
e, nesse ponto, o político já nem precisa se defender muito.
seus seguidores fazem o serviço.
corrigem o que ele disse, reinterpretam o que ele fez, explicam o que ele quis dizer e, quando tudo falha, mudam de assunto com a agilidade de um garçom que acaba de descobrir um rato na cozinha.
o mais fascinante é que muitos fazem isso convencidos de estar defendendo a verdade.
saramago, que não tinha grande paciência para as ilusões confortáveis da humanidade, provavelmente reconheceria o cenário.
no fim do romance, as pessoas recuperam a visão.
mas não recebem nenhuma garantia de que aprenderam alguma coisa.
essa é a crueldade final.
a cegueira passa. a natureza humana permanece.
e talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer diante de cada mentira repetida com entusiasmo, de cada evidência descartada sem exame, de cada certeza que sobrevive intacta ao contato com os fatos.
não se essas pessoas conseguem enxergar.
mas o que fariam se, por um instante, enxergassem.
porque existe algo mais assustador do que um homem cego caminhando em direção ao abismo.
é um homem que vê o abismo, chama aquilo de estrada e ainda fica ofendido quando alguém sugere que talvez fosse prudente olhar por onde pisa.
saramago chamou seu livro de ensaio sobre a cegueira.
talvez, se tivesse conhecido a nossa época, acrescentasse um subtítulo.
manual de instruções para quem prefere não ser incomodado pelos fatos.
e venderia muito bem.
principalmente entre pessoas que jamais o leriam.








