
não aguento mais basta chega acabou.
acabou fingir que isso aqui é só “parte do jogo”. acabou tratar clickbait como se fosse uma chateação inofensiva, tipo mosquito. não é mosquito. é infestação. é cupim mental. é um negócio que vai comendo por dentro enquanto você acha que só perdeu dois minutos. dois minutos aqui, dois ali, quando vê você passou a vida inteira lendo nada com atenção total.
clickbait é aquele título que já chega ofegante, desesperado, implorando pra ser clicado. “isso mudou tudo”. tudo o quê, meu deus do céu? minha senha do wi-fi? meu destino espiritual? minha pressão arterial? e eu já sei que não mudou nada. sei antes de abrir. sei durante. sei depois. e mesmo assim eu abro. porque existe uma parte primitiva do meu cérebro que escuta “você não vai acreditar” e responde “duvida”.
é um truque velho, sujo e repetido. numerinho mágico no título. promessa vaga. suspense artificial. “o que aconteceu depois vai te chocar”. não vai. nunca choca. no máximo dá um leve suspiro nasal e aquele olhar pro nada pensando “era isso?”. era isso. sempre é isso. um texto inflado pra sustentar uma ideia anêmica, empurrada com colherzinha até o final pra justificar a própria existência.
e o mais perverso é o tom. aquele tom de quem sabe que está te enganando, mas faz com carinho. como quem diz “relaxa, é só um clique”. só um clique é o caralho. é atenção roubada. é foco sequestrado. é o hábito de treinar o cérebro pra correr atrás de migalha achando que é banquete.
e não, não é só pra gente desatenta, rasa, sem filtro. essa é a mentira confortável que a gente conta pra se sentir melhor. “isso não funciona comigo”. funciona sim. funciona comigo depois de um dia longo. funciona quando estou cansado demais pra pensar direito. funciona quando a curiosidade vence o orgulho. funciona porque foi feito pra funcionar. frio, calculado, testado em laboratório de gente exausta.
e eu fico até o final. não porque acredito. mas porque agora eu já investi tempo demais pra sair no meio. síndrome do relacionamento tóxico em forma de texto. já li três parágrafos, agora vou até o fim pra confirmar o que eu já sabia desde o começo… perdi meu tempo. de novo.
isso aqui não é um pedido de desculpa nem um apelo por pureza digital. é um manifesto meio torto, meio cansado, contra essa cultura de gritar mais alto pra dizer menos. contra a lógica de transformar curiosidade em armadilha e atenção em moeda barata. contra títulos que tratam o leitor como se fosse sempre um segundo antes de ser idiota completo.
amanhã eu provavelmente clico de novo. porque não sou herói, nem monge, nem exemplo. sou só alguém lúcido o suficiente pra admitir o vício e cansado o bastante pra chamá-lo pelo nome. clickbait é isso… não engana pela mentira. engana pela esperança. aquela esperança patética de que dessa vez vai ter algo ali.
não tem. nunca teve. mas dizer isso em voz alta, sem filtro e sem promessa nenhuma… já é alguma coisa. pequena. quase inútil. mas honesta. e hoje em dia, honestidade já é um ato de rebeldia.








