
o brasil passa o ano inteiro sendo testado. testado pela paciência, pela desigualdade obscena, pela política que parece escrita por roteirista bêbado. testado pelo calor, pelo trânsito, pela espera, pela promessa que nunca chega. e ainda assim… ainda assim… chega fevereiro e o país faz algo que beira o insolente, decide celebrar.
isso não é alienação. é desafio.
carnaval não é uma vitrine para estrangeiro fotografar exotismo. não é um pacote de cinco dias vendido com filtro saturado. carnaval é um acordo íntimo que um país faz consigo mesmo… “a gente continua”.
continua apesar da fadiga.
continua apesar da descrença ocasional.
continua apesar da tentação de endurecer.
e aqui está o ponto que pouca gente tem coragem de dizer, o brasil poderia ser um país cínico. tinha todos os motivos. mas escolheu ser intenso.
isso não é ingenuidade. é sofisticação emocional.
o sujeito que entra num bloco não está tentando esquecer a vida. ele está tentando lembrar que tem uma. a mulher que dança na praça do interior não está performando felicidade. ela está reivindicando presença. o cara que decide ficar na cidade vazia, caminhar por ruas silenciosas e ouvir samba baixo no fone, também está participando. porque carnaval não é obrigação de euforia. é direito de sentir, alto ou baixo.
é isso que arrepia.
é um país inteiro se permitindo sentir ao mesmo tempo.
num mundo que ensina a calcular cada passo, cada palavra, cada emoção, o brasil por alguns dias suspende o cálculo. não para fugir da realidade, mas para recalibrar a alma.
carnaval é recalibração coletiva.
é o momento em que o riso deixa de ser defesa e vira afirmação.
em que o corpo deixa de ser instrumento de trabalho e vira instrumento de alegria.
em que o tempo deixa de ser produtividade e vira experiência.
e não há nada de superficial nisso.
superficial é viver anestesiado.
superficial é atravessar o ano inteiro sem nunca se permitir intensidade.
superficial é confundir contenção com maturidade.
carnaval é maturidade emocional em estado bruto.
é o reconhecimento de que dor e alegria coexistem. de que responsabilidade e prazer não são inimigos. de que um povo pode encarar suas dificuldades de frente e ainda assim escolher cantar.
não é negar o peso. é provar que ele não define tudo.
é por isso que quem vive entende e quem observa tenta traduzir, mas nunca alcança completamente. porque carnaval não se entende com lógica. se entende com pele.
é um manifesto silencioso e ensurdecedor ao mesmo tempo…
nós ainda sentimos.
nós ainda celebramos.
nós ainda acreditamos que a vida merece ser vivida em voz alta.
e talvez o verdadeiro radicalismo do carnaval seja esse, lembrar que humanidade não é fraqueza.
é força.
carnaval é o brasil olhando para si mesmo, com todas as suas contradições, e dizendo…
“a gente não vai virar pedra.”
e num mundo que parece cada vez mais confortável com a frieza, essa escolha de continuar pulsando é quase revolucionária.
não é festa.
é permanência.
é resistência suave, mas inabalável.
é um povo que, ano após ano, decide continuar inteiro.








