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2025

ontem, por algum descuido, o mundo resolveu ser agradável

ontem saí à rua e vi pessoas sorrindo. não aqueles sorrisos de plástico que a humanidade aprendeu a fabricar para parecer feliz. eram sorrisos de quem havia recuperado alguma coisa. havia uma leveza quase indecente no ar, como se a cidade inteira tivesse finalmente soltado um suspiro que estava preso havia tempo demais.

lembrei de a day in the life, dos beatles. aquela genialidade de perceber que, no meio de todo o absurdo humano, a vida continua acontecendo. e, de vez em quando, surpreendentemente, ela é bonita pra cacete.

tomei meu café observando desconhecidos sorrirem uns para os outros. uma cena banal, diria algum idiota incapaz de reconhecer um milagre sem que ele venha acompanhado de efeitos especiais.

imagino que tanta felicidade tenha causado uma azia monumental em certas pessoas. paciência. o mundo já gastou tempo demais preocupado com o desconforto de quem não suporta a alegria alheia.

mas o que me emocionou não foram os sorrisos. foram os rostos. havia neles algo que nenhum dinheiro compra, nenhuma propaganda fabrica e nenhum discurso consegue imitar.

alívio.

e existe uma beleza brutal no alívio de quem, depois de tanto tempo, volta a respirar sem perceber.

ontem, por algumas horas, a vida não pareceu uma batalha.

pareceu vida.

e, meu deus, como isso fez bem.

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2025

ainda estamos vivos

hoje acordei e, pela primeira vez em muito tempo, não senti vontade de mandar a humanidade inteira para o inferno antes do café.

isso, vindo de mim, é praticamente uma declaração de amor.

lula venceu.

escrevo essas duas palavras devagar. como quem abre uma garrafa guardada há anos para uma ocasião que já começava a parecer improvável. como quem recebe a notícia de que um velho amigo sobreviveu a uma guerra. como quem descobre, depois de uma noite interminável, que ainda existe alguma coisa do lado de fora da escuridão.

lula venceu.

e há milhões de brasileiros que hoje acordaram com aquela expressão meio idiota de quem se apaixonou aos dezessete anos. gente que passou meses engolindo a própria angústia, discutindo com parentes, evitando grupos de whatsapp, ouvindo absurdos pronunciados com a solenidade de quem acaba de descobrir a verdade definitiva sobre a civilização ocidental.

gente que teve medo.

medo de perder direitos. medo de ver o país se acostumar com a violência política. medo de que o desprezo pelo outro deixasse de ser uma vergonha e passasse a ser uma credencial para ocupar cargos públicos.

e hoje essa gente sorriu.

alguns choraram.

outros abraçaram desconhecidos.

e eu gostaria de abraçar cada um deles, embora provavelmente acabasse pedindo desculpas pelo constrangimento e oferecendo um café.

porque existe uma beleza quase insuportável numa multidão que volta a respirar.

então, coloquei david bowie para tocar.

heroes.

em 1977, bowie estava em berlim, aquela cidade onde a humanidade havia conseguido transformar sua própria estupidez em monumento de concreto.

um muro.

imaginem a arrogância necessária para construir uma parede no meio da vida das pessoas e declarar que aquilo era uma solução política.

havia soldados, armas, torres de vigilância e homens muito sérios, certamente com diplomas e famílias respeitáveis, administrando a extraordinária tarefa de impedir que seres humanos atravessassem uma rua.

sempre houve homens muito sérios encarregados de coisas monstruosas.

essa talvez seja uma das lições mais desagradáveis da história.

o mal raramente precisa de uma gargalhada cinematográfica. costuma preferir uma mesa organizada, um carimbo, uma justificativa jurídica e alguém explicando que está apenas cumprindo ordens.

e naquele cenário bowie cantou sobre duas pessoas tentando encontrar um instante de liberdade.

duas pessoas.

um beijo.

um muro.

e uma voz que cresce até parecer que vai arrancar os tijolos com os dentes.

ouçam heroes hoje. ouçam alto. prestem atenção no momento em que bowie deixa de cantar com elegância e começa praticamente a gritar contra o mundo.

aquilo é a esperança perdendo a paciência.

e, meu deus, como eu precisava ouvir aquilo nesta manhã.

o fascismo sempre teve um talento extraordinário para se apresentar como solução.

oferece ordem aos assustados. grandeza aos humilhados. inimigos aos frustrados. uma explicação simples para todas as desgraças humanas, desde o desemprego até a decadência moral que algum sujeito de televisão acaba de descobrir entre dois anúncios de colchão.

é um negócio magnífico.

você pega uma sociedade complexa, escolhe um grupo para culpar e promete devolver a felicidade nacional assim que todos aprenderem a obedecer.

os figurinos mudam.

os métodos de propaganda evoluem.

os velhos discursos ganham cortes para redes sociais, legendas coloridas e uma trilha sonora que faria qualquer ditador do século passado morrer de inveja da tecnologia disponível.

a brutalidade agora chega com excelente qualidade de imagem.

e o mais impressionante é a quantidade de gente que continua confundindo crueldade com força.

um homem humilha alguém vulnerável e recebe aplausos pela coragem.

um político ameaça instituições e ganha admiradores pela autenticidade.

um governante transforma adversários em inimigos e seus seguidores chamam aquilo de amor à pátria.

é uma ginástica moral tão espetacular que deveria ser modalidade olímpica.

e foi contra esse ambiente político, contra essa familiaridade crescente com o autoritarismo, que tantos brasileiros foram às urnas ontem.

a vitória de lula carrega, para mim, o peso de tudo isso.

carrega o cansaço de quem viu a própria família se dividir. a tristeza de quem perdeu amigos para teorias delirantes. a indignação de quem ouviu elogios à ditadura como se estivéssemos falando de um período particularmente eficiente da administração pública.

carrega também a memória dos brasileiros que enfrentaram a repressão quando discordar podia custar a liberdade, o emprego, a família, a própria vida.

e é impossível pensar nessas pessoas sem sentir alguma coisa apertar no peito.

porque muitos dos que abriram caminho para a nossa democracia morreram antes de conhecer os dias que ajudaram a tornar possíveis.

nunca viram nossos debates eleitorais. nunca reclamaram de uma pesquisa de opinião. nunca tiveram o privilégio banal de votar, voltar para casa e esperar a apuração.

deram a própria vida para que desconhecidos, décadas depois, pudessem exercer um direito que hoje alguns tratam com o entusiasmo de quem precisa renovar o documento do carro.

há uma dívida humana imensa escondida dentro de uma urna.

e agora olhem para os estados unidos.

daqui a poucos dias, em 3 de novembro, os americanos irão votar nas eleições de meio de mandato.

as pesquisas nacionais mostram os democratas à frente na disputa pelo congresso. existe uma corrente de insatisfação com o governo trump atravessando o país, e a possibilidade de uma mudança importante no equilíbrio político americano já movimenta campanhas, ruas e conversas.

imagino pessoas em nova york, chicago, atlanta, phoenix. trabalhadores saindo cedo de casa. estudantes discutindo política em bares. mulheres organizando campanhas. famílias conversando sobre o futuro de seus filhos.

pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar de uma pequena cidade brasileira onde alguém também acordou hoje emocionado diante do resultado de uma eleição.

e, ainda assim, existe uma conversa acontecendo entre esses mundos.

uma conversa sem tradução necessária.

sobre medo.

sobre liberdade.

sobre o direito de continuar pertencendo ao próprio país mesmo quando o governante não gosta de você.

sobre a exaustão de viver numa época em que cada notícia parece exigir que escolhamos entre o desespero e a raiva.

a extrema direita internacional aprendeu a compartilhar estratégias, slogans, inimigos e fantasias de grandeza nacional. seus líderes se admiram, se imitam, se fotografam juntos e parecem competir para descobrir quem consegue pronunciar a palavra liberdade enquanto demonstra maior irritação diante da liberdade alheia.

é uma fraternidade curiosa.

todos prometem devolver seus países ao povo.

e todos parecem ter uma lista bastante específica de pessoas que prefeririam excluir dessa definição.

mas há outra coisa atravessando fronteiras.

a recusa.

aquela teimosia humana que aparece quando alguém decide que já ouviu ameaças suficientes para uma vida inteira.

aquela vontade de levantar, vestir uma camiseta, encontrar outras pessoas, enfrentar uma fila e participar de alguma coisa maior do que o próprio medo.

é nisso que penso quando olho para o brasil hoje e para os estados unidos às vésperas de novembro.

na possibilidade de uma geração inteira descobrir que o futuro ainda pode ser disputado.

sabe, eu conheço o cinismo.

somos velhos amigos.

ele esteve comigo em aeroportos, reuniões chatas, noites de insônia e manhãs em que bastava ler três manchetes para concluir que a evolução humana havia cometido algum erro.

o cinismo é confortável. oferece a sensação de inteligência sem exigir grandes riscos emocionais.

quem espera sempre o pior raramente se surpreende.

também raramente vive alguma coisa que preste.

e talvez seja por isso que hoje estou tão comovido.

porque alguma coisa em mim, que eu julgava definitivamente enterrada sob anos de notícias ruins e promessas políticas recicladas, resolveu aparecer.

a capacidade de acreditar.

não aquela fé infantil em homens providenciais, salvadores da pátria e outras criaturas mitológicas que costumam terminar seus dias cercadas de assessores e investigações.

falo da fé nas pessoas.

nas pessoas comuns.

na senhora que votou ontem pensando nos netos.

no rapaz que levou a mãe até a seção eleitoral.

na mulher que passou a semana inteira trabalhando e ainda encontrou disposição para conversar com os vizinhos sobre o país que gostaria de deixar aos filhos.

no cidadão que não aparece em fotografia nenhuma, não ganha entrevista, não tem seguidores, não sabe o que é engajamento e nunca será convidado para comentar o futuro da democracia numa mesa de televisão.

esse sujeito anônimo é a democracia.

não tem trilha sonora.

não tem frase de efeito.

às vezes chega atrasado, reclama do calor e esquece o número do candidato.

e carrega nas mãos um poder que reis, generais e tiranos passaram séculos tentando monopolizar.

isso deveria nos emocionar mais vezes.

bem, volto a bowie e sabe… há algo naquela música que sempre me destrói.

a voz começa contida, quase tímida, e vai ganhando uma urgência desesperada. parece alguém tentando convencer a si mesmo de que ainda existe uma saída. de que o amor pode sobreviver ao concreto. de que dois seres humanos podem desafiar, por um instante, toda a maquinaria de um mundo construído para separá-los.

e então a voz explode.

é impossível ouvir aquilo sem pensar nas pessoas que enfrentaram muros de verdade.

nas que foram perseguidas.

nas que desapareceram.

nas que morreram longe de casa.

nas que envelheceram esperando uma mudança que parecia nunca chegar.

imagino quantas vezes essas pessoas acordaram sem esperança.

quantas vezes pensaram em desistir.

quantas vezes tiveram de continuar simplesmente porque não havia alternativa moralmente suportável.

e penso que cada manhã de liberdade pertence um pouco a elas.

cada voto.

cada abraço numa praça.

cada lágrima derramada diante de um resultado eleitoral.

cada jovem que pode dizer o que pensa sem precisar olhar por cima do ombro.

há gente morta dentro dessas conquistas.

gente que jamais conheceremos.

gente que não recebeu estátua, nome de avenida ou homenagem oficial.

gente que simplesmente se recusou a aceitar que o mundo tivesse de continuar daquele jeito.

é por essas pessoas que hoje eu quero celebrar.

e é por elas que a música de bowie parece tão grande.

porque os heróis mais importantes raramente sabem que são heróis.

estão ocupados demais tentando sobreviver.

talvez estejamos vivendo um daqueles momentos em que a história abre uma fresta.

uma pequena abertura por onde entra ar.

o brasil acaba de atravessar uma eleição que mobilizou paixões, medos e esperanças profundas. os estados unidos se aproximam de outra votação decisiva para o equilíbrio de suas instituições. em diferentes países, milhões de pessoas discutem o futuro das democracias diante do crescimento de movimentos extremistas.

e eu sinto que existe alguma coisa poderosa nessa simultaneidade.

como se pessoas que nunca se encontraram estivessem, cada uma à sua maneira, tentando responder à mesma pergunta…

quanto da nossa humanidade estamos dispostos a entregar em troca da promessa de segurança?

é uma pergunta antiga.

e a história está cheia de respostas desastrosas.

hoje, porém, quero pensar nas respostas corajosas.

nas pessoas que se recusaram a denunciar um vizinho.

nos jornalistas que continuaram investigando.

nos professores que continuaram ensinando.

nos artistas que continuaram cantando.

nos cidadãos que continuaram votando.

há uma beleza imensa nessa insistência.

uma beleza que não cabe em discursos oficiais, slogans de campanha ou fotografias de políticos levantando os braços.

é a beleza de uma espécie profundamente defeituosa que, de vez em quando, encontra dentro de si uma grandeza inesperada.

e hoje eu vi um pouco dessa grandeza.

e o café acabou.

a música continua.

estou sentado aqui, pensando nos brasileiros que acordaram felizes, nos americanos que se preparam para votar, nos mortos que ajudaram a construir nossas liberdades e nos vivos que terão de carregá-las adiante.

e sinto uma vontade absurda de agradecer a pessoas que nunca conheci.

ao desconhecido que enfrentou uma ditadura.

à mulher que insistiu em votar mesmo depois de ouvir que sua voz não importava.

ao jovem que escolheu participar quando seria muito mais fácil desistir.

aos milhões de seres humanos que continuam acreditando que um país pertence a todos os que vivem nele.

hoje estou feliz por eles.

por nós.

pela possibilidade de que o mundo ainda guarde surpresas capazes de nos fazer chorar de alegria.

e, se isso arruinar definitivamente minha reputação de sujeito sarcástico e desconfiado, paciência.

já sobrevivi a humilhações piores.

vou colocar heroes mais uma vez.

vou aumentar o volume até incomodar os vizinhos.

vou tomar outro café.

e vou guardar esta manhã como quem guarda uma fotografia de alguém que ama.

porque houve um tempo em que eu pensei que jamais voltaria a sentir isso.

essa vontade de abraçar o mundo, apesar de conhecer muito bem os seus defeitos.

essa certeza momentânea de que ainda vale a pena.

essa esperança indecente, inconveniente, maravilhosa.

hoje a humanidade me fez chorar.

a desgraçada finalmente acertou alguma coisa.

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2025

quem lê tanta notícia? quem ainda tem coragem de olhar?

este é meu último texto antes da votação de hoje.

não sei quando vou escrever outro. talvez amanhã. talvez daqui a alguns dias. talvez eu precise de um tempo para descobrir o que fazer com o resultado, com o país e com essa coleção de sentimentos pouco apresentáveis que uma eleição brasileira consegue despertar.

acordei pensando num sujeito de 25 anos que, em 1967, teve a insolência de subir ao palco com guitarras elétricas e cantar sobre a vida enquanto o brasil era governado por militares.

caetano veloso.

alegria, alegria.

o país tinha generais, censores e uma quantidade impressionante de homens convencidos de que sabiam o que era melhor para todo mundo. caetano tinha uma guitarra, uma canção e o péssimo hábito de não pedir autorização para existir.

o curioso é que, naquela época, havia quem achasse a guitarra a parte mais perigosa da história.

em outubro de 1967, o brasil já estava havia três anos sob uma ditadura. direitos políticos tinham sido cassados, estudantes enfrentavam a repressão e um general ocupava a presidência sem precisar se submeter ao inconveniente de uma eleição popular.

e, no festival da record, havia gente preocupada com a invasão estrangeira representada por uma guitarra elétrica.

é uma imagem que merece ser apreciada com calma.

um país nas mãos de militares, e os patriotas ofendidos com os argentinos dos beat boys.

o problema não era o quartel dentro da política. era o rock dentro da música brasileira.

caetano entrou de paletó, gola rolê laranja e uma marchinha que parecia ter sido composta depois que alguém derrubou as páginas de um jornal sobre a mesa do café.

crimes. espaçonaves. guerrilhas. presidentes. bombas. brigitte bardot.

o planeta inteiro espremido numa caminhada.

não há uma sequência moralmente confortável. a bomba aparece perto da atriz. o presidente divide a paisagem com o beijo. a propaganda convive com a violência.

porque o horror não tem a educação de esperar que a felicidade termine.

em 1967, enquanto estudantes eram perseguidos, havia gente namorando. enquanto a polícia política produzia relatórios, alguém comprava um refrigerante. enquanto famílias começavam a descobrir o significado de ter um parente preso por motivos políticos, outras discutiam o preço da carne.

a ditadura não suspendeu o verão.

essa é uma das coisas que mais me perturbam quando alguém fala daqueles anos com saudade.

a memória costuma ser uma cozinheira desonesta. retira os ingredientes desagradáveis e apresenta o prato como se sempre tivesse sido delicioso.

havia ordem, dizem.

havia tranquilidade.

claro.

para quem?

para o sujeito que voltava para casa todas as noites?

para quem nunca precisou procurar um filho em delegacias?

para quem não sabia o que acontecia atrás de determinadas portas… ou sabia e preferia não perguntar?

o autoritarismo tem essa vantagem comercial, pode parecer um excelente produto para quem não está incluído na lista de defeitos.

e caetano continua andando.

contra o vento.

sem documentos.

não é preciso transformar cada palavra da música numa senha secreta contra os militares. isso seria reduzir uma canção extraordinária a um panfleto mediano.

o vento também vinha dos costumes, da moral, das patrulhas culturais e das expectativas de uma sociedade que queria saber exatamente onde cada jovem deveria ficar.

os generais tinham uma ideia de brasil.

parte da esquerda cultural tinha outra, frequentemente acompanhada de instruções sobre quais instrumentos um artista deveria tocar.

caetano parecia pouco interessado em receber ordens de qualquer um dos dois.

e então aparece a coca-cola.

um refrigerante americano no meio de uma canção brasileira, justamente quando o imperialismo cultural era assunto de discussões apaixonadas.

não era uma declaração de amor aos estados unidos. era o reconhecimento de que o mundo já havia entrado pela porta da frente enquanto muita gente continuava discutindo se deveria permitir sua entrada.

o brasil denunciava a influência americana e bebia coca-cola.

hoje denuncia a influência americana pelo iphone, publica o protesto no instagram e vai dormir assistindo a uma série produzida em los angeles.

a crítica ao imperialismo continua tendo fundamentos. a fantasia de pureza cultural é que sempre foi um pouco ridícula.

caetano não queria um brasil esterilizado.

queria mostrar o brasil que existia.

contraditório, sedutor, cafona, moderno, atrasado, violento, maravilhoso.

uma mistura que deixaria qualquer fiscal da identidade nacional com vontade de chamar a vigilância sanitária.

e há uma mulher pensando em casamento.

no meio de guerrilhas, bombas e presidentes, alguém quer casar.

acho isso de uma humanidade quase insuportável.

ela talvez queira uma casa, alguma segurança, um futuro que possa imaginar sem sentir medo.

ele quer continuar andando.

não sabemos se algum dos dois está certo.

e essa é a beleza.

a vida não interrompe seus pequenos desejos porque a história resolveu ficar monstruosa.

uma moça ainda quer casar.

um rapaz ainda quer beijar.

uma mãe ainda prepara o jantar.

e, em algum lugar, um homem pode estar sendo espancado por aquilo que pensa.

não é uma metáfora.

foi assim que o país viveu.

a parte da música que mais me persegue, porém, é aquela pergunta sobre a quantidade de notícias.

em 1967, o mundo entrava pelas bancas, pelo rádio e pela televisão. a guerra do vietnã, a corrida espacial, as guerrilhas latino-americanas, os presidentes, as estrelas de cinema.

hoje carregamos tudo isso no bolso.

a tragédia chega antes do café.

o escândalo aparece durante o almoço.

a mentira circula antes que alguém tenha tempo de conferir o fato.

e à noite, depois de consumir uma quantidade de informação que teria enlouquecido um editor de jornal de 1967, ainda encontramos energia para discutir com um desconhecido que usa a fotografia de um cachorro como identidade.

o mais espantoso não é o volume de notícias.

é o que fizemos com elas.

conseguimos transformar a realidade numa questão de preferência pessoal.

se o fato confirma minha opinião, é uma prova.

se contraria, é perseguição.

se a gravação favorece meu candidato, é definitiva.

se o compromete, alguém certamente a manipulou.

é uma forma extraordinária de investigação, primeiro se escolhe o inocente, depois se procura uma maneira de explicar por que as evidências estão erradas.

em 1967, o poder procurava impedir que determinadas informações circulassem.

hoje, mesmo com uma imprensa livre e uma democracia, muita gente consegue olhar diretamente para um fato e decidir que ele não merece existir.

não é a mesma situação histórica.

mas há algo deprimente em perceber que uma liberdade conquistada com tanto sofrimento pode ser desperdiçada com tamanha facilidade.

e então caetano dispensa livros e fuzis.

em 1967, isso não era uma imagem inocente.

a revolução cubana ainda incendiava a imaginação política. che guevara seria morto naquele outubro. o vietnã estava em guerra. no brasil, cresciam as discussões sobre como resistir aos militares.

caetano não estava dizendo que conhecimento era inútil ou que resistência era desnecessária.

estava se recusando a transformar a própria vida num uniforme ideológico.

não queria ser o soldado perfeito de uma causa.

queria ser um homem.

com dúvidas, desejos, contradições e uma vontade quase indecente de continuar caminhando.

é um tipo de liberdade que incomoda muita gente.

inclusive pessoas que passam o dia inteiro falando em liberdade.

porque há quem defenda a liberdade de expressão até o momento em que alguém expressa uma opinião inconveniente.

há quem defenda a família enquanto se dedica a regulamentar a intimidade da família dos outros.

e há quem se apresente como inimigo da censura, desde que possa decidir pessoalmente quais vozes merecem ser silenciadas.

a hipocrisia é uma das poucas instituições brasileiras que jamais enfrentaram uma crise de financiamento.

mas a história não teve a menor delicadeza com caetano.

em dezembro de 1968, depois do ai-5, ele e gilberto gil foram presos.

mais tarde, vieram o exílio e londres.

o rapaz que cantava sobre caminhar livremente descobriu que o estado brasileiro podia decidir até em que país ele teria permissão para morar.

e é aqui que alegria, alegria deixa de ser apenas uma canção bonita.

porque nós sabemos o que aquele jovem ainda não sabia.

sabemos que a repressão se aprofundaria.

que pessoas seriam torturadas.

que famílias passariam décadas procurando respostas.

que mães morreriam sem saber exatamente o que fizeram com seus filhos.

pensem nisso por um instante.

não nas grandes palavras. não nos discursos sobre democracia, soberania ou segurança nacional.

numa mãe.

numa cadeira vazia à mesa.

num prato que ninguém teve coragem de guardar.

numa pessoa que saiu de casa e nunca mais voltou.

a história do brasil também é feita dessas ausências.

e nenhuma delas aparece nas fotografias sorridentes dos homens que prometiam salvar a pátria.

talvez por isso eu não consiga tratar a votação de hoje como uma simples troca de administrador.

o país tem problemas enormes. há razões legítimas para estar decepcionado, irritado, cansado. ninguém precisa fingir entusiasmo por um governo para reconhecer a importância das instituições que permitem criticá-lo e substituí-lo.

mas também não dá para fingir que todos os projetos políticos enxergam essas instituições da mesma maneira.

o que está em discussão não é apenas quem ocupará a presidência.

é o tipo de relação que o poder terá com os limites impostos a ele.

com a imprensa.

com a justiça.

com quem discorda.

com a memória de um país que já experimentou o que acontece quando homens convencidos de sua missão histórica deixam de aceitar limites.

e aqui está a ironia que me tira o sono.

em 1967, caetano caminhava sem saber o que viria.

nós sabemos o que veio.

sabemos como começa a conversa sobre ordem. sabemos como a linguagem da salvação nacional pode ser usada para justificar abusos. sabemos quanto tempo um país pode levar para recuperar aquilo que perdeu.

não estamos condenados a repetir o passado.

mas também não recebemos nenhuma vacina contra ele.

e talvez o gesto mais perigoso de uma sociedade seja começar a tratar a própria história como uma advertência destinada exclusivamente aos outros.

não sei o que acontecerá hoje.

não sei se amanhã terei vontade de escrever.

mas sei que, ao ouvir alegria, alegria, não consigo pensar apenas naquele jovem de 25 anos, de gola rolê laranja, diante de uma plateia que vaiava guitarras.

penso no homem que seria preso.

no artista que seria mandado para longe.

nas pessoas que não tiveram a mesma sorte de voltar.

e penso na facilidade com que um país pode começar a perder a liberdade enquanto parte de sua população continua preocupada com o assunto errado.

em 1967, havia quem achasse que o perigo estava na guitarra.

é uma pergunta que vale levar para a urna, com o que estamos nos distraindo enquanto decidimos o futuro?

agora coloca alegria, alegria aí, enquanto espera sua vez de votar.

ouve aquela marchinha, a guitarra, a coca-cola, as bombas, os beijos, os presidentes.

e lembra que o rapaz que cantava não sabia o que vinha pela frente.

nós sabemos o que ficou para trás.

seria uma tristeza imensa descobrir que isso não nos ensinou absolutamente nada.

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2025

ensaio sobre a cegueira. o problema não é não enxergar. é gostar da escuridão.

saramago escreveu um livro em que uma epidemia deixa as pessoas cegas. não aquela cegueira cinematográfica, cheia de sombras e vultos misteriosos. não. uma cegueira branca, leitosa, como se alguém tivesse derramado luz demais dentro dos olhos.

e então ele fez o que os grandes escritores fazem quando estão particularmente decepcionados com a espécie humana. retirou uma única peça da engrenagem e ficou observando o que acontecia.

o resultado não foi bonito.

em pouco tempo, a civilização, essa senhora tão elegante em discursos oficiais, estava andando descalça sobre os próprios excrementos.

não foi preciso muito. um manicômio abandonado, algumas pessoas assustadas, soldados do lado de fora e comida insuficiente. logo apareceu alguém disposto a controlar a distribuição das refeições. depois vieram as exigências, as humilhações, a violência sexual.

o detalhe mais cruel é que os homens que tomaram o poder também eram cegos.

não precisavam enxergar para explorar os outros.

aparentemente, certas habilidades humanas dispensam a visão.

tenho pensado bastante nesse livro enquanto observo o brasil de 2026.

não porque ache que vivemos numa distopia literária. distopias costumam ter uma organização interna que a política brasileira dificilmente conseguiria reproduzir sem abrir uma comissão parlamentar para discutir quem ficaria responsável pelo apocalipse.

mas porque existe uma semelhança desconfortável entre a cegueira inventada por saramago e a relação que algumas pessoas desenvolveram com a realidade.

a diferença é que, no romance, ninguém pediu para ficar cego.

aqui, às vezes, parece que a cegueira vem com adesivo de campanha.

flávio bolsonaro participa de um debate. faz afirmações. algumas são contestadas por checagens de fatos. até aí, nada particularmente surpreendente. políticos dizendo coisas que não resistem a uma segunda olhada são uma tradição tão antiga que provavelmente já havia um assessor de imprensa tentando reinterpretar as últimas palavras de júlio césar.

o espetáculo começa depois.

quando alguém apresenta a checagem e recebe como resposta um categórico “ele não mentiu em nada”.

em nada.

é uma expressão maravilhosa.

não significa que a pessoa examinou cuidadosamente cada afirmação, comparou documentos, verificou gravações e chegou a uma conclusão fundamentada.

significa que a conversa acabou antes de começar.

o candidato foi declarado incapaz de mentir por aclamação popular. uma espécie de canonização administrativa, sem necessidade de milagre reconhecido pelo vaticano.

e, se aparecer uma gravação?

manipulação.

um documento?

perseguição.

uma reportagem?

armação.

uma investigação?

inimigos políticos.

é uma existência admiravelmente prática. a realidade inteira pode ser arquivada na pasta das coisas inconvenientes.

saramago precisou inventar uma epidemia para chegar a esse estado de coisas.

nós conseguimos com acesso à internet.

mas a parte mais perturbadora de ensaio sobre a cegueira não é a perda da visão. é o que acontece quando desaparece a vergonha.

no manicômio, um grupo de homens se apropria da comida. primeiro exige dinheiro e objetos de valor. depois passa a exigir os corpos das mulheres.

não há ali um grande discurso filosófico justificando a barbárie. há poder, necessidade e a descoberta de que os outros podem ser obrigados a aceitar o inaceitável.

é o tipo de cena que faz o leitor fechar o livro por alguns minutos e reconsiderar aquela conversa otimista sobre a bondade natural do ser humano.

e há outro detalhe. a degradação não acontece de uma vez.

ninguém acorda numa manhã e anuncia solenemente que, a partir de hoje, todos viverão como animais.

as coisas vão piorando aos poucos.

uma concessão aqui. uma explicação conveniente ali. uma indignidade tolerada porque, afinal, a situação é excepcional.

até que a exceção começa a exigir endereço fixo.

esse mecanismo me parece mais interessante do que qualquer discussão sobre quem venceu um debate.

porque a pergunta não é apenas por que alguém acredita numa afirmação falsa.

é por que continua acreditando depois de descobrir que ela é falsa.

e aqui entramos num território muito menos confortável.

há pessoas que não estão defendendo um político. estão defendendo o investimento emocional que fizeram nele.

anos de discussões familiares, amizades rompidas, vídeos compartilhados, certezas proclamadas com a confiança de um sujeito que jamais teve a desagradável experiência de desconfiar de si mesmo.

admitir que o candidato mentiu seria relativamente simples.

admitir que você passou anos defendendo alguém que mente já exige um tipo de coragem menos disponível no mercado.

então a mentira continua.

ganha uma explicação nova, um contexto novo, uma interpretação nova.

às vezes ganha até uma nova mentira para fazer companhia.

não é propriamente uma questão de falta de informação. é uma questão de custo psicológico.

a verdade chegou, mas a pessoa já gastou demais com a versão anterior.

saramago compreendia muito bem essa capacidade humana de transformar a própria miséria numa forma de normalidade.

a mulher do médico, única personagem que continua enxergando, não é uma heroína convencional. não atravessa o livro distribuindo frases inspiradoras sobre esperança. ela vê.

e ver, naquele mundo, é uma condenação.

ela vê a sujeira que os outros pisam. vê os corpos abandonados. vê a crueldade, o medo, a violência. vê também pequenos gestos de solidariedade, que talvez sejam a única coisa impedindo o livro de se tornar insuportável.

o que ela não pode fazer é alegar que não sabia.

esse é o privilégio miserável de quem enxerga.

e talvez seja justamente essa responsabilidade que tanta gente queira evitar.

porque, quando você admite ter visto, perde o direito de fingir surpresa.

quando admite que uma afirmação foi desmentida, precisa decidir se continuará repetindo-a.

quando admite que há perguntas legítimas sobre a trajetória de um político, precisa aceitar que elas não desaparecem só porque o sobrenome lhe parece familiar.

e perguntas, convenhamos, são um transtorno.

especialmente para quem prefere respostas prontas.

o romance tem uma cena particularmente reveladora quando os cegos chegam a uma igreja e encontram imagens religiosas com os olhos cobertos.

é uma imagem extraordinária. santos incapazes de ver. figuras feitas para inspirar fé agora partilhando a mesma escuridão dos fiéis.

pense na ironia.

até as imagens sagradas parecem ter desistido de olhar.

não sei se saramago imaginaria que, décadas depois, a política conseguiria produzir uma versão ainda mais conveniente desse fenômeno.

não precisamos vendar os olhos dos santos.

basta declarar que o santo jamais errou e tratar qualquer pessoa que apresente uma evidência contrária como inimiga da fé.

é um sistema fechado.

não há documento suficientemente claro, gravação suficientemente audível ou investigação suficientemente detalhada para atravessar uma crença que decidiu não admitir a possibilidade de estar errada.

e, nesse ponto, o político já nem precisa se defender muito.

seus seguidores fazem o serviço.

corrigem o que ele disse, reinterpretam o que ele fez, explicam o que ele quis dizer e, quando tudo falha, mudam de assunto com a agilidade de um garçom que acaba de descobrir um rato na cozinha.

o mais fascinante é que muitos fazem isso convencidos de estar defendendo a verdade.

saramago, que não tinha grande paciência para as ilusões confortáveis da humanidade, provavelmente reconheceria o cenário.

no fim do romance, as pessoas recuperam a visão.

mas não recebem nenhuma garantia de que aprenderam alguma coisa.

essa é a crueldade final.

a cegueira passa. a natureza humana permanece.

e talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer diante de cada mentira repetida com entusiasmo, de cada evidência descartada sem exame, de cada certeza que sobrevive intacta ao contato com os fatos.

não se essas pessoas conseguem enxergar.

mas o que fariam se, por um instante, enxergassem.

porque existe algo mais assustador do que um homem cego caminhando em direção ao abismo.

é um homem que vê o abismo, chama aquilo de estrada e ainda fica ofendido quando alguém sugere que talvez fosse prudente olhar por onde pisa.

saramago chamou seu livro de ensaio sobre a cegueira.

talvez, se tivesse conhecido a nossa época, acrescentasse um subtítulo.

manual de instruções para quem prefere não ser incomodado pelos fatos.

e venderia muito bem.

principalmente entre pessoas que jamais o leriam.

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2025

por que vou votar 13. e não, não é porque acredito em papai noel de barba branca.

se eu acreditasse em papai noel, pediria o fim da dependência do pt em relação a lula, o fim do bolsonarismo como negócio de família e um congresso nacional que descobrisse, por um breve instante de iluminação, que o dinheiro público não é uma herança deixada por um tio generoso.

pediria também que políticos respondessem por seus atos sem transformar o cargo numa espécie de seguro contra perguntas inconvenientes.

mas não acredito em papai noel. e, se ele aparecesse em brasília, provavelmente perderia o trenó numa negociação parlamentar, as renas seriam nomeadas para cargos comissionados e alguém apresentaria uma emenda para prolongar o natal por mais cinco anos.

o que eu quero é bastante simples. que o brasil consiga seguir em frente sem depender eternamente de lula e sem entregar o futuro à família bolsonaro.

lula, se reeleito, não poderá disputar novamente a presidência em 2030. o pt terá de apresentar outro nome. não significa que deixará o poder automaticamente, mas a sucessão finalmente deixará de ser um assunto que seus dirigentes podem empurrar para a próxima reunião.

já o bolsonarismo oferece uma solução muito mais prática para a falta de novas lideranças. troca-se o primeiro nome, conserva-se o sobrenome e espera-se que ninguém examine o histórico da empresa.

flávio bolsonaro não é uma folha em branco. seu antigo gabinete esteve no centro das investigações sobre rachadinhas, com fabrício queiroz entre os personagens principais. flávio também homenageou adriano da nóbrega, posteriormente apontado em investigações como ligado à milícia, e teve a mãe e a ex-mulher dele entre as funcionárias do gabinete.

há ainda a reportagem da piauí sobre uma tarde de lancha, durante a pandemia, oferecida por empresários interessados em negociar vacinas com o governo de seu pai. bebidas, acompanhantes, um relógio de luxo.

mas o contraste descrito pela revista é difícil de ignorar. enquanto famílias brasileiras contavam as horas que restavam aos seus parentes, empresários interessados em vender vacinas teriam encontrado tempo para uma tarde de hospitalidade náutica com o filho do presidente.

e não me venham com a indignação seletiva sobre a vida privada de adultos. a questão não é a lancha. é o acesso ao poder e o que se esperava obter dele.

quanto ao pai, não estamos falando apenas de controvérsias. jair bolsonaro foi condenado pelo supremo tribunal federal por crimes relacionados à tentativa de golpe de estado e planejar assassinato. a condenação não depende de quem vença a eleição, e a imunidade parlamentar de flávio não funciona como cobertura jurídica para a família inteira.

ainda assim, o sobrenome continua sendo apresentado como se fosse um programa de governo.

e o que flávio propõe para o funcionamento das instituições merece tanta atenção quanto seu passado.

ele falou em aproveitar um congresso mais favorável para alterar a constituição, discutir mudanças no judiciário, no sistema político e até a duração dos mandatos presidenciais. podendo ir de cinco a oito anos. oito anos.

reformar a constituição é legítimo quando se respeitam seus procedimentos e limites. mas, depois de tudo o que o país viveu em matéria de conflitos institucionais, pedir detalhes sobre essas propostas não deveria ser considerado uma provocação.

o congresso e o senado já exercem enorme influência sobre o orçamento, as leis e a fiscalização do governo. são instituições que deveriam controlar o executivo, inclusive quando concordam politicamente com ele.

e conhecemos suficientemente nossos políticos para saber que a harmonia entre poderes pode produzir bons acordos, mas também pode transformar perguntas inconvenientes em obstáculos que todos preferem remover discretamente.

é a velha história de entregar a faca e o queijo ao rato.

só que, neste caso, o rato também quer a chave da despensa e a presidência da comissão encarregada de investigar o desaparecimento do queijo.

governar exige negociação. presidentes precisam convencer parlamentares, aceitar derrotas, justificar decisões e conviver com a oposição. isso não é uma deficiência do sistema. é parte do sistema.

lula também terá de negociar com um congresso que não foi eleito para obedecer automaticamente ao presidente. isso não garante boas decisões nem elimina os conhecidos vícios da política brasileira. mas impede a fantasia de que a presidência, sozinha, resolve tudo por decreto e entusiasmo.

não quero um governo sem fiscalização. não quero um congresso transformado em departamento de aprovação automática. e não quero que mudanças profundas nas regras institucionais sejam tratadas como um detalhe administrativo que se resolve depois da posse.

também não espero perfeição de lula. o pt tem erros, alianças constrangedoras e decisões que merecem críticas. votar não deveria significar entregar a alguém a propriedade permanente da própria consciência.

quero cobrar qualquer governo, inclusive aquele em que votei.

no fim, quero uma coisa bastante simples. mais quatro anos de lula e, depois, um pt obrigado a descobrir se sabe existir sem ele. se não souber, que desapareça na própria falta de imaginação.

quero também os bolsonaro longe do planalto e respondendo à justiça pelo que for comprovado, sem confundir mandato com salvo-conduto. jair já foi condenado. quanto a flávio, que as perguntas sobre sua trajetória continuem sendo feitas. afinal, quem se apresenta como bom moço não deveria ter medo de mostrar o currículo inteiro.

não acredito em papai noel. tampouco acredito em dinastias redentoras.

quero um país que sobreviva a lula, ao pt e aos bolsonaro.

e, sinceramente, já tivemos bolsonaro suficiente para uma vida inteira. a república não precisa de uma segunda temporada só porque o elenco é da mesma família.

papai noel, infelizmente, não pode providenciar isso.

e, mesmo que pudesse, eu desconfiaria de qualquer sujeito que entra na sua casa de madrugada, não presta contas a ninguém e insiste que devemos acreditar em suas boas intenções apenas porque usa vermelho.

mas nós podemos, votando 13.

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2025

preciso voltar a dante. o inferno brasileiro anda exigindo uma nova cartografia.

imagem meramente ilustrativa

terminei de ler a reportagem da piauí sobre flávio bolsonaro, empresários interessados em vender vacinas, uma lancha, garotas de programa e um rolex. fiquei alguns minutos olhando para a tela, tentando decidir se precisava de um café, de um uísque ou de uma nova tradução da divina comédia.

optei por dante. o álcool, diante do noticiário brasileiro, já começa a parecer um investimento de risco.

a história, segundo a revista, se passa em julho de 2020. o brasil enterrava mais de mil pessoas por dia. hospitais estavam lotados, famílias se despediam por telefone e profissionais de saúde descobriam que a expressão “dar o máximo de si” podia incluir trabalhar até o próprio corpo pedir demissão.

em algum ponto daquele país devastado, de acordo com a reportagem, empresários interessados em negociar vacinas com o governo bolsonaro teriam oferecido a flávio uma tarde de lazer numa lancha, com bebidas e acompanhantes. haveria ainda um rolex de presente.

um rolex.

dante precisou de cem cantos para descrever o inferno. o brasil consegue produzir uma alegoria moral inteira com uma embarcação, alguns empresários e um relógio suíço.

e o detalhe mais perturbador nem sequer é o luxo. adultos podem passear de lancha, beber e fazer escolhas privadas que não interessam ao público. o problema começa quando os anfitriões têm negócios a propor ao governo do pai do convidado, justamente num momento em que o país implora por vacinas.

aí a festa deixa de ser apenas uma festa e passa a exigir perguntas sobre acesso, influência e interesses.

quem ofereceu o quê? com qual expectativa? que portas pretendia abrir?

dante colocava os corruptos, os fraudulentos e os traidores em regiões diferentes do inferno. havia método naquela crueldade. cada pecado tinha uma lógica, cada punição uma ironia. no brasil, a dificuldade seria organizar os personagens. mal o poeta terminasse de classificar um círculo, surgiria uma nova reportagem exigindo a ampliação do terreno.

e imagino virgílio, o guia sensato, tentando explicar a situação.

“aquele homem é senador?”

“sim.”

“e os empresários queriam vender vacinas ao governo?”

“segundo a reportagem.”

“e havia um relógio de luxo?”

“também segundo a reportagem.”

“e tudo isso enquanto as pessoas morriam?”

“mais de mil por dia.”

virgílio provavelmente pediria para voltar ao inferno original. ao menos lá ninguém precisava acompanhar uma comissão parlamentar de inquérito para entender o enredo.

o relógio é o detalhe que mais me incomoda. não por representar riqueza. há gente rica com relógios caros e uma consciência perfeitamente funcional. mas pela indecência da imagem, enquanto milhares de brasileiros contavam as horas de vida de alguém que amavam, um político teria recebido de presente um objeto feito para exibir o preço do tempo.

a literatura chama isso de símbolo.

o jornalismo, felizmente, pode chamar de algo mais útil, um fato a ser esclarecido.

e eu continuo pensando nas famílias que viveram aquele julho. gente esperando uma ligação do hospital. gente calculando se ainda haveria oxigênio. gente que nunca mais pôde abraçar a mãe, o pai, o companheiro, a filha.

é diante delas que a história perde qualquer possibilidade de ser apenas uma anedota picante.

a obscenidade verdadeira não está nas acompanhantes, nas bebidas ou na lancha. está na possibilidade de que a tragédia coletiva tenha convivido, sem o menor constrangimento, com a hospitalidade oferecida por quem desejava fazer negócios com o poder.

talvez seja por isso que eu precise voltar a dante.

ele acreditava que o inferno tinha uma arquitetura moral. que havia alguma ordem capaz de acomodar a vaidade, a ganância, a fraude e a traição. uma ambição literária admirável, embora um tanto ingênua para os padrões brasileiros.

o inferno de dante tinha nove círculos. o nosso tem assessoria jurídica, relações institucionais e, aparentemente, uma excelente marina.

e o pior é que ainda estamos descobrindo quem estava a bordo.

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2025

“vou votar no flávio porque não quero mais o pt” e quem é flávio, mesmo?

adoro essa frase. tem a profundidade de um pires e a autoconfiança de um sujeito que leu duas manchetes, ignorou o conteúdo das duas e agora se considera intelectualmente preparado para decidir o futuro da república. uma combinação magnífica de informação insuficiente e convicção ilimitada. se a ignorância pagasse dividendos, estaríamos diante de um dos homens mais ricos do país.

não querer mais o pt é perfeitamente legítimo. lula está na política há tanto tempo que provavelmente conheceu a corrupção ainda na infância, quando ele era um menino tímido, sem assessoria de imprensa e com ambições modestas. suas alianças são um espetáculo de contorcionismo moral. há ministros, aliados e companheiros de ocasião que mereceriam uma explicação pública, uma auditoria e, em alguns casos, uma boa dose de vergonha.

mas aí o sujeito anuncia que votará em flávio bolsonaro.

e eu começo a prestar atenção.

porque há algo deliciosamente perverso nessa escolha. o eleitor diz estar exausto dos vícios da velha política e procura salvação num homem que passou praticamente toda a vida adulta dentro dela. um profissional da política fluminense, herdeiro de uma dinastia eleitoral, criado num ambiente em que a expressão “relações institucionais” pode significar qualquer coisa entre uma reunião legítima e uma história que ninguém quer explicar diante de um microfone.

flávio não surgiu de uma mobilização popular espontânea. seu sobrenome é seu maior patrimônio político. sua candidatura carrega o legado de jair bolsonaro, inclusive aquilo que os admiradores preferem chamar de virtude e os críticos, com alguma razão, de problema.

e há a biografia.

ah, a biografia.

comecemos pelas rachadinhas, aquela história em que o ministério público do rio acusou flávio de comandar um esquema de recolhimento de parte dos salários de funcionários de seu gabinete. fabrício queiroz, amigo antigo da família, apareceu no centro das movimentações financeiras investigadas. vieram perguntas sobre dinheiro, imóveis, operações em espécie e uma loja de chocolates.

uma loja de chocolates.

o brasil tem uma imaginação política tão barroca que às vezes parece estar competindo com a literatura latino-americana. garcía márquez inventou macondo. nós produzimos gabinetes parlamentares, assessores com movimentações suspeitas e estabelecimentos comerciais que entram em investigações de lavagem de dinheiro.

flávio negou as acusações. provas foram anuladas, e o caso terminou arquivado sem condenação. juridicamente, isso importa. muito.

mas o arquivamento decorrente de decisões processuais não é a mesma coisa que um julgamento de mérito que tenha examinado e refutado todas as acusações.

é uma distinção relativamente simples.

embora, diante de determinados sobrenomes, algumas pessoas passem a considerá-la uma sutileza incompreensível do direito.

o percurso judicial também merece ser lembrado. joão otávio de noronha, ministro do stj cuja proximidade com jair bolsonaro foi noticiada, tomou decisões favoráveis à defesa. proximidade pessoal não demonstra interferência indevida, e decisões judiciais não se tornam ilegítimas apenas porque beneficiam alguém de quem desconfiamos.

mas quem passou anos exigindo investigações sobre relações entre políticos e magistrados deveria achar o assunto interessante.

estranhamente, a curiosidade costuma morrer antes da segunda pergunta.

é uma morte súbita, sem sofrimento aparente.

e então aparece adriano da nóbrega.

flávio concedeu a ele a medalha tiradentes em 2005, quando o ex-policial estava preso por homicídio. mais tarde, adriano seria apontado como chefe do chamado escritório do crime, associado à milícia carioca. a mãe e a ex-mulher dele trabalharam no gabinete de flávio.

isso não prova participação de flávio em atividades criminosas. mas é uma sequência de fatos que mereceria alguma atenção de qualquer eleitor interessado em segurança pública.

sobretudo daqueles que falam em combater o crime com a convicção de quem acredita ter inventado a honestidade.

não é curioso?

o homem promete guerra ao crime, mas encontrou tempo para atuar na defesa de um policial acusado de matar ana clara, uma menina de cinco anos, tentando evitar que ele fosse a júri popular.

todo acusado tem direito a advogado, evidentemente. mas flávio escolheu ser esse advogado. fascinante. quando o suspeito é um cidadão comum, exige-se o máximo rigor, quando veste farda, descobrem-se as delicadezas do devido processo legal. a menina morreu, o policial tem direito à defesa e o senador tem direito às suas escolhas. só não nos peçam para confundir essa seletividade com uma política de segurança pública.

o sujeito quer um presidente duríssimo com a criminalidade, mas considera indelicado perguntar por que determinados personagens circularam tão perto de seu gabinete ou defende casos tão controvérsos.

talvez a segurança pública deva começar pela segurança de não precisar responder a perguntas desagradáveis.

e a paisagem continua movimentada.

reportagens e investigações levantaram questões sobre relações de flávio com empresários e advogados, incluindo willer tomaz, e suspeitas envolvendo negócios no setor de apostas. o universo político e empresarial de daniel vorcaro, ligado ao banco master, também aparece em notícias sobre conexões que exigem apuração cuidadosa.

não se deve confundir uma relação pessoal com prova de crime. tampouco transformar uma investigação em sentença. seria intelectualmente desonesto.

mas há uma diferença entre respeitar a presunção de inocência e fingir que perguntas legítimas são uma forma de perseguição.

o eleitor que passou anos reclamando de empresários próximos ao pt deveria sentir uma curiosidade quase erótica por esse tipo de assunto.

quem são essas pessoas? quais interesses representam? que negócios mantêm? que influência procuram exercer?

perguntas perfeitamente normais numa democracia.

a menos que a democracia esteja funcionando apenas para investigar os outros.

e há o pai.

jair bolsonaro fez da política um espetáculo permanente de confronto, ressentimento e fidelidade pessoal. flávio apresenta uma versão mais disciplinada da mesma herança, com gestos mais contidos e uma linguagem ocasionalmente mais polida.

é possível que seja diferente do pai. ótimo. então que explique onde estão as diferenças.

porque um homem que fala baixo também pode defender ideias profundamente ruins. a história está repleta de sujeitos impecavelmente educados que produziram consequências desastrosas. a boa dicção nunca foi garantia de caráter.

mas a operação eleitoral é engenhosa, quando convém, flávio é o legítimo herdeiro de bolsonaro. quando surgem perguntas sobre o legado, transforma-se num indivíduo inteiramente autônomo, uma espécie de adulto recém-descoberto, sem qualquer relação com o ambiente político que o projetou.

o sobrenome serve para receber a herança.

as perguntas, aparentemente, devem ser encaminhadas ao inventariante.

na economia, a promessa é de eficiência, cortes e transformação.

já vimos esse filme.

fernando collor apareceu prometendo acabar com privilégios, modernizar o país e enfrentar os marajás. era jovem, confiante e tinha uma resposta para tudo. em 1990, os brasileiros descobriram que o governo podia bloquear o dinheiro de suas contas bancárias. em 1992, collor renunciou durante o processo de impeachment.

não estou sugerindo que flávio fará o mesmo. estou sugerindo que o brasileiro talvez devesse exigir mais do que uma postura decidida e um discurso sobre eficiência antes de entregar a alguém o controle da economia nacional.

onde pretende cortar? quanto? quais serviços serão afetados? quem ganhará? quem pagará?

é impressionante como perguntas elementares passam a soar inconvenientes quando ameaçam interromper uma boa fantasia eleitoral.

mas o que realmente me fascina não é flávio.

é o eleitor que anuncia sua escolha como se tivesse realizado um profundo exame de consciência.

“vou votar no flávio porque não quero mais o pt.”

e pronto.

nenhuma explicação sobre o candidato. nenhuma análise de sua trajetória. nenhuma curiosidade pelas suspeitas, pelos personagens de seu entorno, pelas propostas ou pelas contradições.

apenas a rejeição ao outro.

é uma maneira extraordinariamente confortável de participar da democracia. você recebe o direito de escolher quem governará mais de duzentos milhões de pessoas e decide exercê-lo com o mesmo método intelectual de quem bloqueia um ex-namorado nas redes sociais.

e ainda espera ser levado a sério como analista político.

o mais divertido é que muitos desses eleitores se apresentam como inimigos da corrupção, defensores da meritocracia e guardiões da responsabilidade fiscal.

mas, quando a conversa chega ao candidato que escolheram, os princípios começam a apresentar problemas de funcionamento.

a transparência vira perseguição.

a investigação vira conspiração.

o sobrenome vira mérito.

a herança política vira renovação.

e a ausência de respostas vira prova de que o candidato está sendo injustiçado.

é um espetáculo de flexibilidade moral que faria um contorcionista profissional procurar atendimento médico.

não é preciso votar em lula para perceber a contradição. lula merece críticas, cobranças e fiscalização constante. não é santo, não é infalível e não deveria ser tratado como proprietário vitalício das esperanças nacionais.

mas, se você pretende votar em flávio, faça ao menos a gentileza de conhecer o homem.

não o pai.

não o inimigo.

não o personagem que você construiu para irritar petistas.

flávio.

o político do rio. o ex-deputado cujo gabinete foi investigado no caso das rachadinhas. o parlamentar que homenageou adriano da nóbrega. o homem que defendeu um assassino de uma criança. o herdeiro de um movimento político personalista. o candidato cujas propostas econômicas precisam ser examinadas e cujas relações empresariais noticiadas merecem perguntas.

nada disso, isoladamente, autoriza uma condenação criminal.

mas tudo isso deveria ser assunto antes de uma eleição.

e aqui vai uma pergunta particularmente desagradável… se você tivesse conhecido a biografia de flávio sem saber que ele era filho de jair bolsonaro, teria a mesma vontade de votar nele?

pense com calma.

porque talvez o seu voto não seja contra a corrupção, contra os privilégios ou contra a velha política.

talvez seja apenas contra o pt.

o que é um direito seu.

mas não confunda esse direito com uma análise.

e, por favor, não chame de coragem moral aquilo que exige fechar os olhos justamente na hora de olhar para o próprio candidato.

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2026

flávio ou lula? o problema começa quando o sobrenome vira argumento…

o brasil tem uma relação curiosa com seus políticos. perdoa o imperdoável, esquece o inesquecível e, de quatro em quatro anos, aparece com a expressão esperançosa de quem voltou ao mesmo restaurante onde sofreu uma intoxicação alimentar. conhece o cozinheiro, conhece a cozinha, sabe que o freezer está desligado desde terça-feira, mas alguém garantiu que agora o filho do proprietário assumiu o negócio.

e o filho promete uma experiência completamente nova.

lula, convenhamos, está longe de ser uma sobremesa delicada. é um prato pesado, servido há décadas, com ingredientes que ninguém consegue identificar inteiramente e algumas alianças que fariam um fiscal sanitário pedir transferência. tem história, tem realizações, tem contradições e uma intimidade com o poder que deveria provocar mais perguntas do que reverência. quem o transforma em santo merece ser condenado a ouvir seus discursos completos, sem direito a acelerar o vídeo.

mas flávio bolsonaro traz algo que me incomoda de maneira muito particular. aquela ideia de que um sobrenome pode funcionar como certificado de autoridade, como se a presidência fosse uma capitania hereditária com transmissão ao vivo.

o pai fez da política um espetáculo de ressentimento, bravatas e confronto permanente. o filho chega com uma embalagem mais comportada, um vocabulário ocasionalmente mais polido e a esperança de que o público confunda mudança de garçom com reforma da cozinha.

é um truque antigo. troca-se a toalha, mantém-se o cardápio e espera-se que ninguém pergunte de onde vem o cheiro.

e eu me pergunto em que momento passamos a considerar a falta de compostura uma qualidade de liderança. essa fascinação por homens que fazem cara de poucos amigos, tratam adversários como inimigos pessoais e parecem acreditar que governar exige a postura corporal de um segurança de boate às três da manhã.

há um mercado enorme para isso. vende-se truculência como autenticidade, arrogância como coragem e incapacidade de ouvir como firmeza de princípios. o cliente compra um estadista e recebe um sujeito permanentemente preparado para uma discussão de estacionamento.

o mais impressionante é a sofisticação dos defensores. gente culta, articulada, capaz de distinguir um borgonha de um beaujolais, mas que diante de um bolsonaro aceita explicações que não convenceriam uma criança tentando justificar o desaparecimento do último pedaço de bolo.

e quando aparecem perguntas sobre patrimônio, relações políticas, negócios ou companhias inconvenientes, começa aquele balé extraordinário. exigem-se provas, o que é correto. mas qualquer pergunta passa a ser tratada como perseguição, o que é bastante conveniente. a presunção de inocência, princípio civilizatório indispensável, ganha uma interpretação inédita. ninguém pode sequer querer saber.

é quase uma inovação jurídica brasileira. o direito constitucional de não ser incomodado.

lula também deve explicações, naturalmente. sobre suas escolhas, seus aliados, seus governos e suas promessas. nunca tive paciência para a devoção política, essa doença que faz adultos defenderem um governante com a mesma ternura irracional dedicada a um cachorro que acabou de destruir o sofá.

mas há algo intelectualmente desonesto em colocar todas as trajetórias dentro do mesmo saco e chamar isso de equilíbrio. a preguiça de distinguir projetos, comportamentos e consequências costuma se apresentar em público vestida de imparcialidade. fica elegante, sobretudo em programas de televisão. ninguém se compromete, todos parecem sensatos e a realidade sai da sala sem ser reconhecida.

não preciso achar lula admirável para examinar criticamente o que flávio representa. não preciso desculpar um único erro do primeiro para cobrar do segundo respostas sobre sua herança política. e não pretendo fingir entusiasmo diante de um sobrenome só porque ele aprendeu a usar um tom de voz ligeiramente menos estridente.

o brasil merece discutir o que cada candidato fará com o poder. e, principalmente, o que acredita ter o direito de fazer com ele.

porque a presidência não é um negócio de família, a democracia não é um programa de auditório e o país não é propriedade de quem consegue reunir a torcida mais barulhenta.

e aqui está o que penso, sem a confortável maquiagem da falsa equivalência. tenho críticas a lula, algumas bastante sérias. e tenho perguntas sobre flávio bolsonaro que um sobrenome famoso, uma voz mais baixa e uma campanha bem produzida não conseguem responder.

não estou à procura de um santo. já conheço os perigos de quem se apresenta como salvador, sobretudo quando chega acompanhado da família inteira.

o que me recuso a fazer é confundir meu cansaço com um político com uma razão suficiente para confiar em outro.

afinal, quem já saiu de um restaurante com uma intoxicação alimentar sabe que a pior decisão possível é voltar só porque agora o filho do dono está usando um avental limpo.

e eu, francamente, já vi o suficiente dessa cozinha para não me impressionar com o uniforme.

e se até aqui não ficou claro…

quanto ao meu voto, será em lula. conheço o chef, reconheço seus bons pratos e não lhe darei imunidade quando errar a mão. já o restaurante de flávio vem com o sobrenome estampado na fachada e um conceito peculiar de transparência. pergunte pela procedência dos ingredientes e você vira inimigo da casa. peça para conhecer os fornecedores e aparece um advogado no lugar do maître. a freguesia, encantada, chama isso de tradição. dispenso. voto em lula. não preciso venerar o cozinheiro para desconfiar de um restaurante onde até a nota fiscal parece segredo de família.

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2025

o inferno ganhou wi-fi e os demônios aprenderam a pedir votos

dante alighieri morreu em 1321. teve sorte.

imagino o velho florentino desembarcando em são paulo, sete séculos depois, com sua túnica, seu nariz severo e aquela cara de quem passou a vida inteira cercado de idiotas e resolveu escrever um poema para não estrangular ninguém.

eu o levaria para tomar um café.

um café forte, sem açúcar. dante já conhecia o inferno. não precisava conhecer também a indignidade de um cappuccino com leite de aveia e essência de baunilha.

sentaríamos perto da janela. ele abriria seu caderno, perguntaria como anda o mundo e eu cometeria a imprudência de mostrar meu celular.

a partir daí, precisaríamos de uma garrafa.

dante escreveu a divina comédia no exílio, depois de ser expulso de florença por uma disputa política. não era um poeta distraído, desses que contemplam flores e descobrem sentimentos na luz da tarde. era um homem furioso, culto, profundamente religioso e dono de uma memória extraordinária para desafetos.

quando alguém o contrariava, havia o risco de acabar fervendo em alguma vala da eternidade.

hoje chamariam isso de falta de inteligência emocional.

eu chamaria de literatura.

na divina comédia, dante atravessa o inferno guiado por virgílio. encontra políticos, papas, traidores, amantes, ladrões, hipócritas e gente que passou a vida fazendo exatamente aquilo que condenava nos outros.

o brasileiro reconheceria muitos personagens.

talvez até alguns sobrenomes.

o primeiro problema seria explicar ao poeta que, em pleno século xxi, a humanidade continua cometendo praticamente todos os pecados que ele catalogou, mas agora consegue filmá-los e monetizá-los.

dante dividiu o inferno em nove círculos.

hoje precisaria de um anexo.

e de um advogado.

sabe, começaríamos pelo vestíbulo, onde dante colocou os indiferentes, aqueles que passaram pela vida sem escolher lado, sem assumir nada, sem coragem sequer para merecer uma condenação mais interessante.

o poeta tinha um desprezo especial por essa turma.

eu mostraria a ele o cidadão contemporâneo que se orgulha de ser neutro diante de qualquer coisa, desde que a injustiça não atrapalhe seu almoço.

aquele sujeito que, diante de uma barbaridade, anuncia solenemente que prefere não discutir política.

mas discute durante quarenta minutos se o azeite servido no restaurante é realmente extravirgem.

dante entenderia.

a covardia sempre soube se vestir bem.

no segundo círculo, encontraríamos os luxuriosos. no terceiro, os glutões.

aqui eu pediria ao poeta um pouco de paciência.

porque o pecado da gula mudou bastante desde a idade média.

temos gente que atravessa a cidade para pagar uma fortuna por três folhas, uma espuma e uma explicação de quinze minutos sobre a origem emocional da cenoura.

o sujeito não quer jantar.

quer participar de uma experiência.

e depois publica dezessete fotografias para provar que esteve lá.

dante talvez achasse que a punição já começou.

quanto à luxúria, bastaria mostrar-lhe a indústria dos aplicativos de relacionamento. milhões de pessoas com acesso a milhares de possíveis parceiros e uma capacidade cada vez menor de sustentar uma conversa que ultrapasse três mensagens e um emoji.

o amor cortês, tão caro aos poetas medievais, morreu.

no lugar dele temos gente perguntando signo, altura e disponibilidade para o fim de semana.

francesca da rimini, que dante encontrou entre os amantes condenados, provavelmente pediria para voltar ao vendaval eterno.

pelo menos paolo sabia conversar.

no quarto círculo, o dos avarentos e perdulários, dante finalmente começaria a se sentir em casa.

eu lhe apresentaria a teologia da prosperidade, os gurus financeiros e os sujeitos que vendem cursos ensinando a ficar rico enquanto enriquecem vendendo cursos sobre como ficar rico.

ele perguntaria se isso é permitido.

eu responderia que, em muitos casos, é até admirado.

dante, que colocou usurários sob uma chuva de fogo, precisaria rever seus métodos.

a modernidade inventou formas de ganhar dinheiro que fariam um agiota florentino parecer um simpático comerciante de bairro.

e ainda temos a figura maravilhosa do milionário que explica ao trabalhador exausto que pobreza é falta de mentalidade.

é sempre emocionante ouvir lições sobre esforço de alguém que começou a corrida a poucos metros da linha de chegada.

no quinto círculo, o dos irados, eu abriria uma rede social.

não precisaria explicar nada.

dante observaria durante cinco minutos um grupo de adultos discutindo política, futebol, religião e a temperatura correta de um ovo cozido.

depois fecharia o aplicativo.

os irados de seu inferno se atacavam na lama do rio estige.

os nossos fazem praticamente a mesma coisa, só que com foto de perfil, bandeirinha no nome e a convicção de que estão salvando a civilização.

o detalhe mais bonito é que todos se consideram vítimas da intolerância alheia.

ninguém é grosseiro.

está apenas falando verdades.

ninguém é ignorante.

está questionando narrativas.

ninguém está espalhando uma mentira.

está fazendo perguntas.

e as perguntas, curiosamente, costumam vir acompanhadas de respostas prontas, escritas em letras maiúsculas.

dante anotaria tudo.

talvez inventasse um décimo círculo só para os comentários de notícias.

mas seria no sexto círculo, o dos hereges, que a visita ficaria realmente interessante.

eu explicaria que, no brasil, religião e política desenvolveram uma intimidade tão grande que às vezes é difícil saber onde termina o sermão e começa a propaganda eleitoral.

certas lideranças descobriram que o púlpito oferece vantagens extraordinárias.

o fiel chega buscando consolo, encontra uma orientação política e ainda sai convencido de que discordar pode comprometer sua situação na eternidade.

um serviço completo.

dante, católico fervoroso, não seria um observador indulgente. na sua obra, colocou papas corruptos no inferno, especialmente entre os simoníacos, aqueles que negociavam coisas sagradas.

na terceira vala do oitavo círculo, os condenados ficam enterrados de cabeça para baixo, com os pés em chamas.

imagino o poeta conhecendo um desses pregadores que apresentam o sucesso financeiro como prova de bênção divina.

ele ouviria a pregação, examinaria a estrutura empresarial e perguntaria onde fica a fila dos simoníacos.

eu explicaria que hoje muitos têm canal de televisão.

jesus expulsou os vendilhões do templo.

alguns de seus autoproclamados representantes parecem ter estudado a passagem apenas para descobrir onde instalar a maquininha de cartão.

o oitavo círculo seria o grande passeio.

malebolge.

dez valas destinadas a diferentes espécies de fraude.

dante colocou ali sedutores, aduladores, hipócritas, ladrões, falsários, conselheiros fraudulentos e corruptos que vendiam favores públicos.

era um homem com imaginação.

mas nem ele teria previsto a quantidade de brasileiros capazes de defender a honestidade de um político com o mesmo entusiasmo com que defendem a inocência de um parente pego saindo do motel.

a corrupção, por aqui, tem uma característica curiosa.

quando é praticada pelo adversário, ameaça os fundamentos da república.

quando envolve alguém do nosso grupo, exige contexto histórico, cautela jurídica e uma investigação aprofundada sobre as intenções da imprensa.

dante, que colocou os corruptos mergulhados em piche fervente, talvez perguntasse se o material continua disponível.

eu sugeriria que ele não se precipitasse.

a demanda poderia afetar o preço do petróleo.

e então chegariam os políticos que prometem acabar com a velha política enquanto negociam com ela no café da manhã.

os empresários que se apresentam como salvadores da pátria porque conseguiram administrar uma rede de lojas.

os patriotas que tratam a bandeira como propriedade particular.

os moralistas que passam a vida fiscalizando a intimidade alheia enquanto escondem cuidadosamente a própria.

dante ficaria encantado com a variedade.

em florença, ele conheceu a violência das facções políticas, os acordos oportunistas e a facilidade com que homens poderosos invocavam princípios elevados para justificar interesses bastante rasteiros.

o brasil não lhe pareceria inteiramente estranho.

apenas mais quente.

e com mais publicidade.

no nono círculo, encontraríamos os traidores.

e aqui dante nos reservaria uma surpresa.

porque o fundo de seu inferno não é um mar de fogo.

é um lago congelado.

o cócito.

quanto mais profunda a traição, mais aprisionada no gelo está a alma.

no centro, lúcifer mastiga eternamente judas, bruto e cássio.

sempre achei essa escolha genial.

dante compreendeu que a pior forma de maldade pode ser fria, calculada, quase burocrática. não precisa de gritos. às vezes basta alguém perfeitamente calmo assinando uma decisão cujas consequências jamais terá de enfrentar.

eu mostraria ao poeta as guerras contemporâneas.

as crianças mortas, as cidades destruídas, os refugiados tratados como incômodo estatístico.

depois mostraria os comentaristas discutindo tudo aquilo como quem analisa a escalação de um time.

alguns falariam de estratégia.

outros, de interesses nacionais.

outros, de inevitabilidade histórica.

e, no intervalo, entraria uma propaganda de perfume.

dante provavelmente ficaria em silêncio.

não por falta de palavras.

mas porque existem coisas diante das quais até o sarcasmo perde a vontade de trabalhar.

só que nossa viagem ainda teria um último capítulo.

eu levaria dante para caminhar por uma rua qualquer do brasil.

ele veria o trabalhador que acorda antes do sol, a mulher que sustenta uma família inteira, o professor que insiste em ensinar, a pessoa que divide o pouco que tem com alguém que tem menos ainda.

veria gente decente fazendo o possível para não enlouquecer num país que oferece motivos diários para perder a paciência.

e talvez se lembrasse de que sua obra não termina no inferno.

depois vêm o purgatório e o paraíso.

há uma razão para isso.

dante escreveu sobre a possibilidade de uma alma atravessar o horror e ainda encontrar alguma forma de luz.

o que torna a nossa época tão irritante é perceber que temos acesso a séculos de conhecimento, conhecemos as consequências de tantas escolhas desastrosas e, mesmo assim, insistimos em repetir os erros com a confiança de quem acaba de inventá-los.

temos bibliotecas no bolso e preguiça de ler.

temos liberdade para questionar e preferência por obedecer a quem grita mais alto.

temos a história inteira à disposição e uma capacidade admirável de nos surpreender com aquilo que ela já explicou.

quando terminássemos o café, dante provavelmente pediria para voltar a florença.

eu lembraria que ele foi exilado de lá.

ele pensaria um pouco.

olharia novamente para o celular.

e diria que, considerando as alternativas, o exílio não parecia tão ruim.

antes de partir, talvez me perguntasse por que continuamos repetindo os mesmos pecados depois de setecentos anos.

eu não saberia responder.

mas poderia mostrar a ele uma última notícia, um último discurso, um último vídeo de alguém explicando com absoluta certeza uma coisa que evidentemente desconhece.

dante fecharia os olhos.

e eu finalmente compreenderia por que, no primeiro canto do inferno, ele escreveu sobre ter se encontrado perdido numa selva escura, depois de abandonar o caminho certo.

a diferença é que dante sabia que estava perdido. nós temos gps, internet, inteligência artificial e ainda encontramos tempo para discutir se a selva existe ou se a terra é redonda.

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2026

ser neutro é um risco

existe uma categoria fascinante de pessoas que se orgulha de não tomar partido. observa o mundo pegando fogo, ajeita a cadeira, pede um café e anuncia, com a serenidade de um monge muito bem alimentado, que prefere não se envolver.

é uma posição confortável. principalmente quando o incêndio acontece na casa dos outros.

a neutralidade ganhou uma reputação curiosa. virou sinônimo de inteligência, equilíbrio, maturidade. o sujeito que não se posiciona é apresentado como alguém acima das paixões humanas, um espírito superior que não se deixa contaminar pelas vulgaridades do debate público.

às vezes é apenas alguém com um talento extraordinário para proteger o próprio conforto. e convenhamos, conforto é uma ideologia bastante popular. não exige leitura, coragem ou grandes sacrifícios. basta continuar sentado.

não estou sugerindo que todo mundo precise ter uma opinião sobre absolutamente tudo. já temos especialistas suficientes em geopolítica que aprenderam a localização dos países envolvidos há quinze minutos. o mundo agradeceria se algumas pessoas descobrissem o prazer revolucionário de dizer que não sabem.

há uma diferença imensa, porém, entre reconhecer a própria ignorância e fingir que não existe nada a ser reconhecido. entre escutar antes de julgar e usar a prudência como esconderijo. entre evitar uma discussão inútil e permanecer elegantemente calado diante de uma injustiça perfeitamente visível.

o problema começa quando a neutralidade deixa de ser um exercício de discernimento e se transforma num plano de carreira.

ninguém quer perder amigos, clientes, seguidores ou convites para jantar. ninguém quer ser o inconveniente da mesa, aquele sujeito que estraga o clima porque resolveu mencionar algo ligeiramente mais importante que o vinho.

então desenvolvemos uma diplomacia admirável.

condenamos os excessos sem identificar quem os pratica. lamentamos as tragédias sem examinar suas causas. defendemos a paz com tamanho entusiasmo que evitamos até incomodar quem está produzindo a guerra.

é uma performance impecável.

todos saem da conversa satisfeitos. especialmente quem não precisava que nada mudasse. e existe uma indústria inteira dedicada a transformar essa omissão em virtude. frases bonitas sobre respeitar todas as opiniões, ouvir todos os lados, preservar a harmonia.

ótimos princípios, quando aplicados com algum critério.

porque ouvir todos os lados não significa atribuir o mesmo peso a qualquer argumento. respeitar pessoas não obriga ninguém a tratar crueldade como uma preferência estética. e preservar a harmonia pode ser uma ideia maravilhosa, desde que não dependa de pedir silêncio a quem está sendo prejudicado.

a história humana oferece exemplos suficientes do custo desse tipo de elegância. injustiças raramente sobrevivem apenas pela força de quem as pratica. também se beneficiam da hesitação de quem percebe o problema, calcula o inconveniente de agir e decide que talvez seja melhor esperar.

esperar é uma atividade maravilhosa. transmite a sensação de responsabilidade sem exigir o trabalho desagradável de assumir alguma. e, enquanto esperamos, a vida continua acontecendo.

há pessoas pagando pelas decisões de outras. há direitos sendo discutidos como se fossem privilégios excessivos. há mentiras circulando com a desenvoltura de convidados importantes, enquanto fatos precisam apresentar documentos na portaria.

e nós, criaturas sofisticadas, preocupados em não parecer radicais. curioso como a moderação pode se tornar uma forma bastante extravagante de vaidade. o sujeito não quer compreender melhor o problema. quer ser admirado pela distância que mantém dele.

quer que todos reconheçam sua superioridade emocional, sua recusa às paixões, sua extraordinária capacidade de não se aborrecer. é fácil manter a calma quando nada do que está acontecendo ameaça você.

muito fácil.

mas também seria um erro transformar posicionamento em campeonato de indignação. ter coragem não exige gritar. ter convicção não autoriza abandonar a dúvida. e escolher um lado não dispensa ninguém da obrigação de pensar.

aliás, algumas das pessoas mais barulhentas que conhecemos demonstram uma resistência heroica a qualquer atividade intelectual. a coragem que me interessa é menos fotogênica.

é a capacidade de dizer que algo está errado mesmo quando seria socialmente mais vantajoso rir, concordar ou mudar de assunto.

é admitir que uma pessoa de quem gostamos fez algo indefensável. é reconhecer um erro no grupo ao qual pertencemos. é recusar a mentira conveniente, inclusive quando ela favorece nossas próprias convicções.

isso custa alguma coisa. e talvez seja justamente por isso que vale alguma coisa.

não precisamos de mais gente desesperada para emitir sentenças sobre o mundo. precisamos de pessoas dispostas a assumir responsabilidade pelo que conseguem enxergar, sem transformar cada discordância numa guerra particular.

a neutralidade pode ser necessária numa negociação, honesta diante de fatos insuficientes e sábia quando os ânimos estão impedindo qualquer conversa. mas também pode ser o nome respeitável que damos ao medo de desagradar, e essa segunda versão tem um preço.

porque há momentos em que ficar em cima do muro deixa de ser uma demonstração de equilíbrio. passa a ser apenas a escolha de quem descobriu um lugar confortável para assistir à queda dos outros.

ser neutro é um risco. sobretudo quando a consciência começa a cobrar explicações e descobrimos que passamos a vida inteira treinando respostas para não ter de dar nenhuma.