
eu acho obsceno, obsceno mesmo, viver num mundo onde diversidade precisa se explicar. como se fosse uma anomalia. como se fosse um excesso. como se fosse um erro de cálculo. diversidade não é uma gentileza. é uma correção tardia de uma trapaça longa, sistemática e extremamente bem-sucedida.
quando eu vejo a nike sendo investigada por “discriminar funcionários brancos”, eu não penso em justiça. eu penso em medo. medo cru, institucionalizado, vestido de legalidade. porque isso não é sobre proteger ninguém. é sobre proteger uma ordem que sempre funcionou perfeitamente para um grupo muito específico.
vamos parar com a farsa por cinco segundos. o branco nunca foi excluído do mercado de trabalho. nunca foi o “outro”. nunca precisou de política afirmativa pra entrar na sala. ele construiu a sala. ele decidiu quem entrava. diversidade surge exatamente aí, quando você olha pro histórico e percebe que, se nada for forçado, nada muda. simples, brutal, factual.
o que está sendo chamado de “discriminação” é só a interrupção do automático. é o sistema dizendo “opa, talvez não seja sempre você”. e isso, pra quem sempre foi escolhido por default, soa como violência. não é. é só o privilégio ficando visível. e privilégio odeia ser nomeado.
a comissão de igualdade de oportunidades de emprego, criada pra enfrentar discriminação real, histórica, mensurável, agora resolve mirar políticas que tentam reduzir esse abismo. isso não é ironia elegante. é regressão. é o estado dizendo “já fizemos o suficiente, agora vamos garantir que ninguém fique desconfortável demais”.
eu não acredito nessa conversa de neutralidade. nunca acreditei. neutralidade num sistema desigual é só conservação de poder. quando você investiga diversidade como se fosse crime, você não está defendendo igualdade está defendendo o passado. está dizendo que a hierarquia tradicional merece presunção de inocência eterna.
o contexto político não é detalhe, é motor. segundo mandato de donald trump, onde ressentimento virou plataforma e “racismo reverso” virou palavra aceitável em documento oficial. é o governo funcionando como terapeuta de ego ferido. “calma, a gente cuida pra que nada mude rápido demais”.
e a nike é escolhida porque é grande, visível, barulhenta. porque um dia resolveu bancar discurso com estrutura. porque amarrou bônus, metas, números. porque colocou colin kaepernick na vitrine e disse “a gente acredita nisso”. agora paga o preço por ter levado a própria narrativa a sério.
o que me revolta não é a investigação. é a mentira embutida nela. a mentira de que o jogo já estava justo. a mentira de que mérito sempre foi neutro. a mentira de que diversidade é exagero, quando na verdade ela sempre foi mínima demais.
ninguém está sendo caçado. ninguém está sendo silenciado. ninguém está sendo expulso do sistema. o que está acontecendo é infinitamente mais ofensivo para quem sempre mandou, o centro está ficando menos exclusivo. e isso, pra quem confundiu centralidade com direito natural, parece o apocalipse.
pra mim, isso tudo não fala sobre diversidade. fala sobre pânico. pânico de dividir. pânico de admitir que o topo nunca foi ocupado só pelos “melhores”. pânico de olhar pra trás e perceber que muita coisa foi herdada, não conquistada.
chamar diversidade de discriminação é o último recurso de quem não consegue mais defender o privilégio em voz alta. então transforma desconforto em processo, ressentimento em política, nostalgia em investigação federal.
não é justiça. é apego. e apego, quando vira lei, costuma feder a medo.








