
na verdade o tédio não desapareceu.
nós o expulsamos.
como se fosse um parente inconveniente que aparecia sem avisar e ficava sentado no sofá atrapalhando a festa.
e durante muito tempo isso pareceu uma grande vitória.
afinal, quem sente falta do tédio?
ninguém.
ninguém olha para os melhores momentos da vida e pensa…
“o que tornou aquilo especial foi o tédio.”
mas talvez essa seja justamente a armadilha.
porque as coisas mais importantes raramente recebem crédito.
ninguém agradece ao silêncio por uma boa conversa.
ninguém agradece à escuridão por uma noite estrelada.
e ninguém agradece ao tédio pelas ideias que surgiram dentro dele.
porque o tédio sempre trabalhou nos bastidores.
eu cresci numa época em que ficar entediado não era um acidente.
era inevitável.
você esperava.
e esperava muito.
esperava consulta.
esperava ônibus.
esperava ligação.
esperava filme passar na televisão.
esperava a locadora receber aquele lançamento.
esperava o domingo acabar.
esperava.
a vida tinha espaços vazios.
e hoje eu percebo que talvez aqueles espaços não fossem defeitos do sistema.
talvez fossem parte do sistema.
porque alguma coisa estranha acontece quando você não tem para onde fugir.
o cérebro começa a vagar.
e cérebros vagando fizeram coisas interessantes.
inventaram livros.
inventaram negócios.
inventaram músicas.
inventaram teorias.
inventaram religiões.
inventaram problemas que não existiam.
mas também inventaram praticamente tudo que vale a pena.
hoje a situação é diferente.
o tédio dura aproximadamente quatro segundos.
às vezes menos.
o elevador chega.
celular.
a fila anda.
celular.
o semáforo fecha.
celular.
o garçom demora.
celular.
você acorda.
celular.
você dorme.
celular.
é como se tivéssemos contratado um animador de festa para seguir a gente 24 horas por dia.
e ele fosse absolutamente incapaz de aceitar qualquer momento de silêncio.
eu adoro a ironia disso.
porque a internet prometeu acesso infinito à informação.
e entregou acesso infinito à distração.
não é a mesma coisa.
nem de longe.
há uma frase atribuída ao filósofo blaise pascal que me persegue há anos…
“todos os problemas da humanidade vêm da incapacidade do homem de ficar sozinho numa sala por alguns minutos.”
e toda vez que leio isso penso…
se pascal estivesse vivo hoje, provavelmente teria um ataque cardíaco observando uma fila de aeroporto.
ninguém está sozinho.
ninguém está parado.
ninguém está esperando.
todo mundo está deslizando o dedo para cima.
é quase um reflexo.
um tique coletivo.
uma resposta automática ao menor sinal de vazio.
e talvez seja aí que mora a grande tragédia cômica da nossa época.
nunca tivemos tanto acesso ao mundo.
e talvez nunca tenhamos passado tão pouco tempo dentro da própria cabeça.
porque ficar entediado era uma experiência curiosa.
primeiro vinha o desconforto.
depois a inquietação.
depois a vontade de fazer qualquer coisa.
e então, às vezes, surgia uma ideia.
não uma ideia brilhante.
não uma startup.
não uma palestra ted.
apenas uma ideia.
uma conexão.
uma lembrança.
uma pergunta.
alguma coisa que não existiria se você estivesse assistindo um vídeo de alguém organizando uma geladeira em outro continente.
eu gosto de pensar nas pessoas obcecadas que admiro.
os escritores.
os cineastas.
os músicos.
os cientistas.
os inventores.
e percebo que quase todos tinham uma relação íntima com o tédio.
não porque gostavam dele.
mas porque conviviam com ele.
o ingrediente secreto raramente era genialidade.
era atenção.
e atenção precisa de espaço.
o problema é que hoje confundimos estímulo com vida.
não são a mesma coisa.
um cassino é cheio de estímulos.
um aeroporto é cheio de estímulos.
o instagram é cheio de estímulos.
isso não significa que alguma coisa memorável esteja acontecendo.
às vezes a melhor coisa do dia acontece justamente quando nada está acontecendo.
e essa é uma ideia quase ofensiva para os tempos atuais.
porque vivemos numa cultura que transformou ocupação em virtude.
todo mundo ocupado.
todo mundo acelerado.
todo mundo atualizado.
todo mundo acompanhando tudo.
e ao mesmo tempo ninguém consegue lembrar onde deixou a chave.
ou o motivo pelo qual entrou na cozinha.
ou o que estava pensando cinco minutos atrás.
porque talvez nosso cérebro nunca tenha sido projetado para consumir o equivalente a uma biblioteca, uma emissora de televisão e um cassino antes do café da manhã.
talvez exista um motivo pelo qual as melhores ideias continuam aparecendo no banho.
porque o banho é um dos últimos lugares onde os algoritmos ainda não entraram.
ainda.
e eu acho engraçado que o tédio tenha sido vendido como inimigo durante tanto tempo.
quando talvez ele fosse mais parecido com aqueles personagens irritantes dos filmes.
o sujeito chato.
lento.
inconveniente.
mas que no final estava tentando ajudar.
porque o tédio fazia uma pergunta simples…
“e agora?”
e essa pergunta obrigava você a responder alguma coisa.
hoje a resposta já chega pronta.
antes mesmo da pergunta existir.
talvez por isso eu sinta falta dele.
não do desconforto.
não da espera.
não da chatice.
mas do espaço.
o espaço entre uma coisa e outra.
o intervalo.
a pausa.
aquele território vazio onde pensamentos estranhos apareciam sem pedir licença.
onde você observava mais.
imaginava mais.
lembrava mais.
e talvez até vivesse mais.
porque existe uma possibilidade desconfortável.
talvez o contrário do tédio não seja entretenimento.
talvez o contrário do tédio seja distração.
e essas duas coisas são muito diferentes.
uma alimenta.
a outra apenas ocupa.
e eu não consigo parar de pensar que talvez a grande rebeldia do futuro não seja largar a tecnologia.
não seja abandonar as redes.
não seja fugir para uma cabana.
talvez seja simplesmente sentar em algum lugar sem pegar o celular.
e aguentar o desconforto.
os primeiros trinta segundos parecem uma eternidade.
depois alguma coisa acontece.
o mundo desacelera.
a cabeça reaparece.
e você lembra de uma coisa que quase esquecemos completamente…
a própria companhia também pode ser interessante.








