
eu vou ser honesto, eu não queria gostar do estoicismo… não mesmo!!!
porque gostar do estoicismo significa abrir mão de um vício delicioso, o vício de estar certo sobre o meu próprio sofrimento. significa parar de tratar cada frustração como prova de que o mundo é incompetente e eu, injustiçado. significa encarar a possibilidade humilhante de que talvez eu não seja um herói trágico… talvez eu seja apenas alguém reagindo mal.
e isso dói.
o estoicismo começa com uma proposta quase insultuosa, use a razão. examine sua vida. não siga impulso, não siga tradição, não siga o que “todo mundo faz”. pense.
pensar parece nobre até o momento em que o pensamento começa a desmontar minha narrativa favorita.
lá atrás, influenciados por sócrates… aquele profissional do desconforto intelectual, os estoicos decidiram que viver sem examinar a própria mente era uma forma elegante de burrice. roma pega essa ideia meio maluca e coloca sob pressão real.
marco aurélio, sim… o imperador, homem com poder absoluto, escrevendo para si mesmo para não se tornar um tirano moral. ele podia esmagar egos como quem pisa em formiga, mas estava ocupado tentando esmagar o próprio ego. eu mal recebo um elogio público e já começo a inflar como se tivesse sido escolhido pelos deuses do bom senso.
epicteto, escravo, perna quebrada por um senhor, basicamente um homem sem controle externo algum e ainda assim afirmando que sua vontade era inviolável. enquanto isso, eu entrego meu humor ao primeiro comentário atravessado que leio.
sêneca, rico, cercado de intrigas políticas e risco constante de execução, repetindo obsessivamente que o tempo é o único bem real. não reputação. não poder. tempo. e eu continuo gastando o meu como se houvesse reembolso existencial.
o coração da coisa é essa lâmina fria chamada dicotomia do controle. decorem isso…
o que depende de mim? minha postura. minha ação. meus julgamentos. minha escolha de caráter.
o que não depende? a opinião alheia. o resultado. o reconhecimento. o comportamento dos outros. o acaso. o corpo. o passado. o futuro.
basicamente tudo o que eu uso como desculpa, todo santo dia da minha vida.
eu digo que estou ansioso por causa das circunstâncias. eu digo que estou irritado por causa das pessoas. eu digo que estou frustrado por causa do cenário.
mas, se eu tiver coragem suficiente para não mentir para mim mesmo, estou reagindo. só isso. reagindo como qualquer outro animal levemente sofisticado.
eu adoro reclamar. reclamar me dá personalidade. reclamar me dá palco. reclamar me faz parecer crítico. mas reclamar raramente muda algo. aceitar ou agir exige algo que reclamar não exige, a tal responsabilidade.
comparação é ainda pior. eu me comparo com resultados alheios como se tivesse acesso às variáveis internas. eu comparo meu capítulo dois com o capítulo vinte de outra pessoa. e depois me surpreendo ao me sentir pequeno. é quase uma forma de automutilação emocional, só que socialmente aceita.
insultos? hehe, essa é boa. eu digo que não me importo, mas basta alguém tocar no ponto certo e minha mente começa a redigir respostas imaginárias, discursos heroicos, argumentos brilhantes que eu nunca vou dizer em voz alta. o estoicismo pergunta algo devastador…
por que isso tem poder sobre você?
se eu realmente fosse sólido, por que a opinião de alguém me desestabiliza tanto?
ansiedade? eu ensaio tragédias que ainda não aconteceram, meu cérebro não para um segundo. eu pago juros emocionais por eventos hipotéticos. eu transformo possibilidades em certezas catastróficas. é quase um hobby mental. visualizar o pior cenário, como sugerem os estoicos, não é pessimismo, é desinflar o drama.
e procrastinação? essa é a parte mais cínica de mim. eu digo que estou esperando o momento certo. a verdade é que estou esperando não sentir medo. mas o tempo, esse recurso que ninguém devolve, continua passando enquanto eu negocio comigo mesmo.
o estoicismo é provocativo porque elimina minhas desculpas elegantes.
não posso mais culpar o mundo pela minha falta de disciplina. não posso mais culpar os outros pela minha instabilidade. não posso mais transformar desconforto em identidade.
ele me deixa nu diante de uma pergunta simples e incômoda…
isso depende de você?
se não depende, por que você está sofrendo como se dependesse? se depende, por que você ainda não fez nada?
e aqui está a nuance que me impede de virar fanático, estoicismo não é virar pedra. não é desligar emoções. é não permitir que elas assumam o volante. eu posso sentir raiva sem virar refém da raiva. posso sentir medo sem deixar que ele dite minha rota.
no fundo, o estoicismo é menos sobre calma e mais sobre soberania.
é sobre parar de viver em reação. é sobre parar de terceirizar meu estado emocional. é sobre agir por princípio, não por impulso.
ele não promete que eu vou me sentir incrível. ele promete que eu vou parar de ser ridiculamente previsível.
e talvez seja isso que torna tudo tão desconfortável.
porque no fim, não é o mundo que precisa ser controlado.
sou eu.








