
escrever essa frase já produz uma sensação curiosa porque, ao contrário da primeira vez, agora eu não posso alegar desconhecimento. da primeira vez havia inocência. curiosidade. aquela estupidez útil que acompanha quase todas as decisões interessantes da vida. você olha para uma ultramaratona e pensa que deve ser difícil, claro, mas “difícil” é uma palavra extremamente elegante quando você ainda está sentado tomando café. difícil parece nobre. difícil parece desafio. difícil fica maravilhoso numa legenda. o problema é que eu já descobri o que “difícil” significa depois de horas correndo, quando seu corpo começa a enviar memorandos bastante objetivos sugerindo que talvez aquela atividade não seja necessária para a continuidade da espécie. eu conheço essa parte. conheço o cansaço, conheço a dor, conheço aquela negociação ridícula consigo mesmo em que você promete coisas que não tem autoridade nenhuma para conceder. e mesmo assim, em algum momento perfeitamente tranquilo da minha vida, sem ninguém me perseguindo e com meios de transporte modernos disponíveis, pensei que seria uma ótima ideia fazer tudo de novo.
isso muda bastante a natureza da decisão. fazer uma ultramaratona uma vez pode ser curiosidade. pode ser coragem. pode ser crise. pode ser uma sequência infeliz de decisões depois de comprar um tênis caro. fazer outra sabendo exatamente o que vem pela frente é mais difícil de defender. agora existe dolo. premeditação. eu não tropecei numa ultramaratona. não fui enganado por uma propaganda. ninguém apareceu na minha casa dizendo que minha família seria libertada se eu percorresse uma distância absurda usando shorts. fui eu. eu tive a ideia. analisei. considerei as consequências. e concluí que sim, aparentemente minha vida estava confortável demais.
e talvez seja justamente isso.
conforto é uma coisa maravilhosa. eu recomendo. cama boa, comida boa, ar-condicionado, carro, elevador, sofá, controle remoto, entrega em casa. a humanidade passou milhares de anos tentando diminuir a quantidade de sofrimento necessária para sobreviver e conseguiu resultados extraordinários. aí aparece um grupo de pessoas com relógios caros no pulso e decide voluntariamente correr distâncias que fariam nossos ancestrais perguntar onde exatamente está o predador. existe alguma coisa profundamente idiota nisso. e justamente por isso talvez exista alguma coisa profundamente humana também.
não quero transformar isso numa história sobre vencer limites. tenho certa alergia a essa expressão. “superar limites” virou uma daquelas frases que servem para tudo e, portanto, já não significam quase nada. você supera limites numa ultramaratona, numa reunião de vendas, numa terça-feira motivacional do linkedin e provavelmente comprando um curso parcelado em doze vezes. não é isso que me interessa. eu também não estou voltando porque preciso provar que sou capaz. essa talvez fosse uma justificativa razoável da primeira vez. agora eu já sei que consigo. o problema é exatamente esse. saber que você conseguiu uma vez não responde se ainda existe dentro de você aquela pessoa que conseguiu.
porque uma coisa desagradável acontece com o tempo. a gente começa a proteger demais a versão atual de nós mesmos. organiza a agenda, reduz riscos, conhece as próprias preferências, evita desconfortos desnecessários e chama isso de maturidade. muitas vezes é. outras vezes talvez seja apenas uma maneira socialmente aceitável de dizer que ficamos muito bons em não fazer nada que possa nos colocar em dúvida novamente. e eu tenho uma desconfiança crescente de qualquer vida em que tudo começa a ficar previsível demais. não porque sofrimento seja bonito. sofrimento gratuito é apenas sofrimento, e normalmente vem acompanhado de uma conta médica. mas existe uma diferença entre sofrer porque a vida decidiu e escolher deliberadamente alguma coisa difícil porque você quer descobrir o que acontece quando as desculpas acabam.
uma ultramaratona é particularmente eficiente nisso porque ela não se impressiona muito com quem você acha que é. currículo não ajuda. cargo não ajuda. seguidores não ajudam. dinheiro não negocia com o quilômetro seguinte. em algum momento, todas aquelas histórias que contamos sobre nós mesmos ficam meio inúteis. você não é executivo, criador, empreendedor, especialista, pai, chefe ou qualquer outro título que tenha aprendido a colocar depois do próprio nome. você é apenas um animal cansado tentando convencer duas pernas de que ainda existe uma razão razoável para continuar. é um processo bastante democrático.
e existe um momento em provas longas que eu acho fascinante. motivação acaba. aquela energia bonita do começo desaparece. a música perde efeito. frases inspiradoras começam a soar como aquilo que sempre foram, frases. você já não está construindo caráter, transformando sua vida ou inspirando ninguém. você está cansado. talvez irritado. provavelmente se perguntando por que não escolheu ciclismo, xadrez ou simplesmente brunch. e aí sobra uma coisa muito menos cinematográfica e muito mais interessante. continuar.
talvez seja isso que eu esteja procurando de novo.
não a medalha. medalhas de participação são objetos estranhos. durante algumas horas parecem representar a coisa mais importante do universo e depois passam vinte anos numa gaveta ao lado de cabos que você tem medo de jogar fora. eu nem sei aonde estão minhas medalhas de maratonas e ultras… também não é o tempo, a colocação ou qualquer fantasia heroica sobre cruzar uma linha de chegada. ninguém está esperando um épico. o mundo continuará funcionando normalmente enquanto eu estiver em algum lugar discutindo mentalmente com minhas panturrilhas.
o que me interessa é o caminho até lá. aquela longa sequência de manhãs em que você não está com vontade. os treinos que ninguém vê. a alimentação que precisa melhorar. o sono que deixa de ser negociável. a disciplina tediosa, repetitiva e completamente sem glamour que existe antes de qualquer coisa que depois pareça extraordinária. porque a parte mais engraçada de uma ultramaratona é que a prova recebe toda a atenção, mas ela é quase um detalhe. a decisão verdadeira acontece centenas de vezes antes, normalmente cedo demais, quando ninguém está olhando e seria infinitamente mais agradável continuar na cama.
e eu já consigo prever algumas conversas. “mas por quê?”
excelente pergunta.
não tenho uma resposta particularmente boa.
e talvez eu goste disso.
vivemos uma época em que tudo precisa ter propósito, estratégia, retorno, métrica, monetização e, se possível, um dashboard. até hobbies precisam virar projetos paralelos. você cozinha e daqui a pouco alguém pergunta se pensou em abrir um canal. corre e perguntam se vai produzir conteúdo. lê livros e aparentemente precisa publicar a lista. existe algo quase subversivo em fazer uma coisa enorme, difícil e inconveniente simplesmente porque você decidiu que quer fazê-la.
talvez eu esteja ficando maluco.
é uma hipótese bastante sólida.
mas existe uma diferença importante. da primeira vez eu era um maluco inocente. agora sou um maluco informado.
eu sei o que vai doer. sei o tempo que vai exigir. sei quantas manhãs vou acordar desejando profundamente ter escolhido outra obsessão. sei que em algum momento vou me perguntar por que diabos tomei essa decisão. e sei que provavelmente, quando estiver lá, cansado, destruído e prometendo solenemente que nunca mais farei isso, uma parte de mim estará exatamente onde queria estar.
porque talvez existam versões nossas que só aparecem quando o conforto termina.








