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2025

chacina

eu vi na tv.
de novo.
mais uma vez.
como sempre.
o brasil, esse país viciado em sangue periférico, tava transmitindo seu reality show favorito…
‘chacina ao vivo especial complexo da penha’.
o mesmo episódio de sempre, só com cadáveres novos.

dessa vez, o número chegou num patamar tão obsceno que nem o datafolha conseguiu piscar.
mais de 120 mortos.
isso mesmo.
cento e vinte seres humanos. até agora.
num só dia, num só lugar.

claro que ninguém disse isso com todas as letras.
ninguém na globo news largou um “e hoje o estado brasileiro executou em massa seus cidadãos”
não.
o termo usado foi aquele clássico…
“ação policial de grande envergadura contra o tráfico.”

sério.
grande envergadura.
soa quase como se fosse uma orquestra sinfônica.
mas no lugar de violinos, tem fuzil.
no lugar de maestro, tem caveirão.
e no lugar de aplauso no final… bem, tem sim. só que vem da sacada da classe média.

aí a memória puxa o que sempre puxa quando a gente vê o chão da favela inundado de sangue…
o ano é 2010.
o palco é o mesmo, complexo do alemão.
o show pirotécnico é o mesmo… tanques, helicópteros, uns 3 mil policiais, transmissão ao vivo.
faltava só a vinheta da globo com aquele fundo azul e um “o estado entra na favela com amor”.

lembra disso?
porque eu lembro nitidamente.
aquela entrada era pra “pacificar”, disseram.
um banho de presença institucional, marketing institucional e porrada institucional.
a ideia era enfiar uma upp em cada viela, como quem enfia uma babá eletrônica armada no berço da desigualdade.

mas ninguém contou que a upp era feita de papelão.
funcionava na marra, com farda, com pose.
mas sem salário, sem política social, sem nada.
morreu rápido.
mais rápido do que o tempo que leva pra um governador dizer “não vamos recuar”.

e o que sobrou?
a memória das promessas.
e 37 corpos, segundo dados oficiais da ocupação.
(bem, não eram 20 eram quase o dobro.
mas no brasil, contagem de corpo de favelado é tipo conta de bar sem nota fiscal, sempre dá menos do que foi consumido.)

só que naquela época, a galera ainda queria fingir que tava salvando o rio.
a ocupação de 2010 tinha roteiro.
beltrame era o mocinho.
tinha narrativa, tinha powerpoint, tinha nota da onu, tinha foto com criança sorrindo ao lado do pm. só esqueceram de combinar com a realidade.

a favela não virou suíça. virou cenário.
um cenário pra gringo ver, pra político subir nas pesquisas, e pra imprensa fingir que tava acontecendo algo novo.
spoiler… não tava.
era só mais uma operação disfarçada de abraço.
e o abraço veio com a coronha do fuzil.

aí corta pra 2025.
o estado parou de fingir.
agora é bala mesmo.
sem purpurina.
sem promessa.
sem upp.
sem beltrame.

o nome do jogo hoje é “missão dada é missão cumprida”,
que basicamente significa:
“entre, mate o máximo possível, diga que eram suspeitos e suma.”

sabe quantas armas foram apreendidas agora, em 2025?
não muitas. e quase todas no mesmo local já conhecido…
mas também, dane-se.
ninguém quer arma.
quer sangue.
quer mostrar força.
quer ver a favela calada ou morta.

e o mais nojento de tudo… a naturalização.
a forma como essa matança virou tradição.
um evento semestral.
tipo desfile da beija-flor, só que com mais sangue e menos plumas.
a cada nova operação, a imprensa finge surpresa.
os políticos fingem indignação.
e a população?
bem… ela já entendeu o enredo.

a regra é simples…
quem nasceu fora do asfalto, tá condenado.
quem mora onde o caminhão do lixo nem entra direito, pode morrer sem que ninguém pergunte o nome.
é tipo isso, se você mora na favela, já nasce com um alvo nas costas e um cronômetro na testa.

porque aqui, a favela não é território a ser cuidado.
é território a ser controlado.
e quando o controle falha, vem a punição.
e a punição é sempre coletiva, sempre cruel, e sempre com cobertura ao vivo.

é o mesmo roteiro desde sempre.
mas agora, em 2025, o brasil finalmente aceitou que não quer pacificação.
quer pacificação de cemitério.
quer segurança tipo limpeza urbana… jogando tudo pra debaixo do tapete ou pra dentro da vala.

e se você ainda não entendeu o tamanho do abismo moral em que a gente caiu, pensa comigo… a gente matou mais de 120 pessoas num único dia e o assunto não vai durar uma semana no noticiário.
no brasil, chacina tem prazo de validade menor que requeijão.

e olha que louco…
a gente já chegou num ponto onde até a indignação virou luxo.
não é que as pessoas achem normal
elas só desistiram de achar anormal.

e assim seguimos.
entre tanques, helicópteros, e o velho meme do datena gritando “bandido bom é bandido morto” enquanto o país escorre por uma sarjeta moral.

não tem solução fácil.
não tem texto otimista no final.
tem só isso…
um estado que falhou em cuidar, mas se especializou em matar.
e um povo que aprendeu a aplaudir cada cadáver desde que ele não se pareça com seu filho.

então sim.
eu vi.
e se você também viu
e não sentiu nem raiva, nem enjoo, nem vergonha
então o problema não tá só lá na favela.
tá aqui. na gente.
porque aceitar essa merda como normal é o começo do fim.
e talvez, meu amigo e amiga, a gente já tenha passado do meio faz tempo.

boa sorte pra todos nós.
e que a próxima operação seja longe da sua casa porque é assim que você mede privilégio nesse país.
pela distância entre sua porta e o caveirão.