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2025

então é natal

final de ano é aquele fenômeno curioso em que o tempo não passa, mas o relógio insiste. os dias entre o natal e o ano novo formam um limbo social onde ninguém sabe que dia é, mas todo mundo sabe que está levemente irritado. você acorda, olha o celular, vê mensagens que não pediu, responde com emojis que não representam nada e já se sente cansado. e ainda nem almoçou.

as pessoas ficam estranhamente performáticas. todo mundo anda com um senso de urgência que não leva a lugar nenhum. “antes do ano acabar”, dizem, como se o ano fosse uma porta automática prestes a fechar e alguém fosse ficar do lado de fora pra sempre. spoiler: não vai. o ano acaba indiferente, sem olhar pra trás, como um garçom cansado ignorando o último cliente que ainda quer sobremesa.

as festas funcionam num protocolo invisível. você chega, cumprimenta, repete a mesma conversa três vezes com pessoas diferentes e começa a perceber que poderia ter gravado respostas padrão. “e o trabalho?” ocupado. “e a vida?” indo. “e os planos?” vamos ver. ninguém quer detalhes. detalhes dão trabalho.

a comida fica lá, ocupando espaço emocional. ninguém está com fome de verdade. as pessoas comem porque está ali, como se fosse um teste social. se você não comer, alguém vai notar. se você comer demais, alguém vai comentar. então você come o suficiente pra não virar assunto, o que é o verdadeiro objetivo de qualquer refeição em dezembro.

o álcool, esse sim, entende tudo. ele não julga, não pergunta planos, não espera nada de você. ele só entra, organiza o caos interno por algumas horas e depois vai embora deixando um bilhete escrito “problema seu”. honesto. refrescante.

a conversa sempre desce praquele território nebuloso onde alguém solta: “esse ano passou rápido, né?” e todo mundo concorda automaticamente, mesmo sabendo que foi longo, cansativo e cheio de reuniões que poderiam ter sido e-mails. mas discordar exigiria reflexão, e ninguém veio pra isso.

quando o réveillon se aproxima, surge o teatro principal. roupas escolhidas como se fossem importantes, cores simbólicas que ninguém lembra o significado, rituais repetidos sem muita convicção. não é fé, é hábito. e hábito é só fé cansada.

a contagem regressiva começa e, por dez segundos, existe uma concentração coletiva impressionante. todo mundo focado. unidos. atentos. zero. explosão de barulho. abraços desalinhados. desejos genéricos. “tudo de bom”. o que é tudo de bom? ninguém sabe. mas soa educado.

logo depois, a energia cai. rápido. você sente. é quase físico. o momento passou e deixou para trás copos vazios, promessas sem contrato e um silêncio estranho disfarçado por música alta. alguém já está falando de ir embora. alguém já está falando de continuar. ninguém sabe o que quer, só sabe que não quer estar completamente só ainda.

final de ano não transforma ninguém. ele só amplifica. quem é inconveniente fica mais. quem bebe, bebe mais. quem finge, finge com mais empenho. é um espelho mal iluminado, mas ainda assim um espelho.

e no dia seguinte, tudo fica estranhamente normal. sobra de comida, fotos tremidas, mensagens atrasadas. o mundo continua exatamente onde estava. nenhuma revelação. nenhuma mudança estrutural. só você, um pouco mais cansado, um pouco mais cético, e completamente certo de uma coisa:

ano que vem vai ser igual.
e você vai estar lá de novo.