
acordei com cheiro de queimado no ar.
não era floresta. não era óleo de motor em queimada ilegal.
era plástico. borracha. o símbolo máximo do verão tupiniquim em combustão… havaianas, pegando fogo em vídeos de story com a mesma dramaticidade de um episódio de novela mexicana.
e tudo por quê?
por causa de uma propaganda de fim de ano.
com fernanda torres, claro. aquela que você respeita só até ela dizer algo que contrarie o seu feed.
“não entre 2026 só com o pé direito. entre com os dois.”
pronto. corta para… histeria coletiva.
os teóricos do caos digital interpretaram essa frase como se fosse um código secreto da nova ordem mundial.
“pé direito = direita. ah, então é contra a direita? meu deus. temos um golpe!”
gente no instagram chorando em posição fetal sobre um tapete de grama sintética.
influencer gravando vídeo, olhando pra câmera como se tivesse assistido a execução pública de dom pedro I em hd.
“nunca mais compro havaianas” disse o cidadão que tem quatro pares no armário e um no pé enquanto grava o vídeo.
e aí vieram os grandes generais do delírio…
eduardo bolsonaro, com aquele carisma de samambaia vencida, apontando o dedo pra um comercial de chinelo como se tivesse encontrado o manifesto comunista impresso na sola.
nikolas ferreira, aquele aluno que copia a lição errada, subindo em caixa de som pra avisar que o fim dos tempos chegou… com tirinha colorida.
a hashtag #havaianasnolixo subindo mais rápido que inflação em ano eleitoral.
até aí, tudo previsível.
a ala do “mimimi é coisa de lacrador” provando, mais uma vez, que são os maiores chorões da história do continente.
a galera que diz “chora mais, esquerdista” tava literalmente jogando chinelo no lixo com trilha sonora triste como se tivessem sido traídos por um par de sandálias.
um espetáculo patético.
o que falta em coerência, sobra em performance.
mas aí…
mas estamos falando de brasil e sim, sempre têm o plot twist.
enquanto uma parte da população queimava havaianas em praça pública digital, a outra…
correu pras lojas.
sim, o brasileiro é um gênio do caos.
enquanto metade chorava, a outra metade dava risada e comprava o mesmo chinelo em promoção.
teve fila. teve esgotamento de modelos. teve gente postando “agora sim vou comprar 5 de cada cor”.
teve gente criando meme…
“meu pé é progressista.”
“essa havaiana pisa mesmo.”
montagem da fernanda torres com armadura de guerreira da representatividade.
vídeo de pessoas entrando com os dois pés literalmente, sambando dentro da loja da havaianas.
e aquele, claro, do cara abrindo o portão do inferno com uma sandália dizendo… “entrei com os dois pés, e foda-se.”
o brasileiro é a versão latina de um gremlin molhado.
quanto mais caos você joga, mais ele se multiplica, ri, edita, compartilha e transforma tudo num universo paralelo onde o sarcasmo é língua oficial e a ironia paga imposto.
o mais delicioso?
a própria marca, a havaianas, não disse uma palavra.
nada. nem uma vírgula.
ela assistiu de camarote, enquanto o país derretia em threads e reels e stories e linchamentos simbólicos.
e no meio do tiroteio, ela vendeu. vendeu pra caralho.
ações caíram no começo? sim.
mas o barulho virou buzz, o buzz virou trend, e a trend virou capital cultural.
se você acha que ela perdeu, você é novo aqui.
no brasil, cancelar é fazer propaganda gratuita.
cancelar é impulsionar.
é colocar o produto na boca da massa.
a pessoa que te xinga hoje é a mesma que daqui a dois meses vai comprar a versão collab com a farm porque achou a estampa “vibrante”.
então no fim, todo mundo saiu ganhando.
até o idiota que queimou o chinelo, porque agora tem vídeo viral com 30 mil views e um link na bio vendendo curso de “despertar conservador”.
e eu?
eu tô aqui.
cansado.
observando esse país que conseguiu transformar um calçado feito pra andar na areia e tomar cerveja num símbolo de guerra civil estética.
um país onde a direita chora por chinelo e a esquerda transforma meme em ideologia de consumo.
onde a militância é movida por algoritmos, e a identidade é medida em número de curtidas.
e fernanda torres?
essa já tá deitada na rede, rindo.
enquanto você briga por frase de 5 segundos, ela tá sendo chamada de ícone, musa, herege, salvadora, bruxa, lenda, traidora, visionária, comunista, heroína e atriz global decadente… tudo ao mesmo tempo.
e a verdade, como sempre, tá ali no meio.
ninguém tá certo. ninguém tá errado.
todo mundo tá apenas… brasileiro.
vivendo, performando, gravando o próximo reels com trilha de “evidências” e uma legenda tipo…
“quando você descobre que até o chinelo tem opinião.”
passa o gin.
e que venha o próximo escândalo inventado.
porque nesse país, a próxima crise começa em três, dois, um…