
deportação em massa. puta que pariu. só de pronunciar isso em voz alta eu já sinto o gosto metálico do fracasso humano, tipo café requentado numa lanchonete de rodoviária às quatro da manhã, servido por um cara que também tá a um passo de ser deportado porque ficou três dias a mais do que o visto permitia. três dias. tempo suficiente pra você assistir uma série ruim da netflix, mas o suficiente pro estado te enfiar num avião de volta pro caos.
porque, veja bem, nesse nosso maravilhoso mundo moderno… cheio de tecnologia, inteligência artificial e gente fingindo que medita, morar no “lugar errado” agora é crime. viver, respirar, pagar aluguel e tentar sobreviver do lado errado da linha imaginária desenhada por colonizadores bêbados no século XIX é motivo suficiente pra te algemar e te jogar pra fora como se fosse lixo reciclável com o adesivo vencido.
e é sempre essa a narrativa, né? “invasores”, “ilegais”, “ameaça à soberania”. ah, claro, porque nada destrói um país mais rápido do que uma senhora boliviana vendendo empanada na esquina. é o verdadeiro terror. cancela os mísseis, fecha os bancos, esquece os bilionários sonegadores, o verdadeiro apocalipse é um guatemalteco tentando limpar seu pára-brisa por uma moeda.
mas a beleza grotesca disso tudo tá na coreografia. é balé estatal. helicóptero no céu, carros blindados na rua, homens engravatados dando entrevista sobre “ações coordenadas”. parece filme. só que não tem final feliz. só tem a criança de oito anos chorando num canto de aeroporto, com uma etiqueta pendurada no pescoço como se fosse bagagem extraviada.
e no meio disso tudo, a porra da “lei”. a palavra mágica. o abracadabra do escroto. “é a lei”. porque se tem algo que a humanidade aprendeu a fazer bem, é usar a burocracia como desculpa pra atrocidade. é assinar papéis, carimbar, sorrir pra câmera e dizer: “não é pessoal, é só protocolo.” o tipo de frase que você espera ouvir de um assassino de aluguel ou de um gerente de rh.
sabe, fico lembrando de um cara idealista e chapado de utopia que um dia ousou cantar “imagine there’s no countries”. lindo, né? só que hoje, se o lennon aparecesse com essa ideia num fórum da união europeia, era deportado em menos de 24 horas. “subversivo”, “desestabilizador”, “perigo à ordem pública”. e o pior é que ele seria preso antes do refrão.
mas a real é que imaginar um mundo sem fronteiras virou piada. virou camiseta de festival de música indie. virou bio de instagram com bandeirinhas e discurso de paz, paz, paz, desde que o cara “do outro país” não venha morar na sua rua. aí fudeu. aí vira questão de segurança.
e vamos ser sinceros aqui, entre um trago e outro, esse mundo não tem medo de imigrante. ele tem nojo. e o nojo é seletivo. porque se o cara vem da noruega, de mochila nas costas, dizendo “i’m here to find myself”, ele é bem-vindo. agora se ele vem do sudão, dizendo “i’m here to not fucking die”, ele é deportado.
essa é a verdade. crua, suja e malpassada. um mundo onde o passaporte vale mais que caráter. onde o lugar onde você nasceu decide se você pode viver com dignidade ou se vai ser escoltado até o portão de embarque como se fosse contrabando humano.
e o mais insuportável é a falsa compaixão. o tweet choroso, a nota oficial, o discurso com lágrimas ensaiadas. “lamentamos profundamente”, “foi uma decisão difícil”, “respeitamos os direitos humanos”. tudo isso enquanto apertam o botão que manda mais um ser humano pro olho do furacão. é como colocar ketchup numa ferida aberta e chamar de cura.
então sim, meus amigos, isso aqui não é só uma política pública. é um espetáculo de indiferença. é a arte fina de transformar dor em dado estatístico. é o retrato perfeito de um mundo que se acha civilizado mas ainda usa arame farpado pra decidir quem merece respirar.
e eu? eu continuo aqui, comendo comida de rua, cruzando fronteiras que ainda me deixam entrar, ouvindo histórias que não cabem em relatório da imigração. continuo sentado ao lado do cara que fugiu da fome e foi parar lavando prato num restaurante de luxo onde ninguém sabe o nome dele. mas ele sabe o nome de todos os clientes. porque tem que saber. é isso ou deportação.
imagine all the people, living for today?
não dá, john. tem gente que tá só tentando viver até amanhã sem ser tratado como uma falha no sistema.
e isso, meu caro, é a maior merda de todas.