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2025

ser bom hoje em dia

sabe o que me irrita profundamente? tipo… no osso, na alma, no nervo exposto da existência? essa merda de sensação constante de que ser uma boa pessoa virou uma aberração social. um erro de sistema. uma falha de caráter. eu acordo todo dia com essa ideia fixa martelando na cabeça… por que caralhos é tão difícil simplesmente não ser um babaca? não deveria ser fácil? não deveria ser a porra do padrão mínimo? mas não. é como se o mundo tivesse entrado num pacto coletivo de “vamos todos fingir que empatia é opcional e caráter é coisa de trouxa”.
e olha, eu não tô falando de ser santo, não. não tô me candidatando a mártir do século. eu tenho minhas merdas, meus rancores, minha lista de gente que eu gostaria de ver tropeçando de cara num lego. mas mesmo assim, mesmo com o caos diário, eu insisto em não querer ser um escroto. e isso, hoje, já é pedir demais.
porque ser bom agora virou um tipo de resistência. virou subversão. virou quase crime. se você é honesto, te chamam de ingênuo. se é gentil, te acham manipulador. se mostra vulnerabilidade, parece que abriu a temporada de caça. e o pior, se você tenta manter uma integridade básica, as pessoas olham pra você como se tivesse saído de um museu, uma peça de arqueologia emocional.
e nem adianta tentar se adaptar, porque o jogo tá viciado. a regra é clara… ou você pisa ou é pisado. e quem tenta não pisar em ninguém, quem tenta andar com algum senso de direção moral, acaba sendo atropelado por uma manada de egos inflados, sorrisos falsos e frases motivacionais coladas com cuspe. é isso. a humanidade trocou o manual de ética por um carrossel de frases do pinterest.
e aí, claro, vem aquela voz interior me perguntando: “pra quê continuar tentando, então?” e a resposta é simples, porém desconfortável, porque eu me recuso a me tornar mais um pedaço da merda disfarçada de gente que anda por aí fingindo que é normal agir como um sociopata funcional. não dá. eu vejo isso nos olhos dos outros. esse vazio operante. esse desespero disfarçado de autoconfiança. esse ego mastigando qualquer traço de bondade como se fosse sinal de fraqueza.
e sabe qual é a ironia? ninguém quer admitir que sente falta disso. falta de alguém que escuta sem esperar a vez de falar. de alguém que ajuda sem postar. de alguém que discorda sem desejar sua morte. mas tá todo mundo com medo. medo de parecer humano. medo de não ter o cinismo necessário pra ser aceito no clube dos desgraçados que decoram mantras de autoestima mas não sabem olhar nos olhos de verdade.
eu olho em volta e tudo parece uma simulação mal feita. a gentileza é medida em likes. o arrependimento é escrito com legenda. a compaixão tem prazo de validade… 24 horas no stories. o altruísmo vem com qr code pra doação. e a verdade? a verdade virou uma velha chata que ninguém mais convida pra festa.
então não, eu não sou uma boa pessoa no sentido comercial do termo. eu não fico sorrindo pra todo mundo. não compro curso de empatia. não sigo guru de chakras digitais. mas também não piso em ninguém pra subir. e só isso, nesse mundo doente que valoriza quem grita mais alto e engana melhor, já me coloca na categoria de “boa pessoa”. o que é, por si só, trágico pra caralho.
então eu continuo. não porque acredito que vou mudar o mundo. mas porque me recuso a me tornar aquilo que eu mais desprezo… gente que confunde frieza com força. gente que acha que sensibilidade é defeito de fabricação. gente que se olha no espelho e só enxerga o próprio marketing.
ser bom hoje é isso. andar desarmado num campo minado e ainda ter que sorrir quando explodem do seu lado. é perder mais do que ganhar. é sair sujo, ferido, cansado… mas inteiro. e olha, nessa merda de mundo, sair inteiro já é milagre o suficiente.