
esse assunto nunca foi neutro e nunca vai ser. quem tenta tratar isso como capítulo distante de livro escolar está mentindo ou se protegendo. eu não tenho esse luxo. os black panther party não surgiram de um surto ideológico coletivo nem de um delírio revolucionário romântico. eles surgiram porque o estado falhou. falhou de forma sistemática, violenta e deliberada.
em 1966, em oakland, huey p. newton e bobby seale não estavam interessados em slogans bonitos nem em convencer a américa branca de que eram “bons cidadãos”. isso é leitura posterior, higienizada. o que eles entenderam foi simples e brutal, a polícia operava como força de ocupação em bairros negros, e ninguém iria intervir. então eles decidiram observar, confrontar e expor. armados. legalmente. estudando cada vírgula da lei da califórnia melhor do que os próprios policiais. isso não era teatro. era inteligência política aplicada ao medo.
o detalhe que sempre incomodou mais não foram as armas. foram os livros. foram os programas. os panteras tinham um programa político claro, marxista, antirracista, anti-imperialista. falavam de exploração econômica, de encarceramento em massa antes mesmo de o termo virar moda acadêmica. criaram estruturas paralelas porque sabiam que esperar do estado era aceitar a violência como rotina. clínicas comunitárias, educação política, apoio jurídico. isso desmonta qualquer narrativa fácil de “grupo extremista sem causa”. extremismo, naquele contexto, era sobreviver.
o estado respondeu como sempre responde quando alguém expõe sua incompetência moral… com repressão total. o fbi, sob j. edgar hoover, decidiu que os panteras eram a maior ameaça interna do país. não os nazistas. não a ku klux klan. jovens negros organizados. o programa cointelpro foi usado como arma silenciosa, infiltração, desinformação, paranoia fabricada, brigas internas estimuladas artificialmente. líderes presos por acusações frágeis. outros assassinados. fred hampton foi morto enquanto dormia, numa operação policial que o estado tentou vender como confronto. não foi. foi execução política.
o que me provoca não é só o que foi feito com os panteras, mas o esforço quase desesperado de transformar tudo isso em passado encerrado. como se fosse um erro histórico isolado, uma febre dos anos 60. como se as condições que criaram o movimento tivessem desaparecido. não desapareceram. só mudaram de uniforme e vocabulário.
quando olho para os estados unidos sob trump, vejo a mesma lógica operando com nova embalagem. o medo como política pública. o inimigo interno reciclado. antes, negros organizados. agora, imigrantes. o ice se tornou o símbolo mais visível dessa continuidade… batidas em comunidades, prisões arbitrárias, famílias separadas, tudo legitimado por um discurso burocrático de “lei e ordem”. a mesma frase. sempre a mesma frase.
os protestos contra o ice não surgem do nada. surgem do mesmo lugar que os panteras surgiram, da percepção de que o estado não protege, persegue. de que a lei não é neutra, é seletiva. quando pessoas bloqueiam carros do ice, quando se organizam em redes comunitárias para avisar sobre batidas, quando se recusam a cooperar com a máquina, a reação é imediata. chamam de radicalismo. de anarquia. de ameaça à democracia. exatamente os mesmos rótulos usados contra os panteras.
a diferença é que hoje fingimos surpresa. fingimos que não entendemos de onde vem a raiva. fingimos que protesto deve ser educado, silencioso, inofensivo. os panteras nunca acreditaram nisso. eles sabiam que protesto que não incomoda é decoração urbana. e talvez seja isso que mais assuste até hoje, a clareza.
eu não romantizo os panteras. eles erraram. tinham conflitos internos, machismo, disputas de poder, decisões ruins. isso não os invalida. isso os humaniza. o que invalida a narrativa oficial é fingir que o estado agiu por excesso e não por método. a repressão foi racional, calculada e eficiente. e funcionou. mas não matou a ideia.
o que conecta os panteras negras às ruas contra o ice não é estética, nem palavra de ordem, nem nostalgia revolucionária. é a compreensão profunda de que direitos só existem enquanto são exercidos. de que organização comunitária sempre será vista como ameaça quando expõe a falência moral do poder. de que o medo do estado nunca é do caos, é do controle escapando pelas frestas.
os panteras negras não pertencem ao passado. pertencem a toda vez que alguém decide não pedir permissão para existir. e isso continua sendo, para os estados unidos, o pecado original que nunca foi perdoado.