
vamos parar de fingir que o caso do cão orelha é um “desvio”, um “episódio triste”, uma “fatalidade”. não é. é um manual não escrito de como o brasil realmente funciona quando crueldade, dinheiro e privilégio se sentam à mesma mesa.
um cachorro comunitário é espancado até não sobrar escolha além da eutanásia. e enquanto a vida dele escorre pela areia, quem fez aquilo segue a vida normalmente. alguns dias depois, passaporte carimbado, sorriso em frente ao castelo da disney, como se o mundo real fosse só um inconveniente mal programado. isso não é detalhe grotesco, é a metáfora perfeita. o recado é claro… existem pessoas para quem consequência é opcional.
aí começam as manobras adultas. ameaça, coação, tentativa de comprar silêncio, empurrar medo pra quem viu demais. porque no brasil, a violência raramente vem sozinha, ela vem escoltada por telefone tocando tarde da noite e alguém dizendo “é melhor você ficar quieto”. isso não é teoria. isso é prática antiga. é a herança que passa de geração em geração junto com o sobrenome.
e quando a população percebe isso, o que acontece? explode. nomes vazam. dados circulam. o linchamento digital começa. e aí surgem os moralistas de última hora perguntando se “isso é certo”. claro que não é bonito. claro que é perigoso. mas vamos parar de fingir surpresa, o vazamento nasce quando a confiança morre. ninguém pede justiça com as próprias mãos quando acredita que a justiça institucional vai chegar primeiro.
o desejo de vingança não surge porque as pessoas são más. surge porque elas estão cansadas de assistir ao mesmo filme… crime, dinheiro, advogado, silêncio, esquecimento. o povo não quer sangue, quer prova de que o jogo não está roubado. quando essa prova não vem, o instinto fala mais alto que o código penal.
e a parte que ninguém quer encarar,
defender cegamente o anonimato, o “devido processo” e o silêncio absoluto sem reconhecer o contexto de privilégio e impunidade não é neutralidade, é tomar partido do sistema que falhou. a lei existe pra proteger direitos, não pra virar biombo moral atrás do qual tudo se resolve com tempo e influência.
isso não significa que linchamento seja justiça. não é. linchamento é a falência final. mas ele só acontece quando todas as outras instâncias já fracassaram aos olhos da sociedade. é sintoma, não causa.
o cão orelha morreu duas vezes. a primeira na areia, pelas mãos de quem achou que torturar era entretenimento. a segunda quando ficou claro que, se não fosse o barulho absurdo da internet, isso viraria mais um boletim enterrado em gaveta. o que revolta não é só a violência, é a sensação de que, sem pressão pública, nada teria acontecido.
esse caso não é sobre um cachorro. é sobre quem pode errar sem pagar, quem aprende desde cedo que o mundo tem colchão pra quedas morais, e quem cresce sabendo que a lei pesa diferente dependendo do cep. é sobre um país que se choca com a barbárie, mas ainda protege o terreno onde ela floresce.
no fim, todo mundo pergunta o que fazer agora. a resposta é simples e insuportável…
ou o sistema prova que consegue punir, responsabilizar e expor a verdade mesmo quando há dinheiro e influência envolvidos, ou a sociedade vai continuar tentando fazer isso sozinha, do pior jeito possível.
não foi a internet que criou o caos.
o caos já estava lá.
o caso do orelha só arrancou o pano.
e se isso incomoda, ótimo.
era exatamente esse o ponto.