
a tecnologia moderna não falhou por incompetência. ela falhou por excesso de sucesso. ela entregou tudo o que prometeu e, no processo, deixou claro que a promessa era uma péssima ideia. um dispositivo pra tudo virou um dispositivo que exige tudo… sua atenção, seu tempo, seus dados, sua paciência e, se possível, uma assinatura mensal renovada automaticamente enquanto você dorme.
o problema não é o celular. o problema é o acordo implícito. você ganha conveniência, mas perde o controle. ganha acesso infinito, mas não possui nada. sua música não é sua. seu filme não é seu. seu jogo pode desaparecer porque alguém num prédio envidraçado decidiu “reposicionar a marca”. você não é cliente. você é fluxo. você é métrica. você é tempo de tela convertido em gráfico bonito pra acionista sorrir.
aí alguém aparece usando fone com fio, um ipod arranhado, um console velho, e o mercado reage como se fosse um culto estranho. “nostalgia”, dizem. não. é cansaço. é exaustão crônica de viver dentro de produtos que se comportam como relacionamentos abusivos. funcionam bem no começo, prometem o mundo, e depois passam a te cobrar emocionalmente por existir.
o fone bluetooth é o símbolo perfeito dessa insanidade. pequeno, caro, descartável, impossível de consertar. ele morre cedo, sempre fora de hora, e você aceita isso como se fosse normal. como se gastar duzentos dólares de novo fosse um rito de passagem moderno. enquanto isso, um cabo vagabundo de trinta reais continua ali, fiel, feio, eficiente. não precisa ser atualizado. não precisa ser amado. só funciona. e vai continuar funcionando quando o algoritmo decidir que você não é mais interessante.
o discurso é sempre o mesmo… inovação, experiência, ecossistema. palavras bonitas pra justificar produtos frágeis feitos pra não durar. antes você trocava uma peça. agora você troca o objeto inteiro. não porque não dá pra consertar… até dá, mas porque não convém. consertar não escala. dependência, sim.
e tudo isso acontece enquanto o mundo fica mais caro. comida cara. aluguel caro. coca-cola cara… o verdadeiro termômetro da decadência social. e ainda assim espera-se que você sorria e entregue mais dinheiro por versões ligeiramente piores de coisas que já funcionavam. controles que quebram. jogos lançados inacabados. conteúdo cortado pra virar dlc. skins de vinte dólares pra esconder a mediocridade do resto.
mas o golpe mais sujo não é econômico. é mental. a tecnologia sequestrou o tédio e vendeu de volta em pílulas de quinze segundos. ninguém mais sabe esperar. ninguém mais aguenta silêncio. o celular virou o extintor automático de qualquer pensamento mais longo que três frases. você não mata tempo, você o esquarteja em pequenos pedaços inúteis.
eu passei a cometer um ato quase revolucionário, escolher menos. escolher errado, inclusive. escolher coisas que não pedem nada em troca. um aparelho que faz uma coisa só e faz bem. ouvir música sem notificação. jogar sem loja embutida. ler sem pop-up pedindo avaliação. objetos com atrito. objetos que não te seduzem, te servem.
não é pureza. não é iluminação espiritual. todo mundo ainda sente aquela fisgada quando surge rumor de câmera nova, tela nova, promessa nova. o vício é sofisticado demais pra desaparecer. mas dá pra negociar com ele. dá pra não correr toda vez que o sino toca.
usar um ipod não te transforma em alguém melhor. mas te devolve algo raro, propriedade. tempo contínuo. presença. você escolhe o que entra. você escolhe quando termina. ninguém te empurra nada no meio do caminho.
talvez isso não mude o mundo. provavelmente não muda. as empresas continuarão fabricando lixo caro com marketing excelente. mas você pode sair do fluxo por alguns minutos. desacelerar. ouvir um disco inteiro. jogar sem microtransação. viver sem ser constantemente estimulado como um rato high-tech.
não é sobre voltar atrás. é sobre parar de aceitar tudo. sobre mastigar antes de engolir. sobre lembrar que tecnologia deveria ser ferramenta, não religião.