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2025

estuda seu otário

não ter diploma nunca foi o problema. nunca foi. tem gente brilhante que largou faculdade, rasgou currículo, construiu império. ótimo. aplausos sinceros. ninguém é obrigado a amar sala de aula com luz branca e cadeira desconfortável.

o problema não é vencer sem diploma. o problema é transformar isso em ideologia. é subir no palco e, depois de ter dado certo, muitas vezes com uma dose generosa de sorte, timing e contexto, olhar para quem estuda e dizer… “otário”.

essa é a parte interessante.

porque conquistar algo sem formação formal pode ser talento, esforço, visão. agora, usar isso para desdenhar de quem estuda é outra coisa. é carimbar a própria exceção como regra universal. é pegar um acidente estatístico e vender como método científico.

“eu consegui sem estudar, então estudar é inútil.”

essa lógica é quase poética na sua fragilidade.

o estudante vira o trouxa oficial da narrativa. o cara que “não entendeu o jogo”. enquanto isso, o autodidata bem-sucedido vira profeta do instinto. e não basta ter dado certo, precisa diminuir quem escolheu outro caminho. precisa reafirmar que diploma é coisa de fraco, que livro é perda de tempo, que teoria é conversa mole.

é curioso como o sucesso de alguns produz uma necessidade quase infantil de validação moral. não basta ter vencido. é preciso provar que quem fez diferente fez errado.

ninguém critica o empreendedor que prosperou sem faculdade. o que irrita é a supervalorização performática dessa ausência. como se a falta de diploma fosse medalha de honra. como se estudar fosse sinal de ingenuidade crônica.

há algo profundamente inseguro nisso.

porque quem realmente confia no próprio percurso não precisa ridicularizar o percurso alheio. quem construiu algo sólido não precisa chamar estudante de otário para se sentir inteligente.

a frase do charlie munger é quase inconveniente nesse cenário…

“in my whole life, i have known no wise people who didn’t read all the time, none, zero.”

ele não disse “pessoas diplomadas”. disse sábias. ler. estudar. constantemente. porque sabedoria não nasce do orgulho de ter pulado etapas. nasce da consciência de que sempre há mais a entender.

e é aí que o teatro desmonta.

porque estudar não é submissão ao sistema. é treinamento mental. é ampliar repertório. é evitar que seu “instinto” seja apenas repetição inconsciente do que você já viu. instinto sem repertório é só reflexo. estudar é dar profundidade ao próprio instinto.

quando alguém que venceu sem diploma começa a chamar estudante de otário, o que aparece não é força. é uma certa ansiedade. uma necessidade de provar que não faltou nada. que não há lacuna. que não existe fragilidade.

se não houvesse dúvida interna, não haveria ataque externo.

não ter diploma pode ser escolha. pode ser circunstância. pode ser estratégia. tudo bem. o mundo é amplo o suficiente para múltiplos caminhos.

mas desdenhar de quem lê, de quem estuda, de quem se prepara… isso não é ousadia. é provincianismo disfarçado de rebeldia.

sabe, não é sobre diploma. é sobre respeito pelo esforço intelectual. é sobre entender que profundidade nunca foi defeito. e que chamar disciplina de burrice pode até soar provocador no palco…

mas fora dele, costuma revelar mais sobre quem fala do que sobre quem estuda.