
eu sempre desconfiei de histórias “infantis”. quando alguém me diz que é uma fábula, eu já sinto o cheiro de pólvora moral escondida atrás de bichinhos simpáticos.
esopo não escrevia para crianças. ele escrevia para adultos que se achavam espertos demais para serem chamados de idiotas na cara. então ele trocava “rei” por “leão”, “povo” por “ovelhas”, “covarde” por “raposa”. era o jeito elegante de dizer: vocês estão se vendendo barato, e ainda batendo palma.
tipo pega o conto dele sobre o javali, o cavalo e o caçador…
eu leio e não vejo animal nenhum. eu vejo a gente.
o cavalo está lá, vivendo sua vidinha confortável, pasto garantido, rotina previsível. até que surge o javali. o javali é inconveniente. bagunça. estraga o gramado. mexe na ordem das coisas. e o cavalo sente aquela indignação deliciosa, quase viciante. aquela sensação de “isso é inaceitável”.
eu conheço esse sentimento. você também conhece.
o cavalo não quer dividir. não quer negociar. ele quer resolver. quer esmagar o problema. quer a satisfação limpa da vitória. então ele faz o que sempre fazemos quando estamos com pressa de ter razão… chama alguém maior.
entra o caçador.
o caçador não é dramático. ele é prático. “posso ajudar”, diz ele. “mas preciso colocar um freio na sua boca. uma sela nas suas costas. preciso te guiar.”
e aqui está o momento que me fascina.
o cavalo aceita.
não porque é fraco. não porque é burro. mas porque está com raiva. e a raiva é uma droga maravilhosa. ela justifica concessões absurdas. ela transforma perda de autonomia em estratégia.
“é só até resolver”, o cavalo pensa.
eu já pensei isso. você já pensou isso. governos já pensaram isso. empresas já pensaram isso. sociedades inteiras já pensaram isso.
coloque o freio. depois a gente vê.
o javali morre. o problema imediato desaparece. o cavalo respira aliviado. missão cumprida.
e então ele pede para o caçador tirar a sela.
e o caçador diz não.
claro que diz não.
porque quem prova o gosto do controle raramente devolve a colher.
é aqui que eu começo a rir. porque a gente faz isso o tempo todo. a gente entrega pequenas parcelas de liberdade em troca de conforto, segurança, eficiência. aceita ser guiado, monitorado, direcionado… desde que o javali da vez seja eliminado.
sempre há um javali. crise econômica. instabilidade política. medo social. ameaça externa. sempre há uma justificativa impecável.
e sempre há alguém disposto a segurar as rédeas por nós.
eu olho para o mundo agora e vejo cavalos orgulhosos demais para admitir que preferem a sela à incerteza. preferem alguém dizendo para onde ir do que a responsabilidade de escolher o caminho.
e o mais perverso… o cavalo venceu. ele conseguiu o que queria. o javali caiu. ele só não percebeu que, ao terceirizar o conflito, terceirizou também a própria autonomia.
esopo sabia exatamente o que estava fazendo. ele não estava contando historinha. estava dizendo… cuidado com a solução rápida demais. cuidado com o aliado forte demais. cuidado com a promessa eficiente demais.
porque o preço pode não ser pago na hora.
mas será pago.
eu leio essa fábula e não penso “coitado do cavalo”. eu penso… quantas vezes eu já fui esse cavalo? quantas vezes eu aceitei o freio porque parecia conveniente? quantas vezes chamei o caçador achando que estava no controle?
a verdade é desconfortável.
a gente não perde liberdade num golpe dramático. a gente entrega. com assinatura embaixo. com justificativa elegante. com discurso racional.
e depois ainda se surpreende quando alguém puxa as rédeas.
esopo estava escrevendo sobre mim. sobre você. sobre esse impulso quase irresistível de trocar autonomia por tranquilidade.
e, honestamente, o que mais me inquieta não é o caçador dizendo “não”.
é o fato de que, no fundo, o cavalo já suspeitava que ouviria isso… e mesmo assim aceitou a sela.