Categorias
2025

e oscar vai para…

todo ano eu digo que não vou fazer isso.

todo ano eu minto.

porque chega aquela época em que a academy of motion picture arts and sciences reaparece com aquele ar solene de quem acredita profundamente que ainda dita o que é “cinema importante”. tapete vermelho, discursos ensaiados, gente agradecendo ao agente, à mãe, ao cachorro e ao conceito abstrato de “storytelling”.

e eu?
eu faço a coisa mais estúpida possível.

eu assisto todos os indicados.

não porque eu precise.
não porque alguém pediu.
mas porque existe um impulso meio masoquista em qualquer pessoa que leva cinema a sério… ver o circo inteiro antes de reclamar do palhaço.

então sim. eu vi os dez.

alguns ótimos. alguns bons. alguns que claramente nasceram numa sala de reunião onde alguém disse…

“vamos fazer algo… que pareça importante.”

e o resto da sala concordou com aquela empolgação artificial típica de gente que já está imaginando o discurso de agradecimento.

então aqui está minha ordem.

do décimo ao primeiro.

sem educação diplomática.
sem reverência.

10 – bugonia

tem filmes que são estranhos porque têm algo a dizer.

e tem filmes que são estranhos porque acham que isso basta.

bugonia pertence firmemente ao segundo grupo.

assistir isso é como entrar numa galeria de arte contemporânea onde existe uma cadeira quebrada no meio da sala e um papel na parede explicando que aquilo representa “a fragmentação da experiência humana no capitalismo tardio”.

você olha.

inclina a cabeça.

tenta respeitar.

mas no fundo uma parte do cérebro está dizendo… “isso aqui é só… uma cadeira quebrada.”

bugonia não quer te contar uma história.

ele quer que você admire o fato de ele não estar tentando.

9 – train dreams

esse aqui é o equivalente cinematográfico de alguém falando muito devagar sobre coisas extremamente profundas.

tão devagar que em algum momento você percebe que a profundidade talvez não esteja ali… apenas o silêncio.

o filme é bonito, claro.

paisagens enormes. gente solitária olhando para horizontes melancólicos.

é o tipo de cinema que parece sussurrar constantemente… “isso é sério… muito sério… por favor leve a sério.”

o problema é que, em vários momentos, ele parece mais interessado em parecer profundo do que realmente ser.

é respeitável.

mas respeitável não é exatamente emocionante. não me pegou…

8 – hamnet

sabe aquele drama histórico respeitável?

figurinos perfeitos. fotografia elegante. atores sofrendo com dignidade.

é o tipo de filme que parece ter sido projetado com régua e compasso para agradar exatamente o gosto médio da academia.

cada cena funciona.

cada emoção está no lugar certo.

cada momento parece dizer…
“olhem… isso aqui é cinema sério.”

e é.

só que também é previsível como chuva em novembro.

você admira.

mas nunca se surpreende.

7 – f1

preciso avisar, eu amo f1, eu tinha expectativas altas aqui… e ele chega acelerando como se estivesse tentando compensar décadas de dramas respeitáveis com pura adrenalina.

é barulho, velocidade, câmera girando, dinheiro queimando na tela. muito, muito dinheiro… direto do pomar da apple.

muito dinheiro mesmoooo…

tanto dinheiro que às vezes parece que o filme existe apenas para justificar o orçamento.

e funciona.

por um tempo é divertido.

mas depois de duas horas você percebe que o filme tem mais motor do que coração.

é impressionante.

só não é particularmente memorável.

6 – marty supreme

finalmente algo com um pouco de personalidade.

marty supreme é meio bagunçado, meio imprevisível, meio caótico.

às vezes parece que o filme está prestes a perder o controle.

o que, honestamente, já o torna mais interessante do que metade da competição.

porque pelo menos aqui existe risco.

existe a sensação de que alguém estava tentando fazer algo vivo, não apenas algo que parecesse respeitável em uma campanha de premiação.

5 – the secret agent

sim, estou torcendo pra ele… mas não quer dizer que ele será o primeiro de minha lista… aqui é o aluno exemplar da turma.

tudo funciona.

direção precisa, roteiro inteligente, atuações afiadas.

é tenso, elegante e extremamente competente.

mas também tem aquela qualidade curiosa de obras muito bem executadas… elas funcionam tão perfeitamente que às vezes parecem um pouco… calculadas demais.

como um relógio suíço.

impressionante.

mas nunca caótico o suficiente para realmente surpreender. continuo torcendo!

4 – frankenstein

adaptar frankenstein é sempre um risco.

porque metade das vezes alguém transforma a história em uma aula respeitosa de literatura filmada.

aqui não.

este frankenstein entende que a história é, essencialmente, sobre obsessão, arrogância humana e as consequências grotescas de brincar de deus.

o filme abraça esse lado perturbador.

é sombrio, intenso, às vezes desconfortável.

e felizmente não parece nem um pouco interessado em ser elegante.

3 – sentimental value

esse aqui entra quieto.

sem espetáculo.

sem pose estética exagerada.

apenas personagens, relações complicadas e emoções que parecem perigosamente reais.

é o tipo de filme que não tenta parecer grande.

ele apenas observa pessoas… e deixa que as pequenas rachaduras emocionais façam o trabalho.

quando termina você percebe que ficou mais afetado do que esperava.

o que, honestamente, é raro.

2 – one battle after another

ambição pura.

este é o filme que entra na sala derrubando cadeiras.

é grande, nervoso, cheio de ideias.

às vezes parece prestes a colapsar sob o próprio peso narrativo.

mas quando funciona… funciona de um jeito quase elétrico.

é cinema tentando ser maior do que confortável.

e isso já o coloca muito à frente da maioria…

1 – sinners

e então chegamos ao único filme da lista que parece absolutamente seguro de si.

enquanto metade da competição está tentando desesperadamente parecer importante, sinners simplesmente entra e domina a tela.

não implora por respeito.

não tenta parecer profundo.

ele apenas sabe exatamente o que está fazendo.

cada escolha visual, cada momento dramático, cada virada narrativa tem propósito.

é cinema com convicção.

e depois de assistir todos os dez… atravessando pretensão artística, respeitabilidade cuidadosamente embalada e alguns projetos claramente obcecados por prêmios…

sinners foi o único que me deixou pensando…

“ok… alguém aqui ainda lembra como se faz um filme que vive.”

o resto?

o resto é temporada de oscar.