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2025

correr

existem dois tipos de pessoas no mundo.

não é sobre correr, relaxa. não vou vender essa fantasia barata de superação com trilha sonora épica e pôr do sol perfeitamente sincronizado.

é mais simples. e, como tudo que é simples, mais difícil de engolir.

tem quem faz…
e tem quem explica por que não faz.

eu já fui o cara das explicações. especialista. phd em justificar inércia. sempre tinha um motivo elegante, uma lógica bem construída, um “faz sentido eu não ir hoje”.

faz sentido… até você perceber que não sai do lugar há anos.

agora eu corro.

não porque eu virei essa versão iluminada de mim mesmo… longe disso. eu corro porque cansei de me ouvir falando.

e sim, eu corro na esteira.

aquele lugar absolutamente sem glamour, onde você corre e não chega a lugar nenhum… o que, convenhamos, é uma metáfora honesta demais pra vida de muita gente. sem paisagem, sem desculpa, sem poesia. só você, um visor frio e a realidade de que ninguém tá nem aí.

é quase ofensivo de tão honesto.

minha meta? cinquenta quilômetros por semana.

não sessenta pra impressionar, não quarenta pra facilitar. cinquenta. seis dias, ali nos dez por dia. repetitivo, meio sem graça, completamente ignorável pra qualquer pessoa que não seja eu.

perfeito.

porque elimina qualquer chance de transformar isso em performance.

e não, eu não corro por tempo.

essa obsessão por velocidade… sinceramente, parece gente tentando fugir de si mesma com cronômetro na mão. como se correr mais rápido fosse resolver o fato de que você não consegue nem começar.

eu não tô interessado nisso.

eu corro num ritmo que dá pra sustentar. que me mantém ali tempo suficiente pra ouvir o que eu venho evitando. porque, eventualmente, o barulho acaba… e sobra você.

e isso assusta mais do que qualquer subida.

tem dias bons? claro. aqueles momentos raros em que tudo encaixa e você pensa “ok, talvez eu tenha entendido alguma coisa aqui”.

e tem os outros. a maioria. aqueles em que tudo é meio arrastado, meio chato, meio sem sentido.

e é exatamente por isso que eu volto.

porque, como qualquer vício decente, você precisa do seu fix.

não do tipo glamouroso que rende legenda bonita, mas daquele silencioso, constante, meio ingrato. um dia sem e você percebe. não no corpo. na cabeça. aquela sensação de que você escapou de algo que precisava encarar.

um dia com… bom, é só mais um dia.

e é aí que a maioria perde.

porque as pessoas querem sentir algo grandioso pra continuar. querem propósito, clareza, emoção.

eu só quero não me enganar.

correr virou isso pra mim… um jeito simples, quase brutal, de estar ali.

não é sobre performance. não é sobre disciplina. é sobre presença.

eu apareço.

mesmo quando não tô a fim. mesmo quando não faz sentido. mesmo quando ninguém tá vendo… principalmente quando ninguém tá vendo.

então não, isso aqui não é sobre correr.

é sobre parar de falar e começar a fazer.