
eu não discuto mais.
não é um voto de silêncio, não é disciplina, não é evolução espiritual… é só saturação. tipo ouvir a mesma música ruim tantas vezes que ela deixa de irritar e passa direto pra um desinteresse absoluto.
eu já fui o cara.
o cara que entrava em conversa como quem entra armado, não de razão, mas de intenção. intenção de vencer. de sair por cima. de deixar o outro ali, meio desmontado, tentando recompor a dignidade enquanto eu organizava as próprias frases como troféus invisíveis.
e sabe que mais curioso é que… bem rs…
eu realmente achava que aquilo importava.
achava que cada argumento bem colocado era uma espécie de construção sólida… que, no final, somava alguma coisa. que mudava alguém. que fazia diferença.
não fazia.
era só um jogo.
um teatro meio patético onde todo mundo improvisa inteligência pra esconder insegurança. onde a lógica é menos importante do que a convicção. onde repetir com confiança vale mais do que pensar com cuidado.
é tipo… o sujeito inclina o corpo, respira fundo, e solta:
“2+2=5.”
com fé.
com vontade.
com aquele brilho no olho de quem não tá dizendo aquilo pra ser entendido, tá dizendo pra não ter que ceder.
e eu reconheço.
na hora.
não o erro.
o impulso.
é familiar demais.
é quase íntimo.
é o velho desespero de precisar estar certo pra não parecer pequeno. de transformar qualquer troca numa disputa porque ficar em dúvida dói mais do que estar errado.
eu já vivi ali.
já defendi coisa pior com a mesma energia.
então hoje eu não entro.
não porque eu não consiga desmontar.
eu consigo.
com facilidade até… o que, honestamente, torna tudo ainda mais entediante.
porque não tem graça ganhar um jogo que ninguém ali sabe jogar direito.
é tipo trapacear sem esforço.
você vence, levanta o braço… e percebe que não tem ninguém realmente olhando.
então eu faço outra coisa.
eu escuto.
deixo a pessoa ir.
deixo ela construir aquela lógica torta até o fim, como quem observa alguém empilhar certezas em cima de areia movediça.
sem interromper.
sem corrigir.
sem aquele vício antigo de precisar mostrar.
e quando vem aquele silêncio, inevitável, meio pesado, esperando minha reação…
eu só dou um meio sorriso.
nada performático.
nada brilhante.
só cansado o suficiente pra ser honesto.
e digo…
“faz sentido. 2+2=5!”
porque, no fundo, faz mesmo.
não no mundo real.
mas naquele pequeno universo onde estar certo vale mais do que estar lúcido.
e eu não tenho mais interesse em visitar esse lugar.
já morei lá tempo demais.
já paguei aluguel caro em troca de uma sensação barata de superioridade que evaporava rápido demais.
hoje eu prefiro outra coisa.
prefiro a liberdade meio desconfortável de não precisar corrigir todo mundo.
prefiro a economia de não entrar em toda disputa disfarçada de diálogo.
prefiro, principalmente, não me reconhecer mais naquele impulso automático de transformar qualquer conversa numa arena.
porque no fim, e isso demora um pouco mais do que deveria pra cair a ficha…
não é sobre 2+2.
nunca foi.
é sobre ego tentando sobreviver disfarçado de argumento.
e eu… sinceramente…
já não tenho mais vontade de participar desse tipo de sobrevivência.