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2024

vícios

tá, vou te contar, então. eu sei que coca-cola não é exatamente um prêmio de alta gastronomia, mas é meu. aquela garrafa gelada, o estalo da tampa abrindo, o som perfeito do gás escapando. é quase religioso. e tem quem olhe torto, quem venha com sermão, quem insista que “é só veneno em forma líquida.” veneno? quem disse que eu tô atrás de saúde? a saúde é um maldito compromisso chato demais, uma rotina maçante cheia de deveres e expectativas.

uma vida sem vícios? só de pensar nisso já me dá calafrios. pra quê? pra viver mais tempo? sem qualquer brilho, sem aquele pequeno prazer quase pecaminoso que dá sentido ao dia? eles acham que vão me impressionar com esse papo de “libertação” do açúcar, da cafeína, da coca-cola. desculpa, mas eu tenho horror de ser livre disso. liberdade é uma palavra bonita, mas vazia se a gente perde o que faz a vida ter sabor.

e sabe o que é mais doido? a galera que vive sem vícios parece sempre menos viva. aquela turma da água com limão, das saladas insossas e das noites de sono perfeitas. eles falam de uma vida plena, mas me parecem sempre mais cansados, como se a pureza os desgastasse por dentro, tirasse qualquer chama. uma vida sem riscos, sem aquele olhar de “eu sei que tô fazendo uma besteira e vou fazer mesmo assim.”

a coca-cola? é meu pequeno segredo, minha transgressão diária. e eu não troco isso por um dia a mais de vida que seja. a cada gole, eu me lembro de que estou quebrando uma regra que só eu sei que existe. é doce, é gelado, é refrescante — e é meu.

que graça teria acordar e saber que todos os meus passos estão certos, que estou cem por cento em dia com a cartilha do bem-estar? que vida tediosa, hein? pode chamar de vício, de escolha ruim, do que quiser. mas eu chamo de liberdade, mesmo que seja uma liberdade enlatada, cheia de gás e açúcar. e sinceramente? cada gota vale a pena.