
abri os exames como quem clica num e-mail com “importante” no título. esperando qualquer coisa, menos um lembrete de que meu corpo virou personagem secundário de um filme que já perdeu o controle do roteiro.
primeira cena… meu pâncreas, desesperado, agindo igual jack bauer em 24 horas. tentando evitar o colapso a qualquer custo, jogando insulina como se cada refeição fosse uma bomba relógio prestes a explodir. e a glicose? tecnicamente “ok”. sabe o que mais era tecnicamente ok? o navio do titanic antes de bater no iceberg. tá tudo certo… até não estar.
aí entram os triglicérides. altos. por quê? porque aparentemente tô me alimentando como figurante de os bons companheiros… muita energia, pouco critério. não importa se o pão é integral ou se o almoço vem numa embalagem sustentável o corpo sabe quando tá sendo enganado. e ele não perdoa.
o cortisol? meu deus, o cortisol. virou protagonista. se fosse filme, seria gladiador. eu, no meio da arena, estressado, suando, lutando contra leões hormonais com uma espada de plástico. e o público aplaudindo porque “pelo menos ele treina às vezes e posta story reclamando”. spoiler… isso não é vitória. é espetáculo de decadência com marketing embutido.
vitamina d? sumiu. desapareceu. tipo luke skywalker em o despertar da força… ninguém sabe onde foi parar, só sabem que faz falta. e a homocisteína? é o jigsaw do meu metabolismo. não aparece, não tem rosto, mas tá ali armando armadilha por armadilha. e eu, claro, sigo jogando o jogo achando que posso vencer só dormindo melhor no fim de semana.
isso aqui não é drama. é roteiro. um daqueles com arco lento, onde o protagonista só percebe que tá em perigo quando já é tarde demais. tô num momento o lobo de wall street, versão bioquímica. ostentando saúde no instagram, enquanto meu fígado me manda mensagens de sos por debaixo da mesa. resistência à insulina? acúmulo de tensão celular? metabolismo forçado? não é exagero é realidade editada com música pop e dancinha no feed.
e ainda dizem… “mas você não tá doente”. genial. é como dizer que o carro não quebrou, mesmo depois de rodar 30 mil km sem trocar o óleo. não quebrou, mas vai. e quando for, não vai ser bonito. vai ser michael bay, explosão, câmera lenta e arrependimento em 4K.
então não, eu não tô em crise. mas tô no ato 2 do filme. e se você conhece cinema, sabe o que vem depois… o momento em que tudo desmorona. e aí, meu amigo, não adianta mais dizer que “vai mudar”. porque o corpo já foi embora antes dos créditos.
e eu? continuo com a pipoca na mão, assistindo de camarote, achando que tenho controle do roteiro.