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2025

você é ansioso?

ansiedade é a arte refinada de se foder por algo que ainda nem aconteceu. é o prazer do desconforto sem necessidade. é a habilidade quase pornográfica de transformar uma terça-feira comum em um pesadelo psicológico digno de cinema europeu, daqueles sem trilha sonora, onde todo mundo fuma e ninguém sorri. é viver num trailer infinito do pior episódio da sua vida, dirigido por você mesmo, estrelado por você mesmo, escrito por um roteirista fracassado que vive na sua cabeça e acha que tudo vai dar errado o tempo todo.

um e-mail sem assunto? pânico. uma mensagem no whatsapp de alguém dizendo “precisamos conversar”? colapso. uma reunião marcada sem explicação? ah, aí sim começa o desfile de desgraças. você já tá desempregado, cancelado, falido, divorciado e morando num quartinho com mofo em 47 segundos. sua mente é uma central de telejornal sensacionalista onde cada pequena ocorrência é transformada em apocalipse. a única coisa que falta é o letreiro vermelho girando “URGENTE” enquanto você frita na cama às três da manhã, suando e prevendo falências imaginárias.

e tudo isso por quê? porque o mundo criou esse mito ridículo de que você precisa estar sempre alerta. sempre se preparando pro pior. sempre vigilante. porque se você baixar a guarda, se permitir relaxar, vai perder. perder o quê? ninguém sabe. mas perder. porque tem sempre alguém mais esperto, mais rápido, mais forte, mais pronto. e você tá atrasado. tá dormindo demais. tá perdendo tempo. e aí vem o medo. o medo de não ser suficiente. o medo de não ter controle. o medo de dar errado.

só que aqui vai uma verdade indigesta, que não cabe em post de instagram com pôr do sol ao fundo, você não tem controle de porra nenhuma. absolutamente nada. você só acha que tem. sua vida é uma sequência de aleatoriedades amarradas com fita crepe e café forte. a qualquer momento, tudo pode desabar. e às vezes desaba. e às vezes não. e você vai viver mesmo assim.

mas claro, em vez de aceitar essa aleatoriedade como parte do pacote, você prefere se torturar com mil futuros que nunca vão acontecer. prefere transformar a espera numa agonia performática. prefere se imaginar sendo demitido, humilhado, esquecido, punido… tudo isso antes da reunião que foi marcada às 14h com o título genérico de “alinhamento”. você já tá suando, com o estômago revirado, criando diálogos inteiros, justificativas, pedidos de desculpa, estratégias de fuga. ensaiando a própria execução como se fosse um condenado em um tribunal invisível que só existe dentro da sua cabeça.

a tal reunião acontece. dura oito minutos. ninguém te matou. ninguém te expôs. ninguém sequer reparou que você existia. e você sai com aquela cara de idiota que percebe que se torturou por dias por absolutamente nada. mas repete o padrão no dia seguinte. porque é isso. você se acostumou a viver com medo do que talvez aconteça. e esse medo virou sua zona de conforto. um conforto miserável, mas conhecido. é melhor viver num inferno familiar do que arriscar pisar no agora com os dois pés.

e o agora… ah, o agora é um conceito que você abandonou há tempos. você acorda pensando no que pode dar errado daqui a três dias. você janta preocupado com uma conversa que nem foi marcada. você vive como se estivesse numa entrevista de emprego eterna com um recrutador sádico que nunca chega a te dar a vaga. e enquanto isso, o agora passa. escapa. vai embora. sem cena. sem aplauso. sem sequer um olhar de despedida.

e de boa, não tem manual de como parar isso. porque parar exige coragem. coragem de existir sem script. de não saber. de não prever. de simplesmente estar aqui, agora, nesse instante onde absolutamente nada tá acontecendo e ainda assim, sua mente grita que tá tudo errado.

talvez o problema não seja a ansiedade. talvez o problema seja essa crença patética de que você deveria ser outra coisa. mais eficiente. mais seguro. mais “resolvido”. talvez a verdadeira tortura seja essa comparação constante com uma versão idealizada de você mesmo que nunca existiu e nunca vai existir.

bem, continue. viva preso no amanhã. destrua o agora em nome de um futuro que só existe na sua imaginação doente. continue ensaiando tragédias, criando falas, sentindo dores que ainda não vieram. e quando, um dia, o real problema chegar de verdade, porque ele sempre chega, mais cedo ou mais tarde… você vai estar tão exausto de ter vivido em estado de guerra por tanto tempo que não vai sobrar força nem pra reagir.

e aí, talvez, você entenda que o pior nunca foi o que podia acontecer. o pior sempre foi o que você fez com o tempo enquanto nada acontecia.