
eu juro por deus… música baixa é um atestado de declínio. não é escolha estética, é diagnóstico. quando o volume despenca, alguma parte de você começou a se entregar antes mesmo de perceber. música baixa é um tipo de desistência silenciosa, igual aquele minuto em que a luz da geladeira ilumina sua cara e você percebe que só tem uma penela de feijão gelado de três dias atrás. volume moderado é para consultórios, repartições públicas e pessoas que desistiram da própria pulsação. não é para seres humanos tentando sobreviver à crueldade cotidiana com um mínimo de dignidade emocional.
a má sorte adora esse terreno. ela não se apresenta em guitarras distorcidas e tambores tribais… prefere chegar disfarçada, caminhando nas pontas dos pés, ocupando o silêncio como se fosse dona dele. música baixa dá porteira aberta pra ela passear. você vira um condomínio sem porteiro espiritual. e aí você acorda um dia achando que tudo deu errado de repente, quando na verdade começou quando você deu play naquele som matador… em volume de elevador. esse é o tipo de erro que não vence na loteria da existência.
e algumas músicas simplesmente se recusam a funcionar nesse ambiente sedado. tentar ouvir “killing in the name” em volume baixo é como assistir a um incêndio por transmissão de rádio. “back in black” precisa entrar pela costela, não pelo canal auditivo. “smells like teen spirit” em volume dócil é uma blasfêmia que deveria render multa. não existe versão civilizada de “idioteque”. “gimme shelter” é um protesto contra qualquer tentativa de moderação. “wolf like me” foi feita pra reorganizar moléculas. “seven nation army” em volume tímido é derrota ideológica. e “la femme d’argent” dos air, quando tocada baixo, vira música de sala de massagem… quando tocada alto, vira arquitetura emocional. cada faixa dessas é uma exigência, um pacto, um manifesto contra a vida domesticada.
e justo quando eu estou ali, tentando evitar ser engolido por essa maré de silêncio assassino, surge a figura mais irritantemente convencida da sala… ele, o meu celular. ele aparece com aquele aviso passivo-agressivo sobre o volume, acreditando fielmente que está desempenhando um papel heroico na preservação da minha integridade física. a mensagem surge como uma espécie de dedo levantado em reunião, sempre polido, sempre disciplinado, sempre com aquele tom de “eu sei o que é melhor para você”, como se fosse um orientador pedagógico da minha alma. o brilho daquela notificação tem a mesma energia de alguém que bate no seu ombro pra dizer que “talvez você esteja exagerando” como se exagerar não fosse exatamente o que mantém a gente respirando.
mas é só um detalhe na paisagem. um incômodo minúsculo, quase cômico, comparado ao fato monumental de que ouvir música baixa continua sendo o prenúncio de que algo está prestes a ruir dentro de você. o celular acha que está salvando meus tímpanos, quando na verdade está tentando me convencer a viver num regime sonoro que anula o medo, o risco, a intensidade e principalmente a honestidade brutal que certas músicas carregam. o aparelho pode chiar o quanto quiser. ele não entende que eu não estou perseguindo conforto… estou evitando colapso.
porque o volume alto não é rebeldia adolescente. é ferramenta. é ritual. é mecanismo de defesa ancestral. é uma forma de abafar o ruído interno antes que o ruído interno decida abafar você. se o mundo insiste em tentar me dobrar através de notificações, responsabilidades, lembretes e frustrações sorrateiras, eu preciso de ondas sonoras suficientes para mantê-lo do lado de fora. música alta serve como barricada contra o caos que chega disfarçado de normalidade.
e quando o som sobe, tudo se rearranja. há uma reorganização molecular, uma limpeza emocional, um tipo de honestidade primitiva que só existe quando o mundo vibra junto com você. é naquele impacto que você percebe que está vivo, ainda dono de partes suas que ninguém conseguiu regulamentar. música alta restitui alguma coisa que a vida tenta arrancar diariamente. ela devolve o pulso, reata o contato, dá profundidade ao instante. ela te lembra que existe barulho o suficiente dentro de você para fazer o destino recuar um pouco.
o celular continua lá, com sua indignação burocrática, anotando mentalmente cada decibel como um fiscal de condomínio anotaria carros mal estacionados. deixo ele acreditar que tem importância. alguém precisa se sentir no controle e, sinceramente, esse papel não é meu. eu fico com o volume. o volume que vibra, que empurra, que ocupa espaço demais pra deixar o azar se sentir em casa.
no fim das contas, a lei é simples… qualquer música que mereceu ser gravada também merece ser ouvida com a dignidade de estremecer móveis. se não mexe o ar, não mexe nada. e se a má sorte quiser entrar, vai ter que fazer isso gritando por cima do riff… boa sorte pra ela. eu escolho o barulho. porque o silêncio, esse sim, é mortal.