
há um momento sagrado na vida de todo ser humano que carrega um mínimo de dignidade e um pingo de bom senso, o instante em que ele olha pro lado, vê aquele amigo chato pra cacete mastigando a própria voz num monólogo sem fim sobre uma viagem pro chile ou sobre como o café que ele toma “é de pequenos produtores da etiópia”… e decide, com todas as forças de sua alma cansada, que chegou a hora de acabar com a palhaçada. porque, sejamos honestos, se a gente não disser que ele é insuportável, quem vai? deus? o algoritmo do instagram? o motorista do uber que só quer que ele cale a boca?
convivemos com essas criaturas como se fossem obras de arte modernas, ninguém entende direito por que estão ali, mas todo mundo finge que é bonito, profundo, necessário. fingimos que está tudo bem quando eles mandam áudios de sete minutos pra contar que sonharam com um palhaço, ou quando eles explicam, com um entusiasmo quase criminoso, por que o jejum intermitente “mudou suas vidas”. nós escutamos. nós sorrimos. nós viramos a porra de um público cativo de um stand-up ruim, sendo torturados lentamente em suaves prestações emocionais.
mas existe um problema maior aqui, e ele não é o amigo insuportável. o problema é a gente. a gente que escolhe a covardia elegante do silêncio em vez da honestidade libertadora de um “mano, ninguém se importa”. porque sim, meu caro, a verdade é que o mundo precisa menos de diplomatas sociais e mais de francos atiradores de verdades desconfortáveis. a amizade, de verdade, deveria vir com uma cláusula de sinceridade brutal, se você começa a colecionar suculentas e a postar frases motivacionais com pôr do sol, eu tenho o direito… não, o dever de te chamar de ridículo. e você, se for amigo de verdade, agradece. ou pelo menos se cala.
não é crueldade. é caridade. é amor em sua forma mais pura… aquele que encara o outro como um ser passível de melhora. deixar um amigo seguir sendo um chato é permitir que ele continue sendo ignorado nos jantares, bloqueado em grupos de whatsapp, esquecido nas festas como um móvel fora de lugar. é condená-lo à irrelevância social por pura preguiça de dar um toque. e tudo isso por quê? porque você tem medo de ferir o ego frágil de alguém que já destruiu sua paciência há anos com discursos sobre chakras ou sobre como “o capitalismo está doente” enquanto posta vídeos de unboxing de iphone.
há uma nobreza quase extinta na arte de dizer… “você está sendo um babaca”. é uma habilidade rara. preciosa. como encontrar um bar decente em aeroporto. e mais do que isso, é um gesto de humanidade. porque só quem se importa de verdade encara o trabalho sujo de olhar no fundo dos olhos de alguém e dizer… “todo mundo te acha insuportável, mas eu fui o único com coragem de te contar.”
então talvez seja hora de fazer a limpa. de convocar uma assembleia informal, uma intervenção emocional com cachaça e verdades. de reunir esse grupo seleto de chatos de estimação e dizer, com toda a ternura possível, “meu querido, ninguém se importa com a tua dieta, com tua última sessão de reiki, com teu cachorro chamado vinícius de moraes. você é o tipo de pessoa que transforma até silêncio em barulho. e isso, infelizmente, é um talento inútil.”
a verdade, meu caro, é que o mundo já está cheio demais de gente educada demais pra dizer o óbvio. e enquanto isso, seguimos todos presos num reality show social onde os chatos são sempre os protagonistas e os lúcidos são só plateia. mas não precisa ser assim. não mesmo. a gente pode reescrever o roteiro, virar a mesa, cortar o microfone. e tudo começa com a simples, gloriosa, libertadora arte de olhar um amigo nos olhos e dizer, com todo o carinho do mundo…
“tu é insuportável, porra. e alguém precisava te avisar.”