
não.
não vão existir outros beatles.
não agora, não depois, não quando a ia aprender a fazer mágica com plugins de voz nem quando algum garoto genial de 19 anos lançar o álbum da década direto do quarto dele com led roxo e tapete redondo comprado no mercado livre.
não vão.
não importa o quanto você deseje, manifeste, ore ou peça num tweet com gif de john lennon e um coração partido.
não vai ter.
ponto.
porque o beatles não foi só uma banda.
foi um cometa malcriado, um 3i atlas, que cortou o céu cultural de uma época que ainda acreditava que a música podia mudar alguma porra de verdade.
e hoje a gente não acredita nem em silêncio.
o beatles foi o último milagre musical antes do mundo virar um campo de concentração de cliques, métricas e curadoria de conteúdo com voz suave e gatilho emocional.
foi a última vez que quatro humanos sentaram numa sala, fumaram demais, se odiaram em silêncio e, mesmo assim, pariram uma sequência de discos que faria qualquer deus pagão largar o cargo.
o beatles foi erro. acidente. tempestade.
e é por isso mesmo que não se repete.
não tem como repetir um fenômeno que nasceu justamente porque ninguém esperava que aquilo funcionasse.
e hoje?
hoje todo mundo já espera que funcione.
e se não funcionar até a terceira faixa do disco, o artista vira “promessa frustrada” no post de alguém que escuta música no fone de ouvido do metrô enquanto responde email com a ponta do nariz (você já fez isso, eu sei).
o mundo de hoje não quer outro beatles.
o mundo de hoje quer fast food emocional com embalagem “estética” e sabor de déjà-vu.
quer música que você ouve e já esquece.
quer letra que parece frase de legenda no instagram de loja de roupa vintage.
quer batida feita pra vídeo de trend com cachorro.
quer artista acessível, carismático, com feed organizado, discurso alinhado, lifestyle aspiracional, boas causas na bio e, claro, zero risco.
nada de desafinar.
nada de desafiar.
nada de fazer a gente pensar.
só entrega. de preferência, com filtro.
o beatles não fazia entrega.
o beatles jogava um álbum na tua cara e dizia… engole isso, mesmo que você precise de dez anos pra entender.
“tomorrow never knows” era meditação de ácido prensado em fita.
“i am the walrus” era caos literário com ironia e trip infantil.
“a day in the life” era o som da sociedade entrando em colapso em câmera lenta.
tudo isso dentro de um disco vendido como “pop”.
hoje, essas músicas não passariam nem da pré-seleção do algoritmo.
ninguém teria paciência.
e ninguém mais quer ser desafiado.
o beatles era fricção pura.
john, o niilista com voz de revelação.
paul, o melódico obsessivo que sorria enquanto cortava a jugular criativa de quem não tocava no tempo.
george, o místico calado que aturou anos como figurante de luxo até dar um tapa cósmico na mesa com “something”.
ringo, o coração da banda, que fazia o impossível… ser absolutamente essencial sem precisar provar nada.
quatro forças incompatíveis.
e, mesmo assim, funcionava.
porque havia tempo.
e havia permissão pro erro, pra ideia ruim, pra viagem estranha.
e, principalmente, porque ninguém tava tentando ser palatável o tempo todo.
quem tem permissão hoje?
ninguém.
o artista hoje nasce com as rédeas no pescoço e um cronograma de conteúdo na mão.
precisa lançar uma música a cada duas semanas pra “manter relevância”.
precisa contar a história por trás da faixa num vídeo vertical.
precisa manter um relacionamento saudável com os fãs, falar de saúde mental e parecer humilde, mesmo que esteja afundado num poço de insegurança e ódio silencioso.
não pode ser arrogante.
não pode sumir.
não pode ter um álbum ruim.
não pode pirar.
não pode virar a porra de um beatle.
o beatles era uma banda que podia pirar.
“revolution 9” é basicamente um colapso nervoso sonoro em forma de arte.
e tá lá, no disco mais vendido do planeta.
alguém hoje lançaria isso?
sim.
só que como nft conceitual que ninguém vai ouvir, mas vai servir pra justificar um projeto de branding numa agência de publicidade.
e se o beatles tivesse nascido hoje, no tempo do tiktok e da métrica diária, o que ia acontecer?
iam se dissolver antes do rubber soul.
john ia ser cancelado por alguma merda que falou em 1962.
paul ia dar entrevista com discurso pronto de coach musical.
george ia virar lenda cult com 30 ouvintes mensais.
e ringo ia ser chamado de “carismático mas tecnicamente fraco” num vídeo de react de um moleque que nunca segurou uma baqueta na vida.
e o público?
o público ia ouvir “helter skelter” e comentar “massa, lembra uma vibe meio arctic monkeys”.
o público ia ouvir “across the universe” e usar de trilha pra vídeo com letra no fundo e nuvem passando na frente.
o público ia ouvir “eleanor rigby” e dizer “muito triste, me lembra minha ex”.
porque o público, meus amigos, não está mais treinado pra escutar.
está treinado pra consumir.
pra catalogar.
pra colocar no mood certo.
pra “curtir” sem mergulhar.
e arte que não mergulha, afoga quem a faz.
não existe mais beatles porque não existe mais condição pro beatles acontecer.
não é falta de talento.
não é falta de ideia.
é excesso de ruído.
é excesso de medo.
é excesso de expectativa de que tudo tem que vir perfeito, embalado, aprovado, adorado.
e o beatles não era nada disso.
o beatles era o erro que deu certo.
era a faísca antes do incêndio.
era o caos que virou harmonia.
e isso, meu chapa, não se programa.
se permite.
e o mundo não permite mais.
então para de procurar o próximo beatles.
não tem.
ouve o que sobrou.
ouve com calma.
ouve “because” e tenta entender como alguém escreveu aquilo sem medo de soar brega.
ouve “blackbird” e percebe que tem mais verdade ali do que em 90% do catálogo do spotify.
ouve “i’m only sleeping” e veja um homem adulto admitir que não quer sair da cama… e ser poético nisso.
ouve “she’s leaving home” e diga se alguém hoje teria coragem de escrever sobre uma filha fugindo porque se sentia invisível.
e depois disso, olha em volta.
respira fundo.
e aceita.
não.
não vão existir outros beatles.
e talvez isso seja bom.
porque o beatles não merece ser repetido.
o beatles não cabe num mundo onde ninguém mais tem coragem de soar estranho.
e estranho, é o que move a arte de verdade.
o resto é só playlist de escritório com cara de genialidade.