
a etiópia. só de ouvir o nome, você já imagina uma criança esquelética com moscas no rosto e olhos pedindo clemência a deus, ou à câmera da bbc. é automático. hollywood, o teleton da miséria africana, enfiou isso na tua cabeça com a delicadeza de um chute no estômago. mas… surpresa! a etiópia não é o playground da caridade internacional que você acha que é. e não, não foi colonizada como a maior parte do continente. ou seja, enquanto o resto da áfrica estava sendo servido no jantar imperialista europeu, com garfo e faca, a etiópia chutava a mesa e dava uma voadora nos dentes dos italianos.
sim, os italianos. aqueles mesmos que te venderam vinho barato e massas com nomes impronunciáveis. em 1896, esses senhores tentaram fazer da etiópia mais uma iguaria do seu buffet colonial. resultado? levaram uma surra homérica na batalha de adwa. uma surra tão humilhante que até hoje o orgulho nacional italiano treme quando alguém fala em etiópia. foi tipo um império romano remixado tomando um pau de um povo que usava escudos de couro e espadas tradicionais… ah e fazia café melhor que o seu barista metido da esquina.
mas, claro, você não aprende isso na escola. não, senhor. na escola te ensinam que a áfrica é um continente de desgraça, fome, guerra e leões. um grande safári de sofrimento. e aí você cresce achando que a etiópia é só o endereço oficial da desnutrição. quando, na real, estamos falando de uma das civilizações mais antigas do planeta. o império de aksum já ouviu falar? não, né? estava lá com comércio rolando a mil, moedas próprias e contato direto com o império romano, enquanto a europa ainda estava se limpando com folhas e rezando pra não pegar peste bubônica.
e sim, a etiópia também é o berço do café. isso mesmo, aquele líquido sagrado que você (e eu) idolatra como se fosse sangue de unicórnio orgânico. pois é, o coffe arabica nasceu nas montanhas etíopes. os pastores perceberam que as cabras ficavam doidonas com umas frutinhas vermelhas e boom… nasceu o café. e você aí pagando 25 reais num cold brew achando que está fazendo parte de uma revolução hipster. parabéns.
a religião? etiópia tem uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo. não, não aquelas versões enlatadas do cristianismo importadas dos eua com pastores de terno e jatinho particular. aqui é cristianismo raiz, com igreja entalhada na pedra, no meio do nada, onde os monges cantam em ge’ez, uma língua que faz o latim parecer gíria de shopping.
e a comida? meu amigo… se você acha que etíope só come mingau de emergência da onu, você merece viver à base de miojo. estamos falando de injera, aquela panqueca esponjosa de teff (um grão milenar que faz a quinoa parecer arroz agulhinha), acompanhada de ensopados apimentados, lentilhas, carne cozida, tudo com as mãos, do jeito que deus ou algum chef decente mandou.
mas claro, falar disso tudo não dá ibope. não rende curtida, não atrai doação. miséria vende. criança com barriga inchada, com mosca pousada no olho, isso sim mobiliza. é pornografia humanitária. uma forma elegante de manter o complexo de salvador branco bem alimentado. o ocidente adora a etiópia… desde que ela continue cabendo na sua narrativa de coitadismo exótico.
e no meio disso tudo, você aí, achando que a etiópia é só mais um lugar na lista negra do globo. quando, na real, ela é a pátria de haile selassie, o imperador que virou deus pra milhares de rastafáris na jamaica. o cara que recebeu malcolm x, que botou a onu pra ouvir desaforo, que foi capa da TIME como o último leão de judá. mas, né, você só conhece leão de judá como nome de igreja evangélica na quebrada.
então da próxima vez que ouvir “etiópia”, faz um favor pra humanidade e fecha o netflix. abre um livro. ou melhor, abre a cabeça. porque a etiópia não precisa da sua pena, da sua hashtag ou da sua arrogância pós-colonial disfarçada de compaixão. ela sobreviveu a impérios, a fomes, a guerras e ainda assim segue firme, com mais dignidade do que muito país que finge ser civilizado.
e sabe o mais incrível? ela faz tudo isso tomando café melhor que o seu.