
dezembro chega de mansinho, com aquele bafo morno de promessas vencidas, e de repente tá todo mundo surtando em grupo, se entupindo de lentilha, listinha na mão, olhar esperançoso de golden retriever… e uma certeza delirante de que agora vai. vai porra nenhuma.
eu observo tudo isso como quem assiste a um acidente em câmera lenta. as academias ficam cheias por duas semanas, os cadernos novos são comprados com a empolgação de um virgem numa orgia, os cursos online bombam com promessas de “nova carreira”, “nova mente”, “nova versão de mim”. nova porra nenhuma. no fundo, é todo mundo repetindo o mesmo roteiro, esperando um final diferente.
spoiler: não vai mudar. mas tudo bem. o povo adora ensaiar o mesmo papel todo dezembro. só muda o figurino.
e lá está você, no meio desse balé tragicômico, tomando seu terceiro espumante quente em pé na varanda da tia, olhando pro céu e pensando nas “metas do ano que vem”. ah, as metas. aquela lista feita entre uma uva e outra, enquanto alguém grita “pula com o pé direito” e você finge que acredita. ok falar de pé direito ou esquerdo anda mais polêmico que eu…
a lista que já nasce morta, mas com letra bonita.
“beber mais água.”
“fazer terapia.”
“ler vinte livros.”
meu favorito… “ser a minha melhor versão”.
o que caralhos isso quer dizer? quem inventou isso? onde vive? o que come? em que planeta vive essa melhor versão de você, e o que ela tem contra você do jeito que você é agora, de chinelo (ok perceberam que estou transitando em território perigoso, mas não falei havaianas) e comendo resto de rabanada na madrugada?
ninguém escreve o plano real. ninguém escreve… “repetir tudo de novo, mas com mais cinismo.”
ninguém coloca “provavelmente manter o mesmo emprego meia-boca por medo de falir emocionalmente.”
ou “seguir em piloto automático até a próxima crise existencial.”
esse seria um plano honesto. realista. quase bonito de tão triste.
mas honestidade não fica bem em lista.
o plano precisa parecer épico.
precisa ser bonito o suficiente pra caber num story com emoji.
precisa parecer que você tem alguma noção do que está fazendo.
só que você não tem.
ninguém tem.
eu não tenho.
e mesmo assim, seguimos montando esses projetos de vida como quem monta uma lasanha de micro-ondas achando que tá fazendo culinária molecular.
até que, claro, tudo começa a sair do eixo.
a vida escorrega, tropeça, cai de cara no asfalto e lá está você, ainda tentando seguir o maldito plano.
como se ele fosse uma tábua de salvação.
como se ele fosse te salvar do absurdo de ser gente.
e é nesse ponto que tenho um pensamento que ninguém quer ouvir quando ainda tá empolgado com o novo planner colorido…
“planos devem ser efêmeros, e você precisa estar pronto pra abandoná-los.”
não adaptar.
não “ajustar conforme o contexto”.
abandonar. jogar fora. acender um cigarro, olhar pro horizonte e dizer “foda-se, isso não faz mais sentido.”
porque o plano, no fundo, é só um disfarce.
uma desculpa pra não lidar com o imprevisível.
um cabide de expectativas onde você pendura suas frustrações e finge que tá tudo indo bem.
mas você sabe que não tá indo.
porque aquele plano que você fez em dezembro não sobrevive nem até o carnaval.
e o pior, ele não morre de morte natural.
ele morre porque você mudou.
porque o mundo mudou.
porque a vida é imprevisível, resolveu virar à esquerda quando você já tava com a seta piscando pra direita fazia três meses.
e é aí que você tem duas opções…
seguir fingindo que ainda faz sentido ou sair do teatro e ir viver alguma coisa que preste.
eu sempre escolho a segunda opção.
não porque sou sábio, mas porque já testei a primeira.
e deu no quê?
em eu, trancado num plano que não era mais meu, tentando encaixar minha vida real dentro de um quebra-cabeça que já não batia.
plano ruim é apego burro.
hoje, eu trato plano como convite de festa estranha… pode ser bom, pode ser uma merda. vou, dou uma olhada, como um petisco, e se tiver chato, vou embora.
sem drama.
sem precisar explicar.
sem precisar justificar pra ninguém.
então sim… vai em frente, escreva seus planos. se isso te diverte, ótimo. compre a agenda cara, compre a caneta importada, monte seu vision board com recortes de revista de decoração minimalista com planta que ninguém sabe cuidar.
mas saiba disso…
você não é o seu plano. você é quem continua existindo quando ele fracassa.
e, com sorte, com ironia, e um senso de humor minimamente saudável, você ainda vai rir disso tudo em março.
enquanto risca a meta de “dormir cedo” com uma caneta vermelha e pensa:
“bom, pelo menos tentei.”
e depois pensa:
“que sorte que não deu certo.”
e brinda com uma coca (zero) morna às maravilhas de não estar mais preso num plano idiota.
fim do plano.
início da vida.
com o caos no banco do carona, e você dirigindo sem gps, sem waze e com uma playlist boa.
essa sim, foi uma decisão acertada.