
acordo com a garganta colada, gosto químico na boca, uma lata de coca-cola zero esquecida na mesa de cabeceira como se fosse um animal de estimação fiel. morta. quente. inútil. tomo mesmo assim. não porque seja boa. porque é previsível. e previsibilidade, numa certa idade, vale mais do que prazer.
na geladeira, uma coleção obscena de queijos. fedidos, arrogantes, lindos. alguns caros demais pra alguém que finge ter autocontrole. outros tão fortes que parecem um erro moral deliberado. exatamente como deveria ser. queijo é isso, leite que decidiu não obedecer. tempo, bactéria, paciência e uma completa falta de interesse em agradar.
isso não é ritual. não é manifesto. não é resistência. é só o jeito como as coisas continuam andando quando você para de tentar ser alguém melhor. repetir não cansa quando você aceita a repetição. cansa quando você finge que ela é temporária, que um dia vai “mudar tudo”. ninguém muda tudo. no máximo troca de vício e chama isso de evolução.
a coca-cola zero não promete nada. não evoca infância, não fala de origem, não conta história bonita. entra fria, sai rápido, não deixa saudade. funcional como uma ferramenta mal desenhada que ainda assim resolve o problema. existe algo profundamente relaxante nisso. nenhuma metáfora. nenhuma transcendência. só efeito imediato.
o queijo é o contrário. exige tempo. insiste. fica ali ocupando espaço, cheirando mais a cada dia, lembrando que algumas coisas só melhoram quando você para de interferir. não tem pressa. não tem marketing. não pede compreensão. se você não aguenta, o problema é seu.
em algum ponto da vida, você percebe que não está mais procurando experiências. está procurando constância. algo que não te surpreenda, não te eduque, não te prometa versão futura de si mesmo. só algo que esteja lá amanhã. e depois. e depois.
li charles bukowski escrever “find what you love and let it kill you.” e senti reconhecimento, não porque a frase seja profunda, mas porque ela é embaraçosamente prática. nada ali fala de grandeza. fala de desgaste. de atrito. de aceitar que alguma coisa vai te moer aos poucos e decidir, conscientemente, não trocar isso por algo mais apresentável.
o erro coletivo foi transformar essa ideia numa coisa bonita. ninguém quer admitir que é consumido por algo pequeno. todo mundo prefere dizer que é movido por paixão, propósito, missão. palavrinhas limpas, prontas pra perfil profissional. ninguém quer dizer “eu funciono à base disso aqui” quando isso aqui é banal, repetitivo e pouco inspirador.
mas é assim que a coisa acontece de verdade. não são grandes decisões que moldam o dia. são gestos automáticos. abrir a geladeira sem pensar. pegar sempre o mesmo pedaço. estalar a mesma lata. seguir em frente. não tem catarse, não tem arco narrativo. tem insistência.
o mundo gosta de vício desde que ele venha com embalagem elegante. chama de disciplina quando parece produtivo. chama de ritual quando dá pra postar. chama de lifestyle quando vende alguma coisa. quando não dá pra romantizar, aí vira problema. eu sempre achei curioso como as pessoas aceitam ser consumidas por planilhas, agendas e reuniões intermináveis, mas se chocam quando alguém escolhe algo com gosto, cheiro e textura.
ser consumido por rotina é inevitável. a única decisão real é qual rotina. e não, não precisa ser nobre. não precisa justificar nada. algumas coisas só precisam funcionar tempo suficiente pra você atravessar o dia sem virar um estranho pra si mesmo.
não tem heroísmo nisso. tem economia. energia poupada por não fingir. tempo ganho por não negociar com a própria natureza. isso incomoda porque revela uma verdade pouco glamourosa: a maioria das pessoas não é movida por sonhos, é empurrada por hábitos. a diferença é que quase ninguém assume os seus.
continuo repetindo porque repetir me ancora. continuo escolhendo o mesmo porque variar só pra provar alguma coisa sempre me pareceu um desperdício de energia. não estou procurando evolução. estou procurando tração. algo que me mantenha andando mesmo quando não há entusiasmo nenhum disponível.
e talvez seja isso que realmente irrite nessa frase. não é o “let it kill you”. é o “find what you love”. porque isso exige olhar com honestidade praquilo que você já faz quando ninguém está olhando. não o que você admira. não o que você gostaria de gostar. mas o que você repete sem aplauso, sem plateia, sem narrativa.
no meu caso, não dá pra transformar isso em lição. não dá pra vender. não dá pra ensinar. só dá pra continuar.
e continuar, descobri, já é bastante provocativo por si só.