
martin luther king jr. virou santo de calendário cívico. daqueles que cabem em cartaz de escola, em post de linkedin, em discurso hipócrita de político que nunca leu uma linha além do “i have a dream” e mesmo esse trecho só até onde não começa a ficar desconfortável. king hoje é um jpeg domesticado. um filtro instagram de consciência tranquila. mas o king real? esse não cabe em moldura. esse suja a toalha de mesa.
o que quase ninguém gosta de lembrar é que king não era unanimidade nem entre os seus. ele era visto como incômodo, obsessivo, paranoico, moralista demais para uns, radical demais para outros. um homem permanentemente cansado, com depressões profundas e crises de dúvida. king não era feito de mármore. era feito de carne, culpa, fé teimosa e uma noção perigosa de que dizer a verdade importa mais do que ser amado.
martin luther king jr. vivia sob vigilância constante do fbi. grampos, dossiês, chantagem emocional. j. edgar hoover o tratava como ameaça à segurança nacional, não por violência, mas por algo muito mais subversivo, a capacidade de ligar moralidade a política externa. o sistema até tolera protesto por direitos civis quando ele pode ser empacotado como “questão interna”. o problema começa quando alguém aponta que o império está nu, sujo de sangue e bancado com o dinheiro dos pobres.
pouco se fala que, no fim da vida, king já não estava focado apenas em integração racial. isso era pequeno demais. ele estava obcecado pela pobreza estrutural. pela ideia radical de que o capitalismo americano precisava ser confrontado. o projeto da poor people’s campaign era um pesadelo logístico e simbólico, levar pobres de todas as raças para acampar em washington e exigir redistribuição real de riqueza. não caridade. não esmola. justiça econômica. imagine o pânico nos corredores do poder.
quando king atacou a guerra do vietnã, ele sabia exatamente o que estava fazendo. sabia que perderia apoio. sabia que financiadores iriam embora. sabia que o acesso à casa branca acabaria. e foi mesmo. lyndon johnson, antes aliado, virou porta fechada. porque falar de guerra era mexer no nervo exposto do projeto americano, a crença de que matar longe de casa é aceitável desde que gere estabilidade, lucro ou a ilusão de grandeza.
o discurso “beyond vietnam” não foi um desvio de rota. foi o ponto final lógico. king chamando os estados unidos de “o maior propagador de violência no mundo hoje”. frase que ainda hoje faria editoriais espumarem. ele entendeu algo que seguimos fingindo não entender, não existe justiça racial sustentável num país que constrói sua identidade em cima de guerras intermináveis. a violência externa sempre volta para casa. volta em forma de polícia militarizada, escolas sucateadas, hospitais sem verba e uma sociedade anestesiada.
e não, king não foi morto no auge de uma era romântica. foi assassinado quando sua popularidade estava em queda livre. quando jornais diziam que ele havia ido longe demais. quando líderes negros mais palatáveis eram apresentados como alternativa “responsável”. ele morreu em memphis apoiando uma greve de trabalhadores do saneamento. homens invisíveis. lixo humano aos olhos do sistema. morrer por eles não rende feriado bonito. rende silêncio constrangido.
hoje, citar king virou ato automático. um ctrl+c moral. donald trump invoca o sonho enquanto desmonta qualquer política que cheire a equidade. é a versão política de pendurar um quadro do che guevara no escritório de um banco. estética sem risco. memória sem ameaça. king reduzido a slogan, enquanto tudo o que ele denunciou segue funcionando a pleno vapor.
o mais obsceno é que king falava exatamente para agora. orçamento militar inflado como culto religioso. cortes para os pobres tratados como necessidade técnica. intervenções estrangeiras vendidas como inevitáveis. e uma legião de comentaristas explicando o procedimento errado, nunca a imoralidade do ato. king desprezava essa covardia elegante. ele não queria saber se a guerra era legal. queria saber se era justa. spoiler, não era.
king nunca pediu para ser confortável. pediu para ser ouvido. pediu para que a paz fosse vista como trabalho ativo, não como ausência momentânea de conflito. pediu para que parássemos de confundir patriotismo com obediência. e por isso foi vigiado, atacado, isolado e, finalmente, silenciado.
transformá-lo em santo foi a última violência. porque santos não exigem nada. king exigia tudo. exigia que escolhêssemos entre bombas e escolas. entre império e humanidade. entre o aplauso fácil e a consciência pesada. e essa escolha, seis décadas depois, continua sendo evitada com a mesma habilidade cínica de sempre.
o sonho de king não morreu. ele foi convenientemente ignorado. e isso diz muito menos sobre ele e tudo sobre nós.