
tem dia que eu acordo com o espírito tomado por uma lucidez brutal… eu preciso enterrar esse maldito telefone. não apagar, não desligar. enterrar. enterrar como quem exorciza. como quem se livra de um corpo contaminado. cavar com a mão, sujar as unhas, cuspir em cima e cobrir de terra como quem encerra um ciclo. fim de uma era. adeus à ilusão de que isso aqui ainda serve pra algo além de roubar pedaços da minha alma em prestações.
porque hoje em dia, atender o celular é um ato de autossabotagem. é abrir a porta da sua casa no meio da noite pra um estranho molhado dizendo que “é só um minutinho”. ninguém com um pingo de amor próprio deveria estar atendendo ligações em 2026. não depois do que a gente passou. não depois dessa praga moderna que são as ligações fantasmas, esses suspiros do além corporativo que chegam até você com promessas absurdas e ameaças genéricas, vindas de números aleatórios gerados por uma IA que provavelmente nem sabe que você é real.
e começa sempre igual, o telefone vibra, você hesita. pensa… e se for importante? olha o drama. ainda existe uma pontinha de esperança, essa voz idiota dentro de você que acha que alguém pode realmente estar tentando te dizer algo que vale a pena ouvir. aí você atende. e do outro lado… o vazio. um silêncio que te examina. um nada que te testa. é o silêncio de uma armadilha armada por um sistema que descobriu que a melhor maneira de destruir um ser humano é deixar ele esperando uma voz que nunca vem.
e esse é só o primeiro ato. logo depois, começa a romaria. você vira alvo oficial do algoritmo. entra pra lista negra… ou melhor, lista ouro. o tolinho que ainda atende. e aí, meu amigo, é como abrir as portas do inferno. ligações em sequência. de números que não fazem sentido nem no papel. cada um com uma abordagem diferente… “você ganhou”, “você perdeu”, “detectamos uma atividade suspeita”, “última chance”, “último aviso” o último aviso que nunca termina.
eu já tentei bloquear. tentei denunciar. tentei conversar com operadora. tentei app. tentei ritual. tentei raiva. nada funciona. porque eles têm mais números do que eu tenho paciência. bloquear uma ligação hoje é como tentar esvaziar o oceano com um balde furado. é guerra perdida antes do primeiro tiro.
e o pior é que a gente finge que isso é normal. que isso faz parte da vida adulta moderna. mas não, porra. isso aqui é distopia. isso aqui é a falência completa da comunicação humana. o telefone, essa coisa que um dia serviu pra conectar, virou uma arma. uma ameaça disfarçada de rotina. a gente vive sob cerco. ninguém fala mais por vontade, só por interesse, por truque, por fraude. o telefone toca, e o instinto não é atender. é fugir.
e não, eu não sou exceção. eu sou só mais um. mais um idiota cansado que não atende mais nem a própria sombra. que olha o número piscando e sente o fígado fechar. que vive no modo “não perturbe” como filosofia de vida. porque eu prefiro perder uma ligação real do que abrir a porta pra mais uma dessas entidades sem rosto tentando me convencer de que eu devo algo que não comprei, que ganhei algo que não quero ou que alguém está “tentando me proteger”.
pode rir, mas quando eu cavar o buraco no quintal, quando eu empurrar o telefone lá dentro com as duas mãos e enterrar esse bastardo eletrônico pra sempre, não vai ser desespero. vai ser libertação. vai ser meu pequeno gesto de resistência contra esse mundo que insiste em transformar cada chamada em ameaça.
e se um dia você me ligar e eu não atender… saiba… eu não tô ocupado. tô em paz.