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2025

eu assisti para você não ter que assistir

dessa vez não é só sobre um filme ruim. é sobre o momento exato em que o vazio deixa de ser acidente e vira consenso.

melania não é um documentário. documentários pressupõem curiosidade. isso aqui pressupõe obediência. é um produto audiovisual treinado, domesticado, castrado emocionalmente para não fazer perguntas que não tenham resposta pré-aprovada. cada frame parece pedir desculpa por existir ao mesmo tempo em que exige respeito automático.

o filme não começa contando algo. começa estabelecendo regras. regra número um… nada de conflito. regra número dois… nada de contexto que complique. regra número três… nunca, jamais, permitir que algo pareça humano demais. porque humano falha. humano escorrega. humano lembra o espectador que existe mundo fora da bolha.

melania não é filmada como pessoa. isso seria perigoso. ela é filmada como entidade neutra. uma presença cuidadosamente mantida fora do alcance de qualquer interpretação concreta. ela fala em frases que não pertencem a ninguém. ideias genéricas, universais, esterilizadas. o tipo de linguagem que soa profunda apenas porque não diz nada específico.

não há contradição porque contradição gera narrativa. não há hesitação porque hesitação revela pensamento. aqui não há pensamento, há protocolo. tudo funciona como um manual de sobrevivência de imagem em tempos de caos… não se comprometa, não se aproxime, não se responsabilize.

o mundo real aparece como concessão mínima. sofrimento entra em cena como quem entra num elevador errado e percebe rápido demais que não deveria estar ali. o filme reconhece a existência da realidade apenas para poder fingir consciência social antes de voltar correndo para sua zona segura, a ausência total de consequências.

o casamento segue a mesma cartilha. não há tensão porque tensão exige atrito. não há frieza porque frieza ainda pressupõe emoção. o que existe é neutralidade administrativa. duas figuras coexistindo sem curiosidade, sem expectativa, sem risco. o filme registra isso como se fosse normal, porque, dentro dessa lógica, é.

e até aqui, tudo poderia ser apenas mais um produto vazio circulando no ecossistema habitual do nada caro. mas então entra o detalhe que não salva o filme, condena o resto.

saber que tim cook assistiu a isso e validou não é uma curiosidade lateral. é o momento simbólico em que o último fiapo de autoridade moral que ainda se atribuía a ele evapora em silêncio. não com escândalo, não com tweet vergonhoso, mas com algo muito mais definitivo, o aceno educado diante do nada.

não foi erro de julgamento. foi escolha.

ali, naquele gesto manso, ele não endossou um filme, selou o próprio epitáfio ético. confirmou que a linha entre “liderança consciente” e “acomodação elegante” já não existe. que, no fim, tudo pode ser tolerado desde que venha bem embalado, bem financiado e sem risco de atrito social.

foi o fim simbólico da farsa de que ainda havia princípios ali. não caiu com barulho. não caiu com vergonha pública. caiu do jeito mais moderno possível, com um sorriso discreto e aprovação silenciosa.

e claro, nada disso funcionaria sem a engrenagem principal girando suave por trás. a amazon não apenas comprou o filme, despejou valores obscenos em publicidade para garantir que ele ocupasse espaço suficiente para parecer inevitável. não relevante. inevitável. como se saturação pudesse substituir significado. como se repetir o nada vezes suficientes o transformasse em algo.

é assim que o sistema fecha o circuito… dinheiro compra visibilidade, visibilidade simula importância, importância dispensa conteúdo. e no centro disso tudo, um filme que não quer provocar, não quer explicar, não quer existir de verdade, quer apenas passar.

melania não é fracasso criativo. é sucesso estrutural. prova viva de que hoje é possível ocupar quase duas horas de tela sem dizer absolutamente nada, desde que as pessoas certas validem, financiem e silenciem qualquer pergunta inconveniente.

eu assisti pra você não assistir porque isso não é cinema em decadência. é algo mais grave.

é o momento em que o vazio é oficialmente aceito como linguagem,
a apatia como estilo,
e a ausência de ideias como sinal de maturidade.

e quando até os últimos guardiões da “boa consciência corporativa” batem palma para isso, não resta muito a ser analisado.

resta apenas reconhecer…
não foi o filme que falhou.
foi todo o resto que concordou.