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2025

guerra

eu olho pra essa história toda e não vejo mocinhos. vejo vaidade, paranoia, ressentimento histórico mal resolvido e uma obsessão quase adolescente por provar quem é mais durão. e, como sempre, quem paga o jantar é o garçom que nem foi convidado pra festa.

o irã não começou ontem. não começou com aiatolá de barba branca apontando o dedo para o “grande satã”. começou lá atrás, quando potências ocidentais decidiram que democracia no oriente médio era ótima… desde que produzisse petróleo barato e obediente. 1953 não é um número abstrato… é o ano em que um governo iraniano eleito democraticamente foi derrubado porque ousou nacionalizar o próprio petróleo. golpe apoiado pelos eua e pelo reino unido. simples assim. mensagem enviada… “se brincar com nossos interesses, a gente troca você”.

depois veio o xá. modernização forçada, repressão, polícia secreta. champagne pra elite, porrada pra dissidente. e quando a panela explodiu em 1979, o ocidente fez aquela cara de surpresa teatral, como se ninguém pudesse imaginar que décadas de humilhação e autoritarismo resultariam numa revolução religiosa radical. aí nasce a república islâmica. e, com ela, uma narrativa poderosa, NÓS CONTRA ELES. ELES CONTRA NÓS. sempre com letras maiúsculas. algo que evito por aqui e só uso em ocasiões especiais.

os eua congelam ativos, cortam relações, começam o ciclo eterno de sanções. o irã responde com retórica inflamável, exportação de influência via proxies regionais, apoio a grupos armados que cutucam aliados americanos. cada lado alimenta o monstro do outro.

aí entra trump na primeira temporada dessa série interminável. sai do acordo nuclear, aquele mesmo acordo que tinha sido vendido como a última esperança racional de colocar limites verificáveis no programa nuclear iraniano. era imperfeito? claro. mas diplomacia é sempre imperfeita. ninguém sai 100% satisfeito. trump olha praquilo e vê fraqueza. rasga. chama de desastre. lança a tal “pressão máxima”. sanções sobre sanções, sufocando exportação de petróleo, bloqueando bancos, esmagando a economia iraniana.

a narrativa é simples e sedutora… vamos estrangular o regime até ele ceder ou cair. mas na prática quem sente primeiro é o sujeito que precisa comprar remédio importado, a família que vê a moeda virar pó, o jovem que já não tinha muita perspectiva e agora tem menos ainda. regimes autoritários são especialistas em sobreviver à miséria. quem não sobrevive é o cidadão comum.

e sabe eu vejo trump, e não é só ele, mas ele personifica esse estilo… tratando geopolítica como reality show. linguagem de ultimato. tweets (ou truth social) como se fossem granadas. “eles não vão ter arma nuclear.” ponto final. como se repetir isso com convicção fosse o mesmo que resolver décadas de desconfiança, orgulho nacional e trauma histórico.

mas também não dá pra romantizar teerã. o regime iraniano é duro, repressivo, paranoico. reprime protestos, prende dissidentes, controla imprensa. usa a ameaça externa como cola interna. quando a economia afunda, culpa as sanções, e muitas vezes com razão, mas aproveita para justificar mais controle. é um jogo perverso… quanto mais pressão externa, mais o regime se fecha. quanto mais se fecha, mais o ocidente aponta e diz “viu? eles são o problema”.

e no meio disso tudo está o programa nuclear. enriquecimento de urânio. centrífugas girando como se fossem roletas de cassino. o mundo inteiro fingindo que entende exatamente onde está a linha vermelha. o irã diz que é para fins pacíficos. os adversários dizem que é uma corrida disfarçada para a bomba. e cada avanço técnico vira manchete apocalíptica. o medo vende. a prudência não.

o que me fascina, e me irrita, é como tudo isso vira espetáculo doméstico nos eua. política externa usada como instrumento de identidade interna. ser duro com o irã não é só estratégia… é performance para a base. é provar que você não é fraco. que não é “globalista”. que não vai negociar com “terroristas”. o mundo real vira cenário para disputa eleitoral.

e do lado iraniano é o mesmo teatro, só que com turbantes. resistência heroica contra o imperialismo. cada sanção vira prova de que o inimigo quer destruir a nação. cada ameaça americana fortalece a narrativa de que ceder é trair a pátria.

eu fico olhando e penso… que combinação perfeita de egos inflamáveis. de um lado, uma superpotência acostumada a projetar força como se fosse direito natural. do outro, um regime que construiu sua identidade justamente na oposição a essa superpotência. é como se ambos precisassem um do outro para continuar existindo na forma atual.

e o mais perverso é que ninguém ali é completamente irracional. cada passo tem uma lógica interna. os eua querem evitar proliferação nuclear numa região já instável. o irã quer garantir sobrevivência do regime e alguma forma de dissuasão contra invasões ou golpes futuros. medo contra medo. cálculo contra cálculo. só que quando você empilha medo demais, a pilha cai. e nem tô abordando (ainda) o petróleo…

eu, honestamente, não vejo loucura pura. vejo arrogância. vejo trauma mal digerido. vejo líderes que sabem que recuar custa politicamente caro. vejo diplomatas tentando costurar acordos enquanto políticos gritam para as câmeras. vejo aliados regionais… israel, arábia saudita… puxando cordas nos bastidores, cada um com suas próprias contas a acertar.

e enquanto isso, o cidadão comum iraniano quer trabalho, estabilidade, dignidade. o americano médio quer gasolina barata e não quer mais uma guerra distante. mas as decisões são tomadas por gente que raramente sente as consequências diretas do que decide.

o mais irônico é que ambos os lados juram agir em nome da segurança. segurança nacional. segurança regional. segurança global. mas o método preferido é sempre o mesmo… ameaça, sanção, demonstração de força. é como tentar apagar incêndio jogando gasolina premium, mas com uma etiqueta que diz “segurança”.

às vezes me parece que estamos presos numa repetição histórica. 1979 nunca acabou. 1953 nunca foi realmente resolvido. cada geração herda o ressentimento da anterior, embala num novo discurso e chama de estratégia.

fico aqui pensando que talvez a maior loucura não seja de um líder ou de outro, mas dessa crença coletiva de que poder bruto resolve tudo. que humilhar o adversário é o mesmo que estabilizar o mundo. que sanção infinita produz moderação. que ultimato produz confiança.

não produz.

produz manchete. produz aplauso de curto prazo. produz likes. mas estabilidade real… essa exige algo muito menos sexy… paciência, concessão, aceitar que o outro lado não vai desaparecer só porque você gritou mais alto.

o irã e os eua são dois espelhos deformados um do outro. ambos convencidos de que estão reagindo, nunca provocando. ambos certos de que a história começou com a agressão do outro. e no meio dessa dança, o resto do mundo segura a respiração, esperando que ninguém tropece no botão errado.

se isso é loucura, é uma loucura meticulosamente racionalizada. com briefing, powerpoint e bandeira ao fundo. não é histeria… é cálculo frio com verniz patriótico.

e talvez seja isso que mais me incomoda.

porque quando a insanidade é óbvia, a gente sabe que precisa de ajuda. mas quando ela veste terno, fala em “interesses estratégicos” e cita segurança nacional, ela parece perfeitamente respeitável.

até o dia em que o mundo acorda e percebe que alguém, em algum lugar, decidiu que era hora de provar um ponto.

e pontos, meu amigo, raramente sangram sozinhos.