
eu não escolhi a filosofia general purpose.
ela me escolheu depois de eu ter destruído uma quantia de dinheiro que prefiro não contabilizar em voz alta comprando mochila errada repetidamente como se a próxima fosse ser diferente das anteriores. não foi. nylon que parecia bom na loja e em seis meses tinha aquela aparência de coisa que sobreviveu a algo sem planejar. couro que pesava mais vazio do que eu consigo carregar cheio. bonita demais pra uso real… você sabe esse tipo, compra olhando, não usando, e ela passa a vida te lembrando silenciosamente que você foi idiota naquele sábado de manhã. cada uma prometia. nenhuma entendia qual era de fato o problema. e o problema, fui descobrindo aos trancos, não era a mochila. era o que eu precisava que ela fosse. ainda não resolvi. ainda estou desenvolvendo. e essa busca humilhante e cara me ensinou mais sobre general purpose do que qualquer acerto teria ensinado, porque gp não é chegar no objeto ideal, é o processo brutal de eliminar o que não serve até sobrar o que funciona no mundo onde você realmente vive, não no mundo onde o produto foi fotografado com luz natural por alguém que nunca vai usá-lo.
foi assim que o resto tomou forma.
de manhã, jeans escuro e camiseta preta pesada. todo dia. não é declaração de identidade nem estética de designer famoso… é decisão eliminada. o cérebro tem uma quantidade finita de escolhas boas por dia e desperdiçar as primeiras com tecido é o tipo de coisa que eu não me perdoo mais.
o nb rebel v5 entra no pé porque eu corro e joelho humano é caro de consertar. não tem história de origem emocionante, não virou collab com ninguém que me importa. responde quando acelero, aguenta quando não. o boné entra porque sol existe e contato visual com desconhecido é uma escolha, não uma obrigação social, abaixar a aba muda completamente a qualidade do dia. assim como meus os óculos de sol existem porque luz forte machuca e porque contato visual com desconhecido é opcional.
quando estou com meu filho uso o ray-ban meta, não pra produzir conteúdo, não pra postar, mas pra estar presente de verdade e ainda assim capturar o que vale sem transformar o momento em filmagem. sem celular na mão, sem virar câmera ambulante que vê tudo através de uma tela, sem perder o instante tentando documentar o instante. a meta captura. eu fico dentro.
no bolso, um canivete suíço. não porque imagino cenários de colapso civilizacional enquanto espero o café. porque problema pequeno vira problema grande quando você não tem lâmina, e eu aprendi isso da forma mais inconveniente possível no momento mais inconveniente possível. a lapiseira porque escrever é pensar, e eu prefiro pensar com grafite… coisa que pode ser apagada, corrigida, riscada, que ainda não decidiu o que quer ser. e o moleskine porque pensamento de verdade não acontece em teclado que tenta adivinhar o que você vai dizer antes de você dizer, que sublinha o que acha errado antes de você terminar a frase, que ainda tem a audácia de sugerir melhorar com ia o que você acabou de escrever com a própria mão. não. o moleskine não corrige nada. não sugere nada. não tem bateria. recebe o que você coloca e fica quieto. isso é raro e cada vez mais precioso.
do lado, um isqueiro.
não zippo.
e aqui eu preciso ser honesto porque eu entendo o apelo do zippo completamente. é bonito. tem peso. tem aquele clique satisfatório, aquela chama larga que parece que o vento respeita. tem uma poesia nele que eu não nego. o problema é um só e é fatal… zippo seca. sempre. invariavelmente. especificamente no momento que você precisa de fogo de verdade, não pra compor atmosfera, mas pra acender alguma coisa porque você precisa que alguma coisa pegue fogo agora. você abre, gira o polegar, nada. seco. silêncio constrangedor. o isqueiro mais bonito do mundo te traindo na hora mais errada do dia. fogo não é estética, é necessidade. e necessidade não pode depender de recarga. o bic é feio, descartável, completamente desprovido de personalidade e funciona toda vez. em vinte anos nunca fui traído por um bic. por zippo fui. várias vezes. sempre na hora errada.
o seiko no pulso porque em algum momento eu precisei entender que tempo e notificação são coisas completamente diferentes. o modelo que eu uso foi escolhido pelos dois lados da guerra do vietnam… não pelos generais, pelos soldados. foi feito por japoneses que não estavam pensando em luxo, estavam pensando em durar em condições que ninguém quer imaginar. trincheira, lama, frio extremo, descaso total com o próprio bem-estar. o relógio precisava aguentar tudo isso e continuar marcando as horas sem reclamar. aguentou. décadas depois ainda aguenta. eu gosto profundamente de coisa que foi testada em condições piores do que as minhas e não reclamou.
o whoop no corpo, invisível, porque prefiro dado silencioso a achismo barulhento. não exibo, não comparo, não posto. eu dormi mal essa semana. sei exatamente quando e quanto. ignorar com consciência é mais honesto que ignorar por acidente.
o plaud grudado no celular porque memória humana é arquivo corrompido disfarçado de certeza. já saí de reunião absolutamente convicto de uma versão dos fatos que não existiu em nenhuma dimensão. agora tá gravado. as pessoas podem continuar tendo interpretações criativas da realidade… eu tenho o áudio. o hollyland quando o conteúdo importa de verdade, porque gravar com qualidade ruim é a versão sonora de servir vinho decente em copo sujo.
o kindle porque abrir aplicativo de leitura em celular é entrar numa armadilha com boa tipografia, você começa com intenção legítima e três minutos depois está assistindo alguém reformar cozinha em portugal sem ter tomado nenhuma decisão consciente no caminho. com o kindle eu leio. só isso. sem notificação esperando do lado, sem feed com fome de atenção, sem o mundo inteiro tentando entrar pela fresta.
o ipod classic porque eu escolho o que ouço, na ordem que quero, sem sugestão de algoritmo que me estuda há anos e ainda erra com uma regularidade que seria impressionante se não fosse irritante. a playlist é minha. a responsabilidade pelo gosto ruim é minha. pelo menos é honesto.
e sabe, isso tudo não é setup de pessoa organizada. não é estética de quem leu sobre estoicismo numa tarde livre e decidiu simplificar.
é o que sobrou depois de errar o suficiente.
ah e a mochila, essa ainda estou resolvendo. não porque vai ser perfeita. porque vai desaparecer. vou colocar no ombro, sair, e parar de pensar nela.