
eu ouço essa conversa sobre escola e sinto um incômodo difícil de disfarçar. não porque eu ache que o futuro não importa, claro que importa, mas porque me parece absurdo esse impulso de transformar a infância numa espécie de prévia da vida adulta.
me dizem que meu filho precisa estar no ambiente certo, cercado pelas pessoas certas, porque isso vai abrir portas lá na frente. como se, antes mesmo de aprender quem ele é, ele já precisasse começar a se posicionar no mundo.
e é aí que eu travo.
porque eu não consigo olhar pra uma criança e enxergar estratégia. não consigo ouvir a palavra “networking” sem sentir que tem alguma coisa profundamente fora do lugar. meu filho não é um projeto de longo prazo. não é uma aposta de mercado. não é uma peça que eu preciso mover com inteligência pra garantir um desfecho confortável.
ele é uma criança.
e eu queria que isso, por si só, já bastasse.
queria que escola ainda pudesse significar descoberta, curiosidade, tropeço, amizade sem cálculo. queria que crescer ainda tivesse espaço pro improviso, pro acaso, pro erro, porque é justamente aí que a vida costuma acontecer de verdade.
mas parece que tudo hoje vem embalado nessa ansiedade elegante de quem quer prever o imprevisível. como se fosse possível blindar um filho da incerteza escolhendo o endereço certo, o sobrenome certo ao redor, o círculo certo.
e eu acho isso sufocante.
não porque eu seja ingênuo. eu sei que o mundo é desigual, eu sei que contexto pesa, eu sei que portas se abrem de formas injustas. mas uma coisa é reconhecer isso. outra é aceitar, sem questionar, que a infância já precise ser moldada por essa lógica.
eu me recuso a ensinar tão cedo que valor depende de acesso. que amizade pode ser investimento. que o futuro se constrói melhor quando você aprende desde cedo a circular entre os nomes certos.
eu prefiro outra aposta.
a de que caráter importa. a de que curiosidade vale mais que verniz. a de que crescer com liberdade talvez prepare muito melhor alguém pra vida do que qualquer rede de contatos montada aos sete anos.
porque, no fim, o que me assusta não é meu filho não ter networking.
o que me assusta é a naturalidade com que tanta gente acha razoável roubar dele o direito de simplesmente ser criança.