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2025

tchau seleção

eu não abandonei a seleção brasileira por causa de uma derrota. seria uma razão ridiculamente pequena. o brasil já perdeu copas, finais, classificações, dignidade e até para si mesmo algumas vezes. derrota nunca foi novidade por aqui. na verdade, boa parte da nossa identidade futebolística foi construída justamente na convivência com tragédias esportivas transformadas em literatura nacional.

o que me afastou foi algo muito mais difícil de medir.

foi a sensação de que a seleção deixou de ser um capítulo da cultura brasileira para virar uma unidade de negócio.

quando eu era criança, a seleção parecia pertencer às pessoas. hoje ela parece pertencer a uma reunião.

em algum lugar entre um contrato de patrocínio, uma estratégia de posicionamento global, um plano de expansão de marca e uma apresentação em powerpoint com gráficos coloridos, a seleção passou a me dar a mesma emoção de uma convenção corporativa.

e isso não é necessariamente culpa dela.

é culpa da época.

a mesma época que transformou bares em espaços instagramáveis, cafés em cenários fotográficos, corridas de rua em desfiles de marcas esportivas e qualquer atividade humana em oportunidade de monetização.

era inevitável que o futebol recebesse o mesmo tratamento.

afinal, o capitalismo moderno olha para uma paixão genuína da mesma forma que um tubarão olha para uma foca distraída.

mas uma coisa é entender o fenômeno.

outra é gostar dele.

eu não gosto.

e talvez seja aí que mora minha ruptura.

não me reconheço naquele universo.

não me reconheço na obsessão por cifras.

não me reconheço na glorificação de fortunas obscenas como se fossem conquistas morais.

não me reconheço numa geração de ídolos que muitas vezes parece mais interessada em construir uma marca pessoal do que uma história coletiva.

e antes que alguém diga que isso sempre existiu, claro que existiu.

a diferença é que antes havia algum constrangimento.

hoje existe orgulho.

há uma diferença enorme entre alguém enriquecer e alguém transformar o enriquecimento na única narrativa disponível.

o futebol contemporâneo parece um lugar onde tudo precisa ser vendido.

a camisa.

o treino.

o bastidor.

a entrevista.

o aquecimento.

a emoção.

a nostalgia.

o futuro.

e, principalmente, a atenção.

sempre a atenção.

especialmente a atenção.

olho para o ecossistema que cerca a seleção e vejo casas de apostas disputando espaço como se fossem instituições culturais. vejo adolescentes decorando odds antes de decorar escalações. vejo campanhas publicitárias tratando especulação como entretenimento. vejo uma indústria inteira convencendo as pessoas de que assistir a um jogo não basta, é preciso ter uma aposta emocional e financeira acontecendo simultaneamente.

e não, este texto não é sobre apostas.

mas também não dá para fingir que elas não estão sentadas na primeira fila do espetáculo.

porque estão.

e não vieram para assistir.

vieram para administrar o evento.

a seleção virou, para mim, uma embalagem.

uma embalagem bonita.

caríssima.

histórica.

mas ainda uma embalagem.

às vezes tenho a impressão de que ela vive de uma espécie de cheque emocional emitido por gerações passadas.

como um herdeiro que continua gastando uma fortuna construída pelos avós.

a marca segue poderosa.

o saldo afetivo continua alto.

mas os depósitos diminuíram há muito tempo.

e talvez a prova disso seja que os momentos mais emocionantes que vivi com futebol nos últimos anos raramente envolveram a seleção.

foram jogos improváveis.

estádios pequenos.

torcidas apaixonadas.

histórias humanas.

porque o futebol sempre foi melhor quando falava sobre pessoas.

e cada vez pior quando passou a falar sobre ativos.

eu também percebi outra coisa desconfortável.

durante décadas a seleção era uma janela para sonhar.

hoje ela frequentemente funciona como uma vitrine de um estilo de vida que não admiro.

ostentação sem contexto.

riqueza sem reflexão.

sucesso sem profundidade.

uma espécie de culto permanente à exposição.

e talvez isso diga mais sobre o nosso tempo do que sobre o futebol.

vivemos numa era em que qualquer pessoa com dinheiro suficiente é automaticamente promovida à condição de exemplo.

como se patrimônio fosse sinônimo de sabedoria.

como se faturamento fosse caráter.

como se visibilidade fosse relevância.

e eu simplesmente não compro essa ideia.

nem no futebol.

nem fora dele.

o mais engraçado é que a seleção continua sendo tratada como patrimônio nacional.

e talvez seja.

mas existem patrimônios que visitamos com frequência e patrimônios que viram ponto turístico.

você respeita.

admira.

reconhece sua importância histórica.

mas não sente vontade de voltar toda semana.

é mais ou menos assim que me sinto.

não existe raiva.

não existe revolta.

não existe ressentimento.

existe apenas uma estranha sensação de distância.

como encontrar uma fotografia antiga e perceber que não sente saudade da foto.

sente saudade da época.

porque, no fundo, talvez eu não tenha abandonado apenas a seleção brasileira.

talvez eu tenha abandonado a fantasia de que ela ainda representa aquilo que um dia representou.

e fantasias são curiosas.

elas não acabam quando descobrimos que são falsas.

elas acabam quando deixam de ser necessárias.

a seleção continua entrando em campo.

o hino continua tocando.

a camisa continua amarela.

o marketing continua dizendo que aquilo é um acontecimento histórico.

e eu continuo olhando para tudo isso com a mesma reação que tenho diante de muitos símbolos contemporâneos…

entendo perfeitamente por que existem.

apenas não consigo mais me convencer de que preciso acreditar neles.