
anthony bourdain faria 70 anos hoje, e existe uma ironia cruel nisso. porque eu continuo encontrando o tony o tempo inteiro. menos onde ele deveria estar. na televisão. no aeroporto. num mercado qualquer do outro lado do mundo.
ou quem sabe, sentado num balcão de inox às duas da manhã, fumando um cigarro ruim, bebendo alguma coisa ainda pior e ouvindo uma história que jamais pisaria numa capa de revista.
o mundo ficou cheio de gente tentando copiar anthony bourdain e incrivelmente vazio de anthony bourdain.
porque quase todo mundo copiou a superfície.
a barba por fazer.
a voz grave.
as viagens.
os planos bonitos.
a comida exótica.
o copo de cerveja.
mas quase ninguém teve coragem de copiar a única coisa que realmente importava.
a curiosidade.
não aquela curiosidade infantil de experimentar um prato diferente.
a curiosidade difícil.
aquela que obriga você a admitir que talvez tenha passado a vida inteira entendendo um lugar, uma cultura ou uma pessoa de maneira completamente errada.
isso dói.
e dói porque exige uma coisa que virou artigo de luxo.
humildade.
anthony bourdain nunca viajava para confirmar aquilo que já pensava.
ele viajava justamente para destruir as próprias certezas.
essa talvez seja a parte mais bonita da obra dele.
e também a mais rara.
porque hoje todo mundo parece viajar para confirmar uma identidade.
para produzir conteúdo.
para alimentar um algoritmo.
para provar alguma coisa.
ele fazia exatamente o contrário.
ele desaparecia dentro do lugar.
e deixava que o lugar aparecesse.
isso parece simples.
mas praticamente ninguém faz.
a internet transformou o mundo inteiro num grande palco.
e bourdain insistia em permanecer na plateia.
ouvindo.
observando.
fazendo perguntas.
é curioso.
porque ele ficou famoso justamente numa época em que a televisão adorava especialistas.
gente que sempre tinha respostas.
e bourdain parecia profundamente desconfortável com respostas.
ele preferia perguntas.
preferia dúvidas.
preferia contradições.
porque entendia uma coisa que hoje parece revolucionária.
o mundo não precisa de mais gente explicando tudo.
precisa de mais gente disposta a ouvir.
e talvez seja por isso que ele continue parecendo tão atual.
não porque o mundo tenha parado.
mas porque nós aceleramos na direção errada.
hoje existem milhares de influenciadores de viagem.
milhares.
mas quase todos parecem influenciadores da própria viagem.
o destino virou cenário.
o restaurante virou thumbnail.
a comida virou conteúdo.
a cultura virou legenda.
o morador virou figurante.
e eu imagino o tamanho do tédio que isso causaria ao tony….
porque ele nunca colecionou lugares.
colecionou pessoas.
nunca filmou pratos.
filmou cicatrizes.
nunca procurou o restaurante perfeito.
procurou a conversa perfeita.
e existe uma diferença gigantesca entre essas duas coisas.
uma rende estrelas.
a outra muda você.
eu acho engraçado quando dizem que anthony bourdain era um apresentador de gastronomia.
isso é como dizer que joseph conrad escrevia sobre barcos.
ou que hemingway escrevia sobre pescaria.
a comida sempre foi uma desculpa.
o assunto era o ser humano.
era poder.
era desigualdade.
era imigração.
era guerra.
era colonialismo.
era solidão.
era identidade.
era pertencimento.
era tudo aquilo que normalmente cabe melhor numa mesa do que num palco.
e talvez seja exatamente por isso que ele continue vivo.
porque pessoas interessantes raramente falam sobre aquilo que parecem falar.
elas usam um assunto para revelar outro.
bourdain usava um prato de macarrão para falar de dignidade.
um mercado de rua para falar de economia.
um bar qualquer para falar de política.
um cozinheiro para falar de orgulho.
um táxi para falar de história.
um copo de cerveja para falar da condição humana.
isso é muito diferente de turismo.
isso é literatura.
e literatura continua sobrevivendo muito melhor do que conteúdo.
eu sinto falta de anthony bourdain.
não porque faltam programas sobre comida.
o streaming está cheio deles.
não porque faltam pessoas viajando.
o instagram nunca teve tantas.
eu sinto falta de alguém que olhava para o mundo sem a obrigação de transformá-lo imediatamente em opinião.
isso virou uma raridade.
hoje todo mundo quer explicar.
corrigir.
ensinar.
julgar.
bourdain parecia interessado em uma coisa muito mais difícil.
entender.
e entender leva tempo.
leva silêncio.
leva desconforto.
leva a coragem de sentar numa mesa onde ninguém fala sua língua e ainda assim permanecer ali.
isso não viraliza.
mas transforma.
e talvez seja justamente por isso que tanta gente continue voltando aos episódios dele.
não para descobrir um restaurante.
mas para lembrar que existe outra maneira de caminhar pelo mundo.
uma maneira menos barulhenta.
menos performática.
menos ansiosa para chegar a uma conclusão.
mais humana.
anthony bourdain faria 70 anos hoje. eu sei, já falei isso… mas sabe, talvez a parte mais triste não seja o fato de ele ter ido embora cedo.
a parte mais triste seja perceber que o mundo precisava dele muito mais agora do que quando ele ainda estava aqui.
porque nunca tivemos tanta informação.
e tão pouca curiosidade.
nunca tivemos tanta conexão.
e tão poucos encontros.
nunca tivemos tanta gente viajando.
e tão pouca gente realmente chegando.
parabéns pelos 70, chef.
o mundo continua servindo pratos melhores.
hotéis melhores.
câmeras melhores.
aviões melhores.
algoritmos melhores.
mas, estranhamente…
as conversas ficaram piores.
e talvez seja exatamente por isso que você continua fazendo tanta falta.
saúde, chef.
a próxima cerveja continua sendo por sua conta.