
e o curioso é que isso acontece justamente numa época em que eles nunca foram tão bem produzidos. os palcos estão mais bonitos, as apresentações estão mais profissionais, as identidades visuais parecem saídas de uma agência premiada, a iluminação lembra um show, a trilha sonora foi escolhida para provocar emoção no momento certo e a qualidade técnica é infinitamente superior à de dez anos atrás. se alguém julgasse um evento apenas pela produção, provavelmente concluiria que estamos vivendo a era de ouro das conferências. o problema é que produção nunca foi sinônimo de profundidade. hollywood também sabe construir cenários incríveis e ninguém confunde um filme com a vida real.
eu comecei a perceber que boa parte dos eventos passou a funcionar exatamente como as plataformas de streaming. o objetivo já não parece ser produzir uma experiência realmente inesquecível. o objetivo é manter uma máquina funcionando. termina um summit e, antes mesmo de você esquecer o nome dos palestrantes, já existe outro sendo anunciado. muda o patrocinador, muda a identidade visual, muda a cidade, mas a sensação é de assistir ao mesmo episódio gravado com atores diferentes. alguém fala sobre inteligência artificial, outro sobre liderança, alguém menciona inovação, aparece um painel sobre o futuro do trabalho, um executivo apresenta um case de sucesso, outro explica por que os próximos cinco anos serão decisivos e, quando você percebe, passou o dia inteiro ouvindo ideias que pareciam novas apenas porque estavam sendo contadas por vozes diferentes.
isso me fez pensar numa coisa que vai muito além dos eventos. nós construímos uma economia inteira baseada na produção constante de novidade. existe uma pressão quase industrial para que toda semana apareça um novo podcast, uma nova newsletter, um novo livro, uma nova conferência, uma nova metodologia, um novo framework, uma nova tendência. o mercado aprendeu que novidade chama atenção, mesmo quando ela não passa de uma embalagem diferente para uma ideia antiga. talvez seja por isso que tantas palestras pareçam familiares antes mesmo de começarem. não porque você já assistiu exatamente àquela apresentação, mas porque já ouviu variações da mesma história dezenas de vezes.
e talvez a maior ironia seja que nunca houve tanta gente falando sobre originalidade enquanto tão poucas ideias realmente originais aparecem. parece contraditório, mas faz sentido. quando todo mundo precisa produzir conteúdo o tempo inteiro, sobra pouco espaço para viver experiências que realmente mereçam ser contadas. boas ideias costumam nascer de observação, de tempo, de erro, de silêncio, de curiosidade. nenhuma delas respeita calendário de conferência. nenhuma delas surge porque o departamento de marketing definiu que o evento acontece em setembro e alguém precisa subir ao palco com uma palestra inédita.
e durante muito tempo eu acreditava que um palco era consequência de uma trajetória. alguém fazia alguma coisa extraordinária e, como consequência, era convidado para falar sobre aquilo. hoje tenho a impressão de que, em muitos casos, a lógica se inverteu. o palco deixou de ser consequência e virou estratégia. muita gente sobe para falar não porque construiu alguma coisa excepcional, mas porque falar passou a ser parte do próprio negócio. a palestra virou ferramenta de aquisição de clientes. o painel virou vitrine. a conferência virou canal de distribuição. não há nada de errado nisso. empresas sempre usaram eventos para vender. o problema aparece quando a venda começa a usar a linguagem da educação. quando um pitch recebe iluminação cinematográfica, uma narrativa emocionante e algumas estatísticas bem escolhidas, ele continua sendo um pitch. apenas ficou mais elegante.
talvez seja por isso que eu tenha parado de escolher eventos pelo tema. durante anos a pergunta era simples: “é sobre tecnologia?”, “é sobre marketing?”, “é sobre inteligência artificial?”. hoje isso já não significa absolutamente nada. existem eventos extremamente especializados que não conseguem aprofundar uma única ideia e existem conversas improvisadas em uma mesa de café que mudam completamente a maneira como você enxerga um problema. a pergunta deixou de ser “sobre o que é o evento?”. passou a ser “quem ganha se eu acreditar no que está sendo dito?”. essa pergunta muda completamente a forma como você escuta qualquer palestra.
e talvez essa seja a habilidade que mais estamos perdendo. aprender a separar experiência de apresentação. porque apresentação pode ser ensaiada. experiência não. apresentação pode contratar uma agência. experiência não. apresentação pode ser repetida cinquenta vezes em cidades diferentes sem mudar uma palavra. experiência verdadeira muda toda vez que é contada, porque quem viveu também continua mudando. talvez seja exatamente por isso que algumas das conversas mais interessantes da minha vida nunca aconteceram em auditórios. aconteceram depois que o evento acabou, quando o microfone foi desligado, o telão apagou e alguém finalmente parou de fazer uma palestra… para simplesmente começar uma conversa.
no fim, eu não acho que exista um excesso de eventos. acho que existe uma escassez de silêncio entre eles. boas ideias precisam de tempo para amadurecer. experiências precisam de tempo para virar repertório. pessoas interessantes normalmente estão ocupadas vivendo alguma coisa antes de subir ao palco para contar. talvez a indústria tenha esquecido esse detalhe. ela acelerou a produção de conferências como quem aumenta a velocidade de uma fábrica. o problema é que ideias nunca obedeceram ao ritmo das fábricas. elas continuam crescendo no tempo delas. e, até onde eu sei, ainda não inventaram um painel capaz de acelerar isso.