
tenho uma certa desconfiança de pessoas que se apresentam como muito empáticas. não porque sejam necessariamente mentirosas, mas porque empatia é uma dessas qualidades que ficam consideravelmente menos impressionantes quando o próprio dono resolve anunciá-las. é como entrar num restaurante e encontrar um cartaz dizendo que a comida é deliciosa. talvez seja. mas agora eu quero conferir a cozinha.
vivemos uma época extraordinária para quem gosta de falar sobre sentimentos. nunca tivemos tantas palavras para explicar nossas dores, tantas maneiras de anunciar nossas fragilidades e tanta gente disposta a publicar pequenos tratados sobre a importância de respeitar o próximo. o próximo, naturalmente, é uma figura abstrata. uma criatura simpática, educada, que concorda conosco e provavelmente nunca tentou entrar no elevador antes de deixarmos sair.
o próximo de verdade é um sujeito bem menos agradável.
ele demora no caixa do supermercado. fala alto no restaurante. estaciona mal. faz perguntas idiotas. interrompe histórias. tem opiniões que consideramos absurdas e, em casos particularmente graves, insiste em compartilhá-las. não tem a delicadeza de organizar a própria existência de maneira compatível com nossas preferências.
e é aí que a empatia começa a ficar cara.
porque gostar da humanidade é fácil. a humanidade não senta ao seu lado no avião comendo um sanduíche de atum. não coloca o celular no viva-voz dentro do ônibus. não pede para dividir a conta depois de ter consumido três vezes mais que todo mundo. a humanidade, vista de longe, é uma ideia maravilhosa. o problema são os seres humanos. eles têm cheiro, manias, mau humor e uma capacidade quase sobrenatural de escolher o pior momento possível para precisar de alguma coisa.
e nós também somos assim, evidentemente. só que nossos defeitos têm explicações muito convincentes.
quando estamos mal-humorados, tivemos um dia difícil. quando outra pessoa está mal-humorada, falta educação. quando esquecemos um compromisso, estamos sobrecarregados. quando alguém esquece algo importante para nós, descobrimos uma grave falha de caráter. quando falamos demais, estamos entusiasmados. quando o outro fala demais, é um narcisista insuportável que deveria procurar ajuda profissional.
a psicologia popular fez maravilhas pela nossa capacidade de diagnosticar desconhecidos sem precisar passar pelo inconveniente de conhecê-los.
bastam alguns minutos nas redes sociais para descobrir que o mundo está infestado de narcisistas, psicopatas, manipuladores, pessoas tóxicas e indivíduos emocionalmente indisponíveis. uma epidemia impressionante. curiosamente, quase todos os diagnósticos são feitos por pessoas que, segundo seus próprios relatos, são profundamente empáticas e apenas tiveram o azar de encontrar seres humanos horríveis ao longo da vida.
uma coincidência estatística fascinante.
não estou dizendo que gente cruel não exista. existe, e bastante. também não acho que todo comportamento precise ser compreendido, perdoado e embrulhado numa explicação bonita. algumas pessoas são simplesmente desagradáveis. outras fazem coisas ruins sabendo exatamente o que estão fazendo. empatia não deveria servir como uma espécie de anistia universal para a falta de caráter.
mas existe uma distância considerável entre reconhecer isso e transformar qualquer pessoa que nos contrarie num caso clínico.
o que me incomoda é a facilidade com que passamos a usar palavras sofisticadas para justificar uma velha atividade humana. não gostar de alguém.
antes você dizia que seu colega era um chato. hoje ele tem comportamentos incompatíveis com seus limites emocionais. antes uma amizade terminava porque duas pessoas já não se suportavam. agora uma delas precisa escrever um pequeno comunicado sobre como está priorizando a própria saúde mental e se afastando de energias que não contribuem para sua jornada.
às vezes a pessoa só não aguenta mais ouvir o amigo falar de crossfit.
e tudo bem.
nem toda antipatia precisa virar uma tese sobre desenvolvimento pessoal. nem toda discussão revela um trauma. nem todo sujeito inconveniente está tentando manipular alguém. existe uma quantidade imensa de gente apenas sendo gente, o que já é uma ocupação suficientemente desastrosa sem precisar de nomenclatura adicional.
a internet, claro, tornou a situação muito mais divertida. hoje podemos demonstrar nossa extraordinária sensibilidade humana participando de humilhações públicas em escala industrial. alguém comete um erro, fala uma besteira, aparece num vídeo constrangedor e imediatamente milhares de pessoas se reúnem para ensinar uma lição sobre respeito, geralmente usando palavras que não repetiriam na frente da própria avó.
é uma experiência educativa. especialmente para quem gosta de assistir a um linchamento enquanto se sente moralmente superior.
e existe uma satisfação bastante peculiar nisso. quando encontramos alguém que consideramos errado, ganhamos uma espécie de autorização temporária para abandonar todas as virtudes que exigimos dos outros. podemos ser cruéis, debochados, desproporcionais. podemos reduzir uma pessoa inteira ao pior minuto da sua existência. afinal, estamos do lado certo. e estar do lado certo, aparentemente, dispensa a obrigação de continuar sendo decente.
não é uma exclusividade de grupo nenhum. esse é justamente o charme da coisa. todo mundo tem uma justificativa maravilhosa para a própria falta de empatia.
e ninguém parece perceber a ironia.
ou percebe e não se importa. o que, pensando bem, talvez seja pior.
também temos uma relação curiosa com o sofrimento alheio. gostamos de ajudar, especialmente quando a ajuda vem acompanhada de uma história que nos coloca numa posição interessante. somos generosos, atenciosos, solidários. sabemos encontrar as palavras certas, publicar mensagens comoventes e demonstrar uma preocupação admirável com pessoas que nunca vimos.
mas a empatia cotidiana é menos fotogênica.
ela aparece quando o garçom traz o pedido errado e você precisa decidir se vai transformar um erro banal numa pequena demonstração de autoridade. aparece quando um atendente não consegue resolver seu problema porque a empresa criou um sistema idiota e colocou aquele sujeito mal remunerado para receber toda a indignação dos clientes. aparece quando alguém está contando uma história longa, confusa, sem ritmo, e você percebe que não haverá nenhuma revelação extraordinária no final.
ninguém vai aplaudir sua paciência. não haverá fotografia. provavelmente nem um agradecimento.
é uma péssima oportunidade de construir uma imagem pública.
talvez por isso a empatia seja tão fácil de defender em discursos e tão inconveniente de praticar numa terça-feira qualquer.
e ainda existe a nossa incapacidade quase comovente de ouvir alguém sem tentar transformar a conversa num episódio sobre nós mesmos.
uma pessoa diz que está exausta. imediatamente contamos como nossa semana foi pior. alguém fala que está passando por um momento difícil e respondemos com uma história de superação pessoal, de preferência acompanhada de uma lição que aprendemos e que agora pretendemos distribuir gratuitamente. se um amigo diz que está triste, sentimos a necessidade urgente de consertar sua tristeza. damos conselhos, sugerimos exercícios, indicamos livros, recomendamos terapia, mudanças de rotina e talvez uma viagem.
tudo para evitar o desconforto de ficar sentado ao lado de alguém que não está bem.
porque ouvir de verdade pode ser uma atividade desagradável. às vezes não há solução. às vezes a pessoa não quer saber como você resolveu um problema parecido em 2014. às vezes a história é triste, repetitiva, mal contada e não oferece nenhum ensinamento útil. às vezes ela só precisa de alguém que não consulte o celular enquanto escuta.
um pedido aparentemente simples, mas que já coloca boa parte da população diante de um desafio olímpico.
também não ajuda o fato de termos transformado a vida numa competição permanente de dificuldades. ninguém pode estar cansado sem que apareça alguém mais cansado. ninguém pode reclamar de um problema sem ouvir que existem pessoas passando fome. ninguém pode dizer que teve um dia ruim porque, em algum lugar, certamente há alguém tendo um dia muito pior.
seguindo essa lógica, apenas a pessoa mais infeliz do planeta teria autorização para reclamar. os demais deveriam aguardar educadamente sua vez, que provavelmente nunca chegaria.
o sofrimento humano não funciona como uma fila de banco. reconhecer a dor de alguém não exige estabelecer se ela merece uma senha preferencial.
mas há algo ainda mais irritante na maneira como falamos de empatia. frequentemente a tratamos como uma virtude reservada a pessoas agradáveis. gostamos de imaginar que ser empático significa oferecer compreensão a quem merece. alguém educado, gentil, esforçado, preferencialmente com uma história triste e um comportamento exemplar.
isso não é exatamente um grande feito.
qualquer um consegue ser simpático com alguém simpático. a verdadeira dificuldade começa com o sujeito que faz você perder a paciência. aquele que não entende uma explicação simples. que insiste numa ideia absurda. que fala alto demais, pergunta demais, reclama demais. a pessoa que não tem a menor intenção de facilitar sua vida.
não precisamos concordar com ela. muito menos gostar dela. mas seria interessante lembrar, por alguns segundos, que existe uma pessoa inteira ali, e não apenas o inconveniente que acabou de atravessar nosso caminho.
e isso vale especialmente para quem conhecemos há muito tempo.
há uma espécie de preguiça afetiva que se instala nas relações. começamos a acreditar que já sabemos tudo sobre nossos amigos, parceiros, pais, filhos. paramos de fazer perguntas porque achamos que conhecemos as respostas. interpretamos o silêncio, a irritação, a ausência e o cansaço com a segurança de quem leu o manual completo daquela pessoa.
só esquecemos de considerar que o manual pode ter mudado.
o amigo que anda distante talvez esteja atravessando alguma coisa que não sabe explicar. a pessoa irritada talvez esteja com medo. alguém que parece indiferente pode estar simplesmente esgotado. ou talvez não. talvez o amigo tenha perdido o interesse, a pessoa seja realmente mal-educada e o indiferente não se importe com nada.
o ponto é que não sabemos.
e admitir que não sabemos parece ter se tornado uma humilhação intolerável.
preferimos conclusões. elas são rápidas, confortáveis e não exigem que a gente escute uma versão dos acontecimentos capaz de estragar a nossa.
existe, naturalmente, um limite para tudo isso. ninguém precisa passar a vida tolerando abusos, desculpando comportamentos cruéis ou oferecendo compreensão infinita a quem não demonstra a menor preocupação com os outros. há situações em que a atitude mais saudável é ir embora. sem discurso, sem cerimônia e, se possível, sem publicar um manifesto explicando a decisão.
ter empatia não obriga ninguém a ser capacho.
mas também não deveria ser necessário odiar uma pessoa para estabelecer distância dela. essa é outra habilidade que estamos perdendo. a capacidade de discordar, terminar uma relação, recusar um convite ou simplesmente não gostar de alguém sem precisar transformar o outro num monstro para justificar a escolha.
às vezes duas pessoas são incompatíveis. acontece. o mundo tem bilhões de habitantes. seria surpreendente se todos funcionassem bem juntos.
o que me parece estranho é a necessidade de sair de qualquer conflito como o herói indiscutível da história.
talvez seja porque gostamos demais da ideia de sermos boas pessoas. precisamos acreditar que nossas intenções são nobres, nossos julgamentos são equilibrados e nossas atitudes, mesmo as piores, aconteceram por motivos compreensíveis. somos muito generosos com nossa própria biografia. editamos os capítulos ruins, acrescentamos contexto, explicamos decisões questionáveis e transformamos alguns erros em experiências de aprendizado.
os outros não recebem esse trabalho editorial.
para eles, basta uma manchete.
e talvez seja justamente aí que a empatia tenha alguma utilidade. não como um grande sentimento capaz de salvar a humanidade, mas como uma pequena desconfiança das nossas próprias certezas. aquela fração de segundo em que você pensa que talvez não conheça a história inteira. que talvez a pessoa não seja tão idiota quanto parece. que talvez você esteja irritado, cansado ou simplesmente com vontade de encontrar alguém em quem descontar um dia ruim.
não é uma revelação espiritual. não exige retiro, meditação nem uma assinatura mensal de algum aplicativo de bem-estar.
exige apenas aceitar uma possibilidade profundamente ofensiva ao nosso ego.
a de que podemos estar errados.
não sei se estamos ficando menos empáticos ou se apenas encontramos maneiras mais eficientes de exibir nossa falta de paciência. provavelmente sempre fomos uma espécie complicada. basta observar uma reunião de condomínio para perder qualquer ilusão sobre a evolução moral da humanidade.
mas há algo especialmente ridículo em viver cercado de discursos sobre acolhimento, respeito e compreensão enquanto tratamos qualquer pequeno incômodo como uma ofensa pessoal.
todo mundo quer ser visto, ouvido, respeitado e compreendido. são desejos perfeitamente razoáveis. o problema é que estamos tentando organizar uma sociedade inteira em que cada pessoa exige essas coisas enquanto considera um abuso ter que oferecê-las a alguém desagradável.
e gente desagradável, convém lembrar, é uma categoria da qual todos nós participamos ocasionalmente.
inclusive aquele sujeito simpático que aparece no espelho pela manhã, convencido de que está fazendo o melhor que pode.
ele provavelmente está.
os outros também podem estar.
seria interessante conceder a eles, de vez em quando, o mesmo benefício da dúvida que reservamos com tanta generosidade para nós mesmos.
e se isso parecer pedir demais, talvez seja.
afinal, estamos falando de uma espécie que conseguiu colocar um homem na lua, mas ainda precisa de avisos em banheiros públicos lembrando que é necessário lavar as mãos.