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2025

afinal, de que lado estou? lula ou bolsonaro?

essa pergunta sempre me diverte. não pelo assunto, que é sério, mas pela expectativa de quem pergunta. a pessoa quer descobrir em qual gaveta deve me colocar. dependendo da resposta, vai decidir se sou inteligente, idiota, comunista, fascista, patriota ou alguma outra palavra que aprendeu a usar como insulto sem necessariamente saber o que significa.

vou decepcionar os dois lados. não gosto de lula. e gosto menos ainda de bolsonaro. o que, aparentemente, é uma posição impossível num país onde política virou uma espécie de campeonato de futebol disputado por gente que não aceita nem o resultado nem as regras.

não tenho pôster de político na parede. não acordo emocionado pensando em discurso presidencial. não sinto necessidade de defender declarações absurdas só porque foram feitas por alguém em quem votei. e, se um presidente fizer uma besteira, não vou procurar uma explicação mirabolante para transformá-la numa jogada genial de xadrez. às vezes uma besteira é só uma besteira. mesmo quando vem do seu candidato preferido.

mas existe uma diferença enorme entre não gostar de um político e não conseguir avaliar uma eleição.

não voto para escolher um amigo, um padrinho, um sujeito simpático para tomar cerveja ou alguém que eu convidaria para jantar. voto para escolher quem vai exercer poder sobre decisões que afetam a vida de milhões de pessoas. e, para isso, simpatia pessoal está muito longe de ser meu principal critério.

quero saber o que o candidato pretende fazer, se existe alguma possibilidade real de executar o que promete, com quem pretende governar, como lida com as instituições, qual é seu histórico de decisões e quais serão as consequências prováveis das escolhas que defende. também quero saber o que acontece quando as coisas dão errado. porque governar não é fazer discurso bonito diante de uma plateia que já concorda com você. é tomar decisões difíceis, negociar com gente desagradável, reconhecer limites e responder pelos resultados.

e aí entra uma coisa que parece ter desaparecido das discussões políticas brasileiras. a capacidade de comparar alternativas sem precisar canonizar uma delas.

é possível considerar uma opção eleitoral mais próxima de determinadas prioridades sem achar que seu candidato esteja acima de qualquer crítica. é possível reconhecer problemas em governos, discordar de decisões econômicas, questionar alianças e cobrar resultados sem que isso obrigue alguém a aderir automaticamente ao projeto adversário.

também é possível rejeitar determinadas práticas políticas por razões concretas, ligadas ao exercício do poder e à relação com as instituições, sem precisar transformar outro político num herói para justificar essa escolha.

isso deveria ser o básico. no brasil, parece uma tese de doutorado.

o mais curioso é a quantidade de pessoas que trata o voto como um juramento de fidelidade eterna. você escolhe um candidato e, a partir daquele momento, passa a ser responsável por defender cada frase, cada ministro, cada nomeação, cada contradição e cada desastre administrativo. o político muda de posição, faz alianças improváveis, negocia com antigos adversários e segue tranquilamente sua carreira. o eleitor continua na internet, trabalhando de graça para explicar por que aquilo tudo faz parte de um plano brilhante.

é uma relação maravilhosa. o político fica com o poder. o cidadão fica com o constrangimento.

eu não tenho a menor intenção de participar disso.

uma eleição pode colocar o eleitor diante de alternativas com as quais ele não se identifica integralmente. nesse caso, a escolha continua exigindo análise de propostas, histórico, capacidade de articulação, compromissos institucionais e consequências das decisões. não por paixão, não por devoção e muito menos porque algum desses homens seja indispensável à existência da república.

aliás, desconfio profundamente de qualquer projeto político que dependa da ideia de que um único sujeito é a salvação nacional. o brasil já teve salvadores suficientes. seria interessante experimentar, algum dia, instituições que funcionem sem precisar de um messias de plantão.

meu voto não é um prêmio de simpatia. é uma escolha entre possibilidades reais, feita com as informações disponíveis e a consciência de que nenhuma delas vem acompanhada de garantia.

e depois da eleição continuo tendo exatamente o mesmo direito de cobrar, discordar e criticar quem venceu. inclusive se foi a pessoa em quem votei. principalmente se foi a pessoa em quem votei.

portanto, se você quer saber de que lado estou, aqui vai a resposta sem rodeios: minha intenção é votar em lula.

isso não significa que eu goste dele, que aprove todas as suas decisões ou que considere seu governo imune a críticas. significa que essa é a escolha eleitoral que declaro fazer. nada além disso.

não estou pedindo que ninguém vote como eu. não estou oferecendo uma recomendação nem tentando transformar minha decisão numa prova de superioridade moral. cada eleitor terá de responder pelas próprias escolhas, inclusive quando o entusiasmo da campanha acabar e começarem as cobranças.

e, ao votar em lula, continuarei cobrando lula. discordando quando discordar, criticando quando achar necessário e recusando a obrigação absurda de defender qualquer decisão apenas porque ajudei a eleger quem a tomou.

o voto não é uma declaração de amor. não é um certificado de bom caráter entregue ao eleito, muito menos um contrato que obriga o eleitor a passar os quatro anos seguintes defendendo cada absurdo que sair do palácio.

porque o dia em que eu precisar fingir que um político não erra para justificar meu voto será o dia em que deixei de agir como eleitor e comecei a trabalhar como fã.

e, convenhamos, político já tem privilégios suficientes sem ganhar uma torcida organizada que ainda paga ingresso para defendê-lo.