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2025

liberdade, igualdade, fraternidade… desde que não atrapalhe o trânsito

a frança tem uma relação bastante peculiar com a desobediência. transformou uma revolução em seu grande mito fundador, adotou liberdade, igualdade e fraternidade como lema nacional e canta um hino que convoca os cidadãos a pegar em armas contra a tirania. depois, de tempos em tempos, parece surpresa quando seus cidadãos levam a sério essa tradição.

a marselhesa não é exatamente uma canção de ninar. foi escrita em 1792, num momento em que a revolução francesa enfrentava inimigos internos e externos. é um hino de guerra, de resistência, de gente que não estava particularmente interessada em preencher um formulário de reclamação e aguardar quinze dias úteis.

hoje, quando os franceses voltam às ruas, é tentador imaginar que deveriam demonstrar sua insatisfação de maneira mais civilizada. talvez com uma carta ao presidente, uma petição eletrônica e uma pequena manifestação entre as duas e as quatro da tarde, desde que não comprometa o comércio.

seria uma evolução extraordinária da revolução francesa… da queda da bastilha ao protocolo de atendimento.

sou a favor dos protestos que estão acontecendo na frança. e não por alguma fantasia romântica envolvendo barricadas, fumaça e fotografias em preto e branco. apoio porque conheço o suficiente da história francesa para entender que a democracia daquele país nunca foi construída apenas dentro de gabinetes. e porque, desta vez, as reivindicações têm uma concretude quase constrangedora.

tudo começou com estudantes.

não com uma organização clandestina planejando derrubar a república. com adolescentes reclamando de falta de professores, salas superlotadas, prédios escolares deteriorados e jornadas de estudo que parecem elaboradas por alguém que nunca precisou passar um dia inteiro dentro de uma escola.

a frança, país de voltaire, rousseau, sartre e de uma tradição intelectual que adora apresentar ao mundo, chegou ao ponto de ter estudantes protestando para conseguir professores.

é um detalhe delicioso. a nação que ajudou a transformar a educação em instrumento de emancipação agora precisa explicar por que suas escolas não conseguem oferecer condições adequadas de ensino.

e não estamos falando de meia dúzia de jovens entediados procurando uma desculpa para faltar à aula. o movimento começou em setembro, espalhou-se por centenas de escolas e ganhou a participação de professores, trabalhadores e sindicatos. as reivindicações passaram a incluir salários, aposentadorias, serviços públicos e o custo de vida.

em 17 de outubro, centenas de milhares de pessoas foram às ruas.

o governo francês enfrenta uma crise orçamentária e defende medidas de contenção de gastos. os sindicatos contestam o peso dessas escolhas sobre trabalhadores e serviços públicos. estudantes denunciam a deterioração das escolas. famílias sentem a pressão dos preços.

há questões econômicas reais nessa disputa. o dinheiro público não é infinito, e nenhum país resolve seus problemas simplesmente gritando palavras de ordem. mas também existe algo de profundamente conveniente na facilidade com que governos descobrem a necessidade de sacrifícios quando chega a hora de financiar serviços essenciais.

o sacrifício, curiosamente, costuma ser uma experiência muito mais educativa para quem depende desses serviços do que para quem anuncia os cortes.

e é nesse ponto que a história francesa entra pela porta da frente, provavelmente sem pedir licença.

em 1789, a frança não estava vivendo um debate cordial sobre pequenas melhorias administrativas. o antigo regime concentrava privilégios, a crise financeira se aprofundava e uma parcela enorme da população arcava com o peso de uma ordem política que já não conseguia justificar sua existência.

a revolução que veio depois foi contraditória, violenta, grandiosa e terrível. produziu declarações de direitos e também o terror. abriu caminhos para transformações democráticas e deixou um rastro de sangue que ninguém intelectualmente sério deveria tratar como decoração histórica.

não há motivo para santificar a violência revolucionária.

mas também seria uma falsificação bastante elegante imaginar que a história da liberdade foi escrita exclusivamente por pessoas obedientes, que jamais interromperam uma rua ou desafiaram uma autoridade.

em 1830, os franceses voltaram às barricadas contra a monarquia. em 1848, outra revolução derrubou um rei. em 1871, a comuna de paris tentou uma experiência radical de governo popular e terminou esmagada numa repressão sangrenta. em maio de 1968, estudantes e trabalhadores paralisaram o país, questionaram autoridades e abalaram a política francesa.

nenhum desses acontecimentos é idêntico aos outros. suas causas, seus objetivos e suas consequências foram diferentes. alguns abriram possibilidades democráticas… outros revelaram o quanto uma sociedade pode se destruir quando a violência substitui a política.

mas todos lembram algo importante, na frança, a rua nunca foi apenas o espaço entre a padaria e a estação de metrô.

é também um lugar onde o poder é confrontado.

mais recentemente, os coletes amarelos expuseram a distância entre decisões tomadas em paris e a vida de quem dependia do carro, enfrentava salários apertados e já não suportava o aumento das despesas. em 2023, a reforma da previdência levou multidões às ruas.

agora, são estudantes que olham para o futuro e encontram escolas deterioradas, professores ausentes e um sistema que promete oportunidades enquanto distribui obstáculos.

a frança continua vendendo ao mundo a imagem de uma sociedade culta, sofisticada e comprometida com a igualdade. seus estudantes estão cobrando que essa imagem tenha alguma correspondência com o que acontece dentro das salas de aula.

e então veio a violência.

lojas foram saqueadas, carros incendiados, prédios públicos atacados. policiais ficaram feridos. manifestantes também. em limoges, um incêndio atingiu gravemente a prefeitura. houve comerciantes prejudicados e danos que não podem ser tratados como uma pequena inconveniência estética.

não vou transformar quem saqueia uma loja em herói popular. roubar um comerciante não contrata um professor. incendiar uma prefeitura não melhora o ensino. agredir um policial não torna um orçamento mais justo.

e há uma diferença importante entre reconhecer que conflitos sociais podem se tornar violentos e concluir que a violência é, por isso, desejável.

não é.

mas tampouco considero intelectualmente aceitável transformar os atos de grupos violentos na definição de um movimento que levou centenas de milhares de pessoas às ruas, muitas delas pacificamente.

uma manifestação não é uma pessoa só. não tem uma única intenção, uma única estratégia ou uma consciência coletiva perfeitamente organizada. reúne estudantes, trabalhadores, sindicatos, militantes, cidadãos indignados e, em situações de desordem, também indivíduos interessados em cometer crimes.

responsabilizar cada um pelo que fez é uma exigência de justiça.

atribuir a todos o comportamento dos piores é outra coisa.

e existe uma pergunta que merece ser feita sem romantismo… por que o conflito chegou a esse tamanho?

porque a violência que aparece nas ruas não surge num vazio histórico. isso não a desculpa, mas ajuda a compreendê-la. governos que ignoram problemas durante anos não deveriam ficar espantados quando a insatisfação deixa de caber nos canais convencionais de diálogo.

é possível que parte das reivindicações seja economicamente difícil de atender. é possível que algumas propostas sejam equivocadas. é possível, inclusive, que medidas impopulares sejam necessárias.

tudo isso precisa ser discutido.

mas, se uma geração inteira começa a desconfiar de que o estado não consegue oferecer educação e perspectivas minimamente decentes, a resposta não pode se limitar à contabilidade das viaturas danificadas.

a frança está diante de um conflito social, não de um simples problema de manutenção urbana.

e é justamente por levar esse conflito a sério que considero importante separar a legitimidade das reivindicações da responsabilidade pelos crimes.

não é necessário fingir que toda barricada é heroica. a história francesa tem barricadas suficientes para ensinar que algumas abrem caminhos e outras terminam em tragédias.

a violência pode destruir a credibilidade de uma causa, afastar aliados e atingir precisamente aqueles em nome dos quais se diz lutar. quando um pequeno comerciante perde seu sustento, o prejuízo não desaparece porque a revolta tinha bons motivos.

mas a violência praticada por parte dos participantes também não apaga a falta de professores, a crise dos serviços públicos ou a pressão sobre os salários.

essas coisas continuam existindo depois que a fumaça desaparece.

e há uma ironia histórica quase indecente no fato de que a frança construiu uma identidade nacional em torno da resistência ao poder, mas seus conflitos atuais ainda precisam enfrentar a expectativa de que toda contestação seja perfeitamente organizada, previsível e inofensiva.

a liberdade é muito bonita nas fachadas dos prédios públicos.

fica um pouco mais complicada quando as pessoas resolvem exercê-la.

também considero importante distinguir esses acontecimentos do 8 de janeiro de 2023, no brasil.

não porque a destruição de patrimônio seja aceitável num país e condenável em outro. não é. quem depreda, saqueia ou agride deve responder pelos próprios atos.

a diferença está no objetivo político.

o 8 de janeiro ocorreu depois de uma eleição presidencial cujo resultado era rejeitado pelos participantes da invasão das sedes dos três poderes. o movimento estava associado a reivindicações de intervenção militar e ruptura da ordem constitucional.

na frança, os protestos atuais reivindicam mudanças nas políticas públicas e nas condições de vida. pressionam um governo em exercício. não constituem, por seus objetivos centrais, uma tentativa de anular uma eleição ou substituir o regime democrático por uma intervenção militar.

essa distinção não absolve um único saqueador francês.

apenas impede que a análise política seja reduzida a um concurso de fotografias de prédios destruídos.

um protesto pode ter reivindicações legítimas e conter atos criminosos. um movimento pode empregar métodos ilegais e ainda assim precisar ser compreendido a partir de seus objetivos políticos. a natureza de uma mobilização não se determina apenas pelo prejuízo material que ela provoca.

isso deveria ser especialmente evidente num país que celebra a tomada da bastilha como marco da liberdade.

e aqui está o aspecto que mais me interessa: a história francesa não oferece uma licença eterna para a violência, mas também não autoriza a fantasia de que direitos surgem naturalmente da boa vontade de quem governa.

a declaração dos direitos do homem e do cidadão, de 1789, proclamou a liberdade e a igualdade jurídica como princípios fundamentais. seu artigo segundo incluiu a resistência à opressão entre os direitos naturais e imprescritíveis do homem.

isso não significa que qualquer pessoa possa invocar 1789 para justificar um saque em 2026. seria uma interpretação bastante preguiçosa de um documento histórico.

significa, porém, que a própria tradição política francesa reconheceu algo que continua relevante: o poder precisa encontrar limites na liberdade dos cidadãos, e a obediência não é a virtude suprema de uma sociedade.

a frança carrega essa tensão há mais de dois séculos.

de um lado, instituições, leis, eleições, parlamento, orçamento e a necessidade de manter a vida coletiva funcionando. do outro, uma sociedade que preservou a convicção de que seus governantes podem e devem ser confrontados quando deixam de responder às suas necessidades.

a democracia precisa das duas coisas.

sem instituições, o conflito pode se transformar em imposição pela força. sem contestação, as instituições podem se tornar confortáveis demais para quem as ocupa.

e talvez seja por isso que a frança continue fascinante. não porque seus protestos sejam sempre exemplares. frequentemente não são. mas porque o país nunca conseguiu transformar completamente a política num espetáculo em que a população assiste, aplaude de quatro em quatro anos e depois volta para casa.

há um preço nessa tradição. às vezes alto demais. há destruição, excessos, confrontos e decisões que merecem condenação.

há também conquistas sociais e democráticas que não podem ser compreendidas sem a pressão popular que as precedeu.

o desafio está em preservar a força dessa contestação sem transformar a violência em método obrigatório ou em espetáculo admirável.

e é por isso que apoio os protestos franceses.

apoio os estudantes que querem professores. os trabalhadores que reivindicam salários melhores. as famílias que exigem serviços públicos dignos. apoio o direito de pressionar um governo que precisa prestar contas das escolhas que faz.

não apoio quem usa a manifestação como oportunidade para saquear, incendiar ou ferir pessoas.

não vejo contradição nisso. vejo a diferença entre compreender uma causa e conceder imunidade a qualquer ato cometido em seu nome.

o que não aceito é a ideia de que a ordem, por si só, seja uma resposta suficiente a uma sociedade insatisfeita.

uma cidade pode estar impecavelmente limpa e profundamente injusta. um governo pode manter todas as vitrines intactas e ainda fracassar na obrigação de oferecer condições dignas à população.

e uma manifestação pode ser barulhenta, inconveniente, desorganizada e, apesar de tudo isso, levantar questões que merecem respostas.

a frança de 2026 não é a frança de 1789. macron não é luís xvi. estudantes que reclamam da falta de professores não são jacobinos, e uma prefeitura incendiada não é a bastilha.

comparações históricas só são úteis quando reconhecem essas diferenças.

mas existe uma continuidade que não deveria ser ignorada.

aquela velha ideia francesa de que liberdade, igualdade e fraternidade precisam significar alguma coisa fora dos discursos oficiais.

porque, se a liberdade serve apenas para concordar com o governo, a igualdade termina na porta das escolas e a fraternidade desaparece quando chega a conta, talvez seja hora de perguntar o que restou do lema.

a marselhesa continua sendo cantada em cerimônias oficiais, estádios e comemorações nacionais. é uma música poderosa, carregada de memória, guerra e revolução.

mas hinos são fáceis de cantar quando não exigem nada de quem canta.

o verdadeiro teste de uma tradição política começa quando seus princípios deixam de ser patrimônio cultural e voltam a ser exigências vivas.

e os franceses, com todas as suas contradições, continuam lembrando ao próprio governo que uma república não existe apenas para ser admirada em fotografias.

liberdade, igualdade, fraternidade. três palavras magníficas. seria interessante que continuassem valendo também depois que o hino termina.