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2025

política não é futebol e patriotismo não deveria incluir um míssil americano

semana passada, acompanhei as imagens da manifestação de apoio a lula na avenida paulista. entre os cartazes, havia mensagens sobre educação, ciência, direitos trabalhistas, democracia e soberania nacional. era um ato eleitoral, evidentemente, com seus candidatos, discursos e palavras de ordem. mas algumas das frases que mais me chamaram a atenção tratavam de questões que continuariam existindo independentemente de quem estivesse na presidência.

hoje, na mesma avenida, aconteceu uma manifestação de apoio a flávio bolsonaro. entre as imagens divulgadas, uma se destacou… um enorme míssil inflável branco com a inscrição “trump nuke brazil”. um pedido, em inglês, para que o presidente dos estados unidos atacasse o brasil com armas nucleares.

é difícil imaginar um contraste mais estranho entre símbolo e mensagem. em volta do míssil, bandeiras brasileiras e pessoas vestidas de verde e amarelo. no próprio míssil, um apelo à destruição do território nacional.

o episódio tem uma particularidade ainda mais curiosa. segundo a cobertura do ato, a organização pediu aos participantes que recolhessem bandeiras estrangeiras para privilegiar os símbolos brasileiros. aparentemente, alguém percebeu a contradição visual de uma manifestação patriótica cercada de bandeiras americanas e israelenses. mas o míssil inflável continuou sendo uma maneira bastante peculiar de expressar sentimentos nacionais.

não sabemos se seus responsáveis pretendiam fazer uma provocação, uma brincadeira ou um pedido literal. e não seria correto atribuir aquela mensagem a toda a multidão.

o que sabemos é que o objeto esteve lá. e que a cena merece uma discussão muito mais interessante do que uma troca de insultos entre eleitores.

há uma longa história de movimentos políticos que recorrem a símbolos nacionais e, ao mesmo tempo, buscam apoio de governos estrangeiros. isso não é exclusividade brasileira nem de uma única corrente ideológica. alianças internacionais fazem parte da política. o que chama a atenção nesse caso é a natureza da mensagem… não se pedia cooperação, negociação ou pressão diplomática. a frase estampada no objeto mencionava um ataque nuclear.

é um salto considerável.

e talvez o episódio ajude a explicar o que acontece quando a identificação com uma liderança política começa a se confundir com a própria identidade nacional.

o bolsonarismo é um movimento que se organizou fortemente em torno da figura de jair bolsonaro. mesmo fora da presidência, seu nome permanece central na mobilização de apoiadores e na trajetória eleitoral de seu filho flávio. isso não significa que todos os eleitores pensem da mesma maneira, nem que todos apoiem incondicionalmente cada atitude do ex-presidente.

mas a centralidade de uma pessoa dentro de um movimento levanta uma questão que vale para qualquer liderança, inclusive lula… onde termina a defesa de ideias e começa a fidelidade pessoal?

a diferença é importante.

defender uma proposta significa poder explicá-la, questioná-la e eventualmente abandoná-la diante de novos fatos. defender uma pessoa incondicionalmente é outra relação. nessa segunda lógica, a opinião sobre uma decisão pode depender menos do que foi decidido e mais de quem tomou a decisão.

é exatamente o que acontece nas arquibancadas.

um torcedor não escolhe o time a cada partida depois de estudar as estatísticas. ele já chega ao estádio sabendo quem vai defender. se o próprio zagueiro faz uma falta, encontra uma explicação. se o adversário faz a mesma falta, exige expulsão.

no futebol, essa parcialidade faz parte da diversão. a maioria das pessoas sabe que está torcendo.

na política, a situação é mais complicada porque as decisões não terminam com o apito do juiz. uma eleição define quem terá autoridade para administrar recursos, propor medidas e influenciar instituições. seus efeitos alcançam tanto os apoiadores quanto os adversários.

por isso, a relação entre cidadão e político deveria permitir algo que a torcida esportiva costuma considerar quase uma heresia… mudar de opinião.

é possível votar em alguém e criticar uma decisão sua. reconhecer uma medida acertada de um adversário não obriga ninguém a mudar de partido. exigir explicações de uma liderança admirada não deveria ser entendido como traição.

o problema da idolatria política é que ela torna essas atitudes emocionalmente difíceis.

quando uma figura pública passa a representar, para seus seguidores, muito mais do que um conjunto de propostas, qualquer crítica pode parecer um ataque pessoal. o debate sobre decisões concretas acaba substituído por discussões sobre lealdade, pertencimento e identidade.

o político, que deveria prestar contas ao cidadão, torna-se alguém cuja reputação o cidadão sente a obrigação de proteger.

e as redes sociais oferecem o ambiente perfeito para isso. recompensam a frase mais agressiva, o vídeo mais indignado, a provocação que irrita o outro grupo. raramente exigem que alguém explique como pretende melhorar uma escola, financiar um hospital ou executar uma política pública.

é mais fácil disputar quem ama mais o país do que discutir o que fazer com ele.

nesse ambiente, bandeiras e slogans ganham um peso enorme. são sinais rápidos de pertencimento. basta uma camiseta, um número ou uma fotografia para identificar quem está de cada lado.

mas símbolos não substituem princípios.

a bandeira brasileira não pertence a um partido, a um presidente ou a uma família. representa um país que continuará existindo depois de qualquer mandato e que inclui milhões de pessoas com convicções políticas incompatíveis entre si.

a questão do míssil na paulista é interessante justamente porque coloca esse princípio à prova.

se a soberania nacional é um valor defendido por alguém, o que essa pessoa pensa de uma mensagem pedindo um ataque estrangeiro ao brasil? se considera a frase uma piada, quais são os limites aceitáveis para esse tipo de provocação? se a condena, consegue fazê-lo mesmo quando ela aparece numa manifestação de seu próprio campo político?

são perguntas mais úteis do que tentar descobrir qual torcida pode usar o episódio para marcar pontos.

também vale aplicá-las ao ato da semana anterior. cartazes sobre educação e democracia expressam reivindicações, mas não dispensam os políticos que os apoiam de apresentar resultados. nenhum slogan, por mais bonito que seja, deve funcionar como salvo-conduto para um governante.

essa é a diferença entre participar da política e transformá-la numa devoção.

participar é defender ideias e continuar disposto a examinar fatos. a devoção exige que o líder esteja certo antes mesmo de abrir a boca.

e, quando chegamos a esse ponto, até uma contradição evidente pode passar despercebida por quem está ocupado demais defendendo seu lado.

talvez seja por isso que a imagem do míssil tenha causado tanto espanto. não apenas pela mensagem absurda que carregava, mas pelo cenário em que apareceu

uma avenida coberta de símbolos nacionais, durante uma manifestação eleitoral, com um objeto que pedia a um presidente estrangeiro um ataque nuclear contra o próprio país.

a fotografia não explica sozinha o pensamento de uma multidão. mas registra uma contradição que merece ser discutida.

no futebol, podemos passar a vida defendendo um clube que nunca ganhou nada. faz parte da paixão.

na política, o país não deveria ser confundido com o time, e o presidente não deveria ocupar o lugar do ídolo que precisa ser protegido de qualquer crítica.

porque uma democracia exige algo mais trabalhoso do que torcer… exige prestar atenção ao que as pessoas defendem, ao que fazem quando chegam ao poder e ao que estamos dispostos a desculpar apenas porque gostamos delas.

e talvez a pergunta mais desconfortável que aquele míssil deixou na avenida paulista seja também a mais simples.

quando a mensagem vem do nosso próprio lado, ainda somos capazes de enxergar o que está escrito nela?