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2025

o inferno ganhou wi-fi e os demônios aprenderam a pedir votos

dante alighieri morreu em 1321. teve sorte.

imagino o velho florentino desembarcando em são paulo, sete séculos depois, com sua túnica, seu nariz severo e aquela cara de quem passou a vida inteira cercado de idiotas e resolveu escrever um poema para não estrangular ninguém.

eu o levaria para tomar um café.

um café forte, sem açúcar. dante já conhecia o inferno. não precisava conhecer também a indignidade de um cappuccino com leite de aveia e essência de baunilha.

sentaríamos perto da janela. ele abriria seu caderno, perguntaria como anda o mundo e eu cometeria a imprudência de mostrar meu celular.

a partir daí, precisaríamos de uma garrafa.

dante escreveu a divina comédia no exílio, depois de ser expulso de florença por uma disputa política. não era um poeta distraído, desses que contemplam flores e descobrem sentimentos na luz da tarde. era um homem furioso, culto, profundamente religioso e dono de uma memória extraordinária para desafetos.

quando alguém o contrariava, havia o risco de acabar fervendo em alguma vala da eternidade.

hoje chamariam isso de falta de inteligência emocional.

eu chamaria de literatura.

na divina comédia, dante atravessa o inferno guiado por virgílio. encontra políticos, papas, traidores, amantes, ladrões, hipócritas e gente que passou a vida fazendo exatamente aquilo que condenava nos outros.

o brasileiro reconheceria muitos personagens.

talvez até alguns sobrenomes.

o primeiro problema seria explicar ao poeta que, em pleno século xxi, a humanidade continua cometendo praticamente todos os pecados que ele catalogou, mas agora consegue filmá-los e monetizá-los.

dante dividiu o inferno em nove círculos.

hoje precisaria de um anexo.

e de um advogado.

sabe, começaríamos pelo vestíbulo, onde dante colocou os indiferentes, aqueles que passaram pela vida sem escolher lado, sem assumir nada, sem coragem sequer para merecer uma condenação mais interessante.

o poeta tinha um desprezo especial por essa turma.

eu mostraria a ele o cidadão contemporâneo que se orgulha de ser neutro diante de qualquer coisa, desde que a injustiça não atrapalhe seu almoço.

aquele sujeito que, diante de uma barbaridade, anuncia solenemente que prefere não discutir política.

mas discute durante quarenta minutos se o azeite servido no restaurante é realmente extravirgem.

dante entenderia.

a covardia sempre soube se vestir bem.

no segundo círculo, encontraríamos os luxuriosos. no terceiro, os glutões.

aqui eu pediria ao poeta um pouco de paciência.

porque o pecado da gula mudou bastante desde a idade média.

temos gente que atravessa a cidade para pagar uma fortuna por três folhas, uma espuma e uma explicação de quinze minutos sobre a origem emocional da cenoura.

o sujeito não quer jantar.

quer participar de uma experiência.

e depois publica dezessete fotografias para provar que esteve lá.

dante talvez achasse que a punição já começou.

quanto à luxúria, bastaria mostrar-lhe a indústria dos aplicativos de relacionamento. milhões de pessoas com acesso a milhares de possíveis parceiros e uma capacidade cada vez menor de sustentar uma conversa que ultrapasse três mensagens e um emoji.

o amor cortês, tão caro aos poetas medievais, morreu.

no lugar dele temos gente perguntando signo, altura e disponibilidade para o fim de semana.

francesca da rimini, que dante encontrou entre os amantes condenados, provavelmente pediria para voltar ao vendaval eterno.

pelo menos paolo sabia conversar.

no quarto círculo, o dos avarentos e perdulários, dante finalmente começaria a se sentir em casa.

eu lhe apresentaria a teologia da prosperidade, os gurus financeiros e os sujeitos que vendem cursos ensinando a ficar rico enquanto enriquecem vendendo cursos sobre como ficar rico.

ele perguntaria se isso é permitido.

eu responderia que, em muitos casos, é até admirado.

dante, que colocou usurários sob uma chuva de fogo, precisaria rever seus métodos.

a modernidade inventou formas de ganhar dinheiro que fariam um agiota florentino parecer um simpático comerciante de bairro.

e ainda temos a figura maravilhosa do milionário que explica ao trabalhador exausto que pobreza é falta de mentalidade.

é sempre emocionante ouvir lições sobre esforço de alguém que começou a corrida a poucos metros da linha de chegada.

no quinto círculo, o dos irados, eu abriria uma rede social.

não precisaria explicar nada.

dante observaria durante cinco minutos um grupo de adultos discutindo política, futebol, religião e a temperatura correta de um ovo cozido.

depois fecharia o aplicativo.

os irados de seu inferno se atacavam na lama do rio estige.

os nossos fazem praticamente a mesma coisa, só que com foto de perfil, bandeirinha no nome e a convicção de que estão salvando a civilização.

o detalhe mais bonito é que todos se consideram vítimas da intolerância alheia.

ninguém é grosseiro.

está apenas falando verdades.

ninguém é ignorante.

está questionando narrativas.

ninguém está espalhando uma mentira.

está fazendo perguntas.

e as perguntas, curiosamente, costumam vir acompanhadas de respostas prontas, escritas em letras maiúsculas.

dante anotaria tudo.

talvez inventasse um décimo círculo só para os comentários de notícias.

mas seria no sexto círculo, o dos hereges, que a visita ficaria realmente interessante.

eu explicaria que, no brasil, religião e política desenvolveram uma intimidade tão grande que às vezes é difícil saber onde termina o sermão e começa a propaganda eleitoral.

certas lideranças descobriram que o púlpito oferece vantagens extraordinárias.

o fiel chega buscando consolo, encontra uma orientação política e ainda sai convencido de que discordar pode comprometer sua situação na eternidade.

um serviço completo.

dante, católico fervoroso, não seria um observador indulgente. na sua obra, colocou papas corruptos no inferno, especialmente entre os simoníacos, aqueles que negociavam coisas sagradas.

na terceira vala do oitavo círculo, os condenados ficam enterrados de cabeça para baixo, com os pés em chamas.

imagino o poeta conhecendo um desses pregadores que apresentam o sucesso financeiro como prova de bênção divina.

ele ouviria a pregação, examinaria a estrutura empresarial e perguntaria onde fica a fila dos simoníacos.

eu explicaria que hoje muitos têm canal de televisão.

jesus expulsou os vendilhões do templo.

alguns de seus autoproclamados representantes parecem ter estudado a passagem apenas para descobrir onde instalar a maquininha de cartão.

o oitavo círculo seria o grande passeio.

malebolge.

dez valas destinadas a diferentes espécies de fraude.

dante colocou ali sedutores, aduladores, hipócritas, ladrões, falsários, conselheiros fraudulentos e corruptos que vendiam favores públicos.

era um homem com imaginação.

mas nem ele teria previsto a quantidade de brasileiros capazes de defender a honestidade de um político com o mesmo entusiasmo com que defendem a inocência de um parente pego saindo do motel.

a corrupção, por aqui, tem uma característica curiosa.

quando é praticada pelo adversário, ameaça os fundamentos da república.

quando envolve alguém do nosso grupo, exige contexto histórico, cautela jurídica e uma investigação aprofundada sobre as intenções da imprensa.

dante, que colocou os corruptos mergulhados em piche fervente, talvez perguntasse se o material continua disponível.

eu sugeriria que ele não se precipitasse.

a demanda poderia afetar o preço do petróleo.

e então chegariam os políticos que prometem acabar com a velha política enquanto negociam com ela no café da manhã.

os empresários que se apresentam como salvadores da pátria porque conseguiram administrar uma rede de lojas.

os patriotas que tratam a bandeira como propriedade particular.

os moralistas que passam a vida fiscalizando a intimidade alheia enquanto escondem cuidadosamente a própria.

dante ficaria encantado com a variedade.

em florença, ele conheceu a violência das facções políticas, os acordos oportunistas e a facilidade com que homens poderosos invocavam princípios elevados para justificar interesses bastante rasteiros.

o brasil não lhe pareceria inteiramente estranho.

apenas mais quente.

e com mais publicidade.

no nono círculo, encontraríamos os traidores.

e aqui dante nos reservaria uma surpresa.

porque o fundo de seu inferno não é um mar de fogo.

é um lago congelado.

o cócito.

quanto mais profunda a traição, mais aprisionada no gelo está a alma.

no centro, lúcifer mastiga eternamente judas, bruto e cássio.

sempre achei essa escolha genial.

dante compreendeu que a pior forma de maldade pode ser fria, calculada, quase burocrática. não precisa de gritos. às vezes basta alguém perfeitamente calmo assinando uma decisão cujas consequências jamais terá de enfrentar.

eu mostraria ao poeta as guerras contemporâneas.

as crianças mortas, as cidades destruídas, os refugiados tratados como incômodo estatístico.

depois mostraria os comentaristas discutindo tudo aquilo como quem analisa a escalação de um time.

alguns falariam de estratégia.

outros, de interesses nacionais.

outros, de inevitabilidade histórica.

e, no intervalo, entraria uma propaganda de perfume.

dante provavelmente ficaria em silêncio.

não por falta de palavras.

mas porque existem coisas diante das quais até o sarcasmo perde a vontade de trabalhar.

só que nossa viagem ainda teria um último capítulo.

eu levaria dante para caminhar por uma rua qualquer do brasil.

ele veria o trabalhador que acorda antes do sol, a mulher que sustenta uma família inteira, o professor que insiste em ensinar, a pessoa que divide o pouco que tem com alguém que tem menos ainda.

veria gente decente fazendo o possível para não enlouquecer num país que oferece motivos diários para perder a paciência.

e talvez se lembrasse de que sua obra não termina no inferno.

depois vêm o purgatório e o paraíso.

há uma razão para isso.

dante escreveu sobre a possibilidade de uma alma atravessar o horror e ainda encontrar alguma forma de luz.

o que torna a nossa época tão irritante é perceber que temos acesso a séculos de conhecimento, conhecemos as consequências de tantas escolhas desastrosas e, mesmo assim, insistimos em repetir os erros com a confiança de quem acaba de inventá-los.

temos bibliotecas no bolso e preguiça de ler.

temos liberdade para questionar e preferência por obedecer a quem grita mais alto.

temos a história inteira à disposição e uma capacidade admirável de nos surpreender com aquilo que ela já explicou.

quando terminássemos o café, dante provavelmente pediria para voltar a florença.

eu lembraria que ele foi exilado de lá.

ele pensaria um pouco.

olharia novamente para o celular.

e diria que, considerando as alternativas, o exílio não parecia tão ruim.

antes de partir, talvez me perguntasse por que continuamos repetindo os mesmos pecados depois de setecentos anos.

eu não saberia responder.

mas poderia mostrar a ele uma última notícia, um último discurso, um último vídeo de alguém explicando com absoluta certeza uma coisa que evidentemente desconhece.

dante fecharia os olhos.

e eu finalmente compreenderia por que, no primeiro canto do inferno, ele escreveu sobre ter se encontrado perdido numa selva escura, depois de abandonar o caminho certo.

a diferença é que dante sabia que estava perdido. nós temos gps, internet, inteligência artificial e ainda encontramos tempo para discutir se a selva existe ou se a terra é redonda.