acordar, respirar fundo, sentir o silêncio antes do mundo começar a gritar na minha cara. olhar para o celular, hesitar, saber exatamente o que me espera se eu desbloquear a tela. fazer isso mesmo assim. rolar o feed, ser recebido pelo espetáculo habitual da desgraça. guerra, crise, catástrofe, alguém dizendo algo estúpido, outro alguém indignado com isso. repetir esse ciclo até minha sanidade começar a derreter.
levantar, tentar fingir que nada disso me afeta, que não estou sendo sugado para dentro do buraco negro do pânico e da indignação coletiva. ligar a cafeteira, olhar pela janela, perceber que o mundo real ainda está ali, intacto, sem a interferência do noticiário histérico. mas a tentação de voltar, de me afogar mais um pouco na overdose de tragédia, ainda está lá, como um vício maldito que se recusa a morrer.
saber que essa merda toda não é acidente. que cada manchete apocalíptica, cada escândalo fabricado, cada crise cuidadosamente dramatizada, existe para me manter exatamente assim… atento, ansioso, puto. que não é informação, é entretenimento. que o medo vende, que o ódio engaja, que a indignação é uma droga barata e viciante.
fazer o impensável, desligar tudo. sair da dieta tóxica de más notícias, parar de alimentar o algoritmo com minha raiva. sentir uma paz desconfortável no silêncio que sobra. perceber que não saber cada detalhe da última grande tragédia não me torna um monstro insensível, mas apenas um ser humano tentando não enlouquecer.
e então, viver. fazer qualquer coisa mundana e ridiculamente simples… lavar a louça, jogar algo no fogo, resolver as pequenas obrigações patéticas do dia. perceber que o mundo real, esse que existe fora da tela, é infinitamente menos histérico. que a vida continua, com ou sem meu desespero.
talvez amanhã eu volte. talvez eu abra as portas do inferno de novo, me deixe ser sugado pelo espetáculo. mas hoje, só por hoje, eu escolho escapar.
a avenida paulista não é só uma rua. é um organismo vivo, respirando, pulsando, cuspindo e engolindo gente como uma grande boca de concreto e vidro. não é um lugar para quem gosta de calma, não é para quem teme multidões. aqui, o tempo não passa, ele atropela. a paulista é onde a cidade se despedaça e se reconstrói todos os dias, como um mosaico caótico de vozes, buzinas, frituras de barraca de rua e discussões sobre startups em cafés com nomes minimalistas. e eu, um mero habitante dessa fera, acordo com ela e me deixo levar.
o começo: academia, suor e promessas vazias
minha manhã começa cedo porque a paulista exige. academia às sete. não porque sou disciplinado, mas porque preciso de algo que me desperte antes que o dia me esmague. desço do prédio e a cidade já está em movimento. a paulista nunca acorda, ela apenas muda de fase. os notívagos ainda perambulam, os primeiros entregadores já atravessam os cruzamentos como kamikazes de bicicleta, e os porteiros, esses heróis silenciosos, varrem calçadas que nunca ficam limpas.
na academia, encontro os mesmos rostos, o cara de terno que faz musculação em tempo recorde antes de uma reunião que provavelmente decide o destino de alguém, a mulher que corre na esteira como se estivesse fugindo da própria vida, o idoso que levanta peso com a paciência de quem já viu de tudo. suamos juntos, mas não nos falamos. cada um no seu transe, cada um preso na sua bolha de música alta e cansaço matinal.
saio dali desperto, não pelo exercício, mas pelo choque de voltar para a avenida já em plena atividade. os vendedores ambulantes montam suas barracas com a agilidade de quem já faz isso há anos. vendem desde lanches até óculos falsos, carregadores duvidosos, livros usados com dedicatórias de antigos donos. um café? sempre. mas qual?
o café: entre o requentado e o transcendental
a paulista tem dois tipos de café. o primeiro é aquele líquido preto queimado, servido num copinho de plástico por R$ 3 na banca de jornal. necessário, funcional, sem frescura. o segundo é o café de boutique, servido em xícaras minúsculas, com notas de caramelo e preços que fariam um europeu corar. gosto dos dois. um me mantém acordado, o outro me lembra que o mundo ainda tem luxo, mesmo no caos.
há algo de meditativo em beber café na paulista. eu paro por um instante, observo o fluxo de pessoas, e a cidade me engole de novo. trabalhadores apressados, turistas tirando fotos do masp, uma senhora que vende doces caseiros na calçada. tudo se move rápido, menos eu.
o trabalho: ao lado de casa, mas em outro planeta
a benção (ou maldição) de trabalhar ao lado de casa me poupa do inferno do trânsito paulistano, mas não me protege da brutalidade da rotina. atravesso a rua e troco de mundo. as calçadas lotadas, os motoqueiros entregando pedidos, os grupos de executivos falando de metas inalcançáveis, tudo me envolve. entro no prédio e o burburinho muda. dentro do meu escritório olho pela janela e vejo dentro dos escritórios uma farsa organizada. ali, finge-se controle, eficiência, planejamento. mas basta olhar para o horizonte para ver a verdade, a cidade lá fora não se importa com prazo, KPI’s, e-mails urgentes. a cidade segue, indiferente.
o meio do dia: entre mochilas escolares e o cheiro de almoço
perto do meio dia, saio para levar meu filho à escola. e nesse momento, vejo outro rosto da paulista… o das crianças, dos pais equilibrando mochilas e copos de café, das babás empurrando carrinhos de bebê. por um breve instante, a avenida perde sua dureza. vejo pequenas mãos segurando lancheiras, ouço risadas, sinto a presença de algo raro por aqui, inocência.
mas logo, o relógio me empurra de volta ao ritmo normal. e então, o cheiro de comida começa a se espalhar pela avenida. é um convite e uma tortura. o cheiro de churrasco vindo de um restaurante tradicional, o aroma de alho e óleo de uma cantina escondida, o vapor das marmitas sendo abertas nos bancos da praça do ciclista. na paulista, almoçar é um ato de sobrevivência. você pode escolher a comida afetiva de um boteco, um prato executivo servido com pressa ou um sushi minúsculo, cobrado a peso de ouro. a cidade te dá opções, mas não tempo.
eu tenho meus refúgios. que mantenho em segredo, até de vocês, onde o garçom me chama pelo nome e ninguém pergunta se você quer a conta antes de terminar de comer. nessas horas, a paulista me dá um raro presente, um momento de pausa.
a tarde: a cidade febril
volto ao escritório, mas a paulista segue sua dança. o barulho da obra ao lado, a multidão cruzando a avenida como um enxame, os artistas de rua que começam a ocupar seus lugares. o cara que toca sax na frente do masp, o pintor que expõe seus quadros na calçada, a mulher que distribui panfletos sobre um culto que promete salvar sua alma (e esvaziar sua carteira). o pessoal de colete laranja pedindo um minuto para doações que salvarão o mundo… tudo faz parte da cena.
lá pelas quatro, preciso sair para uma reunião. ando pela calçada e observo os rostos. vejo pressa, cansaço, expectativa. vejo pessoas que parecem existir apenas para correr de um ponto ao outro. vejo casais discutindo, ambulantes contando o dinheiro do dia, adolescentes com roupas que berram contra a normalidade. vejo tudo. e ao ver, me sinto parte.
a noite: a paulista troca de pele
quando o sol se põe, a avenida muda. os escritórios se esvaziam, os bares se enchem. os vendedores de comida de rua tomam as calçadas. espetinhos de carne assam em grelhas improvisadas, o cheiro de pipoca invade o ar. os ônibus seguem lotados, levando sonhos e cansaço para todos os cantos da cidade.
os artistas se multiplicam. dançarinos improvisam coreografias na esquina, músicos fazem jam sessions em plena calçada, e sempre tem alguém recitando poesia para quem quiser ouvir. uma pequena manifestação, reivindicando ação, paralisa um dos lados da avenida e eu caminho por tudo isso, absorvendo cada detalhe.
antes de dormir: a paulista nunca para
volto para casa, mas a paulista não dorme. lá embaixo, um casal termina a noite de bar aos berros. um ciclista corta a avenida como se fosse dono dela. um grupo de corredores cruza pelas calçadas com pausas estratégicas para selfies. alguém grita assalto e mais um celular se vai. entregadores fazem sua última corrida. e eu, da janela, observo.
amanhã, tudo isso acontece de novo. e eu estarei aqui. porque, no fim das contas, sou parte desse caos. sou um filho da paulista. e não há outro lugar no mundo onde eu preferiria estar.
horóscopo. essa maravilha cósmica que sobreviveu a impérios, religiões, revoluções industriais e ao ceticismo irritante dos que acham que tudo na vida precisa ser comprovado por um homem de jaleco segurando uma prancheta. você pode rir, pode torcer o nariz, pode até tentar refutar com gráficos e estudos revisados por pares, mas a verdade é que, enquanto você se preocupa em estar certo, eu estou aqui, me divertindo muito mais, deixando que os astros ditem o ritmo do meu dia.
porque acreditar em horóscopo não é sobre prever o futuro… se eu quisesse previsibilidade, trabalharia com planilhas. é sobre algo muito mais interessante, é dar sentido ao caos. é sobre entender que o universo é um lugar absurdo, cheio de variáveis fora do nosso controle, mas que, de alguma forma, faz todo sentido quando você percebe que plutão retrógrado pode, sim, ser responsável pelo seu inferno pessoal.
e me poupe do papo furado de “não tem comprovação científica”. grandes coisas na vida não têm. amor, por exemplo. saudade. aquele instinto que te faz pegar um caminho diferente sem motivo aparente e, no fim, perceber que evitou um desastre. a gente não vive de equações, a gente vive de histórias, e o horóscopo é uma das melhores que já inventaram.
e que história! os signos são arquétipos universais, personagens perfeitos de um drama que se repete desde que o ser humano olhou para o céu e decidiu que, sim, aquelas luzinhas devem significar alguma coisa. e como não acreditar? como não ver um pouco de si mesmo naquele leonino metido, naquele escorpiano vingativo, naquele aquariano que acha que vive num planeta próprio? é pura mitologia moderna, e mitologias, meu amigo, duram porque fazem sentido.
o que eu mais gosto no horóscopo? ele te dá permissão para ser quem você já é. te dá um enredo para suas falhas e suas glórias. você não é teimoso, você é taurino. não é impulsivo, é ariano. não é um desastre emocional, é só um pisciano perdido. e, convenhamos, isso é muito mais divertido do que passar a vida tentando se encaixar no molde frio e sem graça da “racionalidade absoluta”.
então, enquanto os céticos seguem por aí, obcecados em desmontar qualquer coisa que não consigam pesar ou medir, eu continuo aqui, lendo meu mapa astral, esperando o próximo eclipse e aceitando que, sim, mercúrio retrógrado pode ter ferrado meu dia. e sabe de uma coisa? eu gosto assim.
porque no fim das contas, o horóscopo não precisa da sua aprovação. ele estava aqui muito antes de você nascer e vai continuar existindo muito depois que você se for. reis consultavam astrólogos antes de ir para a guerra, navegadores olhavam para as estrelas para não morrer no meio do oceano, e hoje eu vejo meu mapa astral antes de marcar uma reunião importante. progresso? talvez. mas o princípio é o mesmo, entender que há algo maior, algo além do nosso controle, guiando esse espetáculo absurdo que chamamos de vida.
e mesmo que tudo isso seja uma grande brincadeira cósmica, e daí? a vida já é séria demais, cheia de boletos, reuniões sem sentido e tráfego infernal. acreditar que marte pode estar influenciando minha paciência ou que a lua cheia tem algo a ver com meu sono ruim é apenas um jeito mais interessante de encarar o inevitável. se você prefere culpar a biologia, a economia ou algum outro fator “cientificamente comprovado”, vá em frente. mas eu prefiro pensar que os astros têm um senso de humor perverso e que, de vez em quando, decidem sacudir as coisas só para ver no que dá.
e sejamos honestos, é impossível não se identificar com pelo menos uma descrição de signo. até o mais cético, no fundo, já leu um horóscopo que bateu tão certo que ele teve que fingir que não viu. “ah, mas é tudo generalista”, dizem. claro que é, gênio. assim como a vida. tudo pode ser interpretado de mil maneiras, tudo pode fazer sentido se você souber olhar direito. e, convenhamos, se você acha que ler um mapa astral é ilusão, mas acredita que o mercado financeiro é previsível, talvez seja hora de revisar suas crenças.
o mais genial do horóscopo? ele te dá um álibi universal para ser um ser humano contraditório e caótico, porque, adivinha só, o universo também é. então, sim, talvez eu seja uma bagunça emocional, talvez eu tenha mudado de ideia cinco vezes hoje, talvez eu tenha acordado com um humor impossível. mas não é culpa minha, é culpa da conjunção astral. e eu não poderia estar mais feliz com isso.
o que aconteceu com a juventude? sério, alguém me explica. porque, pelo que vejo, ela foi substituída por uma geração de pessoas que tratam a própria vida como um formulário de imposto de renda, cheia de regras, burocracias e medo de errar um número e acabar presas. cadê os ferris buellers? porque tudo o que eu vejo hoje são adolescentes que pedem desculpa por existir e fazem gráficos mentais sobre o impacto de cada escolha como se estivessem jogando xadrez contra o destino.
se ferris bueller’s day off (curtindo a vida adoidado, para quem não tem vergonha de títulos traduzidos) fosse lançado hoje, ferris não seria um ícone, seria um alerta vermelho. um risco social. uma má influência. seria ridicularizado por especialistas de sofá no x, dissecado em podcasts sobre “comportamentos problemáticos”, condenado à morte por enquetes online. cameron, por outro lado, estaria no topo do mundo. finalmente encontrou seu lugar. ele escreveria textos longos sobre “a importância de reconhecer suas próprias limitações” e daria palestras sobre como “é essencial se preocupar com tudo, o tempo todo”.
e ferris? ferris estaria rindo. porque ele sabia de algo que o mundo esqueceu… a vida é um jogo, e a única forma de ganhar é trapaceando. ele sabia que as melhores histórias vêm dos momentos em que você simplesmente finge que pertence ao lugar. sabia que ninguém se diverte pedindo permissão. você acha que ferris bueller ficaria preocupado com “o que as pessoas vão pensar”? com “o impacto social de suas ações”? ferris não pedia licença. ele abria a porta e entrava.
e esse é o problema. a ideia de sumir por um dia, desaparecer do radar, viver uma aventura sem documentar tudo em tempo real, se tornou impensável. matar aula já não tem mais graça porque ninguém mais tem criatividade para transformar um dia vago em uma obra-prima. você acha que um adolescente moderno, solto em chicago, faria algo remotamente comparável ao que ferris fez? claro que não. ele encontraria um café genérico, tiraria uma foto da xícara e escreveria algo existencialmente vazio tipo “às vezes, a gente só precisa de um momento para respirar.”
e o pior de tudo? ninguém mais sente falta de um ferris bueller. porque ser ferris exige um mínimo de coragem, um mínimo de vontade de simplesmente sair do roteiro e ver o que acontece. e estamos cansados demais para isso. rebeldia, agora, é postar um tweet irônico antes de voltar a cumprir todas as regras do sistema. o que ferris fazia naturalmente? vivia. e hoje isso virou um mercado. tem cursos, tem mentorias, tem aplicativos que te ensinam a fazer aquilo que qualquer adolescente deveria saber de instinto… sumir por um dia e se divertir.
se ferris existisse hoje, ele não estaria no tiktok. não teria um canal no youtube ensinando truques de “vida plena sem culpa”. ele estaria no mundo real, enganando gente importante, se metendo em lugares proibidos, criando histórias que ninguém acreditaria. e nós? nós estaríamos repostando um gif dele, com uma legenda nostálgica sobre como “as coisas eram mais simples antigamente.”
então, se ainda há um pouco de ferris dentro de você… e deus, eu espero que haja, faça um favor ao mundo, desapareça por um dia. ignore mensagens, ignore obrigações, ignore qualquer coisa que se pareça remotamente com um dever. entre num restaurante onde não deveria estar, peça a coisa mais cara do cardápio, brinde à sua própria ousadia. porque, como ferris disse, e ele estava certo, a vida passa rápido demais. e se você não parar para olhar ao redor de vez em quando, vai acabar igual ao diretor rooney, derrotado, humilhado e sendo chutado para fora de um ônibus sem nem um centavo para pegar o caminho de volta para casa.
ah, miss sarajevo… aquela música que, à primeira vista, parecia mais um dos devaneios messiânicos do bono, aquele rockstar que se acha um profeta moderno, mas que, de vez em quando, acerta uma flecha bem no meio do peito da hipocrisia mundial. só que essa não foi apenas uma canção. foi um soco no estômago, um lamento disfarçado de balada pop, um fantasma assombrando as caixas de som com um pavarotti que surge no meio como um espectro operático, implorando por algo que o mundo simplesmente não quer dar a mínima… humanidade.
início dos anos 90. os bálcãs fervendo, sarajevo sitiada, uma cidade cortada do mundo como se fosse um tumor indesejado. ruas esvaziadas pela morte, prédios implodindo como castelos de cartas, corpos largados no asfalto enquanto o ocidente observava de longe, confortavelmente anestesiado. quatro anos de terror absoluto. quatro anos de franco-atiradores apostando quem conseguia acertar mais civis atravessando a rua. e o que o mundo fez? bom, a europa progressista e civilizada tomou um longo gole de seu café expresso, suspirou e disse: “que situação complicada…”
e aí vem o momento mais absurdo e brilhante de todos. um desfile de beleza no meio do inferno. mulheres desfilando entre escombros, segurando cartazes que diziam: don’t let them kill us. porque até mesmo no meio da guerra, as pessoas querem lembrar que ainda são humanas. que ainda podem sonhar, sorrir, ser bonitas, viver. e talvez esse seja o maior insulto para aqueles que lucram com a guerra, a insistência das pessoas em continuar vivas. em não se tornarem apenas estatísticas.
é então que o bono e o brian eno transformam essa insanidade em música. mas não qualquer música. uma canção que começa suave, quase um sussurro, e depois se transforma em um lamento monumental quando pavarotti entra rasgando a realidade com aquele verso esmagador: se ci sarà una vita, vivrò in te. (se houver outra vida, eu viverei em você). e naquele momento, não é mais apenas sobre sarajevo. é sobre todas as cidades que já foram e continuam sendo esmagadas enquanto o mundo finge não ver.
porque, no fundo, miss sarajevo nunca foi apenas uma canção sobre o passado. foi um presságio. uma previsão maldita de que a humanidade seguiria repetindo os mesmos erros com uma precisão quase artística. troque sarajevo por gaza, por quiev, por cabul, por sudão. troque os franco-atiradores sérvios por drones, ataques cirúrgicos, explosões que transformam bairros inteiros em poeira. a guerra virou um espetáculo transmitido ao vivo, com gráficos bem editados e comentaristas explicando as razões geopolíticas como se estivessem narrando uma final de copa do mundo.
e a música pergunta: is there a time for keeping your distance? sim, bono, sempre há. é praticamente a única coisa que o mundo sabe fazer bem. manter distância, fingir indignação calculada, escrever textos profundos enquanto assina mais um contrato bilionário de venda de armas. porque guerras são um grande negócio. e a comoção, essa tem prazo de validade. dura o tempo exato de um ciclo de notícias ou até a próxima tragédia ocupar as manchetes.
is there a time to turn to mecca? claro, mas apenas quando convém. quando serve para dividir, para criar medo, para justificar mais um bombardeio humanitário. sempre há tempo para transformar cultura em arma, religião em desculpa, vidas em números. mas nunca há tempo para reconhecer que, no final, todo mundo sangra do mesmo jeito. nunca há tempo para ver que, em cada cidade reduzida a escombros, há pessoas que só queriam viver.
is there a time to run for cover? bom, para quem pode se dar ao luxo de perguntar, sim. mas e os que não podem? os que morrem soterrados em prédios que nunca deveriam ter sido alvos? os que têm suas casas transformadas em pilhas de concreto enquanto governos bem vestidos chamam isso de “danos colaterais”? esses não têm tempo. nunca tiveram.
e agora, enquanto seguimos repetindo essa dança macabra, a música continua ecoando. miss sarajevo nunca foi um epitáfio. foi um aviso. um tapa na cara do mundo, que, como sempre, ignorou. e aquele verso final, gritado por pavarotti como se estivesse cantando o réquiem da humanidade, se torna um testamento da nossa falha coletiva. haverá outra vida? haverá alguma chance de quebrarmos esse ciclo de carnificina glorificada?
a verdade é que a resposta não importa. porque, no final, sempre haverá um novo sarajevo. um novo gaza. um novo nome para o mesmo horror. sempre haverá políticos chorando lágrimas de crocodilo enquanto assinam mais uma resolução inútil. e sempre haverá música para nos lembrar de tudo o que fingimos não ver. até que um dia, talvez, nem a música reste.
e talvez esse seja o maior medo de todos… o dia em que nem a música reste. o dia em que nem um pavarotti fantasmagórico surgindo do além para cantar sobre a morte e a memória seja capaz de nos arrancar do nosso torpor conveniente. porque se tem algo mais assustador do que a guerra em si, é a normalização dela. a aceitação silenciosa de que o mundo sempre foi assim e sempre será. a anestesia coletiva diante de cada novo massacre, de cada nova cidade devastada, de cada nova criança morta antes mesmo de aprender a falar.
e se sarajevo foi o primeiro ensaio moderno dessa tragédia repetitiva, o que temos agora é o espetáculo em alta definição. não são apenas guerras, são temporadas. conflitos editados como documentários premiados, drones filmando a destruição com a precisão de um diretor de fotografia, explosões se transformando em imagens virais, influenciadores comentando a geopolítica entre um unboxing e outro. é isso. transformamos a guerra em entretenimento, mas sem o final redentor. sem o herói para salvar o dia. sem justiça. só ruínas e uma trilha sonora de lamentações que ninguém quer ouvir de verdade.
is there a time for tying ribbons? sim, sempre há tempo para isso. tempo para símbolos vazios, para campanhas emocionadas que duram uma semana, para bandeiras temporárias no perfil das redes sociais. tempo para discursos inflamados sobre liberdade, democracia e direitos humanos, desde que esses discursos não atrapalhem nenhum contrato de exploração mineral ou venda de armas. porque indignação tem limite, e esse limite é sempre traçado pelo dinheiro.
e então, voltamos àquela imagem inicial. as mulheres de sarajevo desfilando entre escombros, segurando cartazes que imploram por algo tão básico que chega a ser absurdo: não nos matem. uma frase que poderia estar escrita em qualquer muro de qualquer cidade em guerra hoje. e a pergunta que não quer calar: alguém ouviu? alguém ouviu em sarajevo? alguém está ouvindo agora? ou só vamos esperar até que seja tarde demais para fingir que nos importamos?
e é por isso que miss sarajevo continua sendo o epitáfio não apenas de uma cidade, mas de toda uma forma de ver o mundo. um lamento por todas as vidas que poderiam ter sido salvas se a humanidade tivesse um pingo de decência. mas o mundo não aprende. não quer aprender. prefere repetir. prefere assistir. e então, um dia, quando sobrar apenas poeira e cinzas, talvez alguém pergunte: is there a time for asking questions?
mitologia, essa linda, delirante e completamente insana tentativa da humanidade de explicar sua existência sem ter que recorrer à lógica ou ao bom senso. se a religião organizada é o fast food espiritual da humanidade moderna, então a mitologia é aquele prato excêntrico, supervalorizado e repleto de ingredientes obscuros que algum chef pretensioso apresenta com orgulho, esperando aplausos, enquanto você se pergunta: “que diabos é isso no meu prato?”. mas ainda assim, todos nós devoramos cada pedaço dessa loucura mitológica, não porque faça sentido, mas porque, no fundo, somos eternamente famintos por drama, tragédia, incesto, traição e uma boa dose de caos divino. afinal, quem precisa de reality shows ou novelas quando você tem os gregos, os nórdicos, os egípcios e até mesmo os mesopotâmicos fazendo coisas absolutamente insanas que deixariam qualquer roteirista de hollywood com inveja?
comecemos com os gregos, esses mestres em transformar o mais profundo delírio numa espécie de divina telenovela mexicana, só que com menos bigodes e mais monstros. se você acha que sua família é problemática, experimente ser um deus grego. zeus, o poderoso chefão do olimpo, tinha a moralidade sexual de um astro do rock dos anos 70 misturado com um adolescente no auge da puberdade. ele não respeitava fronteiras: casadas, solteiras, homens, mulheres, ninfas, mortais, animais e, se bobear, até árvores corriam risco quando ele aparecia. com um repertório digno de figurar no livro dos recordes de assédios cósmicos, zeus era um mestre na arte do disfarce para seduzir ou sequestrar, variando de formas sofisticadas como um cisne (o que já é perturbador o suficiente) a outras mais estranhas, como uma chuva dourada. sim, isso mesmo. ouro líquido. os gregos tinham uma imaginação surpreendentemente depravada e criatividade de sobra, sem limites ou censura. hércules, filho desse deus incorrigível, herdou do pai mais do que a força sobre-humana, ganhou também um complexo de inferioridade, uma fúria descontrolada e uma tendência a resolver tudo com violência. sua solução para absolutamente tudo era esmagar, estrangular ou esfaquear, cumprindo seus “12 trabalhos” que, na verdade, eram uma desculpa para sair barbarizando e chamando de heroísmo. em resumo, hércules era o rambo da antiguidade… músculo demais, cérebro de menos, mas sempre com aquela cara de bom moço, escondendo traumas profundos atrás de bíceps gigantes.
e que dizer da mitologia nórdica? se os gregos faziam novelas, os nórdicos produziam filmes de ação blockbuster com orçamento baixo, cheio de explosões, machados, barbas, cerveja e testosterona desenfreada. thor, o glorioso deus do trovão, talvez o mais popular dos vikings celestiais, era um brutamontes adorado por quem achava que resolver problemas com marteladas era algo perfeitamente lógico. ele descia dos céus não pra iluminar a humanidade, mas pra dar porrada em gigantes, beber cerveja, e fazer bobagem atrás de bobagem, normalmente instigado por loki, seu irmão adotivo e deus da confusão generalizada. loki, aliás, é uma das figuras mais interessantes dessa bagunça mitológica, um ser que conseguia ser simultaneamente um herói e um vilão, mais escorregadio que político em ano eleitoral, e dono de uma mente tão retorcida que faria maquiavel parecer inocente. ele inventava problemas, dava golpes em seus familiares divinos, e ainda tinha a audácia de se surpreender quando alguém ficava irritado. odin, o chefe dessa gangue celeste, era um deus de poucas palavras e muitas obsessões. em busca de sabedoria, pendurou-se em uma árvore por nove dias, sacrificou um olho, e fez coisas que deixariam qualquer terapeuta apavorado. mas quem precisa de terapia quando você pode simplesmente morrer heroicamente em batalha e ressuscitar pra fazer tudo de novo na festa infinita de valhalla? a filosofia nórdica era clara, viva rápido, morra jovem, e deixe um cadáver espetacular, de preferência num barco em chamas.
e os egípcios, então? ah, essa gente entendia o poder da burocracia divina! com uma mitologia organizada como uma repartição pública, cheia de deuses com cabeças de animais exóticos, os egípcios tinham a capacidade de transformar o além-vida num eterno tribunal kafkiano. imaginem só… depois de morrer, você é julgado por um deus com cabeça de chacal, seu coração é colocado numa balança contra uma pena, e, dependendo do resultado, você pode passar a eternidade num paraíso de luxo ou simplesmente ser devorado por um monstro com cabeça de crocodilo e traseiro de hipopótamo. não sei vocês, mas me parece uma aposta injusta pra quem passou a vida inteira no calor escaldante construindo pirâmides para faraós egocêntricos. rá, o poderoso deus-sol, navegava pelo céu durante o dia e pela noite atravessava o submundo numa espécie de barquinho celestial. mas a verdadeira lição egípcia é que a vida após a morte depende de duas coisas… quão bem você foi embalsamado e quantas riquezas você levou pro túmulo. capitalismo espiritual, minha gente. ou seja, os egípcios já sabiam que até o além-vida era reservado pros ricos e influentes.
no fim das contas, mitologia não passa de um espelho grotesco que reflete nossas obsessões, nossos medos mais profundos, e nossos desejos mais obscuros. é a humanidade jogando todos seus traumas num caldeirão e criando deuses disfuncionais que fazem coisas tão escandalosas que nossa vida moderna e caótica parece, em comparação, quase entediante. então, talvez devêssemos agradecer aos antigos por essa coleção interminável de contos fantásticos, que provam, acima de tudo, que a humanidade sempre foi e sempre será maravilhosamente louca, delirante e incrivelmente criativa em sua busca por explicações absurdas para uma existência ainda mais absurda. afinal, como dizia o velho nietzsche, “no final, somos todos mitos que acreditam em mitos.” e que assim seja.
eu já devia saber. devia ter aprendido com os erros dos outros, com os olhares vazios dos que tentaram antes de mim, com os sorrisos amarelos daqueles que ainda insistem. mas não. fui teimoso. me joguei na ilusão do empreendedorismo como quem mergulha de cabeça numa piscina vazia, achando que lá no fundo encontraria um baú cheio de dinheiro, status e liberdade. o que encontrei foi a dura realidade: empreender e ter dinheiro são coisas que não combinam. são como óleo e água, como dietas veganas e churrascarias, como finais felizes e histórias de verdade.
o problema começa logo no início, quando a gente ainda é ingênuo o suficiente pra acreditar naquela conversa fiada de “faça o que ama e nunca mais terá que trabalhar um dia na vida”. mentira. faça o que ama e prepare-se pra trabalhar o triplo, dormir menos, engordar ou emagrecer por puro estresse, e ainda sorrir como um idiota enquanto diz “tá indo bem, sim, graças a deus” pra amigos que, no fundo, já apostam quando você vai desistir.
e o dinheiro? ah, o dinheiro. esse desgraçado que deveria estar fluindo em minha direção como um rio caudaloso, mas que, na realidade, pinga como torneira quebrada, sempre quando menos espero, sempre insuficiente. os boletos chegam, os impostos devoram qualquer resquício de esperança, e os clientes? os clientes acham que o preço é caro demais, que dá pra fazer um descontinho, que “poxa, fulano faz mais barato”.
a verdade é que ser empreendedor não é sobre ser dono do próprio negócio, é sobre ser escravo do próprio sonho. porque a ideia de liberdade que vendem é tão falsa quanto comida de avião. você não é livre. você trabalha em dobro, responde mensagens às três da manhã, negocia com fornecedores que parecem vilões de filme b e, quando sobra tempo, ainda precisa fingir que está tudo sob controle.
e nem vamos falar de férias. férias são uma miragem no deserto corporativo. quando você trabalha pros outros, pelo menos tem a dignidade de um décimo terceiro, um feriado aqui e ali, um final de semana sem culpa. quando você empreende, cada dia longe do negócio significa perder dinheiro. significa voltar e descobrir que seu cliente está querendo encerrar o contrato só pelo motivo de você não ter participado de duas reuniões.
o pior é que, mesmo sabendo de tudo isso, a gente segue em frente. por quê? porque somos teimosos, iludidos, vítimas do capitalismo afetivo que nos faz acreditar que, se trabalharmos duro o suficiente, uma hora a recompensa vem. e aí, depois de anos de esforço, de noites sem dormir, de almoços pulados e cabelos arrancados, talvez, e só talvez, você consiga pagar todas as contas sem precisar vender um rim no mercado negro.
mas o jogo nunca é justo. o pequeno empreendedor compete com gigantes, com algoritmos cruéis, com burocracias que só favorecem quem já tem dinheiro. é davi contra golias, mas sem a pedra. e aí você percebe que o mundo dos negócios não é sobre trabalho duro, mas sobre influência, sobre quem você conhece, sobre quem te deve favores. mérito? esquece. se mérito fizesse diferença, professor ganharia mais que ceo de banco.
e se você ousar crescer um pouquinho, não se engane: o governo, os bancos, os concorrentes, todos vão dar um jeito de te lembrar quem manda. vão te enterrar em taxas, te sufocar em exigências, te lembrar que, no fundo, você nunca foi livre. o empreendedor médio não tem tempo nem de olhar pra cima e perceber que está preso numa gaiola dourada, só que sem o dourado.
no final, empreender é um ato de fé. é acreditar no improvável, é insistir no impossível, é se apaixonar por um sonho que só você vê. e, como toda paixão cega, é perigoso. você pode até ter um vislumbre do sucesso, mas a um custo alto demais. o dinheiro? ah, o dinheiro segue fugindo, escorregando pelos dedos como areia fina. mas pelo menos, dizem, você é seu próprio chefe. só falta conseguir pagar um salário decente pra si mesmo.
eu sempre pensei que ser pai seria sobre ensinar, sobre ser esse modelo que meu filho olhasse e falasse “uau, meu pai sabe tudo”. a ideia era aquela baboseira de passar o bastão da sabedoria de geração para geração, mas logo percebi que a única coisa que estou realmente ensinando é como consertar brinquedo quebrado. e, sejamos honestos, isso é uma lição valiosa na vida moderna. quem diria que minha verdadeira profissão não era ser mentor ou guia espiritual, mas sim mecânico de brinquedos em tempo integral?
meu dia começa não com um “bom dia, pai” ou “obrigado por existir”, mas com um grito de emergência: “pai, meu carrinho quebrou!” e ali estou eu, em plena missão de resgatar um pedaço de plástico da morte certa. sou chamado para desmontar, remendar, reconstruir, deitar no chão e vasculhar até achar a peça perdida. entre uma cola quente e um pedaço de fita adesiva, aprendo que ser pai não é sobre ser infalível, mas sobre ser flexível e sempre estar disposto a fazer o impossível para dar aquele “ah, valeu, pai” de quem ainda acredita em magia.
não são só os carrinhos, claro. tem legos, que me fazem questionar as leis da física a cada construção que desmorona. meu filho monta castelos que desafiam até os melhores engenheiros, e eu sou o arquiteto frustrado que, em algum ponto do processo, recebe a ordem de “reconstruir tudo”. não importa quantos milhões de peças estejam espalhadas, meu trabalho é dar um jeito. sempre dou. porque ser pai, afinal, é entender que os brinquedos quebram, mas a paciência e a perseverança devem ser restauradas.
e os bonecos, ah, os bonecos. são as estrelas do espetáculo. esses pequenos sobreviventes de inúmeras aventuras passam por cada tipo de trauma possível. braços arrancados, cabeças que não se encaixam mais… já me vi, inúmeras vezes, virando um cirurgião de plástico e tapeando com durepoxi. mas, no final, é sempre um sucesso. o que começa como um desastre termina como um novo herói para o meu filho, que, em sua visão de mundo, sou o melhor “consertador” que existe.
nada, porém, se compara ao caos dos brinquedos eletrônicos. um caminhão de bombeiro sem som? meu filho me olha como se eu fosse um técnico da NASA, e eu, sem saber como, tento ressuscitar o brinquedo com pilhas novas, apertando botões e rezando para o milagre acontecer. às vezes dá certo, às vezes não. mas não importa, porque o que aprendi é que ser pai é isso: improviso, paciência e a capacidade de resolver o impossível, com ou sem a tecnologia a nosso favor.
no fundo, a paternidade tem mais a ver com consertar do que ensinar. você repara brinquedos, corações e até suas próprias expectativas. mas, no final, meu filho me ensina mais sobre resiliência do que qualquer livro ou palestra sobre a vida. e, sim, vou continuar sendo o mecânico de brinquedos enquanto ele acredita que eu posso fazer qualquer coisa.
se você está olhando ao redor e se perguntando “o que diabos está acontecendo com o mundo?”, parabéns, você está oficialmente desperto para o grande desastre cíclico da humanidade. e se quer uma resposta, aqui vai… estamos no meio de um fourth turning, o momento histórico onde tudo desmorona, as pessoas se dividem como torcidas organizadas e ninguém mais consegue concordar nem sobre o que é real.
não acredita? então preste atenção, esse caos não é um erro do sistema, é o sistema funcionando exatamente como sempre funcionou. william strauss e neil howe, no livro “the fourth turning”, explicam que a história não avança em linha reta, ela repete os mesmos quatro atos como um roteirista preguiçoso escrevendo a mesma série ruim toda temporada. cada ciclo dura de 80 a 100 anos e é dividido em quatro fases previsíveis. e, azar o seu, você nasceu no exato momento em que tudo começa a derreter.
primeiro: o high, a ilusão de que consertamos o mundo
o ciclo começa logo depois de uma grande crise, uma guerra, um colapso econômico, algo feio o bastante para traumatizar a humanidade inteira. as pessoas, cansadas de sofrer, decidem fingir que aprenderam a lição e constroem uma sociedade baseada na ordem, na estabilidade e na completa negação da realidade.
os anos 50 foram um exemplo perfeito. todo mundo feliz, sorrindo em comerciais preto e branco, comprando casas idênticas em subúrbios idênticos e acreditando que o governo, a igreja e os bancos estavam lá para protegê-los. as instituições estavam no auge, a sociedade parecia unida, e o futuro era brilhante. claro, ninguém falava sobre os podres escondidos debaixo do tapete, mas ei, pequenos detalhes.
segundo: o awakening, hora de jogar tudo no lixo
mas eis o problema, o high é chato pra cacete. e a geração que nasceu nesse período, criada com estabilidade, segurança e um senso absoluto de que o mundo sempre vai melhorar, começa a achar tudo um grande tédio sufocante. então eles fazem o que qualquer geração entediada faria… chutam o pau da barraca.
de repente, todas as regras do high são questionadas. religião? besteira. governo? corrupto. tradição? prisão disfarçada. o mundo vira um grande campo de batalha cultural, e o que era sólido começa a rachar. os anos 60 e 70 foram exatamente isso… protestos, revoluções sociais, questionamento da moralidade, e um monte de gente correndo pelada em festivais enquanto prometia mudar o mundo.
a ironia? eles acabaram se tornando exatamente aquilo que combateram. décadas depois, os mesmos rebeldes dos anos 60 estão aí, votando em candidatos conservadores e reclamando que a juventude de hoje em dia é “muito sensível”.
terceiro: o unraveling, o começo do fim
se o awakening foi a adolescência rebelde da sociedade, o unraveling é o momento em que o adulto percebe que a vida não tem sentido e desiste de fingir.
a confiança nas instituições desaba, as pessoas param de acreditar que há um futuro coletivo e todo mundo entra no modo “cada um por si”. os anos 80 e 90 foram puro unraveling, o neoliberalismo dominando o mundo, a política virando um show de horrores, os governos sendo gerenciados como empresas (e tão mal quanto), e as pessoas mergulhando no consumismo como se pudessem comprar felicidade parcelada em 12x sem juros.
é nesse período que começamos a ver o caos chegando, mas ainda dá para ignorá-lo. ninguém acredita que o mundo pode realmente desabar. as pessoas acham que “as instituições são ruins, mas pelo menos ainda existem”, que “a democracia pode estar em crise, mas ainda é forte”, que “as guerras são coisas do passado”, e outras ilusões otimistas.
e então, vem o tapa na cara.
quarto: o fourth turning, e agora fodeu
se você está vivo hoje, parabéns, você está no meio do grande colapso histórico do seu tempo.
a crise de 2008? O início do nosso fourth turning. de lá para cá, tivemos… instabilidade financeira, polarização política extrema, colapsos institucionais, guerras voltando a ser uma coisa comum, pandemias, teorias da conspiração dominando a cultura, e um nível de paranoia coletiva que faz os anos da guerra fria parecerem uma colônia de férias.
e ainda estamos só no meio do caminho. se os ciclos se repetirem (e até agora sempre se repetiram), ainda falta a grande crise final, o momento onde tudo se desfaz completamente e o mundo é forçado a se reinventar. pode ser uma guerra global, um colapso econômico total, uma revolução que ninguém viu chegando. o roteiro já está pronto, só falta descobrir qual desastre específico vai fechar essa temporada.
mas você pode estar confuso com essa história de ciclos, não é? acha que talvez isso seja só um papo furado e que o mundo está uma bagunça porque, sei lá, as redes sociais estragaram tudo ou porque a humanidade está ficando mais burra? beleza. então, vamos voltar no tempo e dar uma olhada em alguns outros fourth turnings. porque, amigo, se você acha que o nosso está ruim, deixa eu te contar: já estivemos nesse filme antes, e ele sempre termina com explosões, fogo e um bando de gente tentando reconstruir tudo do zero.
fourth turning #1: revolução gloriosa (1688-1704), quando a europa resolveu chutar a porta
você provavelmente nunca ouviu falar da revolução gloriosa, porque, sejamos honestos, a maioria das pessoas mal consegue lembrar o que comeu no café da manhã, muito menos um evento de 300 anos atrás. mas aqui vai a versão resumida… foi um grande “foda-se” para os reis absolutistas, e o começo da bagunça política moderna.
inglaterra, 1688. os ciclos estavam se repetindo direitinho, um período de estabilidade após a guerra civil, seguido por uma era de mudanças culturais e filosóficas (olá, iluminismo!), depois uma fase de desconfiança nas instituições. e aí, boom!!! um rei impopular, uma crise religiosa, e, de repente, os ingleses resolvem se livrar do monarca e botar outro no lugar, um que pelo menos fizesse o favor de não ser um lunático.
parece algo distante? troque “rei impopular” por “político ridículo”, “crise religiosa” por “polarização ideológica”…
fourth turning #2: revolução americana e francesa (1773-1794), o caos iluminado
avançamos um século e adivinha? outro fourth turning. os eua, ainda um projeto de colônia britânica, decidem que pagar imposto para um rei do outro lado do oceano não é um plano viável de longo prazo. começa uma guerra. um novo país nasce. “ah, agora vai dar certo”, pensam eles. (spoiler: não deu.)
do outro lado do atlântico, os franceses olham para os americanos e pensam: “ei, boa ideia, vamos tentar também”. só que, em vez de uma revolução minimamente organizada, eles entregam um espetáculo de cabeças rolando na guilhotina, enquanto a europa assiste horrorizada. quando o fourth turning chega, todo mundo perde a cabeça, algumas pessoas de forma mais literal que outras.
e antes que você diga “ah, mas isso foi há muito tempo, agora somos mais civilizados”, te pergunto: quantas pessoas você conhece que matariam um desafeto político se tivessem a chance e a certeza de impunidade? pois é. então segura essa régua moral aí.
fourth turning #3: guerra civil americana (1860-1865), quando os eua decidiram se matar por conta própria
vamos para o século XIX. os estados unidos estão crescendo, mas tem um problema… metade do país acha que pode continuar escravizando seres humanos, e a outra metade começa a achar isso meio inaceitável. as instituições falham, o governo se divide, os estados começam a ameaçar se separar e, antes que alguém consiga resolver as coisas de forma civilizada, estão todos enfiados até o pescoço em uma guerra sangrenta.
e olha que coincidência, antes da guerra, vieram as mesmas fases do ciclo de sempre. período de reconstrução pós-revolução? check. era de questionamento e mudança social? check. anos de crescente polarização e desconfiança? check. quarta fase? um mar de sangue e destruição.
e depois? reconstrução. um novo ciclo. novas instituições. novas promessas de que “isso nunca mais vai acontecer.” (spoiler: vai.)
fourth turning #4: grande depressão e segunda guerra mundial (1929-1945), o inferno na terra
ah, agora estamos chegando perto. a geração dos anos 1920 achava que tinha resolvido todos os problemas. a economia estava bombando, as cidades estavam crescendo, a tecnologia estava avançando. e então, bum!!! a bolsa de valores despenca, milhões de pessoas perdem tudo, os governos falham espetacularmente, e, antes que alguém consiga respirar, um austríaco com um bigode ridículo resolve que o melhor jeito de consertar as coisas é iniciar uma guerra global.
o mundo pega fogo. milhões morrem. cidades inteiras viram cinzas. governos são derrubados. a guerra termina, e um novo ciclo começa. os sobreviventes olham ao redor e pensam: “ok, dessa vez aprendemos. nunca mais deixaremos isso acontecer.”
(corte para 2024: estamos fazendo tudo de novo.)
então, e o nosso fourth turning?
desde 2008, estamos vendo os mesmos sinais que precederam todas as outras grandes crises da história: crise financeira, instituições falhando, aumento do extremismo, um sentimento geral de que as coisas não fazem mais sentido. pandemias, guerras, colapsos econômicos, tudo acontecendo exatamente como antes. e, se os padrões continuarem, ainda não chegamos no clímax.
e quer saber o pior? não tem como sair dessa. não existe atalho, não existe solução rápida, não existe “basta votar certo”. se estivermos realmente no meio de um fourth turning (e todos os indícios apontam que sim), então as coisas só vão piorar antes de melhorar.
e agora, o que fazer?
quer um conselho? pare de agir como se tudo fosse uma surpresa. a humanidade não está em crise… a humanidade É A CRISE. sempre foi. você pode espernear o quanto quiser, mas o ciclo não vai mudar só porque você acha injusto ter nascido na pior fase dele.
você pode até tentar “fazer sua parte”, como todo mundo gosta de dizer. mas sejamos honestos, ninguém realmente faz sua parte. as pessoas seguem discutindo política como se um tweet fosse salvar o mundo, postando textos indignados no linkedin enquanto acumulam mais gadgets desnecessários e, ocasionalmente, assistindo a um documentário para fingir que estão informadas.
mas ao final o que aprendemos com tudo isso?
1. a história sempre se repete. sempre. se você acha que sua geração é a primeira a enfrentar um mundo em colapso, parabéns pela ingenuidade.
2. ninguém nunca percebe que está no meio de um fourth turning até ser tarde demais. as pessoas sempre acham que “dessa vez é diferente”. não é.
3. as instituições não falham porque sim, elas falham porque fazem parte do ciclo. tudo que parece sólido um dia vira pó.
4. o futuro não vai ser gentil. se os padrões se repetirem, ainda temos mais uns dez anos de caos antes do próximo ciclo começar.
5. e o mais importante: todo mundo acha que vai sobreviver, mas historicamente… não é bem assim.
então, qual é a moral da história? simples… relaxe e aproveite o espetáculo. porque, quer você goste ou não, a roda já está girando, e a única coisa garantida é que, no final, alguém sempre sai quebrado.
e agora é a hora de escolher o seu lado, ou você aceita que está dentro de um loop histórico e se prepara para a próxima reviravolta, ou continua fingindo que o caos é uma anomalia e que um dia tudo “vai voltar ao normal”.
entusiasta. só isso. nada de ceo, cmo, gerente sênior, especialista, estrategista, guru, visionário ou qualquer outro título que soe como um troféu corporativo. eu me recuso. não quero um crachá que me tranque numa caixinha confortável. não quero um rótulo que me obrigue a seguir um script. prefiro a liberdade de estar sempre começando, sempre explorando, sempre descobrindo. prefiro ser um entusiasta porque qualquer outra coisa seria limitar o que eu posso ser.
títulos criam muros. e eu não quero muros. não quero ser o especialista que parou de aprender porque acredita já saber tudo. não quero ser o diretor que tem medo de arriscar porque agora tem um cargo pra proteger. não quero ser o guru que se leva a sério demais e vira refém das próprias frases de efeito. eu gosto de errar. gosto de mudar de ideia. gosto de aprender algo novo e me deixar levar por ele até encontrar a próxima obsessão.
ser entusiasta é um ato de rebeldia. num mundo obcecado por certezas, eu escolho a dúvida. escolho a adrenalina de não ter todas as respostas. escolho a curiosidade sem coleira. enquanto muita gente se agarra a títulos pra justificar sua relevância, eu prefiro a vertigem de estar sempre descobrindo o que vem depois. porque é isso que me mantém vivo.
e eu sei que isso incomoda. sei que o mundo prefere especialistas porque especialistas são previsíveis. mas eu não quero ser previsível. não quero seguir o manual. não quero jogar seguro. quero bagunçar, testar, provocar. quero me interessar por algo novo todos os dias. quero ter a liberdade de não precisar fingir que sou algo fixo e definitivo.
por isso eu escolho esse único rótulo… ou melhor, essa recusa de rótulos. porque ser entusiasta significa estar sempre em movimento. significa não me acomodar. significa não precisar da validação de um título pra saber o meu valor. significa olhar pro mundo e pensar: “o que mais eu posso aprender?”. e enquanto essa pergunta fizer sentido, sei que estou no caminho certo.
entusiasta porque qualquer outra coisa seria uma mentira.