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2024

new york

nova york. eu não vivo aqui, mas sempre que passo por essas ruas, sinto que ela me desafia, me provoca, me observa com aquele olhar insolente de quem sabe que é irresistível. porque, no fundo, é isso que ela é. a sedutora definitiva. você pode odiá-la, amá-la, fugir dela, mas nunca vai ignorá-la. nova york não deixa.

essa cidade é um organismo vivo, faminto, pulsando de vida, de histórias, de sonhos empilhados uns sobre os outros como os arranha-céus que dominam o horizonte. é impossível não se sentir pequeno aqui, mas, de alguma forma estranha, isso é libertador. ninguém está te olhando. ninguém liga para quem você é, o que você faz ou de onde você veio. e talvez seja exatamente isso que faz dela tão honesta. você é livre para se perder, para se reinventar, para desaparecer no meio da multidão ou gritar para o mundo quem você quer ser.

nova york não é gentil, mas também não é cruel. ela simplesmente é. e você se adapta ou não. ela não vai parar por você. nunca parou por ninguém. mas se você se entregar, se deixar levar, pode encontrar um pedaço de você mesmo aqui. porque cada rua, cada esquina, carrega algo. uma lembrança, uma possibilidade, uma promessa.

há algo incrivelmente honesto na maneira como a cidade opera. não há espaço para ilusões. você vê tudo. o luxo ostentador da quinta avenida e o lado mais cru do bronx, o chef estrelado e o cara que vende hot dogs em um carrinho enferrujado, tudo convivendo no mesmo espaço, dividindo a mesma respiração. e é exatamente isso que faz nova york ser única. não há maquiagem, não há filtro. só uma mistura caótica de tudo que é humano.

e as pessoas. claro, elas são duras, às vezes quase cínicas, mas não sem coração. elas têm essa energia, essa urgência que pode ser confusa para quem está de fora. mas, no fundo, todo mundo aqui está tentando fazer o mesmo. encontrar seu lugar no caos. e, de algum jeito inexplicável, funciona.

nova york não é perfeita. ela não é feita para ser. mas é viva. é um soco no estômago, um abraço apertado, um grito no meio da noite. não é fácil, não é para todos. mas para quem entende, para quem aceita a cidade como ela é, nova york pode ser tudo.

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2024

que tipo de lugar eu gosto?

eu tenho uma atração patológica por lugares que fazem você questionar a existência de qualquer tipo de ordem no universo. sabe, aqueles cantos onde nada funciona direito, onde o conceito de “pontualidade” é tratado como uma piada interna e o som ambiente é uma sinfonia de buzinas, xingamentos e o ocasional som de vidro quebrando. onde a sua mala chegar inteira, ou sequer chegar, é considerado um presente dos deuses do transporte. lugares onde, se tudo der errado (e vai), você ainda consegue rir, porque, afinal, você já sabia onde estava se metendo.

eu amo o caos. não o caos cinematográfico e polido, mas o caos real, cru e sujo. ruas que parecem um quebra-cabeça de 5 mil peças jogado no chão por uma criança revoltada, sistemas que só funcionam para quem sabe as manhas, e você, claro, não sabe. e as pessoas? elas não estão nem aí. discutem, gesticulam como se estivessem dirigindo o trânsito celestial e seguem suas vidas, enquanto você, o forasteiro, tenta não ser atropelado por uma scooter carregando uma família inteira e talvez uma galinha.

e é claro que eu sempre chego nesses lugares com aquela combinação idiota de expectativa e nostalgia romântica. “vai ser incrível,” penso eu, antes de ser recebido com um atendente do aeroporto que parece ter feito um voto pessoal de nunca ajudar ninguém. mas sabe o que é mais ridículo? eu adoro isso. adoro a sensação de estar na merda até o pescoço. adoro o desafio de tentar entender por que diabos o taxista decidiu pegar um caminho que inclui uma rua alagada e uma feira de rua. porque nesses lugares, qualquer pequena vitória, como conseguir pedir uma coca-cola sem ser roubado, parece uma conquista épica.

são lugares sem verniz, sem filtro, sem preocupação com a sua experiência de turista. e talvez seja exatamente isso que me fascina. porque no meio da bagunça, das gambiarras, dos olhares que dizem “boa sorte, trouxa,” eu vejo algo real. algo que não dá a mínima para a sua ideia de como as coisas deveriam ser. e, de alguma forma, é isso que me faz voltar. ou sou só um idiota.

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2024

minha bagagem

fazer uma mala pra duas semanas de trabalho no inverno de nova york é um ato de rebeldia contra o excesso e, ao mesmo tempo, uma declaração de estilo. é separar quem entende o jogo de quem acha que viajar é carregar a casa nas costas. mala grande? erro de principiante. mala despachada? suicídio logístico. se você não consegue sobreviver com uma mala de mão, você não está pronto pra nova york – ou pra vida.

nova york não espera por ninguém, e o frio também não. ele não quer saber se você trouxe três cachecóis ou a sua coleção de suéteres pastel. ele vai atacar e te pegar despreparado, especialmente se você estiver carregando tanto peso que parece estar filmando um episódio de sobrevivência no ártico. pra mim, é simples: eu desço do avião leve, rápido e preparado. enquanto a multidão ainda tá no corredor lutando com o compartimento de bagagem ou lamentando a mala perdida, eu já estou no táxi.

1. a bota – a fiel escudeira

tênis no inverno de nova york é igual guarda-chuva barato: uma traição esperando pra acontecer. a minha bota de couro? surrada, impermeável, feita pra encarar neve, poças de água que você preferia nunca ter pisado, e até aquele bar duvidoso onde o chão gruda. ela vai no meu pé no avião, porque usar um espaço precioso na mala pra algo tão vital é o tipo de erro que só quem despacha bagagem cometeria.

2. segunda pele – a diferença entre você e um cadáver congelado

duas boas camadas térmicas, porque o frio de nova york não é só frio. ele entra por baixo da sua roupa, passa pela sua dignidade e se instala na sua alma. a segunda pele é o seu escudo. uma pra usar, outra pra quando a primeira estiver gritando por socorro. e, não, aquela camiseta velha de algodão não serve.

3. o casaco que aguenta tudo

esse é o seu tanque de guerra. preto, cinza ou qualquer cor que não grite “eu sou um turista perdido, me enganem”. ele enfrenta ventos glaciais, mantém sua aparência respeitável, e vai da rua pra sala de reuniões sem pedir desculpas. algo que você usaria tanto pra atravessar o brooklyn bridge quanto pra pedir um bourbon num bar do west village.

4. uma camisa que diz “eu sei o que estou fazendo”

preta ou azul escura, porque cores berrantes são pros otimistas – e ninguém com otimismo sobrevive ao inverno nova-iorquino. essa camisa é sua arma secreta: perfeita pra reuniões, jantares ou fingir que você tem sua vida sob controle, mesmo que esteja há 48 horas sem dormir.

5. quatro camisetas pretas – o uniforme do sobrevivente

preto é a cor oficial de quem não tem tempo pra besteiras. não amassa, não denuncia manchas, e faz você parecer mais interessante do que realmente é. essas camisetas me levam de uma reunião entediante a um bar clandestino no brooklyn, sempre com a mesma eficiência.

6. duas calças – porque é o suficiente pra qualquer pessoa normal

uma jeans escura, porque vai do trabalho ao happy hour sem levantar suspeitas. e uma calça térmica ou cargo, porque enfrentar o frio sem funcionalidade é coisa de quem quer sofrer. mais do que duas calças? desculpa, mas você não tá viajando, tá se mudando.

7. gorro e luvas – ou aceite o sofrimento

o gorro salva seu cérebro de virar um bloco de gelo, e as luvas são a única coisa entre seus dedos e o desespero absoluto. e não, você não é “forte” por tentar encarar o frio sem eles; você só parece mal preparado.

8. roupas íntimas: o cálculo matemático da decência

uma por dia menos dois. confie em mim, lavar roupa no meio da viagem não é um ato de desespero, é eficiência pura. meias? térmicas. ruins? só se você quer transformar seus pés numa história triste.

9. eletrônicos: o kit básico da sobrevivência moderna

celular, carregador, e bons fones de ouvido. nada de fones que vieram de brinde com seu último celular, pelo amor de tudo que é sagrado. laptop, porque você está trabalhando. mas, sério, se você está pensando em levar um console de videogame, eu só tenho uma pergunta: por quê?

10. necessaire compacta, mas imbatível

escova de dente, pasta, desodorante e creme pras mãos, porque o frio destrói tudo – até sua dignidade. perfume pequeno, porque ninguém quer ser o colega que cheira a café velho e cansaço acumulado. shampoo e sabonete? hotel tem, e se não tiver, vá ao mercado mais próximo.

11. sair do avião como se fosse uma operação militar

essa é a parte onde você ganha. enquanto o resto do voo ainda tá lutando com bagagem de mão entupida e caras de frustração, eu já estou no corredor, indo em direção à saída. e enquanto os perdedores estão na esteira de bagagens, olhando com tristeza pro vazio, eu já tô no táxi, tomando um café quente e pronto pra encarar a cidade.

tudo cabe numa mala pequena. porque viajar é sobre eficiência, não excesso. e quem carrega mais do que o necessário está carregando seus medos, suas inseguranças, e, provavelmente, um suéter horrível que nunca vai usar. nova york não tem tempo pra isso, e eu também não.

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2024

como foi meu aniversário

ficar mais velho é aquele lembrete anual de que o mundo continua girando – só que agora, sem o mesmo entusiasmo quando chega o seu aniversário. você organiza tudo, prepara o melhor que pode, coloca sua alma ali. quer celebrar, quer reunir as pessoas que gosta, e quer, claro, sentir que isso importa pra elas também. mas aí, no grande dia, você percebe que as coisas mudaram. ou talvez elas só ficaram mais evidentes.

quando criança, um aniversário era quase um festival em sua homenagem. as pessoas vinham carregadas de presentes, sorrisos, e aquela ideia palpável de que você era importante. o presente não era só um objeto; era um gesto, um reconhecimento, uma forma de dizer: “eu pensei em você.” e isso valia mais que o carrinho ou a boneca que você encontrava ao abrir o pacote. era sobre a consideração.

hoje, essa consideração parece ter ficado na infância. ninguém traz nada. não que seja sobre os objetos – eu juro que não é. é sobre o que eles simbolizam. sobre alguém ter parado, mesmo que por cinco minutos, pra pensar: o que posso levar que mostre que me importo? mas, ao que parece, até esse pequeno esforço se perdeu no meio do caminho. em vez disso, o que vem é a desculpa educada: “eu nem sabia o que comprar, você já tem tudo!”. e aí você percebe que a pessoa nem tentou.

claro, todos vieram. e isso, em si, é bonito. mas não dá pra evitar aquele pensamento incômodo: será que, no fundo, o aniversário se tornou mais um evento obrigatório pra elas, uma pausa rápida na rotina, sem o significado que ele tem pra mim? porque, sim, pra mim significa muito. significa reunir quem eu amo, sentir que sou valorizado, que minha presença é algo que marca.

não é sobre o presente físico. é sobre o gesto, o tempo, a intenção. é sobre alguém ter olhado pra uma prateleira qualquer e pensado: “essa pequena coisa vai fazer o dia dele mais especial.” e, sim, poderia ser um pacote de café, uma flor, ou até um cartão escrito à mão. algo que dissesse: “eu lembrei de você, e quis mostrar isso.” porque, no final das contas, o presente sempre foi só isso: uma tradução simples de carinho.

então, talvez a culpa seja minha. talvez eu tenha esperado demais. mas, honestamente? esperar ser considerado, querido e lembrado em um dia que é, simbolicamente, o meu dia, não deveria ser demais. e, no entanto, aqui estamos. no próximo ano, quem sabe eu troque as expectativas por algo mais garantido – uma viagem, talvez…

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2024

viajar pra valer

eu tenho uma regra simples para qualquer cidade nova: fuja do hotel. sim, aquele lobby lustroso com aroma de baunilha artificial, as toalhas dobradas como cisnes e o menu do serviço de quarto prometendo “clássicos internacionais”. é uma armadilha, uma prisão de quatro estrelas que te coloca o mais longe possível da alma do lugar onde você está. não caia nessa. corra. fuja. jogue fora o mapa, esqueça o concierge. você quer aventura ou só mais uma foto de um prato insosso pra postar com a legenda “vibes”? escolha.

regra dois: evite turistas como se eles fossem um vírus altamente contagioso. se o lugar tem fila de gente com mochilas de trekking e chapéus de palha, você já perdeu. se a placa do restaurante é bilíngue, ou pior, trilíngue, nem passe pela calçada. qualquer lugar que use as palavras “autêntico” ou “tradicional” no cardápio já está mentindo na sua cara. se o garçom te cumprimenta em inglês antes mesmo de você abrir a boca, saia. rápido. esses lugares existem para confortar turistas, não para alimentá-los.

o verdadeiro jogo começa com a regra três: encontre o restaurante que ninguém te recomendaria. o lugar que parece meio decadente, com cadeiras tortas, mesas de fórmica arranhadas e um cardápio que talvez nem exista. você quer aquele tipo de restaurante onde os clientes são vizinhos, amigos do dono, talvez até parentes. aquele que parece existir para eles, e não para você. é aí que mora a verdade.

não sabe onde achar? fácil. vá até um lugar qualquer – um mercado, um café, até mesmo um taxista – e pergunte: “onde você come?” mas faça isso do jeito certo. nada de “onde está o melhor restaurante da cidade?” – porque ninguém vai te levar a sério. pergunte como quem quer um segredo, algo que eles só dividem com os amigos. a resposta quase sempre vai te levar a um canto esquecido da cidade. perfeito. se ouvir o mesmo nome mais de uma vez, bingo.

quando chegar lá, não espere nada “instagramável”. você não está atrás de flores comestíveis ou apresentações dignas de reality show gastronômico. você está atrás de uma cozinha que ainda não se rendeu. a comida vai ser simples, direto ao ponto e, se você tiver sorte, feita com amor de verdade. aquele tipo de amor que vem de alguém que aprendeu a cozinhar com a avó e não com um chef de estrela michelin.

sente-se. peça o que eles recomendarem. e quando o prato chegar, esqueça a estética. mergulhe de cabeça. porque ali, naquele garfo de algo que você não consegue pronunciar direito, está a alma de uma cidade. não a versão polida para turistas, mas a real. a que te alimenta, não te impressiona.

no fim das contas, as melhores experiências não têm endereço no google maps. elas não vêm com fotos bonitas ou hashtags. elas vêm de errar o caminho, de perguntar para as pessoas certas e de estar disposto a entrar em lugares que parecem nada – e descobrir que são tudo.

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2024

oyster perpetual

largar o apple watch foi como sair de uma festa de escritório onde todo mundo está tentando ser descolado demais, só para ir beber num bar velho e honesto que não tem nem wi-fi. sabe do que eu estou falando? aquele tipo de decisão que te faz respirar fundo e pensar: “por que diabos eu esperei tanto?” porque o apple watch, por mais útil que parecesse, era basicamente um bracelete tecnológico feito para te transformar em um escravo da própria vida. um bip aqui, um alerta ali – “sente direito”, “mexa o traseiro”, “beba mais água”. sério, quem foi que decidiu que eu precisava de uma babá digital no pulso?

e foi aí que o oyster perpetual entrou na minha vida, como um convite silencioso para mandar todo esse barulho para o inferno. de cara, eu entendi o que ele era: simples, direto, talvez até “boring” para alguns. mas aqui está o segredo sujo: essa aparente chatice é exatamente o que o torna perfeito. ele não precisa de firulas, porque não tem nada a provar. o oyster perpetual não quer ser o centro das atenções, e essa é precisamente a razão pela qual ele sempre será o rei do pulso.

“ah, mas ele é tão básico!” – é o que dizem os tolos, aqueles que precisam de algo piscando, vibrando ou lançando foguetes para se sentirem vivos. o oyster perpetual é um tapa na cara dessa mentalidade. ele é um lembrete de que a verdadeira sofisticação vem da confiança absoluta em sua função. ele marca o tempo, e faz isso com uma precisão quase obscena. mais nada. e sabe de uma coisa? é exatamente isso que eu quero. eu não preciso de um relógio que me avise que estou atrasado para a vida – eu já sei.

ele não grita. ele não faz malabarismos. ele é o equivalente em relógios a um chef que sabe fazer um ovo perfeito. sem trufas, sem espuma de wasabi, sem nada que precise de hashtags para justificar sua existência. o oyster perpetual é clássico porque não tenta ser moderno. enquanto os outros estão ocupados correndo atrás de tendências e tecnologias que ficam obsoletas mais rápido do que você pode dizer “Apple Watch Series 15”, ele está sentado lá, no seu pulso, dizendo: “tenta me superar.”

e, sim, ele é “boring”. porque, às vezes, boring é exatamente o que você precisa. ele é como uma boa camisa branca ou um blazer feito sob medida – ele simplesmente funciona. enquanto o apple watch e seus equivalentes piscam, fazem barulho e te enchem de notificações que você vai ignorar de qualquer maneira, o oyster perpetual está lá, funcionando. silencioso. elegante. te lembrando que o tempo é a única coisa que você não pode controlar, então pare de tentar.

ele é o oposto do mundo moderno. ele não se importa com seus passos, com seus batimentos cardíacos ou com quantas calorias você queimou durante a última aula de spinning. ele não liga para o que está acontecendo no seu instagram ou se alguém deu like na sua foto do jantar. ele não quer ser o centro das atenções porque não precisa. e, honestamente, não é assim que todos nós deveríamos ser?

então, sim, o oyster perpetual é boring. e é exatamente por isso que ele é perfeito. porque ele é uma máquina feita para durar, tanto quanto sua arrogância ou o próximo martíni que você vai beber. enquanto o resto do mundo grita, implora por relevância, ele está lá, marcando o tempo, sem pressa, sem pedir desculpas. e, de alguma forma, isso faz dele a coisa mais moderna que você poderia usar.

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2024

44

fazer 44 anos é como descobrir uma receita secreta depois de anos seguindo instruções meia-boca. não é que você tenha dominado tudo – longe disso – mas, de repente, os ingredientes começam a fazer sentido. os erros passados, as escolhas duvidosas, até as mancadas monumentais: tudo vira tempero. a vida deixa de ser um prato gourmet pretensioso e se torna uma refeição honesta, com sabor forte e aquele toque de pimenta que faz arder, mas você aprecia mesmo assim. aos 44, eu finalmente sei o que gosto e, mais importante, o que não suporto – e isso, meu amigo, é uma conquista subestimada.

é engraçado, porque aos 20, a ideia de envelhecer parecia uma tragédia grega. mas a real? aos 44, eu me sinto mais vivo do que nunca. as inseguranças juvenis? larguei no meio do caminho, como uma mala pesada que nunca deveria ter levado. a necessidade de agradar todo mundo? morreu junto com o cabelo que perdi. agora, a questão é simples: isso me alimenta ou me consome? se é a segunda opção, não tem espaço no meu prato.

mas vamos falar sério: os 44 não são só sobre “aceitação” e “crescimento”. isso é conversa mole pra vender livro de autoajuda. a verdade é que você aprende a ser mais seletivo com sua energia. porque energia, aos 44, é como uma garrafa de vinho realmente boa – limitada e preciosa. gasto o que tenho com o que importa, e o resto que se dane. e sabe o que importa? as pequenas epifanias do dia a dia: um café bem feito, um livro que te arranca da realidade, uma risada que explode sem pedir licença.

o corpo, claro, começa a enviar sinais sutis de que não é mais aquele foguete supersônico. mas sabe de uma coisa? não tem problema. aos 44, eu percebi que velocidade não é tudo. resistência, sim, é o jogo. e não falo só de resistência física – falo da capacidade de continuar, de recomeçar, de olhar para o caos e dizer: “tudo bem, eu sei lidar com isso.” cada cicatriz, cada dorzinha chata é uma medalha de guerra. não estou só sobrevivendo, estou colecionando histórias.

e a cabeça? ah, essa está mais afiada do que nunca. aos 44, percebi que a vida não é sobre seguir regras ou atingir metas pré-definidas. é sobre aproveitar o caos e, se possível, rir dele. é sobre parar de esperar pelo momento perfeito e começar a criar momentos incríveis no meio da bagunça.

então, fazer 44 anos não é uma crise. é um brinde. um brinde à liberdade de ser quem eu sou sem pedir desculpas. um brinde ao fato de que ainda há tanto para aprender, mas também muito do que me orgulhar. e, acima de tudo, um brinde à vida – imperfeita, desorganizada, deliciosa. porque, no final das contas, ela é exatamente o que você coloca no prato. e eu? vou repetir a dose.

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2024

você leu minha mensagem?

o fetiche moderno pela instantaneidade. essa obsessão patética por respostas imediatas. vivemos numa época em que a pausa, o silêncio e até a reflexão foram transformados em sinais de descaso ou afronta pessoal. porque, claro, como ouso demorar cinco, dez, quinze minutos para responder, quando você, na sua grandiosidade, decidiu me agraciar com uma mensagem? é quase como se eu tivesse cometido um crime de lesa-majestade.

mas vamos ser honestos: essa pressa, essa mania de “visualizou e não respondeu”, é a personificação de uma sociedade mimada. ninguém quer entender que o mundo não gira em torno de suas urgências. e aqui vai uma novidade para você: meu tempo não é um drive-thru de fast food emocional, onde você faz um pedido e espera que eu entregue a resposta na velocidade de uma batata frita murcha. eu gosto de pensar, refletir, até ponderar se a sua mensagem sequer merece minha atenção. e, sim, às vezes eu decido que ela não merece. que horror, não?

vivemos numa realidade onde a profundidade está morta. as pessoas não querem uma resposta bem pensada, articulada, ou – deus me livre – interessante. elas querem um “sim”, um “não”, um “kkk”, qualquer coisa para sustentar a ilusão de que são importantes o suficiente para merecer prioridade na sua vida. mas aqui vai o choque: eu não funciono assim. eu não sou um algoritmo, e meu cérebro não opera no ritmo do wi-fi. se você acha que precisa de uma resposta minha em tempo real, talvez o problema não seja minha demora, mas a sua incapacidade de lidar com o próprio tédio. já pensou nisso?

e vou além: responder rápido é supervalorizado. sabe o que vale mesmo? responder direito. mas para isso, eu preciso de algo que está em extinção: tempo. tempo para processar, para pensar, para decidir se eu realmente quero investir energia em você ou no que você está perguntando. porque, no final das contas, responder rápido é fácil, qualquer um faz. o que é raro – e, vamos ser sinceros, muito mais valioso – é responder com conteúdo. e isso, meu caro, exige paciência. algo que, pelo visto, você não tem.

então, a próxima vez que eu “demorar” para responder, aproveite o momento para refletir sobre a sua dependência desesperada por atenção imediata. talvez você aprenda algo. ou, quem sabe, descubra que o silêncio pode ser bem mais interessante do que qualquer mensagem que eu poderia mandar.

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2024

pessoas empolgadas com trabalho,  sério?

o fascinante espetáculo dos entusiastas do trabalho. você sabe do que estou falando: aquele ser humano iluminado que trata o ambiente corporativo como se fosse o palco principal da broadway. o tipo de pessoa que acorda às 5h da manhã para correr uma maratona metafórica enquanto recita frases de motivação do tipo “você é o dono do seu destino” no espelho do banheiro. essas criaturas, radiantes de energia e positividade, exalam um entusiasmo que não só cansa, mas sufoca a alma de quem está apenas tentando sobreviver ao dia.

o problema dessas pessoas não é que sejam felizes no trabalho (o que já seria motivo suficiente para suspeitas). é a forma como querem espalhar essa empolgação tóxica como um vírus. elas não conseguem simplesmente amar o trabalho em silêncio; precisam fazer você amar também. é o tipo de gente que transforma a reunião da manhã em uma espécie de comício motivacional, onde cada deadline é uma “oportunidade de crescimento” e cada planilha do excel é uma obra de arte em potencial.

e vamos combinar: não é só exaustivo, é desonesto. porque ninguém — ninguém — pode ser genuinamente tão apaixonado por bater ponto, preencher relatórios e lidar com clientes passivo-agressivos. se você está transbordando de alegria às 18h de uma terça-feira, com certeza está mascarando alguma crise existencial profunda. talvez seja uma tentativa desesperada de se convencer de que todo esse esforço vale a pena, que o sistema não te engoliu completamente. ou, pior, talvez você realmente acredite nesse teatro.

e o mais insuportável? eles esperam reciprocidade. não basta você fazer seu trabalho. você precisa fazer com entusiasmo, sorrindo, como se cada tarefa fosse um presente divino. se você não está com a mesma energia delirante, você é “negativo”, “resistente à mudança” ou, minha favorita, “falta espírito de equipe”. espírito de equipe? sério? meu espírito está ocupado tentando não se atirar pela janela enquanto você faz um monólogo sobre “alavancar sinergias”.

essas pessoas cansam porque são como quem mastiga de boca aberta: não dá para ignorar. elas monopolizam o oxigênio do ambiente com sua energia hiperativa, deixando pouco espaço para qualquer outra emoção. se você está apenas tentando navegar o caos diário, sem medalhas de ouro de “melhor funcionário do mês” no horizonte, elas te fazem sentir como o chato da turma. mas aqui está o segredo: você não é o problema. elas são.

porque a verdade é que trabalhar deveria ser um meio para viver, não o propósito da vida. e essas pessoas que tratam o trabalho como religião estão perdendo a melhor parte da existência: o prazer de desligar, de desacelerar, de não dar a mínima para uma meta corporativa. então, da próxima vez que aquele colega hiperativo aparecer com um sorriso brilhante às 8h e um discurso sobre “fazer a diferença”, lembre-se: quem está realmente vivendo a vida é você, com seu café frio e seu olhar de “só me deixem em paz até a hora do almoço”.

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2024

o cliente quase nunca tem razão

ah, o mantra do século 20: “o cliente tem sempre razão.” a pedra fundamental de toda uma geração de consumidores criados para acreditar que pagar por algo lhes confere não apenas direitos, mas uma espécie de imunidade divina. é a justificativa perfeita para transformar qualquer experiência de serviço em um espetáculo de tirania barata, estrelando o “cliente” – aquele pequeno déspota mal-informado, inchado de autoimportância e completamente sem noção do que está fazendo ou pedindo. porque, vamos ser honestos, o cliente quase nunca tem razão. ele só tem dinheiro. e, na maioria das vezes, nem isso direito.

essa filosofia maldita é o câncer silencioso do capitalismo de conveniência. foi ela que nos trouxe o cara que grita com a atendente do call center porque sua internet caiu, como se ela tivesse puxado o cabo de propósito para estragar o seu sábado. ou aquele que entra em uma loja de departamentos e transforma o vendedor em psicólogo, babá e saco de pancadas emocional porque “o atendimento deveria ser impecável” – enquanto ele mesmo não consegue nem dizer bom dia ou, sei lá, não ser um idiota completo. e quem nunca viu o clássico espetáculo do aeroporto, onde o cliente que perdeu o voo decide que é direito divino dele humilhar a atendente do balcão, porque, claro, ela controla o tráfego aéreo mundial diretamente de sua mesa de trabalho?

mas o mais insidioso dessa ideia de que o cliente tem sempre razão não é apenas o comportamento grotesco que ela incentiva. é o fato de que ela mina completamente qualquer possibilidade de diálogo real, de troca, de crescimento. porque, se o cliente está sempre certo, então ninguém mais pode estar. o especialista na área? não tem razão. o atendente que já viu essa situação mil vezes? não tem razão. o engenheiro que projetou o produto? também não. quem é que tem razão? o cliente, aquele especialista autoproclamado que leu meia dúzia de comentários na internet e acha que agora sabe mais do que qualquer profissional com anos de experiência.

e isso não para em lojas, empresas ou serviços. o vírus se espalhou para todos os aspectos da vida. professores que têm que aturar pais dizendo que o filhinho deles não precisa estudar matemática, porque “ele não gosta”. médicos que precisam ouvir palestras de pacientes que diagnosticaram a si mesmos no google e exigem tratamentos absurdos. designers gráficos que são obrigados a criar logos medonhos porque “o cliente quer que a fonte pareça mais… divertida.” (tradução: horrível.) é uma guerra constante entre quem sabe o que está fazendo e quem acha que sabe porque tem um cartão de crédito e uma opinião.

e por que isso acontece? porque vivemos em uma cultura que venera o consumo acima de tudo. o cliente é tratado como uma espécie de entidade sagrada, inquestionável, porque ele paga. e pagar é tudo que importa, certo? exceto que não é. pagar não te dá razão, assim como gritar com alguém não te faz mais inteligente. pagar te dá o direito de receber o produto ou serviço que foi prometido. ponto. não te dá o direito de ser um cretino, de ignorar a realidade ou de transformar o trabalho dos outros em um inferno.

então, aqui vai uma ideia revolucionária: e se o cliente não tivesse sempre razão? e se ele fosse apenas um humano como qualquer outro, capaz de cometer erros, de ser corrigido, de aprender? e se, em vez de reforçar essa ilusão de infalibilidade, começássemos a tratá-lo como alguém que, ocasionalmente, precisa ouvir um “não”? “não, senhor, seu filho precisa sim aprender matemática.” “não, esse logo vai ficar horrível.” “não, gritar com o atendente não vai trazer seu voo de volta.” talvez seja hora de perceber que o cliente não é deus. na maioria das vezes, ele é só um cara que precisa de um pouco mais de humildade – e, quem sabe, de um tapa metafórico de realidade.