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2024

culturas

outras culturas… um prato cheio de temperos, temperamentos, modos de ver e viver o mundo que a gente acha que entende, mas na verdade só arranha a superfície. porque a verdade é: a gente adora o “exótico” desde que seja confortável, acessível, moldável. aquele nosso vício ocidental de enfiar tudo em caixinhas, rotular como “autêntico,” e consumir da forma mais conveniente, mas sempre do lado de cá, sem cruzar as barreiras reais. afinal, ninguém quer encarar o fedor de verdade, o calor que sufoca, o idioma que te humilha. a gente quer é uma versão filtrada da coisa, limpinha e formatada pra ser devorada em meia hora e virar foto no instagram.

toda cultura tem camadas. o problema é que nossa obsessão por rotulá-las geralmente ignora as camadas mais fundas, aquelas que realmente moldam as pessoas. a gente gosta de explorar o que é bonito e cativante, mas o que é incômodo? o que desafia nossas verdades e nossa moralidade? passa reto, obrigado. nosso olhar é faminto e seletivo, busca a beleza em pratos bonitos e roupas coloridas, mas não aguenta o cheiro forte das ruas ou a bagunça dos mercados que realmente fazem uma cultura vibrar. nada mais cínico do que nossa versão da “experiência cultural” que cabe numa viagem de sete dias. somos turistas sentimentais, aficionados pela beleza da pobreza — mas desde que ela seja pitoresca.

é como aquele prato de rua, o melhor da cidade, que a gente quer provar… mas que seja higienizado, por favor. “exótico” é só até o ponto que nos agrada. nos dá uma sensação de aventura, mas sem risco. queremos a cultura autêntica, mas sem os riscos de ter o estômago virado do avesso ou de ter que negociar em um idioma que não entendemos. ninguém quer aprender a esperar uma comida demorada, entender os códigos locais, observar as entrelinhas. não queremos ver as sombras, as contradições, o lado que faz parte tanto quanto a beleza. queremos a fantasia, o cenário, a versão de capa de revista da cultura alheia.

o interessante é que em todas as culturas existe algo que confronta nosso modo de vida, nos provoca a reavaliar quem somos, nos faz questionar porque vivemos dessa forma. mas isso é uma ameaça para nossa zona de conforto e, convenhamos, ninguém gosta de ser tirado da zona de conforto. então a gente trata de domesticar a experiência, transforma o choque cultural numa versão fast food de “choque cultural”, num souvenir que levamos pra casa e esquecemos na prateleira.

culturas são complexas, e talvez o maior erro seja nosso eterno esforço para simplificá-las.

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2024

viajar de avião

o avião, esse tubo de metal pressurizado e hermético, flutuando a 35 mil pés no céu, é basicamente um teatro dos absurdos. você paga caro — muitas vezes o equivalente a um jantar luxuoso numa capital gastronômica — para se enfiar num espaço claustrofóbico com fileiras apertadas de poltronas e respirar um ar reciclado que provavelmente é mais velho que as piadas do seu tio no natal. é uma experiência em que você é exposto a todo o tipo de insanidade humana possível e, como numa novela mexicana de baixo orçamento, está ali preso, sem chance de mudar o canal.

primeiro, o check-in, essa maratona ridícula de estresse. o objetivo do processo? desumanizar você, transformar um ser humano com dignidade em um peso de bagagem a ser etiquetado, catalogado e empurrado por uma série de filas e escâneres. e, claro, há o sempre desconfortável jogo de equilíbrio entre os itens da mala de mão e o limite de peso da bagagem despachada, como se o seu desodorante de 50 ml fosse uma ameaça séria para a segurança aérea global. a fila de segurança é um show à parte, onde você tira sapatos, cinto, esvazia bolsos, se despede da dignidade e reza para que o detector de metais não vá acusá-lo de contrabandear uma colher de aço ou um carregador de celular.

e então você embarca e descobre que vai passar as próximas horas esmagado ao lado de estranhos que, por algum motivo inexplicável, parecem ter esquecido todos os códigos mínimos de convivência social. aquele cheiro acre da comida pré-embalada já toma o ar, uma mistura de algo que um dia foi uma refeição e uma imitação de sabor que você jura já ter sentido no refeitório da escola. e claro, ao lado, o cidadão médio que resolve tirar o sapato e exibir aquela meia furada que viu dias melhores, tudo para aumentar a sua miséria e lembrar que o conceito de espaço pessoal é um sonho impossível a bordo de um avião.

se você teve a má sorte de pegar um assento no meio, bem-vindo ao inferno particular. espremido entre dois desconhecidos, você tenta encolher os ombros, puxa os cotovelos e torce para não precisar daquele mísero apoio de braço que ambos os vizinhos resolveram ocupar sem cerimônia. tem o cara que se recusa a fechar o laptop, mesmo depois que a decolagem começa, como se estivesse administrando a economia global. e tem a criança que não para de chutar a sua cadeira, e o pai que acha tudo muito engraçado, como se esse inferno em altitude fosse uma sessão privada de entretenimento.

a comida de avião. ah, a comida. um tributo ao desperdício culinário. você tem sorte se ela chega quente, e mais sorte ainda se você consegue distinguir o que está comendo. frango? massa? alguma massa gelatinosa com molho indefinido que provavelmente foi desenvolvida em laboratório para durar semanas. e o café? digamos que ele faz a máquina do escritório parecer uma cafeteria italiana. é uma infusão de algo marrom e quente que deixa aquele retrogosto metálico de derrota.

e, claro, o banheiro. um armário diminuto onde você mal consegue virar o corpo e tem que encarar o horror de usar uma pia onde a água sai a conta-gotas. enquanto você tenta se equilibrar, o avião balança, e você sente a leve paranoia de tocar nas paredes, tentando não pensar em quantas mil pessoas passaram ali antes de você. o som daquele aspirador industrial sugando o conteúdo do vaso é o ponto final de uma experiência existencial que você não pediu para ter.

no fim, após horas nesse purgatório voador, você finalmente sente a descida e o pouso. mas não é o fim, é claro. vem o desembarque, outra prova de paciência enquanto o sujeito na sua frente parece incapaz de coordenar os movimentos para pegar a bagagem de mão. e você ali, com os músculos endurecidos, a sanidade em frangalhos, olhando para o relógio e prometendo que nunca mais vai passar por isso.

mas quem estamos enganando? vamos fazer tudo de novo.

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2024

o que há por trás?

quando vejo uma beleza perfeita, sempre me pergunto o que há por trás. porque perfeição demais é como um soco em câmera lenta: previsível, sem impacto real, e totalmente planejado pra te distrair do que importa. você olha, admira, mas algo no fundo da sua mente grita, esperneia, avisa que aquilo é só uma camada – uma capa de revista, uma cidadezinha turística que só existe em dias ensolarados, mas que desmorona no primeiro sinal de chuva. perfeito demais pra ser verdadeiro, saca? é o tipo de coisa feita pra turista deslumbrado. e turista, a gente sabe, só vê o que quer ver.

pensa em uma praia de areia branca, água cristalina, coqueiros que parecem plantados ali pela disney. uma beleza tão impecável que quase ofende. mas você vira a esquina, sai do campo de visão do resort, e o que encontra? montanhas de plástico, vendedores exaustos, a sujeira varrida pra debaixo do tapete. a beleza controlada ao milímetro, que só se mantém intacta enquanto você olha de longe. só que chega mais perto e vê que aquilo é pura maquiagem. uma beleza que nunca foi pensada pra durar, só pra impressionar o olhar rápido e raso de quem tá ali pra se maravilhar e seguir adiante.

e isso vale pra tudo: lugares, pratos, pessoas, ideologias, até aquela maldita “experiência cultural” vendida em pacotinho de luxo pra gringo experimentar um pouquinho da “realidade”. o que é perfeito demais, polido demais, foi feito pra te enganar. feito pra te manter entretido, satisfeito e, principalmente, longe do caos e da sujeira que realmente alimentam a vida. porque, meu amigo, beleza de verdade é suja, é confusa, é desconfortável. ela não se dobra pra você, não se deixa engaiolar numa vitrine de souvenir. beleza real, aquela que fica contigo, tem manchas, tem rachaduras, tem gosto de suor e cheiro de rua depois da chuva.

perfeição é pra quem não quer confronto, não quer desafio, só uma distração. é pra quem acha que a vida é um feed de instagram, uma sequência de frames sem bagunça, sem erro, sem falha. só que a verdade nunca está ali, na superfície. tá no cheiro de cozinha depois do expediente, no bar sujo onde ninguém faz questão de te agradar, no lugar em que os moradores nem fingem sorrir pro seu dinheiro. quer ver beleza? beleza de verdade? então aceita o caos, a assimetria, o desgaste, as cicatrizes que carregam histórias reais, não só o verniz que esconde o que ninguém quer ver.

essa beleza ensaiada, controlada, embalada em celofane, só serve pra uma coisa: te manter longe do que é vivo, pulsante, brutalmente autêntico. então, sim, quando vejo algo perfeito demais, o que eu sinto não é encantamento – é desconfiança. porque o que é genuíno, o que realmente importa, não vem em embalagem brilhante, não posa pra fotos. e, no fundo, talvez o que a gente teme não é que essa beleza seja falsa. mas que, ao olhar de perto demais, ela revele o quanto a gente mesmo se acostumou a viver no raso.

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2024

uma mochila

viajar com uma mochila só é uma afronta direta à turma das malas louis vuitton. sabe aquele desfile de rodinhas, tags de aeroporto, bagagens combinando como se fossem amuletos de proteção? então. é quase uma religião pra essas pessoas, a liturgia do excesso, do “e se”. “e se eu precisar de uma roupa extra pra jantar?” “e se eu encontrar alguém conhecido?” “e se a temperatura cair dois graus?” enquanto isso, eu? eu estou lá com uma mochila nas costas, sem espaço pra neuroses ou frescuras. leve, direto ao ponto. já na frente, enquanto você está no carrossel, esperando suas três malas de grife com os olhos cheios de desespero.

“como você consegue viajar só com uma mochila?” a resposta é simples: desapego e uma leve dose de desprezo por tudo o que é supérfluo. é enxergar além da ideia de que precisamos carregar o mundo conosco pra realmente estar em algum lugar. é uma prática, quase uma filosofia. você aprende a escolher o que vale a pena. e quase nada vale. a maioria das coisas que você acha que precisa? ilusão. você não precisa de 12 mudas de roupa pra uma viagem de cinco dias. você precisa de uma troca decente, uma escova de dentes, e, se me permite, uma dose de coragem pra abrir mão da falsa segurança que o excesso traz. a mochila é brutal, é crua, e não perdoa nada que seja inútil.

uma mochila te obriga a fazer escolhas com uma honestidade que o resto do mundo foge a vida inteira. cada item ali foi julgado e teve que justificar seu valor. espaço pra um bom livro? claro. um bloco de notas? não tem discussão. agora, aquele terceiro par de sapatos? aquele casaco que combina com o humor? fica. o que você ganha com isso é algo que a maioria das pessoas nunca vai entender: liberdade. liberdade de andar sem arrastar o peso do que você nem precisa. e quer saber? no fim, ninguém vai lembrar de como você estava vestido enquanto se encantava com aquele pôr do sol em bali ou enquanto enfrentava o vento em uma trilha nos andes. o que fica são os momentos e a intensidade de estar presente. e esses não exigem malas caras, etiquetas, ou combinações. eles só exigem que você esteja ali, de verdade.

então, por que eu viajo só com uma mochila? porque eu quero estar sempre pronto, leve, sem âncoras. quando a estrada chama, eu posso simplesmente ir, sem perda de tempo. enquanto o resto se enrosca nas próprias bagagens, eu dou um passo adiante. uma mochila. uma escolha. nada além do essencial. e posso garantir: não sinto falta de absolutamente nada.

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2024

telas pra que te quero?

ah, ser pai em pleno século 21 é uma batalha perdida contra o brilho sedutor das telas, e eu escolhi a linha de frente. eu me recusei a seguir o fluxo covarde do “dá o tablet pra ele ficar quieto” e, em vez disso, decidi pelo caminho menos frequentado – aquele onde você realmente cria uma criança. meu filho, aos quatro anos, não é mais um dos pequenos zumbis digitais que vejo por aí, catatônicos, dedos trêmulos e olhos fixos, como moscas atraídas pelo neon do fast food.

e sim, dá trabalho. é infinitamente mais fácil colocar uma tela nas mãos dele e esperar que aquele brilho hipnotizante faça o serviço. a tentação de pacificar a fera com um vídeo qualquer, uma joguinho bobo, é real. eu poderia simplesmente desistir, me render, sentar num restaurante e largar um tablet pra ele enquanto eu finjo viver um momento de paz. mas aí eu não seria pai – eu seria só mais um desses “entregadores de distração” modernos, terceirizando a paternidade pra um pedaço de plástico e vidro.

não, o que eu faço é o contrário. quando estamos no restaurante, eu invento brincadeiras, puxo conversa, pego qualquer coisa na mesa – uma colher, um guardanapo, uma migalha de pão – e transformo em um mundo novo. sou o animador de circo, o contador de histórias, o showman que mantém a coisa interessante. e sabe o que é o mais insano? ele curte. ele entra na brincadeira. porque, no fundo, tudo o que ele quer é o que um monte de pais hoje não está disposto a dar: atenção de verdade. presença real. ele quer eu.

meus contemporâneos? entregaram a guarda dos filhos pro feed do instagram e pros joguinhos que piscam e fazem barulho. vejo aquelas crianças, em fila, todas lado a lado, mas cada uma presa num universo digital. a cena é de uma distopia barata e triste, mas eles nem piscam. ali estão, consumindo as “pílulas de sossego” digitais que deixam os adultos em paz. e é isso que me tira do sério. esses pais querem filhos ou querem um móvel a mais na casa, uma coisa silenciosa e que não incomode?

e eu digo: meu filho vai crescer lembrando que os pais dele estavam ali. ele vai se lembrar que nós não o destruímos com doses cavalares de entretenimento barato e vazios digitais. porque eu sei que, quando você dá uma tela pra uma criança, você está basicamente dizendo “não tenho tempo pra você”. e essa mensagem, cara, eu não tô disposto a passar.

no final, é claro que cansa. é claro que dá trabalho ser o palhaço, o entertainer, o cara que segura a barra enquanto o resto do mundo tá ocupado mandando emojis e vendo séries novas. mas prefiro esse desgaste do que a visão medíocre de um pai acomodado. eu tô aqui pra isso, pra me quebrar, pra me doar e, eventualmente, pra mostrar a ele que o mundo real ainda tem texturas, cheiros e sabores que nenhuma tela consegue simular.

e no fundo? é a melhor coisa que eu já fiz.

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2024

matrix

quer saber o código para viver fora da matrix? aquela receita que todo mundo conhece, mas ninguém tem coragem de seguir? está na ponta da língua, mas poucos têm o estômago pra realmente encarar. a verdade é que você só encontra a saída quando aprende a cortar o ruído, a ignorar a falsa urgência e, principalmente, a escolher de verdade como gastar seu tempo. viver bem não tem nada a ver com encher a agenda ou estar sempre disponível. viver bem é sobre dizer “não” ao que suga sua energia e “sim” ao que faz sentido. e quase nunca é a mesma coisa.

começa pelos e-mails. ah, os e-mails. um oceano de solicitações, calendários, reuniões que poderiam ser resolvidas em uma mensagem rápida. então aprendi a grande arte de excluir. sem cerimônia, sem drama. deletar e-mails não é grosseria, meu amigo, é estratégia de sobrevivência. o que realmente importa vai encontrar uma maneira de chegar até mim. o resto? ruído, peso morto. e no whatsapp? faço a mesma coisa. arquivo mensagens sem abrir, como quem varre as sobras da mesa. aquele áudio de cinco minutos que chega sem aviso? ouço só se tiver a garantia de uma história sensacional. senão, deixo lá. o mundo continua girando, e minha paz de espírito segue intacta. não é uma questão de grosseria; é saber que minha atenção é um recurso precioso, e eu não vou gastá-lo com qualquer coisa.

quanto ao correio de voz… bom, nem perco meu tempo. pensa comigo: estamos em 2024, e ainda tem gente tentando te convencer de que você precisa de correio de voz? se é urgente, existe mensagem, existe ligação direta. correio de voz, pra mim, é como aqueles panfletos de pizzaria que entopem a caixa de correio – ninguém quer, ninguém pediu, mas lá estão, insistindo. então, decidi: correio de voz, não. quem precisa falar comigo de verdade já sabe onde me encontrar. e adivinha? o mundo continua girando. minha sanidade agradece.

viajar só a trabalho? é como ir a um restaurante e pedir o prato mais sem graça do cardápio. o sujeito atravessa o planeta, mas só vê o aeroporto, a sala de conferências e, com sorte, o bar do hotel. isso é viver? pra mim, não. se eu vou cruzar o oceano, vou querer muito mais do que uma apresentação formal e uma noite sem sal com desconhecidos. vou querer o inesperado, a chance de me perder pelas ruas, de achar um boteco onde ninguém se importa quem eu sou, de comer algo que eu nunca mais vou encontrar. isso, para mim, é o verdadeiro motivo de se viajar. e se não há tempo para isso, então para que gastar passagem? prefiro ficar em casa, de boa.

e conferências? ah, as conferências. o altar da produtividade vazia. aquele lugar onde as pessoas fingem escutar atentamente, enquanto se preocupam em parecer ocupadas, como se tivessem decifrado algum grande mistério do universo. só me encontram em uma dessas se eu estiver no palco, e ainda assim, só se eu tiver algo que valha o tempo de quem escuta. fora isso, não gasto um segundo naquele teatro mal ensaiado.

e é por isso que hoje eu me recuso a abrir mão do tempo que realmente importa. recuso. faço questão dos jantares com minha família, de horas em volta de uma mesa cheia de pratos e histórias, onde a conversa vai longe e ninguém olha para o relógio. e sim, dessas conversas que vão e voltam, dos risos que preenchem cada espaço, até ninguém saber mais onde uma história termina e outra começa. esses momentos são como o descanso entre pratos de uma refeição de verdade – são a pausa, o sabor, o que dá sentido ao restante.

me recuso a viver só de agendas lotadas, de tarefas marcadas com hora exata. porque no final, a vida já é apressada demais. o que realmente vale são os momentos que você escolhe viver e, principalmente, as pessoas com quem você escolhe estar. o resto? ah, o resto é ruído.

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2024

pessoas certinhas

ah, as pessoas certinhas. aqueles que respiram obediência, acordam ao som de um alarme calculado e, claro, tomam seu café com uma quantidade exata de açúcar. esses seres que veem a vida como uma lista de afazeres e tratam as regras como mandamentos divinos. o mundo deles é um cubículo de previsibilidade, sem espaço para a bagunça gloriosa que realmente faz a vida valer a pena.

são os tipos que nunca vão experimentar o gosto sublime de uma madrugada errante, porque precisam dormir oito horas para manter a produtividade. nunca vão se perder numa cidade estranha ou deixar um vinho barato virar uma conversa épica, porque tudo, absolutamente tudo, precisa estar sob controle. se você soltar um “f***-se” por aí, eles já arregalam os olhos, cheios de pavor, como se a própria existência estivesse ameaçada.

e eles acham que esse modelo engessado é sinônimo de superioridade. olha só, “eu pago meus impostos na data certa”, “minha mesa está organizada”, “não tomo café depois das seis”. parabéns, você conseguiu ser a pessoa mais desinteressante da festa. porque, veja bem, viver sem risco, sem surpresa, é como viajar e se trancar no hotel. é acordar todo dia para uma rotina escrita por um robô e achar que isso te torna mais respeitável. na verdade, isso só torna sua vida um monumento à mesmice.

talvez seja isso que nos irrita tanto nos certinhos. eles nos lembram do quão fácil é fugir da vida, se esconder atrás de cronogramas, evitar qualquer tipo de turbulência. enquanto eles se preocupam em alinhar os móveis e os horários, o resto de nós está se debatendo, tropeçando, cometendo erros épicos, mas, pelo menos, estamos vivendo alguma coisa real. e, no final, são as histórias sujas, os erros e os momentos improvisados que fazem a vida. tudo que esses seres “certinhos” se recusam a abraçar.

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2024

manifesto aos profissionais de marketing

nós, os profissionais de marketing, somos os arquitetos do desejo moderno. estamos sempre prontos para construir um mundo de aparências, um universo onde cada produto, cada serviço, cada ideia é uma promessa embalada para presente. somos os especialistas em transformar o comum no essencial, em te fazer sentir que está a uma compra de distância da felicidade, do status, da autoconfiança, da vida dos seus sonhos. é um teatro cuidadosamente planejado, onde você acredita que precisa daquilo que nunca sequer imaginou querer.

é nossa arte, nossa ciência, nossa religião. dia após dia, empurramos campanhas que fazem você pensar que aquela jaqueta, aquele novo celular, aquele café orgânico “especial” vão finalmente te trazer aquele algo mais. fazemos isso porque sabemos exatamente como sua cabeça funciona, sabemos como cutucar aquela insegurança escondida, aquela necessidade de pertencimento, aquela carência por algo que nem você sabe definir. e no fundo, sabemos que é uma mentira. sabemos que a felicidade que vendemos é tão fugaz quanto o próximo lançamento.

mas e agora? agora, estamos começando a sentir o desgaste. podemos ver que o consumidor, esse pobre coitado que já encheu a casa, o armário, a garagem de tralha, está exausto. cansado de promessas vazias, saturado de campanhas “disruptivas” que são só mais do mesmo. e o que fazemos? dobramos a aposta. tentamos gritar ainda mais alto. lançamos mais uma “experiência transformadora”, um produto “revolucionário”, como se ninguém tivesse percebido o truque. e a ironia é que, enquanto continuamos a reciclar esse teatro, as pessoas do outro lado estão começando a entender que a piada é sempre a mesma – e que o alvo, no fim das contas, são elas.

de vez em quando, aparece uma marca que resolve desafiar esse circo – como a Patagonia, que ousou dizer: “não compre esta jaqueta.” uma empresa de roupas dizendo ao consumidor que ele não precisa de mais roupas. é de cair o queixo, porque eles entenderam algo que a maioria de nós finge ignorar: talvez o verdadeiro luxo, o verdadeiro marketing de impacto, seja vender a ideia de não consumir. mostrar que a coisa mais poderosa que você pode ter hoje é o poder de dizer “não, obrigado. eu já tenho o suficiente”. a Patagonia não só falou, como fez. eles ofereceram reparos gratuitos, incentivaram o reuso, convidaram o consumidor a parar de comprar compulsivamente. não era um truque barato de sustentabilidade; era uma afronta real ao modelo de negócios que mantém a maioria de nós confortáveis e bem pagos.

e aí vem a questão: quantas empresas seguiram esse caminho? quantos de nós realmente tiveram a coragem de olhar pra nossa própria indústria e questionar tudo? quase ninguém. porque é muito mais fácil pegar a palavra “consciente” e usá-la como mais um acessório, mais uma isca pra fisgar o consumidor que já está tentando fugir desse ciclo. “compra sustentável”, “consumo responsável” – transformamos essas palavras em mais um verniz de virtude que não nos obriga a mudar nada de verdade.

a verdade é que a maioria de nós não tem coragem de arriscar, de subverter o jogo, de admitir que talvez o melhor marketing que poderíamos fazer fosse ensinar o mundo a viver com menos. vender o que ninguém vende: o direito de não precisar de nada. mas isso, claro, é o tipo de coisa que ameaça tudo o que conhecemos. no final das contas, seguimos empurrando o vazio, porque é o vazio que alimenta a máquina.

então, estamos aqui, repetindo o mesmo ciclo, vendendo o mesmo sonho em novas embalagens, torcendo para que ninguém perceba que o que estamos oferecendo nunca foi real. mas talvez, no fundo, a única coisa realmente revolucionária que poderíamos fazer seria olhar no espelho e aceitar a verdade: a paz, a liberdade, a autenticidade que vendemos nunca esteve à venda. e talvez nunca esteja.

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2024

esg

sustentabilidade no mundo corporativo é como aquele reality show gourmet onde os participantes fingem ser grandes chefs, mas a gente sabe que é tudo de micro-ondas. empresas adoram encher a boca com palavras bonitas como “sustentabilidade,” “responsabilidade ambiental,” e “governança,” mas a verdade? é tudo casca. é como uma calda de chocolate sobre uma fatia de isopor.

imagine só: corporações gigantes que gastam rios de dinheiro em relatórios de esg, relatórios cheios de termos técnicos, gráficos coloridos, metas ambiciosas pra 2050. dá uma olhada neles – cada número ali é pensado pra impressionar, pra acalmar o investidor e fazer o consumidor se sentir um pouco menos cúmplice. mas, enquanto falam de futuro, continuam a fazer o que sempre fizeram. continuar explorando recursos naturais, continuar usando o trabalho precário, continuar empurrando produtos descartáveis como se fossem essenciais.

a lógica é simples: enquanto a maioria das pessoas compra a fantasia, eles vendem o espetáculo. acham que um post bonitinho sobre o dia do meio ambiente compensa décadas de poluição. acham que doando uma quantia irrisória pra uma ong ambiental vão apagar toda a sujeira que deixam pelo caminho. sustentabilidade pra eles é só mais uma linha no orçamento de marketing.

no final das contas, a real é essa: a palavra sustentabilidade, nas mãos das grandes corporações, é só mais uma ferramenta pra transformar preocupação genuína em lucro. é a velha história – eles têm o mundo como playground e o chamam de “negócio.” e vão continuar assim até o último pedaço de floresta, o último litro de água limpa, o último suspiro de um planeta exausto.

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2024

livros

alguns livros não entram na vida da gente como simples palavras. eles chegam como ideias que tomam corpo, que vão moldando o jeito de ver o mundo, mesmo que você não esteja pronto. esses aqui, dos pesos-pesados da filosofia e literatura antiga, fazem exatamente isso. aristóteles, sócrates, maquiavel – esses caras te arrastam para uma reflexão nua e crua sobre a vida, o poder, a moralidade. você começa pensando que vai ler um “clássico”, e termina encarando suas próprias crenças com aquela desconfiança que só os grandes livros conseguem despertar.

1. “ética a nicômaco” – aristóteles
aristóteles não estava interessado em metáforas ou figuras de estilo. ele queria entender o que faz uma vida valer a pena. ética a nicômaco mexeu comigo porque não te dá um manual, mas uma pergunta: o que é a areté, a excelência? ele descreve a virtude como um equilíbrio entre extremos – coragem, por exemplo, está entre a covardia e a imprudência. cada capítulo é como um espelho, uma chamada para você refletir se está buscando uma vida digna ou apenas “vivendo”. ele coloca na mesa o conceito de felicidade não como prazer, mas como uma vida bem vivida, pautada por propósito. é uma leitura que te faz questionar tudo, principalmente o que você anda fazendo com seu tempo e se está perseguindo algo realmente significativo.

2. “a república” – platão
platão desenhou aqui não só uma ideia de justiça, mas o que seria a sociedade perfeita. você lê a república e, em vez de sair com respostas, sai com uma sensação de que a verdade é muito mais difícil de alcançar do que parece. o mito da caverna é uma das partes que mais ficou comigo, aquela ideia de que a maioria de nós vive preso em uma realidade de sombras, acreditando que aquilo é o mundo. é perturbador, porque te obriga a se perguntar o que mais você não está enxergando. e mais: ele nos apresenta sócrates, aquele pensador incansável que questiona até a própria existência. a república me fez perceber que a busca pela verdade é um caminho solitário e perigoso, mas ao mesmo tempo, é a única coisa que nos mantém realmente vivos.

3. “meditações” – marco aurélio
marco aurélio não era só um filósofo; ele era um imperador que entendia que o poder absoluto não vale nada sem controle sobre a própria mente. meditações é um livro íntimo, quase como um diário de reflexões sobre a finitude, a aceitação do destino, e o que realmente importa. ele escreve sobre a necessidade de manter a calma diante das dificuldades, de aceitar as coisas que não podemos controlar. quando li, foi como uma lição de humildade – um lembrete de que até o mais poderoso dos homens é só mais uma peça num tabuleiro. marco aurélio ensina que a verdadeira força vem do autocontrole e da aceitação da nossa fragilidade.

4. “o príncipe” – nicolau maquiavel
maquiavel é frequentemente mal compreendido, mas se você lê o príncipe com atenção, percebe que ele não está defendendo a crueldade gratuita. ele está expondo o poder como ele é – nu e cru, sem moralismos. maquiavel foi o primeiro a admitir que, às vezes, fazer o que é certo para o bem comum exige sacrifícios que nem sempre são bonitos. o príncipe mexeu comigo porque coloca o leitor diante da verdade impiedosa de que o poder não é para os fracos. ele te faz pensar até que ponto você estaria disposto a ir para proteger aquilo que acredita. depois de ler maquiavel, você sai com uma visão mais cínica, mas também mais realista sobre como o mundo funciona.

5. “confissões” – santo agostinho
em confissões, agostinho escreve sobre suas próprias falhas, seu ego, suas dúvidas, e a busca desesperada por redenção. ele fala de desejo, de luxúria, de orgulho – coisas que qualquer um de nós conhece. ao ler, senti como se estivesse observando alguém despir a própria alma, admitindo fraquezas que a maioria prefere esconder. a honestidade de agostinho é brutal e, ao mesmo tempo, profundamente humana. ele nos lembra que somos criaturas em conflito constante com nós mesmos e que, muitas vezes, a paz é o maior desafio. confissões é um livro que faz você olhar para dentro e admitir os próprios demônios, na esperança de encontrar alguma paz.

esses livros mudaram minha vida, mas não do jeito que você imagina. eles não me deram paz, nem felicidade, nem certezas. o que eles fizeram foi mais profundo, mais incômodo: me ensinaram a olhar o mundo e a mim mesmo com uma honestidade brutal, a aceitar que a vida é feita de caos e de escolhas impossíveis. e depois de passar por essas páginas, você nunca mais volta a ser o mesmo. porque esses livros não são consolo – são um chamado para acordar, para enxergar tudo o que é belo e podre na mesma medida, e para seguir em frente, mesmo que o caminho seja escuro e sem garantias.

eles me fizeram enxergar que toda a ideia de controle que a gente se agarra é ilusão, que o poder é sempre mais sombrio do que parece e que a busca pela verdade é um caminho solitário, sem atalhos, sem mapas.