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2025

idiotas precisam saber que são idiotas

há um momento sagrado na vida de todo ser humano que carrega um mínimo de dignidade e um pingo de bom senso, o instante em que ele olha pro lado, vê aquele amigo chato pra cacete mastigando a própria voz num monólogo sem fim sobre uma viagem pro chile ou sobre como o café que ele toma “é de pequenos produtores da etiópia”… e decide, com todas as forças de sua alma cansada, que chegou a hora de acabar com a palhaçada. porque, sejamos honestos, se a gente não disser que ele é insuportável, quem vai? deus? o algoritmo do instagram? o motorista do uber que só quer que ele cale a boca?

convivemos com essas criaturas como se fossem obras de arte modernas, ninguém entende direito por que estão ali, mas todo mundo finge que é bonito, profundo, necessário. fingimos que está tudo bem quando eles mandam áudios de sete minutos pra contar que sonharam com um palhaço, ou quando eles explicam, com um entusiasmo quase criminoso, por que o jejum intermitente “mudou suas vidas”. nós escutamos. nós sorrimos. nós viramos a porra de um público cativo de um stand-up ruim, sendo torturados lentamente em suaves prestações emocionais.

mas existe um problema maior aqui, e ele não é o amigo insuportável. o problema é a gente. a gente que escolhe a covardia elegante do silêncio em vez da honestidade libertadora de um “mano, ninguém se importa”. porque sim, meu caro, a verdade é que o mundo precisa menos de diplomatas sociais e mais de francos atiradores de verdades desconfortáveis. a amizade, de verdade, deveria vir com uma cláusula de sinceridade brutal, se você começa a colecionar suculentas e a postar frases motivacionais com pôr do sol, eu tenho o direito… não, o dever de te chamar de ridículo. e você, se for amigo de verdade, agradece. ou pelo menos se cala.

não é crueldade. é caridade. é amor em sua forma mais pura… aquele que encara o outro como um ser passível de melhora. deixar um amigo seguir sendo um chato é permitir que ele continue sendo ignorado nos jantares, bloqueado em grupos de whatsapp, esquecido nas festas como um móvel fora de lugar. é condená-lo à irrelevância social por pura preguiça de dar um toque. e tudo isso por quê? porque você tem medo de ferir o ego frágil de alguém que já destruiu sua paciência há anos com discursos sobre chakras ou sobre como “o capitalismo está doente” enquanto posta vídeos de unboxing de iphone.

há uma nobreza quase extinta na arte de dizer… “você está sendo um babaca”. é uma habilidade rara. preciosa. como encontrar um bar decente em aeroporto. e mais do que isso, é um gesto de humanidade. porque só quem se importa de verdade encara o trabalho sujo de olhar no fundo dos olhos de alguém e dizer… “todo mundo te acha insuportável, mas eu fui o único com coragem de te contar.”

então talvez seja hora de fazer a limpa. de convocar uma assembleia informal, uma intervenção emocional com cachaça e verdades. de reunir esse grupo seleto de chatos de estimação e dizer, com toda a ternura possível, “meu querido, ninguém se importa com a tua dieta, com tua última sessão de reiki, com teu cachorro chamado vinícius de moraes. você é o tipo de pessoa que transforma até silêncio em barulho. e isso, infelizmente, é um talento inútil.”

a verdade, meu caro, é que o mundo já está cheio demais de gente educada demais pra dizer o óbvio. e enquanto isso, seguimos todos presos num reality show social onde os chatos são sempre os protagonistas e os lúcidos são só plateia. mas não precisa ser assim. não mesmo. a gente pode reescrever o roteiro, virar a mesa, cortar o microfone. e tudo começa com a simples, gloriosa, libertadora arte de olhar um amigo nos olhos e dizer, com todo o carinho do mundo…

“tu é insuportável, porra. e alguém precisava te avisar.”

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2025

música alta

eu juro por deus… música baixa é um atestado de declínio. não é escolha estética, é diagnóstico. quando o volume despenca, alguma parte de você começou a se entregar antes mesmo de perceber. música baixa é um tipo de desistência silenciosa, igual aquele minuto em que a luz da geladeira ilumina sua cara e você percebe que só tem uma penela de feijão gelado de três dias atrás. volume moderado é para consultórios, repartições públicas e pessoas que desistiram da própria pulsação. não é para seres humanos tentando sobreviver à crueldade cotidiana com um mínimo de dignidade emocional.

a má sorte adora esse terreno. ela não se apresenta em guitarras distorcidas e tambores tribais… prefere chegar disfarçada, caminhando nas pontas dos pés, ocupando o silêncio como se fosse dona dele. música baixa dá porteira aberta pra ela passear. você vira um condomínio sem porteiro espiritual. e aí você acorda um dia achando que tudo deu errado de repente, quando na verdade começou quando você deu play naquele som matador… em volume de elevador. esse é o tipo de erro que não vence na loteria da existência.

e algumas músicas simplesmente se recusam a funcionar nesse ambiente sedado. tentar ouvir “killing in the name” em volume baixo é como assistir a um incêndio por transmissão de rádio. “back in black” precisa entrar pela costela, não pelo canal auditivo. “smells like teen spirit” em volume dócil é uma blasfêmia que deveria render multa. não existe versão civilizada de “idioteque”. “gimme shelter” é um protesto contra qualquer tentativa de moderação. “wolf like me” foi feita pra reorganizar moléculas. “seven nation army” em volume tímido é derrota ideológica. e “la femme d’argent” dos air, quando tocada baixo, vira música de sala de massagem… quando tocada alto, vira arquitetura emocional. cada faixa dessas é uma exigência, um pacto, um manifesto contra a vida domesticada.

e justo quando eu estou ali, tentando evitar ser engolido por essa maré de silêncio assassino, surge a figura mais irritantemente convencida da sala… ele, o meu celular. ele aparece com aquele aviso passivo-agressivo sobre o volume, acreditando fielmente que está desempenhando um papel heroico na preservação da minha integridade física. a mensagem surge como uma espécie de dedo levantado em reunião, sempre polido, sempre disciplinado, sempre com aquele tom de “eu sei o que é melhor para você”, como se fosse um orientador pedagógico da minha alma. o brilho daquela notificação tem a mesma energia de alguém que bate no seu ombro pra dizer que “talvez você esteja exagerando” como se exagerar não fosse exatamente o que mantém a gente respirando.

mas é só um detalhe na paisagem. um incômodo minúsculo, quase cômico, comparado ao fato monumental de que ouvir música baixa continua sendo o prenúncio de que algo está prestes a ruir dentro de você. o celular acha que está salvando meus tímpanos, quando na verdade está tentando me convencer a viver num regime sonoro que anula o medo, o risco, a intensidade e principalmente a honestidade brutal que certas músicas carregam. o aparelho pode chiar o quanto quiser. ele não entende que eu não estou perseguindo conforto… estou evitando colapso.

porque o volume alto não é rebeldia adolescente. é ferramenta. é ritual. é mecanismo de defesa ancestral. é uma forma de abafar o ruído interno antes que o ruído interno decida abafar você. se o mundo insiste em tentar me dobrar através de notificações, responsabilidades, lembretes e frustrações sorrateiras, eu preciso de ondas sonoras suficientes para mantê-lo do lado de fora. música alta serve como barricada contra o caos que chega disfarçado de normalidade.

e quando o som sobe, tudo se rearranja. há uma reorganização molecular, uma limpeza emocional, um tipo de honestidade primitiva que só existe quando o mundo vibra junto com você. é naquele impacto que você percebe que está vivo, ainda dono de partes suas que ninguém conseguiu regulamentar. música alta restitui alguma coisa que a vida tenta arrancar diariamente. ela devolve o pulso, reata o contato, dá profundidade ao instante. ela te lembra que existe barulho o suficiente dentro de você para fazer o destino recuar um pouco.

o celular continua lá, com sua indignação burocrática, anotando mentalmente cada decibel como um fiscal de condomínio anotaria carros mal estacionados. deixo ele acreditar que tem importância. alguém precisa se sentir no controle e, sinceramente, esse papel não é meu. eu fico com o volume. o volume que vibra, que empurra, que ocupa espaço demais pra deixar o azar se sentir em casa.

no fim das contas, a lei é simples… qualquer música que mereceu ser gravada também merece ser ouvida com a dignidade de estremecer móveis. se não mexe o ar, não mexe nada. e se a má sorte quiser entrar, vai ter que fazer isso gritando por cima do riff… boa sorte pra ela. eu escolho o barulho. porque o silêncio, esse sim, é mortal.

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2025

você é ansioso?

ansiedade é a arte refinada de se foder por algo que ainda nem aconteceu. é o prazer do desconforto sem necessidade. é a habilidade quase pornográfica de transformar uma terça-feira comum em um pesadelo psicológico digno de cinema europeu, daqueles sem trilha sonora, onde todo mundo fuma e ninguém sorri. é viver num trailer infinito do pior episódio da sua vida, dirigido por você mesmo, estrelado por você mesmo, escrito por um roteirista fracassado que vive na sua cabeça e acha que tudo vai dar errado o tempo todo.

um e-mail sem assunto? pânico. uma mensagem no whatsapp de alguém dizendo “precisamos conversar”? colapso. uma reunião marcada sem explicação? ah, aí sim começa o desfile de desgraças. você já tá desempregado, cancelado, falido, divorciado e morando num quartinho com mofo em 47 segundos. sua mente é uma central de telejornal sensacionalista onde cada pequena ocorrência é transformada em apocalipse. a única coisa que falta é o letreiro vermelho girando “URGENTE” enquanto você frita na cama às três da manhã, suando e prevendo falências imaginárias.

e tudo isso por quê? porque o mundo criou esse mito ridículo de que você precisa estar sempre alerta. sempre se preparando pro pior. sempre vigilante. porque se você baixar a guarda, se permitir relaxar, vai perder. perder o quê? ninguém sabe. mas perder. porque tem sempre alguém mais esperto, mais rápido, mais forte, mais pronto. e você tá atrasado. tá dormindo demais. tá perdendo tempo. e aí vem o medo. o medo de não ser suficiente. o medo de não ter controle. o medo de dar errado.

só que aqui vai uma verdade indigesta, que não cabe em post de instagram com pôr do sol ao fundo, você não tem controle de porra nenhuma. absolutamente nada. você só acha que tem. sua vida é uma sequência de aleatoriedades amarradas com fita crepe e café forte. a qualquer momento, tudo pode desabar. e às vezes desaba. e às vezes não. e você vai viver mesmo assim.

mas claro, em vez de aceitar essa aleatoriedade como parte do pacote, você prefere se torturar com mil futuros que nunca vão acontecer. prefere transformar a espera numa agonia performática. prefere se imaginar sendo demitido, humilhado, esquecido, punido… tudo isso antes da reunião que foi marcada às 14h com o título genérico de “alinhamento”. você já tá suando, com o estômago revirado, criando diálogos inteiros, justificativas, pedidos de desculpa, estratégias de fuga. ensaiando a própria execução como se fosse um condenado em um tribunal invisível que só existe dentro da sua cabeça.

a tal reunião acontece. dura oito minutos. ninguém te matou. ninguém te expôs. ninguém sequer reparou que você existia. e você sai com aquela cara de idiota que percebe que se torturou por dias por absolutamente nada. mas repete o padrão no dia seguinte. porque é isso. você se acostumou a viver com medo do que talvez aconteça. e esse medo virou sua zona de conforto. um conforto miserável, mas conhecido. é melhor viver num inferno familiar do que arriscar pisar no agora com os dois pés.

e o agora… ah, o agora é um conceito que você abandonou há tempos. você acorda pensando no que pode dar errado daqui a três dias. você janta preocupado com uma conversa que nem foi marcada. você vive como se estivesse numa entrevista de emprego eterna com um recrutador sádico que nunca chega a te dar a vaga. e enquanto isso, o agora passa. escapa. vai embora. sem cena. sem aplauso. sem sequer um olhar de despedida.

e de boa, não tem manual de como parar isso. porque parar exige coragem. coragem de existir sem script. de não saber. de não prever. de simplesmente estar aqui, agora, nesse instante onde absolutamente nada tá acontecendo e ainda assim, sua mente grita que tá tudo errado.

talvez o problema não seja a ansiedade. talvez o problema seja essa crença patética de que você deveria ser outra coisa. mais eficiente. mais seguro. mais “resolvido”. talvez a verdadeira tortura seja essa comparação constante com uma versão idealizada de você mesmo que nunca existiu e nunca vai existir.

bem, continue. viva preso no amanhã. destrua o agora em nome de um futuro que só existe na sua imaginação doente. continue ensaiando tragédias, criando falas, sentindo dores que ainda não vieram. e quando, um dia, o real problema chegar de verdade, porque ele sempre chega, mais cedo ou mais tarde… você vai estar tão exausto de ter vivido em estado de guerra por tanto tempo que não vai sobrar força nem pra reagir.

e aí, talvez, você entenda que o pior nunca foi o que podia acontecer. o pior sempre foi o que você fez com o tempo enquanto nada acontecia.

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2025

estava pensando…

às vezes eu acordo com a sensação de que a humanidade inteira entrou num enorme reality show sem roteiro, mas todo mundo insiste em fingir que sabe exatamente o que tá fazendo. tipo quando alguém te entrega um controle remoto que não tem pilhas e jura que funciona se você tiver a energia certa. é assim que vivemos agora. gente andando por aí com a segurança de quem decifrou o universo, mas tropeçando em problema básico do dia a dia, tipo responder e-mail sem tremer.

o mais divertido é assistir essa nova moda dos iluminados da existência. todo mundo descobriu um jeito definitivo de viver. definitivo. a pessoa passa trinta anos sem saber amarrar o próprio tênis direito, lê dois posts motivacionais e de repente se transforma numa entidade sábia, pronta para ensinar a humanidade inteira a respirar, empreender, vibrar, prosperar e tomar decisões conscientes. decisões conscientes é ótimo. eu conheço gente que nem escolhe o que quer comer sem dar cinco voltas internas de desespero, mas quando abre a boca vira professor de autoconsistência emocional.

é tudo tão engraçado que às vezes parece pegadinha. tipo quando vejo aqueles coachs aparecendo pra explicar que você não prospera porque não quer o suficiente. claro. porque o sistema, a economia, o caos, os boletos, o chefe maluco, nada disso importa. o problema é que você não acordou recitando mantra com convicção. se tivesse falado mais firme, o universo teria escutado. lógico. o universo é sensível a tom de voz. a física quântica adora isso.

e o marketing então. virou uma aula de teatro experimental. todo mundo performando autenticidade como se autenticidade tivesse manual. a pessoa abre a câmera e fala pausadamente com aquele olhar profundo de quem tá tentando lembrar se desligou o gás, mas quer parecer conectada ao propósito ancestral da própria existência. dá vontade de perguntar se ela acredita no que tá dizendo ou se só ensaiou num espelho com música ambiente e luz baixa.

e aí vem as fórmulas. meu deus, as fórmulas. tudo hoje é fórmula. fórmula pra ser líder, fórmula pra ser sexy, fórmula pra ser interessante, fórmula pra ser feliz. é fascinante como ninguém percebe que se existisse fórmula pra isso, já teria vazado no telegram faz tempo e todo mundo estaria vivendo uma vida plena enquanto come cereal. mas não, o pessoal compra fórmula igual compra lote na lua. acreditando. bem firme. como se acreditar fosse moeda de troca com a realidade.

e o mais delicioso é que essa galera que ensina fórmula nunca convida ninguém pra ver a parte dos bastidores. porque bastidor é feio. bastidor é onde a vida acontece de verdade. ninguém quer ver a pessoa surtando às três da manhã porque esqueceu um compromisso enquanto ensinava sobre organização emocional. ninguém quer ver o guru procrastinando. ninguém quer ver o mentor vivendo igual ser humano comum. precisa manter a pose. pose é tudo. até colapso mental hoje precisa ser instagramável.

e enquanto isso, a humanidade segue acreditando nessas narrativas brilhantes de autoépicos instantâneos. porque é muito mais reconfortante achar que existe um jeitinho certo de viver do que admitir que estamos todos improvisando igual ator esquecido no palco, falando qualquer coisa pra não deixar o silêncio revelar a verdade mais óbvia do mundo… ninguém sabe porra nenhuma do que tá fazendo.

e pra ser sincero, talvez o maior talento da nossa época seja essa habilidade de fingir profundidade com meia dúzia de frases recicladas. virou esporte olímpico. medalha de ouro pra quem conseguir falar de propósito, trauma, ancestralidade, estratégia, produtividade e alma em um único vídeo de quinze segundos sem parecer que tá tendo crise existencial.

mas no fim do dia, quando a luz baixa e o mundo fica quieto, todo mundo tem aquele momento privado e ridículo em que percebe que não sabe nem decidir se troca de celular ou se aguenta mais um ano com a tela quebrada. e ainda assim, no dia seguinte, aparece explicando pra humanidade como destravar a própria potência infinita.

isso sim é entretenimento. isso sim é poesia moderna. isso sim é a humanidade em alta resolução.

e sinceramente, não tem fórmula que supere isso.

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2025

chacina

eu vi na tv.
de novo.
mais uma vez.
como sempre.
o brasil, esse país viciado em sangue periférico, tava transmitindo seu reality show favorito…
‘chacina ao vivo especial complexo da penha’.
o mesmo episódio de sempre, só com cadáveres novos.

dessa vez, o número chegou num patamar tão obsceno que nem o datafolha conseguiu piscar.
mais de 120 mortos.
isso mesmo.
cento e vinte seres humanos. até agora.
num só dia, num só lugar.

claro que ninguém disse isso com todas as letras.
ninguém na globo news largou um “e hoje o estado brasileiro executou em massa seus cidadãos”
não.
o termo usado foi aquele clássico…
“ação policial de grande envergadura contra o tráfico.”

sério.
grande envergadura.
soa quase como se fosse uma orquestra sinfônica.
mas no lugar de violinos, tem fuzil.
no lugar de maestro, tem caveirão.
e no lugar de aplauso no final… bem, tem sim. só que vem da sacada da classe média.

aí a memória puxa o que sempre puxa quando a gente vê o chão da favela inundado de sangue…
o ano é 2010.
o palco é o mesmo, complexo do alemão.
o show pirotécnico é o mesmo… tanques, helicópteros, uns 3 mil policiais, transmissão ao vivo.
faltava só a vinheta da globo com aquele fundo azul e um “o estado entra na favela com amor”.

lembra disso?
porque eu lembro nitidamente.
aquela entrada era pra “pacificar”, disseram.
um banho de presença institucional, marketing institucional e porrada institucional.
a ideia era enfiar uma upp em cada viela, como quem enfia uma babá eletrônica armada no berço da desigualdade.

mas ninguém contou que a upp era feita de papelão.
funcionava na marra, com farda, com pose.
mas sem salário, sem política social, sem nada.
morreu rápido.
mais rápido do que o tempo que leva pra um governador dizer “não vamos recuar”.

e o que sobrou?
a memória das promessas.
e 37 corpos, segundo dados oficiais da ocupação.
(bem, não eram 20 eram quase o dobro.
mas no brasil, contagem de corpo de favelado é tipo conta de bar sem nota fiscal, sempre dá menos do que foi consumido.)

só que naquela época, a galera ainda queria fingir que tava salvando o rio.
a ocupação de 2010 tinha roteiro.
beltrame era o mocinho.
tinha narrativa, tinha powerpoint, tinha nota da onu, tinha foto com criança sorrindo ao lado do pm. só esqueceram de combinar com a realidade.

a favela não virou suíça. virou cenário.
um cenário pra gringo ver, pra político subir nas pesquisas, e pra imprensa fingir que tava acontecendo algo novo.
spoiler… não tava.
era só mais uma operação disfarçada de abraço.
e o abraço veio com a coronha do fuzil.

aí corta pra 2025.
o estado parou de fingir.
agora é bala mesmo.
sem purpurina.
sem promessa.
sem upp.
sem beltrame.

o nome do jogo hoje é “missão dada é missão cumprida”,
que basicamente significa:
“entre, mate o máximo possível, diga que eram suspeitos e suma.”

sabe quantas armas foram apreendidas agora, em 2025?
não muitas. e quase todas no mesmo local já conhecido…
mas também, dane-se.
ninguém quer arma.
quer sangue.
quer mostrar força.
quer ver a favela calada ou morta.

e o mais nojento de tudo… a naturalização.
a forma como essa matança virou tradição.
um evento semestral.
tipo desfile da beija-flor, só que com mais sangue e menos plumas.
a cada nova operação, a imprensa finge surpresa.
os políticos fingem indignação.
e a população?
bem… ela já entendeu o enredo.

a regra é simples…
quem nasceu fora do asfalto, tá condenado.
quem mora onde o caminhão do lixo nem entra direito, pode morrer sem que ninguém pergunte o nome.
é tipo isso, se você mora na favela, já nasce com um alvo nas costas e um cronômetro na testa.

porque aqui, a favela não é território a ser cuidado.
é território a ser controlado.
e quando o controle falha, vem a punição.
e a punição é sempre coletiva, sempre cruel, e sempre com cobertura ao vivo.

é o mesmo roteiro desde sempre.
mas agora, em 2025, o brasil finalmente aceitou que não quer pacificação.
quer pacificação de cemitério.
quer segurança tipo limpeza urbana… jogando tudo pra debaixo do tapete ou pra dentro da vala.

e se você ainda não entendeu o tamanho do abismo moral em que a gente caiu, pensa comigo… a gente matou mais de 120 pessoas num único dia e o assunto não vai durar uma semana no noticiário.
no brasil, chacina tem prazo de validade menor que requeijão.

e olha que louco…
a gente já chegou num ponto onde até a indignação virou luxo.
não é que as pessoas achem normal
elas só desistiram de achar anormal.

e assim seguimos.
entre tanques, helicópteros, e o velho meme do datena gritando “bandido bom é bandido morto” enquanto o país escorre por uma sarjeta moral.

não tem solução fácil.
não tem texto otimista no final.
tem só isso…
um estado que falhou em cuidar, mas se especializou em matar.
e um povo que aprendeu a aplaudir cada cadáver desde que ele não se pareça com seu filho.

então sim.
eu vi.
e se você também viu
e não sentiu nem raiva, nem enjoo, nem vergonha
então o problema não tá só lá na favela.
tá aqui. na gente.
porque aceitar essa merda como normal é o começo do fim.
e talvez, meu amigo e amiga, a gente já tenha passado do meio faz tempo.

boa sorte pra todos nós.
e que a próxima operação seja longe da sua casa porque é assim que você mede privilégio nesse país.
pela distância entre sua porta e o caveirão.

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2025

paz

fim da guerra. trump vendeu essa frase como se fosse um hambúrguer frio no estacionamento de um cassino. e o mundo comprou. manchetes, editoriais, comentaristas exaustos repetindo a mesma ladainha… “acordo histórico”, “vitória da diplomacia”, “nova era no oriente médio”. não era nada disso. era só o velho truque do mágico cansado… tira o lenço do bolso, distrai o público, esconde o coelho morto. trump, aquele eterno mascate de catástrofes, fez o que sempre faz pegou uma tragédia, colocou sua assinatura dourada em cima, e vendeu como milagre. o problema é que dessa vez, o preço é sangue humano.

mas o espetáculo não começou nem terminou nele. o acordo, esse teatrinho de palavras e promessas, nasceu da velha combinação de desespero, oportunismo e marketing político. de um lado, israel pressionado por meses de críticas internacionais, exausto com o peso da própria brutalidade. do outro, hamas tentando transformar sobrevivência em narrativa de vitória. entre eles, diplomatas americanos com pressa de escrever comunicados de imprensa e buscando o nobel da paz para seu líder. e no meio, a população de gaza, reduzida a estatística, empurrada pra um tipo de limbo que o mundo chama de “trégua”.

as ruas cobertas de pó, os prédios como dentes quebrados e o ar com aquele gosto de ferro e cinza. israel anunciou que as tropas recuariam “gradualmente”, o que na prática significa deixar tanques estacionados em pontos estratégicos… prontos pra avançar de novo, se algum político precisar lembrar o eleitorado de quem manda. o acordo prevê “ajuda humanitária” entrando em gaza, mas a ajuda sempre vem carimbada, chega sob escolta militar, com inspeções, atrasos e regras. cada pacote de arroz precisa de permissão. cada litro de combustível é um favor.

o mundo se comove com a troca de reféns. israelenses libertos, palestinos libertos, lágrimas televisionadas, drones filmando abraços. mas toda libertação tem bordas sombrias… por cada prisioneiro libertado, há milhares que continuam presos, sem julgamento, sem nome, sem história. e no caso palestino, a prisão se estende pra além das celas… está no bloqueio, nas fronteiras fechadas, nos céus vigiados. liberdade em gaza é sempre uma licença temporária.

o governo israelense, ainda inflado de paranoia e poder, não perdeu tempo em dizer que o cessar-fogo não significava o fim da guerra. foi como jogar um balde de água fria sobre a euforia cuidadosamente roteirizada. “manteremos o direito de agir militarmente se for necessário.” essa frase sozinha destrói qualquer ilusão de paz. porque no léxico de quem ocupa, “necessário” é uma palavra elástica, serve pra bombardear escolas, fechar hospitais, demolir casas inteiras em nome da segurança.

enquanto isso, as agências internacionais se esforçam pra parecer úteis. promessas de reconstrução surgem como ervas daninhas… cada país doador querendo fincar sua bandeira em algum projeto simbólico. o catar quer financiar estradas, a turquia quer hospitais, os estados unidos prometem milhões que nunca chegam. e todo mundo exige relatórios, planilhas, transparência, como se fosse possível medir a dor em planilhas. reconstruir gaza virou uma indústria, um negócio com prazo e margem de lucro. a guerra, como tudo, aprendeu a se monetizar.

o que realmente não mudou, o que nunca muda, é a estrutura invisível que mantém o conflito respirando. o bloqueio continua, a vigilância continua, a ocupação continua. as crianças que nasceram durante os bombardeios agora brincam entre os escombros, aprendendo a distinguir o som de drones como quem aprende o alfabeto. professores tentam dar aula em escolas sem teto. médicos improvisam cirurgias em corredores. e o mundo, com sua moral de ocasião, continua discutindo “proporcionalidade”, como se a morte pudesse ser medida em tabelas.

na televisão, especialistas falam sobre “avançar com cautela”, “construir pontes”, “renovar o diálogo”. expressões limpas, confortáveis, que não sujam a boca de quem as pronuncia. ninguém menciona o fato de que as fronteiras continuam fechadas, que a água continua contaminada, que as famílias continuam enterrando os mortos com pás emprestadas. o mundo gosta de discursos sobre paz, mas não suporta a logística dela. paz dá trabalho, exige ceder, exige memória e ninguém ali quer lembrar.

e aí está o detalhe mais cruel, o tempo. o tempo transforma tudo em costume. o horror se normaliza, o sofrimento se torna ruído de fundo. os noticiários mudam de tema, as câmeras vão embora, e o povo de gaza continua onde sempre esteve esperando, reconstruindo, desmoronando de novo. é uma coreografia repetida tantas vezes que já virou reflexo: bombardeio, cessar-fogo, reconstrução, colapso, repetição.

trump só foi o rosto mais cínico desse ciclo. a imprensa só foi o coro. o resto do mundo, inclusive quem assiste, comenta, compartilha, se indigna… é parte do mesmo teatro. porque a verdade é simples e brutal, o fim da guerra em gaza nunca aconteceu. o que houve foi uma pausa com maquiagem. o tipo de pausa que o mundo precisa pra se sentir decente antes de continuar ignorando o sofrimento alheio.

no fim, gaza segue como sempre… meio viva, meio morta, um território que o planeta inteiro usa pra testar seus limites morais. e a guerra? a guerra segue, muda de uniforme, muda de tom, mas nunca vai embora. porque a paz, pra quem lucra com o caos, é a pior ameaça de todas.

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2025

a margem virou regra

esse fim de semana foi um daqueles em que a realidade esfrega a cara da gente no asfalto quente e pergunta… “é esse o topo da evolução humana?”. vi uma mãe com três crianças, cada uma num patinete elétrico que atinge 40 km/h, rindo, filmando, postando, como se estivesse criando pequenos ídolos do consumo instantâneo. sem capacete, sem noção, sem um fiapo de consciência. liberdade, diriam. essa palavra tão bonita, que já foi bandeira de revolução e hoje serve pra justificar idiotice em praça pública. liberdade pra morrer com estilo, pra criar filhos kamikazes com autoestima alta e senso zero de perigo.

mas não foi só isso. foi a sequência. o festival de “quase”. aquele cara que estaciona o SUV em cima da placa de “proibido estacionar” porque “é rapidinho”. a mãe que deixa o filho entrar no brinquedo do parque mesmo sem ter a altura mínima porque “falta só um pouquinho”. o casal que fura fila “só pra pagar rápido”. a humanidade virou uma colônia de “só um pouquinho”. a margem virou regra. e ninguém mais enxerga o ridículo de viver assim.

queria pedir um gin, mas até isso anda perigoso. as notícias de bebida batizada me lembram que até pra afogar o tédio é preciso estratégia de sobrevivência. então fiquei aqui, sóbrio, observando a coreografia da irresponsabilidade coletiva. gente achando que ser esperto é burlar regra, que ser moderno é ignorar limite, que ser pai ou mãe é virar cúmplice do delírio dos filhos. o “não” virou palavrão. a disciplina virou opressão. o bom senso virou artigo vintage.

essa mania de achar que todo limite é um atentado à liberdade me cansa. o ser humano contemporâneo se acha iluminado, mas não é mais que uma criança grande que aprendeu a dar desculpas sofisticadas pro próprio egoísmo. estaciona errado porque tá com pressa. finge que entende de segurança infantil, mas larga a cria em cima de um ‘brinquedo’ perigoso pra ganhar uns minutos de paz. e se der errado, a culpa é do destino, do sistema, de deus, de qualquer um, menos da própria negligência.

há uma elegância quase artística no modo como a gente se sabota. o mundo tá cheio de placas dizendo “proibido estacionar”, “altura mínima”, “use capacete”. a tradução é sempre a mesma… “tenha bom senso”. mas o bom senso virou um idioma morto. o ser humano só entende quando dói. e mesmo assim, aprende mal.

a cena toda me deu uma vontade absurda de rir e chorar ao mesmo tempo. porque é tudo tão patético e tão humano. a mãe filmando o perigo achando que é felicidade. o cara que estaciona errado achando que é esperto. o pai que ignora o limite achando que é corajoso. todos tentando provar alguma coisa pra ninguém, como se o universo tivesse tempo pra aplaudir a estupidez individual.

no fundo, é só medo disfarçado de ousadia. medo de ser o adulto que diz “não”. medo de enfrentar o olhar do filho frustrado, do outro motorista irritado, da própria mediocridade. então a gente se esconde atrás da palavra “liberdade” e chama o caos de autenticidade.

o resultado é esse zoológico civilizado onde todo mundo se acha consciente e ninguém percebe que o chão tá cheio de cacos. vivemos um tempo em que o “quase” virou filosofia de vida. quase responsável, quase atento, quase decente. o problema é que “quase” nunca foi o suficiente pra manter ninguém vivo.

e no meio de tudo isso, o mais cruel é que não dá pra odiar completamente. tem um traço de humanidade nessa burrice. esse desejo desesperado de viver sem freio, de acreditar que tudo vai dar certo, mesmo quando tudo prova o contrário. é trágico e bonito. e profundamente estúpido. o resumo perfeito do que somos.

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2025

anne…

vendo tudo que aconteceu nesse final de semana nos eua, só uma coisa me veio à mente…

coisas terríveis estão acontecendo lá fora. a qualquer hora do dia ou da noite, pessoas pobres e indefesas estão sendo arrastadas para fora de suas casas. elas só podem levar uma mochila e algum dinheiro, e mesmo assim, são roubadas desses pertences no caminho. famílias são desfeitas; homens, mulheres e crianças são separados. crianças voltam da escola e descobrem que seus pais desapareceram.

anne frank, 1943.

e aqui estou eu, décadas depois, no conforto artificial do século xxi, olhando pra tela, comendo qualquer porcaria que finjo chamar de jantar, e pensando nisso como se fosse uma legenda poética em meio ao apocalipse. a diferença é que agora temos wi-fi e delivery de sushi, e o horror vem em alta definição, direto na sua timeline, embalado num formato fácil de digerir entre um story e outro. a mesma brutalidade, só que agora com filtro de instagram e legenda em fonte cursiva… “rezando por todos”.

anne falava de nazistas. a gente fala de “forças de segurança”. chamamos de “operações”, “deportações”, “defesa de fronteiras”, e dormimos tranquilos porque trocamos a suástica por uma bandeira nova e um discurso mais bem ensaiado. é a velha crueldade. ninguém mais precisa levantar a voz ou marchar em formação… basta clicar, votar, curtir, e o trabalho sujo acontece por nós.

fico me perguntando se, lá do esconderijo dela, anne teria acreditado que o futuro seria isso… um planeta cheio de gente informada, indignada, articulada, e completamente impotente. gente que sabe de tudo em tempo real, mas que não se levanta nem da cadeira. que vê vídeos de crianças sendo arrancadas dos pais, comenta “que absurdo” e logo em seguida abre o aplicativo de comida. o estômago humano é uma maravilha, cabe o jantar e o horror no mesmo espaço.

a verdade é que o mundo não ficou mais cruel. ele só ficou mais eficiente. o ódio agora é automatizado, terceirizado, burocratizado. não precisa mais de monstros berrando em praças públicas, basta um formulário, um drone, uma desculpa qualquer. o resultado é o mesmo… corpos desaparecendo, vozes caladas, e um silêncio conveniente cobrindo tudo.

e nós, os espectadores morais, nos consolamos com palavras bonitas. dizemos “nunca mais” como se fosse um mantra, mas o que realmente queremos dizer é “só não aqui, só não comigo”. porque é fácil sentir compaixão quando a dor tem legenda e tradução. difícil é olhar pro espelho e admitir que a gente vive num sistema que precisa do sofrimento alheio pra continuar funcionando.

anne escrevia sobre esperança, porque era a única coisa que ela tinha. eu, sinceramente, não sei mais o que escrever. talvez esperança hoje seja um luxo para quem ainda acredita em narrativas de redenção. eu só vejo um looping grotesco, uma humanidade que se acha melhor que seus antepassados porque tem carros elétricos e podcasts, mas continua fazendo fila de refugiados, separando crianças de pais, batendo continência pra covardes de terno.

e o mais perverso é que tudo isso parece perfeitamente normal. o horror virou ruído de fundo. enquanto anne se escondia com medo de passos na escada, a gente vive escondido atrás de telas, com medo de perder o sinal. talvez o grande progresso da humanidade seja esse, aprendemos a ignorar o sofrimento com eficiência digital.

anne, você estava certa. coisas terríveis estão acontecendo lá fora. só que agora elas acontecem com comentários, estatísticas e patrocínio. e a gente assiste tudo com a mesma expressão entediada de quem espera o próximo episódio.

o problema nunca foi a escuridão. o problema é que aprendemos a ver no escuro e gostamos da vista.

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2025

só um minutinho

esse pessoal de colete laranja ou marrom são tipo pop-up de internet nos anos 2000. lembra? você tá de boas, lendo uma coisa qualquer, e do nada aparecia uma janela piscando… “você foi o milionésimo visitante! clique aqui!”. pronto. eles são isso, só que em versão ambulante, suada, com crachá e um sorriso que parece que foi instalado na cara deles à força, tipo software pirata.

e tem toda a encenação, a abordagem é sempre uma tentativa de stand-up falido. “oi, você gosta de sorrir?”, “ei, tem um minutinho pra mudar o mundo?”, ou o clássico “você se importa com crianças?”. parece piada, mas não é. é marketing com o uniforme do bem. é fast-food da solidariedade… barato, rápido, automático e servido em débito recorrente. você não adota uma causa, você assina um plano. como se fosse netflix, mas sem série boa.

e o ridículo é que eles se fantasiam de heróis de rua. colete, prancheta, crachá balançando. parecem recrutas de um exército do bem, só que em vez de salvar a galáxia, estão tentando arrancar o número do seu cartão de crédito na porta do shopping. distopia urbana não é cyberpunk com neon e samurais digitais. é fila de semáforos humanos vendendo consciência social na calçada.

e todo mundo que passa por eles já tem a resposta pronta, como se fosse um mantra automático. “tô com pressa”. é quase um reflexo, como puxar a mão quando encosta no fogo. e eu juro, é engraçado, porque a maioria dessas pessoas não tem pressa de nada. tão indo pro café, pro rolê, pro nada. mas soltam esse “tô com pressa” com a seriedade de quem acabou de ser chamado pra uma reunião urgente na onu.

eu, sinceramente, não consigo usar esse “tô com pressa”. eu não sou bom nisso. eu acabo soltando outra coisa, mais no improviso. tipo… “olha, irmão, minha pressa é de chegar em casa e tentar lembrar onde deixei minha dignidade. se eu achar, eu te aviso e talvez a gente conversa.”
ou então… “cara, se eu parar agora, vou perder o capítulo da novela da minha vida, que é eu tentando atravessar essa rua sem ser sugado por débito automático. spoiler: eu nunca consigo.”
às vezes até mando um mais simpático… “ó, eu até ajudava, mas no momento minha maior ong é a padaria da esquina, porque se eu não pagar fiado hoje, amanhã não tem pão.”

não é que eu seja contra as baleias, as crianças ou as florestas. longe disso. só que a rua não é um telemarketing a céu aberto. eu não quero negociar minha culpa social entre uma esquina e outra. eu quero andar, ouvir música, pensar na vida, sem precisar rejeitar a cada três metros alguém vestido de semáforo ambulante.

porque a verdade é essa, ajudar o mundo não deveria parecer tanto com um vendedor de plano de internet me perseguindo no meio da calçada. mas parece. e todo santo dia a rua vira call center, com script, meta, kpi, sorriso ensaiado. e você ali, fingindo que tá atendendo um telefonema imaginário só pra escapar da sabatina moral.

eles querem que eu compre um passe mensal pra aliviar a culpa existencial. eu só quero atravessar a rua em paz.

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simulacro

eu olho pro mundo e a sensação é de estar preso num aeroporto internacional em pane… vozes metálicas repetindo anúncios sem sentido, filas que não andam, gente andando em círculos com a mesma expressão de cansaço e desorientação. cada portão leva ao mesmo lugar, um futuro sequestrado por gente que aprendeu a embrulhar ódio em papel de presente patriótico. e o mais irritante é que todo mundo achava que estava imune, como se a história fosse vacina. “nunca mais”, repetiram por décadas, como quem repete reza de proteção. mas aí veio o fascismo remixado, com hashtags, planilhas, powerpoints e sorrisos treinados, e o mundo inteiro caiu como principiante.

porque o truque foi sempre o mesmo, não entrar pela porta da frente, mas pelos atalhos invisíveis. não chegar de tanque, mas pelo feed. não com gritos e multidões uniformizadas, mas com memes virais e discursos embalados em tom paternal. e nós, ocupados demais com o preço do café, com a novela política da semana, com a guerra transmitida ao vivo como campeonato de futebol, nem percebemos que já estávamos dentro do cercado. quando a comédia sumiu das telas, quando o sarcasmo virou ameaça, quando a dúvida passou a ser tratada como crime, o palco já estava tomado.

nos eua, a peça ganhou uma versão trágico-burocrática, o país que jurava ser o guardião da liberdade agora terceiriza censura como se fosse serviço de entrega. não precisou de decreto explícito, bastou uma sequência de silêncios obrigatórios. humoristas cortados, jornalistas calados, universidades convertidas em fiscais de si mesmas. tudo justificado como medida de ordem, como se fosse natural que a crítica fosse apagada em nome da estabilidade. é um autoritarismo higienizado, servido em copo de plástico transparente… parece água, mas é veneno.

no brasil, a estética é outra, a farsa tropical. não se cala a voz pela força bruta, mas pela gambiarra legislativa. cada “pec” é apresentada como correção, mas funciona como mutação genética da constituição até ela virar um monstro obediente. e no meio disso, a blindagem completa… políticos que nunca caem, criminosos que nunca pagam, julgamentos que nunca terminam. aqui, a impunidade não é acidente, é indústria. a engrenagem gira a serviço de proteger os mesmos rostos, as mesmas famílias, as mesmas castas. e a população, anestesiada, assiste como quem acompanha novela, já sabe o final, mas continua vendo.

enquanto isso, o resto do planeta se incendeia. guerras fabricadas, conflitos reciclados, massacres televisionados com a mesma naturalidade de reality show. cidades viram ruínas em nome de causas que até os combatentes já esqueceram. crianças enterradas sob escombros viram estatística. refugiados se amontoam em fronteiras como números descartáveis. os governos vendem armas de manhã e discursos de paz à tarde. e ninguém se envergonha, a guerra é negócio, espetáculo, cortina de fumaça conveniente para regimes que se sustentam no caos.

e o mais insuportável é perceber como tudo isso se conecta. não são tragédias isoladas, são partes de uma mesma coreografia. o ataque à liberdade de expressão nos eua, as manobras constitucionais no brasil, as guerras intermináveis que transformam populações inteiras em pó, tudo responde à mesma lógica. desgastar, cansar, exaurir. não é preciso convencer, basta sufocar. não é preciso impor fé, basta impor fadiga. e assim, cada um se adapta ao novo normal… o riso proibido, a corrupção naturalizada, a guerra banalizada.

as instituições, em todos os lugares, repetem o mesmo ato patético, juram neutralidade enquanto carimbam documentos que sustentam o autoritarismo. universidades se tornam cúmplices. tribunais se tornam teatros. parlamentos se tornam balcões de negócios. e a imprensa, quando não é amordaçada, amordaça a si mesma. o fascismo entendeu melhor do que ninguém que não precisa destruir tudo, basta corromper o suficiente para que as próprias engrenagens façam o serviço.

e o que não percebemos é que a rotina é a arma mais sutil. supermercados continuam abertos, ônibus continuam atrasados, crianças continuam indo à escola. o mundo parece girar normalmente. mas é uma normalidade podre, de cenário de parque abandonado pintado às pressas. a ferrugem range, mas a tinta engana. e nós preferimos acreditar na tinta, porque encarar a ferrugem exigiria esforço. o conforto do autoengano é mais barato.

eu vejo esse planeta como um hospital imenso e mal iluminado. cada país é uma ala diferente, mas o cheiro de desinfetante vencido é o mesmo. nos corredores, pacientes esperando diagnósticos que já sabem… autoritarismo crônico, covardia institucional, resignação em estado terminal. em uma ala, jovens silenciados por algoritmos. em outra, políticos blindados por leis feitas sob medida. em outra, populações inteiras tratadas como descartáveis em guerras que nunca acabam. todos sentados, olhando pro chão, repetindo… “pelo menos ainda não é comigo”. mas já é. sempre foi.

e ainda assim, seguimos fingindo. fingindo que a democracia é sólida, que as instituições são firmes, que o mundo aprendeu com a história. fingindo que liberdade de expressão ainda existe quando já está em coma induzido. fingindo que justiça é possível quando a constituição é dobrada até virar origami decorativo. fingindo que a paz é viável quando a guerra é lucrativa demais pra acabar. o teatro global segue em cartaz, com atores ruins, plateia treinada e holofotes iluminando o vazio.

não é que o fascismo tenha voltado. é que ele nunca foi embora. trocou de roupa, ajustou o tom de voz, aprendeu a usar rede social. em vez de botas, tiktok. em vez de gritos, lives. em vez de prisões em massa, exclusões discretas. e nós, tão convencidos da nossa esperteza, batemos palma no tempo certo, como cães adestrados.

a tragédia não é o autoritarismo em si. é a nossa capacidade infinita de acostumar. acostumar com a liberdade sequestrada. acostumar com a impunidade como regra. acostumar com a guerra como paisagem. acostumar com o silêncio como prova de inteligência. acostumar até não restar nada além do hábito de sobreviver. porque no fim, o fascismo não precisa nos vencer… basta nos cansar. e nisso, ele já venceu. será?