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2025

a morte do café

eu lembro exatamente do dia em que percebi que o café tinha morrido. não foi num campo de batalha, nem numa esquina escura de beirute. foi numa cafeteria com parede de cimento queimado, trilha sonora de indie melancólico e um desgraçado me explicando que o espresso que eu tinha acabado de pedir foi extraído a 93,7 graus por exatos 27 segundos, com moagem calibrada a laser e grão fermentado no útero de uma lhama vegana no sul do peru. eu só queria um café. ganhei uma aula de física quântica com sotaque de arrogância barista.

eu sou da época em que café era um soco na cara. uma punhalada no fígado. você acordava, jogava duas colheres mal medidas de pó numa água fervida com raiva e tomava aquilo como quem encara a vida… de cabeça baixa e com estômago vazio. hoje? você entra num desses templos gourmet e se sente num batismo satânico. o barista… esse novo messias da desgraça urbana… vem de avental, tatuagem de planta aromática e uma aura de superioridade transcendental. parece que vai te servir a cura da depressão em forma líquida.

ele pergunta como se estivesse te oferecendo uma experiência transcendental “prefere uma fermentação carbônica de um grão etíope com notas de bergamota e final floral ou um anaeróbico colombiano com acidez brilhante e retrogosto de esperança?” esperança é o caralho. eu quero café. quero amargura, quero verdade, quero o gosto de quem passou a noite fumando derby e ouvindo black sabbath no volume errado.

mas não. agora, se você não sabe o terroir, o clima, o humor da colheitadeira no dia da extração e o signo ascendente do produtor, você é um pária. você não merece aquele gole sagrado. você merece nescafé. e quer saber? às vezes, eu quero mesmo. quero aquele pozinho indigno, que vem num pote de plástico barato, que dissolve com raiva na água e me olha nos olhos dizendo “isso é o que tem. lida com isso.” não tem espuma de leite com florzinha, não tem storytelling de plantação biodinâmica, não tem barista me julgando por querer açúcar. tem só café. bruto, feio, real.

eu não quero um cappuccino desenhado. não quero uma xícara feita por ceramistas japoneses. quero o gosto da rua. o gosto de vida mal passada. mas parece que isso virou crime. parece que hoje, pra tomar café, você precisa passar por um crivo espiritual, uma provação, uma purificação aromática. se você pedir o grão errado, o barista te excomunga. se pedir com leite, ele te cancela no instagram.

mas eu insisto. eu vou continuar tomando café de posto, de máquina velha, de coador de pano imundo. porque, no fim das contas, é ali que tá a verdade. o resto é liturgia gourmet pra gente que confunde cafeína com status. me dá o meu café ruim. e me deixa em paz.

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2025

minha opinião

às vezes eu acordo e penso… em que momento a gente decidiu que precisava ter opinião sobre tudo? sério. quando foi que esse pacto silencioso se formou… esse acordo coletivo de que a gente não pode mais simplesmente olhar pra algo e dizer “não sei”, ou melhor ainda, “não tenho opinião formada sobre isso”? virou crime admitir ignorância. é quase uma ofensa pública você não saber o que pensa sobre a política de natalidade da dinamarca ou o preço da soja no mercado chinês.

eu vejo as pessoas falando… melhor, vomitando certezas e tenho vontade de puxar uma cadeira, acender um cigarro que nem fumo e perguntar com aquele ar de deboche bem afiado “porra, e de onde você tirou isso, campeão? foi no terceiro vídeo do tiktok ou no trecho de podcast que você ouviu no banheiro enquanto…?”

porque a real é essa. estamos rodeados por especialistas de banheiro. estudiosos de meia thread. filósofos de 15 segundos. todo mundo com uma opinião engatilhada, uma certeza absoluta na ponta da língua, mas se você cavar um milímetro abaixo da superfície, o que encontra é… nada. vazio. um abismo de ignorância ensaiada, enfeitada com hashtags e jargões reciclados de influencers com voz calma e roupa neutra.

eu tô cansado. cansado de tanta opinião e tão pouca curiosidade. cansado dessa necessidade desesperada de parecer inteligente. de ter sempre algo a dizer, mesmo que seja uma bobagem mal articulada com palavras emprestadas de alguém mais esperto.

me incluo nessa, claro. não vou posar de monge zen no topo da montanha. eu também já opinei mais do que devia. já caí na armadilha do ego inflado, do textão inflamado. mas ao menos eu tive a decência de reconhecer que, muitas vezes, eu estava falando merda.

hoje eu prefiro o silêncio. prefiro observar. prefiro admitir que não sei porra nenhuma sobre quase nada.

só que admitir isso exige coragem. e essa é uma moeda em extinção.

porque se você admite que não sabe, perde palco. perde público. perde curtidas, seguidores, relevância. e deus nos livre de sermos irrelevantes nessa era de selfies com legenda profunda e engajamento programado.

a verdade é que a gente tá todo mundo atuando. viramos personagens de nós mesmos. e pior… roteiros rasos. diálogos fracos. a série tá ruim e ninguém tem coragem de cancelar.

cada feed é um teatro. cada story é uma performance. a gente vive com medo de sumir, então fala, grita, opina, se impõe… mesmo que não saiba nem o que tá dizendo.

é como assistir uma peça onde todo mundo quer ser o protagonista, mas ninguém sabe o enredo.

e é aí que mora o desespero, essa urgência por parecer profundo enquanto flutua na superfície. um bando de náufragos com pose de navegadores.

então não, eu não vou engolir essa pose de intelectual instagramável. não vou fingir que essa avalanche de opiniões é sabedoria. é ruído. é excesso. é vaidade disfarçada de consciência.

e se você acha que ter opinião sobre tudo é ser inteligente, talvez precise de uma temporada no silêncio. ou num bar sujo de esquina. ou numa cozinha de verdade, com faca cega e suor escorrendo.

porque só aí, entre o calor, o caos e o desconforto, a gente começa a entender o que é profundidade.

até lá… bom apetite, especialista.

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2025

tatuagem

eu acredito em tatuagem como quem acredita em fogo, porque é isso que ela é… fogo ancestral, ainda queimando, reinventado em agulha, tinta e cicatriz. cada traço, cada linha, cada ponto de dor é um elo com aqueles que vieram antes. não os dos livros de história, mas os verdadeiros… guerreiros, curandeiras, xamãs, piratas, escravos, punks, putas, todos os malditos que ousaram existir fora da norma e marcaram seus corpos como se a pele fosse altar, e era.

tatuagem é o grito dos que nunca pediram permissão. é a arte dos que escolheram o corpo como manifesto. é pintura de guerra numa sociedade que quer todo mundo limpo, polido e morto por dentro. e a gente não. a gente quer o oposto. a gente quer o sujo, o imperfeito, o autêntico. quer sangue, suor e alma misturados com tinta barata e dor que vicia.

porque tatuagem é isso, vício de verdade. quem faz uma, não para. porque descobre o segredo. descobre que a dor da agulha acorda coisas que estavam mortas. cada sessão é um batismo. cada risco é uma oração pagã. cada símbolo é um espelho que grita… “você ainda sente alguma coisa, porra!”

eu acredito em tatuagem porque ela nunca mente. o que tá na pele, tá na alma. é luto que virou arte. é amor que virou desenho. é fé que você não consegue explicar, mas precisa carregar. é a âncora no meio da tempestade. é o caos ordenado de um coração que se recusa a ficar quieto.

e não importa se você tatuou um símbolo tribal, uma caveira mexicana, um desenho tosco feito no fundo do quintal. o que importa é que você marcou. você se comprometeu com a sua própria existência. você teve a audácia de dizer “eu sou isso aqui, contraditório, intenso, suado, imperfeito, mas meu”.

tatuagem é um foda-se com alma. é arte viva em movimento. é identidade em alto-relevo. é história escrita em carne, uma língua que só os iniciados entendem. e quem entende… reconhece de longe. tatuado reconhece tatuado. é pacto silencioso. é irmandade de sobreviventes.

porque só quem já sangrou por escolha entende o valor de uma marca. só quem já sentiu a agulha entrando devagar, riscando memória na carne, entende que isso aqui é mais que moda. é legado.

então sim, eu acredito em tatuagem como quem acredita em mágica suja. porque é isso. alquimia punk. ritual moderno. e se não entende, tudo bem. não é pra entender mesmo. é pra sentir. é pra viver. é pra carregar…

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2025

mono

eu não quero um celular que faz tudo. eu quero máquinas que fazem uma coisa só… e fazem bem. ponto.

me dá um ipod só pra música. uma câmera só pra fotografar. um gravador só pra som. me dá aparelhos com propósito. com função clara. com botões de verdade e alma mecânica. não quero esse trambolho moderno que faz trinta coisas ao mesmo tempo e nenhuma direito. porque quando tudo é função, nada é essência.

o celular é o fast food da tecnologia. parece prático, parece completo, mas é um monte de atalho disfarçado de inteligência. você tira uma foto? claro. com pressa, com filtro, com a câmera suja de dedo. ouve música? sim, enquanto responde e-mail, enquanto posta story, enquanto o algoritmo decide o que você gosta. nada é inteiro. tudo é distração.

mas quando eu pego um ipod velho, um daqueles tijolos com click wheel e alma de jukebox portátil, eu tô só ouvindo música. só isso. e isso basta. eu escuto o disco inteiro. na ordem. com atenção. como se cada faixa fosse um ritual. e é. cada aparelho desses é um templo. um altar pra uma experiência específica. pura. limpa. sem interferência.

a câmera? ah, a câmera. aquela máquina que só serve pra fotografar. que não notifica, que não vibra, que não tenta me vender nada. eu aponto, enquadro, clico. e pronto. sem dez filtros. sem IA me sugerindo ajustes. só a luz, o olhar, o momento. a foto. a porra da foto. e não uma selfie apressada entre duas mensagens de trabalho.

esses equipamentos mono função têm peso. têm textura. têm dignidade. você sente o clique. sente o botão responder. sente que existe uma conversa ali entre homem e máquina. não é tudo touchscreen liso e anônimo. é físico. é tátil. é íntimo.

e o melhor… eles acabam. têm fim. têm botão de desligar. o ipod não vai te lembrar de beber água. a câmera não vai te mandar notificação de clima. eles não tentam te salvar. só cumprem seu papel, com simplicidade e precisão quase poética.

eu prefiro isso. porque cada máquina dessas me devolve uma coisa que o celular roubou… atenção. foco. intenção. fazer uma coisa por vez, mas fazer direito. como deve ser.

então sim, eu ando com três ou quatro aparelhos separados. e adoro. porque quando cada coisa tem sua função, cada momento tem seu sentido. e viver, no fim, é isso… prestar atenção no que se está fazendo.

o resto é ruído de notificação.

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2025

tomorrowland

tô com quinze abas abertas. todas elas me oferecendo o mesmo pedaço de pano vermelho ordinário, com um bordado preguiçoso da nasa… um boné que, se a gente for bem honesto, não valeria nem meia hora de atenção se o mundo fosse um lugar minimamente racional. mas adivinha? não é. nunca foi. e é por isso que eu tô aqui… um adulto, com boleto vencendo amanhã, cogitando pagar frete internacional e, com sorte, ser multado pela receita federal… tudo por causa de um acessório de figurino de um filme que quase ninguém viu, menos gente ainda entendeu, e que o resto do planeta fez questão de esquecer.

o nome do culpado? tomorrowland… um lugar onde nada é o que parece. dirigido pelo brad bird, o mesmo cara por trás de os incríveis e ratatouille, que aparentemente decidiu que depois de tanto sucesso comercial era hora de enterrar a própria carreira com um manifesto visual sobre otimismo juvenil e falência de espírito coletivo. o protagonista? george clooney, numa das atuações mais estranhas da carreira dele… o eterno galã agora fazendo o papel de um inventor misantropo, trancado numa casa armada com lasers e rancor. ao lado dele? uma menina chamada raffey cassidy, que rouba o filme inteiro sendo uma robô com cara de anjo e instinto de assassina. e claro… britt robertson, tentando desesperadamente carregar nas costas o peso emocional de um roteiro que tropeça na própria pretensão a cada cinco minutos.

o filme é um desastre. uma confusão de mensagens, com um terceiro ato que parece ter sido escrito num banheiro químico durante o intervalo de um festival de música. mas… e aí vem o grande porém… no meio de tudo isso, ele tem alma. aquela alma incômoda. aquela cutucada existencial que te faz olhar pra sua própria vida, pro seu cinismo de cafeteria hipster, pro seu sarcasmo de rede social… e se perguntar… quando foi que eu desisti? quando foi que eu virei esse babaca previsível que só sabe rir de tudo e não acredita mais em nada?

e aí… lá pelas tantas, entra o boné. aquele boné vermelho, com o logo da nasa estampado na testa como um tapa na cara de todo mundo que acha que sonhar é perda de tempo. ele aparece na cabeça da casey newton, a personagem da britt… uma adolescente teimosa, questionadora, otimista até o limite do suportável, que passa o filme inteiro dizendo que ainda dá tempo de salvar o mundo enquanto o resto da humanidade já tá de pijama esperando o apocalipse. o boné é parte do figurino dela… mas virou mais que isso. virou um símbolo.

um pedaço de pano que representa a última resistência emocional de quem ainda tem coragem de olhar pra frente e pensar: “porra, talvez… só talvez… ainda dê tempo.”

e é por isso que eu tô aqui. caçando, clicando, comparando. não é sobre moda, nem sobre cosplay. é sobre querer carregar na testa um lembrete físico de que eu, contra todas as evidências, ainda não virei mais um cínico acomodado de grupo de whatsapp. é sobre gritar, sem abrir a boca, que eu ainda me recuso a aceitar o final óbvio e previsível dessa história de merda que a gente chama de vida adulta.

quando esse boné chegar… e se chegar… ele vai estar amassado, com cheiro de armazenamento barato, com a costura torta… e eu vou usar assim mesmo. com orgulho. com teimosia. com a certeza absoluta de que, por mais ridículo que pareça… eu prefiro ser o idiota de boné vermelho da nasa do que mais um figurante nessa distopia insossa de sarcasmo e gente de cabeça baixa.

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2025

terceira grande guerra

pois é…

comece sentindo o peso disso… a terceira guerra mundial já começou, mas não do jeito que você aprendeu na escola. aqui não tem tanques desfilando, bandeiras ao vento ou sirenes gritantes… o que temos é uma guerra híbrida, invisível, que se infiltra em aeroportos, feeds, contas bancárias, olhares apavorados. e você, distraído no sofá, ainda chama isso de “mais um ano ruim”.

já reparou que em 13 de junho de 2025, o mundo estremeceu e ninguém percebeu? israel lançou a operação rising lion… duzentos aviões, apoio da mossad, e mais de cem alvos iranianos derrubados em natanz, fordow, isfahan… não apenas bases militares, mas um hospital em beersheba, o soroka medical center. risco químico, dezenas de civis feridos, destruição que grita “guerra”, enquanto o feed rola impávido.

o irã não deixou barato. em poucas horas, disparou mais de 150 mísseis e enviou cem drones contra tel aviv, haifa, bnei brak… prédios viraram escombros, o pânico virou cena urbana. naquele exato momento, o mundo olhou brevemente e voltou a memes e séries.

mas em 22 de junho, donald trump, o showman presidencial, decidiu entrar no ringue com a operação midnight hammer: B‑2 stealth, bombas gbu‑57 de 13 toneladas e tomahawks voltaram ao ataque, mirando os mesmos alvos nucleares. sem congresso, sem debate… só um tweet de “sucesso absoluto” e sanções reforçadas. resultado? petróleo pulou 11%, bolsas afundaram, bitcoin pirou. ainda assim, muitos seguem falando de “crise passageira”.

isso não é improviso, é o fim anunciado do fourth turning, o quarto ato do ciclo de strauss & howe em the fourth turning… post‑guerra, rebelião, desintegração institucional e a crise, um momento de desmoronamento antes de renascer. desde 2008 o sistema está em pane, a pandemia foi o motor, e agora estamos em pleno colapso.

ray dalio, o sábio financeiro autor de principles for dealing with the changing world order, define o big cycle… dívida monstro, polarização interna, rivalidades globais, colapso climático e revolução tecnológica… cinco cavalos do apocalipse cavalgando ao mesmo tempo. e ele não está prevendo, avisa que a chance de guerra civil nos eua ultrapassa os 55%, e que estamos a um passo do colapso sistêmico.

se isso já pesa, imagina agora misturar outra guerra já em curso… rússia vs. ucrânia. enquanto você lia sobre foguetes no oriente médio, putin intensificou os ataques em kiev com drones escondidos em caminhões, incendiando infraestrutura militar. 11 bombardeiros destruídos só no início de junho. analistas preveem um “verão quente” em 2025 no front ucraniano e, por trás, a realidade é ameaçadora… a guerra enfrenta resistência feroz, washington hesita, e trump dá sinais de abandonar kiev. isso empurra a tensão global ainda mais para cima.

a lógica é cruenta, o eixo da autocracia… rússia, china, coreia do norte e irã… comemora nas sombras. vendem armas, aperfeiçoam ciberataques, fecham alianças silenciosas contra o “ocidente decadente” . enquanto isso, na europa, keir starmer, do reino unido, convoca rodada de emergência (cobra meeting) e aponta risco de escalada nuclear.

aquele jornalista guerreiro, jonathan freedland, no the guardian, alerta… desarmar cientistas iranianos pode ser tático mas quem ganha a guerra acaba pagando caro. nesrine malik chama isso de jogo de reputação superficial, enquanto a guerra esquenta de verdade. no financial times, editoriais como “the perils of war with iran” advertem… vitória no campo tático pode ser derrota estratégica se o irã reforçar suas alianças ou disparar mísseis em bases americanas.

fukuyama já disse que o turning 4 é o ponto em que a narrativa otimista das sociedades modernas se despedaça e brzezinski, à beira da morte, avisou que conflitos regionais podem ser acesos um ao outro até explodirem numa conflagração global. e é isso que vemos agora… fragmentos de guerra espalhados, silos de destruição interligados em mapas invisíveis.

até agora você não leu nenhuma teoria, não é alarmismo… é guerra global fragmentada ativando o caos sistêmico. a normalidade acabou. estamos vivendo uma guerra que ninguém anunciou, mas matou silenciosamente nosso mundo.

e o pior… ela só se intensifica. enquanto você tenta digerir mísseis e drones, o tabuleiro se expande, um quebra-cabeça macabro que combina conflitos aparentemente distantes em uma única trama infernal.

repense o que a gente já viu… os eua, sem consultar o congresso, lança operações contra o irã, transformando o conceito de retaliação escalável e criando precedentes perigosos para qualquer país se sentir confortável em derrubar instalações com bombas de penetração profunda. a soberania já não é mais o que era… agora, qualquer nação com porta-aviões na jaula tem poder para borrar fronteiras. liberdade? só no papel.

e enquanto o fogo arde quente entre israel e irã, a guerra da rússia contra a ucrânia avança como um câncer sistêmico, dribla leis internacionais com drones shahed suicidas, atinge redes elétricas, espalha pânico camuflado em silêncio e fumaça. a ucrânia devolve com precisão cirúrgica, manda drones camuflados em carretas destruir bombardeiros russos no interior do território inimigo. isso é guerra moderna em estado puro… longe de pelotões, mas mortal em cada pixel.

nesse meio tempo, a coreia do norte testa mísseis cada vez mais precisos, mostrando que a dissuasão nuclear não é apenas retórica vazia… é madrugada em que todos acordam assustados, e o mundo ainda dorme. a china responde com incursões no estreito de taiwan, navios fantasma e bombardeiros pairando sobre águas territoriais. a velocidade da tecnologia pulverizou a noção de “fronteira segura” agora, há frente na nuvem, no mar e até no seu celular.

no plano interno, eua e outros países democráticos se debatem com guerra civil em suspensão. dalio acerta na mosca… polarização viral, dívida insustentável, um capitalismo financeiro que exclui e condena. cada discurso, cada lei controversa, cada protesto, joga gasolina na fogueira de um país à beira da ruptura. será que estamos a um tweet de uma revolta urbana?

e os mercados não sabem se riem ou choram. petróleo passando de US$ 110, metais ganhando nome de guerra (cobre, lítio militarizado), bitcoin tremendo mais que soldado de infantaria. e o consumidor? paga o pato na bomba de gasolina. enfermeiros continuam mortificando-se na linha de frente de pandemias e impactos climáticos… incêndios planetários se espalham. é uma guerra que não só mata, mas nos enfraquece, medo por medo, moeda por moeda.

jornalistas de análise, não os memeiros, como mark thompson do reuters, alertam sobre rotas de fuga e sanções que deslocam populações inteiras. anne applebaum, colunista no washington post, anuncia que a “era das democracias liberais está implodindo” e que regimes autoritários avançam justamente porque o mundo ocidental ao mesmo tempo estrena conflitos e esvazia solidariedade.

um outro dado que quase todo mundo ignora… os sistemas de pensamento e confiança estão sendo hackeados. não é piada desaparecer algoritmos sociais… isso muda o senso coletivo, suga o capital social, energiza o autoritarismo nas sombras, sem voto, sem marcha, mas com peso. comissões de verdade sérias não salvam mas reescreveram a narrativa… quem decide o que é verdade ou mentira?

lendo isso você pode pensar: “mas até agora não vi bombas aqui”. e é justamente essa cegueira confortável que nos afunda… cada fragmento de guerra real esconde um efeito dominó, instabilidade financeira aqui, corte de munição ali, ruído digital acolá, lei estranguladora depois. é um ataque ao sistema e, no fim, à humanidade.

então, se isso te atingiu, se te acordou em lugar de arrasar teu sono, compartilhe. troque memes por livros… the fourth turning, changing world order, relatórios da otan, columbia, cap. recomende leitura de anne applebaum, jonathan freedland, mark thompson, ray dalio e chama quem acha que “normal é pra sempre”.

porque ignorar é cúmplice. e o mundo que pensamos que conhecíamos já está agonizando. se você ainda busca normalidade, ela não existe mais. o feed é o último refúgio da ilusão. o mundo real se chama guerra híbrida e está te destruindo, mesmo quando você pensa que passa batido.

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2025

nada


sabe o que eu faço nas minhas horas livres? nada. absolutamente nada. e não aquele “nada” genérico, preguiçoso, de quem esqueceu da vida por acidente. não. o meu nada é meticulosamente escolhido. refinado. quase um ritual de gente que já entendeu que a vida, no fim das contas, não passa de um grande intervalo entre uma crise e outra.

enquanto o resto da humanidade se engalfinha por um lugar ao sol na olimpíada da relevância, eu sigo firme, praticando o ócio como quem decanta um vinho caro… com paciência, com respeito ao tempo e com total desprezo pelas expectativas alheias.

meu hobby é o ócio, mas não esse ócio de rede social, com filtro sépia e frase de efeito. o meu é o ócio raiz. sujo. silencioso. desconfortável pra quem tá acostumado com feed rolando em loop infinito. eu não tô falando de fazer um detox digital, ou de tirar um “tempo de qualidade”. eu tô falando de olhar pro teto por quarenta minutos e começar a questionar a existência de cada rachadura na parede. de ouvir o som da geladeira clicando, da rua respirando lá fora… e não sentir absolutamente nenhuma vontade de levantar.

é um ócio que vem com um certo requinte, eu admito. tem um quê de arrogância intelectual. é o tipo de prazer que você só descobre depois de anos fingindo que gosta de brunchs lotados, de viagens planejadas pra “se desconectar” e de happy hours com gente que você mal suporta. depois de todas essas farsas sociais, você aprende… a verdadeira felicidade tá em fazer nada… e gostar disso.

os outros colecionam hobbies como se estivessem montando um perfil no linkedin. cada final de semana uma nova obsessão… “agora comecei a fazer cerâmica”, “tô aprendendo italiano”, “comecei a correr maratonas”, “tô estudando vinho natural”. parabéns. eu sigo aqui, fiel ao meu passatempo mais honesto, o ato calculado, consciente e totalmente prazeroso… de simplesmente não fazer porra nenhuma.

não preciso de propósito pra justificar meu tempo livre. não preciso de resultado, nem de performance. meu kpi é o silêncio. minha métrica de sucesso é o quanto eu consigo adiar qualquer decisão. e sabe o mais poético? quanto mais eu me dedico a esse hobby, mais eu percebo o quanto todo mundo tá exausto, tentando parecer feliz.

enquanto eles abrem novas abas no navegador da vida, eu fecho todas. desligo tudo. encosto a cabeça. deixo o mundo se matar lá fora. e me entrego, com a satisfação de um chef provando o próprio prato, ao meu passatempo favorito… absolutamente nada.

não é falta de ambição. é excesso de bom senso.

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2025

work hard?

por muito tempo eu fui aquele idiota de manual… o garoto-propaganda não oficial do capitalismo tardio, vestido de camiseta preta com frase de efeito, fazendo check-in no linkedin como se fosse um troféu de guerra. o operário padrão da cultura do “faça mais”, “seja mais”, “sofra mais”, como se a vida fosse uma gincana de escola onde o prêmio final fosse… sei lá… um burnout de respeito e uma gastrite nervosa digna de estudo de caso em congresso de psicologia.

fui o cachorro de rua que corria atrás de cada osso jogado por gerente frustrado. o voluntário da exploração. o palhaço que sorria em reunião de orçamento cortado e ainda tinha a pachorra de agradecer pela “oportunidade de crescer com o desafio”. desafio, meu amigo, era acordar todo dia, olhar no espelho e fingir que aquela versão medíocre e cansada de mim mesmo era o tal “empreendedor de alta performance” que eu me vendia ser.

era meta em cima de meta, como se a vida fosse um videogame de fase infinita. eu me alimentava de kpis como quem come resto de marmita fria em sala de reunião. fazia “networking” com gente que eu odiava, dava like em post de ceo coach de instagram, e anotava em caderninho de capa preta frases que hoje me dão vontade de vomitar. tipo aquela pérola… “o sucesso começa onde termina a zona de conforto”. sabe onde terminou a minha zona de conforto? bem isso é outra história…

e o mais patético… o mais triste… é que eu acreditava. achava bonito dizer “eu não tenho tempo pra nada”. como se isso fosse sinal de relevância. como se viver ocupado fosse o mesmo que viver importante. como se ter agenda lotada fosse sinônimo de valor pessoal.

e aí um dia, sem trilha sonora de filme indie, sem raio de sol entrando pela persiana, sem porra de insight de guru de palco… eu só parei. cansei. larguei. chutei o balde com gosto. percebi que o máximo que eu ia ganhar com aquele roteiro previsível era um certificado invisível de funcionário do mês da minha própria desgraça emocional.

hoje, enquanto a molecada de tênis caro continua postando foto de tela de computador às 4h59 da manhã, enquanto a timeline ainda é infestada de frases mal traduzidas de livro de autoajuda de aeroporto… eu fico aqui. de fora. olhando como quem vê um incêndio de longe, com a serenidade cínica de quem já sabe o final.

eu não corro mais. não marco mais reunião que podia ser um e-mail. não entro em call com gente que finge entusiasmo. e principalmente… não romantizo mais cansaço. hoje meu único indicador de sucesso é a quantidade de vezes que eu consigo terminar o café antes dele esfriar. e, sinceramente… tá funcionando melhor do que qualquer canvas de planejamento estratégico que eu já preenchi na vida.

e o mais bonito dessa história toda… é que agora eu assisto tudo de longe. como quem observa um acidente de carro em câmera lenta, com aquele misto de fascínio mórbido e vergonha alheia. vejo os posts com os gráficos de produtividade, as fotos de cadernos rabiscados com “goal setting”, as frases de guru gringo mal traduzidas tipo “grind now, shine later”… como se o brilho prometido fosse mais que o reflexo do monitor nas olheiras fundas dessa geração de office zombies.

eles continuam lá… religiosamente acordando cedo, fazendo cold call, vendendo a própria dignidade por um “excelente trabalho, fulano” dito por um gerente que vai te demitir na próxima reestruturação. continuam lotando workshop de alta performance num sábado à tarde, pagando pra ouvir um cara de microfone de cabeça dizendo que o problema é falta de disciplina. falta de disciplina o cacete. o problema é falta de noção.

eu vejo os stories com “5h club” e sinto um prazer quase obsceno em saber que eu nunca mais vou fazer parte desse circo. me dá vontade de comentar em cada um deles… “parabéns, campeão… mais um passo rumo ao esgotamento físico, emocional e financeiro”. mas não comento. porque, no fundo, eu sei… todo mundo precisa passar pela fase de ser um idiota otimista antes de virar um cínico funcional.

o melhor? é ver como a engrenagem segue girando. as mesmas empresas que falam de saúde mental organizando happy hour obrigatório. os mesmos líderes que mandam e-mail sobre “respeitar o horário de descanso” te chamando pra call às nove da noite. e a galera… aceitando. sorrindo. agradecendo. feito criança que apanha e ainda pede desculpa.

se tem uma coisa que eu aprendi depois de anos sendo o bobo da corte da produtividade… é que tem uma vida inteira acontecendo bem longe de planilhas, dashboards e frases de efeito. e adivinha? ela é muito melhor daqui… de onde eu tô agora… sentado… com tempo… com saúde… e com zero vontade de voltar pra arena.

que eles corram. que eles suem. que eles façam post sobre “resiliência”. eu? eu passo.

e se alguém quiser continuar nessa corrida maluca… boa sorte. eu tô fora. e já faz tempo.

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2025

guerras

guerras. elas estão aí antes da gente aprender a amarrar os sapatos. antes da roda, da cerveja, da democracia, antes de qualquer ideia estúpida de paz mundial. estavam ali, no código genético, programadas como uma falha ou talvez, e é isso que realmente assusta, como uma maldita funcionalidade. o ser humano ama um bom espetáculo de sangue. gladiadores, execuções públicas, reality shows com gente se esfaqueando verbalmente por fama… tudo a mesma merda embalada de forma diferente.

desde que um hominídeo olhou torto pro outro por um pedaço de osso, a humanidade vem escrevendo sua história com pólvora, espadas e drones. e o mais bizarro… a gente continua surpreso. “ai, guerra de novo?” como se fosse uma chuva inesperada. não, meu chapa. é clima fixo. o céu da humanidade é eternamente nublado por fumaça de explosão.

os gregos fizeram, os romanos aperfeiçoaram, os europeus industrializaram. e os modernos? eles transformaram em franquia. hoje, guerra tem branding, tem rede social, tem campanha de relações públicas. você vê um míssil cair e logo depois tem post patrocinado com bandeirinha e hino. virou um produto com slogan “pela liberdade”, “contra o terror”, “pelo futuro das crianças”. tudo mentira. é pelo petróleo, pela grana, pelo ego inchado de político meia-boca que nunca viu um campo de batalha na vida.

e ainda assim… a gente vibra. torce como se fosse final de copa do mundo. guerra virou entretenimento. documentários com trilha sonora emotiva, gráficos 3d, narração com voz grave… como se fosse uma série da hbo. a diferença? no final, ninguém aprende porra nenhuma. nunca aprendemos.

é como se o ser humano tivesse um pacto com o caos. toda vez que a paz começa a parecer possível, alguém cutuca a ferida. religião, território, raça, ideologia, ou só o velho desejo de ver o outro sangrar. e então, bum… lá vai o ciclo de novo. sempre com os mesmos ingredientes… jovens morrendo, velhos decidindo, gente inocente pagando o preço.

e o mais irônico é que a gente chama isso de “progresso”. desenvolvemos armas mais eficientes, mais limpas, mais “cirúrgicas”. como se fosse um ato de compaixão matar alguém com menos sujeira. como se fosse civilizado mandar um míssil com precisão milimétrica em vez de uma bomba suja. é como discutir qual garfo usar no jantar enquanto devora carne humana.

porque no fundo, no fundo… guerra é a mais honesta expressão da nossa hipocrisia coletiva. queremos paz, mas adoramos a adrenalina do conflito. falamos em amor ao próximo, mas o próximo precisa concordar com a nossa verdade, ou vira inimigo. é triste, é sujo, é profundamente humano.

a real é que guerra não é exceção. guerra é a regra. paz é que é o intervalo esquisito. o silêncio entre dois tiroteios. e se isso não te fizer perder o apetite, talvez seja hora de olhar no espelho e admitir… tem um soldado dentro de cada um de nós. pronto pra marchar. só esperando o próximo pretexto bonito.

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2025

a MINHA academia

essa academia aqui… ah, essa aqui não é uma academia. é um showroom de vaidade com ar-condicionado e café de cápsula. é um palco mal iluminado onde os figurantes acham que são protagonistas de um reality show que ninguém pediu pra ver. não é o templo da saúde, é o bunker da performance social, o lugar onde gente sem assunto vem suar do lado de gente sem alma, tudo em nome de um lifestyle vazio com cheiro de desodorante caro e whey de baunilha sintética.

e não me venha com “ah, mas toda academia é assim”. não, não é. a academia ali do bairro, aquela com ventilador girando triste no teto e peso de cimento, é crua, honesta, até feia… mas é real. suor ali é suor mesmo. gente tentando viver mais, fugir do infarto, ajeitar a coluna depois de 30 anos carregando boleto. agora aqui? aqui não. aqui o suor é marketing. é parte do look.

a galera dessa academia não tá aqui pra treinar. tá aqui pra ser vista. pra fazer contato. pra marcar presença. pra gravar um reels mal editado enquanto faz um treino que viu no perfil de um coach que provavelmente não sabe somar dois pratos de 10kg. cada agachamento é pensado com ângulo de câmera. cada passada na esteira é uma tentativa de parecer ocupado, produtivo, desejável.

ninguém aqui respira… eles executam respiração.
ninguém alonga… eles otimizam mobilidade.
ninguém fala… eles pitcham ideias enquanto alongam o quadríceps.

e eu odeio.
odeio o neon soft-touch. odeio a playlist “motivation hits 2020” que toca em loop como se fosse trilha sonora da decadência moderna. odeio a parede instagramável com o letreiro em LED tipo. odeio as garrafinhas de R$ 300, o top cropped de marca sueca, o boné pra trás com o logo da consultoria. odeio o eco de frases como “vamos marcar algo” entre um supino e um ataque de futilidade aguda.

mas sabe o que é pior? eu volto.
todo santo dia. volto.
por quê?

porque essa desgraça fica a dois minutos da minha casa. dois. minutos.
e porque minha personal é a única coisa real nesse teatro de ego inflado. ela não me julga, não tenta me vender um e-book de detox, não fala “bora, guerreiro”. ela só manda eu puxar peso e calar a boca. uma santa. uma mártir. a última sobrevivente da era em que treinar era só isso… treinar.

então sim, eu continuo vindo.
entro nesse templo da futilidade, passo pelos influenciadores do fracasso, ignoro os olhares que avaliam meu pijama tênis, como se ele dissesse algo sobre minha relevância social… e treino. com desprezo. com ódio no coração e uma leve sensação sarcástica só de saber que sou o único ali que não quer fazer networking entre uma série e outra.

eu odeio essa academia.
e ela sabe disso.
e ainda assim me recebe todo dia com aquele cheiro de ego tostado no sol.

e isso, meu amigo e amiga, é quase arte.
arte degenerada, claro.
mas ainda assim… arte.

sarcasmo é o meu six-pack.