
sabe, eu sempre desconfiei de quem fala demais depois de decidir alguma coisa. não é eloquência. é pânico com frases bem alinhadas. é medo embrulhado em vocabulário bonito. e se existe um livro que olha pra isso tudo e ri com desprezo, esse livro é o príncipe.
nicolau maquiavel, meu querido maqui… sim já sou íntimo de tanto que li, sabe ele não escreveu um manual. escreveu um aviso. um daqueles avisos que ninguém quer ler porque estragam a fantasia. a fantasia de que, se você explicar direitinho, o mundo vai entender. a fantasia de que intenção importa. a fantasia de que existe justiça no julgamento público. de boa você e eu sabemos que não existe. nunca existiu na verdade. maquiavel só teve a falta de educação de dizer isso em voz alta.
eu olho para o príncipe como quem olha para alguém que já viu o fim do filme e não tem mais paciência para o suspense. maquiavel não tem tempo para suas razões, seus dilemas morais ou sua necessidade desesperada de ser visto como alguém decente. ele quer saber uma coisa só… só uma… você manteve o controle ou virou refém da própria consciência?
explicar demais é a coreografia do derrotado elegante. é o momento em que a autoridade evapora e sobra apenas a narrativa tentando tapar o buraco. eu vejo isso o tempo todo… mesmo! gente poderosa em tese, frágil na prática, implorando compreensão como se compreensão fosse moeda forte. não é. nunca foi. poder respeita silêncio. respeita decisão que não pede aplauso.
maquiavel entendeu algo que ainda escandaliza gente bem-intencionada, o mundo não funciona como deveria. funciona como funciona. e quem tenta governar como se estivesse num romance moral acaba como nota de rodapé histórica… aquele sujeito interessante que “tinha boas ideias”, mas ninguém lembra o nome.
eu adoro como o príncipe trata a virtude como um acessório opcional. não porque ela seja inútil, mas porque ela não aguenta pancada sozinha. virtude exposta demais vira alvo. virtude explicada vira piada.
explicar é se colocar na defensiva. é aceitar que o outro tem o direito de te interrogar. é trocar comando por audiência. e a partir daí, acabou. maquiavel não chama isso de erro ético. chama de erro estratégico. simples. clínico. quase cruel… e por isso mesmo honesto.
há algo profundamente vaidoso em explicar. é o desejo de ser absolvido enquanto se exerce poder. é querer sujar as mãos e manter a consciência limpa ao mesmo tempo. maquiavel olha para isso como quem olha para um adulto acreditando em conto de fadas. não funciona. nunca funcionou. o mundo não recompensa coerência interna. recompensa estabilidade externa.
o príncipe que fala demais vira refém do próprio discurso. precisa sustentá-lo, defendê-lo, atualizá-lo. vira funcionário da própria explicação. o príncipe que age e cala cria fatos. fatos são brutais. fatos não pedem concordância. fatos obrigam adaptação. e adaptação é onde o poder realmente vive.
semore senti que maquiavel não está dizendo “seja um monstro”. está dizendo “pare de fingir que o mundo não morde”. pare de achar que transparência é força. pare de confundir fala com controle.
no fundo, a lição é simples e indigesta, quem se explica demais está tentando salvar a própria imagem. e toda vez que alguém começa a frase com “deixa eu explicar”, eu já sei o que está por vir…
maquiavel também sabia.
e quem ainda não sabe continua falando.








