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2025

o último livro que li em 2025

esse livro tem a delicadeza de alguém que te deixa terminar a frase errada só pra não interromper. você está lá, confortável, achando que sabe como histórias desse tipo funcionam, achando que no fundo tudo ainda gira em torno da gente… nossas emoções, nossos dilemas, nossa maldita necessidade de fazer sentido. ele não discute. ele anota mentalmente. e continua andando como se você fosse um ruído ambiental.
o que torna tudo tão bom é que nada ali parece interessado em ser memorável. não há cena construída pra virar citação, não há momento escrito pra provocar catarse. o texto opera num tom funcional, quase burocrático, como se estivesse descrevendo algo inevitável. e é justamente aí que mora o veneno. porque quando você percebe, já aceitou coisas que, em qualquer outro livro, pareceriam absurdas demais pra engolir sem protesto. aqui, você engole. seco. e segue lendo.
a humanidade apresentada não é heroica, nem decadente. é utilitária. pessoas são moldadas, adaptadas, reduzidas, especializadas. não porque alguém é mau, mas porque isso funciona melhor. empatia vira custo. sensibilidade vira instabilidade. identidade vira uma peça que pode ser removida sem comprometer o desempenho geral. ninguém celebra isso. ninguém lamenta. simplesmente acontece. e quanto mais natural isso parece dentro da história, mais artificial começa a parecer a sua própria resistência a essas ideias.
há algo profundamente ofensivo e deliciosamente honesto na forma como o livro trata a consciência. não como milagre, não como bênção, mas como barulho. como aquele som constante que você só percebe quando para. a sensação é a de estar lendo um relatório muito bem escrito sobre por que você não é tão necessário quanto gostaria. não há crueldade nisso. há indiferença. e indiferença é sempre mais difícil de engolir.
o contato com o outro não vem carregado de mistério poético ou ameaça explícita. vem carregado de incompatibilidade. não há troca simbólica, não há terreno comum, não há drama compartilhável. existe ação respondendo a estímulo, ponto final. tentar entender vira erro de categoria. insistir em diálogo vira perda de tempo. projetar humanidade vira fraqueza estratégica. e o livro deixa isso claro sem precisar levantar o tom, como quem explica algo óbvio demais pra ser emocionante.
o mais perturbador é perceber que os momentos de maior eficiência surgem justamente quando a narrativa humana se cala. menos reflexão, menos hesitação, menos ego tentando se afirmar. o livro não chama isso de sacrifício. chama isso de ajuste. e isso machuca porque desmonta aquela historinha confortável de que sofrer pelo sentido das coisas nos torna especiais. talvez só nos torne lentos.
a leitura avança com aquela sensação incômoda de estar concordando com algo que você não deveria concordar. você se pega admirando soluções frias, decisões desumanizadas, caminhos que ignoram completamente o que você aprendeu a valorizar. e o texto não te julga por isso. não precisa. você faz esse trabalho sozinho, em silêncio.
quando termina, não sobra entusiasmo. sobra uma limpeza estranha. menos ilusão, menos apego, menos certeza inflada. o livro não te dá uma visão melhor do futuro. te dá uma visão mais honesta do presente e isso é infinitamente mais desconfortável. e mais valioso.
sabe, ele não quis me convencer de nada. não quis me acolher. não quis me educar. só mostrou um mundo funcionando perfeitamente bem sem se importar com o que eu sinto a respeito. e qualquer livro que tenha coragem de fazer isso, sem pedir desculpa, sem piscar pro leitor, sem se explicar demais, merece ser lido agora. antes que você volte a achar que pensar sobre si mesmo é o centro de tudo.

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2025

planos

dezembro chega de mansinho, com aquele bafo morno de promessas vencidas, e de repente tá todo mundo surtando em grupo, se entupindo de lentilha, listinha na mão, olhar esperançoso de golden retriever… e uma certeza delirante de que agora vai. vai porra nenhuma.
eu observo tudo isso como quem assiste a um acidente em câmera lenta. as academias ficam cheias por duas semanas, os cadernos novos são comprados com a empolgação de um virgem numa orgia, os cursos online bombam com promessas de “nova carreira”, “nova mente”, “nova versão de mim”. nova porra nenhuma. no fundo, é todo mundo repetindo o mesmo roteiro, esperando um final diferente.
spoiler: não vai mudar. mas tudo bem. o povo adora ensaiar o mesmo papel todo dezembro. só muda o figurino.
e lá está você, no meio desse balé tragicômico, tomando seu terceiro espumante quente em pé na varanda da tia, olhando pro céu e pensando nas “metas do ano que vem”. ah, as metas. aquela lista feita entre uma uva e outra, enquanto alguém grita “pula com o pé direito” e você finge que acredita. ok falar de pé direito ou esquerdo anda mais polêmico que eu…
a lista que já nasce morta, mas com letra bonita.
“beber mais água.”
“fazer terapia.”
“ler vinte livros.”
meu favorito… “ser a minha melhor versão”.
o que caralhos isso quer dizer? quem inventou isso? onde vive? o que come? em que planeta vive essa melhor versão de você, e o que ela tem contra você do jeito que você é agora, de chinelo (ok perceberam que estou transitando em território perigoso, mas não falei havaianas) e comendo resto de rabanada na madrugada?
ninguém escreve o plano real. ninguém escreve… “repetir tudo de novo, mas com mais cinismo.”
ninguém coloca “provavelmente manter o mesmo emprego meia-boca por medo de falir emocionalmente.”
ou “seguir em piloto automático até a próxima crise existencial.”
esse seria um plano honesto. realista. quase bonito de tão triste.
mas honestidade não fica bem em lista.
o plano precisa parecer épico.
precisa ser bonito o suficiente pra caber num story com emoji.
precisa parecer que você tem alguma noção do que está fazendo.
só que você não tem.
ninguém tem.
eu não tenho.
e mesmo assim, seguimos montando esses projetos de vida como quem monta uma lasanha de micro-ondas achando que tá fazendo culinária molecular.
até que, claro, tudo começa a sair do eixo.
a vida escorrega, tropeça, cai de cara no asfalto e lá está você, ainda tentando seguir o maldito plano.
como se ele fosse uma tábua de salvação.
como se ele fosse te salvar do absurdo de ser gente.
e é nesse ponto que tenho um pensamento que ninguém quer ouvir quando ainda tá empolgado com o novo planner colorido…
“planos devem ser efêmeros, e você precisa estar pronto pra abandoná-los.”
não adaptar.
não “ajustar conforme o contexto”.
abandonar. jogar fora. acender um cigarro, olhar pro horizonte e dizer “foda-se, isso não faz mais sentido.”
porque o plano, no fundo, é só um disfarce.
uma desculpa pra não lidar com o imprevisível.
um cabide de expectativas onde você pendura suas frustrações e finge que tá tudo indo bem.
mas você sabe que não tá indo.
porque aquele plano que você fez em dezembro não sobrevive nem até o carnaval.
e o pior, ele não morre de morte natural.
ele morre porque você mudou.
porque o mundo mudou.
porque a vida é imprevisível, resolveu virar à esquerda quando você já tava com a seta piscando pra direita fazia três meses.
e é aí que você tem duas opções…
seguir fingindo que ainda faz sentido ou sair do teatro e ir viver alguma coisa que preste.
eu sempre escolho a segunda opção.
não porque sou sábio, mas porque já testei a primeira.
e deu no quê?
em eu, trancado num plano que não era mais meu, tentando encaixar minha vida real dentro de um quebra-cabeça que já não batia.
plano ruim é apego burro.
hoje, eu trato plano como convite de festa estranha… pode ser bom, pode ser uma merda. vou, dou uma olhada, como um petisco, e se tiver chato, vou embora.
sem drama.
sem precisar explicar.
sem precisar justificar pra ninguém.
então sim… vai em frente, escreva seus planos. se isso te diverte, ótimo. compre a agenda cara, compre a caneta importada, monte seu vision board com recortes de revista de decoração minimalista com planta que ninguém sabe cuidar.
mas saiba disso…
você não é o seu plano. você é quem continua existindo quando ele fracassa.
e, com sorte, com ironia, e um senso de humor minimamente saudável, você ainda vai rir disso tudo em março.
enquanto risca a meta de “dormir cedo” com uma caneta vermelha e pensa:
“bom, pelo menos tentei.”
e depois pensa:
“que sorte que não deu certo.”
e brinda com uma coca (zero) morna às maravilhas de não estar mais preso num plano idiota.
fim do plano.
início da vida.
com o caos no banco do carona, e você dirigindo sem gps, sem waze e com uma playlist boa.
essa sim, foi uma decisão acertada.

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2025

etiópia

a etiópia. só de ouvir o nome, você já imagina uma criança esquelética com moscas no rosto e olhos pedindo clemência a deus, ou à câmera da bbc. é automático. hollywood, o teleton da miséria africana, enfiou isso na tua cabeça com a delicadeza de um chute no estômago. mas… surpresa! a etiópia não é o playground da caridade internacional que você acha que é. e não, não foi colonizada como a maior parte do continente. ou seja, enquanto o resto da áfrica estava sendo servido no jantar imperialista europeu, com garfo e faca, a etiópia chutava a mesa e dava uma voadora nos dentes dos italianos.
sim, os italianos. aqueles mesmos que te venderam vinho barato e massas com nomes impronunciáveis. em 1896, esses senhores tentaram fazer da etiópia mais uma iguaria do seu buffet colonial. resultado? levaram uma surra homérica na batalha de adwa. uma surra tão humilhante que até hoje o orgulho nacional italiano treme quando alguém fala em etiópia. foi tipo um império romano remixado tomando um pau de um povo que usava escudos de couro e espadas tradicionais… ah e fazia café melhor que o seu barista metido da esquina.
mas, claro, você não aprende isso na escola. não, senhor. na escola te ensinam que a áfrica é um continente de desgraça, fome, guerra e leões. um grande safári de sofrimento. e aí você cresce achando que a etiópia é só o endereço oficial da desnutrição. quando, na real, estamos falando de uma das civilizações mais antigas do planeta. o império de aksum já ouviu falar? não, né? estava lá com comércio rolando a mil, moedas próprias e contato direto com o império romano, enquanto a europa ainda estava se limpando com folhas e rezando pra não pegar peste bubônica.
e sim, a etiópia também é o berço do café. isso mesmo, aquele líquido sagrado que você (e eu) idolatra como se fosse sangue de unicórnio orgânico. pois é, o coffe arabica nasceu nas montanhas etíopes. os pastores perceberam que as cabras ficavam doidonas com umas frutinhas vermelhas e boom… nasceu o café. e você aí pagando 25 reais num cold brew achando que está fazendo parte de uma revolução hipster. parabéns.
a religião? etiópia tem uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo. não, não aquelas versões enlatadas do cristianismo importadas dos eua com pastores de terno e jatinho particular. aqui é cristianismo raiz, com igreja entalhada na pedra, no meio do nada, onde os monges cantam em ge’ez, uma língua que faz o latim parecer gíria de shopping.
e a comida? meu amigo… se você acha que etíope só come mingau de emergência da onu, você merece viver à base de miojo. estamos falando de injera, aquela panqueca esponjosa de teff (um grão milenar que faz a quinoa parecer arroz agulhinha), acompanhada de ensopados apimentados, lentilhas, carne cozida, tudo com as mãos, do jeito que deus ou algum chef decente mandou.
mas claro, falar disso tudo não dá ibope. não rende curtida, não atrai doação. miséria vende. criança com barriga inchada, com mosca pousada no olho, isso sim mobiliza. é pornografia humanitária. uma forma elegante de manter o complexo de salvador branco bem alimentado. o ocidente adora a etiópia… desde que ela continue cabendo na sua narrativa de coitadismo exótico.
e no meio disso tudo, você aí, achando que a etiópia é só mais um lugar na lista negra do globo. quando, na real, ela é a pátria de haile selassie, o imperador que virou deus pra milhares de rastafáris na jamaica. o cara que recebeu malcolm x, que botou a onu pra ouvir desaforo, que foi capa da TIME como o último leão de judá. mas, né, você só conhece leão de judá como nome de igreja evangélica na quebrada.
então da próxima vez que ouvir “etiópia”, faz um favor pra humanidade e fecha o netflix. abre um livro. ou melhor, abre a cabeça. porque a etiópia não precisa da sua pena, da sua hashtag ou da sua arrogância pós-colonial disfarçada de compaixão. ela sobreviveu a impérios, a fomes, a guerras e ainda assim segue firme, com mais dignidade do que muito país que finge ser civilizado.
e sabe o mais incrível? ela faz tudo isso tomando café melhor que o seu.

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2025

deportação

deportação em massa. puta que pariu. só de pronunciar isso em voz alta eu já sinto o gosto metálico do fracasso humano, tipo café requentado numa lanchonete de rodoviária às quatro da manhã, servido por um cara que também tá a um passo de ser deportado porque ficou três dias a mais do que o visto permitia. três dias. tempo suficiente pra você assistir uma série ruim da netflix, mas o suficiente pro estado te enfiar num avião de volta pro caos.
porque, veja bem, nesse nosso maravilhoso mundo moderno… cheio de tecnologia, inteligência artificial e gente fingindo que medita, morar no “lugar errado” agora é crime. viver, respirar, pagar aluguel e tentar sobreviver do lado errado da linha imaginária desenhada por colonizadores bêbados no século XIX é motivo suficiente pra te algemar e te jogar pra fora como se fosse lixo reciclável com o adesivo vencido.
e é sempre essa a narrativa, né? “invasores”, “ilegais”, “ameaça à soberania”. ah, claro, porque nada destrói um país mais rápido do que uma senhora boliviana vendendo empanada na esquina. é o verdadeiro terror. cancela os mísseis, fecha os bancos, esquece os bilionários sonegadores, o verdadeiro apocalipse é um guatemalteco tentando limpar seu pára-brisa por uma moeda.
mas a beleza grotesca disso tudo tá na coreografia. é balé estatal. helicóptero no céu, carros blindados na rua, homens engravatados dando entrevista sobre “ações coordenadas”. parece filme. só que não tem final feliz. só tem a criança de oito anos chorando num canto de aeroporto, com uma etiqueta pendurada no pescoço como se fosse bagagem extraviada.
e no meio disso tudo, a porra da “lei”. a palavra mágica. o abracadabra do escroto. “é a lei”. porque se tem algo que a humanidade aprendeu a fazer bem, é usar a burocracia como desculpa pra atrocidade. é assinar papéis, carimbar, sorrir pra câmera e dizer: “não é pessoal, é só protocolo.” o tipo de frase que você espera ouvir de um assassino de aluguel ou de um gerente de rh.
sabe, fico lembrando de um cara idealista e chapado de utopia que um dia ousou cantar “imagine there’s no countries”. lindo, né? só que hoje, se o lennon aparecesse com essa ideia num fórum da união europeia, era deportado em menos de 24 horas. “subversivo”, “desestabilizador”, “perigo à ordem pública”. e o pior é que ele seria preso antes do refrão.
mas a real é que imaginar um mundo sem fronteiras virou piada. virou camiseta de festival de música indie. virou bio de instagram com bandeirinhas e discurso de paz, paz, paz, desde que o cara “do outro país” não venha morar na sua rua. aí fudeu. aí vira questão de segurança.
e vamos ser sinceros aqui, entre um trago e outro, esse mundo não tem medo de imigrante. ele tem nojo. e o nojo é seletivo. porque se o cara vem da noruega, de mochila nas costas, dizendo “i’m here to find myself”, ele é bem-vindo. agora se ele vem do sudão, dizendo “i’m here to not fucking die”, ele é deportado.
essa é a verdade. crua, suja e malpassada. um mundo onde o passaporte vale mais que caráter. onde o lugar onde você nasceu decide se você pode viver com dignidade ou se vai ser escoltado até o portão de embarque como se fosse contrabando humano.
e o mais insuportável é a falsa compaixão. o tweet choroso, a nota oficial, o discurso com lágrimas ensaiadas. “lamentamos profundamente”, “foi uma decisão difícil”, “respeitamos os direitos humanos”. tudo isso enquanto apertam o botão que manda mais um ser humano pro olho do furacão. é como colocar ketchup numa ferida aberta e chamar de cura.
então sim, meus amigos, isso aqui não é só uma política pública. é um espetáculo de indiferença. é a arte fina de transformar dor em dado estatístico. é o retrato perfeito de um mundo que se acha civilizado mas ainda usa arame farpado pra decidir quem merece respirar.
e eu? eu continuo aqui, comendo comida de rua, cruzando fronteiras que ainda me deixam entrar, ouvindo histórias que não cabem em relatório da imigração. continuo sentado ao lado do cara que fugiu da fome e foi parar lavando prato num restaurante de luxo onde ninguém sabe o nome dele. mas ele sabe o nome de todos os clientes. porque tem que saber. é isso ou deportação.
imagine all the people, living for today?
não dá, john. tem gente que tá só tentando viver até amanhã sem ser tratado como uma falha no sistema.
e isso, meu caro, é a maior merda de todas.

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2025

ser bom hoje em dia

sabe o que me irrita profundamente? tipo… no osso, na alma, no nervo exposto da existência? essa merda de sensação constante de que ser uma boa pessoa virou uma aberração social. um erro de sistema. uma falha de caráter. eu acordo todo dia com essa ideia fixa martelando na cabeça… por que caralhos é tão difícil simplesmente não ser um babaca? não deveria ser fácil? não deveria ser a porra do padrão mínimo? mas não. é como se o mundo tivesse entrado num pacto coletivo de “vamos todos fingir que empatia é opcional e caráter é coisa de trouxa”.
e olha, eu não tô falando de ser santo, não. não tô me candidatando a mártir do século. eu tenho minhas merdas, meus rancores, minha lista de gente que eu gostaria de ver tropeçando de cara num lego. mas mesmo assim, mesmo com o caos diário, eu insisto em não querer ser um escroto. e isso, hoje, já é pedir demais.
porque ser bom agora virou um tipo de resistência. virou subversão. virou quase crime. se você é honesto, te chamam de ingênuo. se é gentil, te acham manipulador. se mostra vulnerabilidade, parece que abriu a temporada de caça. e o pior, se você tenta manter uma integridade básica, as pessoas olham pra você como se tivesse saído de um museu, uma peça de arqueologia emocional.
e nem adianta tentar se adaptar, porque o jogo tá viciado. a regra é clara… ou você pisa ou é pisado. e quem tenta não pisar em ninguém, quem tenta andar com algum senso de direção moral, acaba sendo atropelado por uma manada de egos inflados, sorrisos falsos e frases motivacionais coladas com cuspe. é isso. a humanidade trocou o manual de ética por um carrossel de frases do pinterest.
e aí, claro, vem aquela voz interior me perguntando: “pra quê continuar tentando, então?” e a resposta é simples, porém desconfortável, porque eu me recuso a me tornar mais um pedaço da merda disfarçada de gente que anda por aí fingindo que é normal agir como um sociopata funcional. não dá. eu vejo isso nos olhos dos outros. esse vazio operante. esse desespero disfarçado de autoconfiança. esse ego mastigando qualquer traço de bondade como se fosse sinal de fraqueza.
e sabe qual é a ironia? ninguém quer admitir que sente falta disso. falta de alguém que escuta sem esperar a vez de falar. de alguém que ajuda sem postar. de alguém que discorda sem desejar sua morte. mas tá todo mundo com medo. medo de parecer humano. medo de não ter o cinismo necessário pra ser aceito no clube dos desgraçados que decoram mantras de autoestima mas não sabem olhar nos olhos de verdade.
eu olho em volta e tudo parece uma simulação mal feita. a gentileza é medida em likes. o arrependimento é escrito com legenda. a compaixão tem prazo de validade… 24 horas no stories. o altruísmo vem com qr code pra doação. e a verdade? a verdade virou uma velha chata que ninguém mais convida pra festa.
então não, eu não sou uma boa pessoa no sentido comercial do termo. eu não fico sorrindo pra todo mundo. não compro curso de empatia. não sigo guru de chakras digitais. mas também não piso em ninguém pra subir. e só isso, nesse mundo doente que valoriza quem grita mais alto e engana melhor, já me coloca na categoria de “boa pessoa”. o que é, por si só, trágico pra caralho.
então eu continuo. não porque acredito que vou mudar o mundo. mas porque me recuso a me tornar aquilo que eu mais desprezo… gente que confunde frieza com força. gente que acha que sensibilidade é defeito de fabricação. gente que se olha no espelho e só enxerga o próprio marketing.
ser bom hoje é isso. andar desarmado num campo minado e ainda ter que sorrir quando explodem do seu lado. é perder mais do que ganhar. é sair sujo, ferido, cansado… mas inteiro. e olha, nessa merda de mundo, sair inteiro já é milagre o suficiente.

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2025

hot takes

a gente vive cercado de gente com opinião pronta e experiência nenhuma. pessoas que nunca ficaram tempo suficiente em lugar nenhum pra aprender o cheiro das coisas, mas que explicam o mundo como se tivessem inventado o mapa. hot take é isso… turismo emocional. passa rápido, tira foto, dá veredito e vai embora se sentindo profundo.
todo mundo hoje quer pular direto pro julgamento. o processo é chato demais. observar exige humildade. escutar exige estômago. e ficar confuso, esse crime hediondo, exige coragem. muito mais fácil sacar uma frase curta, afiada, com aquela confiança plástica de quem nunca pagou o preço de estar errado.
e não é coincidência que todo hot take soe igual. mesma entonação moral, mesmas palavras da semana, mesma urgência fabricada. parece cardápio de aeroporto, tudo “internacional”, tudo sem gosto, tudo feito pra ninguém reclamar. discordar virou ameaça, nuance virou suspeita, ambiguidade virou falha de caráter.
as pessoas não querem mais conversas, querem vitórias. querem sair por cima, sair citáveis, sair printáveis. diálogo virou esporte de combate, só que sem suor, sem sangue, sem consequência real. você bate, coleta aprovação e vai dormir achando que cresceu. não cresceu. só se ouviu ecoando.
o mais perverso é que isso cria a ilusão de profundidade. como se dizer algo rápido fosse sinal de inteligência. como se complexidade fosse fraqueza. como se o mundo, esse lugar caótico, contraditório, cheio de exceções nojentas, pudesse caber numa frase de efeito digitada enquanto você espera o elevador.
e sabe, no meio disso tudo, a gente vai perdendo o tato humano. o olhar sustentado. a pausa desconfortável. a conversa que não sabe onde vai dar. aquela troca lenta, meio torta, onde ninguém ganha, mas alguém aprende alguma coisa. isso não tem palco. não tem corte. não tem legenda espirituosa.
ninguém mais quer ficar tempo suficiente pra ser mudado. todo mundo quer entrar, falar, sair ileso. opinião virou colete à prova de dúvida. e dúvida, hoje, é vista como fraqueza, quando na verdade é a única coisa que presta.
antigamente você aprendia ouvindo gente que sabia mais que você. hoje você aprende performando pra gente que sabe o mesmo ou menos. é um círculo fechado de certezas recicladas, um rodízio infinito de frases prontas passando por bocas diferentes.
e aí alguém diz: “talvez a gente devesse falar menos”. heresia.
“talvez ouvir mais.” escândalo.
“talvez não ter uma resposta imediata.” imperdoável.
mas é exatamente aí que mora a única coisa ainda viva. no intervalo. no silêncio. no desconforto. na conversa que não vira conteúdo. na experiência que não vira opinião. na noite que não termina com conclusão nenhuma.
porque viver nunca foi sobre chegar no ponto final. isso é coisa de gente com pressa de parecer sábia.
viver é ficar no meio do caminho tempo suficiente pra se sujar.

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2025

havaianas

acordei com cheiro de queimado no ar.
não era floresta. não era óleo de motor em queimada ilegal.
era plástico. borracha. o símbolo máximo do verão tupiniquim em combustão… havaianas, pegando fogo em vídeos de story com a mesma dramaticidade de um episódio de novela mexicana.
e tudo por quê?
por causa de uma propaganda de fim de ano.
com fernanda torres, claro. aquela que você respeita só até ela dizer algo que contrarie o seu feed.
“não entre 2026 só com o pé direito. entre com os dois.”
pronto. corta para… histeria coletiva.
os teóricos do caos digital interpretaram essa frase como se fosse um código secreto da nova ordem mundial.
“pé direito = direita. ah, então é contra a direita? meu deus. temos um golpe!”
gente no instagram chorando em posição fetal sobre um tapete de grama sintética.
influencer gravando vídeo, olhando pra câmera como se tivesse assistido a execução pública de dom pedro I em hd.
“nunca mais compro havaianas” disse o cidadão que tem quatro pares no armário e um no pé enquanto grava o vídeo.
e aí vieram os grandes generais do delírio…
eduardo bolsonaro, com aquele carisma de samambaia vencida, apontando o dedo pra um comercial de chinelo como se tivesse encontrado o manifesto comunista impresso na sola.
nikolas ferreira, aquele aluno que copia a lição errada, subindo em caixa de som pra avisar que o fim dos tempos chegou… com tirinha colorida.
a hashtag #havaianasnolixo subindo mais rápido que inflação em ano eleitoral.
até aí, tudo previsível.
a ala do “mimimi é coisa de lacrador” provando, mais uma vez, que são os maiores chorões da história do continente.
a galera que diz “chora mais, esquerdista” tava literalmente jogando chinelo no lixo com trilha sonora triste como se tivessem sido traídos por um par de sandálias.
um espetáculo patético.
o que falta em coerência, sobra em performance.
mas aí…
mas estamos falando de brasil e sim, sempre têm o plot twist.
enquanto uma parte da população queimava havaianas em praça pública digital, a outra…
correu pras lojas.
sim, o brasileiro é um gênio do caos.
enquanto metade chorava, a outra metade dava risada e comprava o mesmo chinelo em promoção.
teve fila. teve esgotamento de modelos. teve gente postando “agora sim vou comprar 5 de cada cor”.
teve gente criando meme…
“meu pé é progressista.”
“essa havaiana pisa mesmo.”
montagem da fernanda torres com armadura de guerreira da representatividade.
vídeo de pessoas entrando com os dois pés literalmente, sambando dentro da loja da havaianas.
e aquele, claro, do cara abrindo o portão do inferno com uma sandália dizendo… “entrei com os dois pés, e foda-se.”
o brasileiro é a versão latina de um gremlin molhado.
quanto mais caos você joga, mais ele se multiplica, ri, edita, compartilha e transforma tudo num universo paralelo onde o sarcasmo é língua oficial e a ironia paga imposto.
o mais delicioso?
a própria marca, a havaianas, não disse uma palavra.
nada. nem uma vírgula.
ela assistiu de camarote, enquanto o país derretia em threads e reels e stories e linchamentos simbólicos.
e no meio do tiroteio, ela vendeu. vendeu pra caralho.
ações caíram no começo? sim.
mas o barulho virou buzz, o buzz virou trend, e a trend virou capital cultural.
se você acha que ela perdeu, você é novo aqui.
no brasil, cancelar é fazer propaganda gratuita.
cancelar é impulsionar.
é colocar o produto na boca da massa.
a pessoa que te xinga hoje é a mesma que daqui a dois meses vai comprar a versão collab com a farm porque achou a estampa “vibrante”.
então no fim, todo mundo saiu ganhando.
até o idiota que queimou o chinelo, porque agora tem vídeo viral com 30 mil views e um link na bio vendendo curso de “despertar conservador”.
e eu?
eu tô aqui.
cansado.
observando esse país que conseguiu transformar um calçado feito pra andar na areia e tomar cerveja num símbolo de guerra civil estética.
um país onde a direita chora por chinelo e a esquerda transforma meme em ideologia de consumo.
onde a militância é movida por algoritmos, e a identidade é medida em número de curtidas.
e fernanda torres?
essa já tá deitada na rede, rindo.
enquanto você briga por frase de 5 segundos, ela tá sendo chamada de ícone, musa, herege, salvadora, bruxa, lenda, traidora, visionária, comunista, heroína e atriz global decadente… tudo ao mesmo tempo.
e a verdade, como sempre, tá ali no meio.
ninguém tá certo. ninguém tá errado.
todo mundo tá apenas… brasileiro.
vivendo, performando, gravando o próximo reels com trilha de “evidências” e uma legenda tipo…
“quando você descobre que até o chinelo tem opinião.”
passa o gin.
e que venha o próximo escândalo inventado.
porque nesse país, a próxima crise começa em três, dois, um…

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2025

então é natal

final de ano é aquele fenômeno curioso em que o tempo não passa, mas o relógio insiste. os dias entre o natal e o ano novo formam um limbo social onde ninguém sabe que dia é, mas todo mundo sabe que está levemente irritado. você acorda, olha o celular, vê mensagens que não pediu, responde com emojis que não representam nada e já se sente cansado. e ainda nem almoçou.

as pessoas ficam estranhamente performáticas. todo mundo anda com um senso de urgência que não leva a lugar nenhum. “antes do ano acabar”, dizem, como se o ano fosse uma porta automática prestes a fechar e alguém fosse ficar do lado de fora pra sempre. spoiler: não vai. o ano acaba indiferente, sem olhar pra trás, como um garçom cansado ignorando o último cliente que ainda quer sobremesa.

as festas funcionam num protocolo invisível. você chega, cumprimenta, repete a mesma conversa três vezes com pessoas diferentes e começa a perceber que poderia ter gravado respostas padrão. “e o trabalho?” ocupado. “e a vida?” indo. “e os planos?” vamos ver. ninguém quer detalhes. detalhes dão trabalho.

a comida fica lá, ocupando espaço emocional. ninguém está com fome de verdade. as pessoas comem porque está ali, como se fosse um teste social. se você não comer, alguém vai notar. se você comer demais, alguém vai comentar. então você come o suficiente pra não virar assunto, o que é o verdadeiro objetivo de qualquer refeição em dezembro.

o álcool, esse sim, entende tudo. ele não julga, não pergunta planos, não espera nada de você. ele só entra, organiza o caos interno por algumas horas e depois vai embora deixando um bilhete escrito “problema seu”. honesto. refrescante.

a conversa sempre desce praquele território nebuloso onde alguém solta: “esse ano passou rápido, né?” e todo mundo concorda automaticamente, mesmo sabendo que foi longo, cansativo e cheio de reuniões que poderiam ter sido e-mails. mas discordar exigiria reflexão, e ninguém veio pra isso.

quando o réveillon se aproxima, surge o teatro principal. roupas escolhidas como se fossem importantes, cores simbólicas que ninguém lembra o significado, rituais repetidos sem muita convicção. não é fé, é hábito. e hábito é só fé cansada.

a contagem regressiva começa e, por dez segundos, existe uma concentração coletiva impressionante. todo mundo focado. unidos. atentos. zero. explosão de barulho. abraços desalinhados. desejos genéricos. “tudo de bom”. o que é tudo de bom? ninguém sabe. mas soa educado.

logo depois, a energia cai. rápido. você sente. é quase físico. o momento passou e deixou para trás copos vazios, promessas sem contrato e um silêncio estranho disfarçado por música alta. alguém já está falando de ir embora. alguém já está falando de continuar. ninguém sabe o que quer, só sabe que não quer estar completamente só ainda.

final de ano não transforma ninguém. ele só amplifica. quem é inconveniente fica mais. quem bebe, bebe mais. quem finge, finge com mais empenho. é um espelho mal iluminado, mas ainda assim um espelho.

e no dia seguinte, tudo fica estranhamente normal. sobra de comida, fotos tremidas, mensagens atrasadas. o mundo continua exatamente onde estava. nenhuma revelação. nenhuma mudança estrutural. só você, um pouco mais cansado, um pouco mais cético, e completamente certo de uma coisa:

ano que vem vai ser igual.
e você vai estar lá de novo.

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2025

a cor do ano…

imagine um grupo de adultos bem pagos, sentados em torno de uma mesa iluminada por luz fluorescente, segurando amostras de papel, falando sério, seriamente, sobre o que a humanidade deveria olhar e sentir em 2026. e depois de meses analisando filmes, memes, geopolítica, crises climáticas, guerras, ansiedade global e a queda vertiginosa do senso comum… eles decidiram que a cor do ano seria… um branco. um branco!

o nome? cloud dancer. porque claro, não basta ser branco, tem que ser branco com aspiração. com pretensão. com aquela camada cremosa de conceito vazio que só marketing consegue espalhar como maionese em pão dormido. não é só branco… é a pureza do branco, o silêncio do branco, a calma anestésica do branco. é o tipo de branco que tenta ser espiritual mas soa como sala de espera de clínica dermatológica.

essa escolha, vamos chamar as coisas pelo nome, é o equivalente visual de uma palestra motivacional corporativa com palavras como “resiliência” e “propósito” estampadas em slides com imagens de montanhas. a cor que diz… “relaxa, finge que está tudo bem”. é o vazio pintado de conceito. o minimalismo usado como desculpa pra não sentir nada. é um não-posicionamento disfarçado de tendência.

em um mundo em chamas, literal e figurativamente, eles olham pro caos e respondem com um branco. um não-cor. uma desistência cromática. um “vamos fingir que recomeçamos” estampado em paredes que não contam história nenhuma. tudo isso no exato momento em que deveríamos estar mergulhando de cabeça em tons sujos, confusos, contraditórios. cores de verdade. cores que fedem, que provocam, que fazem pensar.

mas não. o escolhido foi o branco. talvez porque seja mais fácil vender almofadas e tênis e paredes “refrescadas” com um tom que não incomoda ninguém. talvez porque o branco seja perfeito pra essa era de curadoria excessiva e desconforto emocional mal resolvido… onde todo mundo quer parecer calmo, limpo, neutro… mesmo que por dentro esteja fervendo.

e claro, os arquitetos de feed já estão prontos pra repetir o script… “traz paz”, “abre o ambiente”, “clareia o espírito”. tudo muito bonito, desde que você ignore que o mundo real é barulhento, sujo e fedido. o mundo real não é branco. o mundo real é gordura grudada no azulejo da cozinha, é garrafa vazia em cima da pia, é parede manchada de dedo, é bagunça que conta histórias. cloud dancer não é o mundo real. é a estética do escapismo.

e se você achou tudo isso exagero, ótimo. significa que o marketing funcionou. significa que você talvez já tenha um quadro bege pendurado na sala, com uma frase motivacional escrita em tipografia minimalista. talvez você já esteja planejando comprar uma camiseta cloud dancer pra postar um “look clean, mente leve” no stories. e tudo bem. só não diga que não te avisei.

cloud dancer é isso, a cor do ano que não quer ser sentida. quer ser tolerada. aceita. ignorada com classe. então, quando te perguntarem se você curtiu a cor de 2026, diga o que importa…
“é só branco. com nome bonito e um monte de gente tentando te vender paz de espírito em 12 vezes sem juros.”

e depois disso, vai fazer algo que tenha cor de verdade. tipo viver.

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2025

o próximo beatles

não.
não vão existir outros beatles.
não agora, não depois, não quando a ia aprender a fazer mágica com plugins de voz nem quando algum garoto genial de 19 anos lançar o álbum da década direto do quarto dele com led roxo e tapete redondo comprado no mercado livre.
não vão.
não importa o quanto você deseje, manifeste, ore ou peça num tweet com gif de john lennon e um coração partido.
não vai ter.
ponto.
porque o beatles não foi só uma banda.
foi um cometa malcriado, um 3i atlas, que cortou o céu cultural de uma época que ainda acreditava que a música podia mudar alguma porra de verdade.
e hoje a gente não acredita nem em silêncio.

o beatles foi o último milagre musical antes do mundo virar um campo de concentração de cliques, métricas e curadoria de conteúdo com voz suave e gatilho emocional.
foi a última vez que quatro humanos sentaram numa sala, fumaram demais, se odiaram em silêncio e, mesmo assim, pariram uma sequência de discos que faria qualquer deus pagão largar o cargo.
o beatles foi erro. acidente. tempestade.
e é por isso mesmo que não se repete.
não tem como repetir um fenômeno que nasceu justamente porque ninguém esperava que aquilo funcionasse.

e hoje?
hoje todo mundo já espera que funcione.
e se não funcionar até a terceira faixa do disco, o artista vira “promessa frustrada” no post de alguém que escuta música no fone de ouvido do metrô enquanto responde email com a ponta do nariz (você já fez isso, eu sei).

o mundo de hoje não quer outro beatles.
o mundo de hoje quer fast food emocional com embalagem “estética” e sabor de déjà-vu.
quer música que você ouve e já esquece.
quer letra que parece frase de legenda no instagram de loja de roupa vintage.
quer batida feita pra vídeo de trend com cachorro.
quer artista acessível, carismático, com feed organizado, discurso alinhado, lifestyle aspiracional, boas causas na bio e, claro, zero risco.
nada de desafinar.
nada de desafiar.
nada de fazer a gente pensar.
só entrega. de preferência, com filtro.

o beatles não fazia entrega.
o beatles jogava um álbum na tua cara e dizia… engole isso, mesmo que você precise de dez anos pra entender.
“tomorrow never knows” era meditação de ácido prensado em fita.
“i am the walrus” era caos literário com ironia e trip infantil.
“a day in the life” era o som da sociedade entrando em colapso em câmera lenta.
tudo isso dentro de um disco vendido como “pop”.
hoje, essas músicas não passariam nem da pré-seleção do algoritmo.
ninguém teria paciência.
e ninguém mais quer ser desafiado.

o beatles era fricção pura.
john, o niilista com voz de revelação.
paul, o melódico obsessivo que sorria enquanto cortava a jugular criativa de quem não tocava no tempo.
george, o místico calado que aturou anos como figurante de luxo até dar um tapa cósmico na mesa com “something”.
ringo, o coração da banda, que fazia o impossível… ser absolutamente essencial sem precisar provar nada.
quatro forças incompatíveis.
e, mesmo assim, funcionava.
porque havia tempo.
e havia permissão pro erro, pra ideia ruim, pra viagem estranha.
e, principalmente, porque ninguém tava tentando ser palatável o tempo todo.

quem tem permissão hoje?
ninguém.
o artista hoje nasce com as rédeas no pescoço e um cronograma de conteúdo na mão.
precisa lançar uma música a cada duas semanas pra “manter relevância”.
precisa contar a história por trás da faixa num vídeo vertical.
precisa manter um relacionamento saudável com os fãs, falar de saúde mental e parecer humilde, mesmo que esteja afundado num poço de insegurança e ódio silencioso.
não pode ser arrogante.
não pode sumir.
não pode ter um álbum ruim.
não pode pirar.
não pode virar a porra de um beatle.

o beatles era uma banda que podia pirar.
“revolution 9” é basicamente um colapso nervoso sonoro em forma de arte.
e tá lá, no disco mais vendido do planeta.
alguém hoje lançaria isso?
sim.
só que como nft conceitual que ninguém vai ouvir, mas vai servir pra justificar um projeto de branding numa agência de publicidade.

e se o beatles tivesse nascido hoje, no tempo do tiktok e da métrica diária, o que ia acontecer?
iam se dissolver antes do rubber soul.
john ia ser cancelado por alguma merda que falou em 1962.
paul ia dar entrevista com discurso pronto de coach musical.
george ia virar lenda cult com 30 ouvintes mensais.
e ringo ia ser chamado de “carismático mas tecnicamente fraco” num vídeo de react de um moleque que nunca segurou uma baqueta na vida.

e o público?
o público ia ouvir “helter skelter” e comentar “massa, lembra uma vibe meio arctic monkeys”.
o público ia ouvir “across the universe” e usar de trilha pra vídeo com letra no fundo e nuvem passando na frente.
o público ia ouvir “eleanor rigby” e dizer “muito triste, me lembra minha ex”.
porque o público, meus amigos, não está mais treinado pra escutar.
está treinado pra consumir.
pra catalogar.
pra colocar no mood certo.
pra “curtir” sem mergulhar.
e arte que não mergulha, afoga quem a faz.

não existe mais beatles porque não existe mais condição pro beatles acontecer.
não é falta de talento.
não é falta de ideia.
é excesso de ruído.
é excesso de medo.
é excesso de expectativa de que tudo tem que vir perfeito, embalado, aprovado, adorado.
e o beatles não era nada disso.
o beatles era o erro que deu certo.
era a faísca antes do incêndio.
era o caos que virou harmonia.
e isso, meu chapa, não se programa.
se permite.

e o mundo não permite mais.

então para de procurar o próximo beatles.
não tem.
ouve o que sobrou.
ouve com calma.
ouve “because” e tenta entender como alguém escreveu aquilo sem medo de soar brega.
ouve “blackbird” e percebe que tem mais verdade ali do que em 90% do catálogo do spotify.
ouve “i’m only sleeping” e veja um homem adulto admitir que não quer sair da cama… e ser poético nisso.
ouve “she’s leaving home” e diga se alguém hoje teria coragem de escrever sobre uma filha fugindo porque se sentia invisível.

e depois disso, olha em volta.
respira fundo.
e aceita.

não.
não vão existir outros beatles.
e talvez isso seja bom.
porque o beatles não merece ser repetido.
o beatles não cabe num mundo onde ninguém mais tem coragem de soar estranho.

e estranho, é o que move a arte de verdade.
o resto é só playlist de escritório com cara de genialidade.