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2025

lawrence

então vamos lá.
hoje à noite, porque aparentemente gosto de ser punido com classe, enfiei meu corpo mole e meu espírito mais mole ainda no sofá e dei play, mais uma vez, nessa muralha de celuloide chamada lawrence da arábia.
3 horas, 41 minutos e 20 segundos de puro cinema.
e quando eu digo “puro cinema”, não estou falando de narrativa coesa, desenvolvimento emocional ou qualquer baboseira que oficina de roteiro básico costuma empurrar. tô falando de delírio visual, pretensão épica, um tapa colonial envolto em panos brancos e olhos azuis absurdamente irritantes.

ver esse filme hoje é quase um ato de sabotagem espiritual.
é lembrar, de forma dolorosamente lenta e majestosa, que já houve um tempo em que o cinema era feito não pra agradar, mas pra esmagar. e esmagava com elegância. com sutileza. com camelos, pólvora e um protagonista que mais parece uma entidade narcísica do que um ser humano funcional.

peter o’toole não atua.
ele desfila pela tela como se fosse um anjo albino pós-apocalíptico recém-saído de um spa imperial. ele tem aquela beleza irritante e gélida de quem nunca foi realmente tocado pela vida. ou pela realidade. ou pelo calor do deserto, o que é curioso, já que ele passa a maior parte do filme no meio de uma fornalha chamada oriente médio.

e por falar em deserto…
ah, o deserto. o verdadeiro protagonista.
nunca um pedaço de areia foi filmado com tanto fetiche. cada plano é uma tentativa clara de te lembrar o quanto você é pequeno, frágil, urbano, ridículo. o deserto não fala. não explica. não responde. ele só está lá, imenso, silencioso, completamente desinteressado no teu sofrimento.
e lawrence?
ele olha pro deserto como quem olha pra um espelho e finalmente vê algo digno de ser admirado, a própria loucura refletida no nada.

é isso que o filme entende, e esfrega na tua cara o tempo todo… não há redenção no heroísmo, só vício.
não há pureza.
há uma espécie de tesão contido na tragédia.
e esse homem, esse tal de lawrence, com sua mania de grandeza, sua retórica poética e sua recusa em ser apenas um ser humano medíocre, é o veículo perfeito pra isso.

cada frase que ele solta parece escrita por um poeta bêbado e depois reeditada por um propagandista de império.
“nada está escrito.”
mentira.
está tudo escrito.
só que ele finge que não, porque precisa acreditar que está fazendo história, não apenas repetindo um padrão bem gasto de dominação disfarçada de iluminação.

e então vem a tal cena. aquela que sempre me faz rir de nervoso.
ele executa o homem. aquele que ele mesmo salvou. e diz, sem piscar… “eu gostei.”
a frase mais sincera de todo o épico. ali não tem máscara. não tem império. não tem estratégia.
só um homem descobrindo que o poder, a violência e o controle são, de fato, bastante satisfatórios.
e tudo isso filmado com tanta beleza, tanta dignidade estética, que você quase esquece que está assistindo um colapso moral em tempo real.

porque é isso, lawrence da arábia é um filme sobre queda.
uma queda gloriosa, lenta, cheia de vento e silêncios dramáticos.
é sobre um homem que acreditou ser uma ideia.
e no fim, percebeu que a ideia era maior do que ele.
e pior, mais vazia.

o final não entrega nada.
não há catarse.
não há lição.
ele entra num carro. um motorista faz um comentário qualquer. a câmera se afasta. o deserto desaparece. o mito vira sombra.
fim.
e você fica ali, parado, com a alma desidratada, o queixo meio torto e a sensação de que assistiu a uma coisa que te destruiu um pouco.
e que, de algum jeito, você precisava disso.

e então vem a pergunta inevitável, que sempre me visita depois da sessão…
por que eu assisto isso?
por que eu volto?
por que eu me submeto, de novo e de novo, a esse desfile de miséria emocional, fetiche colonial, travessia suicida e frases que deveriam ser gravadas em mármore?

simples.
porque lawrence da arábia é o lembrete mais cruel e necessário de que o épico de verdade não precisa de lição de casa, de redenção, de arcos emocionais previsíveis.
ele só precisa de convicção.
e convicção, meu amigo, é coisa rara.
especialmente num mundo onde tudo vem com manual, tutorial, final fechado, e selo de “aprovado pelo comitê da experiência agradável”.

lawrence da arábia não quer que você goste.
ele quer que você sinta.
mesmo que seja desconforto.
mesmo que seja angústia.
mesmo que você termine exausto, repensando a própria existência, o próprio lugar na história, e até o próprio gosto por cinema.

e é por isso que eu volto.
porque no fundo, muito fundo, eu também quero atravessar um deserto só pra descobrir que o que eu procurava… nunca esteve lá.

só eu mesmo.
com a areia nos olhos e aquele sorriso torto de quem entendeu, tarde demais, que ser lenda é um negócio profundamente solitário.
e bonito.
e inútil.
como tudo que realmente vale a pena.

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2025

afeto sob demanda

eu vi um bebê reborn na rua.

não num evento, não numa exposição esquisita, não como peça de museu experimental sobre solidão urbana.

na rua. terça-feira. quatro da tarde.
ao vivo. e a cores.

uma mulher adulta, vestida como quem saiu do salão e não tem contas vencendo, andava com um bebê nos braços. cabeça inclinada, sorriso suave, aquele olhar bobo de quem encontrou sentido na vida.

mas tinha algo errado.
eu olhei de novo. o bebê não se mexia.
nem uma piscadinha, nem um reflexo de sol no olho, nada.

a pele era perfeita demais.
plástica demais.
clínica demais.

eu congelei por dois segundos, e nesse curto espaço de tempo, meu cérebro escaneou três hipóteses:

1. o bebê tá morto e ninguém percebeu.

2. é um sequestro em câmera lenta.

3. o fim da humanidade chegou e eu não recebi o memorando.

a resposta era pior.
era um boneco.

um bebê reborn.

feito com silicone, vinil e delírio emocional.
uma réplica grotescamente detalhada daquilo que um dia foi a coisa mais humana do mundo… um recém-nascido.

só que sem alma.

eu fiquei parado. observando.
ela ajeitava a touquinha do boneco com um cuidado de maternidade premiada.
dava tapinhas leves nas costas.
balançava os quadris como quem embala o próprio útero.

e o pior… falava com ele.

com ele, entenda.
não com “isso”.
não com o “boneco”.

com o filho imaginário, o símbolo terapêutico, a obra de arte emocional que agora respira apenas no feed do Instagram e no coração da carência.

e o mundo ao redor?
ignorando.
passando.
como se fosse uma terça-feira comum.

como se não estivéssemos diante de uma cena que resume perfeitamente a queda vertical da sanidade moderna.

porque é isso que é o bebê reborn…
um sintoma.
um grito silencioso de uma sociedade que perdeu a mão, o filtro, o tato.

uma sociedade que olha pro afeto e pensa…
“e se eu pudesse tirar tudo que incomoda nele?”

chorar?
não precisa.

crescer?
pra quê?

ser real?
melhor não.

é o filho ideal.
feito sob medida pra uma era onde o “parecer” vale mais que o “ser”.
onde amar alguém de verdade virou tarefa arriscada demais… porque exige presença, escuta, frustração, erro, cheiro de leite azedo e noites mal dormidas.

então a gente inventou o reborn.

um bebê que não te pede nada.
não exige noites sem dormir.
não joga a verdade na tua cara aos 17 anos, nem te chama de hipócrita, nem se muda pra uma comunidade de rave aos 19.

ele só existe ali, quietinho, como o altar portátil do teu autoengano.

e olha, eu entendo.
de verdade.

o mundo tá caótico.
o toque humano virou ameaça.
os vínculos estão todos em crise.
a solidão ficou sexy.
e a ideia de ter algo que dependa de você, te olhe nos olhos e diga “me ajuda”… assusta.

então, por que não um bebê fake?
por que não amar uma coisa que não pode fugir?

o reborn é um afeto sem risco.
uma carência com planejamento.
é o tipo de relação que nunca te decepciona, porque ela não existe.

e é justamente por isso que funciona.
porque esse boneco, esse projeto de filho feito em fábrica e embalado com fita mimosa, diz muito mais sobre nós do que qualquer manual de psicologia moderna.

ele revela uma geração com medo da dor, do imprevisível, do humano.

uma geração que prefere uma mentira bem pintada a uma verdade feia.
que abraça plástico e chama de paz.
que embala silicone e chama de amor.

e a mulher ali?
seguia andando.

orgulhosa.
plena.

cercada de olhares de aprovação, alguns até de inveja.
como se ela tivesse descoberto o segredo do afeto perfeito.

e talvez tenha.
se o segredo for esse…
remova tudo que é real, e pronto. ninguém se machuca.

eu fiquei ali parado.
rindo.
sozinho.
como quem acaba de entender a piada mais triste do século.

porque aquele bebê, nos braços dela, era o produto final de uma cultura que não quer mais sentir nada que não venha com garantia estendida.

o afeto foi domesticado.
a maternidade virou performance.
e a dor, agora, é coisa que se resolve com delivery.

e você ainda acha que o mundo não acabou.

meu amigo e amiga…
o mundo já era.

só esqueceram de desligar a luz.

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2025

espaço, a fronteira final

sabe o que me fascina nessa palhaçada cósmica dos bilionários?
não é a tecnologia. não é a ciência.
é a cara de pau. a audácia intergaláctica de transformar o espaço, aquele último santuário do desconhecido, onde antes só pisava quem carregava nas costas o peso da humanidade, num parque temático de ego inflado, com foguetes pintados com batom corporativo e batizados com nomes que soam como senha de wi-fi de cafeteria chique.

o espaço, meu amigo, virou brinquedo de luxo pra esses três mosqueteiros da megalomania… bezos, musk e branson. um desfile de meias-calças espaciais, cápsulas fálicas e promessas de colonizar marte com gente que não consegue nem manter um fórum online sem virar rinha de bot.

e aí entra o cara que li hoje sobre. o cidadão que desembolsou 28 milhões de dólares pra passar sete minutos flutuando na blue origin. sete minutos de silêncio desconfortável ao lado de jeff bezos, o careca que olha pro espaço com a mesma empolgação que olha pra um relatório trimestral. sete minutos ouvindo aquele sorriso sem alma tentando soar humano enquanto você torce pra cápsula dar problema só pra ter uma história decente pra contar.

e se fosse eu com 28 milhões?
me dá só 8 deles. só oito. juro que faço render.

– com 3 milhões, eu criava uma fundação global chamada “fique por lá, jeff”, dedicada exclusivamente a garantir que o bezos e seus clones da techland nunca mais tenham que voltar pra terra. passagens só de ida, sem reembolso, com estadia vitalícia em órbita baixa e dieta de purê desidratado.

2 milhões iam pra subornar engenheiros do setor aeroespacial pra discretamente remover qualquer botão de “voltar pra casa” da cápsula do jeff. só o botão “play” com loop infinito de palestras dele sobre “resiliência no varejo digital”.

1 milhão pra comprar um pedaço de terreno no meio do nada, tipo interior da mongólia, e construir um museu do “narcisismo espacial” só fotos dos bilionários apontando pra estrelas com a legenda “aqui fica meu ego”.

– os últimos 2 milhões? simples. campanha internacional de marketing… outdoors, redes sociais, trailers antes de filmes da marvel, tudo com a frase “manda o bezos pra órbita e deixa ele lá”. com sorte, viraliza. com mais sorte ainda, o musk e o branson ficam com ciúmes entram na trend.

e falando neles…

o elon musk é o tony stark de filme b. o messias dos fóruns online, o homem que acredita piamente que vai salvar a humanidade enquanto xinga aleatoriamente jornalistas no twitter e toma decisões bilionárias com a maturidade emocional de um adolescente com déficit de atenção.
ele quer colonizar marte. MARTE. como se terraformar um planeta fosse algo que se resolve com um brainstorming e design thinking. ele quer uma civilização nova, só que com carros que explodem e wi-fi que cai toda vez que chove poeira marciana. e claro, só vai quem ele aprovar, porque pra esse tipo de salvador, a humanidade ideal é aquela que assina os termos de uso sem ler e compra ação da tesla até de cueca.

o elon não quer salvar o mundo. ele quer um novo playground onde ele seja deus, juiz, investidor-anjo e meme.
a terra tá dando trabalho demais. tem pobre demais, tem regra demais, tem gente demais dizendo “não”.
em marte, ele vai ser livre. livre pra criar uma utopia com as mesmas merdas daqui, só que com a gravidade aliviando o peso das consequências. e quem discordar? cancela o oxigênio.

e o branson? o branson é outra categoria.
não é o vilão clássico, é o guru do marketing de experiência. aquele que vende a viagem, a emoção, a sensação de transcendência… por um preço que só quem nunca lavou a própria roupa consegue pagar.
ele não quer colonizar planeta nenhum. ele quer vender o pôr do sol visto do espaço como se fosse ingresso de festival vip em ibiza. “suba até a estratosfera, sinta-se conectado com o universo, receba um certificado e um brunch orgânico flutuante com música ambiente”.

o branson é o tipo de cara que coloca som ambiente até no vácuo.
e se marte tivesse uma praia, ele já teria vendido cadeira com guarda-sol e mojito desidratado.
é o bilionário zen, o espiritualizado com jatinho particular, o que acredita que tudo pode ser resolvido com uma frase inspiradora bordada numa almofada flutuante. o espaço, pra ele, é um grande resort. e nós, os figurantes que não sabem o dress code.

esses três não estão indo pro espaço por nós.
estão indo por eles.
pra fugir do caos que ajudaram a criar. pra brincar de deuses em órbita enquanto a terra pega fogo, inunda, afunda e gira sem parar.

e se querem ir? ótimo.
só façam um favor… não voltem.
deixem a gente aqui, com nossos problemas reais, nossas frituras, nossos delírios honestos e nossa gravidade brutal.
porque por mais fodido que o planeta esteja… ainda prefiro ele sem vocês do que marte com buffet de gala e palestra motivacional às 6 da manhã.

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2025

okinawa

eu não cresci com incenso queimando na sala.
nem com retrato de antepassado olhando da estante. na minha casa, morte era aquilo que se escondia atrás de cortina branca, que se resolvia com flores compradas às pressas e uma oração decorada. morreu? enterra. chora. esquece. toca a vida.
ninguém me ensinou que o silêncio também fala.
ninguém me ensinou que os mortos, quando bem cuidados, não vão embora, eles ficam. e protegem.

foi só depois que conheci minha esposa que tudo começou a mudar.
ela me mostrou, sem discurso, sem tentar me converter, um jeito de viver onde os vivos e os mortos dividem a mesma mesa. uma cultura onde ancestral não é só nome em lápide, mas presença ativa, constante.
em okinawa, os mortos são tratados com uma dignidade que faria muita gente viva corar.

ela me levou um dia à casa da avó. simples. altar no canto. tudo limpo, contido, delicado. um pequeno espaço com tigelas, fotos antigas, um copo de café, arroz ainda quente.
e silêncio.
mas não aquele silêncio de quem não tem o que dizer.
era o silêncio de quem está dizendo tudo, sem abrir a boca.

foi aí que ouvi, pela primeira vez, sobre o ritual de okinawa.
não como uma lição. mas como quem me confia um segredo de família.
em okinawa, quando alguém morre, não se encerra a biografia, inicia-se um processo espiritual.

nessa cultura, aprendi que a morte não leva ninguém embora. ela apenas muda a forma de presença.
o nome disso? sosen suuhai. o culto aos antepassados. mas “culto” aqui não tem nada a ver com adoração cega ou misticismo barato, tem a ver com continuidade. com reconhecer que a vida é um fio longo, e que cada um de nós só existe porque alguém veio antes e segurou esse fio com firmeza.

os okinawanos sabem disso. por isso, quando alguém morre, não se apagam as luzes nem se fecha a porta. pelo contrário, abre-se um processo. um ritual de transição que dura 33 anos. trinta e três anos. você ouviu certo. num mundo em que a gente mal lembra o que comeu no almoço da semana passada, aqui se honra alguém por três décadas, com missas, oferendas, oração e presença constante. o morto vira um espírito em ascensão. uma entidade em formação. e, se bem cuidado, com o tempo, vira parte da “raiz-tronco” da família. não um fantasma, mas um alicerce. uma presença silenciosa que sustenta tudo.

e é aí que a ficha cai.
não estamos falando de religião. estamos falando de pertencimento. de identidade. de saber de onde se veio pra entender pra onde se vai. e de fazer isso com uma elegância que se aprende em casa. no altar. no silêncio.

os 49 primeiros dias são de intensidade absoluta.
dizem que o espírito ainda está aqui, vagando com os mesmos desejos, confusões e saudades de quando vivia.
é por isso que a cada sete dias, uma cerimônia.
sete no total.
comida feita com reverência, incenso aceso como quem acende um farol, palavras repetidas como mantras que costuram os mundos.
cada oferenda é um gesto de compaixão… “você ainda sente fome. você ainda pertence. estamos aqui.”
no 49º dia, queima-se o ihai, a tabuleta que representa o espírito em trânsito.
é a passagem.
não para longe, mas para o invisível.
o espírito cruza o limiar.
mas ainda precisa evoluir.

a partir daí, entra-se no tempo longo.
o tempo da purificação. da sublimação. da leveza que se alcança com o tempo, com a lembrança, com o amor que não se quebra.

no 1º ano de falecimento, a primeira grande cerimônia.
é como reafirmar o laço “não esquecemos de você. ainda caminhamos juntos.”
no 3º ano, o espírito começa a se libertar do peso da matéria. é quando dizem que ele começa a enxergar com clareza, a compreender a nova dimensão em que habita.
no 7º ano, o espírito começa a se tornar luz. não mais uma presença pesada, mas um ponto de orientação.
no 13º ano, é como se ele começasse a ser parte do tempo. já não precisa mais das mesmas oferendas, mas ainda é alimentado pelo que mais importa, a memória viva.
no 25º ano, como hoje, o espírito já está tão fundido à linhagem da família que é difícil separar lembrança de legado.
o que ele foi se confunde com o que a família é.
ele está no gesto da neta, no altar…
e por isso a cerimônia de hoje teve tanto peso.
o ojīchan, o avô da minha esposa, partiu há exatamente 25 anos.
mas dizer “partiu” é quase um erro.
porque hoje, ali diante do altar, ele estava presente.
vivo na fé silenciosa.
na lágrima contida da minha esposa.
no cheiro dos doces japoneses que preencheu a casa como se dissesse “sim, nós lembramos.”

e então virá o 33º ano.
o último rito.
não de fim, mas de consagração.
é nesse ponto que o espírito atinge o ápice da purificação.
tornou-se raiz.
tronco.
guia invisível.
não precisa mais ser chamado, porque já está em tudo.
na brisa que atravessa o quintal.
no bebê que nasce saudável.
no negócio que dá certo sem explicação.
na paz que chega de repente, num dia comum.

essa espiritualidade okinawana não grita, não exige, não ameaça.
ela apenas está.
firme. silenciosa. elegante.

e hoje, depois de ver tudo isso, depois de viver isso ao lado da família dela, minha família, eu não tenho mais dúvidas.
os okinawanos sabem algo que nós esquecemos.
eles sabem que viver de verdade é continuar cuidando, mesmo depois.
que o amor que sobrevive ao tempo é o que realmente molda uma família.

e que há mortos que, quando bem cuidados, não se tornam passado.
se tornam eternos.

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2025

hereges digitais

tá acontecendo uma coisa curiosa, quase comovente, se eu não tivesse perdido a capacidade de me comover com esse zoológico de tela sensível ao toque que virou o planeta. as pessoas, vejam só, começaram a desconfiar que talvez não precisem trocar tudo o tempo todo. sim, parece que a febre consumista crônica que transformou a humanidade numa manada de compradores compulsivos dopados de wi-fi tá… baixando. um milagre tecnológico sem padre e sem keynote da apple.

eu tô vendo com esses olhos míopes… gente que antes mal sabia a diferença entre um cabo e uma corda agora fuçando fóruns, vendo vídeo de russo abrindo smartphone com palito de dente, se enfiando em tutoriais como se tivessem descoberto o sagrado graal, o botão de reiniciar o próprio cérebro.

não é nem sobre economia. é sobre orgulho. é sobre enfiar a mão na carcaça de um aparelho, arrancar um parafuso maldito, trocar uma bateria estufada e dizer “não hoje, filho da puta. hoje eu te ressuscito.”

e, meu amigo e amiga, tem algo de deliciosamente obsceno nisso. consertar hoje é quase um ato terrorista. é cuspir no sistema que quer te ver trocando de aparelho mais vezes do que troca de cueca. é mandar um recado pros deuses da obsolescência programada… vocês vão ter que me engolir, porque eu aprendi a abrir e fazer funcionar de novo.

eu mesmo tô nessa. cansei de ser mais um zumbi de lançamento. agora, quando algo dá pau, eu encaro como missão de guerra. desmontar, limpar, remontar. às vezes piora, às vezes explode, às vezes dá certo. mas sempre vale mais que assinar contrato com mais uma operadora que quer te cobrar em prestações pelo privilégio de ser burro.

a verdade é que o mundo começou a mudar. devagar, como tudo que presta. no subsolo, no silêncio das bancadas improvisadas, entre uma chave torx e um tutorial mal legendado. um novo tipo de insanidade tá nascendo e ela não se alimenta de caixas novas, mas de carcaças velhas com chance de redenção.

bem-vindo à era dos hereges digitais. onde o novo é cafona, o brilhante é suspeito, e consertar virou a forma mais elegante de mandar o mercado pra aquele lugar.

e sinceramente? essa merda toda finalmente tá começando a fazer sentido.

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2025

design

design, pra mim, nunca foi ferramenta.
nunca foi “solução”.
nunca foi produto.

design, quando é de verdade, é desvio.
é rastro de pensamento bruto.
é ruído que escapa pela borda de uma ideia antes que ela fique bem comportada demais.

e eu aprendi isso não em curso nenhum, mas vendo o que me fazia parar.
cartaz de protesto com tipografia torta.
capas de disco que gritam sem pedir desculpa.
um lettering feito na pressa por alguém que não sabia as regras, e por isso acertou mais do que quem decorou todas.

design de verdade tem cheiro.
tem fricção.
tem ego.
tem dúvida.
e principalmente, tem coragem de existir sem tentar ser simpático.

essa coisa que chamam de bom design,
essa obsessão por equilíbrio, clareza, hierarquia visual, grade perfeita, alinhamento ótico,
tudo isso é bonito.
mas bonito é o que vem antes da emoção.
e eu não trabalho pra deixar bonito.
trabalho pra deixar incômodo.

eu me interesso por o que não encaixa.
pelo erro que virou estilo.
pela falha que virou assinatura.
por aquele projeto que o cliente odiou na primeira reunião, e não conseguiu parar de pensar depois.

sou formado por gente que nunca me deu aula.
por paula scher fazendo um logo que parece que grita com você.
por neville brody desenhando com raiva.
por david carson errando com método.
por massimo vignelli dizendo que só precisa de cinco fontes… e eu aqui, misturando 14 e achando lindo.

sou o que aprendi observando coisas que ninguém ensinava.
placas de rua. rótulos mal impressos. flyers de festa.
coisa feita com mais vontade do que permissão.

e por isso acredito, sem ironia nenhuma, que 1 + 1 = 1.000.000.

porque duas ideias não se somam.
se estranham.
se empurram.
se explodem.
e desse embate, se nasce alguma coisa que vale a pena, já não importa mais quem era 1 e quem era outro.

design não é matemática.
é alquimia.
é intuição vestida de vetor.
é acidente com direção.
é caos com elegância.

design não é o que aparece.
é o que permanece.
é o que fica depois do post.
depois do layout.
depois do pitch.

é o que vibra, o que provoca, o que desencaixa.

e se não vibrou, não provocou e encaixou fácil demais… então parabéns, você só fez mais um layout simpático.
mais um pdf que ninguém vai lembrar.

meu trabalho não é ser entendido.
é ser sentido.
nem sempre à primeira vista.
às vezes vem como incômodo.
às vezes como silêncio.
às vezes como aquele tipo de beleza que chega com delay, e quando chega, não sai mais.

design, pra mim, é isso.
um lugar onde o erro é parte do plano.
onde a lógica é uma sugestão.
onde estética é só a ponta de algo muito mais profundo…
uma ideia que, se não te moveu, era só enfeite.

e eu nunca fui do time do enfeite.

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2025

sócrates

olha, eu sei que é pedir muito, mas por que alguém ainda insiste em mergulhar de cabeça nesses livros de autoajuda com títulos do tipo “o universo está ouvindo você” ou “desperte seu poder em 5 passos” enquanto sócrates, aquele velho filho da puta de sandália gasta e sorriso cínico, tá ali no canto da livraria, ignorado, como se fosse só mais um maluco gritando sozinho na rua?

porque vamos falar a real, é fácil escutar um coach de boné e camiseta colada, com voz de radialista e o carisma de uma lasanha congelada, gritando “você é foda!” enquanto aponta pro espelho. ele te oferece conforto embalado em frases de geladeira magnética. ele não quer te desafiar. ele quer te iludir. quer que você compre o curso dele. o e-book dele. o lifestyle. é fast food emocional… rápido, barato e te deixa com ressaca moral depois.

sócrates? sócrates não vendia nada. nem ideia pronta, nem autoestima inflável. ele te desnudava com meia dúzia de perguntas. tirava sua alma pra dançar na praça pública e depois cuspia na sua arrogância. ele não queria que você se sentisse bem. ele queria que você encarasse o fato desconfortável de que talvez, só talvez, você seja um idiota que nunca parou pra pensar de verdade em porra nenhuma.

e é exatamente por isso que ele incomoda. porque ele não dá respostas. ele te faz duvidar até do seu nome. enquanto o coach te diz “acredite em você”, sócrates pergunta “quem é esse você em que você tá acreditando tanto, hein?”
e aí pronto… o chão desaparece.

ler sócrates hoje é quase terrorismo mental. é dar uma voadora no peito da cultura do “gratidão, universo!” e perguntar… gratidão pelo quê, exatamente? pelo vazio embrulhado em papel de presente? pelas metas trimestrais de felicidade? pelos stories motivacionais enquanto a realidade desmorona lá fora?

sócrates não tá nem aí pro seu mood board, pro seu planner personalizado ou pra sua “energia alinhada com o sucesso”. ele quer saber se você consegue, de verdade, sustentar o que diz acreditar. se você entende o que repete. se a sua vida faz sentido mesmo quando ninguém tá assistindo.

e assusta. porque não cabe num tiktok. não cabe num carrossel do instagram com frase do jung mal traduzida.
sócrates é ácido. é sujo. é honesto.
e honestidade hoje virou artigo de luxo.

então sim, leia sócrates.
não porque vai te deixar rico.
não porque vai melhorar seu networking.
mas porque vai te obrigar a ser alguém com vergonha na cara o suficiente pra admitir que não sabe porra nenhuma e ainda assim querer aprender.

e, convenhamos, nesse zoológico humano onde todo mundo acha que é guru de alguma coisa, ser alguém que pensa já te coloca perigosamente perto de ser humano de verdade. e isso, meu amigo e amiga… assusta muito mais do que qualquer “mindset de alta performance”.

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2025

segredo

eu criei uma parada. e foi foda. dessas que tu termina, olha e pensa… “eu sou bom pra caralho.” não aquele bom de linkedin, sabe? mas o bom suado, cheio de tesão e de vísceras. o tipo de bom que dá vontade de acender um cigarro e contemplar o caos da humanidade por meia hora. e aí, justo nessa hora, quando a alma tá vibrando numa frequência meio jazz sujo de nova orleans, vem a tentação maldita… contar pra alguém.

mas eu aprendi. aprendi da forma mais amarga possível… tipo pedir um steak tartare num boteco que só serve calabresa acebolada. tu mostra algo incrível e o outro responde com um “ah legal…” e pronto. a tua obra-prima vira figurante no episódio piloto da indiferença alheia. não importa que você tenha sangrado ideia, suado detalhe, moldado aquilo com as suas mãos de criador embriagado. pra quem não tem fome, até caviar parece ração.

então agora eu espero. 24 horas. é o meu ritual. meu jejum emocional. minha maratona de autoorgulho. crio algo e fico em silêncio. deixo ela crescer dentro de mim antes de soltar pro mundo. porque o mundo, meu amigo… o mundo é um restaurante self-service… muita opinião sem tempero e pouca fome de verdade.

e não é sobre esconder. é sobre proteger. sobre saborear a própria genialidade antes que alguém tente enfiar ketchup nela. é sobre saber que, às vezes, o melhor público que você pode ter é você mesmo… de ressaca, pelado e orgulhoso diante do espelho, encarando o que criou e dizendo… “caralho, eu fiz isso mesmo.”

e se depois de 24 horas ainda parecer brilhante… aí sim, talvez eu conte. talvez.

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2025

do lists

não lembro o primeiro item que escrevi numa do list.
não lembro o papel, nem a caneta, nem onde eu tava, só lembro da sensação.
como se, por um breve momento, eu tivesse poder sobre o caos.
como se, por um segundo, eu pudesse colocar coleira na besta.

tinha alguma coisa entre a fome e o desespero naquela escrita.
não era tipo “ir ao mercado” ou “comprar shampoo”.
era mais assim “provar que não sou um fracasso antes das 18h.”
era a frase de um animal encurralado.
era um grito disfarçado de plano.

e desde então, foi isso.
foi sempre isso.
eu escrevo pra existir.
pra lembrar o que tô fazendo aqui.
porque o mundo não manda bilhete de boas-vindas pra ninguém.
ninguém vai bater na tua porta com uma prancheta dizendo “aqui, ó… sentido pra sua existência”.
então você escreve.
você inventa.
você sangra no papel.

e a lista vai crescendo.
vai ganhando forma.
como um corpo estranho que agora mora com você.
cada folha é um retrato sujo da tua mente naquele dia.
tem coisa banal, tipo “desentupir pia”.
tem coisa insana tipo “destruir aquele medo antigo que ainda mora entre as costelas”.
e tem coisa que você nem lembra de escrever, mas tá lá.
te olhando.
te cobrando.
te julgando como um espelho bêbado.

e aí, um dia, por acaso, zapeando entre um vídeo aleatório e outro, me dei de cara com uma entrevista da cynthia rowley, aquela figura meio punk, meio deusa doméstica da desordem elegante, falando sobre listas.
e ela falou assim, com a naturalidade de quem já queimou calendários só por tédio
“eu não faço to do lists. eu faço do lists. o ‘to’ é perda de tempo. é pra quem gosta de fingir que vai fazer.”

e naquele segundo, como uma epifania, tudo fez sentido.
eu pausei o vídeo, levantei devagar, e pensei,
é isso.
é exatamente isso.
o “to” é um enfeite.
um rímel em cadáver.
um pretexto linguístico pra adiar a própria vida.

desde então, nunca mais escrevi “to do”.
matei esse “to” com requintes de crueldade.
não é uma lista de intenções.
é uma ordem de batalha.

do list.
curta, cruel e sem piedade.

porque foi vendo aquela entrevista que eu entendi…
organizar o caos é uma arte.
mas fazer isso com estilo, com aquela mistura insuportável de leveza e precisão, é um ato de guerra silencioso.
e eu tava pronto pra ele.
minhas listas viraram mais do que plano.
viraram identidade.

escrevo nelas como quem escreve num testamento.
com a pressa de quem não confia no amanhã e a ironia de quem já morreu algumas vezes e voltou.
cada item riscado é um pedaço meu que venceu o tédio, a dúvida, a morte lenta do dia-a-dia.

e quando a coisa aperta, quando tudo parece girar em espiral e nada faz mais sentido,
eu volto pra ela.
a lista.
minha bússola, minha cicatriz, meu altar.

e lá tá escrito, entre uma tarefa idiota e um mandamento vital…

“lembrar: se você se ouvir falando e parecer um post do linkedin, para tudo.”

e eu levanto.
e sigo.
porque o “to” é uma mentira bonita.
o que resta é só o do.
e a coragem de continuar riscando.

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2025

organização

quando eu era moleque, o quarto era meu vietnã.
nada funcionava.
nada fazia sentido.
era tudo barulho, bagunça e sobreposição de crises.

o abajur pendurado por um fio,
pilha de roupa misturada com livro de escola,
resto de lanche embrulhado num guardanapo dentro da gaveta de meias,
e um pôster do pulp fiction amarelado me olhando como se dissesse…
“boa sorte, otário.”

e eu achava que era parte da estética, do charme.
o mito do caos criativo.
como se viver na bagunça fosse sinal de genialidade latente, e não de falta de noção básica e um leve toque de delírio juvenil.

por anos fui esse personagem.
fingindo que me encontrava na confusão.
mas a verdade é que a confusão me engolia.
até que um dia eu cansei de tropeçar em coisas que nem sabia que estavam ali.

hoje o quarto virou memória.
e o estúdio virou minha fortaleza.

é aqui que eu trabalho.
é aqui que eu penso.
é aqui que a bagunça tenta entrar.
mas não passa.

porque hoje, aos quarenta e poucos anos, eu sigo minhas próprias regras.
criei minhas regras.
baseado em frustração, tentativa, erro, erro de novo, e finalmente…
acerto.

meus cinco princípios.
minha doutrina do caos contido.


1. nada de pilhas. e se precisa de duas mãos pra acessar, tá sabotando sua própria dignidade.

a primeira coisa que aprendi quando montei o estúdio foi que pilhas são traiçoeiras.
bonitinhas por fora, desastrosas por dentro.
tipo colega de trampo falso.

no meu quarto, eu empilhava tudo, apostila em cima de sketchbook, livro de arte em cima de caixa de fita cassete, camiseta em cima de revista em quadrinho.
funcionava?
funcionava até você tentar puxar qualquer coisa de baixo e descobrir que tinha criado a versão doméstica do colapso estrutural.

hoje no estúdio, não empilho nada que não seja idêntico.
se não for exatamente igual, não merece estar junto.
organização é segregação funcional, com orgulho.

e mais…
tudo tem que sair com uma mão só.
porque a outra tá ocupada, seja segurando o mouse, o café, ou só a vontade de desistir de algum projeto.


2. kits. cada um com sua função. cada item com seu pelotão. e a gaveta do caos sob vigilância armada.

quando era jovem, tudo ia parar na gaveta da escrivaninha.
tudo.
desde moeda antiga até fone de ouvido estragado.
eu chamava de “meu sistema”.
hoje eu chamo de “desordem institucionalizada com verniz de negação.”

no estúdio, eu não tenho mais desculpas.
então criei kits.
kit de som.
kit de elétrica.
kit de gravação.
kit do “se tudo der errado e precisar improvisar com fita e um clips”.

cada um vive numa caixa identificada.
cada item volta pro seu lugar.
não há perdão para a migração.
tirou, usou, devolve.

e sim, ainda tenho minha gaveta do caos.
porque eu sou humano.
mas ela é pequena.
frequentemente vasculhada.
e nunca, NUNCA, recebe coisa importante.


3. talismãs organizacionais, os santos da trincheira. se um some, o dia para.

ninguém sobrevive sem amuleto.
os meus são ferramentas.
simples. discretas. letais contra o caos…

  • post-it – ultraaderente, inquestionável.
  • clipe de fichário – gruda o mundo. já salvou contratos e desespero.
  • caneta preta com ponta 0.5 – precisa, limpa, direta.
  • gancho de metal pendurado na parede – guarda o fone, o cabo, o passado.

esses não vão pra gaveta.
ficam ao meu alcance.
no altar.
linha de frente.
quando um desaparece, eu não continuo.
eu paro o mundo e procuro.
porque perder um desses é abrir uma brecha na muralha.


4. prateleira não é estética… é estratégia. e se não construiu a sua, tá ajoelhando pro caos.

lembro da primeira vez que fiz uma.
não comprei pronta.
fiz.
martei, errei, medi torto, furei mal, mas fiz.
e quando coloquei a primeira caixa em cima, senti algo parecido com a sensação de finalmente ter uma cama decente depois de anos no colchão torto.

hoje cada prateleira no estúdio é território conquistado.
cada uma carrega uma função.
e o que não tem prateleira, fica no chão do inferno.

você quer organizar sua vida?
construa uma prateleira.
vai errar?
sim.
mas errar é o preço da soberania. e se não quiser construir, compre. mas tenha prateleiras.


5. personalização não é charme. é sobrevivência disfarçada de gênio torto.

nada aqui é de loja chique.
nada foi feito pra mim.
então hackeio tudo.
adaptei uma caixa em porta-fita.
usei embalagem pra segurar cabos.
reaproveitei um varal pra pendurar ferramentas.

personalizar é cuspir na cara do “pronto pra usar”.
é dizer “não me serve, então eu ajusto.”
e cada objeto que adaptei me lembra…
o estúdio é meu.
o sistema é meu.
a técnica é minha.


hoje vivo em trincheira funcional.
meu estúdio funciona.

e quando a bagunça tenta voltar,
como um velho conhecido batendo à porta com cara de “só vim visitar”,
eu olho pro meu gancho, minha prateleira, meu post-it
e penso:

“a guerra não acabou.
mas aqui, pelo menos aqui,
sou eu que mando.”