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2025

fui forçado a parar

parei por saúde.
e não digo isso com orgulho. digo com um misto de frustração, cansaço e aquele gosto amargo na boca de quem só desacelerou porque o corpo gritou mais alto que o ego.
não foi escolha.
foi sobrevivência.

e foi aí, só aí, que eu percebi o que ferris bueller tentou me dizer a vida inteira.
o moleque tinha 17 anos e entendeu mais da vida que a maioria dos médicos, CEOs e especialistas em burnout no linkedin.
ele fingiu uma febre.
simulou uma doença.
fez o termômetro subir com uma lâmpada.
forjou sintomas.
e tudo isso pra poder fazer o que deveria ser normal… viver.
curtir um dia de sol.
roubar uma ferrari.
ir no museu.
comer fora.
respirar.

e eu?
eu esperei adoecer de verdade pra me permitir o que ele se deu aos 17, um respiro.
não um feriado. um respiro. uma sobrevida. uma pausa não autorizada.

e quando o corpo travou, quando as juntas começaram a ranger como dobradiça de portão velho e a cabeça virou um campo minado, eu lembrei do ferris deitado naquela cama, falsamente doente, dizendo que se não pararmos e olharmos em volta de vez em quando, podemos perder a vida.
aquele moleque fingiu uma febre pra curtir a vida.
eu precisei de uma febre real pra lembrar que ela existe.

saca a diferença brutal?
ele mentiu pra viver.
eu morri um pouco pra conseguir parar.

e a ironia me acertou como um piano caindo de um prédio…
ferris nunca esteve doente.
eu é que estive o tempo todo.
e não percebi.
porque viver como a gente vive, ignorando os sinais, engolindo ansiedade com suco detox, fingindo que tá tudo bem enquanto o corpo e a alma imploram por trégua, isso sim é doença.
isso é febre baixa constante.
é inflamação da existência.

e o que ferris fez?
simples… desligou.
desconectou.
pegou o dia de volta.
e ainda fez a porra de um desfile inteiro cantar junto com ele.
enquanto eu?
eu fiquei esperando permissão.
esperando que alguém batesse no meu ombro e dissesse: “agora você pode parar.”
e quando ninguém disse, meu corpo disse.
da pior forma.

e aí, deitado, cansado, doente de verdade, eu entendi.
ele tava certo.
ele sempre esteve certo.

simular uma doença naquele mundo era a única forma de não adoecer de verdade.
e talvez essa seja a coisa mais brilhante e desesperadora do filme.
ferris não era um vagabundo.
era um sobrevivente.
ele trapaceou porque o jogo era podre.
ele mentiu porque a verdade era insuportável.
ele fugiu porque ficar era consentir com a morte em prestações.

e eu?
eu fui o cameron.
obediente.
trancado.
ansioso.
esperando o colapso.
e o colapso veio.
e agora eu entendo.
não parar é que é irresponsável.
não faltar é que é covardia.
não agir como ferris é suicídio lento com planilha aberta.

então sim, eu parei por saúde.
mas agora eu entendi que saúde de verdade é se permitir fugir antes que a febre seja real.
é criar sua própria doença fictícia pra evitar a crônica.
é roubar seu próprio tempo.
é sumir.
é não responder.
é cantar beatles no meio do caos.

ferris não fingiu estar doente.
ele se curou antes de adoecer.
e você?

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2025

a gente virou biohackers

honestamente, parece que a gente não apenas terceirizou a saúde… a gente chutou ela pra fora de casa, bateu a porta na cara dela e ainda mandou um não me liga, eu te procuro. sério, quando foi que prestar atenção no próprio corpo virou uma tarefa terceirizada para uma pulseirinha de plástico, um anelzinho high-tech ou um relógio que parece saído da prateleira da apple para yuppies ansiosos?

eu acordo e, antes mesmo de sentir se tô vivo, já tô lá catando o oura ring ou o whoop pra me contar como eu deveria me sentir. tipo, foda-se a realidade. não importa se eu tô me sentindo um verdadeiro guerreiro viking pronto pra conquistar o dia… se o meu appzinho der a nota do tipo hoje é melhor pegar leve, pronto, já começo a agir como um velho de 90 anos que tomou duas doses de tequila e esqueceu onde mora. é uma auto hipnose patrocinada pela tecnologia, não importa o que seu corpo diz, importa o que a porra do anel acha.

e o pior é que a gente acredita. a gente sente dor porque a pulseira manda sentir. a gente acha que tá saudável só porque o gráfico do aplicativo subiu meio pontinho. tipo aquelas mães que olham a previsão do tempo e mandam o moleque sair de casaco no sol de 40 graus só porque o celular falou que vai esfriar.

a real é que a gente não quer mais sentir por conta própria. a gente quer números, gráficos, dashboards coloridos que digam quando viver, quando dormir, quando respirar. virou um fast-food da saúde. mastigado, plastificado, cheio de notificações vibrando no pulso só pra lembrar você que você é incapaz de saber se tá bem ou não.

é brilhante, se parar pra pensar. uma geração inteira se sentindo fodona, biohackers de boutique, mas na prática, incapazes de perceber a própria merda acontecendo em tempo real. meu apple watch não apitou, então esse aperto no peito deve ser psicológico, né?

se a gente precisasse de um chip enfiado no… pra lembrar de beber água, aposto que já teria uma fila no shopping. gente sorrindo enquanto instala um software pra dizer parabéns, hoje você foi humano.

no fundo, é isso, a gente abdicou da responsabilidade de estar vivo. é mais confortável terceirizar pra um brinquedinho brilhante. a culpa nunca vai ser sua, vai ser do algoritmo. viva a revolução das ovelhas digitais… e sim me incluo entre essas ovelhas.

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2025

24 horas

voltar a assistir 24 horas desde o primeiro episódio foi como acordar de um coma midiático. eu achava que tava tudo bem. que tava tudo certo com essa sopa rasa que chamam de “conteúdo original” hoje em dia. mas bastou ouvir aquele maldito “o dia é hoje” e ver o relógio correndo pra entender que não… não tá tudo certo. a gente foi dopado. e dopado com coisa ruim.

a tensão era real. o roteiro, cirúrgico. não existia gordura. não existia tempo pra respirar. a série se recusava a ser indulgente. não tinha filler, não tinha tempo pra personagens “fofos”, não tinha aquele episódio “experimental” em que todo mundo canta ou dança ou reflete sobre os próprios traumas de infância enquanto chove do lado de fora. 24 horas era sujo, direto, feio. e essencial.

hoje tudo vem embalado no mesmo pacote reciclável, neutro, testado em laboratório, desenhado pra não ofender, não provocar, não sacudir ninguém. personagem principal sofre, mas só até o terceiro episódio. depois tem virada, redenção, playlist no spotify e final aberto pra segunda temporada. o algoritmo agradece.

as séries modernas têm roteiro como quem monta móvel do ikea, segue o manual, encaixa direitinho, até parece bonito, mas no fundo você sabe que não aguenta uma tempestade. tudo soa como diálogo aprovado por comitê. frases de efeito genéricas ditas por personagens que parecem ter saído de um catálogo de moda ética. e no centro de tudo, aquele medo absoluto de ser intenso demais, duro demais, real demais.

em 24 horas, cada decisão parecia custar a alma de alguém. jack bauer fazia o que precisava ser feito. não porque era legal, não porque ganhava like, mas porque era necessário. e a série tinha a decência de não pedir desculpa por isso. não se explicava. não havia “lição”. havia consequência. tensão. dilema. hoje, se um personagem levanta a voz, alguém já aparece no episódio seguinte pra explicar que foi “um momento difícil” e que “ele está em desconstrução”.

e os roteiristas… naquela época, eram soldados. escreviam com sangue e café preto. sabiam que estavam fazendo algo que ia durar. hoje, são freelancers apertando parafuso em linha de produção. escrevem seis projetos ao mesmo tempo, com briefings que vêm direto do departamento de marketing. “precisamos de uma série jovem, diversa, urbana, mas que funcione no mercado escandinavo.” o resultado são séries com cara de comercial de banco jovem. diálogos de coaching. personagens que trocam frases prontas sobre empatia enquanto o mundo acaba.

eu to aqui, escrevendo e reassistindo 24 horas, e lembrando de um tempo em que a televisão tinha dentes. quando não existia streaming, maratona, nem resuminho em blog dizendo “tudo o que você precisa saber antes da nova temporada”. você precisava prestar atenção. você precisava sentir o episódio. ou ficava pra trás. simples assim.

tinha suor. tinha urgência. e cada episódio te deixava mais perto de uma úlcera nervosa, e era ótimo. não porque você queria sofrer, mas porque era bom sentir algo. hoje, o objetivo das séries parece ser exatamente o oposto… relaxar, entreter, suavizar. virar fundo de tela enquanto você responde e-mail ou faz yoga.

então sim. eu voltei a assistir. e percebi. percebi que essa nostalgia toda não é saudosismo. é um grito de desespero diante da pasteurização total da cultura. a gente trocou os socos na cara por cafuné narrativo. e o pior? parece que tá todo mundo bem com isso.

só que eu não tô. eu quero de volta o risco. a tensão. o incômodo. eu quero séries que me façam esquecer de piscar. quero roteiros que não foram pensados pra agradar, mas pra cutucar. e enquanto isso não volta, se é que um dia voltar eu sigo aqui, no modo rewatch, com jack bauer me lembrando, minuto a minuto, do que a televisão já foi capaz de fazer.

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2025

o que aconteceu com a música

ah, a música hoje em dia… eu sei, eu sei. tô virando exatamente aquilo que jurei destruir… o velho ranzinza sentado num bar escuro, murmurando num copo de uísque barato sobre como no meu tempo a música era de verdade. mas, honestamente? foda-se. alguém precisa dizer. e já que tá todo mundo ocupado fazendo dancinha no tiktok ao som de alguma aberração auditiva com autotune, que seja EU o maldito mensageiro do apocalipse sonoro.

sabe o que aconteceu com a música? ela morreu. foi enterrada sob uma avalanche de batidas recicladas, letras que parecem ter sido escritas por um algoritmo com déficit de atenção e artistas que são menos músicos e mais marionetes de marketing. hoje não se compõe uma música… se fabrica um produto. a única preocupação é se vai viralizar, se dá pra encaixar um refrão chiclete de 8 segundos que funcione como trilha sonora pra um vídeo de alguém rebolando em slow motion.

e antes que venham os defensores do “novo” com aquele papinho mole de “você só não entende a nova estética sonora contemporânea”, deixa eu deixar uma coisa clara… eu entendo. e é exatamente por isso que eu tô revoltado. porque eu vi o que era música. eu vi gente sangrar no estúdio, eu vi alma sendo rasgada em cada nota. vi artistas que pegavam uma guitarra ou um microfone como se fosse uma arma contra o sistema, não um acessório de instagram.

hoje? hoje temos boybands de laboratório, rappers que falam de ostentação como se fossem donos da nasa mas moram com a mãe, e cantoras que trocam de estilo musical a cada ciclo lunar só pra acompanhar o algoritmo. e as letras? meu deus. parece que todo mundo decidiu escrever como se tivesse acabado de sair de um workshop de slogans publicitários… curtos, genéricos, fáceis de digerir e imediatamente esquecíveis.

a música deixou de ser expressão pra virar decoração. trilha sonora de elevador emocional de uma geração que não aguenta silêncio, mas também não sabe o que é escutar. e olha, eu queria que fosse só nostalgia minha, só aquela coisa de velho gritando com nuvem. mas não é. é real. porque quando até os “artistas” parecem entediados com o próprio som, alguma coisa muito errada aconteceu.

sinto falta da sujeira. da imperfeição. da guitarra desafinada na gravação ao vivo. do grito rasgado que não foi corrigido no autotune. sinto falta de quando uma música podia mudar o mundo, ou pelo menos tua semana. hoje, no máximo, ela muda a coreografia da próxima trend de aplicativo.

então sim, virei o velho ranzinza. mas não é porque eu parei no tempo. é porque eu sei o que a música podia ser. e ver o que ela virou… dói. dói como ouvir aquela intro promissora que, no fim, deságua em mais um beat genérico com a profundidade emocional de um comercial de refrigerante.

mas quem sabe… talvez em algum porão abafado, com uma guitarra quebrada e um coração partido, alguém esteja escrevendo a próxima canção que vai fazer o mundo parar. até lá, eu vou estar aqui, no meu bar escuro, ranzinza, com meu copo, ouvindo coltrane e me recusando a dançar.

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2025

boas notícias

olha, se tem uma coisa que o mundo aprendeu a fazer com maestria nos últimos anos foi servir tragédia no café da manhã, almoço e jantar e ainda te enfiar um lanchinho emocional de madruga só pra garantir aquele refluxo existencial. liga o celular e toma ali uma avalanche de morte, corrupção, colapso climático, adolescente rico que não sabe onde enfiar o dinheiro e políticos que parecem ter sido criados por um algoritmo bêbado tentando simular empatia humana. e você consome, claro. porque, sejamos honestos, a desgraça vicia. é pornografia emocional de alto nível.

a boa notícia? ah, essa ninguém quer ver. boas notícias são como legumes no prato de uma criança mimada… nutritivas, mas ignoradas com desgosto. tem alguém salvando uma floresta? dane-se. um cientista brasileiro isolou uma proteína que pode curar uma doença rara? chato. agora, se o vizinho chutou o cachorro ou se o influencer de yoga foi pego num esquema de pirâmide vendendo curso de autoconhecimento por R$ 1.997,00, aí sim a gente clica, comenta, compartilha, espuma de indignação. essa é a droga do momento. a tragédia vende. a esperança, coitada, tá na prateleira dos vencidos.

e olha que tem coisa boa pra caralho rolando por aí. só que ninguém quer saber de boas notícias porque, no fundo, elas exigem de você um mínimo de comprometimento. ver o lado bom do mundo é perigoso… te obriga a sair da posição confortável de cínico de sofá e admitir que talvez, só talvez, ainda exista uma chance. e aí, meu amigo, você teria que fazer alguma coisa com essa informação. ajudar alguém. se importar. agir. e quem é que tem tempo pra isso entre um episódio de série, uma thread de cancelamento e o novo filtro que deixa tua cara igual a de uma celebridade geneticamente aperfeiçoada?

a verdade nua e crua, e sim, ela fede um pouco… é que a gente vive num planeta onde tem gente curando câncer com inteligência artificial enquanto o resto da humanidade tá debatendo se a terra é plana ou se vacina tem chip. enquanto uma galera dedica a vida pra despoluir rios, outra tá despejando teorias da conspiração como se fossem figurinhas de álbum. é um contraste tão bizarro que faria um roteirista de sci-fi pedir demissão.

mas aí vem a parte que me deixa genuinamente intrigado… por que caralhos a gente insiste em viver como se tudo fosse um grande filme catástrofe com final garantido? será que a gente gosta tanto assim de ver o mundo arder? ou será que a gente só tá com preguiça de admitir que, apesar de tudo, ainda tem um monte de coisa dando certo?

tem criança aprendendo a ler em escola de chão batido com professor que ganha menos que entregador de aplicativo. tem cientista trabalhando 16 horas por dia num laboratório financiado por doações porque o governo cortou tudo. tem agricultor fazendo permacultura enquanto o vizinho ainda torra soja com agrotóxico nível chernobyl. tem enfermeiro que nem dorme direito cuidando de velhinho abandonado. mas isso não entra na pauta. porque não dá audiência. não gera rage.

então sim, o mundo tá fodido. mas não totalmente. ainda tem fagulhas. ainda tem resistência. o problema é que a gente virou um bando de zumbis dopados de pessimismo gourmet, alimentados por um banquete diário de desgraça plastificada e embalado com hashtags. e pra sair disso, meu chapa, vai ter que abrir o olho, desligar o inferno do algoritmo e encarar a verdade incômoda… o bem ainda existe. só não tá berrando no seu feed. tá lá fora, quieto, trabalhando, resistindo. só esperando você parar de olhar pro apocalipse e enxergar que ainda tem coisa viva nesse circo.

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2025

vere papa mortuus est

ele morreu.
jorge mario bergoglio.
o papa francisco.
ou, como eu prefiro chamar…
o anti-papa.

o cara que chegou no maior trono simbólico da fé cristã
com a cara de quem acabou de sair de uma padaria na zona sul de buenos aires.
com os sapatos gastos, o pulmão falhando,
e a alma inteira.

ele olhou aquele palácio, aquelas tapeçarias, aquelas vozes embriagadas de tradição…
e fez o que qualquer adulto lúcido faria…
revirou os olhos.
soltou um suspiro.
e foi varrer.
literalmente.

pegou uma vassoura.
não de prata.
não de ouro.
vassoura mesmo.
daquelas que limpam lama,
não imagem.

porque ele entendeu desde o começo,
a igreja não precisava de um novo papa.
precisava de alguém que aceitasse entrar no porão,
ligar a luz,
e encarar o mofo.

foi o único dos últimos séculos que entrou no cargo sem querer parecer santo.
e por isso, foi o mais próximo de um.

morava num quartinho simples.
não por humildade instagramável.
mas porque ele detestava aquele palácio,
aquele corredor de cem metros,
aquele ar-condicionado de mármore.
ele dizia: “três quartos e cem metros de corredor me fazem mal.”

então ficou com o essencial.
uma cama.
uma bíblia.
um café fraco.
e um relógio de plástico no pulso,
barato, feio, torto.
mas funcional.
exatamente como ele.

dirigia um ford focus azul que tossia a cada esquina.
um carro que, sozinho, já era uma crítica viva ao papado com motorista e cortina de veludo.
ele dirigia porque queria ver o mundo.
porque queria sentir o cheiro da rua.
e porque sabia que deus, se é que ainda circula,
não anda de blindado.

e a cruz…
de ferro.
simples.
pesada.
nada de ouro, nada de brilho.
porque o fardo era real.
e ele queria sentir no osso.

o anti-papa, sim.
porque ele não falava como papa.
não posava como papa.
e não julgava como papa.
falava como gente.
posava como quem carrega dor.
e olhava o outro sem catálogo de pecados na mão.

quando perguntaram sobre homossexuais, ele não citou versículo.
não usou meia-palavra.
só disse: “quem sou eu pra julgar?”
e ali, naquele momento,
abriu mais portas que todos os concílios anteriores.

falou com trans.
falou com travestis.
recebeu mães que choravam filhos suicidas e não perguntou se estavam em comunhão.
porque ele sabia…
ninguém precisa estar puro pra ser amado.

enquanto os outros papas encenavam moral,
ele vivia misericórdia.
enquanto os outros celebravam tradição,
ele celebrava sobrevivência.
enquanto os outros desenhavam regras,
ele construía pontes.

e, claro, o vaticano odiava ele.
com um ódio discreto.
silencioso.
de quem sabe que vai sobreviver ao homem
mas não à memória dele.

porque francisco foi o susto.
o erro na liturgia.
a nota fora no coral de vozes previsíveis.

ele falava de capitalismo com desprezo.
falava de guerra como quem viu corpo de criança em vala.
falava de deus como quem tinha dúvidas
e por isso mesmo, fé.

e agora ele se foi.

sem pompa.
sem câmera escondida.
sem um último milagre.

morreu num quarto limpo,
num prédio funcional,
como morrem os que não precisam provar mais nada.

e agora o mundo segue.

seguem os bispos com seus ternos caros e suas certezas ocas.
seguem os pastores de palanque e púlpito patrocinado.
seguem os fanáticos com slogans religiosos bordados em ódio.

mas o que não segue…
é aquele tipo de presença.
silenciosa.
insistente.
radicalmente humana.

porque francisco não foi um papa de frases.
foi um papa de gestos.
foi o homem que escolheu a vassoura.
que escolheu o ferro.
que escolheu escutar quando o mundo inteiro gritava.

e se você não se emociona com isso,
talvez tenha virado exatamente aquilo que ele tentou curar…
alguém que confunde fé com vitrine,
moral com julgamento,
e deus com espetáculo.

obrigado, francisco.
por rasgar a fantasia,
por incomodar o conforto,
e por lembrar, até o último suspiro,
que amar ainda é mais revolucionário
do que qualquer dogma.

você foi o anti-papa.
e, por isso,
o único que fez sentido.

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2025

meu estúdio

meu estúdio? ele não é um espaço fixo, não é um templo sagrado da criatividade com mesa de carvalho e luz natural filtrada por uma samambaia estrategicamente posicionada. ele é instável. mutante. um organismo vivo em plena crise de identidade e essa é justamente a graça. ele muda. muda o tempo todo. porque o que não muda, morre. e eu não tô aqui pra enterrar ideia nenhuma antes da hora.

é um lugar onde nada é fixo. nem a mesa, nem a rotina, nem o humor. onde a única certeza é que tudo pode e provavelmente vai virar outra coisa. hoje é um canto pra escrever, amanhã é ateliê, depois de amanhã é pista de corrida oficial da escuderia hot wheels, devidamente homologada pelo meu cofundador de 4 anos. o cara entra no estúdio como se fosse dono da porra toda, carregando uma frota inteira de carrinhos e uma convicção absoluta de que o espaço também é dele. e é mesmo.

a gente divide esse território como dois artistas dividindo uma tela… um risca com carrinhos, o outro com ideias. e às vezes os riscos se misturam e ficam melhores assim. ele me lembra, todos os dias, que criar é brincar. que o processo não tem que seguir lógica adulta. que movimento é regra. o estúdio se desmonta e se remonta com a naturalidade de quem sabe que a melhor coisa que já fez ainda nem foi feita.

não é sobre bagunça, é sobre liberdade. sobre permitir que o espaço acompanhe o ritmo interno das ideias, dos impulsos, das birras criativas. é sobre não se apegar nem ao que funciona, porque até o que funciona, uma hora, cansa. e quando cansa, a gente muda. move a mesa, derruba as certezas, começa de novo.

esse estúdio é meu espelho. torto, sim. mas honesto. e vivo. muito vivo.

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2025

troquei o apple watch pelo ouraring

eu chutei o apple watch da minha vida como quem dá descarga num sanduíche de posto de gasolina esquecido no porta-luvas. não foi por birra, nem por estética, nem por algum insight transcendental sobre o equilíbrio entre homem e máquina. foi por vergonha.

vergonha de ter deixado uma pulseira com crise de identidade mandar mais em mim do que eu mesmo. o apple watch é aquele tipo de tecnologia que grita “olha pra mim!” o tempo todo, como se eu tivesse pedido pra viver com um adolescente narcisista amarrado no pulso. ele quer te lembrar que você tá vivo, mas faz isso do jeito mais desesperado possível… vibrando, mandando corações, te avisando que você tá sentado há muito tempo, como se levantar fosse um ato de heroísmo digno de oscar.

“você ainda pode fechar seus anéis hoje!” meu amigo, se eu quiser anel, eu vou na feira do ouro. o que eu queria era paz. silêncio. respeito. e foi aí que o oura ring apareceu, como um serial killer educado… sem fazer barulho, sem pedir licença, sem te oferecer parabéns por respirar fundo.

o oura não tenta ser seu melhor amigo.
não vibra, não acende, não dá show.
ele te observa dormindo. mede tua alma. anota teus vícios. te entrega tudo na manhã seguinte como se fosse uma autópsia precoce. e o melhor… não julga.

porque ele sabe que julgar é trabalho seu.

ele só mostra o cadáver.

a diferença entre os dois é simples, o apple watch é aquele cara no happy hour da firma que fala alto, toma conta da conversa, interrompe todo mundo e no fim ainda te manda uma notificação. o oura ring é o cara calado no canto do bar. não fala nada. mas sabe que você tá mentindo quando diz que dormiu bem.

eu cansei de usar um aparelho que parecia estar mais preocupado com a minha performance social do que com a minha biologia real. o apple watch quer ser tudo… treinador, guru, conselheiro, stylist, dj. é o canivete suíço dos ansiosos.

o oura ring? ele só quer saber se você vai desmaiar ou não.

ele não me manda levantar. não me elogia. não me cobra. ele me trata como um adulto com um corpo cansado e um cérebro funcionando no modo avião. e isso, hoje em dia, já é mais empatia do que metade da humanidade consegue oferecer.

no final, o apple watch é uma festa com muita luz e pouca comida. o oura ring é um bisturi esquecido numa bandeja de inox. e eu sou o cara que cansou da festa. e aprendeu a amar o corte.

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2025

24 horas

eu já fui aquele idiota que achava que precisava responder tudo. toda cutucada, toda pergunta, todo comentário idiota. a pessoa falava, eu respondia. um estalo, uma frase. reação em tempo real, feito pop-up de site mal feito. como se minha honra, meu cérebro e meu lugar no mundo estivessem o tempo todo em jogo num debate imaginário.

mas aí o tempo passou, esse filho da puta irônico, debochado, cheio de truques. e eu fui ficando mais velho, mais cínico, mais perigoso. aprendi a olhar pra provocação como quem vê um pombo tentar jogar xadrez… faz barulho, caga no tabuleiro e acha que venceu. e eu? eu espero.

24 horas. não porque sou um monge ou um diplomata da ONU. mas porque descobri que é nesse intervalo que mora o poder. é ali, entre a vontade de explodir e a decisão de não dizer nada, que nasce a verdadeira superioridade.

não é sobre ser frio, é sobre ser letal. porque se eu respondo na hora, sou só mais um animal reagindo ao choque. agora, se eu espero… se eu deixo cozinhar em fogo lento… aí sim, quando falo, é como um bisturi. sem grito, sem espuma na boca. só uma frase. certeira. cirúrgica. e geralmente fatal.

nessas 24 horas eu penso. às vezes, só por esporte. penso se vale a pena, se tem graça, se merece o meu texto. e quase sempre, a resposta é não. porque eu poderia falar o que penso… e seria lindo, brutal, sincero, mas aprendi que o que precisa ser dito, quando dito do jeito certo, na hora certa, tem um impacto que nenhuma reação impulsiva vai alcançar.

porque às vezes, a resposta mais elegante é justamente não oferecer nenhuma. deixar que o silêncio grite por você, bem alto, bem claro, e sem errar o alvo.

e é nesse ponto, exatamente aí, que tudo muda. porque quando você se dá o luxo de esperar, de não morder a isca, de não correr atrás da última palavra, você percebe que a maioria das coisas que te tiravam do sério… simplesmente evapora. morre na praia. perde o sentido.

e o que sobra? sobra você, intacto. com o fígado no lugar, com a língua afiada ainda no coldre, pronto pra quando realmente for necessário. porque o mundo já tem gente demais vivendo no modo resposta automática.

eu escolhi esse caminho, aprendi a arte de não reagir. e, meus amigos, poucas coisas são mais perigosas do que isso.

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2025

relógio

tem uma idade na vida, não cronológica, mas interna, em que você começa a prestar atenção nas coisas que não fazem barulho. já não se impressiona tanto com brilho, com função, com novidade. você começa a reparar no silêncio entre as frases. nos gestos. nas pausas. no peso. e relógio mecânico é isso, uma pausa que você carrega no pulso.

eu gosto de relógios mecânicos porque eles não tentam ser nada além do que são. eles não querem cuidar da sua saúde. não querem contar seus passos, nem te lembrar que você deveria estar meditando. não estão interessados na sua agenda, nem vão vibrar no meio da reunião pra avisar que chegou mais um e-mail idiota que você vai fingir que leu. um relógio mecânico olha pra você e diz: “a única coisa que eu faço é existir. e fazer isso bem.”

e isso, pra mim, hoje, é mais do que suficiente.

tem também uma questão de respeito. respeito pela imperfeição. pelo tempo que passa de forma desigual, às vezes um pouco mais rápido, às vezes um pouco mais lento. relógios mecânicos atrasam, adiantam, precisam de cuidados, de manutenção, de carinho, às vezes. são temperamentais, como qualquer coisa feita com alma. como a gente, com o tempo.

quando eu era mais novo, talvez eu achasse o apple watch genial. e ele é. genial. faz tudo. responde mensagem, mede teu sono, te diz quando levantar. mas sabe o que mais faz isso? uma babá eletrônica. e eu já passei da idade de querer ser monitorado.

um relógio mecânico não se importa com você. ele não está conectado a nada. ele não quer saber de você. ele apenas existe. e ainda assim, você cria uma relação com ele. você dá corda. você ajusta. você cuida. ele depende de você, mas de um jeito discreto, elegante, quase cruel. ele exige que você esteja presente, não pra te mandar notificações, mas pra garantir que ele continue fazendo o que sempre fez, marcar o tempo. o tempo que você não controla. mas que você pode, pelo menos, acompanhar.

e um relógio mecânico não envelhece mal. ele envelhece como a madeira boa, como o couro certo, como o rosto de alguém que viveu. cada risco no vidro, cada marca na caixa, cada milímetro de desgaste diz que ele esteve lá. que ele viu coisas. e não se importa se você estava usando paletó ou camiseta. ele só quer saber se você estava vivo.

usar um relógio desses é escolher o caminho mais lento de propósito. é dizer “não” ao excesso de função. é dizer “não” ao vício do agora. é, de certa forma, reconhecer que já se viveu o suficiente pra saber que o tempo não precisa ser controlado. só precisa ser respeitado.

e, talvez, lá no fundo, seja isso. eu uso um relógio mecânico porque já entendi que o tempo não vai parar por minha causa, mas pelo menos posso escolher como vou acompanhá-lo. com dignidade. com história. e com um tique-taque que me lembra que, mesmo sem ser perfeito, ainda tô funcionando. igualzinho ele.