imagina que você tem um amigo. um amigo grandão, fanfarrão, cheio de dinheiro, sempre pagando a conta e dando as cartas na mesa do bar. ele era meio arrogante, mas no fundo, você confiava nele. ele tinha princípios, uma moral questionável, mas ao menos previsível. agora, imagina que esse amigo surtou. resolveu que ninguém presta, que todo mundo tá contra ele, que ele é o verdadeiro injustiçado. começa a mentir, a dar golpes, a se vender por qualquer coisa que brilhe e, o pior de tudo, fica instável. um dia te chama de irmão, no outro te trata como um inimigo que precisa ser esmagado. pois bem, esse amigo é a américa.
há uns anos, ela ainda tinha um papel decente no grande teatro geopolítico. agora? é o cara caindo de bêbado na calçada, berrando conspirações enquanto os passantes desviam o olhar, fingindo que não conhecem. claro, tudo isso tem um protagonista óbvio um ex-empresário de cassinos que governa como se estivesse administrando um esquema de pirâmide. mas o problema vai além dele. os eua viraram aquela empresa tóxica, com um rodízio de chefes incompetentes, onde os funcionários (o resto do mundo) vivem com medo de quem pode ser o próximo CEO lunático a assumir a cadeira.
e como qualquer empresa falida, os parceiros de negócios começam a pular fora. os europeus, que sempre foram os aliados fiéis, já entenderam que não dá mais pra contar com o tio sam. antes, a américa era o cara legal, um pouco arrogante, mas confiável. agora? um sócio traiçoeiro que pode te vender para o inimigo em troca de uma foto apertando a mão de algum ditador. os canadenses e mexicanos também já sacaram o esquema, a moda agora é ganhar popularidade falando mal dos eua, porque, convenhamos, quem não gosta de um pouco de schadenfreude?
mas não para por aí. a nova regra da política externa americana virou uma versão grotesca do clube do bolinha, tudo que for másculo, durão e implacável é bem-vindo. putin? durão, amigo. frança? europa? direitos humanos? fracos. e por favor, não ousem mencionar algo como diplomacia ou cooperação internacional. isso é coisa de losers. a moda agora é extorsão, ameaça e queima de pontes, tudo isso acompanhado de uma dose generosa de paranoia e um amor inexplicável por ditadores.
e o que acontece quando um ex-gigante confiável se torna um gângster inconstante? o mundo começa a se virar sozinho. os europeus percebem que talvez seja hora de parar de mendigar proteção americana e comecem a investir em suas próprias defesas. a alemanha, que há anos finge que não precisa de um exército sério, agora está abrindo a carteira para comprar armas. frança, inglaterra, japão, todo mundo começando a entender que se não tiver sua própria bomba nuclear, pode acabar sendo a próxima ucrânia.
e enquanto os aliados correm para garantir sua própria segurança, a china observa tudo isso com um sorrisinho no canto da boca. porque enquanto a américa age como um valentão de quinta categoria, a china finge ser o novo mocinho da história. “olha só como somos razoáveis, olha como queremos cooperação e crescimento mútuo”, dizem eles, enquanto passam a mão na cabeça dos europeus, oferecendo acordos comerciais e infraestrutura em troca de, bem, submissão silenciosa.
então aí estamos nós. um ocidente rachado, uma américa transformada em um cassino mal administrado, e um mundo pronto para mergulhar de cabeça em uma nova era de insegurança nuclear e alianças improváveis. e tudo isso porque alguém decidiu que o melhor jeito de ser grande de novo era destruir o único verdadeiro trunfo da américa, sua rede de aliados. no fim, trump pode até sair de cena, mas o estrago já foi feito. e se os americanos continuarem escolhendo líderes como quem escolhe o sabor do milkshake do dia, ninguém vai mais confiar neles. porque, sejamos honestos, você faria negócios com um cara que troca de personalidade a cada quatro anos e acha que isso é estratégia?
the brian jonestown massacre é a minha banda favorita de todos os tempos porque, ao contrário de praticamente todas as outras, nunca tentou ser minha banda favorita. nunca tentou me conquistar, nunca fez campanha para ser amada, nunca pediu minha atenção. na verdade, tenho certeza de que anton newcombe ficaria levemente irritado em saber que eu gosto tanto assim da banda dele.
e talvez seja exatamente por isso que eu goste tanto. porque, enquanto outras bandas fazem de tudo para serem acessíveis, amigáveis, facilmente digeríveis… projetadas para caber perfeitamente no fundo de uma playlist chamada indie vibes para estudar, o bjm continua sendo um organismo próprio, um culto musical que nunca tentou recrutar ninguém. se você encontrou, ótimo. se não encontrou, azar o seu. eles não estão esperando por você.
e, claro, a música. porque se fosse só pose, só atitude “rebelde” vazia, não passaria de uma nota de rodapé na história do rock alternativo. mas não. methodrone é um portal para outro universo, um disco que soa como se alguém tivesse sequestrado o my bloody valentine e os forçado a tocar num porão esfumaçado por 72 horas sem descanso. take it from the man! é um tapa na cara da ideia de que o rock precisa evoluir para sobreviver… ele não precisa, ele só precisa de gente que ainda o toque como se fosse a única coisa que importa. e their satanic majesties’ second request é pura devoção ao caos sonoro, uma tapeçaria psicodélica que não pede sua atenção, mas exige sua entrega total.
o brian jonestown massacre me faz sentir que estou ouvindo algo real. algo que não foi projetado por um comitê de marketing, algo que não foi polido até perder sua alma. num mundo onde a música virou trilha sonora descartável para vídeos de receita no instagram, o bjm ainda soa como uma experiência. um lugar perigoso, caótico, imprevisível.
brian jonestown massacre não pede permissão para existir, não faz concessões, não tenta te seduzir com refrões fáceis ou letras que soam como legendas prontas para posts melancólicos. anton newcombe não quer ser seu amigo. ele não quer sua gratidão, seu carinho ou seu reconhecimento. ele só quer que você saia do caminho enquanto ele faz o que tem que fazer. e eu respeito isso profundamente.
porque sejamos honestos, a música morreu um pouco quando as bandas começaram a perguntar o que o público queria ouvir. quando começaram a planejar lançamentos baseados em métricas e tendências. quando pararam de fazer discos que soam como experiências e passaram a fabricar trilhas sonoras para supermercados descolados e cafeterias minimalistas. mas o bjm? o bjm nunca se preocupou com isso. eles fazem discos porque precisam fazer discos. fazem turnês porque precisam tocar. e, se ninguém aparecer, tudo bem, eles já tocaram para plateias vazias antes. e vão tocar de novo.
e é esse descaso absoluto com qualquer noção de sucesso tradicional que torna a música deles tão magnética. ouça give it back! e me diga se aquilo soa como uma banda que está tentando te agradar. não, soa como uma gangue de desajustados que encontrou uma maneira de canalizar sua energia para algo que não envolvesse brigas de bar e pequenas infrações criminais. e talvez seja isso que me prenda tanto. porque não é um som seguro. não é um som feito para “acompanhamento”. é um som que te exige, que te arrasta para dentro dele, que te força a prestar atenção.
o brian jonestown massacre é um lembrete incômodo de que a música, quando feita por pessoas que realmente acreditam nela, pode ser feia, pode ser difícil, pode ser desconfortável. e, acima de tudo, pode ser absolutamente viciante. e eu preciso disso. preciso de uma banda que não me trate como consumidor, mas como cúmplice. uma banda que me faça sentir como se estivesse descobrindo um segredo sujo, algo que não era para ser encontrado.
e no dia em que anton newcombe decidir que acabou, que não vai mais gravar nada, que vai sumir do mapa e viver de vinho barato e ressentimento em algum canto obscuro da europa, eu vou respeitar isso também. porque nunca foi sobre mim. nunca foi sobre os fãs. nunca foi sobre nada além da música. e é por isso que o brian jonestown massacre é, e sempre será, minha banda favorita de todos os tempos.
sabe aquele experimento com ratos, onde eles colocam os pobres bichos numa rodinha e os fazem correr sem parar, convencidos de que estão indo para algum lugar? pois é. essa semana eu fui o rato. um rato metido a besta, é verdade, porque peguei uber em vez de me espremer no metrô como uma sardinha vencida. mas um rato, ainda assim.
uma hora de trânsito para ir. uma hora de trânsito para voltar. duas horas diárias de existência desperdiçada olhando pela janela enquanto a vida passa lá fora. e, entre essas duas horas de autoflagelação, um dia inteiro enfiado em um escritório, aquele ambiente estéril e artificial onde sonhos vão para morrer e PowerPoints nascem para nos assombrar.
lembro quando achava que isso era normal. quando achava que fazia parte do pacote “ser um adulto funcional”. acordar cedo, se enfiar em um caixão metálico sobre rodas, seguir o fluxo de corpos sonâmbulos rumo a um prédio de vidro onde todos fingem estar ocupados. reuniões sobre reuniões. planilhas que nunca morrem. café requentado e sem alma.
mas eu escapei disso há anos. e agora, por alguma piada cósmica, passei uma semana revivendo esse pesadelo. e sabe o que aprendi? que é ainda pior do que eu lembrava. que há uma espécie de resignação coletiva nesse teatro corporativo, uma aceitação silenciosa de que vender a alma em prestações diárias é só “o jeito que as coisas são”.
só que, veja bem, eu já quebrei esse feitiço. minha vida real é outra. minha vida real é atravessar a avenida paulista em quatro minutos para chegar ao trabalho. é levar meu filho para a escola a pé, sem precisar encarar um apocalipse motorizado. é não ter que calcular qual linha de metrô estará menos insuportável ou quantos minutos a mais vou passar no trânsito porque algum gênio decidiu bater o carro na marginal.
essa semana me fez lembrar que viver assim, atolado no deslocamento diário, não é viver. é uma experiência de quase-morte contínua. um looping de frustração e estagnação embalado por buzinas e notificações do whatsapp.
depois dessa semana, entendi perfeitamente por que as novas gerações enlouquecem os chefes, os RHs, os dinossauros do corporativismo. não é preguiça, falta de ambição ou “frescura de jovem mimado”. é só bom senso. porque você precisa estar muito condicionado… ou muito anestesiado, pra olhar pra essa rotina de trânsito, escritório, trânsito, repetição infinita, e achar que isso faz sentido. o problema não são eles. o problema é quem aceitou esse teatro por tanto tempo sem nunca perguntar… por que diabos estamos fazendo isso mesmo?
o último livro que li me deixou aquela sensação incômoda de que eu estava perdendo alguma coisa. você já passou por isso? termina a última página, fecha o livro, olha para a parede e pensa… “espera aí… foi só isso?” mas aí os dias passam, e aquele maldito livro começa a voltar na sua cabeça. cenas soltas. frases estranhas. uma ideia incômoda que você não consegue arrancar, como um chiclete grudado no seu sapato. o jogo das contas de vidro, de hermann hesse é um livro que, se você não tomar cuidado, pode te fazer perceber que passou a vida inteira perseguindo vento.
hesse não escreve para entreter. não tem explosões. não tem reviravoltas mirabolantes. ninguém dá um tiro em ninguém. não há romance proibido, nem final catártico onde tudo faz sentido. se você procura isso, boa sorte com outra coisa. o que ele faz é mais cruel. ele te leva até o topo de uma montanha, te mostra uma paisagem absurda e diz: “tá vendo isso? lindo, né? agora, e se eu te disser que nada disso importa?” e então ele te deixa lá, sem mapa, sem bússola, sem nem mesmo um desgraçado de um lanche para a viagem de volta.
a história segue josef knecht, um sujeito criado dentro de um sistema onde conhecimento e cultura são tratados como religião. pense em uma mistura de academia de filosofia, ordem monástica e clube exclusivo para intelectuais que acham que são iluminados demais para se misturar com a ralé. esses caras jogam um jogo tão sofisticado que ninguém consegue explicar direito o que ele significa, um amontoado de referências filosóficas, artísticas e matemáticas que, teoricamente, representam o ápice do intelecto humano. e knecht, brilhante e disciplinado, sobe até o topo desse mundo. ele chega lá. ele vence o jogo. e então percebe que tudo aquilo é uma piada.
essa é a jogada mais baixa de hesse. ele faz você percorrer toda a escalada intelectual com knecht, absorver cada camada desse mundo de ideias, sentir aquela pontinha de inveja por não fazer parte de algo tão puro e elevado. e então ele te dá um soco no estômago. porque nada daquilo significa coisa nenhuma. porque toda aquela busca por “conhecimento superior” é só masturbação mental para gente que tem medo do mundo real. porque não importa quantos tratados filosóficos você leia, quantos idiomas você domine, quantos conceitos você compreenda, se no final das contas você não sabe o que fazer com isso além de recitar para outros acadêmicos igualmente perdidos.
e é aí que knecht, esse nerd genial, esse prodígio da intelectualidade, faz algo que ninguém espera. ele olha para tudo isso e diz… “quer saber? tô fora.” ele percebe que a única maneira de realmente entender alguma coisa é sair do sistema. largar tudo. começar de novo. e esse é o verdadeiro soco no estômago, a ideia de que talvez tudo o que chamamos de “progresso”, “cultura” e “sabedoria” seja só um grande teatro. uma maneira de preencher o tempo enquanto fingimos que estamos chegando a algum lugar.
o jogo das contas de vidro não te dá respostas. ele te dá dúvidas que você talvez não quisesse ter. ele esfrega na sua cara a possibilidade de que, talvez, você tenha passado a vida inteira levando a sério um jogo que não tem vencedor. e então ele te deixa lá, sozinho, com essa ideia na cabeça. sem aplausos, sem fanfarra, sem uma frase de efeito para encerrar a história. só você e essa pergunta maldita… e se ele estiver certo?
a arquitetura contemporânea, meus caros, é um delírio de mediocridade empacotado em vidro, concreto e renderizações que parecem saídas de um pesadelo corporativo. vivemos uma era em que as cidades se tornam cada vez mais genéricas, onde prédios nascem sem alma, sem propósito, sem qualquer consideração pelo contexto urbano ou pela experiência humana. o que chamam de “minimalismo elegante” muitas vezes não passa de preguiça com um orçamento generoso. e quem paga a conta? nós, que temos que viver nessas caixas de sapato glorificadas, cercados de vidro fumê e uma promessa vazia de modernidade.
como chegamos aqui? bom, como tudo o que dá errado na humanidade, foi um processo longo, cheio de boas intenções e decisões catastróficas. um dia fomos capazes de erguer coisas como o parthenon, que ainda está lá, desafiando o tempo e as bombas. construímos catedrais que sugavam a alma dos fiéis para o alto, edifícios que comunicavam algo além de seu uso primário. tínhamos arquitetos que entendiam a cidade como um organismo vivo, como um lugar de encontros, de cultura, de humanidade. mas depois, como sempre, vieram os iluminados que resolveram que “beleza” era coisa do passado e que o importante mesmo era a “função”. nasceu o modernismo, e com ele, a desculpa perfeita para construir o feio em nome do progresso.
le corbusier, um dos grandes culpados dessa tragédia, sonhava com cidades feitas de torres isoladas, ruas elevadas e uma organização racional. parecia uma boa ideia no papel, mas na prática, deu origem a aberrações como os conjuntos habitacionais soviéticos e os pesadelos urbanos que infestam as periferias do mundo. claro, ele também fez coisas brilhantes, a unidade de habitação em marselha, por exemplo, ainda se sustenta. mas sua influência também trouxe os piores frutos, arquitetos que acreditaram que cidades não precisavam de vida, só de ordem. o resultado? aqueles bairros onde tudo parece um estacionamento gigante, onde prédios são apenas blocos anônimos e onde você precisa pegar um carro para comprar um pão.
então vieram os pós-modernistas tentando consertar o estrago. venturi, jencks e companhia decidiram que já que o modernismo era chato, então tudo precisava ser irônico, cheio de colunas falsas, ornamentos cafonas e uma pitada de las vegas. o que era para ser uma crítica virou um carnaval sem critério. se o modernismo era monótono, o pós-modernismo virou um meme arquitetônico.
e agora? agora estamos atolados numa arquitetura que se vende como “sustentável” enquanto usa toneladas de concreto, que prega “inovação” mas só repete as mesmas formas estéreis, que promete “inclusão” mas só entrega espaços impessoais e inóspitos. olhe ao seu redor: prédios que poderiam estar em qualquer cidade do mundo, torres de vidro que refletem uma paisagem morta, interiores que parecem uma página de pinterest. apartamentos são cada vez menores, sem varandas, sem luz natural, sem qualquer consideração pela vida real. e chamam isso de progresso.
enquanto isso, os mestres do passado riem da nossa cara. frank lloyd wright, que fazia casas que pareciam crescer da própria terra, ficaria enjoado com as aberrações modulares de hoje. louis kahn, que entendia o peso da luz e do silêncio, veria nossas “torres de coworking” como templos do vazio. alvar aalto, com sua obsessão pelo humano, morreria de desgosto com os hospitais assépticos de agora, que mais parecem depósitos de corpos do que espaços de cura.
o que aconteceu com a escala humana? o que aconteceu com a ideia de que arquitetura é mais do que apenas levantar paredes? os grandes arquitetos do passado, de brunelleschi a mies van der rohe, entendiam que um prédio é um diálogo com a cidade, com o tempo, com as pessoas. hoje, tudo é um monólogo narcisista: “olhem para minha fachada icônica”, “vejam minha forma inovadora”. mas e daí? quem vive nisso? quem se sente bem nesses lugares?
e o urbanismo? ah, essa é outra tragédia. os planejadores urbanos decidiram que cidades precisam ser “eficientes”, e agora vivemos em um mundo onde ninguém caminha, ninguém encontra ninguém, ninguém sente a cidade. ruas viraram avenidas, praças viraram estacionamento, bairros viraram condomínios fechados. a cidade se tornou um produto, segmentado por faixa de renda, gerenciado como um shopping center. tudo limpo, tudo controlado, tudo sem vida.
mas calma, dizem eles, temos soluções! e aí aparecem os arquitetos-star designers, que vendem suas maravilhas futuristas, prometem cidades inteligentes, criam espaços “instagramáveis”. fazem um render lindo, plantam umas árvores no meio do concreto, colocam um rooftop com piscina e pronto: mais um espaço inabitável disfarçado de inovação.
o problema não é só a arquitetura. é o pensamento. é a ideia de que a cidade é um negócio, que um prédio precisa ser um ícone e não um lugar de vida. é a cultura de que design serve mais para impressionar do que para servir.
talvez a saída esteja em voltar a pensar pequeno. menos monumentos, mais ruas agradáveis. menos torres reluzentes, mais lugares para sentar e ver o mundo passar. talvez precisemos resgatar a noção de que a arquitetura não é só forma, mas experiência. que a cidade não é um showroom, mas um lar. que prédios não são só investimentos, mas espaços de memória, de encontro, de vida.
e apesar da avalanche de arquitetura vazia, ainda há arquitetos que entendem que um prédio não é só uma forma bonita para um post de instagram. francis kéré, por exemplo, que nasceu em burkina faso e entendeu desde cedo que arquitetura tem que responder às pessoas e ao clima. ele projeta escolas com ventilação natural em países onde a temperatura passa dos 40 graus, enquanto nossos gênios contemporâneos acham que a solução para o calor é mais vidro e mais ar-condicionado. o sujeito está lá, usando barro, madeira, criando espaços vivos, enquanto aqui insistimos em transformar cada novo bairro em uma versão piorada de dubai.
tatiana bilbao, no méxico, projeta casas que realmente se moldam à vida das pessoas, não o contrário. enquanto o mercado imobiliário continua empurrando kits de morar pasteurizados, ela desenha espaços flexíveis, que podem crescer e se adaptar à realidade de quem os habita. imagine só! uma casa que evolui com o morador, em vez de obrigar o morador a se espremer dentro dela. isso deveria ser o mínimo, mas hoje soa quase como um ato revolucionário.
e aí temos alejandro aravena, do chile, que decidiu que habitação social não precisa parecer um depósito de gente. seu projeto de meio-casas, onde o governo constrói metade e o morador constrói o resto com o tempo, foi uma solução brilhante para moradia popular sem cair na armadilha de fazer prédios-favela que apodrecem em poucos anos. enquanto isso, no resto do mundo, continuamos a construir conjuntos habitacionais que parecem saídos de um filme distópico de baixo orçamento.
e há cidades que estão tentando voltar a tratar as ruas como espaços de convivência, e não apenas corredores entre um shopping e outro. barcelona está criando as “superilhas”, blocos urbanos onde o carro não manda, onde as pessoas podem, veja só, andar, conversar, existir. parece óbvio, mas em um mundo onde a prioridade sempre foi construir mais avenidas, mais viadutos, mais espaços para carros, é quase um milagre.
já copenhague? essa sim, uma cidade que entendeu que o urbanismo não precisa ser um suplício. ruas projetadas para pessoas, praças que realmente convidam à vida, e uma arquitetura que respeita a escala humana. claro, para que isso acontecesse, tiveram que mandar os carros para o inferno, ou pelo menos para longe dos centros urbanos. enquanto isso, nas grandes metrópoles do mundo, seguimos achando normal que um pedestre tenha que implorar por um pedaço de calçada enquanto as avenidas engolem tudo ao redor.
e é isso que separa os lugares que funcionam dos que não funcionam… a compreensão de que arquitetura e urbanismo não são exercícios de ego, mas sim de empatia. construir um prédio não é sobre criar uma escultura gigante que impressiona a elite do design, é sobre criar um espaço que as pessoas que vivem ali vão amar, usar, sentir que pertencem. o problema é que, na era do star system da arquitetura, a maioria dos projetos quer ser capa de revista, não cenário de vidas reais.
porque é isso que está matando a arquitetura, a transformação de cidades em produtos, de prédios em marcas, de bairros em parques temáticos. você já viu esses “novos empreendimentos” que prometem ser uma “experiência completa”? tudo cercado, tudo controlado, tudo higienizado. um simulacro de cidade, onde até o verde é colocado em lugares estratégicos para parecer mais “instagramável”.
e é isso. seguimos presos nessa arquitetura de powerpoint, nesses delírios de concreto assinados por arquitetos que mais parecem designers de embalagem, vendendo prédios como quem vende um smartphone… bonitos, brilhantes, cheios de promessas e completamente descartáveis quando o próximo modelo sair.
as cidades viraram esse grande showroom de mediocridade, onde tudo é um projeto “visionário” e “sustentável” até a construtora encher os bolsos e partir para a próxima vítima. enquanto isso, seguimos enjaulados em cubículos de vidro, cercados de paredes finas como papel, sem varanda, sem vida, sem qualquer direito ao silêncio ou à sombra de uma árvore de verdade. mas tudo bem, porque tem espaço gourmet no térreo e um rooftop.
e o pior de tudo? acostumamos. aceitamos. nos convenceram de que isso é normal, que é assim que uma cidade moderna deve ser. e seguimos nesse teatro absurdo, fingindo que morar em um prédio sem janelas que abrem é o auge da sofisticação, que caminhar por ruas sem bancos ou árvores é só um detalhe, que viver sem qualquer senso de comunidade é o preço do progresso.
mas a verdade, a verdade mesmo, é que tudo isso é uma escolha. poderíamos ter cidades feitas para pessoas, não para carros. poderíamos ter prédios que duram, que acolhem, que não parecem obsoletos antes mesmo de serem inaugurados. poderíamos ter arquitetura que entende que a beleza não está em modismos vazios, mas na relação entre um espaço e quem o habita.
só que isso daria trabalho. exigiria que parássemos de idolatrar renderizações futuristas e começássemos a pensar em como realmente queremos viver. exigiria arquitetos que saíssem dos escritórios e andassem pelas ruas que projetam. exigiria que os urbanistas deixassem de pensar cidades como planilhas e começassem a vê-las como organismos vivos.
mas, enquanto isso não acontece, seguimos aqui, pagando caro para morar em caixas de sapato luxuosas, engolindo essa ideia absurda de que concreto e vidro sem alma são o futuro, aceitando que nossas cidades se tornem cada vez mais hostis, cada vez mais genéricas, cada vez mais vazias.
acordei como sempre, precisando de café antes de qualquer interação humana. nada de conversa, nada de sorrisos forçados, nada de energia matinal falsa… só uma xícara fumegante de cafeína pura, me lembrando que talvez eu consiga suportar mais um dia. porque sejamos sinceros… sem café, tudo desmorona.
café não é uma simples bebida, é um contrato com a civilização. é o que impede que a humanidade entre em colapso todas as manhãs. sem ele, as pessoas vagariam sem propósito, cometendo erros ainda maiores do que já cometem. reuniões seriam ainda mais inúteis. decisões seriam ainda mais idiotas. o mundo já está no limite da estupidez, e café é uma das poucas forças que ainda seguram as pontas.
e então aparecem os que pedem descafeinado. descafeinado. uma prova irrefutável de que algumas pessoas simplesmente não entenderam nada sobre a vida. café sem cafeína é como uma piada sem punchline, um carro sem motor, um filme de ação sem explosões. quer beber algo quente sem propósito? tome um chá e abrace sua insignificância em silêncio.
o café de verdade é simples e direto… preto, forte, quente. nada de chantilly, nada de espuma artística, nada de xaropes de baunilha com nomes ridículos. quer um milkshake? vá para a sorveteria. quer café? então beba como um adulto e pare de tentar transformar tudo em sobremesa.
e não me fale de café ruim. café ruim é um crime contra a dignidade humana. aquele líquido ralo, pálido, sem alma, que mais parece água suja do que qualquer coisa remotamente respeitável. servir um café desses para alguém é como desejar um mau dia em formato líquido. uma afronta pessoal.
tomar café não é só um hábito, é um compromisso com a sanidade. um lembrete de que, por pior que as coisas estejam, ainda existe algo confiável, algo que sempre funciona. o mundo pode estar em ruínas, mas enquanto houver café, ainda há uma chance de não ser arrastado para o abismo da mediocridade.
é claro que sempre tem alguém para dizer “mas café faz mal”. sim, claro. viver também faz. respirar o ar poluído das cidades, comer qualquer coisa que não tenha saído direto de uma plantação biodinâmica supervisionada por monges tibetanos, tudo supostamente faz mal. mas ninguém nunca morreu de uma boa xícara de café forte. pelo menos, não alguém que valesse a pena conhecer.
e um dia meu coração pode reclamar, pode dizer que já basta, pode tentar me convencer de que é hora de reduzir. mas sinceramente? prefiro um fim digno, com uma xícara na mão, do que uma existência sem café, arrastada em um mar de mornidão sem graça.
porque enfrentar esse mundo sem café? isso, meu amigo, seria um destino pior do que qualquer outro.
quando eu era moleque, o cinema era mais que um passatempo, era um convite para um mundo maior, mais perigoso, mais estiloso. era um refúgio, um professor, um traficante de ideias que os adultos ao meu redor não queriam que eu tivesse. entre fitas surradas de locadora e sessões em cinemas que cheiravam a mofo e cigarro, fui aprendendo que filmes não eram apenas histórias, eram mapas para entender a vida, com seus heróis canalhas, suas trilhas sonoras cortantes e seus finais onde, na maioria das vezes, todo mundo se fodia.
não vou te empurrar uma lista de filmes que “todo mundo precisa ver antes de morrer”. esses aqui moldaram meu cérebro, ferraram com minha noção de certo e errado, e me fizeram entender que a vida não tem trilha sonora épica, só silêncios constrangedores, diálogos cortantes e alguns momentos de pura explosão estilística antes do fade-out.
“the french connection” (1971) – gene hackman me ensinou que heróis não são bonzinhos, só são mais teimosos do que o vilão do dia. este filme tem a perseguição de carro mais brutal já filmada, mas o que ficou pra mim foi o cheiro de cigarro barato, o cansaço estampado no rosto de popeye doyle e o lembrete de que, às vezes, a obsessão não te leva a lugar nenhum, só a um beco onde a resposta certa nunca chega.
“rolling thunder” (1977) – tarantino fala desse filme como se fosse um evangelho, e ele tá certo. um ex-prisioneiro de guerra volta pra casa e percebe que o inferno não ficou no vietnã, tá esperando por ele na sala de estar. vingança sem frescura, suja, violenta, sem glamour. me ensinou que algumas feridas nunca fecham e que, se for pra encarar o mundo com uma mão mecânica e uma escopeta, melhor que seja pelo motivo certo.
“le cercle rouge” (1970) – jean-pierre melville me fez entender que o crime, quando bem feito, é uma ópera de paciência e precisão. este filme não tem pressa, não tem explosões desnecessárias, só criminosos que fumam como se estivessem resolvendo equações matemáticas enquanto preparam um golpe perfeito. e, como sempre, a lição final… a lealdade é um luxo que poucos podem pagar.
“bring me the head of alfredo garcia” (1974) – se um filme pudesse feder a tequila barata, suor e sangue seco, seria esse. sam peckinpah me ensinou que o mundo é um lugar onde ninguém ganha de verdade, só existem perdedores em diferentes estágios de decomposição. um cara ferrado atravessa o méxico com uma cabeça decepada e um sonho destruído. se isso não é cinema de verdade, eu não sei o que é.
“possession” (1981) – isabelle adjani tem um colapso mental em um túnel de metrô e, honestamente, isso é só o começo. este filme me mostrou que a insanidade não tem lógica e que algumas histórias não são feitas pra fazer sentido, só pra te jogar num abismo e te deixar lá, sem um manual de instruções.
“the long goodbye” (1973) – elliott gould como philip marlowe, um detetive que parece estar sempre uma tragada atrasado, vagando por uma los angeles onde ninguém é confiável. robert altman me ensinou que os anos 70 mataram qualquer ideia de heroísmo clássico, e que a única forma de sobreviver é não levar nada muito a sério, até o momento em que você precisa levar.
“santa sangre” (1989) – jodorowsky me fez entender que algumas histórias precisam ser contadas com sangue, fetiches estranhos e simbolismo católico perturbador. um circo, uma seita religiosa, um assassino que pode ou não estar sendo controlado pelo fantasma da mãe, tudo junto e misturado como uma alucinação que você não consegue esquecer.
“hard to be a god” (2013) – três horas de lama, suor, violência e civilização implodindo sobre si mesma. aleksei german me mostrou que o progresso é uma piada e que, se existisse um inferno medieval filmado em preto e branco, seria este filme. me fez entender que o horror não precisa de monstros, só de um mundo onde todo mundo fede e ninguém inventou a água corrente.
“the friends of eddie coyle” (1973) – esqueça glamour, esqueça tiros coreografados, este é um filme de crime sobre gente que só quer pagar as contas antes de levar um tiro nas costas. robert mitchum me ensinou que alguns homens nascem azarados, e que, no fim, a lealdade só vale alguma coisa até o momento em que alguém precisa salvar a própria pele.
“paris, texas” (1984) – harry dean stanton caminhando pelo deserto, carregando arrependimentos como uma cruz invisível. wim wenders me ensinou que algumas pessoas passam a vida tentando voltar pra algo que já virou poeira. silêncio, olhares que dizem mais do que palavras, e uma das cenas mais devastadoras já filmadas dentro de uma cabine de peep show.
filmes não são só entretenimento, são janelas, lâminas, bússolas quebradas apontando para direções que ninguém quer seguir. e se um filme não te faz sentir algo real, nem que seja desconforto, então por que diabos você está perdendo tempo com ele?
ah, o dia internacional da mulher. um dia necessário, incontestável, um lembrete de que sem elas nada teria sido construído, nada teria sobrevivido, nada teria avançado. um dia para celebrar, sim, mas também para lembrar que o caminho nunca foi fácil e que a luta está longe de terminar. porque se existe uma constante na história do mundo, é que as mulheres sempre precisaram fazer mais, lutar mais, resistir mais e, ainda assim, seguiram em frente.
e aqui estamos. um mundo que tenta aplaudir as mulheres sem precisar abrir mão dos privilégios que sempre segurou com unhas e dentes. um mundo que diz “vocês são incríveis”, mas ainda discute se devem ter controle sobre seus próprios corpos. que exalta “o poder feminino”, mas paga menos para elas. que finge que a igualdade chegou, mas ainda duvida quando uma mulher assume uma posição de liderança.
as mulheres são CEO’s, cientistas, escritoras, atletas, médicas, professoras, motoristas, donas de casa, artistas, engenheiras, cozinheiras, ativistas. constroem negócios, constroem conhecimento, constroem famílias, constroem revoluções. mas, ainda assim, precisam ouvir perguntas que nunca são feitas a um homem… “como concilia carreira e maternidade?”, “mas você não está exagerando?”, “tem certeza de que aguenta essa responsabilidade?” como se fossem eternas candidatas em fase de teste para uma posição que já ocupam com excelência.
mas sejamos justos, muita coisa mudou. porque as mulheres fizeram mudar. porque não esperaram permissão, não pediram desculpas por serem brilhantes, não aceitaram migalhas. porque entenderam que cada direito conquistado foi arrancado com esforço, nunca dado de bom grado.
e é por isso que o dia da mulher importa. não é sobre brindes corporativos idiotas ou frases bonitas em redes sociais. é sobre lembrar as que vieram antes e abrir caminho para as que virão depois. sobre reconhecer que, sim, há conquistas a serem celebradas, mas também há batalhas ainda sendo travadas. sobre perceber que mulheres não são uma categoria única, que existem em múltiplas formas, realidades e lutas.
existem as que comandam empresas e as que fazem malabarismo com três empregos para sustentar uma família. as que lutam por espaço no topo do mundo corporativo e as que lutam por dignidade básica em trabalhos informais. as que querem ser mães e as que decidiram que não. todas, sem exceção, enfrentam desafios que um homem sequer cogita existir. e todas, sem exceção, merecem um mundo que pare de vê-las como um grupo homogêneo, como se todas coubessem dentro da mesma narrativa simplista de “força feminina”.
o dia da mulher não é sobre colocar mulheres em pedestais. é sobre tratá-las como humanas, com direitos, com falhas, com escolhas. é sobre dar espaço, voz, respeito. sobre reconhecer que nenhuma mulher precisa ser uma heroína impecável para ser valorizada. sobre entender que o mínimo não é um presente, é uma obrigação.
então, que o dia da mulher seja celebrado. mas que seja celebrado com ações, não só palavras. que seja um dia de reflexão, mas também de mudança. que seja um dia de orgulho, mas também de cobrança. porque, no final, as mulheres não querem mais palmas. querem o que sempre foi delas… TUDO.
eu nunca fui de futebol. nunca. pra mim, sempre foi um bando de caras correndo atrás de uma bola, enquanto um estádio lotado gritava como se o resultado de um jogo fosse determinar o destino da humanidade. eu estava fora disso. completamente alheio. futebol era a obsessão dos outros, não a minha. até que um dia, eu virei pai.
e quando você vira pai, descobre que certas escolhas já não são mais suas. porque seu filho descobre o futebol. e, de alguma forma inexplicável, sem nenhuma influência familiar, sem nenhum primo mais velho empurrando uma camisa velha pela cabeça dele, sem nenhuma tradição embutida, ele escolhe torcer para o palmeiras. palmeiras. um time que nunca teve cadeira cativa nas conversas de domingo da minha família. que nunca foi assunto no boteco da esquina. e, de repente, lá estava eu, assistindo os jogos, torcendo, gritando na frente da tv.
mas aí, vem a realidade. aquela realidade feia, suja, violenta, que insiste em nos lembrar que o futebol, como o mundo, não é um lugar bonito pra todo mundo. aquela realidade que chutou a porta do estádio e escancarou o que sempre esteve lá, mas que muita gente finge não ver, o racismo. porque no último jogo da base do palmeiras, um garoto negro foi chamado de macaco. não só chamado. a torcida adversária fez gestos, imitou um macaco, escancarou a podridão de sempre, sem medo, sem vergonha, sem qualquer receio de punição. porque sabem que punição, quando se trata de racismo, é um conceito flexível.
e eu assisti isso. e me veio um ódio ancestral, um nojo, um enjoo. porque não é só um xingamento, não é só uma provocação de arquibancada. é um sintoma. é a doença crônica da sociedade gritando em alto-falante no meio do estádio. é um lembrete de que, por mais que tentem vender o futebol como um espetáculo global, como um símbolo de união, no final das contas, ainda tem gente que só aceita jogadores negros no campo quando eles estão ganhando. quando perdem, quando erram, quando simplesmente existem na camisa errada, viram alvo.
e não é um problema do futebol. o futebol só amplifica o que já está aí, podre e escorrendo pelas rachaduras do sistema. porque quando o homem mais rico do mundo decide que o policial que esmagou george floyd contra o asfalto merece uma pena menor, o que isso ensina pras pessoas? quando outro bilionário resolve que o melhor a se fazer é reduzir a moderação nas redes sociais, facilitando que discurso de ódio, racismo e extremismo se espalhem sem barreira, o que ele está dizendo? quando um presidente remove todo o calendário de datas em apoio à população negra e um dos maiores mecanismos de busca do planeta, sem questionar, acata a ordem e apaga tudo, o que isso significa?
significa que o racismo não só sobreviveu, mas ganhou um puta megafone. que ele não se esconde mais em sussurros, em piadinhas de mau gosto na mesa do bar. ele está na televisão, nas redes sociais, nos discursos, nas bancadas do congresso, nas arquibancadas. ele está sendo defendido como “liberdade de expressão”, como se ser racista fosse uma questão de opinião, um direito constitucional, e não uma merda criminosa.
e assim, a coisa se espalha. porque se um bilionário pode relativizar a execução de um homem negro nos eua, se outro pode desmontar os filtros que impedem que ódio circule livremente, se um jogador pode ser chamado de macaco em rede nacional sem grandes consequências, então qualquer imbecil no estádio se sente no direito de fazer o mesmo. porque ele sabe que nada vai acontecer. porque ele sabe que, no final, sempre vai ter notas de repúdio e um comentarista pra dizer que “era só provocação” ou que “isso sempre existiu no futebol”… ou fingindo que nada aconteceu e nem fazendo as perguntas que devem ser feitas.
mas não, cacete. isso não é futebol. isso é um espelho da sociedade. um reflexo de como ela sempre viu os negros…
e eu penso no meu filho. penso no dia em que ele vai crescer e entender isso tudo. no dia em que ele vai perceber que um jogador negro nunca está apenas jogando futebol. que ele sempre carrega nas costas um peso a mais, um julgamento extra, um risco maior. e eu vou olhar nos olhos dele e explicar. explicar que o mundo ainda trata negros como inimigos, como intrusos, como inferiores. explicar que aquele xingamento, aquela ofensa, não é só sobre um jogo. é sobre um sistema inteiro.
e me revolta. porque o futebol deveria ser um jogo. deveria ser sobre tática, sobre rivalidade saudável, sobre paixão. mas, pra alguns, nunca vai ser só isso. vai ser um lembrete constante de que não importa o talento, a camisa, a torcida… se você nasceu negro, sempre vão tentar te colocar no seu “lugar”.
o problema não é o futebol. o problema somos nós. e enquanto aceitarmos isso como “parte do jogo”, estaremos dizendo que racismo é só uma característica do esporte, e não um câncer da sociedade. estaremos nos tornando cúmplices.
e eu, como pai, como torcedor recente, como ser humano, me recuso a aceitar isso. me recuso a assistir calado enquanto um garoto é humilhado em rede nacional por ser negro. me recuso a deixar meu filho crescer num mundo onde isso é normal.
porque não, essa merda não é normal. nunca foi. nunca será. e se tem uma coisa pela qual vale a pena gritar, brigar e lutar, é pra garantir que o próximo moleque que entrar em campo só precise se preocupar em jogar bola.
eu sou a voz na sua cabeça. aquela que aparece sem pedir licença, que diz o que você já sabia, mas não queria admitir. a que não se preocupa em ser gentil ou inspiradora. você lê o que eu escrevo todos os dias, talvez porque goste, talvez porque precise, talvez porque, no fundo, já tenha percebido que o mundo está cheio de gente que fala, mas pouca que realmente tem algo a dizer. eu escrevo porque não sei fazer outra coisa. porque palavras são o que me mantém respirando, porque o silêncio é insuportável. e porque, se for para preencher o vazio, que seja com algo que preste.
nasci numa segunda-feira, às 18h18. um momento que não se esforça para ser especial. nem dia, nem noite, só um intervalo qualquer, um meio-termo, uma pausa entre um turno e outro. perfeito. porque, sejamos honestos, eu nunca fui de grandes entradas ou momentos cinematográficos. eu apareço no instante em que ninguém está prestando atenção e, quando percebem, já estou lá, já fiz o que precisava ser feito, e saio sem ninguém perceber.
escrevo porque nunca me dei bem com o superficial. porque sempre tive um certo desprezo pela mediocridade confortável, pelas frases vazias que as pessoas dizem quando não têm nada de verdade para falar. porque gosto de desconforto, de provocar reações, de forçar o outro a olhar para si mesmo e se perguntar se realmente sabe quem é.
palavras me alimentam. sempre alimentaram. enquanto muita gente se perde na embriaguez dos próprios sentimentos, eu bebo palavras como quem precisa delas para continuar de pé. talvez precise. talvez escrever seja a única coisa que me mantém em movimento, que me impede de cair na armadilha do conformismo, esse monstro silencioso que transforma pessoas inteiras em sombras do que poderiam ter sido.
nunca gostei de me explicar. nunca vi sentido em tentar convencer ninguém de nada. as pessoas acreditam no que querem acreditar, e a verdade, na maioria das vezes, não tem nada a ver com isso. mas escrever é diferente. escrever não é sobre convencer. é sobre deixar a verdade ali, nua, crua, na mesa, e ver quem tem coragem de encará-la.
escrever é um ato de resistência. contra a estupidez, contra a repetição infinita de ideias mastigadas, contra essa necessidade ridícula que as pessoas têm de serem agradáveis o tempo todo. eu nunca fui agradável. e duvido que vá começar agora.
e eu sei que muita gente não entende. acham que honestidade é grosseria, que sarcasmo é amargura, que falar a verdade sem floreios é algum tipo de defeito de fabricação. não é. o mundo já está cheio de gente que mede palavras, que sorri quando não quer, que se preocupa mais em ser aceito do que em ser verdadeiro. eu deixo essa gentileza para quem precisa dela.
também sei que a maioria prefere ser enganada. prefere acreditar em histórias reconfortantes, em versões editadas da realidade, em frases motivacionais baratas que dizem que tudo vai dar certo. eu não vendo esse tipo de ilusão. nunca vendi. minha única promessa é que, se você continuar lendo, pelo menos vai ouvir algo que não foi diluído até virar uma papa insossa de autoajuda.
não estou aqui para segurar a mão de ninguém. não sou guru, não sou mestre, não sou coach. sou só alguém que escreve. alguém que olha para o mundo e se recusa a aceitar o que vê sem questionar, sem provocar, sem empurrar o leitor para fora da sua zona de conforto.
e se isso incomoda, melhor ainda. porque a única coisa pior do que ler algo que te faz se sentir desconfortável é passar a vida inteira lendo coisas que não te fazem sentir nada.
as palavras certas podem mudar tudo. podem ser uma lâmina afiada, um golpe preciso, um soco no estômago de quem achava que estava seguro. eu prefiro assim. prefiro que minhas palavras incomodem, que deixem um gosto estranho na boca, que façam alguém fechar o texto e depois voltar, porque não conseguiu ignorar.
não sou um escritor de fórmulas. não escrevo para agradar. escrevo porque é isso que faço, porque é isso que sou. e se alguém se incomoda, ótimo. sinal de que ainda estou fazendo direito.
então, agora você já sabe um pouco mais sobre quem escreve para você. ou pelo menos acha que sabe. e se ainda está aqui, se ainda está lendo, se alguma coisa nessas frases te prendeu… bom, talvez sejamos mais parecidos do que você imaginava.