sabe o que realmente me assusta? não é a direita raivosa, os fanáticos de whatsapp ou o ressentimento que anda correndo solto por aí. medo eu tenho é da burrice insistente, da arrogância progressista que se recusa a aprender com a história, da crença ingênua de que “a verdade vencerá” enquanto o povo conta moedas para comprar arroz e feijão.
medo eu tenho desse pessoal que ainda acha que pode tratar o eleitor como um animal de estimação, como se fosse um cachorrinho fiel que volta abanando o rabo a cada eleição, só porque a alternativa é pior. medo eu tenho dessa ilusão coletiva em que a esquerda se enfia, achando que porque tem a mídia, a universidade e os artistas, tem o povo. não tem. o povo está puto. o povo está cansado. e quando o povo cansa, meu amigo, a história já mostrou o que acontece.
acontece um maluco qualquer, um picareta carismático, um vendedor de ilusões que aparece prometendo ordem, dignidade e redenção nacional. acontece um salvador da pátria, um homem forte que diz exatamente o que as massas desesperadas querem ouvir. já vimos esse filme antes. era mudo e em preto e branco, mas terminou em guerra, campos de extermínio e milhões de mortos.
porque a coisa nunca começa com tanques nas ruas e hinos nacionalistas. começa com um povo humilhado, um governo fraco, um parlamento disfuncional e uma elite progressista que vive numa bolha, rindo de quem ousa discordar. começa quando a classe média percebe que sua vida está piorando, quando os pobres percebem que ninguém liga para eles e quando as instituições falham repetidamente em oferecer respostas. começa quando um desgraçado qualquer aparece dizendo “eu sei quem são os culpados”, apontando o dedo para jornalistas, professores, artistas, imigrantes, minorias… qualquer um que sirva de bode expiatório.
e enquanto a esquerda discute pronomes, a realidade está engolindo o país. enquanto os progressistas dobram a aposta, a raiva cresce. e raiva acumulada vira vingança. vira ódio puro. vira voto. e quando o caos estiver completo, quando um novo líder autoritário surgir do nada, quando as massas o carregarem nos ombros como um messias, vai ter muito intelectual chocado perguntando “meu deus, como isso foi acontecer?”.
foi acontecer porque vocês estavam ocupados demais discutindo filigranas ideológicas enquanto o povo queria só saber como pagar a feira. foi acontecer porque vocês acharam que estavam ganhando enquanto estavam sendo varridos do tabuleiro. foi acontecer porque a história, essa velha desgraçada vingativa, tem um senso de ironia brutal e uma paciência infinita para repetir lições que ninguém aprende.
acordo quando acordo. sem despertador, sem notificações me lembrando de coisas que não quero lembrar, sem um aplicativo tentando me convencer de que a primeira hora do dia precisa ser otimizada. levanto, faço café para minha esposa. café de verdade, nada desses crimes mornos e aguados que algumas pessoas chamam de “suave”. ela merece um café decente. eu também. enquanto isso, pego o jornal de papel. sim, papel. aquele objeto ultrapassado que não me pede senha nem me bombardeia com anúncios baseados nos meus últimos cinco segundos de pensamento. folheio, deixo a tinta sujar os dedos, respiro fundo e confirmo que a humanidade segue firme na sua missão de se autodestruir com eficiência, nada novo.
passo a manhã no escritório com meu filho. eu trabalho, ele desenha, escreve, inventa teorias. minha mesa se transforma numa exposição temporária de ideias malucas e obras de arte feitas com papel, tesoura e fita adesiva em quantidades que desafiam a física. entre um e-mail e outro, surgem perguntas que ninguém no escritório teria coragem de fazer. “e se o oceano fosse doce?” “se o silêncio faz barulho, então ele ainda é silêncio?” “o tempo existe mesmo ou é só uma coisa que a gente inventou pra não enlouquecer?”.
no escritório o teatro corporativo. reuniões, e-mails, discussões que parecem importantes, mas que, com um pouco de distância, são só uma sucessão de frases genéricas ditas com convicção. algumas reuniões são úteis. outras são como ficar preso num elevador com gente que adora escutar a própria voz. sorrio, anoto coisas, finjo interesse. faço cara de quem se importa, porque às vezes isso já resolve metade dos problemas.
chega a hora de levá-lo para a escola, e o trajeto nunca é só um trajeto. tem teorias, tem descobertas, tem uma análise detalhada sobre por que algumas palavras soam engraçadas e outras não. discutimos os nomes das ruas, os formatos das nuvens, a melhor forma de construir um foguete com materiais encontrados em casa. chegamos, ele desce com a confiança de um astronauta prestes a pisar num planeta novo. as crianças entram na escola como se estivessem embarcando numa expedição intergaláctica. e, de certa forma, estão.
na hora do almoço, pausa. como com minha esposa, porque trabalhar na mesma região e não almoçar juntos seria um nível de insanidade que ainda não alcancei. almoçar com ela é um momento de sanidade no meio do pandemônio do dia. falamos sobre tudo e sobre nada, e às vezes só ficamos ali, apreciando o raro milagre de uma refeição sem interrupções.
a tarde segue seu curso. mais trabalho, mais reuniões, mais decisões que provavelmente serão refeitas amanhã. em algum momento, escrevo algo, rabisco uma ideia sem objetivo, faço qualquer coisa que não tenha prazo, só para lembrar que meu cérebro ainda funciona por conta própria. então, finalmente, o melhor momento do dia: buscar meu filho.
as crianças saem da escola como sobreviventes de uma expedição ao desconhecido. meu filho já chega falando, e eu escuto como se fosse a notícia mais importante do dia. porque é. tem histórias, tem reviravoltas, tem pequenas vitórias e derrotas épicas. um amigo perdeu a borracha e foi um drama shakespeariano. a aula de circo ele fez um movimento tão impressionante que todo mundo ficou em choque. o recreio foi um campo de batalha onde alianças foram formadas e traídas. cada detalhe é contado com urgência, como se fosse informação confidencial de um dossiê ultrassecreto.
chegamos em casa, e o caos recomeça. desenhos, mais perguntas impossíveis, mais projetos que desafiam as leis da lógica e da arquitetura. a sala vira um campo de experimentação criativa, e eu só observo, fascinado com a liberdade de quem ainda não foi contaminado pelo medo de errar.
à noite, quando conseguimos, assistimos tv. ou tentamos. às vezes a gente dorme no sofá, afogados em travesseiros, cobertores e o peso de um dia vivido de verdade. a festa do pijama oficial da casa. acordamos em horários diferentes, nos arrastamos para a cama sem cerimônia. e amanhã? tudo de novo. ou diferente. não importa. o que importa é que, no meio da rotina, do trabalho, das reuniões sem sentido, sempre tem esses momentos. e esses momentos são a única coisa que vale a pena.
abrir um jornal de papel hoje em dia é quase um ato de resistência, tipo acender um cigarro num restaurante vegano ou perguntar onde fica a sessão de carne num mercado hipster. enquanto o resto do mundo acorda e se enfia num transe digital, sendo alimentado por manchetes mastigadas e tendências ditadas por um algoritmo invisível, eu estou aqui, dobrando as páginas de um trambolho impresso, deixando meus dedos sujos de tinta e minha cabeça suja de pensamentos que talvez não me agradem. porque é disso que se trata: enfrentar a realidade sem filtros personalizados, sem sugestões feitas sob medida pro meu gosto. um jornal não quer saber no que eu acredito. ele só me mostra o que está acontecendo, e eu que lide com isso.
as redes sociais são um fast food mental, projetadas pra servir informação do jeito mais rápido, viciante e previsível possível. tudo que aparece já foi escolhido com base no que eu já li, no que eu já cliquei, no que eu já discuti. e qual o resultado? um loop infinito onde eu só vejo versões ligeiramente diferentes do que já penso, só reforçando minhas certezas, só alimentando minha bolha. o jornal, por outro lado, é um prato completo, com coisas que eu gosto e coisas que talvez eu nunca pediria… mas que, no fim das contas, fazem bem. eu começo a ler sobre política, acabo caindo numa história sobre um pescador esquecido no meio do oceano e, de repente, minha cabeça não está mais no mesmo lugar de antes. e isso é bom. porque o mundo não gira ao redor do meu gosto pessoal.
e tem o foco. ah, o luxo da atenção plena. abrir um jornal e simplesmente… ler. sem pop-ups, sem notificações histéricas, sem um vídeo de um idiota dançando logo abaixo da manchete. só a notícia, a matéria inteira, sem cortes, sem interrupções. ler uma reportagem longa no celular é como tentar ouvir um disco clássico no meio de uma festa barulhenta, impossível absorver tudo, impossível se perder na experiência. com o jornal, não tem distração embutida. se eu quiser parar no meio de uma leitura, a interrupção tem que vir de mim, não de uma inteligência artificial desesperada pra me jogar na próxima tendência irrelevante.
e o jornal ocupa espaço. ele está ali, sólido, físico, impossível de ignorar. diferente de um feed que desaparece no instante em que eu rolo a tela, o jornal não some, não se dissolve no ar. ele se impõe. e me força a dar um passo atrás, a processar as informações sem a pressa insana da internet, onde tudo tem que ser consumido rápido antes que outra coisa tome seu lugar. com o jornal, o tempo é meu. eu leio no meu ritmo. e quando termino, ele continua existindo, um lembrete de que a informação real tem peso, tem substância.
e não me entenda mal, eu não sou ingênuo. não estou aqui pra canonizar jornalistas ou fingir que tudo que está impresso num jornal é uma obra-prima de honestidade e profundidade. tem muito jornalista preguiçoso, muito veículo vendido, muita matéria feita na correria só pra preencher espaço. mas pelo menos… pelo menos, o jornalismo ainda exige um mínimo de rigor, uma base de pesquisa, um esforço pra conectar os pontos. é um milhão de vezes melhor do que confiar em prints duvidosos ou numa manchete distorcida compartilhada por algum tio no whatsapp. e, convenhamos, qualquer coisa que faça um trabalho melhor do que uma inteligência artificial gerando notícias automáticas já vale a pena.
porque esse é o problema do jornalismo digital, ele se tornou refém da velocidade. na corrida por cliques, pela viralização, pela manchete mais chamativa, a verdade muitas vezes se perde no meio do caminho. uma reportagem de fôlego, aquela que exige semanas de apuração, não compete com um tweet esperto e venenoso que faz a galera espumar de raiva. mas a verdade, aquela verdade que dói, que incomoda, que não cabe num título de clickbait, ainda está lá, esperando. e geralmente, ela não aparece no trending topics.
e tem um outro detalhe, talvez o mais subestimado, o jornal, ao contrário das redes sociais, não fala comigo. ele não me bajula, não tenta me agradar, não molda as notícias pra me manter confortável. não tem um algoritmo me tratando como um bebê gigante, servindo só as informações que me deixam feliz ou indignado do jeito certo. no jornal, eu leio coisas que talvez me façam mudar de ideia. leio pontos de vista que talvez eu não queira encarar. e sabe o que isso significa? que eu ainda tenho escolha. que ainda posso pensar por conta própria, sem que um software decida qual é a minha opinião antes mesmo de eu terminar de ler.
e no fim das contas, é disso que se trata, escolher entre ser um consumidor passivo, alimentado por um sistema que lucra com a minha previsibilidade, ou assumir o controle da minha própria curiosidade. ler um jornal não é sobre nostalgia, não é sobre fetiche analógico, não é sobre ser hipster e rejeitar tecnologia. é sobre pegar a informação na sua forma mais pura possível, e decidir o que fazer com ela.
e sim, eu poderia simplesmente fechar esse jornal, abrir meu celular e deixar que a máquina me jogue de volta no fluxo infinito de distrações. poderia passar o resto do dia rolando a tela, me sentindo informado sem nunca sair da superfície. poderia. mas, por enquanto, fico aqui, dobrando as páginas, deixando a tinta sujar meus dedos, sabendo que hoje, pelo menos hoje, escolhi algo real.
acordei outro dia e fiz exatamente o que qualquer pessoa minimamente sensata evitaria: enfiei a cara no apocalipse antes mesmo de sair da cama. abri as notícias e pronto, lá estava ele, o festival diário de desgraça e absurdo. guerra. inflação. algum bilionário brincando de deus. um desastre ambiental que, surpresa, ninguém vai resolver. e, claro, uma análise profunda e totalmente inútil sobre como estamos todos fodidos, mas dessa vez com gráficos interativos.
passei os olhos nas manchetes como quem checa o saldo bancário depois de um mês descontrolado, sabendo que só vem merda, mas incapaz de resistir ao masoquismo. porque é isso que virou essa história de “se manter informado”, um vício sujo, um looping infinito de más notícias temperado com o ocasional meme de gato só pra garantir que você não se jogue pela janela antes do almoço.
mas aí eu levantei. olhei em volta. minha casa. minha família. minha equipe. as pessoas que realmente precisam de mim. as pessoas que confiam que eu vou estar ali, inteiro, lúcido, pronto pra resolver as merdas reais do dia. e percebi que eu estava começando todas as manhãs do jeito errado… já drenado, já esgotado, já convencido de que o mundo era uma lixeira pegando fogo e que nada mais prestava. e o pior? eu fazia isso comigo mesmo. todo dia. como um ritual doentio.
então eu cortei. fechei o celular. decidi que não ia mais me afogar no colapso global antes do café esfriar. não porque eu parei de me importar, mas porque, se eu continuar nesse ciclo, vou acabar me tornando só mais um zumbi cínico, um desses caras que passam o dia inteiro repetindo “nada faz sentido” como se isso fosse um mantra iluminado, quando na verdade é só pura preguiça de viver.
e olha, sei que tem gente que acha que estar bem-informado significa estar perpetuamente fodido, como se carregar toda a miséria do mundo nos ombros fosse algum tipo de passaporte pra superioridade moral. mas me diz uma coisa, quando foi a última vez que você terminou de ler as notícias e pensou “nossa, agora sim, pronto pra encarar o dia com otimismo!”? pois é. nunca.
então eu escolhi outra coisa. escolhi focar no que eu posso mudar. na minha família, na minha equipe, nas pequenas coisas que ainda fazem sentido. escolhi lembrar que o mundo sempre esteve uma bagunça, mas que, apesar disso, a vida ainda acontece fora das telas, longe das manchetes, e que se eu passar o tempo todo hipnotizado pelo caos, eu simplesmente deixo de viver. e, sinceramente? não tô a fim de dar esse gostinho pra ninguém.
aquela série que começou como um thriller de sobrevivência e terminou como uma confusão metafísica onde ninguém sabia mais se estavam vivos, mortos ou apenas mal pagos. mas entre todas as almas perdidas daquela ilha, há um homem que se destaca: desmond hume. e, do outro lado do espectro, o doutor jack shephard, o equivalente humano a uma palestra motivacional que ninguém pediu.
vamos começar pelo rei do “brotha”, desmond. o cara era um escocês maldito, cheio de carisma, um misto de herói trágico e profeta relutante que não pedia nada além de uma chance de voltar para a mulher que amava. e diferente da maioria dos palermas naquela ilha, ele tinha algo que poucos ali pareciam possuir: um propósito. enquanto o resto do elenco ficava debatendo liderança e moralidade como se fossem alunos de filosofia do primeiro semestre, desmond estava lá, girando chaves, prevendo o futuro e carregando a série nas costas sem nem reclamar. e ainda por cima tinha o melhor arco da série, uma história de amor que na verdade fazia sentido e não parecia escrita num guardanapo sujo às três da manhã.
agora, jack shephard. ah, jack. o doutor maravilhoso, o líder autoimposto, o rei do discurso inspirador que só servia pra aumentar a enxaqueca de quem assistia. porque todo maldito episódio esse cara achava que precisava dar uma lição de moral? parecia um coach de startup preso num pesadelo existencial. e a necessidade compulsiva dele de controlar tudo? o cara não aceitava um “não” da vida. era como um daqueles tipos que insistem que podem consertar qualquer coisa, menos a própria falta de carisma.
jack era o tipo de cara que, se você estivesse num voo internacional e ele sentasse do seu lado, você fingiria estar dormindo só para evitar a conversa. “sou médico, sou líder, sou um mártir, blá blá blá.” sim, jack, já entendemos, você quer salvar todo mundo e carregar o peso do mundo nos ombros, parabéns, agora vai ali buscar um calmante e para de encher o saco.
e o pior de tudo? no final, a série ainda quis vender jack como o grande herói, o cara que resolveu tudo. mas vamos ser sinceros: o verdadeiro herói era desmond. porque enquanto jack estava ocupado fazendo cara de quem tem prisão de ventre emocional, desmond estava literalmente viajando no tempo, salvando a realidade e ainda encontrando espaço pra um final decente. então, se tivesse justiça nesse mundo ou nessa ilha, “lost” teria terminado com desmond indo embora e jack sendo deixado para trás, fazendo um último discurso para ninguém.
se walter white fosse um guru de curso online, a série teria acabado no terceiro episódio. nada de noites em claro cozinhando metanfetamina em trailers no meio do deserto, nada de explosões, nada de enfrentar cartéis assassinos. ele simplesmente abriria um canal no youtube e venderia um curso chamado “como construir um império do zero com um simples método.” em vez de dizer “i am the danger”, ele falaria “você está cansado de viver na mediocridade?” e pronto, fim da história, império garantido sem um arranhão. porque, no mundo desses charlatões, riqueza não vem de talento, esforço ou sacrifício. vem de um método mágico que, veja só, só eles conhecem e estão dispostos a compartilhar por um precinho camarada.
a grande diferença? walter white, apesar de todos os seus defeitos, pelo menos sabia que era um bandido. o guru do curso online, por outro lado, finge que está fazendo um favor ao mundo. enquanto walter enfrenta traficantes armados até os dentes para proteger seu império, o guru enfrenta… um ring light e um script mal ensaiado. a única coisa que ele tem que fazer é repetir frases prontas sobre “renda passiva” e “mentalidade milionária” enquanto finge que seu fundo alugado em dubai é um símbolo de sucesso genuíno.
e o golpe é sempre o mesmo. primeiro, ele te convence de que ser uma pessoa normal, trabalhar, pagar contas, viver sem alarde… é a pior coisa que pode acontecer com um ser humano. porque, claro, a verdadeira felicidade não está em comer um bom prato de comida, viajar por prazer ou simplesmente não ser um babaca. está em ser um tubarão dos negócios, um investidor visionário, um predador em um mundo de presas. e, por sorte, ele tem um curso exatamente para isso.
mas a parte mais brilhante desse golpe? quando dá errado, e sempre dá errado, a culpa nunca é do curso. é sua. você não aplicou direito. você não teve a mentalidade certa. você não quis o suficiente. genial. ele vende uma miragem e ainda te convence de que, se você morrer de sede no deserto, o problema foi sua falta de comprometimento. walter white pelo menos admitiria que te enganou. o guru do curso online vai te convencer a comprar outro curso.
mas a cereja do bolo, o golpe final, é quando o ex-aluno finalmente percebe a realidade: o único jeito de ganhar dinheiro com esses cursos é vendendo um. e assim nascem novos gurus. o sujeito que gastou r$ 3.000 em um treinamento inútil agora está pronto para recuperar o investimento. grava um vídeo, monta um “método infalível” e começa a vender exatamente a mesma ilusão que comprou. um grande esquema de pirâmide emocional onde a única coisa que se multiplica não é o dinheiro, é o número de pessoas convencidas de que são gênios do capitalismo.
walter white, se assistisse a isso tudo, provavelmente abriria uma cerveja, daria um gole e diria: “eu explodi um cartel inteiro para construir um império e esses imbecis conseguiram o mesmo resultado vendendo e-books de autoajuda. parabéns para eles.”
olha pra essa tela. agora olha de novo. quantas abas abertas? cinco? dez? vinte e sete? um número tão grande que você já desistiu de contar? você não está navegando na internet. você está se afogando num mar de informação inútil, fake news de quinta categoria, vídeos de gatos tocando piano e aquele tutorial que você jurou que ia assistir, mas ficou só no “depois eu vejo”. você virou um acumulador digital, um esquilo paranoico empilhando nozes de conhecimento irrelevante que nunca vai mastigar.
mas aqui vai a real, essas malditas abas abertas estão roubando a sua alma. isso mesmo, vampiros sugadores de sanidade, pequenas armadilhas psicológicas vestidas de produtividade. você acha que está no controle, acha que cada aba tem um propósito, mas, na verdade, você está apenas colecionando distrações como um viciado coleciona desculpas.
cada aba é uma promessa não cumprida. uma pesquisa acadêmica que você nunca terminou de ler. um site de notícias que só aumenta sua ansiedade. um vídeo de receita que você nunca vai tentar. um e-mail que você finge que vai responder. uma aba para cada decisão adiada, cada projeto inacabado, cada fantasia de que um dia você será mais organizado, mais culto, mais eficiente. mas você não é. e nem vai ser, enquanto não apertar aquele bendito “fechar todas as abas”.
pensa bem, quando foi a última vez que você conseguiu se concentrar em uma coisa só? não estou falando de fingir que presta atenção numa reunião enquanto navega entre quatro abas do google, mas sim de realmente mergulhar em uma única tarefa, sem interrupções, sem pulinhos de atenção dignos de um peixinho dourado com déficit de memória? pois é.
isso tem nome. se chama sobrecarga cognitiva. o seu cérebro, essa máquina gloriosa que evoluiu para caçar mamutes e fazer fogo, está derretendo lentamente sob o peso de centenas de fragmentos de informação inútil. e você sente isso. você sente na dificuldade de lembrar das coisas, na ansiedade crescente, na insônia alimentada por uma mente que se recusa a desligar porque você passou o dia inteiro consumindo estímulos como um bufê de fast food para o cérebro.
e não vamos esquecer do impacto físico: olhos secos de tanto encarar a tela. tensão no pescoço, nos ombros, na alma. aquele cansaço mental que te faz sentir exausto mesmo sem ter saído do lugar. você está sendo moído por essa avalanche de informação, mas insiste em continuar abrindo mais e mais abas, como se estivesse construindo um castelo de cartas no meio de um furacão.
o pior é que você sabe. sabe que devia fechar tudo e focar no que realmente importa. sabe que esse hábito de acumular abas é uma forma elegante de procrastinação. sabe que está apenas se iludindo com a ideia de que está sendo produtivo, quando, na verdade, está apenas girando em falso, como um hamster numa roda de ansiedade.
e ainda tem a ilusão da “volta”. aquele pensamento traiçoeiro: “vou deixar essa aba aberta pra ler depois”. depois nunca chega. depois é uma mentira que você conta para si mesmo enquanto se afunda cada vez mais nesse oceano digital.
então, que tal fazer um teste? fechar todas as abas. todas. sem dó. sem piedade. aperta aquele botão e observa a sensação que vem depois. talvez um frio na barriga, um medo absurdo de ter perdido algo importante. mas logo depois, um alívio. um silêncio mental. um espaço vazio onde, por alguns segundos, a sua mente pode respirar.
isso é desintoxicação digital. isso é minimalismo mental. isso é parar de agir como um viciado em informação que não consegue desligar.
porque, no fim das contas, se algo for realmente importante, ele vai voltar. a informação certa sempre encontra um jeito de chegar até você. mas a paz de espírito que você está trocando por um mar de abas abertas? essa, meu amigo, você está jogando fora sem nem perceber.
então feche todas as abas. agora. respire fundo. e talvez, só talvez, comece a sentir o gosto da liberdade.
design é a mais cruel das ironias. uma promessa de que o mundo pode ser funcional, belo e intuitivo, mas que, na prática, mais frequentemente nos presenteia com objetos, espaços e experiências que parecem projetados por um comitê de lunáticos sem noção da realidade. sou obcecado por design porque ele molda absolutamente tudo ao nosso redor, desde a cadeira onde estamos sentados até as cidades em que nos perdemos (às vezes literalmente, graças a um arquiteto que achou que sinalização era “poluição visual”). e, como toda obsessão, essa me traz tanto êxtase quanto fúria.
porque design, no fundo, é poder. é a decisão de um pequeno grupo que determina como milhões de pessoas vão viver suas vidas. se vão andar com fluidez ou tropeçar a cada passo. se vão interagir com algo de forma intuitiva ou sentir que precisam de um mestrado só para abrir uma porta. se vão se sentir acolhidas em um espaço ou se aquele lugar foi feito para esmagar suas almas e fazê-las questionar todas as suas escolhas de vida.
pense em um simples objeto cotidiano, um canivete suíço, por exemplo. a perfeição em forma de ferramenta. compacto, eficiente, elegante. cada lâmina, cada acessório tem um propósito. não há desperdício. não há confusão. agora pense no exato oposto disso, algo que, em vez de facilitar sua vida, te desafia a todo momento. um controle remoto com 72 botões, metade deles inúteis. um abridor de garrafas que parece ter sido projetado para torturar os dedos de quem o usa. um aplicativo bancário onde cada transação parece um teste psicológico.
mas não é só o design ruim que me irrita, é o design pretensioso. o design que quer ser arte, mas que falha miseravelmente em ser qualquer coisa além de um enorme desperdício de recursos e paciência. cadeiras que parecem esculturas, mas que te fazem sentir como se estivesse sentado sobre uma pilha de pedras pontiagudas. portas sem maçanetas porque “o fluxo do espaço deve ser intuitivo”. escadas que parecem feitas para seres humanos com pernas de dois metros de altura.
e há um tipo de design ainda pior, o design hostil. aquele que não só ignora as necessidades das pessoas, mas deliberadamente as pune. bancos de praça com divisórias para impedir que alguém se deite. iluminação pública projetada para afastar em vez de acolher. calçadas que parecem um campo minado para qualquer um que não tenha a agilidade de um atleta olímpico. esse tipo de design é um comentário cruel sobre quem merece existir confortavelmente e quem deve ser excluído do espaço público.
mas, quando o design é bom… ah, quando ele é bom, ele é quase invisível. é aquela maçaneta que você nem pensa antes de girar. aquele objeto que se encaixa na sua mão como se tivesse sido feito só para você. aquela cidade onde cada esquina parece te guiar com naturalidade, sem a necessidade de placas excessivas ou barreiras invisíveis. quando o design é bom, ele não te grita no rosto dizendo “olhe como eu sou inteligente”, ele simplesmente funciona. e essa, meus amigos, é a verdadeira obra-prima.
mas design bom não dá manchete, não ganha prêmio, não gera trending topic. porque ele não choca, não confunde, não obriga ninguém a perder tempo tentando entender sua existência. ele simplesmente se encaixa no mundo como se sempre tivesse estado ali. e isso incomoda os pretensiosos. porque como justificar um salário obsceno se o que você criou “só” funciona? como alimentar um ego inflado se ninguém precisa de um tutorial para usar sua obra?
e é assim que caímos nesse ciclo de aberrações. prédios que parecem ter sido projetados para alienígenas e não para humanos que precisam de sombra, fluxo de ar, lugares para sentar. produtos que custam uma fortuna porque têm um “design exclusivo”, mas que falham no único propósito para o qual foram criados. espaços públicos que não servem para as pessoas, mas para as fotos de arquitetos em revistas chiques que ninguém lê.
o problema não é a falta de criatividade, é o excesso dela em mãos erradas. é a crença equivocada de que “diferente” é sempre melhor. que tudo precisa ser reinventado, mesmo quando já funciona perfeitamente. que fazer algo parecer mais complexo do que realmente é significa genialidade, quando na verdade é só um jeito disfarçado de esconder a incompetência.
veja o metrô de uma cidade bem planejada. um labirinto de sinais claros, mapas lógicos, escadas rolantes posicionadas exatamente onde deveriam estar. e agora compare isso com uma estação mal projetada, onde cada mudança de linha exige uma caminhada de meia hora por corredores claustrofóbicos e escadas intermináveis, porque algum “gênio” achou que a estética vinha antes da praticidade.
e o que dizer dos produtos que prometem “inovação”, mas só entregam frustração? um telefone sem botões porque alguém decidiu que toque é o futuro (mesmo quando você está com as mãos molhadas e nada funciona). um carro com painel totalmente digital porque parece moderno (até que a tela trava e você perde o controle do ar-condicionado no meio do verão). uma embalagem “ecológica” que rasga no lugar errado e faz você derramar metade do conteúdo antes de conseguir abrir.
design ruim não só irrita, ele cansa. ele desgasta a paciência, suga a energia, transforma o dia a dia em um campo de batalha onde cada ação simples se torna uma luta contra a estupidez alheia. ele faz você sentir que o mundo não foi feito para você, mas para algum tipo de ser humano hipotético que nunca existiu, que não tem mãos normais, que nunca precisa encontrar um banheiro público, que nunca tentou usar um aplicativo de passagem aérea sem sentir vontade de jogar o telefone na parede.
mas o pior é que a mediocridade se espalha como praga. um designer incompetente inspira outro. um projeto mal-executado serve de referência para a próxima aberração. e de repente estamos cercados de coisas que não fazem sentido, mas que continuam existindo porque ninguém teve coragem de dizer: “isso aqui é um lixo”. porque no mundo do design, assim como na vida, o problema raramente é a falta de ideias, é a falta de bom senso.
mas fazer sentido, meu caro, é uma arte em extinção. vivemos na era do excesso, do espetáculo pelo espetáculo, do “olhem para mim, sou genial” enquanto o usuário final, aquele pobre coitado que só queria sentar em uma cadeira sem deslocar a coluna, sofre as consequências da megalomania de algum designer deslumbrado.
veja o mobiliário urbano, por exemplo. uma simples lixeira? não. tem que ser uma escultura pós-moderna que ninguém sabe como usar. um ponto de ônibus? esqueça assentos confortáveis e cobertura decente contra a chuva; o importante é que tenha um formato “instagramável”. e os banheiros públicos? melhor nem começar.
e não me venham com a desculpa da estética. estética não é o problema. o problema é a arrogância. é a crença de que beleza e funcionalidade são inimigas. é o desprezo pelo ser humano real, aquele que precisa segurar um corrimão, entender um mapa, abrir uma garrafa sem sentir que está participando de um reality show de sobrevivência.
e então temos a praga dos “redesigns”. ah, os redesigns. marcas que decidem abandonar décadas de identidade visual para se tornarem “modernas”, “minimalistas”, e acabam todas com a mesma tipografia sem graça, a mesma paleta de cores genérica, a mesma falta de alma. sites que trocam menus simples por navegações infernais baseadas em gestos que ninguém pediu. embalagens que sacrificam a praticidade pelo “conceito”.
mas há um tipo de design ainda mais nefasto: aquele que destrói sem que ninguém perceba. o design que mata a individualidade, que transforma cidades em caixas de concreto sem personalidade, que apaga a história em nome de uma falsa ideia de progresso. bairros inteiros demolidos para dar lugar a empreendimentos que parecem saídos de um catálogo de arquitetura barata. lojas, restaurantes, espaços públicos, tudo padronizado, sem identidade, sem alma.
e enquanto isso, os bons designers, aqueles que realmente entendem que design é um serviço, não uma performance, lutam contra a corrente. tentam criar coisas que fazem sentido, que respeitam quem as usa, que melhoram a vida das pessoas sem precisar de discursos vazios. mas são minoria. porque o mundo não recompensa o útil; recompensa o chamativo. o exagerado. o que grita mais alto, mesmo que não faça nada direito.
o pior de tudo? nos acostumamos. aceitamos. aprendemos a conviver com portas que abrem do jeito errado, com produtos que quebram antes do tempo, com cidades que parecem feitas para torturar seus habitantes. aceitamos o absurdo como norma. e assim, pouco a pouco, o mau design vai nos tornando menos humanos. nos forçando a nos adaptar a um mundo que deveria ter sido pensado para nós, mas que, cada vez mais, parece feito contra nós.
mas eu não desisto. porque em meio ao caos, há momentos de pura perfeição. aquele objeto que encaixa na sua mão como uma extensão do seu corpo. aquela cidade onde as ruas te guiam naturalmente. aquela tipografia que parece sussurrar ao invés de berrar. as cores de uma marca que você olha e se inspira, esse é o design que importa. esse é o design que vale a pena defender.
e se há algo que eu aprendi, é que o bom design nunca será a regra. sempre será a exceção. sempre precisará lutar contra a mediocridade, contra o ego, contra a praga do desnecessário. mas quando ele vence, quando ele aparece em um simples botão, em um banco confortável, em uma maçaneta que você gira sem pensar… ah, meu amigo, aí está a verdadeira genialidade. não aquela que pede aplausos. mas aquela que simplesmente funciona.
e encerrando esse lomgo texto (me empolgo quando sou apaixonado pelo assunto) o melhor design não pede atenção, não exige explicação, não precisa de desculpas, ele apenas existe, silencioso e perfeito, enquanto todo o resto grita para disfarçar a própria inutilidade.
olha, eu já caí nesse papo. já acreditei que o melhor equipamento é aquele que você tem no bolso, que qualquer um pode tirar uma grande foto com um celular top de linha. já ouvi gente defender que “hoje em dia, celular substitui câmera”. e eu? eu rio. rio porque isso é um grande engano moderno, um truque bem-feito de marketing para te convencer a gastar uma fortuna em um retângulo de vidro que, no fim das contas, está mais preocupado em te manter preso ao feed do que em te dar uma ferramenta de verdade para capturar o mundo.
então, vamos direto ao ponto, quer tirar fotos melhores? esquece esse papo de celular com a “melhor câmera do mercado”. para de se iludir com megapixels, com “modo noturno aprimorado por inteligência artificial”, com estabilização digital que te transforma num spielberg de bolso. isso é tudo maquiagem digital, é um fast food da imagem, pré-mastigado, embalado e entregue para consumo rápido. e o que você ganha no final? uma foto igual a milhões de outras, sem textura, sem história, sem personalidade.
agora, faz um teste. pega uma câmera de verdade. qualquer uma. uma câmera velha, uma dessas que já sobreviveu a algumas vidas, que já registrou momentos que não existem mais, que já viu mais do que qualquer celular verá em sua curta e miserável existência de dois anos antes de ser substituído pelo modelo mais novo. sente o peso dela. escuta o clique do obturador. sente o frio do metal, o tato dos botões, a resistência mecânica de algo que foi feito para durar. isso não é um brinquedinho. isso é uma ferramenta.
e é aqui que a coisa começa a ficar interessante. porque quando você fotografa com uma câmera de verdade, você tem que pensar. tem que compor. tem que entender luz, sombra, tempo, profundidade. tem que se perguntar: “o que eu quero capturar? por que essa cena importa?”. não é só levantar um celular e deixar que um algoritmo decida tudo por você. é um processo, e esse processo faz de você um fotógrafo de verdade, não só mais um apertador de botões.
e, sim, o equipamento importa. esse papo de que “só o olhar importa” vem de gente que nunca segurou nada além de um smartphone. claro que o olhar é essencial, mas sem a ferramenta certa, você só está enxergando um mundo limitado pelo que o seu celular permite capturar. uma boa câmera, por mais simples que seja, te dá controle. e controle significa liberdade. significa poder escolher exatamente como contar a sua história, sem precisar da permissão de um software programado para deixar tudo “bonitinho” e sem vida.
agora, pensa comigo, quantas fotos você já tirou com seu celular que realmente importam? não aquelas que você postou no instagram e esqueceram de curtir. não as que você mandou no grupo da família e ninguém respondeu. mas aquelas que ficaram com você, que você imprimiu, que você guardou porque tinham alma, porque capturaram algo real. poucas, né? porque celular não te força a pensar. ele te dá um clique fácil, rápido, descartável.
e é por isso que você precisa de uma câmera de verdade. não precisa ser nova, não precisa ser cara. só precisa ser feita para fazer fotos. quando você fotografa com algo assim, tudo muda. você desacelera. você observa mais. você aprende a respeitar o tempo, a luz, o momento. e quando você vê a foto pronta, percebe que ela tem algo diferente. tem textura. tem profundidade. tem intenção.
e aqui vai um segredo, fotografia de verdade não é sobre conveniência. não é sobre o que é mais prático, mais rápido, mais fácil de postar. fotografia é sobre olhar o mundo com atenção, sobre encontrar beleza no inesperado, sobre contar uma história com um clique. e um celular, por mais avançado que seja, nunca vai te dar isso da mesma forma que uma câmera pode.
então, da próxima vez que você se pegar pesquisando qual é o celular com “a melhor câmera do mercado”, para. pega esse dinheiro e compra uma câmera usada. uma que já tenha história. uma que tenha visto o mundo. e aí sai por aí e começa a fotografar de verdade. porque eu te garanto, depois disso, você nunca mais vai querer voltar.
estamos vivendo um daqueles momentos da história em que você sente que algo grande e perigoso está acontecendo, mas ninguém sabe exatamente o quê. é como estar em um restaurante onde a cozinha pegou fogo, os garçons estão bêbados, e o chef, um lunático sem noção, está gritando que tudo está sob controle enquanto joga mais óleo na frigideira. você sente o cheiro da fumaça, vê as chamas refletidas nos olhos dos outros clientes, mas ainda assim as pessoas continuam pedindo sobremesa como se nada estivesse acontecendo.
há um desconforto latente no ar, um tipo de inquietação que não dá para ignorar. o mundo está rodopiando em alta velocidade, e todo mundo finge que sabe para onde está indo. políticos fazem discursos inflamados enquanto enchem os próprios bolsos, magnatas da tecnologia brincam de deuses, e as massas, hipnotizadas pelo brilho azul de suas telas, seguem marchando alegremente para o abatedouro, tirando selfies no caminho.
eu olho ao redor e vejo uma sociedade que parece perdida entre duas realidades: uma em que fingimos que tudo vai ficar bem e outra onde sabemos, lá no fundo, que a merda está prestes a atingir o ventilador. o problema é que ninguém quer ser o primeiro a dizer isso em voz alta. é mais fácil continuar a dança, mesmo que o chão já esteja rachando debaixo dos nossos pés.
temos um planeta em colapso, uma economia construída em cima de castelos de cartas, uma cultura que premia a mediocridade, e uma geração que confunde engajamento com significado. e, mesmo assim, seguimos nos iludindo com promessas vazias de que um novo app, uma nova eleição ou um novo guru espiritual vão consertar tudo.
eu não sou profeta do apocalipse, mas me recuso a ser o idiota que acredita que essa festa vai durar para sempre. algo está prestes a acontecer. pode ser uma revolução, pode ser um desastre monumental. talvez os historiadores do futuro olhem para esse momento e digam: “foi aí que tudo começou a desmoronar.” ou talvez olhem e riam da nossa estupidez, como fazemos hoje ao lembrar das pessoas que achavam que fumar dentro do avião era uma boa ideia.
é bizarro ver como todos parecem distraídos enquanto o mundo pega fogo. estamos sentados no Titanic, discutindo sobre qual influenciador é mais autêntico, enquanto o gelo corta o casco do navio. e, claro, há sempre aqueles que insistem que o iceberg não existe ou que foi colocado ali por uma conspiração obscura.
vejo líderes que não lideram, bilionários que querem ser messias, e uma cultura que venera idiotas barulhentos enquanto ignora aqueles que realmente sabem do que estão falando. ser ignorante virou uma virtude, e a verdade se tornou apenas mais uma opção no cardápio do delírio coletivo.
não sei exatamente para onde estamos indo, mas tenho a sensação de que o futuro vai ser um lugar onde olhar para trás e dizer “avisei” não vai trazer nenhuma satisfação. estamos dobrando a esquina da história, e algo me diz que do outro lado não há um paraíso digital utópico, mas sim um grande buraco negro pronto para nos engolir.
a ironia é que, apesar de toda essa angústia existencial, continuamos vivendo nossas vidas normalmente. marcamos compromissos, reservamos voos, discutimos sobre qual série vale a pena maratonar. é quase bonito, essa insistência em manter a rotina enquanto tudo ameaça ruir. um pouco como arrumar a mesa para o jantar no meio de um terremoto.
parte de mim quer acreditar que tudo isso é apenas uma fase, que vamos sair dessa mais fortes, mais espertos, mais humanos. mas a outra parte… mais cínica, mais realists…sabe que a estupidez humana não tem limites. somos especialistas em repetir os mesmos erros, só que cada vez com mais tecnologia e mais arrogância.
se a história nos ensina alguma coisa, é que momentos como este sempre terminam de duas formas: ou com uma mudança radical que redefine tudo ou com um grande e trágico colapso. estamos na beira do precipício, e a única pergunta que importa agora é: vamos aprender a voar ou simplesmente vamos cair?
fico me perguntando o que dirão de nós no futuro. será que seremos lembrados como a civilização que teve todas as ferramentas para mudar o mundo, mas escolheu usá-las para criar dancinhas virais? ou como a geração que finalmente percebeu que estava na beira do abismo e decidiu dar um passo para trás?
a verdade é que, no fundo, ninguém sabe o que está por vir. talvez seja essa a parte mais assustadora. podemos estar no início de uma nova era ou no epílogo da nossa própria história. e enquanto tentamos descobrir, continuamos sorrindo para as câmeras, postando fotos e fingindo que tudo está normal.
talvez seja isso o que significa estar vivo agora: um grande ato de fingimento coletivo, uma comédia absurda onde todos sabemos que estamos ferrados, mas continuamos atuando como se o show nunca fosse acabar.