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2024

minha pasta

se tem uma coisa que eu aprendi é que tudo que você carrega no dia a dia precisa trabalhar para você, e não contra você. e pastas? pastas são uma extensão do seu cérebro. escolha errado e você passará o resto da vida remexendo em compartimentos inúteis, tentando lembrar onde diabos colocou seu caderno, enquanto sua alça desfia, seu zíper emperra e seu orgulho escorre pelo ralo. escolha certo e sua pasta vira uma fortaleza portátil, um cofre de ideias, um bunker pessoal onde tudo que realmente importa está protegido e acessível.

então eu fiz a única coisa sensata. mandei fazer a minha. porque não confio minha vida a qualquer pedaço de tecido vagabundo produzido em massa para algum executivo genérico que acha que carregar um laptop e um carregador o torna interessante. minha pasta foi feita para mim, sob medida, do jeito que eu queria. sem firulas, sem compromissos com tendências idiotas de design, sem nada que eu não precisasse.

o material? resistente. brutalmente resistente. nada de couro reluzente de vendedor de carro usado. nada de lona frágil que parece robusta até o primeiro contato com a realidade. minha pasta precisava sobreviver a chuva, poeira, café derramado, e aos trancos e barrancos do dia a dia. então optei por um tecido impermeável, denso, que repele água, suor, e a mediocridade das pastas genéricas por aí. algo que não rasga, não desbota e não se entrega ao primeiro sinal de atrito.

o formato? funcional, sem frescura. odeio aquelas pastas duras que fazem você parecer um advogado de quinta categoria, carregando contratos de aluguel num bloco de concreto. mas também não queria algo molenga, que se desmancha no primeiro impacto. precisava ser estruturada o suficiente para proteger o que eu carregasse, mas flexível o bastante para se adaptar ao meu dia. nada de exageros, nada de rigidez excessiva. um equilíbrio perfeito entre firmeza e praticidade.

e os bolsos? pouquíssimos. porque bolsos demais são um convite ao caos. já vi pastas que pareciam mais um labirinto de compartimentos secretos do que algo funcional. divisórias inúteis, zíperes escondidos, compartimentos para cartões, canetas, fones, carregadores e, provavelmente, um esconderijo para a sua dignidade perdida no meio de tanta tralha. não, obrigado. minha pasta tem o essencial: um compartimento principal grande o suficiente para um caderno (porque se você não anda com um caderno, sinto muito, mas você não é confiável), um bolso interno para documentos que precisam permanecer intactos e um espaço discreto para aqueles pequenos objetos que não precisam estar à vista o tempo todo.

as alças? reforçadas. não queria aquele lixo costurado às pressas, que começa a desfiar depois de alguns meses de uso. nem aquelas tiras finas que cortam seu ombro como se estivessem te punindo por ter escolhido uma pasta ruim. minha alça precisava ser firme, bem costurada, forte o bastante para carregar tudo sem drama.

e o fecho? confiável. porque já vi pastas que transformam a simples ação de abrir e fechar num exercício de frustração. zíperes que travam, botões magnéticos que não seguram nada, velcro que solta fiapos nojentos com o tempo. não. minha pasta precisava de um fecho que fechasse de verdade. sem complicações, sem joguinhos. algo que mantivesse tudo seguro, mas sem exigir um curso de engenharia toda vez que eu precisasse pegar alguma coisa.

o tamanho? suficiente para carregar o que importa, nada além disso. porque a regra é simples: quanto mais espaço você tem, mais porcaria você carrega. e eu não queria uma mala disfarçada de pasta. eu precisava de algo compacto, eficiente, que comportasse exatamente o necessário. nada de exageros, nada de excesso de bagagem emocional ou material.

a cor? discreta, sóbria, sem brilho, sem efeitos ridículos. nada que parecesse um acessório de moda, nada que gritasse “olhem para mim”. porque boas coisas não precisam chamar atenção. boas coisas falam por si mesmas.

e quando finalmente ficou pronta, quando segurei minha pasta nas mãos e senti que ela tinha sido feita exatamente do jeito que eu queria, eu soube que tinha algo raro. algo que não foi desenhado para agradar o mercado ou seguir alguma tendência imbecil. minha pasta era um manifesto contra o consumismo idiota, contra a estética vazia, contra a enxurrada de produtos genéricos criados para quebrar e serem substituídos.

porque, no fim das contas, uma pasta não é só uma pasta. é um reflexo de quem a carrega. e eu queria carregar algo que fizesse sentido. algo que não pedisse desculpas por existir. algo que aguentasse qualquer tranco, porque a vida real não tem garantia estendida.

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2024

roma em chamas

imagine-se caminhando por roma, ano 476 d.c. não aquela roma majestosa das histórias de césar e augusto, mas a roma decadente, aquela onde os aquedutos estão rachados, o senado é uma piada, e os exércitos que deveriam proteger o império agora são mercenários que vendem lealdade pelo melhor preço. os bárbaros já não precisam invadir, a cidade está se desfazendo por dentro. soa familiar? porque é exatamente onde os estados unidos estão agora. um império à beira do colapso, liderado por um ex-apresentador de reality show e um bilionário que acredita ser o novo imperador filósofo, mas que na verdade é só um nerd com um ego inflado e uma conta bancária obscena.

donald trump e elon musk, a dupla que faz nero e calígula parecerem estadistas competentes, agora comandam o espetáculo do fim do império americano. trump, com seu talento inigualável para transformar política em um circo, e musk, o magnata que acha que pode administrar um país do mesmo jeito que administra uma rede social, demitindo metade dos funcionários e substituindo todo mundo por inteligência artificial até que tudo imploda. se nero queimou roma, trump e musk estão queimando washington, mas garantindo que a fumaça tenha um bom engajamento no twitter, ops x.

roma, antes de cair, começou a cortar gastos essenciais. educação? reduzida. infraestrutura? negligenciada. segurança pública? terceirizada. e os estados unidos? exatamente o mesmo roteiro. trump e musk já começaram a desmantelar a agência dos estados unidos para o desenvolvimento internacional (usaid), porque ajudar países em crise é algo que não gera lucro imediato. roma deixou suas províncias à míngua e depois se perguntou por que ninguém queria mais lutar por ela.

e, claro, temos o toque clássico do império em queda: a concentração de poder em mãos erradas. trump, como qualquer imperador decadente, nomeou musk para chefiar um órgão criado sob medida para que o bilionário possa brincar de czar da eficiência governamental. qual foi uma das primeiras coisas que musk tentou fazer? acessar o sistema financeiro do governo, porque nada diz “democracia” como um magnata tentando colocar as mãos nas contas do tesouro nacional. um juiz federal teve que intervir para impedir que um único bilionário tivesse acesso irrestrito às finanças do país. para os romanos, essa parte da história envolvia generais corruptos saqueando o tesouro imperial. nos estados unidos, são magnatas da tecnologia tentando fazer a mesma coisa, só que com um app e um comunicado de imprensa motivacional.

enquanto isso, a economia americana, que já foi a inveja do mundo, agora se parece mais com um cassino em que só os donos da casa ganham. roma também passou por isso: enquanto o povo mal conseguia pagar por pão, os senadores banqueteavam e aumentavam seus próprios salários. nos estados unidos, os bilionários fazem viagens ao espaço enquanto a classe média tenta decidir se paga o aluguel ou compra comida. trump, para tornar tudo ainda mais interessante, resolveu brincar de protecionismo econômico, impondo tarifas comerciais a canadá, méxico e china, sem se dar conta de que destruir cadeias de suprimento globais pode ser tão eficaz quanto tentar apagar um incêndio jogando gasolina.

o resultado? caos. as ações da tesla despencaram 7%, e musk perdeu us$ 13,3 bilhões em um único dia. alguém poderia imaginar que declarar guerra econômica contra seus próprios aliados poderia ter consequências ruins? aparentemente, não. roma também tentou manipular sua economia antes de cair, desvalorizando sua moeda, confiscando propriedades e inventando impostos insustentáveis. no fim, o sistema entrou em colapso, e ninguém mais confiava no governo. exatamente para onde os estados unidos estão indo.

e o exército? ah, o exército. roma, no fim, precisou contratar mercenários porque os cidadãos já não queriam lutar por um império falido. os estados unidos estão indo pelo mesmo caminho. o patriotismo que uma vez sustentou as forças armadas está evaporando, enquanto veteranos voltam para casa e encontram um sistema que não lhes dá nada além de abandono. mas o importante, claro, é continuar financiando a máquina de guerra para que o império possa fingir que ainda é uma potência global.

e quando um império está caindo, ele precisa de bodes expiatórios. roma culpava os cristãos, os estrangeiros, os filósofos. os estados unidos culpam a china, os imigrantes, os intelectuais, os professores, os jornalistas, os artistas, os cientistas, qualquer um que tenha o péssimo hábito de apontar que o império está ruindo. trump e seus seguidores criaram um mundo onde a verdade é inimiga do estado e onde qualquer um que questione a realidade é um traidor. é exatamente assim que impérios morrem: primeiro a verdade desaparece, depois as instituições falham, e então um dia, sem que ninguém perceba, não há mais império.

e a cultura? bem, roma no seu auge tinha virgil, cícero, séneca. no seu declínio? panfletos políticos baratos e uma elite que não produzia nada além de fofocas palacianas. os estados unidos? antes tinham hemingway, fitzgerald, steinbeck. agora têm influencers vendendo pílulas para perder peso e hollywood reciclando o mesmo filme de super-herói pela milésima vez. um império que para de produzir cultura original já está morto, só não foi oficialmente declarado ainda.

e então, como isso termina? roma levou séculos para cair, mas os estados unidos parecem determinados a acelerar o processo. talvez o império se desintegre, com estados como texas e califórnia declarando independência. talvez tentem uma última guerra para distrair o público, o que sempre foi uma estratégia popular entre impérios moribundos. ou talvez simplesmente afundem em um longo e entediante colapso, onde as instituições falham uma a uma até que um dia as pessoas percebam que o império já não existe mais.

mas uma coisa é certa: o império americano não vai durar para sempre. nenhum império dura. e quando finalmente cair, não será um momento dramático e grandioso. será um colapso lento e patético, cheio de discursos vazios, de decisões estúpidas, de crises evitáveis que ninguém quis evitar. um dia, turistas irão a washington e visitarão as ruínas do capitólio, tirando selfies e se perguntando como um império tão poderoso conseguiu se destruir tão completamente.

e, assim como roma, os eua um dia serão apenas uma lembrança, uma lição para as próximas civilizações que surgirem. mas a verdade é que ninguém aprende. porque todo império acha que é eterno, até o dia em que não é mais.

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2024

vietnã

o vietnã não é para os fracos. não é para os paranoicos da higiene, os obcecados por ordem, os turistas de sandália com meia que exigem ketchup no café da manhã. o vietnã é para aqueles que entendem que a vida, a vida de verdade, acontece no meio do caos, na calçada, sob um toldo improvisado, entre buzinas, fumaça de carne grelhando e o olhar severo de uma senhora de setenta anos que julga se você é digno ou não da comida que ela está prestes a colocar na sua frente.

esse lugar tem um cheiro. e não falo do perfume patético dos shoppings de bangkok ou das calçadas limpas e desinfetadas de cingapura. o vietnã tem cheiro de caldo que borbulha há dias, de coentro rasgado na hora, de peixe seco, de gasolina misturada ao ar úmido, de suor de cozinheiro que não tira folga desde 1997. e tudo isso  absolutamente tudo, é maravilhoso. se você não entende isso, lamento, mas sua vida tem sido triste.

comer no vietnã não é apenas um ato de alimentar-se. é um ritual, um pacto silencioso entre o cozinheiro e o comensal. um pacto que diz: eu confio em você para me alimentar, e você confia em mim para comer sem frescura. porque aqui ninguém tem tempo para frescura. você se senta em um banquinho ridiculamente pequeno, suas pernas dobradas como se estivesse praticando uma sessão intensiva de ioga, e aceita o que vier. e o que vier, meu amigo, vai fazer você reconsiderar tudo o que achava que sabia sobre comida.

tome o pho, por exemplo. uma tigela de caldo translúcido e ao mesmo tempo profundo como o oceano, carregado de especiarias e fervido por horas até atingir um equilíbrio que nenhum laboratório de culinária molecular jamais poderia replicar. a carne, cortada finíssima, cozinha no próprio calor do líquido. ervas frescas, pimenta, limão, brotos de feijão, uma sinfonia na boca. e você, suando sob o calor úmido de hanói ou daigon, percebe que nunca comeu uma sopa de verdade até este momento.

e o banh mi? meu deus, o banh mi. um monumento à fusão cultural. os franceses trouxeram a baguete, claro, mas foram os vietnamitas que pegaram esse pão esnobe e o transformaram em algo que humilha qualquer sanduíche ocidental. dentro dele, uma explosão de sabor, carne marinada, patê, picles crocantes, coentro, molho picante. cada mordida é uma aula de equilíbrio. e tudo isso vendido em uma banquinha de rua por um preço que faria qualquer chef de restaurante “artesanal” chorar de inveja.

e depois tem o café. ah, o café vietnamita. ele não pede licença, não se adapta ao seu paladar acostumado a lattes aguados e cappuccinos decorados com coraçãozinhos. ele chega denso, quase sólido, pingando lentamente de um coador de metal, pousado sobre um copo com leite condensado. uma combinação brutal. doce, amargo, forte o suficiente para ressuscitar um morto. não é café para quem precisa de uma dose de energia. é café para quem quer sentir algo.

mas o vietnã não é só comida, apesar de a comida ser um argumento fortíssimo para nunca mais sair de lá. o vietnã é um país que te engole inteiro, mastiga e te cospe de volta para o mundo um pouco mais sujo, um pouco mais suado, e infinitamente mais vivo.

porque lá, a vida acontece de verdade. não tem essa palhaçada de urbanismo gourmet, de cidade feita para quem quer fingir que é cosmopolita enquanto vive dentro de um condomínio-clube com “área instagramável”. o vietnã é cru, é barulhento, é intenso. é um país onde o tráfego desafia qualquer lógica, onde atravessar a rua é um ato de fé, onde motos carregam cargas que qualquer engenheiro diria ser impossível e, ainda assim, ninguém morre. ou pelo menos não o suficiente para desacelerar o fluxo. é o tipo de lugar onde a humanidade ainda tem aquele cheiro de humanidade, suor, óleo de motor, especiarias e carvão queimando.

e a história? você sente ela em cada parede marcada por balas, em cada museu com fotografias que não pedem sua permissão para te mostrar o que o mundo fez com esse país e o que esse país fez com o mundo de volta. os franceses tentaram colonizar o vietnã e saíram chutados. os americanos tentaram “libertar” o vietnã e foram mandados para casa carregando seus mortos, traumatizados, humilhados. o vietnã não se curva para ninguém. você sente esse orgulho em cada esquina, em cada rosto. um orgulho feroz, um orgulho que diz “tentaram nos apagar, mas estamos aqui, e estamos com fome”.

e, meu amigo, isso se reflete na forma como eles vivem. há uma energia ali, um ritmo próprio que não pode ser ensinado em guias turísticos. não existe um “melhor lugar para se visitar no vietnã”, porque o melhor lugar é simplesmente estar lá, se perder, sentar numa praça qualquer e assistir a vida acontecer. um grupo de velhos jogando xadrez vietnamita e bebendo chá forte o bastante para dissolver ferro. crianças correndo sem que ninguém esteja desesperado atrás delas com álcool gel. um barbeiro cortando cabelo no meio da rua, entre um poste de luz e uma motocicleta estacionada.

e então vem a noite. e a noite no vietnã não é feita para quem dorme cedo. as ruas não esvaziam, elas mudam de dono. as barraquinhas de comida ganham um brilho diferente, as lanternas nas vielas transformam cada beco em um cartão-postal, os bares explodem em vida. e se você estiver em hanói, vai acabar bebendo bia hoi, a cerveja mais fresca, mais barata e mais democrática do planeta. servida em copos pequenos, fabricada no dia e consumida até acabar… e sempre acaba. ao seu redor, moradores locais, mochileiros, expatriados, todos compartilhando o mesmo espaço, a mesma bebida, o mesmo pedaço de noite.

e se você for mais fundo, se for além do óbvio, vai encontrar o vietnã que poucos veem. as montanhas enevoadas de sapa, onde tribos locais te recebem sem pose de atração turística. os templos esquecidos na selva, cobertos de musgo, desafiando a passagem do tempo. as praias de areia dourada que fariam qualquer resort caribenho parecer um shopping center lotado.

mas o verdadeiro segredo do vietnã não está em um único lugar. está na forma como ele te faz sentir. porque depois de uns dias ali, você percebe que está diferente. seu paladar mudou, seus olhos enxergam cores mais vibrantes, seu nariz reconhece cheiros que antes passavam despercebidos. você se acostuma a viver sem tanta frescura, sem tanta precaução. percebe que o mundo não precisa ser um lugar asséptico para ser incrível. percebe que há beleza no improviso, no inesperado, no caos organizado de uma cidade onde motos e bicicletas se movem como um enxame de abelhas, cada um sabendo exatamente seu lugar na desordem.

e então chega a hora de ir embora. mas algo dentro de você resiste. porque o vietnã tem esse efeito, ele te pega pela alma e te lembra do que é estar vivo. e quando você volta para sua cidade limpa, silenciosa, eficiente e completamente sem alma, percebe que algo ficou para trás. algo que talvez você nunca mais encontre.

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2024

eu não vou trocar de celular

quando comprei esse celular, não foi um evento transcendental. não teve fogos de artifício, não teve coral cantando aleluia, não teve um orgasmo tecnológico como os anúncios querem te fazer acreditar. foi só mais um pedaço de vidro e metal entrando na minha vida, pronto para cumprir seu papel sem alarde. ele desbloqueava na hora, os aplicativos rodavam sem engasgar, a bateria durava o suficiente para me manter funcional. ótimo. ponto final. vida que segue. mas agora? agora todo mundo quer me convencer de que já passou da hora de trocar. que tem um modelo novo, revolucionário, imperdível, com uma câmera que vê através da sua alma e um processador que pode prever o apocalipse.

mas eu? eu não caio nessa.

porque eu já vi esse truque antes. o ciclo da obsolescência programada é tão previsível quanto uma ressaca depois de uma noite de más decisões. primeiro, eles te seduzem com promessas vazias: “agora com IA mais inteligente!” “câmera profissional digna de hollywood!” “bateria que dura 72 horas!” e antes que você perceba, lá está você, com o cartão de crédito na mão, pronto para jogar fora um celular que ainda funciona perfeitamente porque algum CEO precisa bater a meta do trimestre.

mas não eu. eu não quero um celular que me diga o que pensar. não preciso de um algoritmo escrevendo por mim, “aprendendo o meu estilo” e me transformando em uma versão pasteurizada de mim mesmo. eu quero digitar. quero errar. quero escrever um palavrão e decidir se deixo ou não. não quero uma IA me sugerindo palavras como se fosse um professor particular invisível tentando me moldar para agradar um público-alvo genérico.

e sobre essa história de câmera? por favor. eu sou fotógrafo e quando quero uma foto boa, uso minha câmera. inclusive se você busca por fotos descentes, qualquer câmera com 10 anos de uso registra melhores imagens do que o último smartphone do momento. quando estou com meu celular, não estou registrando a próxima capa da national geographic, não estou competindo por um prêmio de fotografia. eu só quero tirar uma foto para lembrar que estive lá. e sabe do que mais? se a foto saiu tremida, tudo bem. se a iluminação não ficou perfeita, dane-se. a vida real é assim. cheia de imperfeições, sombras, ângulos errados, momentos autênticos. não preciso que meu celular transforme um jantar qualquer em uma cena de comercial de restaurante gourmet.

e a bateria? ah, sim, a famosa “bateria de longa duração”. sabe o que acontece quando seu celular dura dois dias sem carregar? você usa mais. e mais. e mais. até esquecer que existe um mundo do lado de fora da tela. eu não quero isso. quero que a bateria acabe. quero que meu celular morra no meio do dia e me force a levantar a cabeça, olhar ao redor, perceber que há uma vida acontecendo fora desse retângulo luminoso. porque se tem uma coisa que aprendi é que o mundo real tem gráficos melhores e não precisa de atualização.

daqui a alguns anos, esse celular vai começar a falhar. aplicativos rodando com a agilidade de um funcionário que já pediu demissão. botões respondendo como se tivessem um leve desprezo por mim. e eu? eu vou continuar usando. porque enquanto ele ainda puder me conectar, me permitir escrever, me lembrar de compromissos que eu provavelmente vou ignorar, ele ainda serve.

e um dia, quando ele finalmente morrer, não será porque a apple ou a samsung decidiram que ele está ultrapassado. será porque ele lutou bravamente até o fim. e eu estarei lá, segurando seu corpo frio, sabendo que, até o último segundo, ele me serviu bem, e que eu nunca fui otário o suficiente para jogar dinheiro em um pedaço de vidro novo só porque uma campanha de marketing me disse que eu deveria.

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2024

precisamos conversar

precisamos conversar. sobre algo que ninguém tem coragem de admitir porque, se admitisse, teria que lidar com a consequência devastadora de perceber que talvez nada em si mesmo seja realmente autêntico. teria que olhar no espelho e encarar a possibilidade de que, ao longo dos anos, foi se tornando apenas uma cópia reciclada de outras pessoas. um remix de influências, um eco de vozes alheias, um frankenstein cultural montado a partir de pedaços roubados de gente que, por algum motivo, você admirou, invejou ou simplesmente quis impressionar.

não precisa se ofender. não é só você. na verdade, essa talvez seja a condição natural do ser humano: absorver, imitar, regurgitar. ninguém nasce com identidade própria. desde o primeiro dia, somos moldados pelo olhar dos outros, pelo que nos dizem que é certo, bonito, desejável. aprendemos o que é engraçado com alguém que riu antes de nós. adotamos gostos musicais porque, em algum momento, quisemos pertencer a um grupo. desenvolvemos opiniões não porque paramos para pensar de verdade, mas porque lemos ou ouvimos alguém articulá-las primeiro e pensamos: “é, isso faz sentido.” pronto. mais um tijolo no edifício da personalidade emprestada que chamamos de “eu”.

mas chega um momento em que a máscara começa a rachar. porque, no fundo, algo sempre parece um pouco… errado. uma desconexão. uma sensação incômoda de que, por mais que você tente, nunca se sente completamente confortável dentro da própria pele. e então você compensa. busca distrações, mergulha em entretenimento constante, se cerca de barulho para não ter que encarar o silêncio aterrorizante da pergunta: o que em mim ainda é realmente meu?

você já se perguntou isso? alguma vez na vida? já parou para pensar no quanto das suas preferências, opiniões, até seus trejeitos, são realmente espontâneos e não apenas um reflexo bem ensaiado do ambiente ao seu redor? já considerou a possibilidade de que, ao invés de ser um indivíduo único e original, você pode ser apenas um produto do que consumiu, das pessoas com quem conviveu, das tendências que, consciente ou inconscientemente, seguiu?

e o mais cruel é que o mundo moderno transformou isso em um processo automático. antes, você precisava ao menos conviver fisicamente com alguém para começar a absorver seus maneirismos. agora? um algoritmo faz o trabalho para você. ele sabe exatamente o que te mostrar, como moldar suas reações, como alimentar sua indignação, seu desejo, sua nostalgia. você se acha esperto, acha que tem controle sobre suas escolhas, mas seu feed já decidiu por você. seu humor da manhã foi ditado pelo primeiro post que apareceu quando você desbloqueou o celular. sua lista de interesses? ajustada diariamente, sem que você perceba.

e o pior? você gosta disso. gosta porque é confortável. porque ser autêntico de verdade daria um trabalho desgraçado. porque exigir autonomia sobre seus pensamentos e gostos implicaria em questionar tudo o que te trouxe até aqui. e ninguém quer esse nível de desconstrução. é muito mais fácil continuar nesse fluxo previsível, nesse teatro de individualidade onde todo mundo soa mais ou menos igual, pensa mais ou menos igual, se revolta com as mesmas coisas, ri das mesmas piadas, deseja as mesmas experiências.

mas se nada disso te assusta, então talvez já seja tarde demais. talvez o processo já tenha se completado. talvez não exista mais “você”, apenas um compilado eficiente de tendências e influências, um reflexo de tudo ao seu redor, mas sem nenhum resquício real do que, um dia, poderia ter sido uma identidade própria.

então, me diz, agora com sinceridade: o que sobrou em você que ainda é só seu?

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2024

a queda

estamos assistindo à queda do império romano em tempo real, mas agora em 4k, em velocidade 2x, com memes, teorias da conspiração e discursos incoerentes transmitidos ao vivo. um império que se acreditava eterno, agora tropeçando nos próprios excessos, com líderes que mais parecem personagens de uma sátira política ruim. e o melhor de tudo? ninguém admite que estamos no meio do colapso. pelo contrário, continuamos fingindo que tudo está normal, como aquele cara no meio de um incêndio dizendo “this is fine”. só que não está. nunca esteve.

os romanos também achavam que sua grandeza era inabalável. por séculos, governaram o mundo conhecido, esmagaram inimigos, ergueram monumentos e se convenceram de que estavam no topo da cadeia alimentar da história. e estavam, até que deixaram de estar. foi um processo lento, feio, burocrático. imperadores que enlouqueciam no poder, que se trancavam em palácios enquanto as ruas se enchiam de violência e desordem. generais que travavam guerras mais por ego do que por estratégia, desperdiçando recursos que já não tinham. senadores que só se importavam com seus próprios bolsos, enquanto as províncias queimavam. qualquer semelhança com os dias de hoje não é mera coincidência.

pense em calígula, o imperador que nomeou seu cavalo como senador e se achava um deus. ou em nero, que queimou roma e depois culpou os cristãos, enquanto encenava sua própria grandeza num teatro particular. não precisa ir muito longe para encontrar equivalentes modernos. líderes que, em vez de governar, fazem shows particulares, transformam a política em circo, falam sozinhos no espelho e, quando tudo dá errado, jogam a culpa nos outros. antes eram os bárbaros, os traidores, os cristãos. hoje são as fake news, os inimigos invisíveis, a mídia malvada. o roteiro é o mesmo, só trocaram as togas por ternos mal cortados e os pergaminhos por postagens ensandecidas na internet.

e, enquanto isso, o povo? ah, o povo continua entretido. os romanos tinham seus espetáculos de gladiadores; nós temos teorias conspiratórias, redes sociais e brigas inúteis para nos distrair do fato óbvio: o império está caindo, e ninguém quer admitir. enquanto uns assistem, outros se recusam a aceitar a realidade. há quem jure de pé junto que ainda somos grandiosos, que a civilização não pode ruir porque “isso nunca aconteceria aqui”. os romanos também pensaram assim. até que um dia acordaram e perceberam que não mandavam mais em nada.

o que sobrou do império romano? ruínas, poeira, histórias sobre como tudo era glorioso até que deixou de ser. mas, enquanto eles tinham desculpas… pragas, invasões, corrupção desenfreada, qual é a nossa? estamos caindo não porque fomos derrotados, mas porque escolhemos a insanidade coletiva como método de governo. estamos no fim do ato, e o protagonista está ensaiando seu último surto. a única questão agora é se vamos continuar assistindo de camarote ou se alguém vai finalmente levantar e apagar as luzes.

mas ninguém vai apagar as luzes. claro que não. as luzes são a melhor parte do show. é o brilho hipnótico da decadência transmitida ao vivo, 24 horas por dia, com comentaristas analisando cada detalhe, como se ainda houvesse algo a salvar. os romanos tinham seus filósofos, velhos barbudos sentados em praças, debatendo a virtude e o destino da humanidade. nós temos analistas de notícias, twitteiros raivosos e gente que confunde opinião com fato. discutimos cada absurdo, cada discurso sem sentido, como se fosse um código secreto para decifrar o futuro, ignorando o óbvio: o futuro já chegou, e ele é um lixão pegando fogo.

e os líderes? bem, os romanos tinham seus imperadores lunáticos. nós temos… bem, vocês sabem. a diferença é que, naquela época, um imperador precisava ao menos fingir que sabia o que estava fazendo. hoje, basta ter seguidores, repetir palavras vazias e agir como se a realidade fosse um detalhe inconveniente. antes, um imperador demonstrava força liderando exércitos. agora, basta um microfone e um delírio convincente. nero tocava lira enquanto roma queimava; hoje, a lira foi substituída por discursos incoerentes, vídeos editados de forma patética e promessas grandiosas que nunca se concretizam. e assim seguimos, fingindo que estamos bem, enquanto os pilares do império tremem e racham.

no fim de roma, o senado já não tinha poder real. eram figurantes, aplaudindo e balançando a cabeça enquanto o império desmoronava. decisões importantes eram tomadas por gente incompetente, escolhida não pela capacidade de governar, mas pela lealdade cega ao homem no topo. alguém discorda? alguém ainda acha que estamos longe disso?

e o povo? os romanos esperavam que o estado os alimentasse e os distraísse. queriam pão e circo. quando o pão ficou escasso e o circo virou um teatro ridículo, começaram os tumultos. e nós? o que queremos? queremos narrativas que nos confortem, vilões fáceis para culpar, distrações intermináveis para não encarar o fato de que estamos dentro de um castelo de cartas prestes a desabar. não queremos mudanças, queremos que nos digam que tudo vai ficar bem. queremos acreditar que a glória pode ser restaurada, que os dias de grandeza voltarão, que basta confiar nos líderes certos, na história certa, no milagre certo.

mas os milagres nunca vêm. roma nunca se reergueu. transformou-se em ruínas para turistas, em lembranças de um tempo em que achava que governaria o mundo para sempre. e nós? achamos que somos diferentes. achamos que temos controle, que sabemos para onde tudo está indo. mas a verdade é que estamos só assistindo, hipnotizados, enquanto o império arde. e, quando tudo acabar, talvez reste apenas um punhado de intelectuais escrevendo sobre como não vimos os sinais, como ignoramos as lições da história. talvez sejamos apenas mais um capítulo na longa lista de civilizações que pensaram que eram invencíveis, até que não eram mais.

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2024

vibracionalmente seletivo

não sou antissocial. não sou um monge recluso vivendo no topo de uma montanha, recusando contato humano e comendo raízes. gosto de gente, pelo menos de alguns espécimes específicos. sou vibracionalmente seletivo, o que é uma forma educada de dizer que certas pessoas simplesmente fazem meu sistema nervoso querer puxar o plugue e reiniciar. e percebo isso da maneira mais brutal possível quando aceito ir a eventos e palestras, porque é lá que o grande zoológico da energia humana se revela em toda a sua glória caótica.

tudo começa bem. chego disposto, mente aberta, pronto para interagir. mas assim que atravesso a porta, meu corpo inteiro já começa a captar sinais invisíveis. microvibrações. frequências. tem gente que entra num ambiente e a energia muda… e não de um jeito positivo. o ar fica mais denso, a atmosfera carregada, como se umidade mental estivesse se acumulando nas paredes. são aqueles cuja presença suga vitalidade, os buracos negros energéticos. você pode não estar nem falando com eles, mas já sente um cansaço inexplicável, um peso invisível. e pensa: “por que diabos eu vim?”

aí tem os outros, os histéricos vibracionais. gente que opera numa frequência tão alta e frenética que parece um alarme de carro disparado sem motivo. chegam falando alto demais, rindo demais, movendo-se rápido demais, como se fossem foguetes desgovernados prestes a colidir. energia dispersa, sem foco, sem direção. interagir com eles é como tentar tomar um café tranquilo numa cafeteria enquanto um furacão de quinta categoria arrasta mesas e cadeiras ao seu redor. você não está conversando com eles. está sobrevivendo a eles.

e, claro, há os que não têm energia nenhuma. mortos vivos sociais. gente que está ali, mas cuja presença é tão fraca, tão ausente, que chega a ser perturbadora. trocam algumas palavras com você e, em minutos, sente como se estivesse conversando com um fantasma, não porque sejam misteriosos ou profundos, mas porque simplesmente não têm nenhuma vibração detectável. são o equivalente humano de um pão de forma amanhecido.

e então eu percebo. percebo que não sou eu. não sou deslocado, não sou antissocial. sou apenas alguém cujo radar vibracional está bem calibrado, e que aprendeu a respeitar quando algo não bate certo. porque energia não mente. palavras mentem, sorrisos mentem, intenções mentem, mas a vibração de uma pessoa é um atestado de autenticidade ou um aviso de perigo iminente. e se minha frequência não encaixa, eu não forço. não por arrogância, não por prepotência, mas por pura questão de sobrevivência mental.

mas então, no meio desse caos vibracional, no meio dos vampiros de energia, dos histéricos de plantão e dos mortos-vivos emocionais, às vezes, só às vezes, acontece um milagre. você sente. antes mesmo de ver, antes mesmo de ouvir, você sente. uma mudança sutil no ar. uma frequência que não agride, que não suga, que não pesa. uma energia que se move como uma brisa fresca depois de um dia abafado e pegajoso.

essas são as pessoas que me fazem lembrar por que, afinal, eu ainda me dou ao trabalho de sair de casa.

elas não chegam atropelando o ambiente com um frenesi de ansiedade mal resolvida, nem se fazem de coitadinhas, sugando sua paciência como se fosse um tanque de gasolina. elas têm presença. não aquela presença forçada, calculada, ensaiada no espelho para impressionar. mas uma presença que vem de dentro, da segurança de ser quem são, sem precisar gritar isso para o mundo a cada cinco minutos.

não há aquela pressa insuportável de falar a próxima coisa, de preencher cada espaço com barulho. o silêncio não é constrangedor, é confortável. não há disputa, não há jogo, não há aquela luta invisível para ver quem tem a última palavra. há espaço. espaço para ser. para existir. para trocar.

e não importa o assunto. pode ser sobre viagens, comida, cinema, filosofia, ou simplesmente sobre o café que estão bebendo. porque não é o que se fala, é o que se sente. a energia dessas pessoas é nutritiva. você sai da conversa melhor do que entrou.

e é por isso que sou vibracionalmente seletivo. porque já provei o gosto de interações reais, autênticas, carregadas de presença e verdade. e depois disso, fica impossível aceitar menos. não se trata de esnobismo, nem de arrogância, nem de se achar superior. trata-se de saber a diferença entre alimentar a alma e apenas matar o tempo.

e eu não tenho tempo a perder.

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2024

mudaram a máquina do café

mudaram a máquina de café da minha academia. um dia, eu entro lá, meio zumbi, pronto para aquele gole preto e amargo que me acordava como um tapa na cara, e dou de cara com um monstro prateado, cheio de botões sensíveis ao toque e uma tela digital que parece uma nave espacial pilotada por um barista sem alma. progresso, disseram. inovação, garantiram. só que agora o café tem gosto de decepção. morno, insosso, aguado. um líquido covarde, sem aquele sabor robusto, meio queimado, meio errado, que fazia parecer que eu estava prestes a lutar pela minha vida em vez de apenas fazer agachamento.

mas o café é só um sintoma da praga maior: essa obsessão moderna de mudar tudo o que funciona só para parecer mais esperto. não basta servir um bom café, tem que ser “uma experiência sensorial digitalmente otimizada”. não basta um cardápio de papel, tem que ser um qr code que te obriga a acessar um site bugado onde cada toque na tela te faz querer esfaquear alguém com um garfo de plástico. e não basta um restaurante que simplesmente serve comida boa, ele precisa ter um “conceito” que geralmente significa menos comida, mais adjetivos pretensiosos e um preço que te faz reconsiderar suas escolhas de vida.

e tudo sempre em nome da “facilidade”. claro. como quando os supermercados decidiram que o autoatendimento seria “mais rápido”. mais rápido para quem? porque da última vez que tentei usar aquela porcaria, a máquina me acusou de roubo porque eu coloquei a banana na sacola antes dela dar permissão. aí vem um funcionário com cara de tédio, insere um código secreto digno da cia, e eu sou lembrado mais uma vez de que eu deveria apenas aceitar a fila do caixa e desistir dessa ilusão de independência.

mas a pior parte? ninguém questiona. todo mundo apenas aceita. é como se estivéssemos presos num culto tecnológico onde cada nova atualização nos afasta um pouco mais da sanidade. tudo tem que ser conectado, integrado, otimizado, o que significa, na prática, que nada mais pode simplesmente funcionar. e se você ousa dizer que gostava mais de como as coisas eram antes? parabéns, agora você é um velho rabugento que “não entende o futuro”.

mas eu não sou contra o futuro. eu sou contra a estupidez. sou contra essa necessidade neurótica de destruir o que é bom só para parecer inovador. porque no fim do dia, tudo isso não passa de um grande teatro para justificar que você gaste mais tempo, mais paciência e mais dinheiro para obter algo pior.

ou talvez eu só esteja ficando velho.

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2024

seja um tolo

o mundo enlouqueceu. e não foi aos poucos, não. não teve aviso, não teve gradualismo. um dia acordamos e tudo ao nosso redor era um imenso hospício sem supervisão médica. as pessoas gritam, berram, digitam em letras garrafais, passam o dia indignadas com algo que viram em um vídeo de 15 segundos, conspiram, ameaçam, perdem amizades por conta de políticos que nem sabem que elas existem. cada esquina, cada feed de rede social, cada mesa de bar se tornou uma trincheira. todos têm uma opinião. e, pior, todos têm certeza absoluta de que estão certos.

sabe o que acontece quando todo mundo tem certeza? ninguém ouve ninguém. e aí estamos nós, num grande jogo de “quem berra mais alto”, onde o prêmio é absolutamente nada além de uma úlcera e um ódio irracional por pessoas que, na prática, são tão perdidas quanto você.

então me diz: qual é a alternativa? entrar nessa guerra insana? se transformar num desses bonecos histéricos que acordam já prontos para brigar? virar um papagaio de meia dúzia de frases prontas que você nem sabe se acredita de verdade? ou, e aqui está a única escolha que faz sentido, dizer “foda-se” e ser um tolo?

ser um tolo, hoje, não é mais só um ato de rebeldia. é um mecanismo de defesa. porque se você não for um tolo, se não rir da loucura, se não se jogar no caos com um mínimo de desprendimento, você vai ser engolido por essa máquina de insanidade coletiva. vai virar mais um zumbi amargurado, vagando por aí de cara fechada, pronto para tretar com qualquer um que ouse discordar de você.

e eu? prefiro estar do lado de fora. prefiro errar, tropeçar, provar comidas estranhas, rir de piadas inapropriadas, beber com desconhecidos, me perder em cidades onde ninguém sabe meu nome. prefiro ser alguém que, no meio desse apocalipse de gente raivosa e polarizada, ainda consegue se divertir.

porque olha ao seu redor: todo mundo está cansado. todo mundo parece exausto de existir. tem gente que passa horas brigando na internet por coisas que não mudam nada, enquanto a vida real acontece lá fora, desperdiçada. tem gente que acorda, abre o celular e já começa a responder ofensas, como se estivesse num campo de batalha imaginário onde “ganhar a discussão” fosse um troféu digno de orgulho. e no fim? no fim, ninguém convence ninguém de porra nenhuma. só sobra um rastro de frustração e ressentimento.

então, vou te dizer: seja um tolo. o mundo está queimando, e a melhor coisa que você pode fazer é dançar em volta da fogueira, rir alto demais, gastar seu tempo com prazeres genuínos em vez de preocupações fabricadas. coma o que te der vontade sem consultar tabela nutricional, fale besteira sem medo de cancelamento, experimente viver sem pedir permissão.

e enquanto esses guerreiros do teclado passam os dias e as noites cuspindo ódio, convencidos de que estão travando uma guerra nobre, o que realmente acontece? a vida segue. indiferente. enquanto eles discutem a validade de opiniões irrelevantes, o tempo escorre pelos dedos como areia numa ampulheta furada. e, quando finalmente perceberem, será tarde demais. terão passado uma vida inteira construindo trincheiras imaginárias, colecionando desafetos que nunca conhecerão pessoalmente, vencendo batalhas que ninguém nunca reconheceu.

e aí vem a grande pergunta: e você? vai se juntar ao coro dos desesperados ou vai rir na cara desse caos todo? vai passar seus dias planejando respostas afiadas para discussões inúteis ou vai encher o copo, brindar ao absurdo e seguir em frente? porque, sejamos honestos, nada disso faz sentido. sempre estivemos à beira do colapso, só que agora temos wi-fi para transmitir tudo ao vivo. então, a única escolha racional é ser irracional. é ser um tolo.

ser um tolo significa recusar essa falsa seriedade, essa pretensão de que tudo precisa ser profundo, relevante, impactante. não precisa. às vezes, tudo que você precisa é de um sanduíche absurdamente gorduroso às três da manhã.

ninguém lembra do dia em que fez tudo certo. ninguém conta com entusiasmo sobre aquela noite em que foi dormir cedo e acordou revigorado para um dia produtivo. ninguém dá risada relembrando a vez em que evitou riscos e tomou todas as decisões certas. as histórias que valem a pena são as que envolvem caos, erro, surpresa. aquela vez que tudo deu errado e, de alguma forma, deu certo. aquele situação inesperada que mudou sua rota. aquela aposta idiota que rendeu uma lembrança inesquecível.

então, sim, o mundo enlouqueceu. mas ele sempre foi louco. a diferença é que agora a insanidade é transmitida em alta definição para qualquer um assistir. e, já que não há escapatória, só resta a decisão: você vai se perder nesse teatro de horrores ou vai abrir outra cerveja e aproveitar o show? você vai entrar de cabeça na histeria ou vai ser um tolo glorioso, abraçando o erro, o improviso, o prazer momentâneo?

eu já fiz minha escolha. e garanto: ser um tolo é o único caminho que ainda faz sentido.

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2024

apocalypse now

não é um filme. é um colapso nervoso registrado em celuloide. uma experiência sensorial que deveria vir com um aviso: “isso pode te transformar numa pessoa pior, ou melhor, ou simplesmente te fazer perceber que não há diferença entre as duas coisas.” não tem fórmula, não tem estrutura clássica, não tem um fio de esperança no final do túnel. só tem fumaça, sangue, suor, insanidade e a lenta, inexorável aceitação de que o mundo é um lugar sem sentido e que o caos não é um erro, é a regra.

e então coppola, o lunático genial, decide filmar não um épico de guerra, mas a própria guerra. esse não foi um filme feito por um diretor, mas por um profeta insano em meio a uma visão apocalíptica, queimando milhões de dólares, destruindo a própria sanidade e a de todos à sua volta para criar algo que não poderia existir de outra forma. um inferno filmado em tempo real, onde as linhas entre atuação e realidade se dissolvem como corpos na lama. um projeto que deveria ter durado seis meses, mas se arrastou por três anos, consumindo carreiras, destruindo vidas e gerando um monstro cinematográfico que jamais será domesticado.

e os atores? você pode chamar de elenco, mas eu prefiro chamar de vítimas. marlon brando, inchado como um imperador romano decadente, aparecendo no set sem saber as falas, sem dar a mínima para o roteiro, improvisando falas que se tornariam história. brando, uma força da natureza, uma entidade colossal, murmurando suas reflexões sobre o horror com a convicção de um homem que já viu tudo e sabe que nada mais importa. coppola o filmou em sombras, porque seu corpo já não combinava com a lenda, mas sua presença ainda esmagava tudo ao redor.

martin sheen, o protagonista mais relutante da história, afundado até o pescoço num papel que começou a devorar sua própria alma. ele não estava atuando, ele estava desmoronando diante das câmeras. sofreu um ataque cardíaco no meio das filmagens, e ninguém percebeu, porque sua dor já parecia parte do roteiro. um homem que começa o filme afundado na bebida e termina afundado em sangue, cumprindo um destino que ele nunca pediu.

e então tem dennis hopper, o poeta lunático, um amontoado de drogas ambulante que provavelmente não sabia onde terminava a atuação e começava a vida real. seus olhos arregalados não eram atuação. seu discurso fragmentado, sua energia elétrica, tudo isso era ele de verdade. coppola não dirigiu hopper, apenas ligou a câmera e deixou ele se perder.

mas nada, nada te prepara para robert duvall. ele não é só um coronel lunático, ele é a guerra em carne e osso. “adoro o cheiro de napalm pela manhã”, ele diz, com um sorriso no rosto, enquanto corpos queimam ao fundo. porque é isso que a guerra faz com você: transforma matança em poesia, caos em entretenimento, destruição em rotina. duvall, peito estufado, sem medo, caminhando no meio das explosões como se estivesse numa praia paradisíaca. ele não é um vilão, porque este filme não tem heróis ou vilões, só pessoas que aceitaram que a loucura é o único caminho possível.

e se tudo isso ainda não te convenceu de que “apocalypse now” é uma obra-prima forjada no fogo do inferno, então vamos falar da trilha sonora. porque coppola não faz nada pela metade. ele abre o filme com “the end”, dos doors, te arrastando direto para a escuridão. guitarras distorcidas, jim morrison murmurando como um xamã profano, enquanto palmeiras explodem em chamas. e pronto: você já está lá. não tem volta.

e a cena final? willard encontrando kurtz. um confronto sem tiros, sem explosões, sem batalhas heroicas. só duas almas quebradas num templo decadente, cercadas por sombras e loucura. e a morte de kurtz? lenta, ritualística, cortada com imagens de um boi sendo sacrificado. porque coppola quer deixar claro que isso não é só um filme. é um massacre. um rito de passagem. uma descida ao inferno que ninguém sai ileso.

coppola quase enlouqueceu, quase morreu, quase destruiu tudo para fazer esse filme. e valeu cada segundo. porque nunca mais veremos algo assim. hoje, hollywood tem medo. medo de filmes que desafiam, que incomodam, que não te seguram pela mão e te dizem o que sentir. querem te dar finais felizes, respostas fáceis, heróis simpáticos e vilões unidimensionais. querem que você esqueça o horror.

mas o horror nunca esquece de você.